Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido estão mais vivos do que nunca, apesar dos esforços da Idiocracia, da Cruzada por um Brasil Medieval dos Bolsominions e da seita “Escola Sem Partido”

Um dos maiores intelectuais latino-americanos do século 20, o criador da Pedagogia do Oprimido e Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire (1941 – 1997) poderia dizer, na esteira de Isaac Newton: “se eu vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes“. O que poucos sabem é que o educador pernambucano subiu nos ombros de gigantes do pensamento africano e de-colonial como Franz Fanon, Amílcar Cabral e Albert Memmi.

Estes mestres da libertação contra as opressões coloniais, que tanto inspiraram a práxis Freireana, têm obras cruciais que o leitor brasileiro tem cada vez mais oportunidade de conhecer a fundo através de importantes livros publicados por aqui: a exemplo de Pele Negra, Máscaras Brancas (FANON, Ed. UFBA), Amílcar Cabral e a crítica ao colonialismo (VILLEN, Ed. Expressão Popular)Retrato do Colonizador precedido de Retrato do Colonizado (MEMMI, Ed. Paz e Terra).

Nascido na Tunísia em 1920, Albert Memmi compartilha com seu xará argelino, o Albert Camus, outros elementos além do enraizamento em um país do Norte da África banhado pelo Mediterrâneo. Memmi e Camus também compartilham uma versatilidade de escrita notável: ambos aventuraram-se tanto na literatura (A Estátua de Sal é o romance mais conhecido de Memmi, e sabe-se que Camus venceu o Prêmio Nobel de Literatura por vasta obra em que se destacam O Estrangeiro e A Peste) quanto em escritos ensaísticos sobre ética, filosofia, política, relações internacionais, guerra e paz, dentre outros temas candentes.

Além disso, ao irromperem no cenário literário francês do século 20, figuras como Camus e Memmi trouxeram para o epicentro da discussão pública as questões candentes do imperialismo e do colonialismo, enxergados por um viés crítico que explicitava as proveniências africanas de ambos (um, da Argélia, outro da Tunísia), com forte presença também da escola-de-pensamento (e de vida) que viria a ser conhecida como Existencialismo.

Cá no Brasil e atravessando seus muitos exílios, Paulo Freire tomou aprofundado contato com os existencialistas, tendo sido também impactado enormemente pela figura grandiosa, no cenário intelectual do século, de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Freire compartilha com todos estes autores um interesse pelo estudo e pela decifração das relações sociais de opressão imperial, um estudo todo atravessado pela ética freireana, comprometida com a nossa libertação coletiva das garras da Opressão.

O ensinamento central de Freire é que a opressão desumaniza tanto os oprimidos quanto os opressores. A opressão é péssima para ambos. Os opressores, ao impedirem e sabotarem os ímpetos de transformação social liderados pelos oprimidos em seu processo de partejar uma realidade menos desumana, agem contra seus próprios melhores interesses: a conservação da opressão, na verdade, não interessa nem mesmo aos opressores pois os desumaniza e os enche de uma culpa dificilmente lavável.

“A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como ‘seres para si’, esta luta pela humanização somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas sim resultado de uma ‘ordem’ injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser-menos. (…) O ser-menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sintam opressores, nem se tornem, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertar-se a si mesmos e aos opressores. (…) Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos.” – PAULO FREIRE, Pedagogia do Oprimido

“Se a colonização destrói o colonizado, ela apodrece o colonizador”, escreve Memmi (p. 22). Neste livro impressionante em que pinta retratos de colonizados e colonizadores, subdividindo cada grupo em certos subtipos, Memmi explorou o tema da opressão colonial de maneira muito próxima àquela que marcará a visada Freireana. Ambos enxergam a realidade socialmente construída do Sistema Colonial como “organização da injustiça”, e Memmi nos pede que imaginemos alguém recém-desembarcado em Túnis sob domínio do Império Francês:

“Acontece de o recém-desembarcado, estupefato desde seus primeiros contatos com os pequenos aspectos da colonização, a multidão de mendigos, as crianças que circulam quase nuas, o tracoma etc., pouco à vontade diante de tão evidente organização da injustiça, revoltado pelo cinismo de seus próprios compatriotas (‘não preste atenção na miséria! Você vai ver, a gente se acostuma rápido!’), logo pensar em ir embora.” (MEMMI: RJ, 2007, p. 56)

Caso decida ficar, este hipotético sujeito, nascido na metrópole e transplantado para a colônia, poderá sentir a tentação perigosa do humanitarismo. Sentindo piedade pelos oprimidos, sofrendo com a miséria dos miseráveis, permitindo que seu coração bata em sintonia com os corações que sangram na sarjeta e só comem as migalhas caídas da mesa dos ricos, este sujeito pode sentir-se atraído, em sua revolta, pela revolução dos oprimidos. Porém, como ironiza Memmi:

“O romantismo humanitário é considerado na colônia como uma doença grave, o pior dos perigos: não é nem mais nem menos que a passagem para o campo do inimigo. Se ele se obstinar, aprenderá que embarca para um inconfessável conflito com os seus, o qual permanecerá para sempre aberto, jamais cessará, a não ser com sua derrota ou seu retorno ao redil do colonizador. Muitos se surpreendem com a violência dos colonizadores contra o compatriota que põem em perigo a colonização.” (op cit, p. 57)

Freire aprendeu muito, na escola de Memmi, Fanon e Amílcar Cabral, a realizar uma leitura psico-social da realidade marcada pela opressão onidesumanizante: para ele, a realidade psicológica dos sujeitos designados pelos termos oprimido e opressor é bem mais complexa do que sonha nosso ingênuo simplismo. O oprimido pode hospedar dentro de si uma espécie de versão íntima do opressor. Já o opressor, em alguns casos (infelizmente raros), pode deixar-se comover pelo destino dos oprimidos e decidir-se a cometer o suicídio de classe que Amílcar Cabral tematizou e que figuras como Friedrich Engels e Fidel Castro cometeram na prática.

Ora, para que possa dar o salto essencial de auto-superação de sua condição oprimida, é preciso que o sujeito vença a consciência ingênua através de um esforço da consciência crítica que vai desvelando esta realidade psíquica complexa: o oprimido que hospeda dentro de si os valores, os modos de pensar, os jeitos de viver, as maneiras de enxergar o mundo, as formas de fruir de seu tempo livre, as epistemes e tábuas de valores pegas de empréstimo do cabedal do opressor. Donde a necessidade suprema de uma educação comprometida com a descolonização de corações e mentes. Mas isto não é tudo: a Pedagogia do Oprimido, ao contrário do que pensam muitos, não foi concebida para educar somente os oprimidos.

Paulo Freire estava no mundo também para educar os opressores, para ensiná-los sobre a desumanização de si mesmos em que caem, abismo sem fundo, ao apegarem-se a seus privilégios injustos e às suas usurpadas posições de poder opressivo. Esta fusão entre marxismo e cristianismo que Paulo Freire busca efetivar enxerga em seu horizonte utópico – síntese entre denúncia e anúncio – o advento de um Reino onde a fraternidade seja de fato um valor vivido e encarnado, e não apenas ídolo distante ao qual se presta apenas serviço labial. Fraternos seríamos caso não mais estivéssemos em uma sociedade cindida entre a elite opressora e as massas oprimidas. Por isso é do interesse de toda a Humanidade a proposta da Pedagogia do Oprimido: a opressão nos desumaniza a todos.

Na atitude de figuras como Memmi, Freire, Amílcar, Gramsci, dentre outros, temos claramente um engajamento existencial em prol da transformação radical de uma realidade social marcada pela injustiça organizada – e sabemos muito bem que o fascismo é uma das expressões máximas desta organização do injusto, desta “banalidade do mal” que torna a injustiça cotidiana como o pão com manteiga: “O que é o fascismo senão um regime de opressão em proveito de alguns?”, pergunta-se Memmi, lembrando-nos que “toda nação colonial carrega assim, em seu seio, os germes da tentação fascista”:

“Toda a máquina administrativa e política da colônia não tem outra finalidade senão a opressão em proveito de alguns. As relações humanas ali provêm de uma exploração tão intensa quanto possível, fundam-se na desigualdade e no desprezo e são garantidas pelo autoritarismo policial. Não há qualquer dúvida, para quem o viveu, de que o colonialismo é uma variação do fascismo…” (MEMMI, op cit, p. 100)

Hitler e Mussolini não tiraram suas práticas “do nada”: puderam se inspirar no apartheid que o Império Britânico instalou na África do Sul. Escrevendo em 1957, quando muitas das nações da África atual ainda não tinham conquistado plena independência, Memmi fala sobre “esse rosto totalitário, assumido em suas colônias por regimes muitas vezes democráticos”, que prossegue de tanta atualidade: muitas metrópoles pretensamente humanitárias, que se auto-decretam o cume e auge da evolução histórica do ser humano, como a França do Iluminismo, mostram sua face fascista no trato com suas colônias.

Tanto é assim que os Jacobinos Negros da Revolução no Haiti tiveram que realizar uma insurreição armada em prol de sua independência, e que os argelinos se envolveram numa longa e custosa Guerra de Independência contra o Império francês já no pós-2a Guerra Mundial (cuja crônica cinematográfica incomparável está em A Batalha de Argel, obra-prima do italiano Gillo Pontecorvo).

Os EUA, que vestem diante do mundo a máscara de Democracia Liberal que guia o mundo nos caminhos do Capitalismo Com Face Humana, manifestam um rosto fascista-totalitário nas ações imperialistas que realizam nas partes do mundo que desejam reduzir a colônias: foi assim na Guerra do Vietnã (que espalhou-se para o Camboja), foi assim nos inúmeros regimes ditatoriais que patrocinou e apoiou na América Latina e Central (com golpes militares apoiados por Tio Sam na Guatemala em 1954, no Brasil em 1964 e no Chile em 1973, para ficar só em três episódios históricos paradigmáticos), está sendo assim na atual Guerra Contra o Terror (e contra o Estado Islâmico) turbinada por xenofobia islamofóbica e petrodollars.

Paulo Freire o sentiu na pele: se, no começo dos anos 1960, revolucionava a educação nacional, comandava um programa de alfabetização que renovou todas as noções e práticas sobre o tema, logo depois do coup d’état manu militari acabou sendo preso e posteriormente exilado. Pôde assim perceber bem o quanto a ditadura militar, uma espécie de Estado fantoche servindo aos interesses do imperialismo norte-americano, investia pesado na manutenção das bases materiais da opressão capitalista continuada. O que diria se estivesse vivo diante das evidências de que, em 2019, o Brasil volta à posição ajoelhada diante do Tio Sam?

O pseudo-patriota Bolsonaro, aquele que presta continência para a Star Spangled Banner, tem atuado com total subserviência diante do establishment estadunidense, o que se manifesta não só pela escolha de Olavo de Carvalho como grande “guru do governo” (teleguiado desde o QG em Richmond, Virginia) mas também pelas já explicitadas analogias entre a mentalidade racista-supremacista de Jair e a da Ku Klux Klan. Poderíamos dizer que aquele que idolatra Ustra e Pinochet hoje não encontra nada melhor a fazer senão pagar-pau pra Olavo, David Duke e Donald Trump. Diante de tal catástrofe – um “projeto de Hitler tropical”, como diz Mário Magalhães em sua biografia de 2018 -, obviamente a Educação se insurgiu.

TRÊS LEVANTES EM 30 DIAS DE RE(X)ISTÊNCIA

TSUNAMI DA BALBÚRDIA – Uma trilogia documental produzida por A Casa de Vidro nas manifestações cívicas de 15 de Maio, 30 de Maio e 14 de Junho em Goiânia.

ASSISTA AOS TRÊS CURTAS:

DOC #1: Tsunami da Balbúrdia


YouTube ou Facebook

DOC #2: Somos Gotas Nesse Mar de Revolta


YouTube ou Facebook

DOC #3: É Greve porque é Grave


YouTube ou Facebook

As Jornadas de Maio de 2019, que busquei retratar nos três documentários sobre o #TsunamiDaEducação, foram motivadas pela percepção, a meu ver muito acertada, de que Bolsonaro é inimigo da Educação, agente da Barbárie e da Imbecilização. E como foi comovente ver que Paulo Freire saiu dos livros e ganhou as ruas: suas frases berravam nos cartazes, as capas de suas obras foram reproduzidas em escudos de papelão, sua memória foi reavivada pelos manifestantes. Não eram protestos apenas contra os cortes anunciados pelo MEC: 30% das verbas discricionárias, um montante de aprox. R$ 5.700.000.000 e que o Ministro Weintraub teve a pachorra de comparar a 3 chocolatinhos e meio.

Eram protestos contra uma visão cretina e brucutu da Educação, típica do Bolsonarismo, pois esta tirania neofascista deseja o fim da educação comprometida com o desenvolvimento da consciência crítica. O que os Bolsonaristas desejam é o fim de uma escola que possa ensinar-nos o engajamento em prol da transformação do mundo na direção de menos-opressão, ou seja, na direção de um coletivo ser-mais.

 Os Bolsonaristas querem a morte da utopia e o triunfo do conformismo: deveríamos nos resignar à velha educação que coloniza as mentes. O velho esquema da “injustiça organizada”, em que se racha a educação entre uma área VIP para a elite (universidades “de ponta”, só pra ricos!) e uma vasta área de educação precarizada e apêndice-do-mercado para os pobres, a quem se oferece somente uma formação meramente técnica e a quem destina-se a integrar as vastas fileiras do proletariado em sua nova versão, o Precariado: em tempos de “uberização” dos trampos, vemos a proliferação de um ideal capitalista neofascista: os proletários pós-CLT, pós-Aposentadoria, pós-SUS, pós-Direitos, na era da Idiocracia de Direita.

Neste cenário distópico, Paulo Freire volta a ser nosso precioso aliado. E estou entre aqueles que deseja caminhar acompanhado por este peregrino da utopia que, diante das opressões multiformes que maculam o estar-sendo do mundo, via na educação crítica e libertadora o caminho principal para o partejar de um outro mundo possível, “outra realidade menos morta”, onde estivessem abolida esta triste ordem onde reina “tanta mentira, tanta força bruta”.

PARTE 2: A LIBERDADE É NOSSA RESPONSABILIDADE

Os Zapatistas de Chiapas – lá onde “o povo manda e o governo obedece” – tem um belo ensinamento: “A liberdade é como a manhã: alguns a esperam dormindo, porém alguns acordam e caminham na noite para alcançá-la.” Esta reflexão, atribuída ao Subcomandante Marcos (hoje conhecido pelo codinome Galeano), está bem em sintonia com os ensinamentos de Paulo Freire e seus mestres, dentre eles Albert Memmi: para eles, a liberdade não é uma doação ou uma graça, que nos seria simplesmente concedida, mas é fruto de nossa luta coletiva. Mais que isso: a liberdade é nossa responsabilidade.



Evocar o exemplo do Zapatismo na atualidade mexicana, ou do Movimento Sem-Terra no Brasil, é essencial para esta reflexão sobre liberdade e responsabilidade. Tanto os Zapatistas quanto o MST são compostos por pessoas que desejam ser os sujeitos e não os objetos da História, ou seja, são os que atravessam a madrugada despertos tentando conquistar a manhã ao invés de esperá-la dormindo. Sabem da verdade vivida que Freire enunciou quando disse que “ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão”, um dos pensamentos onde melhor se sintetiza o marxismo cristão deste pensador.

Se a educação é tão essencial à transformação social profunda é pois não basta revolucionar as condições econômicas e políticas caso se deixe intocado todo o âmbito do psíquico dos sujeitos: o que é necessário não é apenas romper com um sistema de produção baseado na espoliação injusta dos frutos do trabalho de proletários e camponeses, mas também ajudar os injustiçados a saírem do lodaçal da consciência ingênua, mistificada, fatalista. Não tenho o conhecimento empírico nem fiz a pesquisa de campo necessária para afirmar que o ideal pedagógico Freireano está em ação nas escuelitas dos zapatistas em seus caracoles, mas parece-me que há muitas convergências de utopia e de práxis estabelecendo uma espécie de ponte entre o educador pernambucano e os revolucionários de Chiapas.

Nas escuelitas zapatistas, ou dentro do MST, a Pedagogia do Oprimido que se coloca em prática tem muito a ver com esta ação ética e política de suprema importância: os sujeitos assumindo a responsabilidade pela liberdade. Em algumas das mais belas páginas que escreveu, Albert Memmi fala sobre os oprimidos em uma situação de opressão colonial (os “colonizados”), em contraste com “os cidadãos dos países livres” (ou seja, os sujeitos que vivem na metrópole):

“A mais grave carência sofrida pelo colonizado é a de ser colocado fora da história e fora da cidade. A colonização lhe suprime qualquer possibilidade de participação livre tanto na guerra quanto na paz, de decisão que contribua para o destino do mundo ou para o seu, de responsabilidade histórica e social.

É claro que acontece de os cidadãos dos países livres, tomados de desânimo, concluírem que nada têm a ver com as questões da nação, que sua ação é irrisória, que sua voz não tem alcance, que as eleições são manipuladas. A imprensa e o rádio estão nas mãos de alguns; eles não podem impedir a guerra nem exigir a paz; nem sequer obter dos eleitos por eles respeitados que, uma vez empossados, confirmem a razão pela qual foram enviados ao Parlamento…

Mas logo reconhecem que têm o direito de interferir; o poder potencial, se não eficaz: que estão sendo enganados ou estão cansados, mas não são escravos. São homens livres, momentaneamente vencidos pela astúcia ou entorpecidos pela demagogia. E às vezes, excedidos, ficam subitamente enraivecidos, quebram suas correntes de barbante e perturbam os pequenos cálculos dos políticos. A memória popular guarda uma orgulhosa lembrança dessas periódicas e justas tempestades!

Considerando bem, eles deveriam antes de tudo se culpar por não se revoltarem mais frequentemente; são responsáveis, afinal, por sua própria liberdade, e se, por cansaço ou fraqueza, ou ceticismo, não a usam, merecem punição.

Mas o colonizado não se sente nem responsável nem culpado nem cético; simplesmente fica fora do jogo. De nenhuma maneira é sujeito da história; é claro que sofre o peso dela, com frequência mais cruelmente do que os outros, mas sempre como objeto. Acabou perdendo o hábito de toda participação ativa na história e nem sequer a reivindica mais. Por menos que dure a colonização, perde até mesmo a lembrança da sua liberdade; esquece o quanto ela custa ou não ousa mais pagar o seu preço.

Senão, como explicar que uma guarnição de alguns poucos homens possa sustentar um posto de montanha? Que um punhado de colonizadores frequentemente arrogantes possa viver no meio de uma multidão de colonizados? Os próprios colonizadores se espantam, e é por isso que acusam o colonizado de covardia.” (MEMMI, op cit, p. 133 – 134).

Albert Memmi, filósofo e escritor tunisiano.

Ora, se os oprimidos-colonizados acabam por aderir, ao menos parcialmente, à ideologia da classe dominante, ou seja, dos opressores-colonizadores, então torna-se óbvio que a tarefa revolucionária também consiste em ejetar de dentro dos oprimidos esta inculcada mistificação que serve aos dominadores.

mistificação é o instrumento da opressão: “a ideologia de uma classe dirigente, como se sabe, se faz adotar em larga escala pelas classes dirigidas” (p. 125), como lembra Memmi. A imagem-do-colonizado que o colonialista impõe a seus dominados muitas vezes encontra eco nos próprios dominados, que muitas vezes toleram o racismo e a presunção de superioridade que se manifesta em tudo que o colonialista diz e faz.

A marca do colonizador é sua arrogância, seu apego à noção de sua própria superioridade aos nativos pelo mero fato de ser proveniente da poderosa metrópole. E a marca da ideologia mistificadora que o colonizador propaga consiste, em última análise, na generalização ilegítima que subjaz ao racismo: todos os colonizadores seriam preguiçosos, ladrões em potencial, incapazes de liberdade e condenados à tutela, já que pertencem às raças inferiores etc. Memmi frisa:

“É notável que o racismo faça parte de todos os colonialismos, sob todas as latitudes. Não é uma coincidência: o racismo resume e simboliza a relação fundamental que une colonialista e colonizado. (…) Conjunto de comportamentos, de reflexos aprendidos, exercidos desde a mais tenra infância, fixado, valorizado pela educação, o racismo colonial é tão espontaneamente incorporado aos gestos, às palavras, mesmo as mais banais, que parece constituir uma das estruturas mais sólidas da personalidade colonialista… Ora, a análise da atitude racista revela 3 elementos importantes:

1 – Descobrir e pôr em evidências as diferenças entre colonizador e colonizado;
2 – Valorizar essas diferenças em benefício do colonizador e em detrimento do colonizado;
3 – Levar essas diferenças ao absoluto afirmando que são definitivas e agindo para que passem a sê-lo…

Longe de buscar o que poderia atenuar seu desenraizamento, aproximá-lo do colonizado e contribuir para a fundação de uma cidade comum, o colonialista, ao contrário, se apóia em tudo o que o separa dele. E nessas diferenças, sempre infamantes para o colonizado e gloriosas para si, encontra a justificação de sua recusa… É preciso impedir que se tape o fosso.” (MEMMI, p. 108)

A ideologia do colonialista, marcada pelo racismo, pela presunção de superioridade, pelo rebaixamento e desumanização do outro, por ação dos aparatos de transmissão ideológica (como a escola, a imprensa, a igreja etc.) acaba por dominar em parte os corações e mentes dos colonizados. Daí a importância crucial de uma educação descolonizadora, que ensine os sujeitos a se empoderarem como sujeitos históricos em pé de igualdade com aqueles que, no topo de pirâmides sociais e de dentro de palácios governamentais ou mercadológicos, pretendem rebaixá-los, oprimi-los, escravizá-los.

No século 16, o jovem Étienne de la Boétie, o amigo de Michel de Montaigne, em seu livro Sobre a Servidão Voluntária, já se perguntava pelo segredo do predomínio dos tiranos diante de uma massa tão mais numerosa do que ele e sua corte de aliados. Mas só o número não basta: os oprimidos são numericamente superiores, mas boa parte deles está “nas garras” das mistificações produzidas pela ideologia dominante – patriarcal, teocrática, bancária etc.

Por isso, além de combaterem com penitenciárias e massacres, com exílios e expurgos, todos aqueles movimentos sociais organizados através dos quais os oprimidos buscam partejar um mundo melhor para todos, os opressores /  colonialista / dominadores preferem reinar sempre exibindo o espetáculo da força brutal com a qual podem esmagar qualquer revolta que ouse se manifestar. Portanto, não é justo que acusem os oprimidos de covardes, que digam dos dirigidos / dominados que não tem apreço pela liberdade nem coragem para defender seu direito a ela. Memmi, escrevendo em 1957, quando os aparatos de repressão ainda não eram tão hightech quanto hoje, lembra das violências destravadas pelos opressores contra qualquer levante que conteste o status quo: caso sintam-se ameaçadas, as classes dominantes e dirigentes rapidamente convocam auxílio:

“Todos os recursos da técnica, telefone, telegrama, avião colocariam à sua disposição, em alguns minutos, terríveis meios de defesa e destruição. Para um colonizador morto, centenas, milhares de colonizados foram ou serão exterminados. A experiência foi renovada – talvez provocada – um número suficiente de vezes para ter convencido o colonizado da inevitável e terrível sanção. Tudo foi feito para apagar nele a coragem de morrer e de enfrentar a visão do sangue.

Torna-se muito claro que, se se trata de fato de uma carência, nascida de uma situação e da vontade do colonizador, está limitada a apenas isso. Não há como associá-la a alguma impotência congênita em assumir a história. A própria dificuldade do condicionamento negativo, a obstinada severidade das leis já o demonstram… É por isso que a experiência da última guerra foi tão decisiva. Ela não apenas, como se disse, ensinou imprudentemente aos colonizados a técnica da guerrilha. Lembrou-lhes, sugeriu-lhes a possibilidade de um comportamento agressivo e livre.

Os governos europeus que, depois dessa guerra, proibiram a projeção, nas salas de cinema coloniais, de filmes como A Batalha dos Trilhos (La Bataille du Rail, de René Clement, 1945)tinham razão, de seu ponto de vista. Os westerns americanos, os filmes de gângster, os anúncios de propaganda de guerra já mostravam, objetaram-lhes, a maneira de usar um revólver ou uma metralhadora. Mas a significação dos filme de resistência é completamente diferente: alguns oprimidos, muito pouco ou nada armados, ousavam atacar seus opressores.” (MEMMI, p. 135)

Nenhuma revolução possível, pois, sem educação libertadora, e esta é necessariamente anti-racista e deve seguir ensinamentos delineados por pensadoras magistrais como Audre Lorde, Angela Davis e Bell Hooks. A leitura de Freire, Fanon, Memmi, dentre outros, conduz ao aprendizado de que os oprimidos, em sua luta coletiva por libertação, precisam conquistar os meios para vencer também dentro de si a presença do opressor. Este “tirano interior”, que Freud chamou de “super-ego” e que consistiria numa espécie de interiorização da autoridade externa, precisa ser derrubado tanto quanto os tiranos exteriores. “O colonizado hesita, de fato, antes de retomar seu destino em suas próprias mãos”, escreve Memmi (p. 136).

É função do educador comprometido com a superação das sociedades-de-opressão fornecer todo seu suor e toda as sinapses de seu cérebro, toda a arte de suas mãos e pernas, todo o sangue de suas sístoles e diástoles, para o partejar comum de um mundo onde possamos ser-mais, não mais cindidos entre exploradores e espoliados, mas sim camaradas humanizando-se no vitalício aprendizado da existência conjunta que se põe, como horizonte comum, a manhã da liberdade, da fraternidade, da justiça.

Esta liberdade jamais se fará caso aguardemos dormindo pela chegada da manhã. Temos que caminhar juntos na madrugada sabendo que a liberdade, sem as ações daqueles que a amam, não é nada senão um fantasma ineficaz ou ideal inútil evocado em poemas que ninguém lê. A liberdade necessita que a encarnemos, o que é missão para aqueles que estão acordados, mesmo nas madrugadas de breu mais intenso. Despertos para a sua passageira presença na Terra como sujeitos de uma História que os transcende, sabemos que a liberdade não é só o mais precioso dos bens a ser desejado. Sabemos que seu advento e sua consumação é nossa responsabilidade.

Eduardo Carli de Moraes 
19 de Junho de 2019

ASSISTA TAMBÉM:

VÍDEOS: “EI PROFESSOR, VOCÊ É DOUTRINADOR?”, palestra com as professoras da UFG Dra. Agustina Rosa Echeverría e Dra. Maria Margarida Machado, em evento realizado no anfiteatro da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás no dia 7 de junho de 2019.

1a parte, Dra. Echeverría:

2a parte, Dra. Machado:

Filmagem: A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com)

LEIA TAMBÉM:

TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2: Somos Gotas Nesse Mar de Revolta || Documentário A Casa de Vidro

A Casa de Vidro lança a segunda parte do documentário “Tsunami da Balbúrdia”, retrato histórico a quente das manifestações em defesa da rede federal de educação (#30M)

“A praça é do povo
Como o céu é do condor.”
Castro Alves (1847 – 1871)

Um coro de vozes, incontáveis e altissonantes, levantou-se para espalhar pelas cidades os cantos e batuques da emancipação: era 30 de Maio de 2019 e éramos um segundo Tsunami de Gente, dando continuidade aos atos grandiosos do #15M que levaram mais de 2 milhões de cidadãos às ruas de mais de 200 cidades.

Mais uma vez, no #30M, as aulas foram nas ruas. Nestas aulas de cidadania coletiva, nestas multitudinárias manifestações, as bandeiras eram muitas e o colorido humano terrestre superava em muito as cores do arco-íris celeste (como ensina Eduardo Galeano).

Queríamos “mais livros e menos armas”, “+ Freire – Guedes”, “Liberdade para Lula“, “Fora Bolsonaro”. Com entusiasmo e coesão, os “blocos” da luta carnavalizada fluíram pelas praças e avenidas, gritando palavras-de-ordem rimadas e ritmadas, feitas para chacoalhar toda a apatia dos fatalistas e todo o conformismo dos privilegiados. Entre os refrões, ressoavam:

– Trabalhador, preste atenção: a nossa luta é pela educação!
– Trabalhador, preste atenção: o Bolsonaro só governa pra patrão!
– Não é mole não! Tem dinheiro pra milícia, mas não tem pra educação!
– A nossa luta é todo dia, educação não é mercadoria!

Fotos acima: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo no #30M

No documentário curta-metragem Tsunami da Balbúrdia, parte 2, tentamos captar um pouco destas efervescências cívicas que nos transformaram em gotas nesse mar de revolta. Pois, como Albert Camus ensinava, é na superação do individualismo típico do sujeito egoísta, fissurado em correr atrás de seu interesse privado, que podemos nos alçar para longe do pântano da absurdidade do mundo, rumo à esfera superior da revolta que nos solidariza: “eu me revolto, logo somos” (do livro L’Homme Revolté / O Homem Revoltado). 

TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2
Assista no Youtube || Vimeo || Facebook

Um filme de Eduardo Carli de Moraes (câmera, montagem e direção), com apoio de Lays Vieira (câmera) e participação de Aymê VirgíniaKleuber GarcezBeatriz DurãesLucas CardosoHenrique SouzaLey SilvaNicolle PiresAndreoly N. MonçãoDanny Cruz. Com fotografias de Hugo Brandão, Marianna Cartaxo, José Almeida, dentre outros. Trilha sonora com canções de: Flaira Ferro, Francisco El Hombre, Adriel Vinícius e Ceumar.

A vida só se renova com revolta contra as injustiças e as opressões que nos imobilizam. Quando animada por um espírito de solidariedade, a revolta é a força material que impele um princípio ético em sua tentativa de devir carne. Na Praça Universitária, enquanto os estudantes da EMAC (Escola de Música e Artes Cênicas) / UFG faziam a sua performance subversiva, vivi na pele aquela verdade dos existencialistas mais lúcidos e que ganhou sua mais bela expressão em Paulo Freire: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” (Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.)

A “Tropa de Choque” da Educação, empunhando escudos de papelão transformados em reproduções de capas de livros, vai na vanguarda da marcha, levando seus estandartes que sinalizam a vontade e o ímpeto de defender a cultura, a inteligência, a criatividade, nas figuras de George Orwell, Hilda Hilst, Michel Foucault, Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Angela Davis, Paulo Freire, Augusto Boal, Cervantes, dentre outros.

Protestando também com muita arte, a galera da Faculdade de Artes Visuais deu expressão à palavra tsunami com uma grande onda que conectava os indivíduos ali presentes numa espécie de centopéia. O super-organismo da cidadania organizada e insurgente cantava canções irreverentes e ousadas como aquele adorável “ô Bolsonado, seu fascistinha, os estudantes vão botar você na linha!”

Em marchas repletas de beleza, em que ética e estética davam as mãos para fazer da cultura em movimento uma força de transformação social, estávamos unidos na diversidade. Questionávamos Weintraub, o Bobo dos Cortes, indignados com a tentativa de desmonte da rede federação de educação que está em curso. Assim como em Junho de 2013, não eram só 20 centavos, desta vez também podemos dizer: não são 3 chocolatinhos e meio.

Estar nas ruas fervilhantes de gente desperta e valente foi um bálsamo para as energias. É que nestes tempos de hegemonia da idiocracia neofascista e sua necropolítica, o pessimismo imobilizador poderia muito bem ter tomado conta, feito uma epidemia, matando no nascedouro qualquer capacidade de mobilização e resistência. Não foi o que aconteceu. Os Tsunamis da Educação foram gigantescos sopros de vida de um povo guerreiro e que não aceita o jugo do opressor, com protagonismo de uma “juventude que sonha sem pudor”, como canta a linda Flaira Ferro inspirada pelo tsunami recifense:

“na calada da noite
os estudantes fazem o futuro amanhecer
quem aprendeu a ler e escrever
sabe bem que analfabeto
jamais voltará a ser

mesmo que o destino
reserve um presidente adoecido
e sem amor
a juventude sonha sem pudor
flor da idade, muito hormônio
não se curva a opressor

pode apostar
a rebeldia do aluno é santa
não senta na apatia da injustiça
agita, inferniza e a rua avança
escola não tem medo de polícia

pode apostar
balbúrdia de aluno é o que educa
ensina ao governante que caduca
retroceder não é uma opção
respeito é pra quem dá educação.”

Aos historiadores do futuro que quiserem saber quais as causas da revolta destas gotas cidadãs que se uniram neste tsunami de gente, deixamos algumas pistas. Não se trata apenas de protestar contra os cortes nos investimentos públicos na rede federal de educação, mas de protestar um contexto mais amplo em que a educação já vive um “clima de Ditadura”, como argumentou Juan Arias em El País.

Através da idiocracia de extrema-direita encabeçada por Bolsonaro, Guedes, Damares, Moro etc., o que está em ascensão é uma Cruzada Obscurantista, uma lunática campanha para livrar o Brasil das várias faces de Satanás: na mente desses dementes, Satã é representado na face da Terra por Paulo Freire, Gramsci, o Marxismo Cultural, mas sobretudo o lulismo e o petismo. Gente de Deus? Damares, Edir Macedo, MC Reaça, Malafaia, Ustra… Há quem até mesmo diagnostique na loucura da “mitologização” de Jair Messias Bolsonaro um sintoma do cristofascismo à brasileira.

Estes fanáticos – tanto do Livre Mercado quanto de um Deus conexo à Teologia da Prosperidade – agora atacam numa espécie de Cruzada Anti-Iluminista, numa Aliança Terraplanista em prol do retorno da Inquisição, do fortalecimento da Klu Klux Klan, de “programas sociais” como o Arma Para Todos, o Escola Para Poucos e o Menos Médicos (especialidades Bolsonaristas).

A intentona de criminalização do pensamento crítico e dos docentes que facilitam o avanço da pedagogia crítica está a todo vapor, sendo que filósofos e sociólogos “esquerdistas” e “marxistas” são pintados como chifrudos comedores de criancinhas, “uma paranoia ideológica que enxerga ‘esquerdismo’ e ‘comunismo’ em tudo que cheire à defesa dos interesses populares pelo Estado, flertando com o fascismo e com o ‘darwinismo social’.” (FREITAS: 2018, p. 28)

Temos “movimentos destinados a cercear a liberdade docente como o Escola Sem Partido que, como bem destaca o prof. Luiz Carlos de Freitas, é financiado e apoiado por interesses empresariais e privatistas. Imensas maquinarias de desinformação e idiotização são postas em marcha – por exemplo pelo MBL, turbinado com os dollars dos Kocj Brothers – fortalecendo a viralização das fake news, do discurso de ódio e da noção de uma da “pós-verdade”.

Esse caos todo é destravado pela ação de uma “nova direita” repleta de “velhas ideias”, uma direita que fede a velharia por ser composta sobretudo por homens, brancos, ricos, pseudo-religiosos, ambiciosos e gananciosos até a patologia, e que idólatras de Mammon querem só saber da mercantilização de tudo. Quem tenta nos dominar hoje é uma Direita que une o neoliberalismo na economia e o conservadorismo tacanho na moral (ou “costumes”).

No âmbito educacional, além de desejar sucatear e precarizar as escolas públicas, para depois tentar justificar perante a sociedade a necessidade de privatização ou terceirização, esta Direita tende a idolatrar o Mercado com uma devoção cega com que também parece cair no abismo de idolatrias ainda mais estúpidas e nefastas. Para esses debilóides, Bolsonaro não é um calhorda apologista da tortura e da Guerra Civil, mas um “Mito” e um “Cidadão de Bem”, assim como MC Reaça é um “grande artista”, Olavo nosso “maior pensador” e Edir Macedo ou Silas Malafaia os próprios enviados do Senhor para conduzir-nos à salvação (desde que possamos pagar por ela).

Como escreve Freitas, em seu texto “Um Outro Horizonte Possível”, não podemos e não devemos nos submeter docilmente à lógica privatista e à tentativa de redução da escola ao modelo empresarial:

“A privatização da escola introduz formas de gestão empresariais e verticalizadas, ensina nossos jovens a praticar o individualismo e a competição, reforçando na sociedade formas de organização limitadas e injustas – sem falar da ampliação de processos culturais relativos à violência cultural e ao não reconhecimento das diferenças raciais e de gênero.

Por tudo isso, tal perspectiva é incompatível com a qualidade social que se espera de uma educação voltada para formar lutadores e construtores de uma sociedade mais justa, sob as bases da participação na vida coletiva – na escola e na sociedade – em estreita relação com sua comunidade, da qual a escola faz parte. A competição não é, nem do ponto de vista da convivência social, nem do ponto de vista educacional, um modelo que induza uma humanização crescente das relações sociais em uma ambiência democrática.

Se estamos compromissados com a democracia, todos os espaços da escola devem permitir a vivência da democracia; devem chamar os alunos para a participação em seu coletivo, permitindo o desenvolvimento de sua auto-organização e seu envolvimento com a construção coletiva, com espírito crítico. O conhecimento que se adquire nos processos escolares deve um instrumento de luta voltado para esses objetivos…

A escola pública, no presente momento histórico, é a única instituição educativa vocacionada a acolher a todos de forma democrática. As dificuldades que ela tem para cumprir essa tarefa devem nos mobilizar para uma luta que a leve a cumprir essa intenção com qualidade e não, pelo oposto, nos leve a apostar em sua destruição.”

LUIZ CARLOS FREITASA Reforma Empresarial da Educação – Nova Direita, Velhas Ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018. Pg. 128.

* * * * *

ASSISTA “TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2”:
(SE GOSTAR, COMPARTILHE E DISSEMINE O FILME)
Youtube || Vimeo || Facebook

VEJA TAMBÉM O PRIMEIRO CURTA-METRAGEM:
TSUNAMI DA BALBÚRDIA – #15M

VEJA MAIS FOTOGRAFIAS || por Hugo Brandão, Marianna Cartaxo, José Almeida e Estudantes Ninja

TSUNAMI DA BALBÚRDIA: Documentário sobre a mobilização em defesa da Educação pública em 15 de Maio de 2019 (Goiânia, 23 min)

“Se ele nos chama de idiotas úteis, eu digo que na presidência tem um idiota inútil.” – Guilherme Boulos (MTST/Povo Sem Medo/PSOL)https://bit.ly/2WKoe3j

Éramos mais de um milhão de pessoas, em mais de 200 cidades, participando do Tsunami da Educação e “protestando contra o avanço da barbárie”, como bem definiu Bob Fernandes. Éramos aqueles que não serão feitos de otários pela enganosa retórica do “são só 3 chocolatinhos que vocês vão deixar pra comer depois” (discurseira devidamente detonada pelo sarcasmo salutar de Gregório Duvivier no episódio B de Balbúrdia do Greg News).

Éramos, no #15M, um rio de gente, de uma diversidade pulsante, numa explosão de colorido indomável. Um pouco deste caleidoscópio humano está encapsulado no filme que agora lançamos, no calor da hora. Tsunami Da Balbúrdia, documentário curta-metragem produzido por A Casa de Vidro (veja no Youtube, no Vimeo ou no Facebook),  é o primeiro passo em um processo criativo mais amplo, que une os aspectos cinematográfico, jornalístico e político, visando à produção de um longa-metragem sobre o Tsunami da Educação em 2019 (auxilie no financiamento colaborativo e deixe um troco na nossa Vakinha!).


Filmado durante as manifestações goianienses do 15 de Maio, Tsunami da Balbúrdia está em sintonia com os ideais e as práticas do jornalismo Ninja. Nesta obra – com montagem, som direto e direção de Eduardo Carli de Moraes (professor de filosofia do IFG)buscamos amplificar a voz e disseminar as mensagens dos manifestantes através do audiovisual.

Contribuindo tanto para o registro histórico deste evento político quanto para o incentivo ao prosseguimento das mobilizações no futuro próximo (o 30 de Maio e o 14 de Junho sendo as datas de iminente grandiosidade e relevo histórico). A obra contêm, além dos agitos de rua e de um registro da assembléia geral unificada dos DCEs do IFG e da UFG, entrevistas e depoimentos de:

* Frank Tavares (prof. de Sociologia da UFG)
* Angela Cristina Ferreira (da Comissão de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno)
* Dalmir Rogério Pereira (Prof. de artes na EMAC/UFG)
* Mateus Ferreira (Estudante de Ciências Sociais / UFG)
* Renato Costa (Ativista e Estudante de Jornalismo / UFG), dentre outros.

Agrademos o apoio, na produção, de Lays Vieira e Frederico Monteiro. Na trilha sonora, canções de Dani Black e convidados (“O Trono do Estudar”), The Interrupters (“Babylon”), Moska e Rennó (“Nenhum Direito a Menos”), Chico Buarque (“Apesar de Você”).

Éramos aqueles que sabem muito mais do que “qual o resultado de 7 vezes 8” e “qual a fórmula química da água”. Aqueles que sabem da nossa responsa diante do desmonte e do sucateamento que o governo Bolsonaro planeja impor. Aqueles que estão conscientes dos impactos catastróficos acarretados pelos cortes de cerca de 30% nos investimentos discricionários do Ministério da Educação (MEC), ainda mais quando sabemos que as 10 melhores universidades do Brasil são públicas e gratuitas. Aqueles que sabem que balbúrdia mesmo é o que faz no país este péssimo governo.

Somos aqueles que, ao contrário do Bozo e seus lacaios, não somos nem idiotas nem analfabetos políticos: sabemos que os cortes incidem sobre hospitais e centros de excelência em atendimento psicológico à população; sabemos também que, ao contrário da asneira presidencial de louvor às faculdades privadas, 95% da pesquisa científica brasileira ocorre em universidades públicas (é só jogar no Google, seu ministro!):

Antes de dizer que universidades são “balbúrdias” e não geram pesquisas, titular do MEC deveria se informar: Brasil é o 13º na produção de artigos científicos – e participação das públicas representa 95% – LEIA O ARTIGO EM OUTRAS PALAVRAS

Excelentes vídeos já foram publicados para esclarecer a opinião pública sobre os acontecimentos recentes no que tange às políticas públicas educacionais no Brasil e a resistência cívica que elas vem encontrando: acesse o material recomendado em BBC News, Brasil de Fato e Levante Popular da Juventude.

 

O histórico 15 de Maio de 2019 marca um ponto alto na curva das mobilizações populares no Brasil nestes tempos sombrios de predomínio da “necropolítica”, esta fusão entre neoliberalismo e neofascismo que hoje nos desgoverna com a perversa tesoura da Austeridade em mãos (aquela que corta da população para manter a mamata das elites).

Éramos, nas ruas, e seremos nas ruas do futuro, aqueles que não foram estupidificados por fake news no Whatsapp e estamos cientes de nossa responsabilidade histórica na defesa dos bens comuns. O “contingenciamento” que o (des)governo busca impor não é uma medida isolada, mas soma-se às tendências do ultradireitismo bozorista que consegue a educação como espaço a ser militarizado, “expurgado” de esquerdistas, “higienizado” contra o “marxismo cultural” e a “ideologia de gênero”, contra o pensamento crítico propulsionado por filósofos e sociólogos, por historiadores e pedagogos Paulo Freireanos…

Enfim, a extrema-direita hoje empoderada sonha com a Escola reduzida a apêndice servil do Mercado, onde reinariam supremos os valores evangélicos, as fardas dos milicos e os testas-de-ferro “apartidários” do Escola Sem Partido.

Foi o mais amplo e significativo movimento de massas desde o ELE NÃO de 2018 – o levante mais importante a marcar o processo eleitoral do ano passado, repleto de fraudes, de “laranjal do PSL”, de #Caixa2DoBolsonaro pra disseminação de fake news calúnias. Primeiro processo eleitoral pós-Golpe, corroído em sua legitimidade pela desleal e ilegal lawfare que aprisionou o candidato Lula, criminosamente privado de sua liberdade num contexto em que todas as pesquisas indicavam que venceria o pleito.

Reativando afetos e práticas que deram o tom do #EleNão, a galera na rua esbanjou irreverência. “Ô Bolsonaro, seu fascistinha! A estudantada vai botar você na linha!” Com essas e muitas outras rimas, os estudantes bradaram pelas ruas – e Maio de 2019 já possui o mérito maravilhoso de ter oferecido a muitos de nós um gostinho de Maio de 1968, um sabor da Paris em insurreição.

A golpes de rimas, os criativos protestadores diziam: “ô Bolsonaro, seu fanfarrão! Balbúrdia é cortar da educação!” Fanfarrão, pois Bozo insiste na discurseira contra a balbúrdia. Tanto o Chefe quanto seu serviçal Weintraub – o cara dos “três chocolatinhos e meio” – insistem na ideologia “balburdiana”, que supostamente dominaria nas universidades públicas. Estas são pintadas pelos bullys do Bozonistão como antros de comunistas, marxistas culturais, feminazis abortistas, queers Marielleanos, todos alimentados com mortadela, pelo PT e pelo PSOL, para disseminar o evangelho satânico do comunismo gayzista que virá colonizar a pátria com seus kits gays e suas mamadeiras de piroca.

Contra tal delírio do poder no Bozonistão, os estudantes e professores, os servidores técnico-administrativos e os cientistas, os artistas independentes e os empresários-de-si-mesmos que estão insatisfeitos contra o precariado do Uberismo, as mães que querem creches para os seus filhos e os pais que querem bolsas para seus filhos, crianças e idosos (e todas as faixas etárias entre eles) juntaram-se para bradar legítimas insatisfações contra os desrumos das coisas.

ÁLBUM FOTOGRÁFICO DO ATO EM GOIÂNIA

Empunhavam escudos-livros e lanças-lápis, como fez a “Tropa” da EMAC/UFG em sua performance em pleno protesto aqui em Goiânia. Uma potência expressiva que certamente agradaria a Judith Butler, uma das mais brilhantes pensadoras do mundo e que acaba de publicar um belíssimo livro de resistência e solidariedade chamado Corpos em Aliança.

Nossos mortos querem que lutemos, nossos mortos pedem que cantemos. E nós mandamos nosso recado: Paulo Freire, presente! Marielle, semente! E cá estamos, corpos aliançados, na luta unida contra a tirania dos idiotas inúteis.

Se o presidente da república não estivesse ocupado em tacar as pedras de seu desdém elitista contra os jovens que estavam bradando nas ruas, talvez pudesse, ao invés de xingar-nos de “idiotas”, ficar calado e ter a humildade para aprender. Mas seria pedir demais desta arrogância brucutu, de quem acha que tudo se resolve no tiro, que pudesse haurir um pouco disto que temos de sobra no âmbito social da Educação: a humildade para aprender e a disposição para reconhecer que somos todos incompletos, inconclusos, aprimoráveis.

Nesta inconclusão aberta ao aprimoramento, nesta humildade aberta ao convívio e ao aprendizado, aí está a raiz que alicerça toda a prática educativa, mas nosso presidente não consegue aprender e talvez morrerá um completo analfabeto em relação às práticas de um autêntico Estadista atento ao bem comum e ao coletivo bem viver. A isto, o apologista da tortura, dos grupos de extermínio e do “fuzilar a petralhada” é completamente cego.

Infelizmente, Bolsonaro é um “analfabeto educacional”, nunca aprendeu nada que prestasse sobre a importância da educação no mundo, e é o perfeito exemplar do idiotes dos grego – aquele que só enxerga, em sua semi-cegueira, os interesses privados e nunca o bem comum. Ao xingar os manifestantes de “idiotas”, desconhecendo completamente a etimologia da palavra original grega, Bolsonaro demonstra que em sua boca é a linguagem que está indo pro pau-de-arara.

Quem esteve no #TsunamiDaEducação é justamente o oposto do significado de “idiota”, e o próprio Bolsonaro ao dizer que “queremos uma garotada que comece a não se interessar por política” é que demonstra seu plano de construir uma educação idiotizante – à sua imagem e semelhança. Vejam a esclarecedora palestra de Mário Sérgio Cortella:

Se Bozo tivesse a modéstia de pôr-se na posição do aprendizado, descobriria quanta esperteza e inteligência, quanta solidariedade e esforço por justiça, pulsa nas ruas e nas redes, expressando-se atualmente nestes que constituem as vastas teias da Resistência a seu desgovernado projeto de tirania.

Acima: manifestações de massa levam mais de 1 milhão de pessoas às ruas. Fotos acima tiradas nas cidades de Goiânia, Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo.

Em EL PAÍS Brasil, Juan Arias escreve:

“Ao menos desta vez, o poder de turno no Brasil entendeu a mensagem oculta levada pelos quase um milhão de jovens estudantes que no último dia 15 saíram às ruas em 26 Estados e em centenas de cidades para defender o ensino contra quem deseja barbarizá-lo. Cansados de serem vistos como o futuro do país, que nunca chega, os jovens decidiram ser o presente e participar de sua construção.

O novo Governo pretende transformar o ensino, da escola primária à Universidade, para livrá-lo da ideologia esquerdista que, segundo ele, o havia desviado de seus valores tradicionais. O ensino que o novo poder pretende impor deve estar isento de debate político, de diversidade de ideias, dominada por um pensamento único, que, como nos melhores fascismos do passado, é imposto pelo Estado.

Uma escola em que não se perca tempo estudando o que depreciativamente chamam de “ciências humanas”. Nada de filosofia, que obriga a pensar e a questionar o poder, ou de sociologia, que abre os olhos para o abismo das desigualdades. Uma escola em que os alunos se transformem em guardas que vigiem e denunciem os professores se tentarem falar de política ou de sexo, ou das dores do mundo. A escola é moldada pelo poder. Os alunos escutam e se calam.

Contra o perigo desta nova era de obscurantismo educacional que o Governo deseja impor, com uma nova cruzada contra os livros e as ideias enquanto exalta as armas que pretende distribuir como doces, os jovens ocuparam pacificamente as ruas e praças do país, para desafiar quem tenta castrar seu direito à liberdade de expressão e impor suas ideias.”

Já o professor de Ciência Política da UnB Luis Felipe Miguel aponta: “Bolsonaro, em Dallas, desfia os impropérios de sempre contra estudantes e professores. Mas eu sei que ele está com medo. Que ele olhou na internet as manifestações enormes de Norte a Sul no Brasil e sentiu medo da nossa força. Que ouviu o pessoal gritando Bolsonaro, seu fascistinha, a juventude vai botar você na linha, engoliu em seco e pensou que não era uma bravata vazia.

Movido por sua própria arrogância e delírio, o governo errou: agrediu, insultou, provocou até que sacudiu a anestesia em que estávamos imersos. Para quem esteve na rua ou mesmo acompanhou de fora, os atos de hoje fizeram redobrar o ânimo de luta. Se esse ânimo se estender pela classe trabalhadora – e há indícios de que esta é uma possibilidade palpável – teremos uma greve memorável no dia 14 de junho e poderemos empunhar com esperança a bandeira da resistência: “Nenhum direito a menos”. >>> https://bit.ly/2w4yxn6

Por sua vez, o jornalista Leonardo Sakamoto escreve em seu blog no UOL duras e justas críticas ao governo Bolsonaro: “Ao atacar quem está indo às ruas pedir educação de qualidade, interdita o debate sobre a construção do futuro e põe a democracia no pau de arara. Estudantes que resolvem refletir e se organizar pela melhoria da educação não são ‘idiotas’, nem ‘imbecis’. Pelo contrário, reside neles a esperança da criação de uma nova forma de fazer política – ao contrário dos simulacros toscos que se chamam de “novo” mas cheiram a anacronismo. Burrice é atacar esses estudantes por medo da realidade mudar…”.

“A vida deu os muitos anos da estrutura
Do humano à procura do que Deus não respondeu.
Deu a história, a ciência, a arquitetura,
Deu a arte, deu a cura, e a Cultura pra quem leu.
Depois de tudo até chegar neste momento 
Me negar Conhecimento é me negar o que é meu.

Não venha agora fazer furo em meu futuro
Me trancar num quarto escuro
E fingir que me esqueceu!
Vocês vão ter que acostumar:

Ninguém tira o trono do estudar,
Ninguém é o dono do que a vida dá!
E nem me colocando numa jaula
Porque sala de aula essa jaula vai virar!

E tem que honrar e se orgulhar do trono mesmo!
E perder o sono mesmo pra lutar pelo o que é seu!
Que neste trono todo ser humano é rei,
Seja preto, branco, gay, rico, pobre, santo, ateu!
Pra ter escolha, tem que ter escola!
Ninguém quer esmola, e isso ninguém pode negar!
Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio,
Nem artista, nem polícia militar!
Vocês vão ter que engolir e se entregar:
Ninguém tira o trono do estudar!”

Como professor do IFG, nos últimos anos pude vivenciar de dentro o que significam para o país os Institutos Federais, que atualmente constituem um patrimônio do povo brasileiro que merece ser defendido por todos os seus cidadãos conscientes de seu papel da salvaguarda dos bens comuns.

Para ilustrar o mérito dos IFs, vale lembrar que em 2016, ano em que findou prematuramente via golpeachment o governo de Dilma Rousseff, um fenômeno fascinante se explicitou através dos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): caso os alunos dos IFs fossem considerados como porta-vozes da educação no Brasil, o país seria o 4º melhor do mundo na área (Saiba mais em The InterceptEl País).

“Na contramão do resultado geral obtido pelo País, que aponta pouca evolução nas áreas avaliadas ao longo dos anos, a pontuação das instituições federais de ensino no exame supera a média nacional e aproxima-se daquelas alcançadas por países desenvolvidos.

Cerca de 23 mil estudantes brasileiros, com idade entre 15 e 16 anos, das redes de ensino municipal, estadual, federal e privada participaram da avaliação, que contempla as áreas de matemática, ciências e leitura. As notas gerais alcançadas pelo Brasil, considerando-se a pontuação média das quatro redes de ensino, foram de 401 pontos em ciências; 407 pontos em leitura; e 377 pontos em matemática. Em todas elas, o país ficou abaixo da média geral Pisa, que foi de 493 em ciências, 493 em leitura e 490 em matemática. A análise dos resultados específicos da rede federal, no entanto, aponta um cenário diferenciado, que aproximaria o Brasil do topo do ranking: 517 pontos em ciências, 528 em leitura e 488 em matemática.

O desempenho positivo dos alunos da Rede Federal destaca-se, sobretudo desde 2009, na esteira da revitalização e expansão da Rede. Nesse ano, a média da nota dos alunos da Rede Federal atingiu 535 em leitura, principal área de concentração daquela edição. Com essa média, os alunos da Rede Federal teriam ocupado a 4ª posição no ranking, atrás apenas de Xangai (China), Coréia do Sul e Finlândia.

Para o coordenador de Formulação e Supervisão de Políticas para o Ensino Técnico do IFMG, Lucas Marinho, se, como se propõe, o Pisa fornece um importante parâmetro para avaliação e monitoramento da qualidade das políticas públicas em educação, esses resultados evidenciam que as escolas da Rede Federal, apesar da sua tão recente reestruturação e expansão, já despontam como o mais acertado esforço do Estado brasileiro para a promoção de uma educação de qualidade.

“E isso não por qualquer reforma especialmente complexa ou arrojada, mas por que veio constituindo-se até aqui, de acordo com algumas diretrizes óbvias que, infelizmente, têm sido sistematicamente ignoradas nas redes municipal e estadual de educação: investimento público suficiente para assegurar instalações adequadas; gestão autônoma e democrática; professores trabalhando, em sua maioria, em regime de dedicação exclusiva à mesma escola, bem remunerados e bem formados, numa carreira atrativa e bastante concorrida”, avalia Lucas.

Instituto Federal de Minas Gerais

É com arte e criatividade, corpos em aliança, solidariedade de existências, que caminhando e cantando entoaremos, como outrora, “afasta de mim esse cale-se!” e “quem sabe faz a hora não espera acontecer”, como agora, “tira a mão do meu IF!”, “ninguém solta a mão de ninguém”, “nenhum direito a menos”!

Bem-vindos ao Tsunami da Educação. Em breve ele vai atravessar com suas ondas indomáveis muito mais do que timelines e grupos de Whatsapp. Pois as margens que comprimem este rio são muito violentas, e assim nossas águas conjuntas ao invés de lago se estão fazendo tsunami. Em sintonia com a crise climática do global heating e em compasso com Greta Thunberg e com os “Pinguins” Chilenos, na sabedoria que Bertolt Brecht já ensinava:

Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, 17/5/19

SAIBA MAIS:

O RUGIDO DAS RUAS – Por Bob Fernandes

METEORO: A BALBÚRDIA COMEÇOU

ENTRE O FASCISMO E NÓS, SÓ HÁ NÓS – Como sobreviver à distopia real que encarnou-se no Brasil em 2018?

PARTE 1 – APOLOGIA DO VERMELHO

Todos os demônios estão soltos nesta terra que tem por nome Brasil.

A tragédia já estava prefigurada em nosso batismo: nos puseram um nome em homenagem a uma planta que havia nas terras de nosso litoral atlântico, o pau-brasil, com sua rubra madeira cor de brasa. O Brasil é um dos países do mundo com nome mais vermelho – e estou falando de linguística, não de política.

Os portugueses que nos invadiram com suas caravelas e bíblias, suas escopetas e doenças, logo viram no pau-brasil uma mercadoria rentável, pois podia ser usado no ramo da tinturaria de tecidos (fonte: etimologia de “Brasil” em Wikipedia). Rainhas da Inglaterra pisavam sobre tapetes vermelhos, signos de sua alta posição hierárquica e acesso a caríssimos luxos e privilégios, que haviam sido tingidos com pau-brasil.

Desde nosso batismo, partindo da palavra que nos nomeia, somos vermelhos na essência e constantemente espoliados por imperialismos. Por isso é tão estranho a meus ouvidos o grito-de-guerra de certos brasileiros, dizendo: “nossa bandeira nunca será vermelha!”

Compreendo que com isso manifestam sua fobia não de uma cor, ou seja, de uma configuração cromática específica, mas sim uma fobia daquilo que compreendem por “comunismo”. Às vezes, essa “rubrofobia” atinge as raias da loucura, como ocorreu com a senhora que revoltou-se diante da bandeira do Japão, que é branca com uma bola vermelha no centro, acusando os nipônicos de comunistas, o que não é puro nonsense (quem estudou História sabe, aliás, que os japoneses que estiveram aliados ao nazi-fascismo na 2ª Guerra Mundial).

Somos todos nós vermelhos no cerne: em nossas veias corre o mesmo rubro sangue. O que se classifica, com base em fenótipos aparentes, como “branco”, “negro”, “indígena”, segundo a tosca classificação vigente, colapsa diante de uma solidariedade ontológica mais funda, que nos une ao invés de nos segregar: todos nós sangramos sangue vermelho, todos nós temos a vida, em nós sustentada, pelos rubros fluxos deste líquido que nos comuna. Globalmente comunados estamos na condição humana, simbolizada pelo vermelho de todos os nossos sangues.

No Brasil de 2018, sinto medo de andar nas ruas de meu país vestido com uma camiseta vermelha onde se lê duas palavras: LULA LIVRE. Posso ser espancado, esfaqueado ou mesmo assassinado pelo delito gigantesco de vestir uma camiseta assim. Que país nos tornamos, quando não se pode manifestar discórdia diante de um processo que se julga injusto, um cárcere político? “Que país é este?” – como cantou, questionador, Renato Russo, em outra época mas ainda similar à atualidade.

Acreditamos realmente que um Brasil de tamanha intolerância alteritária  é um projeto sócio-político a se apoiar? Ou então devemos rechaçar e repudiar qualquer sistema político que queira reduzir a policromia do mundo à sua pobre paleta de cores? Nossa diversidade não é a mais preciosa de nossas riquezas? E você tem certeza que sabe de fato o que significa propor a “extinção dos comunistas” e a “extirpação dos vermelhos”? Sabe mesmo o que é uma pessoa comunista, para além da caricatura imaginária do Outro demonizado?

Eduardo Galeano ensina que o Arco-Íris Terrestre tem bem mais que 7 cores. Excluir o vermelho é um projeto que enfeia o mundo. O vermelho é maravilhoso. O vermelho é mágico como os raios de Sol quando se põe, despedindo-se deste setor do planeta girante. Pelo menos até amanhã de manhã. O vermelho sanguíneo é a continuação da vida, a transfusão dos ânimos. Aquilo que flui por dentro de todos nós, como um tônico revitalizante, distribuindo o alimento. Sangue vermelho bombeado por nossos corações, que ficam sempre do lado esquerdo do peito, independente de gênero e de sexo, independente de raça e de etnia, independente de classe e de pertença a castas.

Digo a todos os humanos terráqueos: “Do You Realize?”, como pergunta a música do Flaming Lips, que todos nós sangramos vermelho e temos um coração à esquerda no peito?

PARTE 2 – BEM-VINDOS À DISTOPIA DO REAL

  

Vivemos em dias nos quais a distopia não está restrita às obras de sci-fi pessimista ou aos filmes futuristas pós-apocalípticos. Somos contemporâneos de uma distopia que encarnou-se no real. Hoje convivemos com a instauração da barbárie brutal do Bolsonarismo.

A utopia, como Eduardo Galeano ensina, segue fugindo no horizonte, inalcançável por mais que caminhemos na sua direção, em nosso anseio insaciável de abraçar uma realidade menos opressiva e sórdida. A utopia segue inacessível, ainda que prossiga servindo à nossa incansável caminhada.

Já a distopia de nós se aproxima cada vez mais de nós com tanques, tropas e truculências que vão triturando nossas tristes vidas.

A nossa distopia tropical em processo de encarnar-se é, cada vez mais, a nossa realidade histórica contemporânea: a fase catastrófica em que embarcou a sociedade brasileira assusta pela escala colossal da tragédia autoritária e militarista que vem se empoderando.

O retrocesso brutal agora está encarnado no que venho chamando de “Bozonazismo” – a nova extrema-direita, seguidora de Jair Messias Bolsonaro, que se manifesta no país com brutalidade e descontrole.

O plano deste grupo político elitista, supremacista, interessado sobretudo em lucrar com o entreguismo de riquezas nacionais ao imperialismo Yankee, inclui a instauração de uma espécie de teocracia militarizada à la Gilead.

Refiro-me à distópica sociedade em que se transformou os E.U.A. após um Golpe de Estado fascista-teocrático na série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro da autora canadense Margaret Atwood.

“Extirpar os ativismos”, “fuzilar a petralhada” e “dar carta branca pra polícia matar”: eis algumas das promessas de campanha proferidas pelo presidenciável do PSL (partido que terá a 2º maior bancada da Câmara dos Deputados, só menor que aquela eleita pelo PT). Apesar de fazer pose de “exterminador de corruptos”, Jair Bolsonaro passou a maior parte de sua trajetória política sendo liderado por Paulo Maluf no PP.

Nos palanques pelo Brasil, um dos gestos mais recorrentes do candidato de extrema-direita consiste em pegar crianças no colo e ensiná-las a fazer com as mãos o gesto de atirar uma arma-de-fogo. Comportamento que é um ícone de sua brutalidade. Um indício de que, em matéria de ética, ele age como um neandertal.


É com esse tipo de homem que estamos lidando: alguém que diz que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) “deve ser rasgado e jogado na latrina” (leia em O Globo: https://glo.bo/2BJ7cwr). É só um exemplos dentre dezenas que servem como sintoma claro de que Bolsonaro pretende lançar no lixo ou na privada a Constituição Federal de 1988.

Não há de respeitar a Constituição Cidadã alguém que se diz “favorável à tortura” e que promete transformar em “herói nacional” àquele que foi o comandante supremo, durante a Ditadura civil-militar (1964-1985), do aparato repressivo, torturador e exterminador, o facínora Brilhante Ustra.

PARTE 3 – POLÍTICA DA MORTE: TÂNATOS OPRESSOR DE EROS

O candidato a ditador, escudado por seu vice (o General Mourão), promete derramar muito sangue no Brasil: sua insana proposta para o complexo problema da segurança pública é permitir a aquisição de armas à torto e a direito, para felicidade das megacorporações armamentistas dos EUA, que lucram com a morte e a destruição, em um processo que é pura Necropolítica, conceito de Achille Mbembe:

“Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. Sublinhei igualmente algumas das topografias recalcadas de crueldade (plantation e colônia, em particular) e sugeri que o necropoder embaralha as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, mártir e liberdade.” [Achille Mbembe]

 SOBRE O AUTOR: Mbembe é considerado um dos mais agudos pensadores da atualidade. Leitor de Fanon e Foucault, com notável erudição histórica, filosófica e literária, vira do avesso os consensos sobre a escravidão, a descolonização e a negritude. Nascido nos Camarões, é professor de História e Ciências Políticas em Joanesburgo, bem como na Duke University, nos Estados Unidos. É autor, entre outros, de “Crítica da razão negra”, “De la postcolonie”, “Sortir de la grande nuit” e “Politiques de l´inimitié”.

Bolsonaro parece querer retroceder àquilo que o filósofo Thomas Hobbes chamou, no “Leviatã”, de “Guerra de Todos Contra Todos”. Em uma famosa entrevista ao programa Câmara Aberta, em 23 de maio de 1999, Bolsonaro disse: “Só vai mudar, infelizmente, quando, um dia, nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”

Atentem bem: vocês que digitam o número 17 nas urnas, votando em Bolsonaro, estão dando aval e sendo cúmplices de um sujeito que já disse repetidas vezes que, se depender dele, vão morrer milhares de inocentes durante seu governo – que mais parece, na verdade, um empreendimento bélico.

Os seguidores de Bolsonaro já estão pondo prática essa carnificina no período eleitoral, dando ao povo brasileiro um antegosto do inferno que os Bolsonaristas pretendem instaurar caso sejam eleitos. No período entre o 1º e o 2º turno das Eleições, já são pelo menos 3 vítimas fatais da escalada de ódio, violência e intolerância perpetrados por apoiadores do sr. Jair Bolsonaro:


Vítima: Moa do Katendê.
Local: Salvador – BA.
Data: 15/10/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/DS71oQ

Vítima: Priscila.
Local: São Paulo – SP.
Data: 16/10/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/BsW1yy

Vítima: Laysa Furtano.
Local: Aracaju – SE.
Data: 20/20/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/RCUJDe


Caso esta tragédia se consume e a campanha eleitoral fraudulenta e propulsionada por fake vença nas urnas, o Brasil se tornará, no planeta Terra, uma espécie de paradigma da barbárie, vanguarda do atraso, palco de atrocidades que nos envergonharão diante das outras nações. 

Nenhum governo legítimo nascerá de um processo eleitoral tão marcado por ilegalidades e fraudes. O que permitiu a ascensão de Bolsonaro foi o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff em 2016, ao que somou-se a guerra jurídica ou lawfare que culminou com a prisão de Lula, um “impeachment preventivo” que transformou o Brasil no único país do mundo em que um ex-presidente da república foi encarcerado em ano de Eleições num contexto em que estava disparado em 1º lugar nas intenções de voto. É algo sem precedente global histórico que eu conheça.

PARTE 4 – ELITISMO E HIGIENISMO: UM PROJETO DE CARNIFICINA E GENOCÍDIO


Pregando a violência e o ódio ao seu rebanho de seguidores fanatizados, Bolsonaro cada vez se revela mais como um caso psiquiátrico grave: é um sujeito gravemente adoentado com sintomas de psicose e megalomania. 

A fusão que o Bolsonarismo opera entre o discurso higienista da “faxina” – muito próximo à ideologia nazi-fascista e também às práticas dos supremacistas brancos da KKK nos EUA – e o antipetismo fanático, típico daqueles que são incapazes de fazer qualquer tipo de avaliação sensata sobre os méritos e deméritos das políticas públicas petistas (como a expansão da rede pública de ensino, o combate às desigualdades sociais, os programas sociais de auxílio aos mais vulneráveis e desvalidos etc.) vai produzindo uma monstruosidade coletiva muito perigosa.

É tão perigosa que seria a maior das fake news dizer que o campo Anti-Bolsonarista é apenas um antro dos petistas. O repúdio a Bolsonaro é amplo e irrestrito, atravessa todas as classes sociais, ainda que possua regiões de maior intensidade de resistência (o Nordeste) e que possua nas mulheres a principal força de mobilização contestatária (leia em Vice: As Mulheres Fizeram A Maior Marcha Antifascista do Brasil).

O maior fenômeno de mobilização cívica de 2018 foi sem dúvida o movimento #EleNão, que manifestou a grandeza do repúdio organizado ao projeto de poder, elitista e genocida, da extrema-direita Bolsonarista. A crítica ao Bolsonaro é feita não só pela esquerda (PSOL, PC do B, PT etc.), mas até mesmo por setores mais ao centro e à direita: inclui até mesmo certos tucanos (o FHC já farejou o fascismo das práticas da família Bolsonaro), a maioria dos ciristas (PDTistas) e de marinistas (Marina Silva declara ‘voto crítico’ em Haddad).

 

PARTE 5 – INTOLERÂNCIA SANGUINÁRIA CONTRA A DIVERSIDADE HUMANA


Seguidores de Bolsonaro tem propagado a noção de que “petista bom é petista morto”, mas também a de que “gay bom é gay morto”, “feminista boa é feminista morta”, “sem terra bom é sem terra morto”, e por aí vai.

É uma doutrina que se baseia num tipo de pensamento tosco, maniqueísta, baseado na criminalização do outro e na construção de grandes generalizações imaginárias (“todos os esquerdistas não prestam, todos os petistas são corruptos e ladrões, logo eles precisam ser varridos do Brasil”).

Assim, a extrema-direita apóia milicianos e gangues estão tocando o terror: dando facadas em mestres da cultura popular, desenhando suásticas em mulheres, assassinando brutalmente transexuais, numa atitude de hooliganismo destrutivo que hoje aterroriza o país e que ameaça sair totalmente do controle.

Pois o instigador supremo dessas violências é um completo irresponsável, que diante dos homicídios e agressões perpetrados por seus seguidores diz simplesmente: “O cara lá que tem uma camisa minha comete lá um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?” (Bolsonaro, TV UOL, 10 de outubro de 2018)

Tal grau de irresponsabilidade mostra o total desprepo do candidato para o cargo que ambiciona. O transtornado líder dessa seita, embriagado com a ambição e a sede de poder, como um Macbeth ou um Ricardo III (mas sem a grandeza dos personagens shakespearanos), fala na linguagem dos ditadores brutais. Não se houve de sua boca nada em defesa da democracia. Mas sim elogios e mímesis dos que cometeram as piores atrocidades da História humana.

Bolsonaro promete uma “limpeza como nunca antes houve neste país”, o que soa como uma proposta de higienismo social que assusta pela proximidade com projetos genocidas e totalitários de “limpeza étnica” que constituem, na linguagem penal internacional, “crimes contra a humanidade”.

O pretendente a führer tropical tampouco se importa com esta besteira que são os Direitos Humanos Universais. Já prometeu que vai tirar o Brasil das Nações Unidas (Leia em O Globo: https://glo.bo/2N0tJWO). Para ele, esta babaquice esquerdista que é o Estado Democrático de Direito pode e deve ser sacrificado no altar do seu Estado Teocrático Militarista onde “as minorias tem que se curvar à maioria”.

Na verdade, por trás desta retórica que vem encantando tantos cidadãos brasileiros, frustrados com a política tradicional, está uma velharia mofada que ressurge em nossa história: Bolsonaro é a cara da nossa antiquíssima Elite do Atraso, um macho, branco, milionário, hetero, cis, que encarna tudo aquilo que o velho elitismo defende desde a época da escravatura. É um cara-pálida machista, supremacista racial, favorável aos ricos, apoiador do extermínio da diversidade humana, intolerante com modos de viver e de crer que se desviem de sua norma caduca e esclerosada.

Concedo que nesta tragédia há elementos cômicos – um eleitorado que elege, como fez em São Paulo, um ator pornô, um palhaço (sem muita graça), um herdeiro de um luso monarca, e ainda tem coragem de vomitar xenofobia contra os nordestinos que seriam cabras que “não sabem votar”.

Sabemos muito bem, pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, que o Nordeste foi a única das 5 regiões brasileiras em que Bolsonaro perdeu, seja para Fernando Haddad, seja para Ciro Gomes. Sinal de que o Nordeste tornou-se a vanguarda ética da nação, o Nordeste é nossa estrela-guia para tentar “re-iluminar” o resto do Brasil, que tem estado refém das trevas de um obscurantismo fundamentalista que pôs a democracia na guilhotina.

PARTE 6 – UMA CATÁSTROFE PARA A EDUCAÇÃO E A CULTURA

Após o Golpe de Estado de 2016, vimos o governo Temer nascer instaurando o que foi chamado de Machistério: só havia homens, brancos e ricos comandando 100% dos Ministérios. Como nada é tão ruim que não possa piorar, a promessa de Bolsonaro é encher os Ministérios com militares, inclusive o Ministério da Educação – MEC: Bolsonaro já se manifestou no sentido de sua predisposição ao extermínio da obra e da influência pedagógico-política de Paulo Freire, considerado mundo afora como um dos pensadores brasileiros mais brilhantes que já nasceu. O “Andarilho da Utopia”, como Paulo Freire gostava de se referir a si mesmo, também está sob ameaça.

Como informa a reportagem de Época, segundo Bolsonaro, defensor do Escola Sem Partido (que é também o Escola Sem Darwin, o Escola sem Marx, o Escola Sem Nietzsche…), lá no MEC o plano é esta beleza: tem que pôr lá um milico, de pulso firme, que extirpe o “esquerdismo”: “Tem de ser alguém que chegue com um lança-chama e toque fogo no Paulo Freire.” 

E vocês pensando que Farenheit 451 era só uma obra de ficção científica sci-fi!  Bolsonaro disse que seu programa vai ser usar o “lança-chamas” contra o Paulo Freire, igual aos bombeiros que, ao invés de apagarem incêndios, botam fogo em bibliotecas no romance de Ray Bradbury, filmado por François Truffaut, e que voltou aos cinemas na era Trump-Bolsonaro em produção da HBO.

Nenhum compromisso com a verdade, com a cultura, com o conhecimento, com a ciência. Bolsonaro só pensa em dinheiro e poder para pôr em prática seus ensandecidos planos de “purificação” da nação. Seu slogan é “Brasil acima de tudo” (similar ao Deuteschland Ubber Allez dos nazis alemães) e “Deus acima de todos” (o Deus como o concebem os evangélicos neopentecostais estupidificados pelas organizações teocráticas de Edir Macedo, Malafaia, Feliciano etc.).

É a distopia total da união de um nacionalismo fake, conversa pra boi dormir diante da explícita submissão vira-latística do Bolsonarismo aos EUA de Trump, com a teocracia do setor mais fundamentalista e obscurantista do mercado-da-fé no capitalismo brasileiro contemporâneo. Tudo o que Bolsonaro mais quer é poder ir lamber as botas de Trump na Casa Branca, faturando bilhões para si mesmo ao liberar o nosso petróleo e nossa Amazônia, além de nossa água doce e nosso espaço aéreo, para a exploração “livre” por parte do Império hoje gerido por um fascista, xenófobo, supremacista branco, cúmplice do genocídio do povo palestino.

PARTE 7 – QUANDO O NARIZ DE PINÓQUIO BATEU NOS ANÉIS DE SATURNO

O candidato Bolsonaro, além de basear sua campanha em mentiras difundidas em larga escala através de impulsionamentos patrocinados via caixa 2 (dinheiro investido por empresas que, aliás, estão diretamente interessadas na devastação de nossos direitos trabalhistas), também tem uma espécie de “plano piromaníaco” para a educação e a cultura. Um plano parecido com o de Nero, o incendiário de Roma.

Um programa que obviamente não tem compromisso algum com o processo coletivo de busca da verdade que engaja profissionais de tantas áreas, do jornalismo, da filosofia, das ciências sociais, da literatura, das artes, da tecnologia etc. Toda barbárie está liberada quando o líder supremo, como Goebbels no III Reich, como o Grande Irmão no 1984 de Orwell, julga-se no direito de mentir em massa. Aniquilando reputações a base de calúnias, difamações e memes ridicularizadores e mentirosos. Tudo com dinheiro ilegal vindo de empresas simpáticas ao projeto de aniquilação (lucrativa pro patronato) dos direitos trabalhistas.

É de se imaginar, num virtual regime Bolsonarista, o seguinte quadro aterrador para a educação e a cultura. Os militares estarão no domínio no MEC e no MinC. Estarão mobilizando o polvo repressor da Escola Sem Partido, mandando artistas e intelectuais pros novos porões do DOI-CODI. Os educadores considerados subversivos, pois aplicam a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, vão berrar no pau-de-arara… De agora em diante, só Educação Moral e Cívica, só Doutrinação Criacionista! E que se calem aqueles que não querem ser as bruxas e os hereges queimados na Nova Inquisição!

Os piromaníacos, os “profissionais da violência”, as milícias Bolsonaristas, neste futuro possível (ainda que intragável) podem aproveitar que o fogo das intolerâncias está acesso e ir no embalo da queima não só dos livros de Paulo Freire. O lança-chamas será também usado contra Charles Darwin, de Karl Marx, de Friedrich Nietzsche, de Judith Butler, de Jessé Souza… Arderá todo o “lixo esquerdista”: será a Segunda Morte de Rosa Luxemburgo, de Gramsci, de Mandela, de Malcolm X….

Os BolsoNeros também podem empolgar-se na piromania e tacar nas fogueiras também os professores de biologia que queiram ensinar o evolucionismo. Ou os professores de sociologia vão gemer torturas nos porões das delegacias militares para abjurar do pecado de ensinar Marx, Engels e Max Weber. Os professores de filosofia que julgam digna de ser ensinada na escola a vida e obra de figuras como Walter Benjamin ou George Lúkacs, serão truculentamente levados aos centros de detenção e “interrogatório” onde sangram aqueles que ensinam “lixo esquerdista”.

Pode até parecer que estou paranóico, que estou dando asas demais à minha imaginação distópica, mas lembro-me agora da frase de William Burroughs de que Kurt Cobain tanto gostava e que contrabandeou para dentro de uma música do Nirvana: “just because you’re paranoid, don’t mean they’re not after you”.

Na Alemanha do III Reich, os nazistas fizeram muitas fogueiras de livros. Fizeram também campos de extermínio e câmaras de gás em que tentaram reduzir a cinzas todo o povo judeu no processo que ficou conhecido como Solução Final. Puderam convencer boa parte do povo alemão a ser cúmplice do Holocausto – em um processo social desastroso, onde passa a ser dominante a obediência cega e servil aos ditames da tirania nazi e que a filósofa política Hannah Arendt conceituou como  “A Banalidade do Mal”, um dos mais importantes conceitos na história do pensamento do século XX.

PARTE 8 – A ESPERANÇA EQUILIBRISTA ESTÁ COM HADDAD E MANU

O Brasil, em Outubro de 2018, está diante de uma encruzilhada histórica colossal, em que nosso futuro coletivo está na balança. A maioria do eleitorado pode eleger um psicopata que promete a carnificina, a guerra, a violência, a intolerância, o destravamento de todos os ódios, o colapso de toda solidariedade e toda justiça. Pode acontecer, mas seria catastrófico, segundo todas as mais lúcidas previsões e prognósticos de gabaritados historiadores, sociólogos e filósofos.

Nós, que amamos a democracia e a liberdade, que somos educadores e intelectuais comprometidos com a defesa dos direitos humanos, que não aceitamos o argumento de que “ativismos” devem ser extirpados, prosseguimos incansavelmente na ação de conscientização para alertar o cidadão brasileiro do tiro-na-cabeça que é digitar 17 nas urnas.

Ao invés deste sádico opressor que é Bolsonaro, temos a oportunidade de eleger um sábio professor que é Fernando Haddad. É evidente para qualquer cidadão que não esteja cego pelo fanatismo que Haddad é um gestor público de comprovada competência, que realizou um primoroso trabalho como Ministro da Educação do governo Lula. Foi um prefeito de São Paulo premiado internacionalmente pelo seu trabalho inovador e humanista no processo desafiador de governar a maior cidade da América Latina. Sua mentora, a filósofa Marilena Chauí, garante-nos sobre as muitas excelências éticas e intelectuais de Haddad.

Haddad é um líder de centro-esquerda inteligente, dinâmico, capaz de diálogo amplo com todos os setores da sociedade brasileira. Sempre portou-se de maneira honesta, íntegro e digna, sempre na defesa dos valores civilizacionais elementares de uma república democrática como o Iluminismo a idealizou na “Era das Luzes”. É um intelectual crítico, iluminista, humanista, com incríveis capacidades no âmbito da práxis e da gestão pública.

Ao invés da carnificina que a extrema-direita fascista deseja instaurar, derramando o sangue dos inocentes, podemos eleger o projeto de valorização da educação e do trabalho, dos serviços públicos e da qualidade de vida, que hoje Haddad defende e representa.

 

O antipetismo de alguns atingiu tal grau de insanidade que, motivados pelo ódio irracional, alguns aplaudem quando seu líder Bolsonaro diz que “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” e que “bandidos do MST e MTST” terão suas “ações tipificadas como terrorismo” (leia em UOL Notícias – https://bit.ly/2AlK4S0).

O discurso de Bolsonaro exibido num telão na Avenida Paulista em 21 de Outubro, faltando uma semana das eleições, nos dá o alerta: estamos diante de um tirano intolerante que pretende perseguir, silenciar ou mesmo assassinar impiedosamente, usando a máquina de repressão do Estado, os cidadãos que participam de movimentos sociais e partidos políticos estigmatizados como “esquerdistas e marginais”. Bolsonaro é a barbárie, e quem o apóia é cúmplice do projeto político mais exterminador, estúpido e nefasto da história da Nova República.

O que há de mais precioso na vida política popular do Brasil são aqueles que mobilizam-se por justiça no campo e na cidade, que querem a reforma agrária e o direito à moradia, que demandam condições dignas de existência e de florescimento. Temos a oportunidade histórica de empoderar, com a eleição do presidente Fernando Haddad, um projeto de Brasil muito mais justo, generoso, solidário, fraternal, inteligente, amoroso e sábio. Que saiba ouvir a sociedade civil organizada, ajudar a empoderá-la, criando condições para uma ressurreição democrática entre nós.

Votar Haddad é votar num Brasil que possa ter um futuro mais doce: o do diálogo democrático e colaborativo, re-instaurado. Bolsonaro só nos obrigará a beber um amargo cálice de Necropolítica, feito todo de intragáveis doses de silenciamento, brutalidade e carnificina, um projeto que inclui um grotesco massacre dos inocentes e uma tirania militarizada e teocrática que nos leva de volta à Idade das Trevas.

Sempre que deparo com os “Bozominions” (esta versão fascista do Coxinha) falando horrores criminalizadores sobre o PT, penso que o PT – Partido dos Trabalhadores merece mais respeito. É de um desrespeito brutal o que os Bozominions fazem com a biografia e a trajetória de Lula, Dilma, Haddad, Lindbergh etc. Tratá-lo como “organização criminosa” não é só falso, desonesto e obsceno, é um verdadeiro crime contra um partido que faz parte da nossa História há 38 anos e cuja trajetória merece ser estudada, avaliada, criticada, mas jamais descartada nem muito menos exterminada.

Ao final do mandato de 8 anos de Lula, o Brasil era um dos países mais admirados do mundo e vencia com ousadia alguns dos piores males que lhe haviam sido legados pelo passado de colônia e de ditadura. Vomitar o slogan “O PT é ladrão” jamais vai apagar os feitos de quem retirou 40 milhões de pessoas da miséria, fortaleceu o salário mínimo, levou-nos a um estado de pleno emprego, ampliou Universidades Federais e IFs como nunca antes na História, fortaleceu o SUS, criou Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, ProUni, Cultura Viva, dentre tantos outros programas sociais de valor e mérito que merecem nossa estima.

 

PARTE 9 – O FALSO DEUS DOS PSEUDO-MESSIAS

O grau de obscurantismo da extrema-direita brasileira nos ameaça com a instauração de um nova idade trevosa, com milícias à la Ku Klux Klan acendendo as fogueiras das novas intolerâncias. Sabemos que o tropicalführer está apoiando-se no poderio das igrejas neopentecostai$ do Brasil. Malafaia, Feliciano, Edir Macedo, Jair Bolsonaro: são “poderosos” da mesma laia.

São a laia dos mercadores de ilusões, megalomaníacos, doidos de ambição pela conquista do poder político, mercadores da fé que querem violar todos os princípios do Estado Laico, para que se empoderem para disseminar por toda parte o seu fundamentalismo ultracapitalista. Chamemos isso de Teologia da Prosperidade, nas antípodas da Teologia da Libertação defendida por Leonardo Boff, Frei Betto, dentre outros cristão progressistas.

O Bolsonarismo é aliado de empreendimentos como a UIRD e a Record, de Edir Macedo. A Indústria da Mentira une Bolsonaro e Macedo, e é justamente a mentira que lhes serve como lucrativa mercadoria, que tantos milhões de reais injeta nas máquinas de que eles são os patrões: suas “grandes empresas, imensos negócios”.

Para sua diabólica maquinaria de enganação em massa, estão usando o spam das mídias sociais para praticar a desinformação e também altas doses de calúnia e a difamação contra os adversários políticos. Estão produzindo, com isso, violento sectarismo, intensificação dos ódios e das violência, além de propagarem um tipo de subjetividade lamentável: os cabaços de Whatsapp, aqueles analfabetos políticos, que compartilham material falso e degradante.

 

Justificando​ – Bolsonaro, com seu discurso teocrático, agradou uma expressiva parcela de cristãos que – traindo o Evangelho de amor e paz, pregado por Cristo – estão propagando o ódio e o extermínio ao inimigo construído no imaginário (esquerdista, petralha, LGBTQIA+, comunista, minorias etc.), ou seja, tudo aquilo que, supostamente, não siga a cartilha idealizada do fundamentalismo religioso. São reedições sucessivas da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, embora tenhamos uma forte resistência de muitos cristãos contra esse avanço inquisitório da fé.

Isso revela um cenário preocupante de desejos e afetos que estavam represados. Não é à toa que, quando a comporta da represa foi aberta e Bolsonaro apareceu como mensageiro, o ódio e a vontade de exterminar tiveram tanta força. Portanto, torna-se bastante curioso que o lema da campanha de Bolsonaro seja “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está em curso, no país, uma ressignificação interpretativa do que são valores cristãos por parte de um setor interno barulhento e com capilaridade política. É uma abordagem autoritária, com táticas eficazes de instrumentalização do medo do “inimigo”. A institucionalização da lógica bélica de professar a fé abandonou, de vez, os lindos ensinamentos bíblicos previstos em 1 Samuel (25:31), Mateus (5:38-48; 25:35-46), Romanos (12:20,21; 12-14), João (13:33-35), Efésios (4:31,32), Gálatas (5:14,15) e (Lucas 10:25-37). O Deus da vingança e da “justiça” sem misericórdia encontrou vários porta-vozes.

Mas não nos esqueçamos do que essa distorção gerou ao longo da história. Não nos esqueçamos do genocídio indígena, da escravidão e destruição dos negros, da Inquisição, da morte de mulheres nas fogueiras, do fascismo, da ditadura civil-militar de 1964, entre outras atrocidades. Nesse passado sombrio, a legitimação religiosa foi fundamental. Não esqueçamos que a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) apoiou o golpe de 64. Não nos esqueçamos da ligação do papa Pio XI com o ditador Benito Mussolini na ascensão do fascismo italiano. E hoje, reproduzindo erros do passado, temos um reencontro de vários setores cristãos com um presidenciável que elogia a ditadura civil-militar de 1964, bem como os torturadores dessa ditadura, além de ter, em seu gabinete parlamentar, 05 quadros com a foto dos 05 ditadores daquele período tenebroso de nossa história.

Jesus não é responsável por esse derramamento de sangue. Esse derramamento de sangue jorra das mãos daqueles que usam a religião para legitimar e promover a destruição do “outro” ou, quando distorcem os ensinamentos de Cristo, para capitalizar o ódio. Jesus é paz, amor, misericórdia e compaixão. Cristo viveu ao lado dos marginalizados. Jesus é celebração da vida, e não da morte. Talvez muitos cristãos não entendam o ritual do papa ao se ajoelhar e lavar os pés dos presos. Nesse ritual, o papa Francisco já disse aos presos: “Sou pecador como vocês”. O problema é que, em muitas igrejas, fazem falta pecadores com esse grau de espiritualidade. Ao resultado, estamos assistindo horrorizados. A teocracia bolsonariana avança. E Deus nos livre.

http://www.justificando.com/2018/10/08/a-teocracia-bolsonariana/

Os algozes – Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano, mercadores de ilusões que ficaram milionários na indústria da mentira e da exploração das ingenuidades alheias – já preparam as lâminas para o lamentável espetáculo. Jair Bolsonaro foi convidado para essa lúgubre cerimônia para que possa ir lá, ao cadafalso onde a democracia faz acorrentada (como Lula na PF de Curitiba), e acionar a queda da lâmina. Para depois sair de cena, descartado como uma palhaço patético mas bem útil, cedendo espaço a uma Junta Militar. O Vampirão Temer tratará ser o mordomo dessa tenebrosa transação. Um acordo de cúpulas entre golpistas, roubando a mente de massas gigantescas de cidadãos alienados que só vão perceber que foram enganados e estiveram equivocados quando já for tarde demais.

O Brasil vai se tornando um dos epicentros globais do fascismo empoderado. E isso graças às desgraças que acarreta por aqui a nossa Elite do Atraso, como o sociólogo Jessé de Souza a batizou. Nós, que anos atrás oferecíamos ao mundo todo um paradigma de excelência em matéria de gestão do Bem-Estar Social através das políticas públicas criadas e aplicadas pelo governo Lula, hoje estamos decaídos a uma espécie de republiqueta de bananas que ameaça instaurar, com Bolsonaro, uma espécie de sub-führerdom que responde às ordens lá de cima: não de Deus, como reza o slogan (também ele fake), mas sim de Mr. Donald Trump.

O brasil era visto internacionalmente como um farol e uma inspiração para que a Europa, a América do Norte e a Ásia pudessem não se destruir no processo de navegar as turbulentas marés criadas pela crise econômica de 2008. O PT navegou através de uma das piores crises desde o crack de New York em 1929 que dá início à Grande Depressão dos anos 1930.  uma espécie de hospedeiro de um câncer que ameaça se espalhar pelo mundo inteiro.

Leandro Karnal tem um ótimo vídeo em que explica o óbvio: “quem defende torturador é inimigo de Cristo”:

Nele, Karnal explica porque é absurda e sem noção a atitude de qualquer cristão que apoia Bolsonaro, um defensor da tortura, que prometeu transformar o facínora Ustra em herói nacional, o que já é prova de que o candidato do PSL é um sujeito de péssimo caráter e um canalha completo.

Alguém que em sua vida jamais trouxe nenhum benefício ao povo brasileiro, já que sua vida se resume em propagar o ódio, a violência e a discórdia, Bolsonaro é o completo oposto de Jesus de Nazaré, cuja mensagem resume-se em ensinamentos como “amai-vos uns aos outros”, “ofereça a outra face a quem te ofendeu”, propagando virtudes de resistência pacífica, empatia com os fracos e oprimidos, além denúncia dos ricos (a quem estará vedada a entrada no Reino) e da expulsão dos vendilhões do templo.

Se vivesse naquela época em que Jesus foi morto, Bolsonaro estaria entre os torturadores e assassinos de Cristo – e os Bolsominions estariam se deleitando com o espetáculo e gritando para o algoz: “mito! mito!”. E Bolsonaro estaria urrando de gozo sádico diante do torturado com a coroa de espinhos. Pois Bolsonaro é isso: um doente mental que goza com a crueldade que ele propaga. Os católicos e evangélicos que estão apoiando esse Coiso não entenderam nada sobre o cristianismo: tem que ser muito cego e alienado pra ficar lambendo a bota deste pseudo-Messias que vomita ódio por todos os poros. Bozo é o Anticristo e um baita dum engana-otário. E clamamos aos iludidos: acordem antes da tragédia! #EleNão

A atual ascensão do “Fascismo Evangélico” já estava prenunciada pelos “Gladiadores do Altar”, projeto que chocou o Brasil alguns anos atrás: nele, a mega-organização chefiada por Edir Macedo, a Igreja Universal do Reino de Deus, começou a recrutar soldados para um “Exército do Senhor” (https://bit.ly/2J1LvrK).

Os mercadores de ilusões agora abraçam de vez o Capeta: a Rede Record, em atitude execrável, não vê problemas em violar a legislação eleitoral para colocar todos os holofotes de seu canal de TV e seu portal R7 como palanque para o fascista-facínora.

Além disso, a 3º esposa do Coiso, Michelle Bolsonaro, provável Primeira Dama do Brasil em um governo Bozonazista, é uma das crias e das prediletas de Silas Malafaia (https://bit.ly/2P286cW) – e seria, ainda mais que Marcela Temer, a imposição de um modelo feminino “bela, recatada e do lar”, somando-se a isso o agravante: “fanática e descerebrada”.

Já sabíamos que havia este perigo rondando o frágil Estado Laico do Brasil quando Marco Feliciano pôde levar todo seu obscurantismo para o Comitê de Ética e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Esta tendência lamentável se aprofunda.

Também ficamos chocados, durante o impeachment de 2016, com a quantidade de parlamentares ficha-suja, investigados por corrupção, co-partícipes de um golpe de Estado contra a presidenta legítima, que votaram sim ao impeachment “em nome de Deus” e da Família Tradicional Brasileira.

Os gremlins do Bozo vomitam sem parar a frase “o PT vai transformar o Brasil numa Venezuela”, quando o projeto deles é nos transformar num Afeganistão sob o Taleban. Uma teocracia militarizada que lembra a distopia de Gilead em The Handmaid’s Tale.

O plano deles: retroceder o Brasil para 50 anos atrás – época do AI-5 (1968 a 1978). A gente elege Bolsonaro primeiro, depois a gente sai das Nações Unidas, pra não se preocupar com essa besteira que são os Direitos Humanos, uma invenção comunista para defender bandido. E depois a gente começa a Cruzada do Homem de Bem para “extirpar os ativismos”, começando por “fuzilar a petralhada” (cito frases do führer, que parece não ter compreendido nada do que disse Jesus de Nazaré com “amai-vos uns aos outros”).

Eles vão re-acender por aqui as fogueiras da Inquisição e tacar os livros e os professores de esquerda lá dentro – vai ser Farenheit 451 em meio à barbárie do neo-fascismo tropical. E haverá uma horda de imbecis que vão aplaudir a carnificina diabólica, dizendo amém a um deus que nunca existiu: o deus da intolerância e do obscurantismo, o deus homóbico e genocida de Sodoma e Gomorra, o deus que o ser humano inventou como pretexto para cometer as piores atrocidades na crença absurda de que derramando o sangue dos ímpios está comprando com isso um tíquete de entrada no Céu.

Triste pátria fanatizada por pastores corruptos e falsos profetas da Salvação!

PARTE 10 – A TORTURA É CRIME HEDIONDO, MAS OS BOLSOMINIONS PASSAM PANO

Vivemos tempos tão tenebrosos que é preciso explicar o óbvio: tornou-se tarefa dos cidadãos que ainda possuem o mínimo de lucidez, sensatez e senso ético elucidarem, para uma parcela imensa demais de um povo, porque não há nada de bom a esperar do processo de empoderamento de um facínora psicopata, que faz apologia da tortura e deseja transformar Ustra em herói nacional.

Em um país mais civilizado, dizer estas obviedades – que a tortura é um crime hediondo, que fazer o elogio de torturadores é sintoma de sadismo, perversidade e outras patologias psíquicas-afetivas etc. – seria desnecessário, pois já seria consenso social básico. No Brasil, sob o feitiço maléfico do Bozonazismo, tornou-se necessário relembrar as atrocidades cometidas pela Ditadura Militar, quando estamos sob a ameaça de que aqueles horrores recomecem.

Entre nós, falar sobre tortura tornou-se necessário e inadiável, dada a conexão umbilical de Bolsonaro com o elogio destas práticas de brutalidade contra o outro. O duro é que muitas vezes encontramos, no eleitorado que vota 17 com fanatismo e convicção inabaláveis, com ouvidos trancados. São pessoas dogmatizadas e intolerantes, que mobilizam todo um arsenal de racionalizações destinadas a justificar o injustificável. Você tenta criticar a postura aberrante e lamentável de um político que idolatra torturadores e puxa o saco do Ustra – e as pessoas logo dão um jeito de retrucar metendo o Lula ou o Marighella na história, para desviar o papo para os supostos “crimes dos esquerdistas” que supostamente justificariam, em todos os tempos, os tratamentos brutais “corretivos” que lhes foram infligidos.

Desfazer adesões de brasileiros à maré fascista / Bolsonarista tornou-se uma espécie de absurdo trabalho de Sísifo, pois muitos eleitores do Coiso não são capazes de ver sua adesão ao facínora abalada nem mesmo por tantas evidências de que Bolsonaro é um pretendente a tirano, doentio em sua megalomania, com ‘delírios de onipotência’ (como bem disse Ivana Bentes), que vomita um discurso de ódio e de segregação muito similar àquele de líderes que estiveram à frente de regimes totalitários e genocidas.

Empoderá-lo não tem a mínima chance de acabar bem.

O TSE, que censurou a veiculação deste vídeo na TV, tenta amordaçar o PT quando este procura resgatar verdades históricas e informar a opinião pública sobre o tipo de caráter diabólico que encontra seu porta-voz em Bolsonaro. Já em relação ao #caixa2doBolsonaro para disparar milhões de mensagens caluniosas, notícias falsas e memes de assassinato de reputações, o TSE mostra-se conivente, acovardado e até mesmo cúmplice deste processo golpista que envolve dúzias de empresas brasileiras que já aderiram ao Capitalismo Fascista, ao Neoliberalismo Militarizado.

Em outras palavras: o PT é silenciado e censurado por revelar a verdade, em um vídeo alinhado com os ideais e práticas da Comissão Nacional da Verdade, importante iniciativa do primeiro mandato de Dilma Rousseff; já a extrema-direita recebe carta branca para seguir fraudando a lisura do processo eleitoral com uma campanha de sórdida enganação e manipulação da opinião pública (com o beneplácito de Steve Bannon e Trump, da Havan e Edir Macedo, da Record e da Globo, tudo construído sobre a fraude jurídica que excluiu Lula das eleições, botando fogo no Comitê de Direitos Humanos da ONU e picando em pedacinhos a Constituição de 1988.

ASSISTA AO VÍDEO – via Meu Professor de História:

https://www.facebook.com/MPHistoria/videos/980852965581631/

 

PARTE 11 – NÓS SOMOS A ÚLTIMA BARREIRA CONTRA O FASCISMO

O Estado autoritário, ultra-conservador nos costumes, apesar de ultra-liberal na economia, que está sendo proposto pelo Bolsonarismo, tem a cara fétida de um Leviatã Hobbesiano: vende-se a idéia de que esse Monstro de autoritarismo e militarismo virá para o benefício de todos, para “limpar toda a corrupção do Brasil”. Mas este Leviatã ensandecido que é o projeto político Bolsonarista não vem para pactuar uma paz, mas sim para destravar a mais feroz guerra de todos contra todos.

 O cidadão brasileiro ainda não percebeu o tamanho do risco de processos bélicos (guerra civil ou guerra internacional) que se tornam agora muito mais palpáveis e possíveis entre nós. Por falta de formação política, a maioria do povo brasileiro não conheço o ovo da serpente do fascismo, não sabe de seus estragos, não sabe da dificuldade de vencê-lo, uma vez que ele conquista o domínio do Estado (como foi com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Franco na Espanha, Hitler na Alemanha). Muito sangue é derramado para des-empoderar o fascismo, uma vez este tenha se apoderado do Estado.

O Brasil vai se tornando um dos epicentros globais do fascismo empoderado. E isso graças às desgraças que acarreta por aqui a nossa Elite do Atraso, como o sociólogo Jessé de Souza a batizou. Nós, que anos atrás oferecíamos ao mundo todo um paradigma de excelência em matéria de gestão do Bem-Estar Social através das políticas públicas criadas e aplicadas pelo governo Lula, hoje estamos decaídos a uma espécie de republiqueta de bananas que ameaça instaurar, com Bolsonaro, uma espécie de sub-führerdom que responde às ordens lá de cima: não de Deus, como reza o slogan (também ele fake!), mas sim de Mr. Donald Trump.

O Brasil da Era Lula era visto internacionalmente como um farol e uma inspiração para que a Europa, a América do Norte e a Ásia pudessem não se destruir no processo de navegar as turbulentas marés criadas pela crise econômica de 2008. O PT navegou através de uma das piores crises desde o crack de New York em 1929 que dá início à Grande Depressão dos anos 1930.  uma espécie de hospedeiro de um câncer que ameaça se espalhar pelo mundo inteiro.

Segundo o filósofo e professor da USP, Vladimir Safatle, as 4 características do fascismo são:

1- Culto da violência.
2- Culto do Estado-nação paranóico.
3- Insensibilidade absoluta em relação às classes mais vulneráveis.
4- Entregar todo seu poder para um líder “cômico” que fala o que quiser sem nenhuma responsabilidade.

Nós agora somos a última barreira contra o fascismo. Ele fere nossa existência, então seremos resistência. Seguiremos criando novas maneiras de viver e conviver. Como disse Luis Felipe Miguel em um excelente artigo publicado no Blog da Boitempo: “entre o fascismo e nós, só há nós”: 

Com o golpe de 2016, as condições da disputa política no Brasil entraram em processo de rápida deterioração. A institucionalidade fundada na Constituição dita “cidadã” opera de maneira cada vez mais precária; suas garantias são cada vez mais incertas. A prisão do ex-presidente Lula, após julgamento de exceção, ao arrepio do texto expresso da própria Carta de 1988 e com inequívoca intenção de influenciar no processo eleitoral, simboliza com precisão a situação em que nos encontramos.

Ao mesmo tempo, a violência política aberta se alastra, seja por meio dos agentes do Estado (como mostra a repressão cada vez mais truculenta às manifestações populares e a perseguição aos movimentos sociais), seja contando com sua complacência. Das tentativas de intimidação à expressão de posições à esquerda em espaços públicos ao brutal assassinato da vereadora Marielle Franco (e de seu motorista Anderson Gomes), passando pelos atentados às caravanas de Lula, são muitos os episódios que revelam essa escalada.

Há rincões em que o assassinato político nunca deixou de existir – somos um país em que o latifúndio nunca parou de matar lideranças camponesas, por exemplo. Neles, o golpe agravou o quadro, dada a sensação de “porteiras abertas” que o retrocesso no Brasil gera para os mandantes dos crimes. E, nos lugares em que o conflito político apresentava um verniz mais civilizado, regredimos para patamar inferior.” – BLOG DA EDITORA BOITEMPO

por Eduardo Carli de Moraes, Professor de Filosofia, IFG.
22 de Outubro de 2018

“Escola Sem Partido: esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira” – Acesse o ebook (Gaudêncio Frigotto – org., UERJ, 2017)

Livro “Escola Sem Partido: esfinge que ameaça a educação e a sociedade brasileira”, organizado pelo professor Gaudêncio Frigotto, publicado pelo Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), disponível para download. Acesse ebook completo: http://bit.ly/2vzqPn6.

A FILOSOFIA, O TEATRO E A REVOLUÇÃO: Ensaios para uma Reunião (por Eduardo Carli de Moraes em A Casa de Vidro)

Teatro do Oprimido Em Ação! (1975)

Augusto Boal gostava de dizer que “nada é, tudo está sendo”, como relembra seu filho Julián no posfácio do livro Teatro do Oprimido: “talvez porque tinha o espírito de um dialético, por demais consciente dos processos que transformam constantemente o mundo, meu pai jamais elaborou uma definição globalizante do Oprimido, do Opressor ou da Opressão. Estas palavras não podem ser reduzidas a uma visão maniqueísta do mundo. Um trabalhador oprimido pela exploração capitalista pode ser também um marido opressor que bate na mulher.” (JULIÁN BOAL, p. 214, 215)

O Teatro do Oprimido, de maneira análoga à Pedagogia de Paulo Freire, concebe a realidade como algo dinâmico, em perene devir, o que implica que ninguém é opressor ou oprimido – está sendo. É tarefa tanto da arte quanto da educação contribuir com o advento de uma sociedade sem opressão, utopia que pulsa no seio daquilo que Boal gostava de chamar de Poética do Oprimido e que “propõe a própria ação” – o teatro como ensaio da revolução:

“O que a Poética do Oprimido propõe é a própria ação! O espectador não delega poderes ao personagem para que atue nem para que pense em seu lugar, ao contrário, ele mesmo assume um papel protagônico, transforma a ação dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando-se para a ação real. Por isso, eu creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente por ser um excelente ensaio da revolução…” (AUGUSTO BOAL, Teatro do Oprimido, pg. 124)


Boal, na esteira de figuras como Bertolt Brecht e Paulo Freire, idealizou e concretizou uma prática social, essencialmente coletiva e inter-relacional, onde o teatro, a revolução e a filosofia dão-se as mãos, em congregação, em reunião, somando suas forças, reconhecendo seus vínculos, sintetizando-se em algo que as transcende. Nasce um teatro-filosófico-revolucionário, arte que é práxis transformadora, força coletiva que serva para debater nossa situação concreta em vários contextos sócio-históricos, testando possíveis soluções para conflitos reais. A Estética do Oprimido deseja ser eficaz força concreta que se insere no devir do mundo para buscar nele agir como força crítico-construtiva, transformadora, des-opressora.

Um exemplo concreto pode ser eloquente: no Peru, um trabalhador de um porto pesqueiro relata seus terríveis sofrimentos, pois “tinha um patrão terrivelmente explorador, que obrigava os operários a trabalhar das 8 horas da manhã às 8 da noite… 12 horas de trabalho contínuo. Todos pensavam  em lutar contra essa exploração desumana.” (p. 145)

Trata-se de um problema concreto, vivido por seres humanos de carne-e-osso, que penam, que suam, que choram, que sofrem: é a humilhação, a ofensa, sentida na pele. O teatro, como ensaio da revolução, como ferramenta para um debate filosófico sobre a ação humana, intervêm aí servindo como arena para que várias opções de comportamento sejam avaliadas. Alguns propõe “atirar uma bomba e incendiar a fábrica”; outros, acham preferível uma greve; outros ainda, sustentam que o melhor de fato é fundar um sindicato. Como decidir?

A democracia simples – votar e deixar a maioria decidir – possui muitas falhas caso antes da votação não se exercitar uma deliberação, uma conscientização, um esforço conjunto de compreensão, que sopese as consequências possíveis e desejáveis de cada curso de ação. Daí a importância, não apenas política, mas filosófica também, do teatro como arena de debate público. Qualquer ágora fica manca e capenga sem que haja nela teatro e filosofia.

O “teatro-debate”, também conhecido como “teatro-fórum”, como sublinha Boal, “não tem a finalidade de mostrar o caminho correto… mas sim a de oferecer os meios para que todos os caminhos sejam estudados. Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas essas formas teatrais são certamente um ensaio da revolução. A verdade é que o espectador-ator pratica um ato real, mesmo que o faça na ficção de uma cena teatral. Enquanto ensaia jogar uma bomba no espaço cênico, está concretamente ensaiando como se joga uma bomba; quando tenta organizar uma greve, está concretamente organizando uma greve. Dentro dos seus termos fictícios, a experiência é concreta.

Aqui não se produz de nenhuma maneira o efeito catártico. Estamos acostumados a peças em que os personagens fazem a revolução no palco, e os espectadores se sentem revolucionários triunfadores, sentados nas suas poltronas, e assim purgam seu ímpeto revolucionário: para que fazer a revolução na realidade, se já a fizemos no teatro? Mas isso não acontece neste caso: o ‘ensaio’ estimula a praticar o ato na realidade. O teatro-debate e essas outras formas de teatro popular, em vez de tirar algo do espectador, pelo contrário, infundem no espectador o desejo de praticar na realidade o ato ensaiado no teatro. A prática dessas formas teatrais cria uma espécie de insatisfação que necessita complementar-se através da ação real.”  (p. 147)

O ser humano, que segundo Jean-Paul Sartre está “condenado à liberdade”, segundo Boal está condenado à criatividade. E criativíssimo Boal foi, inventando e re-inventando o teatro, que ia buscar inspiração nos jornais, prenunciando a Imprensa Cantada de Tom Zé, nos sindicatos e greves da classe proletária em movimentação (tema do clássico Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri), praticando até mesmo o teatro invisível, aquele que transborda para fora do teatro, esparrama-se pela cidade, ganhando praças, escolas, parlamentos, penitenciárias…

A ousadia de figuras Boal ensina-nos que a arte não pode se resignar a espaços estreitos e fechados, precisa sair em aventura e respirar em ar livre, indo em busca de seus públicos por aí, principalmente entre aqueles que não conseguem pagar os caros ingressos do teatro burguês. Aqueles que menos podem pagar os ingressos para entrar no teatro são aqueles que, no fundo, mais precisam do Teatro do Oprimido, que oferta-se como um arma de libertação a serviço da tarefa interminável da des-opressão, da criação de alguns dos “muitos mundos possíveis” (outra expressão de Boal).

Não sejamos, porém, reducionistas. Tomar partido não significa reduzir o mundo a um combate épico entre mocinhos e bandidos, heróis e vilões. Boal não quer enxergar o mundo em preto-e-branco, mas sim quer que enxerguemos todo o arco-íris do desejo, the rainbow of desire. Nem oprimidos, nem opressores, podem ser confundidos com anjos e demônios; “quase não existem em estado puro, nem uns nem outros” (p. 21).

Cada um de nós, se tiver a coragem da autocrítica, pode descobrir dentro de si tanto o oprimido quanto o opressor – e, na fábrica, Fulano pode ser humilhado pelo patrão, oprimido que vai calando sua revolta, para depois em casa tornar-se o tirano dos filhos, autoritário ou espancador… Nem arcanjos nem bestas-feras, os seres humanos não são nada de uma vez para sempre, não estão fixados nem congelados em um estado imutável, mas fluem e transformam-se, o que coloca os imobilistas, na sociedade, necessariamente do lado do erro, do engano, da defesa do impossível.

“Não podemos conceder perdão e oferecer nossa amizade a quem escolheu o proveito próprio às custas da infelicidade dos outros, e decidiu gozar a própria vida ao custo da morte alheia. Aqueles que querem a todos perdoar, ‘ver os dois lados da questão’ ou ‘ver a questão de todos os lados’, aqueles que tentam justificar as razões dos opressores, são os imobilistas do mundo. Se fosse verdade que todos têm razão, e que todas as razões se equivalem, seria melhor que o mundo ficasse do jeito que está. Nós, do Teatro do Oprimido, ao contrário, queremos transformá-lo, queremos que mude sempre em direção a uma sociedade sem opressão. É isto que significa humanizar a humanidade: queremos que o ‘homem deixe de ser o lobo do homem’, como dizia um poeta.

Sabemos que todas as sociedades se movem através de estruturas conflitantes: como poderíamos nós, então, assumir uma virginal posição isenta diante de conflitos dos quais, queiramos ou não, fazemos parte? Seremos sempre aliados dos oprimidos… ou cúmplices dos opressores. Fazer Teatro do Oprimido já é o resultado de uma escolha ética, já significa tomar o partido dos oprimidos. (…) Em um confronto entre David e Golias, a neutralidade significa tomar o partido do opressor, o gigante Golias; se quisermos tomar o partido do oprimido David, temos que ajudá-lo a encontrar as pedras…” (AUGUSTO BOAL, Oprimidos e Opressores, p. 22-23)

Nem o Teatro nem a Pedagogia do Oprimido, nem Boal nem Paulo Freire, aceitam a legitimidade de uma suposta neutralidade, de uma “isenção virginal” típica daqueles que não querem tomar partido. No mesmo espírito, disse Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, muito citado em manifestações e ocupações mundo afora, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor”.

Encontraríamos facilmente inúmeras formulações semelhantes na obra de Florestan Fernandes, de Marx e Engels, de Franz Fanon, de Brecht, de Malcolm X, de Angela Davis… É nesta companhia que devemos situar Boal e sua convicta afirmação de que “temos a obrigação cidadã de nos colocarmos ao lado dos humilhados e ofendidos” (p. 25). O Teatro do Oprimido é, pois, “teatro de luta”: “DOS oprimidos, PARA os oprimidos, SOBRE os oprimidos e PELOS oprimidos”, como brada Boal em letras garrafais (p. 26).

Boal deseja contribuir para a emergência e a disseminação de uma poética política que rompe, de modo revolucionário, com vários dos dogmas reinantes na história do teatro, a começar pelo “sistema trágico coercitivo de Aristóteles” (p. 29 a 68). Após uma análise crítica da teoria estética aristotélica, em que destacam-se os conceitos de catarse harmatia, Boal conclui que

“esse sistema funciona para diminuir, aplacar e eliminar tudo que possa romper o equilíbrio social; tudo, inclusive os impulsos revolucionários, transformadores. Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes de que aconteça… O seu Sistema aparece dissimulado na TV, no cinema, nos circos e nos teatros. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que preexiste… Se, pelo contrário, queremos estimular o espectador a que transforme sua sociedade, se queremos estimulá-lo a fazer a revolução, nesse caso teremos que buscar outra Poética.” (p. 68)

Em política, Boal afirma a necessidade de optar por uma aliança com os oprimidos, já que a outra alternativa é a cumplicidade com os opressores; em filosofia, assume posição nas trincheiras ao lado do materialismo de Marx e não do idealismo de Hegel; já em estética, ele também escolhe sua companhia: muito mais a de Brecht que a de Aristóteles.

“A Poética marxista de Brecht afirma que o personagem não é sujeito absoluto e sim objeto de forças econômicas ou sociais, às quais responde e em virtude das quais atua. (…) Se, por um lado, para a Poética idealista, o pensamento condiciona o ser social, por outro lado, para a Poética marxista, o ser social condiciona o pensamento social. Para Hegel, o espírito cria a ação dramática; para Brecht, a relação social do personagem cria a ação dramática. (…) Para Brecht, não existe ‘natureza humana’ e, portanto, ninguém é o que é porque sim! É necessário buscar as causas que fazem com que cada um seja o que é. ” (p. 105-107)

“O que afirma Brecht é que, nas peças idealistas, a emoção atua por si mesma, produzindo o que ele chama de orgias emocionais, enquanto as Poéticas materialistas, cujo objetivo não é tão somente o de interpretar o mundo mas também o de transformá-lo e tornar esta terra finalmente habitável, têm a obrigação de mostrar como pode este mundo ser transformado. Uma boa empatia não impede a compreensão e, pelo contrário, necessita da compreensão… O que faz Brecht, fundamentalmente, é colocar a ênfase na compreensão (enlightnenment), na dianoia. Em nenhum momento Brecht fala contra a emoção, ainda que fale sempre contra a orgia emocional… 

Como não vai o espectador emocionar-se com a Mãe Coragem que perde os seus filhos, um a um, na guerra? É inevitável que nos emocionemos todos até às lágrimas. Mas deve-se combater sempre a emoção causada pela ignorância: que ninguém chore a fatalidade que levou os filhos da Mãe Coragem, mas sim que se chore de raiva contra o comércio da guerra, porque é esse comércio que rouba os filhos à Mãe Coragem… Já a peça Os Fuzis da Senhora Carrar produz uma profunda emoção de ódio contra Franco e seus sequazes… É necessário insistir: o que Brecht não quer é que os espectadores continuem pendurando o cérebro junto com o chapéu, antes de entrarem no teatro, como o fazem os espectadores burgueses.

Brecht era marxista: por isso, para ele, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve, pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade, para onde caminha e como apressar sua transição. Num estudo sobre teatro popular, Brecht afirma que o artista popular deve abandonar as salas centrais e dirigir-se aos bairros, deve mostrar suas imagens da vida social aos operários, que estão verdadeiramente interessados em transformar essa vida social, já que são suas vítimas. Um teatro que pretende transformar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não pode restabelecer o equilíbrio. A polícia burguesa tenta restabelecer o equilíbrio, impor o repouso: o artista marxista, ao contrário, deve propor o movimento em direção à liberação nacional e à liberação das classes oprimidas pelo capital… Brecht expõe contradições e propõe transformações. (…) Deseja que o espetáculo teatral seja o início da ação, o equilíbrio deve ser buscado transformando-se a sociedade e não purgando o indivíduo dos seus justos reclamos e de suas necessidades.” (p. 112-113)

Tanto na vida quanto na arte, Boal execra a passividade do espectador. “Sim, esta é, sem dúvida, a conclusão: espectador, que palavra feia! O espectador, ser passivo, é menos que um homem e é necessário reumanizá-lo, restituir-lhe sua capacidade de ação em toda sua plenitude… Todas essas experiências de teatro popular perseguem o mesmo objetivo: a libertação do espectador, sobre quem o teatro se habituou a impor visões acabadas de mundo. E considerando que quem faz teatro, em geral, são pessoas direta ou indiretamente ligadas às classes dominantes, é lógico que essas imagens acabadas sejam as imagens da classe dominante. O espectador do teatro popular (o povo) não pode continuar sendo vítima passiva dessas imagens.” (p. 163)

Na conclusão de Poética do Oprimido, escrito em seu exílio argentino, em Buenos Aires, no ano de 1973, Augusto Boal re-manifesta sua fidelidade para com Brecht, porém propõe ir além da Conscientização, propondo como télos último, objetivo supremo, a Liberação. “A poética de Brecht é a Poética da Conscientização: o mundo se revela transformável e a transformação começa no teatro mesmo, pois o espectador já não delega poderes ao personagem para que pense em seu lugar, embora continue delegando-lhe poderes para que atue em seu lugar. A experiência é reveladora ao nível da consciência, mas não globalmente ao nível da ação. A ação dramática esclarece a ação real. O espetáculo é uma preparação para a ação.

A poética do Oprimido é essencialmente uma Poética da Liberação: o espectador já não delega poderes aos personagens nem para que pensem nem para que atuem em seu lugar. O espectador se libera: pensa e age por si mesmo. Teatro é ação! Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas não tenham dúvidas: é um ensaio da revolução!” (p. 163)

Este estímulo para ação transformadora-revolucionária que o Teatro do Oprimido busca fornecer ao espectador-que-devem-ator tem, como é evidente, muita fraternidade e comunhão com a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Ambos têm norteado minha prática na sala-de-aula em que, como jovem professor sem afeição por dogmas e que experimenta inventar um caminho enquanto segue seus instintos e seus fascínios de caminhante. Pois a sala-de-aula não só pode, como deve tornar-se palco para uma arte coletiva onde esses elementos, artificialmente mantidos separados, possam reunir-se: teatro, filosofia e revolução, afinal de contas, têm tudo a ver. Diálogo, debate, dialética – este DDD está no DNA destes três elementos, essencialmente inter-relacionais, devotados à construção de convívios mais humanizados e mais sábios.

Em sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas, Boal soube criar pontes entre o teatro e a filosofia de modo explícito em certos trechos, como no capítulo “A Pobreza”, onde presta homenagem conjunta a Stanislavski e a Sócrates: “O estudo de Stanislavski foi pedra fundamental na minha carreira. Foi ele que sistematizou um método que ajuda o ator a buscar, em si, ideias e emoções atribuídas aos personagens. Nesse sentido, uma das principais funções do diretor é ser maiêutico, como Sócrates no seu processo de filosofar – o filósofo é a parteira que faz o aluno descobrir o que já sabe, sem saber que o sabe, através de perguntas que provocam a reflexão, abrindo caminho para a descoberta. Assim deve ser o diretor teatral: ajuda o ator a parir personagens.” (p. 161)

Poderíamos aproveitar para propor que, assim como Stanislavski ensina o ator a parir personagens e Sócrates ajuda seu interlocutor a parir verdades, Boal e seu Teatro do Oprimido propõe uma maiêutica artística, reunião e congregação de teatro, filosofia, política transformadora (revolução). Augusto Boal ensinou-nos como ninguém que a arte pode ser aliada e arma nas nossas lutas de libertação, que o teatro é uma parteira de revoluções, que o artista digno deste nome é alguém que acata sua condenação à criatividade e, num laboratório imenso, no Theatrum Mundi, está constantemente engajado no parto de outros mundos possíveis. De preferência, mundos mais libertos da opressão do que este em que  vivemos – não como espectadores de um espetáculo que nos é externo, mas como co-agentes e co-partícipes de uma trama comum.

por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Junho de 2017

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Cosac Naify, 2013, 224 pgs.  
————. Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas. Cosac Naify, 2014, 416 pgs.  


SIGA VIAGEM:

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido – Um documentário de Zelito Viana (2010)
Resenha por Amanda AouadDownload torrent

* * * * *

Arena conta Zumbi (1968) – Álbum Completo

* * * * *

AUGUSTO BOAL [1931 – 2009], “Estética do Oprimido”
Acesse e/ou baixe o ebook completo: http://bit.ly/2siGu5b ou http://bit.ly/2rvg8iz
(256 pgs, 2009, Ed. Garamond, MinC e Funarte, PDF, 1.4 MB)

* * * *

O SÉCULO DE STANISLAVSKY (DOCUMENTÁRIO FRANCÊS)