CAFÉ FILOSÓFICO: “O QUE PODE O CORPO?” (VIVI MOSÉ E DANI LIMA)

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DISSERTAÇÃO DE MESTRADO – “Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche” [Eduardo Carli de Moraes, UFG, 2013]

Resumo
Ficha2
Além da Metafísica e do Niilismo:
a Cosmovisão Trágica de Friedrich Nietzsche (1844-1900)

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PREFÁCIO DO AUTOR

Nietzsche: eis um pensador que – nas palavras de um de seus comentadores, Gianni Vattimo – “é decisivo para o nosso presente e ainda repleto de futuro.”

 Uma das frases mais célebres de Nietzsche está em Ecce Homo: “Eu não sou um homem, eu sou dinamite” [1]. Já o sub-título de Crepúsculo dos Ídolos traz outra imagem de impacto: “Como filosofar com o martelo”. Estes dois retratos que Nietzsche pinta de si mesmo mostram que o filósofo sabe do potencial explosivo de suas críticas e demolições. Mas não nos esqueçamos que a dinamite não serve apenas para destruir e arruinar, mas também para abrir terreno para novas construções [2]. E também que um martelo, nas mãos de um escultor, serve para transformar um bloco de pedra em uma obra-de-arte, e que um médico, por sua vez, utiliza o martelo como instrumento para um diagnóstico clínico.

Na minha investigação, procurei compreender a filosofia nietzschiana como um empreendimento em que as facetas crítica e a criativa são indissociáveis, em que o destruidor e o criador estão reunidos. Uma máxima de A Gaia Ciência expressa isso muito bem: “Somente enquanto criadores temos o direito de destruir!” [3] Não considero, portanto, que o pensamento de Nietzsche seja motivado por um ímpeto apenas iconoclasta, polêmico e aniquilador. Mas sim que procura contribuir para libertar-nos do jugo de morais autoritárias, valores anti-naturais, superstições daninhas, dogmas inquestionados etc. A sabedoria nietzschiana nos convida à afirmação e à celebração da existência, em prol do desabrochar de potencialidades ainda não efetivadas, em favor de uma vitalidade ascendente e transbordante.

Neste trabalho, procurei mostrar que Nietzsche realiza não apenas uma crítica devastadora dos sistemas filosóficos metafísicos, das religiões instituídas e dos valores morais sacrossantos. Mas que há também um esforço, por parte do filósofo, em compartilhar uma sabedoria cujas características procurei explorar e que inclui uma revalorização do corpo, da sensorialidade, do devir, da multiplicidade, da alteridade, da pluralidade de perspectivas etc.

karamazov

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” – Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski (1821-1881)

Apesar de muitas vezes referir-se a si mesmo como um “imoralista”, isto não significa, como procurei argumentar, que Nietzsche faça apologia de um vale-tudo moral, onde é abolida toda e qualquer responsabilidade e dever. Seria  simplista e falsificador atribuir a Nietzsche a célebre idéia do personagem de Dostoiévski, Ivan Karamázov, que sustenta que “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Procurei mostrar que a morte de Deus, em Nietzsche, é vista como acontecimento potencialmente libertador, como ocasião para a emergência de novos valores e estilos-de-vida.

“As consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez ao largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’…” (A Gaia Ciência, 343)

Procurei destacar a ruptura que Nietzsche realiza com uma das correntes hegemônicas da filosofia ocidental, o platonismo, em especial a cisão do real em dois “mundos” (o Sensível e o Inteligível), o que Nietzsche considera uma “fábula”. A ideia de um mundo metafísico, sobrenatural, suposta morada do absoluto e do imutável, seria, segundo o pensamento nietzschiano, um dos mais duradouros equívocos da história da filosofia. Procurei argumentar que, em Nietzsche, todos os conceitos abstratos da razão, forjados a partir da experiência empírica, permanecem tendo uma existência derivada, como produção de cérebros humanos necessariamente vinculados a corpos animados pela vontade. Procuramos elucidar, portanto, o quanto a filosofia de Nietzsche procura refletir sobre a base fisiológica e psico-somática de onde emergem os conceitos abstratos, os valores morais, as doutrinas religiosas etc. Trata-se, como indica Patrick Wotling, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica, interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo.” [4]

Procurei elucidar que Nietzsche se mostra contrário a todas as moralidades baseadas no ideal ascético, ou seja, que negam valor ao corpo, ao desejo, às paixões, ao tempo, à esfera dita “mundana”. A ascese, isto é, o esforço auto-mortificante de purificação, baseia-se em geral na crença em uma alma imortal, que supõe-se destinada a um destino glorioso no além-túmulo. Nietzsche diagnostica neste ideal ascético uma hostilidade contra a vida, uma “calúnia” contra a realidade terrena, um anátema lançado contra o corpo e seus instintos, uma incapacidade de afirmação da existência em sua real finitude e em seus incontornáveis tormentos. Como diz Oswaldo Giacóia, o ideal ascético, como se manifesta por exemplo no platonismo e no cristianismo, “leva a efeito um movimento de completa desvalorização da imanência em proveito da transcendência. (…) Representa, assim, a desvalorização absoluta do ‘mundo’ e da ‘vida’ em proveito de uma vida imaginária, de um ‘além-do-mundo’.”[5]

O esforço de crítica da moral que Nietzsche empreende, portanto, tem como intenção possibilitar uma libertação das energias vitais que foram sufocadas, reprimidas e culpabilizadas por doutrinas morais ascéticas que oprimem os corpos, condenam os prazeres e pregam a hipertrofia de uma razão tirânica contra as paixões. Como diz Tongeren, “mediante uma crítica à moral, Nietzsche pretende abandonar intencionalmente o caminho aplainado e descobrir a abertura para aquilo que é possível para além desse horizonte, a abertura para ‘muitas auroras que ainda não brilharam’.” [6]

* * * *

nietzsche (2)
Em meu trabalho destaco também que Nietzsche confere muita importância ao senso histórico, isto é, a um pensamento filosófico sempre atento ao ininterrupto fluir do tempo. Nietzsche forjou seu método genealógico no intento de compreender como vieram-a-ser as instituições, legislações, valores morais, costumes e crenças com que hoje nos deparamos. Compreender a origem histórica dos valores morais e relacionar seu surgimento a conflitos sociais de classe e jogos de dominação equivale a mostrar quão infundada e ilegítima é a pretensão das morais e das religiões de possuírem uma verdade eterna de fonte divina. Em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, Nietzsche critica um defeito de muitos filósofos, que:

“Involuntariamente imaginam o homem como uma verdade eterna, como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser…  Tudo veio a ser, não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas. – Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.” [7]

heraclito

“Tudo flui. Não se entra duas vezes no mesmo rio.” – Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.)

Quis mostrar que a filosofia de Nietzsche combate, portanto, a idéia de que existem valores morais, sistemas filosóficos ou doutrinas religiosas de validade eterna, verdade absoluta ou universalidade legítima. A própria Humanidade é concebida como um fenômeno histórico, re-inserida na Natureza que lhe deu origem, de modo que Nietzsche rompe também com a noção criacionista de uma origem sobrenatural para o homem. Por estar “embarcado” na correnteza da história, e por ser uma espécie animal dentre milhões de outras que co-existem no seio da Natureza em fluxo, o homem é inescapavelmente um ser mutante, que integra um cosmos eternamente movediço. Quer aceite este seu destino, quer lute contra ele, cada um de nós, para usar a expressão da canção de Raul Seixas, é uma “metamorfose ambulante”. Procuro compreender o pensamento de Nietzsche, portanto, como fiel ao preceito do filósofo grego Heráclito, que sustentava que “tudo flui” e que “é impossível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Considero ainda que Nietzsche jamais sugeriu “fazer tábula rasa do passado”, nunca elogiou o esquecimento da História ou o aniquilamento de seus legados, mas sim uma relação dinâmica e fecunda com o passado: como escreve Karl Jaspers, “em nenhuma parte Nietzsche estima o ato de esquecer o que foi transmitido pela história e recomeçar a partir do nada… Toda sua obra é penetrada por seu intercâmbio com a grandeza do passado, mesmo daquele que ele rejeitou.”[8]

Prova desta relação frutífera com o passado é o modo como Nietzsche reativa a potência do mundo grego pré-socrático, como por exemplo os ritos dionisíacos e a obra dos poetas trágicos (em especial Ésquilo e Sófloces). Nietzsche formulou assim uma sabedoria, que encarna em seu Zaratustra ou nos espíritos livres, cujas características procuramos explorar nessa pesquisa: trata-se de um sujeito afirmador de sua vontade e de seu corpo, criativo e questionador, capaz de superar todo ressentimento através do amor fati, que jamais se acomoda em seu estado atual e procura sempre superar-se, e que age no mundo mais como sátiro do que como santo, mais como dançarino do que como estátua. Em A Gaia Ciência, por exemplo, Nietzsche pinta o retrato do espírito livre, que seria dotado de “uma alegria e uma força de soberania  (…) em que o espírito recusaria toda fé, todo desejo de certeza, tendo prática em manter-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades e até mesmo em dançar à beira do abismo. Esse seria o espírito livre por excelência.” [9]

Para Nietzsche, as convicções e os dogmas são inimigos do filósofo e prejudicam-nos em nossa aventura de conhecimento. Quem quer de fato tornar-se amigo da sabedoria tem de ousar libertar-se de certezas apaziguadoras, crenças reconfortantes e tomadas-de-partido inquestionadas. Como diz em Aurora: “A serpente que não pode mudar de pele perece. O mesmo ocorre com os espíritos que se impedem de mudar de opinião; cessam de ser espíritos.” [10] O filósofo autêntico, de acordo com Nietzsche, é uma figura em que se encarna um certo ímpeto heroico de busca pelo saber. Relembremos as palavras de Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão. (…) A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós (…) que o conhecimento transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” [11]

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

A filosofia, afinal, não é uma busca interesseira por ideias apaziguadoras ou convicções agradáveis, nem por um cômodo repouso no colo de verdades imutáveis, mas um heróico navegar, em mares perigosos, em busca de um saber sobre o real que nada garante que terá um sabor doce ou que vá nos tornar felizes. O filósofo autêntico, para Nietzsche, segundo nossa interpretação, é aquele que ousa ir à conquista de um saber, ainda que este possa ter um gosto amargo e ainda que acarrete consequências trágicas; é aquele que, como diz Karl Jaspers, tem a coragem de entrar no labirinto, como fez Teseu, mesmo sabendo que terá que defrontar-se com o Senhor Minotauro. [12]

Consideramos que o efeito do convívio com a obra Nietzsche é a de um tônico para a vontade-de-viver. Eis uma filosofia, enfim, onde há muita sabedoria a assimilar, em especial por aqueles que, como diz Giacóia, “não temem fazer dos abismos do sofrimento uma fonte inestimável de conhecimento.” [13]

Em suma: procuramos mostrar o pensamento de Nietzsche como superação tanto da metafísica quanto do niilismo, culminando numa cosmovisão trágica que, longe de ser pessimista, significa uma celebração dionisíaca da existência como ela é, sem exclusão de seus aspectos mais dolorosos e problemáticos. Arqui-inimigo da apatia da vontade, do niilismo desalentador, do ascetismo auto-mortificante, Nietzsche, através de sua obra, canta um hino à vida que inclui um louvor à alegria, aquele afeto que, segundo Spinoza, aumenta nossa potência de existir. Como diz Zaratustra: “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original!” [14] Já em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche escreve: “Eis o melhor meio de começar cada dia: perguntar-se ao despertar se nesse dia não podemos dar alegria a pelo menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto do hábito religioso da oração, nossos semelhantes se beneficiariam com tal mudança.” [15]

Para concluir este prelúdio, cito mais uma instigante idéia de Nietzsche, que me parece um belo emblema de sua “fidelidade à Terra”, em oposição à idolatria religiosa de ídolos sobrenaturais ou metafísicos: “Não há no mundo amor e bondade suficientes para que tenhamos direito de dá-los a seres imaginários.” [16]

Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia – 08/11/2013
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REFERÊNCIAS:


[1] NIETZSCHE, Ecce Homo. Por Que Sou um Destino, §01.

[2] É o que aponta Martha Nussbaum: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” Citada por Brobjer, Nietzsche’s Ethics of Character, Pg. 49.

[3] NIETZSCHE. A Gaia Ciência, §58.

[4] Ibid. Pg. 155.

[5] GIACOIA, O. Labirintos da Alma: Nietzsche e a Auto-Supressão da Moral. Pg. 13-38.

[6] TONGEREN, P.V. A Moral da Crítica de Nietzsche à moral. Pg. 43-44.

[7] NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Capítulo 1, §2.

[8] JASPERS. Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Pg. 445.

[9] NIETZSCHE. A Gaia Ciência. §347.

[10] NIETZSCHE. Aurora.  §573.

[11] Ibid, §429.

[12] JASPERS. Op Cit. Pg. 231.

[13] GIACOIA. O Humano Como Memória e Como Promessa. Pg. 183.

[14] NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Op cit. Livro II, Dos Compassivos. Pg. 84.

[15] NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano, §589.

[16] Humano, Demasiado Humano, § 129. Citado a partir de Lou Andreas-Salomé, op cit, Pg. 139: “Il n’y a pas assez d’amour et de bonté dans le monde pour avoir licence d’en rien prodiguer à des êtres imaginaires.”

Souvenir da banca na companhia de Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

Um souvenir fotográfico da banca – com Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

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P.S. – nos próximos meses, tentarei desmembrar este mestrado em 3 ou 4 artigos, a serem publicados em revistas de filosofia, se possível, ou aqui no blog mesmo, pra “socializar” a pesquisa e “pôr na roda” o conhecimento. Em breve!

Siga viagem…

“O andarilho” de Friedrich Nietzche, declamado por Gilles Deleuze (Aforismo de “Humano Demasiado Humano”)

“Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.”

Friedrich Nietzsche em “Humano Demasiado Humano” #638


Ao som de Heldon.

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– Toca Rauuuuul!
(Pois não…)

NIETZSCHE E AS SOMBRAS DE DEUS: Um trecho do livro de Y. Yovel, “Dark Riddle: Hegel, Nietzsche and the Jews” (1998)

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NIETZSCHE AND THE SHADOWS OF GOD

“Metaphysical fictions are involved in the central concepts and values of Western culture, which dominate and distort every individual’s life. (…) The whole network of epistemological and moral concepts in which we live expresses, in this respect, a psychology of escape and repression. In Nietzsche’s terms it is a fear of facing the truth, the cowardice of the person retreating before the abyss. Further, the system of rational fictions we project on the world enables us, the weak, to dominate the world in an imaginary way and thus express our will to power in a rather devious manner. In subjecting, as it were, the world to a network of rules and laws of our own invention, we establish our alleged superiority over it and subject the universe itself to our metaphysical illusions.

The Christian religion, even more than rationalistic science and morality, produces and offers a veil of mystification which serves human weakness, meekness, and the negation of life. Images of a transcendent god and a next world make real earthly life appear null and worthless; and by means of moral images of punishment and reward, divine Providence, a moral world order, conscience, repentance, and guilt feelings, men and women interiorize their hatred of life and become self-oppressed.

Though Nietzsche was called a nihilist, he himself regarded nihilism as his number one enemy. Genuine nihilism, he claims, resides in Christianity, whose essence is to deny life’s value, to opress life, and to fight against it. The ascetic ideal – the summit of spirituality in Christian eyes (and also in the eyes of the atheist Schopenhauer) – is to Nietzsche the greatest distortion of the spirit which Christianity propagates.” (pg. 108)

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the_gay_science_by_nietzsche_book_cover_v2_by_ruckenfigur-d5kx81y“This attempt at a radical critique, both in its roots and in its scope, is dramatically expressed in Nietzsche’s dictum about the death of God, and even more in his less well-known but more accurate exclamation in The Gay Science: ‘When will all these shadows of God cease to darken our minds? When will we complete our de-deification (*) of nature?’ (GS, 125)

(*) entogöttilicht, literally “freed of God”

Even after God’s death, his shadows still dominate the world. Hence the true role of philosophical criticism is to purge the world of the shadows of the dead God (GS, 108). These shadows are the vestiges of belief in a rational world, a cosmos ruled by a logos, the validity of the natural sciences, of the ‘pure’ laws of logic, the dominion of causality, and the cogency of the concepts of substance and identity. Modern natural science pretended to have banned God from the picture of nature, but has reinstated God’s shadows through the back door.

Philosophical rationalism and the belief in science are disguised versions of the old religious notion of a moral world order, and are likewise based on anthropomorphism – the projection of man’s wishes, needs, customs, and aspirations on the structure of the universe. (…) In contrast to Spinoza, for whom the world was saturated (because identical) with God, for Nietzsche the demand to grasp nature as ‘clear of God’ is the precondition for man to ‘become nature again’: that is, to be cured of decadence.” (pg. 112)

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“Life’s meaning is not something ready-made, by its mere existence, but is shaped through a process of self-overcoming. A precondition for this is the recognition that there are no objective meanings and values out there in the world, that the world is disrobed of God and his shadows. Therefore the test of the noble person – the “overman” which Nietzsche pretends to announce – lies in the question: ‘How much truth can be beared?’

Child Dionysus riding a tigress (Museum El Djem)

Child Dionysus riding a tigress (Museum El Djem)

Tearing away as many of his protective masks as he or she can, the Dionysian person is supposed to face a universe stripped of rational meaning and of all support by permanent values, and to be capable of converting this terrifying recognition into a new source of life’s power and even a new kind of joy. (‘Joyous knowing’ is, I think, a better rendering of Nietzsche’s famous ‘La Gaya Scienza’).

But what kind of knowing is this? It is certainly not merely a cognitive disposition; it is equally a self-commitment, a passion, a form of willing. It is a mode of recognition and realization, two words which imply taking a stand, performing an act, placing oneself in some firm position. The Dionysian person’s knowing is not the affirmation of a statement, nor even a simple disillusionment, but an act of the whole person which affirms a whole existentical ‘fate’ and accepts a certain way of living, which others would consider miserable, as a basis for joy and creativity.

The psychology of ordinary people is different. When facing hard truths, such people are liable to react by negating life, plunging into despair and nihilism, or running back to the consoling lap of illusion. Weak persons opt for optimism because they cannot overcome pessimism, whereas for the kind of person Nietzsche foresees, a “pessimist” view of existence is merely the starting point to be overcome, an introduction to the affirmation of life and the acceptance of difficulty and suffering, by which to gain new sources of power and joy.

This dialectical overcoming of the temptation of nihilism (and also of superficial optimism) is Nietzsche’s main message; it is the crux of his Dionysian stance, the essence of tragedy and the tragic way of life. The Dionysian person neither shuns suffering (mental and physical) and the recognition of chaos, nor lets them drag him into the abyss of despair. Rather, by saying ‘YES’ to life with all its contingent, absurd, and horrible aspects, he converts this recognition into a source of existential power.”

YIRMIYAHU YOVEL
Dark Riddle: Hegel, Nietzsche and the Jews
(1998, Pennsylvania State University, Pgs. 107 -114)
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Yovel is Professor of Philosophy at the Hebrew University of Jerusalem and Hans Jonas Professor at the New School for Social Research in New York. He also wrote Spinoza and Other Heretics and Kant and the Philosophy of History,

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BBC’s doc Human All Too Human

“Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche” (Mestrado // Eduardo Carli de Moraes)

Mestrado

Pessoal, disponibilizei na íntegra no portal Academia.edu a dissertação que nasceu como fruto dos meus 2 anos de Mestrado, na faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG: (voilà!) >>> http://bit.ly/1wvIY0b. Evoé, Friedrich Nietzsche!!! Este mestrado foi defendido em Novembro de 2013 diante da banca ilustre composta por Adriano Correia, Adriana Delbó e Maria Cristina Franco Ferraz. Agora, o arquivo está aí, compartilhado e liberado pra ser lido na Internet, baixado de graça e “pirateado” livremente (é filosofia copyleft…); todo e qualquer feedback será bem-vindo! Eis o link para download em PDF (menos de 2 megabytes).

Photo
MORAES, E. C. Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Universidade Federal de Goiás. 2013.

Esta dissertação de mestrado tem por objetivo refletir sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), compreendida como tentativa de superação tanto da metafísica quanto do niilismo. Destaca-se a valorização nietzschiana de um pensamento dotado de senso histórico, fiel ao devir ininterrupto do real, o que implica em uma cosmovisão semelhante à de Heráclito. Defende-se que a posição peculiar de Nietzsche na história da filosofia moral consiste na análise crítica da multiplicidade de diferentes valorações morais, sempre remetidas a suas fontes humanas (demasiado humanas). Através da atenção às circunstâncias e condições de surgimento, desenvolvimento e ocaso dos diversos ideais, valores morais e doutrinas religiosas, procuramos mostrar como Nietzsche constitui uma filosofia que rompe com a noção de valores divinos e imutáveis, além de des-estabilizar crenças em verdades absolutas. De modo a ilustrar o método genealógico nietzschiano em operação, investigam-se fenômenos como o ressentimento e o ascetismo, re-inseridos no fluxo histórico e compreendidos a partir de seus pressupostos psicológicos, fisiológicos e sócio-políticos. Com base em ampla pesquisa bibliográfica da obra de Nietzsche e comentadores (como Jaspers, Wotling, Rosset, Giacoiua, Moura, Ferraz, dentre outros), argumenta-se que a filosofia nietzschiana realiza uma ultrapassagem da cisão platônico-cristã entre dois mundos, além de uma superação do dualismo entre corpo e espírito. Procura-se descrever como a filosofia anti-idealista de Nietzsche, avessa ao absolutismo e ao sobrenaturalismo, age como uma “escola da suspeita”, convidando-nos a um filosofar liberto de subserviência, credulidade e obediência acrítica à tradição. Explora-se também a temática da “morte de Deus” e da derrocada dos valores judaico-cristãos, além da concomitante escalada do niilismo, no contexto de uma filosofia que busca sugerir e abrir novas vias para a aventura humana ao mobilizar conceitos como amor fati, além-do-homem e “fidelidade à terra”. Nietzsche é compreendido não somente em seu potencial crítico, demolidor da tradição idealista e metafísica, mas também como criador de uma sabedoria trágica e dionisíaca que se posiciona nas antípodas tanto dos ideais ascéticos quanto dos ideários niilistas.

PALAVRAS-CHAVE: Friedrich Nietzsche, Sabedoria Trágica, Crítica à Metafísica, Niilismo, Ética.

LEIA / BAIXE: http://bit.ly/1wvIY0b

E-books (download gratuito): 6 estudos biográficos sobre Nietzsche (Safranski, Kaufmann, Hollingdale, Julian Young, Curtis Cate & Sander Gilman)

9780140443295

Friedrich Nietzsche – 6 estudos biográficos para download na íntegra em ebook

* Curtis Cate – FRIEDRICH NIETZSCHE (Overlook, 2005). — ePUB

* Sander L. Gilman (ed.) – CONVERSATIONS WITH NIETZSCHE: A Life in the Words of His Contemporaries (Oxford University Press, 1987). Translated by David J. Parent. — PDF

* R. J. Hollingdale – NIETZSCHE: The Man and His Philosophy (Cambridge University Press, 1999). Revised Edition. — ePUB

* Walter Kaufmann – NIETZSCHE: Philosopher, Psychologist, Antichrist (Princeton University Press, 1974). Fourth Edition. — PDF

* Rüdiger Safranski – NIETZSCHE: A PHILOSOPHICAL BIOGRAPHY (Granta, 2002). Translated by Shelley Frisch. — PDF

* Julian Young – FRIEDRICH NIETZSCHE: A PHILOSOPHICAL BIOGRAPHY (Cambridge University Press, 2010). — PDF

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