Anelis Assumpção ao vivo e a cores no Teatro do Centro Cultural UFG || Veja o vídeo em A Casa de Vidro

Para os sentidos e a inteligência, testemunhar Anelis sobre um palco é um pouco como estar diante de um fenômeno da natureza que estarrece. Uma mulher empoderada, cheia de encantos expressivos, chega com seu séquito de músicos dionisíacos querendo “jogar conversa dentro”. E nos pergunta, em plena era do frenesi e da desatenção: “cê tá com tempo?” Uma hora e meia na companhia de Anelis e banda são tempo-de-vida bem utilizado, pode ter certeza. Tenha tempo pra deixá-la cair dentro de ti, com Música que convida pra dança mas também instiga um “mergulho interior”.

Filha de “Nego Dito” Itamar Assumpção, irmã da falecida Serena (que fez Ascensão), companheira de Curumin o superbatera-do-groove, Anelis decerto não chega jamais sozinha pra nos brindar com sua arte que não é só conversa fiada. Um sexteto sonicamente esplendoroso a acompanhou em seu show no Teatro Centro Cultural UFG ao raiar deste segundo semestre de 2019 em evento promovido pelo Engroove. E em tempos de radicalização tantos das censuras ditatoriais quanto da resistência contracultural (vide o Caso B Negão em Bonito/MS), Anelis tratou de sagazmente traficar para dentro da letra de “Eu Gosto Assim”: “Jair Bolsonaro… não gosto!”

Pra me sacar não tem segredo
Sou bem fácil de acessar
Agonia demais é que me amarga
Eu gosto mesmo é de gostar…

Marginal parada não gosto
Burocracia não gosto
Guerra no Golfo não gosto
Panela vazia não gosto

Mentira deslavada não gosto
Porrada na cara não gosto
Conversa fiada não gosto
Dedada no zóio não gosto…

É com um trechinho desta música, transformada em um mini-panfleto antibozo, que se inicia o vídeo produzido por A Casa de Vidro durante o show. Na sequência do videoclipe live temos um gostinho do álbum mais recente da diva, o Taurina. Integrante deste, a canção chama-se “Mortais À Toa” e fala com sabedoria zen e certa profundida filosófica sobre a “desgraça de ser mortal” e a “graça de estar mortal”.

Ela gravou a canção na excelente companhia de Liniker, Tulipa Ruiz e Ava Rocha (esta última, colaboradora de Anelis também em videoclipes como o de “Song to Rosa”). Para além da musicalidade experimental e exploratória, que não deixa de evocar um certo sabor de Arrigo Barnabé e Clara Crocodilo, a música é também pura poesia musicada. Suspeito que Leminski, se vivo estivesse, adoraria este rebento de Anelis e sua turma:

Da morte tudo se sabe
Fato fatídico
Viver é inevitável
Mas até que se cale, pare, congele
Todo corpo vale
O prazer de ser mortal na proa
De dar mortal à toa, à beira mar
Mortal garoa e a dor de ser mortal

Da morte não se escapa
Escalope a galope
Na esquina do destino
Cavalo marinho
Até que o coração pare
Todo corpo é um vale
Um passe para ser
Um passe para dar
Um passe pra sofrer
Um passe pra curar
Mortal na proa

Um beijo mortal
Um abraço mortal
Um gosto mortal
Um cheiro mortal

[Refrão]
Desgraça de ser mortal
E a graça de estar mortal

Satisfação imensa poder apreciar a performance de uma das figuras que mais admiro no Brasil atual – a filha-maravilha do lendário Itamar, el cascavel à frente da Isca de Polícia. Anelis Assumpção, na última década, vem numa trajetória incandescente, fez ao menos um discaço-destino-a-clássico ao lado da banda Amigos Imaginários e hoje está consolidada como uma das mais magistrais cantoras-compositoras da atual conjuntura cultural brasileira.

Assista na sequência o vídeo, produzido por A Casa de Vidro – Ponto de Cultura, com alguns dos melhores momentos da Anelis em Goiânia, incandescendo no CCUFG:

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, Ago/2019

 

EXPLORE TAMBÉM:

OS TINCOÃS COM MATEUS ALELUIA – Baixe a Discografia Completa – 1973 a 1977


DISCOGRAFIAS @ A Casa de Vidro

Badu, Dadinho e Mateus Aleluia dos Tincoãs

Os Tincoãs

Download gratuito dos álbuns completos:
Os Tincoãs (1973).zip [CLICK PARA BAIXAR]

Os Tincoãs (1977).zip [CLICK PARA BAIXAR]


BIOGRAFIA por AFREAKA: Não é de hoje que a Bahia é conhecida por oferecer o melhor da produção musical do Brasil. Os grupos e cantores vindos de lá carregam no peito os encantos de África, que aliados com a vivência do lado de cá do Atlântico, dão identidade e um tempero que só a música baiana tem. Entre os inúmeros conjuntos e artistas oriundos da terrinha boa está um grupo musical chamado Os Tincoãs.

Com nome inspirado em uma ave do cerrado, o Tincoã, o grupo foi formado entre o fim dos anos 1950 e o início da década de 1960. No início eram Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos nascidos no município de Cachoeira, que fcia às margens do Rio Paraguaçu, na região do Recôncavo Baiano. Cerca de 100 km distante da capital Salvador, a cidade muito contribuiu para a criação e preservação da identidade cultural da Bahia. O fato se deve pelo hábito de seus moradores de preservar costumes vindos de África, como o cuidado com a natureza e o saber popular.

No começo o trio interpretava boleros e outros tipos de canções do momento. O sucesso não aconteceu. Com a saída de Erivaldo que decidiu permanecer em Cachoeira e a chegada de Mateus Aleluia, o conjunto renovou seu repertório e revolucionou a música brasileira ao criar harmonias vocais para cantos de religiões afro e sambas de roda. A partir desta experiência o trio renovou seu repertório e mergulhou na cultura do Candomblé e seus terreiros, rodas de capoeira e de samba e tudo mais que fizesse alusão aos antepassados e raízes africanas. Nascia ali mais uma expressão musical que daria novos contornos para a música religiosa afro-brasileira e consequentemente para a música popular brasileira.

Contrariando muitos dos críticos que teimavam em dizer que após a chamada era dos festivais a MPB estava fadada ao fracasso, Os Tincoãs lançaram em 1973 um disco homônimo que chamou a atenção de todos. Com arranjos delicados, um violão, instrumentos de percussão e uma harmonia vocal repleta de doçura, o trio cantou para os Orixás: Iansã, Obaluaê, Iemanjá, todos eles estavam reunidos em um álbum que marcou época para a MPB.

“Meu Pai Veio da Aruanda
E nossa Mãe é Iansã
Ô Gira, deixa a gira girar.”

Para a produção do LP Os Tincoãs, Mateus Aleluia, Dadinho e Eraldo fizeram uma profunda pesquisa de cantos de Candomblé, o que colocou a cantiga de Orixás em um outro patamar na música brasileira. Figura fundamental nesse processo é Dona Ledinha, que de acordo com os integrantes vez ou outra cantava assim: ‘Sou de Nanã, ê uá’, entre outros cantos que integraram o repertório do disco.

Depois do imenso sucesso do álbum Os Tincoãs, o grupo sofreu um grande baque, a morte de Heraldo, substituído por Morais e posteriormente por Badu. Depois de as coisas se ajeitarem, o conjunto embarcou em 1983 para a África, precisamente para Angola, onde ficaram até o fim do grupo no ano 2000. Com a morte de Dadinho, autor do clássico Cordeiro de Nanã, Os Tincoãs resolveram encerrar de vez suas atividades.

Fiel retrato da negritude que pulsa nas veias do Brasil, Os Tincoãs são figuras fundamentais na música brasieira e principalmente na afirmação da cultura negra e todos os seus costumes, como o Candomblé e o samba de roda, por exemplo. Além disso, o conjunto deixou para a música do Brasil uma importante contribuição, a harmorinzação vocal com cânticos de religiões afro-brasileiras.”


OUÇA TAMBÉM: MATEUS ALELUIA – CARREIRA SOLO

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DEUS É MULHER – Em seu novo álbum, Elza Soares brilha com repertório político e sonoridades de vanguarda

“E se Deus fosse uma mulher?
Indaga Juan sem pestanejar
Ora, ora se Deus fosse mulher
É possível que agnósticos e ateus
Não disséssemos não com a cabeça
E disséssemos sim com as entranhas

Talvez nos aproximássemos de sua divina nudez
Para beijar seus pés não de bronze,
Seu púbis não de pedra,
Seus peitos não de mármore,
Seus lábios não de gesso.

Se Deus fosse mulher a abraçaríamos
Para arrancá-la de sua distância
E não haveria que jurar
Até que a morte nos separe
Já que seria imortal por antonomásia
E em vez de transmitir-nos Aids ou pânico
Nos contaminaria de sua imortalidade

Se Deus fosse mulher não se instalaria
Solitária no reino dos céus
Mas nos aguardaria no saguão do inferno
Com seus braços não cerrados,
Sua rosa não de plástico,
E seu amor não de anjo

Ai meu Deus, meu Deus
Se até sempre e desde sempre
Fosses uma mulher
Que belo escândalo seria,
Que afortunada, esplêndida, impossível,
Prodigiosa blasfêmia!”

Mario Benedetti

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Elza Soares brilha com repertório político perfeito para sua voz

Por Luiz Fernando Vianna na Folha de São Paulo (18.05.2018)

“A Mulher do Fim do Mundo”, de 2015, começava com Elza Soares interpretando a capela versos de Oswald de Andrade alusivos ao tráfico negreiro. Era o ponto de partida de uma viagem pelo Brasil sombrio.

O início de “Deus É Mulher” também tem Elza a capela, mas já cortando o presente: “Mil nações moldaram minha cara/ Minha voz, uso para dizer o que se cala/ O meu país é o meu lugar de fala”.

Canta-se um Brasil que ficou ainda mais sombrio nos últimos três anos. Em vez de abatimento, porém, há vigor. Como as precárias concertações sociais e políticas ruíram, mais do que nunca é preciso dizer o que não deve ser calado.


O reconhecimento público da força do CD de 2015 certamente encorajou Elza e seus parceiros paulistas a dobrarem as apostas.

O núcleo de compositores, músicos e produtores formado por Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, entre outros, ampliou-se e intensificou o caráter político (e nada partidário).

Quanto à sonoridade, há acréscimos, como as percussões das mulheres do Ilú Obá de Min, mas os pilares não mudaram: melodias conduzidas por sintetizadores e guitarras, muitas vezes distorcidas; mistura de sons sujos (sampler, MPC) e limpos (flauta, quarteto de cordas); criação de uma massa que não está a serviço da voz de Elza, mas que se cola a ela, formando um todo rascante, corrosivo.

No que se refere às letras, o verso “O meu país é o meu lugar de fala”, de “O Que se Cala” (Douglas Germano), é uma declaração de princípios. Dá a uma expressão das lutas identitárias (“lugar de fala”) um sentido nacional, esvaziando o tom fratricida que há nela.

Ao longo do CD, miram-se alvos concretos sem deixar de lado a qualidade musical.

Contra a intolerância religiosa e a doutrina Escola sem Partido, vem “Exu nas Escolas” (Kiko Dinucci e Edgar), em que se ensina que “Exu no recreio não é xou da Xuxa” e se propõe “tomar de volta a alcunha roubada”, ressaltando-se o lado positivo da entidade.

A liberdade religiosa é tema de “Credo” (Douglas Germano): “Minha fé quem faz sou eu/ Não preciso que ninguém me guie”. E a sexual, de “Um Olho Aberto” (Mariá Portugal): “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”.

O par formado por “Língua Solta” (Alice Coutinho e Romulo Fróes) e “Hienas na TV” (Kiko Dinucci e Clima) descarta os falsos consensos. Na segunda, direcionada aos políticos e outros donos dos poderes, Elza canta: “Digo sim pra quem diz não/ E pra quem quiser ouvir/ Eu digo não”.

A primeira, espécie de súmula conceitual do CD, deixa claro: “Nós não temos o mesmo sonho e opinião/ Nosso eco se mistura na canção/ Quero voz e quero o mesmo ar/ Quero mesmo incomodar”.

As mulheres estão no poder em quatro faixas. No par “Banho” (Tulipa Ruiz)/ “Eu Quero Comer Você” (Alice Coutinho e Romulo Fróes), elas são donas de seus corpos, desejos e prazeres.

Em “Dentro de Cada Um” (Pedro Loureiro e Luciano Mello), extraem força das absurdas violências de todos os dias, mas não veem o gênero masculino como um inimigo a ser derrotado. “A mulher vai sair/ E vai sair/ De dentro de quem for/ A mulher é você”.

Almeja-se a vitória absoluta na faixa final, “Deus Há de Ser” (Pedro Luis). É dela o verso-título do CD e outro afim: “Deus é mãe” —o que, convenhamos, faz todo o sentido.

Elza está cantando como nunca porque o repertório é perfeito para a sua voz, para o que viu em mais de 80 anos, para o que viveu, para o que quer dizer e sabe dizer.

Seus discos com a turma paulista são fundamentais não só para a música brasileira mas para a vida do país.

DEUS É MULHER

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CARNAVALIZANDO A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA À OPRESSÃO: Sambando na cara da tirania, a Tuiuti faz História na Sapucaí e deixa uma cicatriz na carne do Carnaval do Rio

“É CARNAVAL MAS FOI GOLPE!”
Roberta Martinelli

Um golpe de Estado não é nenhum piquenique, mas ao invés de derrubar lágrimas sobre nosso pesadelo, chegamos ao Carnaval do ano eleitoral com um ícone popular sobressaindo sobre tudo: a Tuiuti e sua estética do quilombo, carnavalizando as consequências nefastas do golpismo tirânico hoje empoderado.

O esqueleto de Castro Alves abriu um sorriso no cemitério ao ouvir “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, notando que os afrobrasileiros vão inventando uma resistência carnavalizada à opressão, uma anarquia antropofágica-tropicalista que infunde ânimo e esperança às nossas necessárias lutas do porvir.

Um coup d’État como este que se encontra entre nós hoje, fazendo o serviço do elefante na loja de louças, pode acarretar catástrofes humanitárias: a reversão do mundo do trabalho a níveis de desrespeito aos direitos humanos mais básicos dos cidadãos que mais se assemelha a uma reversão ao escravagismo (CLTs em chamas, enquanto matam a fome com cinzas os quase 15 milhões de desempregados…), Retrocesso rumo à abolição da lei Áurea, para delírios de efusão dos banqueiros e Bolsas de Capitais… O patronato Rei Patinhas comemora seu triunfo, nadando em piscina de ouro enquanto as massas padecem na miséria…

Este sistema aniquilador do mais básico estandarte da dignidade, a cidadania e o “direito a ter direitos” (como diz Hannah Arendt), hoje está sacrificado no altar dos lucros privados de minúsculas elites, que nos desgonernam a golpes de (D)eformas e PECs. Na linha de frente, como a Tuiuti inscreveu na História com seu desfile, vem um cara-pálida vampiresco, vestido de terno-e-gravata, feito um Temer, um Macri ou um Trump… Vilões do pesadelo do real. Nosso levante os ofende com arte!

Carnavalizando a nossa tragédia, a Paraíso do Tuiuti entrou como “sentinela da libertação” na Sapucaí e fez mais, fez muito mais do que mera arte popular na avenida: fez História nas páginas brasileiras onde estão escritos nossos maiores heroísmos de Desobediência Civil.

É de saudar a sabedoria das favelas cariocas resistentes que não param de cantar, além de seus sambas-enredo, o clássico do falecido Wilson das Neves: “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval):

O samba não está solitário na resistência à opressão: faz alianças com o rap, inventa seus modos de hackear seu acesso à grande mídia, e assim surgem fenômenos louváveis, do Lab Fantasma do “Pantera Negra” Emicida ao levante de empoderamento feminino com Larissa Luz, Tássia Reis e Rimas & Melodias, cenário no qual figura como trovão esplendoroso no céu do Brasil este já lendário desfile da Tuiuti em 2018.

Dentre seus méritos não menores está o ter se apropriado da mídia, já que o desfile foi transmitido ao vivo pela Rede Globo, apesar da Tuiuti expor de modo explícito o complô golpista de que os globais foram patrícios partícipes. Globosta golpista teve pôr no ar o Samba da Resistência Alegre de um Povo Aguerrido, passando outra vez Chico Buarquística-mente em era e época de “tenebrosas transações” (de Cunhas e Jucás, MDBs e Globos, Fiesps e Odebrechts…).

A Tuiuti sambou com sarcasmo, tirando sarro daqueles “manifestoches” manipulados por MBLs e Vejas, servindo aos interesses patíferos do empresariado Fiespista, títeres de petroleiras gringas de olho gordo pra cima do nosso pré-sal, dentre outras forças da Elite do Atraso (Jessé Souza) que estiveram por trás da derrubada injusta da presidenta eleita.

Os coordenadores do golpe tiveram novamente uma aliada nas Corporações Globo, mais uma vez – replays-de-farsa das tragédias de 64 e 68… – agindo não como deveria fazer um ente da mídia em um país democrático, mas como empresa capitalista umbigocêntrica que age como protagonista e fomentadora dos privilégios injustos das elites econômicas exploradoras.

O Carnaval do Rio deste 2018 tornou-se célebre mundialmente pela força de sua contestação – muito bem-vinda nestes tempos em que a América Latina mostra-se novamente como o terreno das “veias abertas”, de patas arriba, como ensinou Eduardo Galeano.

Um continente convulsionado: ao insulto que é o indulto a Fujimori no Peru
(processo levado a cabo um PPK ameaçado de ser impeachado), soma-se ao insulto da lawfare golpista condenando ao Lula – “sem provas, mas muitas convicções” – com o fim de inviabilizá-lo nas iminentes eleições.

Estive na Bolívia durante o Carnaval 2018 e voltei fortalecido com a resiliência de Evo Morales (do MAS – Movimento Ao Socialismo) na presidência da Bolívia, mesmo sob muitos ataques. No Carnaval ocorrido no Cambódromo de Santa Cruz de La Sierra, não faltaram críticas agressivas dos cambas caucasianos ao Evo Aymara, renovador do cenário político que propõe ao continente a utopia do Estado Plurinacional. O Brasil está surdo…

Amaré direitista que hoje nos assola na Argentina, no Chile, no Brasil, não nos deixa sequer suficiente área de respiro para que tomemos fôlego com as vitórias utópicas que resistem em outras partes do continente sul-americano que integramos, utopia concreta que hoje melhor se manifesta na Bolívia de Morales.

Esta maré direitosa atualmente mostra a transmutações do neo-liberalismo em um doutrina mais intolerante do que nunca, desenvolvendo perigosas tendências fascistas, tanto que estamos sob a ameaça de mais Intervenções Militares dos Yankees apoiadas por oligarquias locais vende-pátria, com o fim de trazer abaixo pela força de violências, explícitas ou veladas, os regimes “bolivariano-socialistas” que ainda resistem na Venezuela e na Bolívia.

Tio Sam e seu comandante psicopático Trump vem aí, regando a árvore sinistra de nossos Golpes de Estado contra Maduro e Evo…

Neste cenário, é um alento que a Tuiuti tenha sambado tão bonito na cara da Opressão… O que me lembra de algo que Celso Lafer ensinava sobre “Hannah Arendt”: “ela entende que, em situações-limite – uma categoria de inspiração Jasperiana, importante na sua reflexão -, a desobediência civil é legítima e pode ser bem-sucedida na resistência à opressão. Este foi o caso, por ela comentado em Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal, da resistência dos dinamarqueses, através da desobediência civil, à política antissemita do invasor nazista. Este também foi o caso da luta contra a segregação racial e da resistência à guerra do Vietnã… De fato, nesses casos a desobediência civil, sendo a expressão de um empenho político coletivo na resistência à opressão, não se constitui como rejeição da obrigação política, mas sim como a sua reafirmação.”

(LAFER, Celso. In: A Reconstrução dos Direitos Humanos – Um diálogo com Arendt, Cia das Letras, p. 39)

Em meio à situação-limite que vivemos enquanto país – um autêntico barril de pólvora de tamanho continental, e sem escassez de faíscas e estopins! – foi um esplêndido evento testemunhar essa carnavalização da desobediência civil e da resistência à opressão na Sapucaí, e por isso selecionamos interessantes posts com a repercussão do Carnaval Rio 2018, em publicações da Mídia Ninja, Revista Fórum, DW, El País, Sakamoto, entre outros. Façam bom proveito:

CANTANDO AO RITMO DA DÚVIDA – Raul Seixas​ desvendado por O Pasquim​ em 1973

CANTANDO AO RITMO DA DÚVIDA – Raul Seixas​ desvendado por O Pasquim​ em 1973

O crítico musical Tárik de Souza​ conduziu magistral entrevista com Raul Seixas – aquele que “corta como uma navalha que ainda não foi inventada, porque tem gumes em todas as direções” – para o Pasquim (edição #228, Novembro de 1973). Ali, Tárik comenta de modo poético que Raul “canta ao ritmo da dúvida”: “nem exclamação, nem ponto final: reticências”. Transcendendo a demagogia e o dogmatismo, Raulzito teria fornecido à história da música popular brasileira uma das melhores encarnações do “espírito livre” que nos anuncia a filosofia de Friedrich Nietzsche​.

Fazendo um resgate de toda sua trajetória, Raulzito lembra como era Salvador, no fim dos anos 1950, quando o conjunto de rock Os Panteras – uma pá de bandas na época tinham nome de bicho… – começaram a fazer um barulho inovador. Não só pois evocavam e mimetizavam o rock’n’roll nascente, de Chuck Berry, Elvis Presley, Bo Diddley, mas também pois praticavam a mescla livre do rock com o baião, colocando Luiz Gonzaga pra dialogar e se entremesclar com a última novidade da música anglo-saxã. Foi um dos mais notáveis sincretismos culturais perpetrados sobre o rock’n’roll – ele mesmo um filho bastardo que o blues teve com o soul e o R&B – aquilo que os baianos roqueiros começaram a realizar lá pelos idos de 1959 e lá vai fumaça.

Na época da entrevista, Raul está envolvidão com aquele seu disco, hoje clássico, que envolve dois termos que hoje muita gente desconhece o contexto: “Krig-Ha!”, grito de guerra do Tarzan e que significa “cuidado!”, e “Bandolo”, que significa o inimigo, o adversário. O LP “Krig-Ha Bandolo” anuncia uma sociedade alternativa e traz em sua capa “o símbolo de Amon-Rá, acrescido de uma chave”. Segundo a piração do maluco beleza na época, esta sociedade “não surgiu imposta por nenhuma verdade, nenhum líder”, mas é um movimento internacionalista devotado à melhoria das coisas e que teria como membros ilustres John Lennon​ e Yoko Ono​. “Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome”, conta Raul. “Nós mantemos uma correspondência constante com eles.” (In: “O Som do Pasquim”, p. 222)

A viagem de “Krig-Ha Bandolo” é descrita como uma encarnação tupiniquim das utopias culturais hippies, sincretizada com tradições populares brasileiras, tudo mesclado com um fino caldo liquidificado de Contracultura, Antipsiquiatria, Filosofia. Além de excelente cantor, compositor e artista performático, Raul Seixas desde cedo foi um magistral escritor. E se percebia como tal:

“Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú que eu penso em publicar alguma dia. Eu sou muito dado a filosofias, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, de Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando outras coisas. Estudei literatura. Comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá para publicar.” (p. 224)

Meditando na companhia de Paulo Coelho, Raul e seu parceiro começando a pirar em ufologia, a falar sobre a possibilidade da existência de ETs e OVNIs, a brincar com a noção de “profetas do apocalipse”, a mergulhar em Aleister Crowley​, e tudo isso acaba sendo explorado de maneira garrafal por jornais sensacionalistas. “O homem que viu disco voador dá Ibope, chamam ele pro Silvio Santos…”, brinca Raul, ao mesmo tempo admitindo que o faro para o sucesso – os hits de Raul, os best-sellers de Coelho – tem a ver com uma certa conexão com as mídias de massas e os conteúdos insólitos e excêntricos que elas julgam lucrativo disseminar.

Raul Seixas sempre insistiu em seu papel de livre-pensador – ou melhor, livre-cantador! – que não quer impor a ninguém uma perspectiva estreita e absolutizada. “Ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir portas. Pras verdades individuais.” (p. 229) E este tema das portas obviamente abre-nos para evocações de acontecimentos seminais da contracultura: o livro de Aldous Huxley​, “The Doors of Perception”, batizado a partir de versos do poeta e ilustrador William Blake​, que por sua vez inspirariam a banda encabeçada por Jim Morrison​, o The Doors​. Raulzito estava ciente de que “se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria como realmente é: infinito.”

“If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, Infinite. For man has closed himself up, till he sees all things thro’ narrow chinks of his cavern.”
― William Blake, The Marriage of Heaven and Hell

Diante destas tendências ao misticismo e ao magicismo, que se manifestam na obra Raulzística (também por influxo de Paulo Coelho), O Pasquim questiona o músico: bem, você diz querer “abrir uma porta na cabeça de quem está ouvindo”, mas será que não acaba às vezes caindo num discurso esotérico e hermético, só para iniciados? “Há o perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?”

RAUL SEIXAS – Não. É uma escada, é um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase ‘Terra’ da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio já é outra coisa, já é mais aberto… Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima, eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar onde eu estou, porque se ele chegar onde eu estou, não vou comunicar mais.

O PASQUIM – Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?

RAUL – Esse Raul Seixas que está no Teatro Tereza Raquel cantando esse tipo de música, fazendo iê-iê-iê realista, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.

O PASQUIM – Você faz isso mais pra você se entender ou pra que os outros te entendam?

RAUL – Para que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as ‘classes’, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando “A Mosca na Sopa”.

O PASQUIM – Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.

RAUL – Não, que isso? Sabe por que? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.

O PASQUIM – Mas o magicismo pode cair.

RAUL SEIXAS – Mas é um magicismo estudado. É dosado, nego. Dosadinho.

(p. 230)

Por aí se vê um artista que deseja ser popular, transcender fronteiras, falar com o povo todo, e que nunca quis soar hermético, falando apenas para a área VIP dos detentores de capital cultural/intelectual. O que não quer dizer que Raul Seixas fosse um disseminador de mensagens banais, de filosofias vulgares, pois desejou através de sua arte um autêntico ataque coordenado contra a caretice, o conformismo e a estereotipia.

Ele rompeu com os estereótipos prévios do que deve ser o artista pop e se recusou a comer o alpiste alheio, forjando de maneira radical e autônoma uma nova figura do artista popular.

RAUL SEIXAS – “Tá todo mundo estereotipado. Por isso faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo Arthur Schopenhauer​, todo mundo num pessimismo incrível… Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo a coisa em termos globais.E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco do rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não ficar de fora fazendo bobagem, de calça Levi’s com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como o John Lennon disse: “They think they’re so classless and free”. Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo comendo alpiste, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.

O PASQUIM – Quer dizer que você conclui que os intelectuais brasileiros estão muito por fora, muito devagar. Não estão dentro da realidade. Toda essa sua estratégia é para ficar amigo do rato.

RAUL – Dos ratos. No plural.

O PASQUIM – Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. Produzir discos de Jerry Adriani, Wanderléa…

RAUL – Renato e Seus Blue Caps Original​. Eu acho muito bom, eu acho legal.

O PASQUIM – A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como era a tua transa pessoal com essa gente?

RAUL – Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconsequente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso, aprendia a usar aquele mecanismo.

O PASQUIM – Você estava de rato?

RAUL – Exatamente. Eu tava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a idéia de eu contratar Sérgio Sampaio​ (saiba mais: https://acasadevidro.com/?s=S%C3%A9rgio+Sampaio), um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10″. Mas o disco misteriosamente foi tirado do mercado porque não era a linha da CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora… Foi naquela fase hippie, aquela coisa toda. Adoro o disco, acho sensacional… Fui expulso da CBS em função desse LP…” (p. 231-233)

Em conversa com o Pasquim, Raul Seixas revela uma atitude, um ethos, que ainda tem muito a nos ensinar. Emana autonomia, independência de pensamento, inconformismo com as caretices sociais hegemônicas. Convida-nos a romper com os ratos e não mais comer o alpiste pop que a elite do atraso deseja que nos satisfaça. Com Raul Seixas, um icônico espírito livre, radicalmente anti-dogmático, emanando poesia por todos os poros, cantando no ritmo da dúvida, deixou-nos como legado uma obra tão magistral quanto salutar.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA DE RAUL AO PASQUIM EM 1973

GITA

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar:

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Gita gita gita gita gita

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo

Gita gita gita gita gita

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio (2x)
Eu sou o início, o fim e o meio (3x)

* * * * *

Por Eduardo Carli de Moraes​

Saiba mais em A Casa de Vidro​ e ouça a Discografia Completa de Raulzêra: https://acasadevidro.com/?s=Raul+Seixas

LINDAS CANÇÕES DE PAULO CÉSAR PINHEIRO – Com Clara Nunes, MPB4, Joyce, Mariene de Castro, Teresa Cristina, dentre outros

Com Clara Nunes, Vinícius de Moraes e Paulo Gracindo no camarim do show Brasileiro Profissão Esperança. Canecão, RJ/ 1974


CANÇÕES ESSENCIAIS DE PAULO CÉSAR PINHEIRO – Com Clara Nunes, MPB4, Joyce, João Nogueira, Mariene de Castro, dentre outros

PESADELO – Paulo César Pinheiro / Maurício Tapajós

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã

Olha aí…
Olha aí…
Olha aí…



Com Baden Powell na gravação do LP Paulo César Pinheiro, lançado em 1980 com participação dos parceiros.

LEIA EM ROLLING STONE: Paulo César Pinheiro, o letrista mais importante do Brasil (Nov / 2011)



JOGO DE ANGOLA – Paulo César Pinheiro

No tempo em que o negro
Chegava fechado em gaiola
Nasceu no Brasil
Quilombo e quilombola
E todo dia, negro fugia, juntando a curriola

De estalo, de açoite, de ponta de faca
E zunido de bala
Negro voltava pra Angola
No meio da senzala

E ao som do tambor primitivo
Berimbau, maracá e viola
Negro gritava “Abre ala!”
Vai ter jogo de Angola

Perna de brigar, camará
Perna de brigar, olê!
Ferro de furar, camará
Ferro de furar, olê!
Arma de atirar, camará
Arma de atirar, olê!

Dança guerreira
Corpo do negro é de mola
Na capoeira
Negro embola e desembola
E a dança que era uma festa para o dono da terra
Virou a principal defesa do negro na guerra
Pelo que se chamou libertação
E por toda força coragem, rebeldia
Louvado será todo dia
Esse povo cantar e lembrar o Jogo de Angola
Na escravidão do Brail

Ouça com Clara Nunes Guerreira:



CANTO DAS TRÊS RAÇAS – Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor




Com Tom Jobim e Dori Caymmi, 1980

AS FORÇAS DA NATUREZA – Paulo César Pinheiro e João Nogueira

Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal
Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar o barulho infernal
Os homens vão se rebelar
Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal

Vai resplandecer
Uma chuva de prata do céu vai descer, la la la
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural
Vai florir
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal

As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval (2X)

Com João Nogueira e Joyce no show Paulo César Pinheiro 50 Anos. SESC Pompéia, São Paulo, 1999 (Foto Marco Aurélio Olímpio)



Toque de São Bento Grande de Angola – Paulo César Pinheiro

Nesse mundo camará
Mas não há, mas não há,
Mas não há quem me mande!
Eu só sei obedecer
Se mandar
Se mandar São Bento Grande
É de Angola, é de Angola, é de Angola
De Angola, De Angola, De Angola! 

Meu avô já foi escravo
Mas viveu com valentia
Descumpria a ordem dada
Agitava a escravaria
Vergalhão, corrente, tronco
Era quase todo dia
Quanto mais ele apanhava
Menos ele obedecia

Quando eu era ainda menino
O meu pai me disse um dia
A balança da justiça
Nunca pesa o que devia
Não me curvo à lei dos homens
A razão é quem me guia
Nem que seu avô mandasse
Eu não obedeceria

Esse mundo não tem dono
E quem me ensinou sabia
Se tivesse dono o mundo
Nele o dono moraria
Como é mundo sem dono
Não aceito hierarquia
Eu não mando nesse mundo
Nem no meu vai ter chefia!



SAGARANA

A ver, no em-sido
Pelos campos-claros: estórias
Se deu passado esse caso
Vivência é memória
Nos Gerais
A honra é-que-é que se apraz
Cada quão
Sabia sua distinção
Vai que foi sobre
Esse era-uma-vez, ‘sas passagens
Em beira-riacho
Morava o casal: personagens
Personagens, personagens
A mulher
Tinha o morenês que se quer
Verdeolhar
Dos verdes do verde invejar
Dentro lá deles
Diz que existia outro gerais
Quem o qual, dono seu
Esse era erroso, no à-ponto-de ser feliz demais
Ao que a vida, no bem e no mal dividida
Um dia ela dá o que faltou… ô, ô, ô…

É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana…

A pois que houve
No tempo das luas bonitas
Um moço êveio:
– Viola enfeitada de fitas
Vinha atrás
De uns dias para descanso e paz
Galardão:
– Mississo-redó: Falanfão
No-que: “-se abanque…”
Que ele deu nos óio o verdêjo
Foi se afogando
Pensou que foi mar, foi desejo…

Era ardor
Doidava de verde o verdor
E o rapaz quis logo querer os gerais
E a dona deles:
“-Que sim”, que ela disse verdeal
Quem o qual, dono seu
Vendo as olhâncias, no avôo virou bicho-animal:
– Cresceu nas facas:
– O moço ficou sem ser macho
E a moça ser verde ficou… ô, ô, ô…

É buriti, buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi, o que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa e o alto bom-buriti
Outra coisa é o buritirana…
Quem quiser que cante outra
Mas à-moda dos gerais
Buriti: rei das veredas
Guimarães: buritizais!


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