SAMBANDO COM O HUMOR E A AMARGURA: Como a “jovialidade trágica”de Assis Valente marcou pra sempre a MPB

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

 «Só se é fecundo pelo preço de se ser rico em contradiçõesNIETZSCHE, “Crepúsculo dos Ídolos”

PRÓLOGO: Fui convidado pela equipe do Enredo Cultural da TV UFG a tecer alguns comentários sobre a vida e a obra de Assis Valente, um de meus compositores populares prediletos, para o quadro Artefilia do programa que foi ao ar em 29/01/2020. Em uma participação anterior, em que eu fui instigado a compartilhar impressões sobre Parte de Nós, de Diego & o Sindicato, um dos meus álbuns prediletos da música brasileira no séc. 21, a entrevista concedida à jornalista Janaína de Oliveira enveredou a certo ponto sobre a influência e a repercussão, na música da atualidade, de Assis Valente, e isto acabou sendo o tema de outra conversa que tive, desta vez com o jornalista Gustavo Soares. No processo, pude notar que, muito além d’Os Novos Baianos e sua clássica releitura de “Brasil Pandeiro” nos anos 1970, Assis Valente vive e ecoa, nos anos 2000s, na trilha do Mascate.

Este artigo – Sambando Com o Humor e Amargura – é fruto das pesquisas em que mergulhei no processo de colaborar com esta produção midiática da Universidade Federal de Goiás e de dialogar mais a fundo com o Diego Mascate – que tornou-se hoje um querido amigo, além de um dos artistas que mais admiro. O artigo também tem uma dívida imensa ao livro de Gonçalo Júnior, aqui esmiuçado: Quem Samba Tem Alegria é uma uma biografia irretocável, extremamente informativa, que descortina para o leitor horizontes ampliados sobre a música popular do Brasil através da vida e obra de um de seus ícones mais memoráveis, Assis Valente, o trágico jovial.


SAMBANDO COM O HUMOR E A AMARGURA

Quem observa a fotografia de Assis Valente, posando diante dos Arcos da Lapa em 1951, não tem razão para duvidar de que está diante de um homem feliz e realizado. Com seu sorriso radiante, com dentes perfeitos e dignos de quem exerceu o ofício de fabricar elogiadas próteses dentárias, Assis Valente traz no rosto a expressão de um boêmio experiente. Passa a impressão de estar rodeado pela aura de malandro hedonista, sábio apreciador dos prazeres do viver. Quem imaginaria que, por detrás da aparência, a depressão o corroía, as dificuldades financeiras o acossavam e as tentativas de suicídio se multiplicavam?

O mulato baiano, nascido em 1911, depois emigrado para a metrópole carioca e capital federal, parece estar nesta imagem lendária no auge de sua força. Parece um neo-epicurista nas festanças de Momo, alguém que vive com base na ética que o mesmo celebrou em seu refrão “salve o prazer, salve o prazer!”. Ali estava o retrato do bem-humorado sátiro que fez a engraçadíssima “E O Mundo Não Se Acabou”, canção que Carmen Miranda celebrizou:


“Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou…”

A pose da foto não capta a tristeza em seu âmago. Mas dá o que pensar sobre o trajeto que levou este compositor de sambas imortais como “Alegria”, originalmente gravada por Orlando Silva, a acabar com a própria vida em 1958 ingerindo guaraná com formicida.


“Minha gente era triste e amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer, salve o prazer…”

A obra artística de Assis Valente revelou-se imorredoura: muitos hoje cantarolam suas melodias e versos, às vezes sem saber que Valente é o compositor delas – como é o caso de “Cai Cai Balão” e “Boas Festas”, sempre lembradas nas festividades de São João e de Natal.

Imorredouro, o compositor popular Assis Valente consegue expressar, como todo grande artista, a mescla entre o positivo e o negativo, o bem e o mal, a delícia e desgraça, de que a vida humana é feita. Afinal, a vida é o território do “matrimônio entre Céu e Inferno” de que se nutriu William Blake para realizar suas obras.

Assis Valente soube tecer os cantos inesquecíveis que nos contam sobre esta vida de alegrias e tristezas entrelaçadas. E ele próprio era capaz de ir da euforia à fossa de maneira tal que psiquiatria de hoje poderia caracterizá-lo como afligido por transtorno bipolar.

O método escolhido por Assis Valente para aniquilar-se, depois de umas seis ou sete tentativas frustradas de suicídio, conta-nos algo sobre a mescla de humor e amargura que marcou sua vida e obra. Quer coisa mais jovial e fútil, mais alegre e descompromissada, do que tomar um Guaraná na praia, olhando o mar ao pôr-do-Sol? Quer coisa mais trágica e grave, mais terrível e sinistra, do que despejar formicida ou veneno-de-rato no que deveria ser apenas um refrescante Guaraná Antarctica?

Naquele 6 de março de 1958 em que Assis Valente abandonou o mundo dos vivos, o Brasil – o país do guarani e do guaraná, pra lembrar o álbum que Sidney Miller gravaria 10 anos depois – ganhou um emblema tragicômico que não cessaria de nos provocar e fascinar. Assis Valente, considerado pelo crítico musical Tárik de Souza como um dos principais artistas “pré-tropicalistas”, legava à posteridade um emblema, e um enigma.

“Baiano dos arredores de Salvador, José de Assis Valente começou em plena era do rádio, nos anos 1930. Além de seu ‘alter ego’ Carmen Miranda, emplacou composições nas vozes de Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas, Araci Cortes e os vocais do Bando da Lua e Anjos do Inferno. Disputava espaço com os gigantes do chamado período aurífero da MPB, João de Barro, Lamartine Babo, Ary Barroso, Noel Rosa e o iniciante Dorival Caymmi.” (TÁRIK DE SOUZA, p. 51)

Através de canções bem-humoradas, de fina sátira, que grudavam na memória, Assis Valente se tornaria um dos maiores exemplos do homo ludens (um conceito muito utilizado por Johan Huizinga como chave-de-leitura das culturas). Inspirou gerações de compositores que viriam depois: a veia lúdica que pulsa em Chico Buarque, Sidney Miller, Tom Zé, Os Mutantes, Novos Baianos, dentre muitos outros talentos satíricos da nossa música popular, tem dívida de gratidão com Valente.


“Quem foi que inventou o Brasil?
Foi seu Cabral! Foi seu Cabral!
No dia 21 de Abril…
Dois meses depois do Carnaval…”
(Sidney Miller)

As canções de Assis Valente falam muito de sorrir em meio à dor. Falam de um povo que inventa as batucadas para remediar o seu cotidiano padecer. Em algumas canções, o eu-lírico faz a crônica dos fingimentos de alegria que mascaram as tristezas no âmago. Alimenta os mitos sobre os palhaços tristes, sobre bufões que por fora são a imagem da jovialidade encarnada, mas que choram sozinhos em seus quartos ao amargarem todos os horrores do abandono, da segregação, do vício. Na mesma “Alegria”, ele arremata com os versos: “Vou cantando, fingindo alegria / Para a humanidade não me ver chorar…”

O senso comum tende a pensar que “quem samba tem alegria”, nome aliás da excelente biografia que Gonçalo Junior realizou sobre “a vida e o tempo de Assis Valente”. Porém, alegria não basta para que nasça um samba que realmente se conecte com a alma das massas e que ecoe na posteridade. Pra se fazer um bom samba é preciso “um bocado de tristeza”, como já ensinaram Vinícius de Moraes, Baden Powell e Toquinho no “Samba da Benção”, agindo como discípulos de Assis Valente:


“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza!
Senão não se faz um samba não…”

Há lições de sabedoria a extrair da obra deste poeta, Assis Valente, dotado de um senso intenso da ambivalência intrínseca à vida. Para esclarecer o que quis dizer por trás do palavreado filosófico um tanto hermético da última fase, evoco o mesmo ethos presente em outra genial canção da nossa MPB: “Preciso Me Encontrar”, composição de Candeia imortalizada por Cartola.

Nela, o sambista anuncia seu plano de cigano bucólico, faminto pelas experiências de “assistir ao Sol nascer / ver as águas dos rios correr / ouvir os pássaros cantar / eu quero nascer, quero viver”.

Ele na sequência menciona que este ímpeto cigano, esta vontade de ser trotamundos, tem uma fonte, uma razão, um motivo: ele “precisa andar” devido à sua busca de “sorrir pra não chorar”. Assis Valente está em sintonia com esse sentimento.

Ironista de nossos desmazelos tropicais, Assis fala na genial “Recenseamento” de um Brasil que tem “um conjunto de harmonia que não tem rival”. Ele estava quase que com certeza sendo irônico, pois falar de “harmonia social” neste país de fraturas expostas e violências extremas parece piada. E é.

Nas crônicas-canções de Assis Valente, a “harmonia sem rival” é descrita em seus elementos constituintes: “Comecei a descrever tudo de valor / Que o meu Brasil me deu / Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo / Um pano verde e amarelo / Tudo isso é meu! / Tem feriado que pra mim vale fortuna, / A Retirada da Laguna vale um cabedal! / Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia, / um conjunto de harmonia que não tem rival.”

O cáustico cinismo do compositor se derrama sobre os agentes públicos que, em 1940, faziam recenseamento no morro. Assis Valente, como faria décadas depois Chico Buarque, adere a um eu-lírico feminino, e esta mulher-do-morro reclama de ter sua vida esmiuçada e devassada, pelo invasor que é o “agente recenseador”, em um processo que “foi um horror”.

Retrato da Era Vargas (1930 – 1945), a música fala sobre a hegemonia de uma ideologia trabalhista que tratava a boemia como vício a combater, que mandava a polícia reprimir quem não fosse do batente e sim da folia. A mulher da música, diante do “agente recenseador”, narra um encontro difícil – nele, ela tem que explicar à autoridade os modos de vida do seu “moreno”, que corre o risco de ser criminalizado não só pelo tom de sua pele, mas por supostamente não trabalhar com coisa séria. Vale lembrar que a apologia da boemia, que estava na letra original do samba “Bonde de Januário” de Ataufo Alves, era censurada à época (1937) pelo D.I.P. (Departamento de Imprensa e Propaganda).



“Quando viu a minha mão sem aliança
encarou para a criança
que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
se era do batente ou se era da folia…
Obediente como a tudo que é da lei
fiquei logo sossegada e falei então:
O meu moreno é brasileiro, é fuzileiro,
é o que sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza,
nós vivemos na fartura sem dever tostão.
Tem um pandeiro, um cavaquinho, um tamborim
um reco-reco, uma cuíca e um violão…”

As cerca de 153 canções de Assis Valente que foram gravadas são cifra suficiente para provar que sua vida foi fecunda em criatividade. Isso só foi possível, em menos de 50 anos de vida, pois Assis Valente era rico em contradições, o que evoca um pensamento de Nietzsche citado na epígrafe: “Só se é fecundo pelo preço de se ser rico em contradições.” Assis Valente, milionário em contradições ainda que tenha vivido com dificuldade para pagar os aluguéis e saldar as dívidas, soube lidar criativamente com a profusão de contradições que o habitavam e soube expressá-las musicalmente. 

Em “Minha Embaixada Chegou”, outra de suas músicas geniais, retoma o emblema da batucada que “aquela gente triste e amargurada inventou pra deixar de padecer”. Essa mesma batucada, inventada como remédio coletivo para nosso  sofrer, é também aquilo que o povo usa em seu próprio processo de libertação e de celebração da existência, por mais sofrida que seja. É na batucada que o povo vai “pedindo licença pra desacatar”, e em meio aos batuques o amor se faz, em meio à folia e à vadiagem, num cordão onde a tristeza da existência favelada é transcendida:


“Vem vadiar no meu cordão!
Cai na folia meu amor!
Vem esquecer tua tristeza,
Mentindo a natureza,
Sorrindo a tua dor.

Minha embaixada chegou…

Usei o nome da favela,
Na luxuosa academia,
Mas a favela pro doutô
É morada de malandro
E não tem nenhum valor.

Não tem doutores na favela,
Mas na favela tem doutores!
O professor se chama bamba,
Medicina é na macumba,
Cirurgia lá é samba.

Minha embaixada chegou…”

Tempos depois, Clara Nunes, em sintonia com a jovialidade trágica de Assis, cantaria num belo samba do LP Brasil Mestiço: “Quando eu morrer, quero uma batucada pra me levar à minha última morada.”

Resta ainda por compreender melhor, decifrando um pouco ao menos alguns de seus mistérios, o que levou este hedonista batuqueiro, este boêmio carnavalesco, a atravessar o inferno da depressão, a jogar-se do Corcovado numa sensacional tentativa de suicídio em 1941, para em 1958 findar seus dias com uma dose letal de guaraná com formicida.

Em sua espiral de descida à inexistência, Assis Valente nos deixou um ponto final que leva a sentir, de maneira trágica, a verdade intragável: rezamos em vão pra Papai Noel ou pra Papai do Céu, porém a “felicidade é brinquedo que não tem”.


“Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem!
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem…”

Como escreveu Diego de Moraes (o Mascate):

“Boas Festas” expressava bem a contradição de Assis Valente, entre a piada e a depressão: homossexual em uma sociedade machista, negro em um país racista, ia ‘cantando, fingindo alegria’. Gravada em 1933, por Carlos Galhardo, com o acompanhamento dos Diabos do Céu – conjunto de Pixinguinha –, além de se tornar um grande sucesso popular, também revelava aquele talento, que depois diria: “Papai Noel não tinha vindo, mas eu havia ganho um presente: a melhor de minhas composições”.

(…) Ele sabia que nem todos são filhos de Papai Noel. A lenda do bispo São Nicolau (o bom velhinho que deixava um saquinho com moedas para os pobres) tinha sido, em 1931 (um ano antes de “Boas Festas”), usada em uma campanha publicitária, que também marcou o imaginário popular. Era a campanha natalina da Coca-Cola, que se utilizava da imagem do velhinho caridoso (criada por um cartunista alemão do século XIX) para espalhar pelo mundo o vermelho da empresa e um modo de vida. Este Papai Noel (bem definido pela banda punk Garotos Podres como “porco capitalista que presenteia os ricos e cospe nos pobres”) não podia trazer a felicidade para Assis Valente.

Desiludido com o Papai Noel (que “com certeza já morreu”), a partir de 1940, Assis assistia a queda do sucesso e a depressão se agravar. Em uma de suas tentativas de suicídio, se jogou do Corcovado; mas foi salvo pelos bombeiros, que tiraram-lhe de uma árvore. Nos anos 50, torna-se uma figura praticamente esquecida. Angustiado e solitário, protagonizava uma vida repleta de ironias e ambigüidades. Valente, aquele que cuidava de sorrisos em um laboratório de prótese dentária; que foi comediante de circo na infância; que fez tanta gente rir com seus sambas engraçados; que compôs a nossa trilha sonora da ceia de 25 de dezembro… decidia dar o fim em sua própria vida. O ano era 1958, o “ano da bossa nova” (ritmo que embalava a esperança dos tempos JK). Assis Valente se matava, ingerindo formicida com guaraná, no fim da tarde de 10 de março daquele ano. O Papai Noel da Coca-Cola não trouxe a felicidade. (MORAES, Diego.)

As contradições e ambivalências que tornam o cancioneiro de Assis Valente algo de tal potência imorredoura são também expressão do Brasil e suas fraturas. Por exemplo, a fratura ou o abismo que separa o sonho do que poderíamos ser (nossa utopia) e a catastrófica realidade do que de fato somos (nossa distopia real). Em seu livro Tem Mais Samba, Tárik de Souza destaca:

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, cantou o mulato baiano segregado por sua homossexualidade dissimulada, numa época em que era pecado sambar diferente. Assis, que levava vida dupla para escapar do preconceito, fez a maioria de suas músicas no feminino exteriorizando uma anima alegre, proibida na vida real, através de vozes requebradas como a de sua principal cantora, Carmen Miranda.” (TÁRIK DE SOUZA, p. 51)

Tárik põe aí o dedo na ferida: a sociedade brasileira, mesmo diante de um compositor genial como Valente, praticaria a segregação que o isolou devido a um entrelaçamento de opressões: sua “mulatice” era vista como defeito aos olhos dos racistas fanáticos pelo “embranquecimento da raça”; suas origens humildes na Bahia, enquanto filho bastardo de um casamento inter-racial, não lhe granjeavam o gozo de privilégios de classe; e sua bissexualidade, em contexto social homofóbico, era obrigada a se dissimular e se resguardar no famoso armário.

Some-se a isto o vício que ele desenvolveu em relação à cocaína, que usava para combater sua depressão pegando uma carona rápida para a euforia quimicamente induzida, e seu caráter mão-aberta, de quem gastava dinheiro de maneira impensada com luxos e confortos, mas também com o auxílio a amigos necessitados, e temos uma receita para o desastre. Só agravada pela pecha de suicida fracassado, silenciado por uma sociedade que costuma relegar os que tentam se matar a uma posição de silenciamento, ou mesmo a um cárcere psiquiátrico enquanto “loucos” que não dizem nada que faça sentido.

Nos anos 1970, mais de uma década depois de seu suicídio, Assis Valente foi “em boa hora resgatado do esquecimento”, como contam Severiano e Homem de Melo em A Canção no Tempo, Vol. 2. Outra marca impressionante que Assis Valente deixou na cultura brasileira é o fenômeno chamado Acabou Chorare, a obra-prima que os Novos Baianos lançaram em 1972. Considerado um dos LPs mais importantes da história da MPB, ele nasce muito das confluências entre João Gilberto, o pai da bossa nova, com os Novos Baianos. Conta a lenda que foi João quem apresentou a obra de Assis Valente aos Novos Baianos, convencendo-os a regravar “Brasil Pandeiro”, faixa de abertura de um álbum também imorredouro.

O próprio título Acabou Chorore faz referência a um episódio cômico envolvendo Bebel Gilberto; ainda criança, Bebel teria inventado a expressão “acabou chorare” ao misturar português e castelhano “em razão do período em que viveram no México”: “um dia, ao levar um tombo e ver seu pai João Gilberto aproximar-se aflito para socorrê-la, a menina exclamou, engolindo o choro: ‘Acabou chorare, papai!'” (SEVERIANO, J; HOMEM DE MELO, Z. P. 193)

O álbum abriria com a célebre composição de Assis Valente que conclama: “está na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor!”. O compositor usava o adjetivo “bronzeada” (e não “negra” ou “mulata”) pra se referir positivamente aos milhões de mestiços da terra brasilis, nação intensamente miscigenada, cheia de uma “gente bronzeada” que é boa no batuque. Lançada originalmente em 1941, em gravação da banda Anjos do Inferno, a música evoca pandeiros quentes batucando céleres em terreiros iluminados onde a gente gente bela e bronzeada se acaba sambar.

A canção brinca com a cultura brasileira sendo capaz de encantar o mundo: até o Tio Sam começa a inspirar-se conosco, transmutando sua própria cultura em contato com o samba afrobrasileiro. “Há quem sambe noutras terras, outras gentes, num batuque de matar”, menciona o compositor, referindo-se à diversidade rítmica e fazendo etnomusicologia em canção. Os versos podem também ser uma menção cifrada à Mama África, a seus batuques, seus lundus, seus sembas, que foram reavivados na América pelos africanos escravizados e seus descendentes libertos.

“Brasil Pandeiro”, obra prima do cancioneiro popular, não só aponta para uma ancestralidade e para um passado vivo – ou seja, para uma cultura do enraizamento. A música também aponta para o futuro e postula alternativas, em que a Casa Branca “dança com a batucada de iôiô iáiá”. Os EUA se prostram diante de nossos dons rítmicos. O samba torna-se cosmopolita e patrimônio da humanidade. A cultura brasileira ensaia aí planos de conquista planetária. E o baiano Assis promete que, um dia num futuro cujo advento ele busca acelerar, a cultura híbrida nascida das transas da Bahia com o Rio, metrópoles mescladas e confluentes, vai transfigurar o mundo em frutos de grande irresistibilidade rítmica e verbal.


“Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros,
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar!”

Em várias ocasiões, relatadas na biografia de Gonçalo Jr, Assis Valente denuncia ter sido vítima de racismo. Em suas canções, busca valorizar a “gente bronzeada” falando do “bronze que tem alma”, como faz em “Elogia da Raça”, gravada por Carmen Miranda. Nesta canção, dotada de ironias cáusticas, satiriza o viés dos racistas através de versos que lidam de maneira humorística com a genealogia da pele escura: “O Sol queimava tanto / E roupa não havia / Por isso é que o nêgo / Tem a pele tão queimada.”

Na determinação múltipla que o impeliu à auto-aniquilação, também entra na conta o fim de seu primeiro e único casamento. Assis Valente sentiu-se vítima de racismo por parte da família de sua esposa, com quem teve a filha Nara e de quem desquitou num processo triste e traumático. Desgostoso com os rumos que tomava a indústria cultural nos anos 1950, Valente não se afinava bem aos esquemas e maracutais vinculados ao jabaculelê – ou seja, o pagamento de propinas (jabá) para que os radialistas tocassem certas músicas.

Afundado em dívidas que o seu trampo com próteses não seria capaz de saldar, subindo e descendo nas gangorras do vício em cocaína, indo da euforia à fossa, preso nos armários aos quais uma sociedade homofóbica condena aqueles que estigmatiza como de “sexualidade desviante”, Assis Valente de fato cometeu o pecado de sambar diferente. “Depressivo”, “bipolar”, “ciclotímico”, de “tendências suicidas” – acumulam-se qualificações sobre sua psiquê atormentada. A mídia sensacionalista e a boataria maliciosa espalham, com suas más línguas, que o famoso compositor tinha relações homoeróticas com os aprendizes de seus cursos de próteses.

Empobrecido e no abandono, na sétima tentativa de suicídio ele pôde enfim deixar para trás um mundo imundo e cruel. Este cancionista de sensacional fertilidade e brilhantismo não conquistou a felicidade tão sonhada que costuma-se pedir ao Papai Noel ou ao Papai do Céu – estas duas fantasias análogas com que se embebedam crianças e adultos. Sempre pairará um véu de mistério sobre as íntimas engrenagens que levam um ser humano à auto-aniquilação. Mas não há dúvida, ainda mais depois da obra de Durkheim, de que o social impacta o íntimo e que, como dizem as feministas, “o pessoal é político”.

Seria reducionismo realçar somente as dificuldades financeiras como causa mortis de Assis Valente, ainda que ele, ao ingerir o guaraná com formicida na Praça Roussell, estivesse de fato num fundo-de-poço no que diz respeito à grana, com os credores pulando em sua carótida, ameaçado de perder seu laboratório e seu sustento. O próprio estigma do suicida fracassado, muito explorado pela mídia, impele a tentar um suicídio bem-sucedido. Na verdade, nossa sociedade não respeita o direito de morrer, trata o suicídio e a eutanásia como temas tabu, quando não lança os estigmas sobre quem decide se livrar de uma vida que se tornou demasiado angustiante para valer a pena.

Silenciados na morte assim como foram em vida, muitos suicidas que sobrevivem à tentativa de auto-supressão encontram, na realidade instituída, muitos concidadãos que trazem ouvidos moucos, que são surdos voluntários. As pessoas normais, por medo das verdades que podem ser anunciadas por aqueles que estiveram “nos cumes do desespero” (para evocar uma expressão de Cioran), botam cera nos ouvidos para, como novos Ulisses, não ouvirem o perigoso cântico sedutor da sereia Tânatos. Mas há os suicidas que ressoam mais fortemente na posteridade justamente pelo ato expressivo extremo envolvido na escolha da auto-aniquilação.

Este “baiano pré-tropicalista” que foi Assis Valente era dotado de uma “jovialidade trágica” – como diz o título da biografia escrita por Francisco Duarte e Dulcinéia Nunes Gomes. Dez anos após sua morte, Valente voltava a estar no epicentro de um furacão, tendo sua trágica jovialidade reativada pelos tropicalistas.

Era Dezembro de 1968 e o Brasil estava convulsionado: durante todo o ano, em sintonia com as conturbações na França, no México, na Tchecoeslováquia e alhures, as ruas do país tinham sido tomadas por manifestações contrárias à ditadura militar. A principal delas, a “Marcha dos Cem Mil”, havia tomado as ruas após o assassinato, pelas forças militares, do estudante secundarista Edson Luís no Calabouço. No segundo semestre, o Congresso da UNE em Ibiúna havia sido duramente reprimido e centenas de estudantes haviam sido presos. Nas ruas de São Paulo, em especial a Maria Antônia, universitários da USP e da Mackenzie transformavam a cidade em praça de guerra.

Na noite de 23 de Dezembro, os tropicalistas gravaram o programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi em clima de muita tensão. Como lembra Carlos Calado, Caetano Veloso cantou a marchinha “Boas Festas”, “uma das preciosidades musicais do baiano Assis Valente, apontando um revólver engatilhado para a própria cabeça”:

“Aproveitando a atmosfera fraterna das festas de fim de ano, os tropicalistas resolveram afrontar mais uma vez a caretice da tradicional família brasileira em seu happening semanal pela TV Tupi. (…) Apesar da evidente brutalidade da cena, inspirada em Terra em Transe de Glauber Rocha, Caetano tinha uma explicação bem consistente. A imagem dramática de um suicida, cantando uma canção que ironizava o suposto espírito natalino, revelava também a essência da poesia de Assis Valente…

Por causa de provocações desse tipo, não era à toa que, logo nas primeiras semanas, já se comentava que Divino, Maravilhoso tinha seus dias contados. Além do ibope não ser dos maiores, o auditório da TV Tupo era frequentado por policiais à paisana, o que aumentava ainda mais o mal-estar dos tropicalistas. Principalmente após a decretação do AI-5, o medo aumento muito entre o elenco e a produção do programa. De algum modo, todos tinham consciência de que, a qualquer momento, poderiam ter problemas com a polícia ou mesmo sofrer um atentado. Afinal, Divino, Maravilhoso já nascera como uma mina, pronta para explodir… Em 28 de Dezembro, Caetano e Gil já estavam trancafiados em duas minúsculas celas de um quartel da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro. A aventura tropicalista custou caro aos dois parceiros.” (CALADO, pg. 251 – 253)

O episódio revela o quanto a Tropicália se sentia inspirada pela jovialidade trágica de Assis Valente. E também mostra que nenhuma tirania suporta bem a ironia tragicômica de artistas desajustados que ousam expressar sua diferença em relação ao instituído. Os anos de chumbo da ditadura militarizada tentariam quebrar a espinha dos artistas brasileiros que tinham a coragem de romper com o cerco da censura e do silenciamento – e alguns, como Torquato Neto, também sucumbiram à tentação do suicídio.

Mesmo morto, o espírito tragicômico de Assis Valente seguiu ecoando pelo Brasil, como um balão que sobe em toda festa de São João e que canta em toda época natalina, como a nos lembrar da sabedoria necessária que diz: nesta vida, é impossível viver só a delícia sem a desgraça, só a euforia sem a fossa. Nós, no Brasil, deveríamos saber melhor do que ninguém que estamos todos condenados à mescla. Tudo indica que a Terra será sempre o entrelaçamento, por vezes insuportável e outra vezes maravilhoso, de céu e inferno, inextricáveis em seu abraço.

Carli, Goiânia, Dez 2019

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALADO, CarlosTropicália – A História de Uma Revolução Musical.  São Paulo: Ed. 34, 2ª ed., 2010.

JUNIOR, GonçaloQuem Samba Tem Alegria: a Vida e o Tempo de Assis Valente. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

MORAES, Diego. O suicídio de Assis Valente e o Papai Noel da Coca-Cola. On-line: A Casa de Vidro, Dez. 2017.

SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem deA Canção no Tempo, vol. 2: 1958 – 1985. São Paulo: Ed. 34, 6ª ed., 2015.

SOUZA, Tárik deTem Mais Samba – Das Raízes à Eletrônica. São Paulo: Ed. 34, 2ª ed., 2008.

OUTRAS LEITURAS SUGERIDAS

 

ESCUTE AÍ:

ASSIS VALENTE NÃO FEZ BOBAGEM – 100 ANOS DE ALEGRIA
(Coletânea – CD Duplo)

DOWNLOAD CD 1 – DOWNLOAD CD 2
(VIA MEDIAFIRE ACASADEVIDRO)


Tárik de Souza em Carta Capital / 21 dez 2011.

O compositor Assis Valente (1911-1958) teve uma vida trágica, mas perpetuou a alegria em sua obra. Alguns de seus melhores sambas e marchas estão no CD duplo Assis Valente não fez bobagem – 100 anos de alegria (EMI), entre releituras (CD 1) e gravações originais (CD 2).  No primeiro, Novos BaianosMaria BethâniaMaria Alcina, Martinho da Vila, Wanderlea, Marília Pêra, Isaurinha Garcia, Aracy de Almeida e outros mestres dão aula de ritmo e irreverência. Destaque para raridades como Um jarro d’água, na voz de MarleneRecenseamento, na de Ademilde Fonseca e o clássico Boas festas, com Doris Monteiro. Já no segundo, seus intérpretes mais constantes, Carmen Miranda e o Bando da Lua, se alternam com Dircinha Batista, 4 Ases e 1 Coringa, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Moreira da Silva, na maioria em registros dos anos 30, auge da carreira do compositor. Vale ainda mencionar a qualidade técnica dessas gravações, apesar de tão antigas, e o fato de a maioria ser inédita no formato digital. O álbum acompanha uma mini-biografia escrita por mim, todas as letras e os anos originais de lançamento. Uma delícia! – Rodrigo Faour

 

VÍDEOS INTERESSANTES:

Na gangorra de emoções e obcecada com a mortalidade, Phoebe Bridgers destaca-se no cenário indie-folk

A arte, por vezes, é capaz de proezas espantosas como enfiar a condição humana inteira dentro de uma canção de 3 minutos. É o que faz a artista californiana Phoebe Bridgers – que também integra, na companhia de Conor Oberst, a banda Better Oblivion Community Center – em “Killer”, faixa de seu álbum de estréia “Stranger in the Alps” (lançado em 2017, baixe o disco em Mp3 de alta fidelidade: https://bit.ly/30JgSQK.)

A estilística da canção não difere muito das baladas conduzidas ao piano que fizeram a fama de duas das mais importantes artistas da música norte-americana contemporânea – Tori Amos e Fiona Apple. Porém Phoebe Bridgers traz uma marca própria, uma ousadia lírica toda sua, como prova esta canção que tematiza, com coragem e abertura, o amor diante da morte – e o direito à eutanásia.

Depois de assistir este esplendoroso videoclipe algumas vezes, fiquei impressionado pela capacidade extraordinária de união de vertentes expressivas que se manifestam nestes 3 minutinhos de audiovisualidade em eflorescência: o video-clipe é puro cinema e a letra é pura poesia. E não faltam provocações filosóficas.

“Às vezes penso que sou uma assassina”, começa a canção, evocando um clima de filme de horror, o que a segunda estrofe só sublinha: “Não consigo dormir perto de um cadáver, mesmo que esteja indefeso na morte / E tenho certeza que sentirei tua falta / E de fingir-me adormecida para contar tua respiração…”. A letra inclui uma referência a um notório serial killer (Dahmer) e revela uma artista arriscando-se na expressão de suas obsessões mais sombrias.

“I feel like a lot of my friends, especially artists, are consumed with this idea of the inevitability of death.” Phoebe Bridgers, Interview @ The Line of Best Fit

A canção tem um endereçamento: o eu lírico canta como quem escreve uma carta. Algo do espírito de “When I’m 64” – de Lennon/McCartney, a memorável canção dos Beatles – aparece aqui, pois o eu lírico imagina-se mais velho, questionando-se de modo bem imaginativo sobre seu porvir. Nada evoca, menciona ou fede a morte na canção pop alegrete de McCartney, em que envelhecer ao lado da amada é descrito como a maior das felicidades.

Só que onde Paul McCartney foi jovial, lúdico e solar, Phoebe Bridgers foi dark, melancólica e saturnina. Ela fala assim ao destinatário de sua carta-canção: “Quando eu estiver doente e cansada, e minha mente praticamente não estiver mais lá / Quando uma máquina me mantiver viva e estiver perdendo toda minha cabeleira / Eu espero que você beije minha cabeça apodrecida e tire a máquina da tomada / Sabendo que queimei todas as playlists e dei todo meu amor.” Coube até o amor fati nestes três minutos de esplendorosa canção.

KILLER

Sometimes I think I’m a killer
Scared you in your house
I even scared myself by talking
About Dahmer on your couch

But I can’t sleep next to a body
Even harmless in death
Plus I’m pretty sure I’d miss you
And faking sleep to count your breath.

Can the killer in me
Tame the fire in you?
Is there nothing left to do for us?

I am sick of the chase
But I’m hungry for blood
And there’s nothing I can do
But when I’m sick and tired
And when my mind is barely there
When a machine keeps me alive
And I’m losing all my hair
I hope you kiss my rotten head
And pull the plug
Know that I’ve burned every playlist
And I’ve given all my love.

Can the killer in me
Tame the fire in you?
I know there’s something waiting for us
I am sick of the chase
But I’m stupid in love
And there’s nothing I can do.

Esta obsessão com a inevitabilidade da morte, enfatizada pela artista nesta pela entrevista, também se manifesta em “Funeral”. A poetisa, distanciando-se da eutanásia que se coloca como bifurcação ética no fim de muitas existências humanas, exigindo a escolha pelo suicídio assistido ou pelo morrer-de-morte-morrida, dedica-se em “Funeral” à morte precoce, começando a canção anunciando: “Vou cantar num funeral amanhã de uma criança um ano mais velha que eu.”

O brilhantismo deste início está no fato de que a narrativa cria de imediato um suspense sobre esta misteriosa morte de criança que será cantada por uma criança ainda mais jovem. A música evoca a falência da razão ao tentar compreender este horror, o sentimento de asfixia diante da tragédia: when I think too much about it I can’t breathe.

Phoebe Bridgers, com sua voz afinadíssima, com seu charme sussurrante, fez em “Funeral” um dos canções mais tristes dos últimos anos, culminando num refrão onde o sentimento que impera é o de estar sempre blue. Emblema musical do que alguns psicanalistas chamariam de uma síndrome maníaco-depressiva é a confissão do eu-lírico de que este sentir-se blue all the time é algo que “sempre foi assim e sempre será”. Não é verdade que isto captura à perfeição o mood depressivo, que consiste num presente triste em que tanto passado quanto futuro aparecem dominados por uma tristeza que se espraia para todos os lados?

O quadro fica ainda mais forte quando a poetisa evoca, de maneira impressionante, uma imagem onírica: “tenho um sonho em que estou gritando debaixo da água / enquanto meus amigos estão me acenando da margem”. O sarcasmo de Phoebe ergue-se mesmo em meio à desolação deprê deste funeral sônico e ela pede, como Rebecca Solnit: “não preciso que você me explique o que isso quer dizer…”

É evidente que há hipérbole e exagero nesta expressão da tristeza, estar blue todo o tempo, sempre foi assim e sempre será – mas é através deste recurso expressivo que ela atinge algo muito significativo sobre a experiência humana. Às vezes levamos muito a sério nossos próprios sofrimentos, sem nos lembrar que eles são ninharia diante de pais e mães que neste momento estão chorando a morte precoce de seus filhos.

Phoebe deixa no mistério a causa mortis e seu vínculo com o falecido, mas tudo indica que, já que foi convidada a cantar no funeral, trata-se de um conhecido, alguém quase de sua idade, que nunca estará mais aqui, situação que a afunda temporariamente nesta asfixia emocional onde os moods deprês parecem destinados a ficar para sempre. A boa notícia é que na vida tudo acaba, até a nossa dor de viver, sempre temporária.

Outro destaque deste disco de estréia da Phoebe é “Motion Sickness”, que também ganhou um belo videoclipe que já ultrapassou 2 milhões de visualizações. O teor “confessional” que se mostra nas composições dela é repleta de uma auto-ironia mordaz. Ela confessa que sofre de “emotional motion sickness“, que já tentou curá-la com grana emprestada em um “hypnotherapist”.

Difícil de traduzir – ela mesma fala da escassez de termos na língua inglesa para “afogar” o problema -, este “mal-estar do movimento emocional” evoca uma condição que talvez se caracterize por algo parecido com “ficar doente com a gangorra de afetos”. Os primeiros versos já evocam uma mistura de raiva e de saudade, de autenticidade e de fingimento, em que Phoebe entrega-se como um belo buquê de contradições ambulante. Indo de patinete até o karaokê, a moça do clipe estabelece uma jornada da frieza à catarse, mas sempre solitária. O crescendo catártico do clipe nos conduz à revelação da terapia que ela vem tentando para sua auto-cura: surrender to the sound. 

O tom afetivo da música de Phoebe Bridgers evoca o folk-triste de figuras lendárias do sadcore como Eliott Smith, Cat Power, Nick Drake etc. No encerramento de seu disco de estréia, Phoebe homenageia um desses luminares da melancolia musicada no alt-folk norte-americano: Mark Kozelek (que além de prolífica carreira-solo, foi o líder das bandas Sun Kil Moon e Red House Painters), realizando sua interpretação de “You Missed My Heart”.

Phoebe Bridgers também vem se destacando em projetos colaborativos – caso do trio de mulheres Boygenius  e da dupla de folk-rock alternativo que integra junto com Conor Oberst (o Bright Eyes), o Better Oblivion Community Center. A colaboração Oberst e Bridgers começou no álbum de estréia da cantora, em que Mr. Bright Eyes cantou na faixa “Would You Rather”.

A banda – cujo nome se traduz como algo semelhante a “Centro Comunitário Melhor o Esquecimento” – é uma das novidades mais interessantes do cenário musical indie recente, tendo lançado seu álbum de estréia em 2019 pela gravadora Dead Oceans (a mesma que publicou Stranger in the Alps). Em sua resenha para a AMG All Music Guide, Fred Thomas destacou o quanto Phoebe e Conor são espíritos em sintonia:

“It’s evident that indie songwriters Phoebe Bridgers and Conor Oberst are kindred spirits from a brief sampling of any cross-section of their catalogs. Both deal in folk-inflected storytelling that tends to slowly curdle from introspection to darkness and both have deftly balanced approaches to their songcraft that keep their hooks from being swallowed by that darkness. (…) Along with her unhurried vocals, Bridgers’ signature styles gel nicely with Oberst’s trademark shaky croon and stark lyrical perspectives. While both performers are too iconic for Better Oblivion Community Center to truly feel separate from their respective bodies of work, there’s still a strange magic that comes from the combination.

O disco foi eleito um dos melhores do ano em publicações como Exclaim! e Stereogum. Confira já o belo clipe da canção magistral “Dylan Thomas”, que inclui uma homenagem ao poeta galês:

It was quite early one morning
Hit me without warning
I went to hear the general speak
I was standing for the anthem
Banners all around him
Confetti made it hard to see
Put my footsteps on the pavement
Starved for entertainment
Four seasons of revolving doors
So sick of being honest
I’ll die like Dylan Thomas
A seizure on the barroom floor
I’m getting greedy with this private hell
I’ll go it alone, but that’s just as well
These cats are scared and feral
The flag pins on their lapels
The truth is anybody’s guess
These talking heads are saying
“The king is only playing a game of four dimensional chess”
There’s flowers in the rubble
The weeds are gonna tumble
I’m lucid but I still can’t think
I’m strapped into a corset
Climbed into your corvette
I’m thirsty for another drink
If it’s advertised, we’ll try it
And buy some peace and quiet
And shut up at the silent retreat
They say you’ve gotta fake it
At least until you make it
That ghost is just a kid in a sheet
I’m getting used to these dizzy spells
I’m taking a shower at the Bates Motel
I’m getting greedy with this private hell
I’ll go it alone, but that’s just as well.

Siga antenado em A Casa de Vidro para expandir horizontes musicais!
Por Eduardo Carli de Moraes. Acesse a página com todos os artigos sobre música.

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SIGA VIAGEM – VÍDEOS E DISCOS PARA BAIXAR

A CANÇÃO POVOADA JAMAIS SERÁ CALADA – A Ditadura Pinochet até tentou, mas não silenciou Quilapayún, Victor Jara, Inti-Illimani ou Violeta Parra. O canto em coro ainda ecoa.

Em 1968, uma das mais importantes bandas da história do Chile, o Quilapayun (que significa “Os Três Barbudos” em língua mapuche), lançou seu álbum Por Viet Nam. Ele foi publicado pela Dicap (Discoteca Del Cantar Popular), iniciativa ligada ao Partido Comunista do Chile, que teve Víctor Jara como diretor artístico e foi crucial para todo o movimento da Nova Canção Chilena.

Em sinergia com os movimentos cívicos nos EUA que se insurgiam contra a agressão imperialista contra o Vietnã, o Quilapayún denunciava a “águia do imperialismo” na primeira canção do álbum, para logo na sequência abordar a Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939), que engendrou a ditadura de Franco, em “Que La Tortilla Se Vuelva”.

Após visitar, através das canções de protesto, as lutas dos povos no Vietnam e na Espanha, realizam uma “canção fúnebre” em homenagem a Ernesto Che Guevara, médico argentino que havia participado da revolução em Cuba (que triunfou em 1959) e havia se mobilizado também em prol da libertação do Congo e na Bolívia, antes de ser brutalmente assassinado em 9 de outubro de 1967, em La Higuera.

Já não surpreenderá a ninguém, dado o teor das canções, que este tenha se tornado um dos LPs que os “milicos” e carabineiros mais se esforçariam por quebrar e incinerar após o Golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973.

O disco se tornaria alvo de repressão, de sanha exterminista, por parte da ditadura Pinochetista. Após a destituição violenta do governo da União Popular, encabeçado por Salvador Allende, o Quilapayún passou a ser uma espécie de “inimigo do Estado”. Por ter sido, antes, uma força cultural alinhada às forças da União Popular, vitoriosas nas eleições de 1970, e que só pôde governar até o dia fatídico em que as Forças Armadas do Chile traíram a democracia e se fizeram as serviçais dos EUA naquele coup d’état que, além da democracia e das liberdades civis, também levou a vida de Allende e o direito de um povo seguir cantando.

A carnificina grotesca e brutal que Pinochet dali em diante comandaria também tinha a ver com uma “guerra cultural”, bem ao gosto do que a extrema-direita Bolsonarista e Olavete hoje defende. No Chile Pinochetista, os Quilapayuns e Victor Jaras, os Inti-Illimanis e as Violetas Parras, tinham que ser silenciados; as obras deles tinham que ser destruídas, as mãos deles tinham que ser amputadas pra que nunca mais tocassem violão ou piano; os fuzis dos milicos tinham que encher as bocas e línguas de balas para que estes “esquerdistas” nunca mais ousassem soprar uma zampoña ou cantar uma décima libertária!

Álbum de 1970 do Quilapayún, eleito pela Revista Rolling Stone do Chile como um dos 5 melhores discos da história da música popular no país.

A cada vez que um brasileiro, ostentando sua ignorância como se mérito fosse, despreza a produção cultural dos pueblos latinoamericanos, desinteressando-se de qualquer contato com uma obra artística como esta, é de novo a vontade tirânica dos Pinochets que triunfa; mas a cada vez que estas músicas ressurgem, bombam alto nos alto-falantes, aí é que gritam de novo na cara dos opressores os agentes culturais que estiveram devotados às causas da beleza, da verdade e da justiça. Aí podemos celebrar que as mordaças das ditaduras, por mais que tenham tentado, fracassaram em silenciar o que precisava ser dito e o que prossegue querendo ser em coro cantado – como provam as fenomenais apresentações do Inti-Illimani com “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido” na Santiago conflagrada de 2019.

Ouvir Quilapayun é um ato de resistência, e tocar um disco desses bem alto, para que toda a vizinhança ouça, é mais que democratização da boa música: é enviar pelos ares, re-ativada, a potência de uma arte que nada tem de “isentona” nem de cúmplice de tiranos e fascistas. Uma arte que atua no campo da história como força colaborativa e “coro fecundo” que se levanta “exigindo liberdade”. Exigir liberdade é o ofício deste canto, garantem em “Himno De Las Juventudes Mundiales”, uma canção emblemática do ano 1968 – este que, para além do eurocentrismo que nos leva sempre a lembrar das Jornadas de Maio em Paris, teve no México e no Brasil episódios históricos igualmente importantes.

As tiranias que, em 1968, massacraram os manifestantes mexicanos às vésperas das Olimpíadas ou que deram o golpe mais brutal nas liberdades civis dos brasileiros com o AI-5 (de Dezembro de 1968), sempre precisaram instaurar um clima de censura cultural exacerbado, exilando artistas ou mesmo praticando assassinatos contra os dissidentes contraculturais. Os exílios de Caetano e Gil, com a Tropicália trucidada em pleno vôo pelo AI-5, são emblemas disso no Brasil.

No belo documentário de Nanni Moretti, “Santiago, Itália”, em uma cena chave, polvilhada de melancolia e indignação, este vinil do Quilapayún queima em uma fogueira acesa por militares armados com fuzis. É uma cena que evoca lembranças das fogueiras em que os nazistas queimaram a literatura “degenerada” dos judeus, comunistas, ciganos e outros “párias” que perseguiram e exterminaram. Evoca também a Inquisição incinerando Brunos e bruxas.

No entanto, encontrar este álbum, na íntegra, na Internet, é um sopro de esperança: os amordaçadores não venceram! O Quilapayún ainda canta, e dentro do álbum também cantam os Vietnãs, os Ches, as juventudes ingovernáveis, os melhores amanhãs! Ecoando os versos de Violeta Parra, a arte chilena espalha poesia povoada pelo mundo:

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: “Dulce Vecina De La Verde Selva”

“Miren como nos hablan de libertad
Cuando de allá nos privan en realidad
Miren como pregonan tranquilidad
Cuando nos atormenta la autoridad

Que dirá el santo padre
Que vive en Roma
Que le están degollando
A sus palomas?

Miren como nos hablan del paraíso
Cuando nos llueven balas como granizo
Miren el entusiasmo con la sentencia
Sabiendo que mataban ya a la inocencia

El que oficia la muerte como un verdugo
Tranquilo esta tomando su desayuno
El trigo por lo sembrao
Regao con tu sangre Julian Grimao

Entre más injusticia, señor Fiscal
Más fuerza tiene mi alma para cantar
Con esto se pusieron la soga al cuello
El sexto mandamiento no tiene sello.

Que dirá el santo padre
Que vive en Roma
Que le estan degollando
A sus palomas…”
(Violeta Parra)

Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

OUÇA:
QUILAPAYÚN – “Por Vietnam” (1968)

01. Por Viet-Nam 00:00
02. Que La Tortilla Se Vuelva (De La Revolución Española) 02:20
03. Cancion Fúnebre Para El Che Guevara 04:32
04. Mamma Mia Dame Cento Lire (Del Folklore Italiano) 07:35
05. La Zamba Del Riego 09:57
06. Cuecas De Joaquín Murieta 12:45
07. Himno De Las Juventudes Mundiales 14:18
08. El Tururururú (De La Revolución Española) 16:30
09. Que Dirá El Santo Padre 18:55
10. Canto A La Pampa 21:36
11. La Bola 27:23
12. Los Pueblos Americanos 30:34

SIGA VIAGEM: OS 50 MELHORES ÁLBUNS CHILENOS DA HISTÓRIA SEGUNDA A ROLLING STONE @ RATEYOURMUSIC

PLAYING THE PAIN AWAY – Sobre a arte prodigiosa de Tash Sultana e sua prática da catarse musicoterápica

Fico impressionado, de queixo caído, com os múltiplos dons musicais da Tash Sultana. Esta multi-instrumentista australiana, nascida em 1995 lá em Melbourne, vem se destacando no cenário cultural global como uma “banda-duma-mina-só” que esbanja inovação e feeling através dum som viajado, complexo, irrotulável. Sobretudo inspirador.

Virtuose da sinergia, Tash revigora como poucas artistas atuais os domínios do Rock Alternativo e da “cultura neo-hippie”. No processo, semeia fascínio em relação aos poderes da juventude humana quando pode deixar florescer sua criatividade e curiosidade. Com seu controle ímpar de instrumentos múltiplos e pedais de loop, ela chegou pra provar que é possível o surgimento de novos “guitar heroes” que não sejam apenas os que repisam nas pegadas de Clapton, Hendrix, Jeff Beck ou Eddie Van Halen.

Esta guitar heroine despontou com a viralização de seu vídeo caseiro da música “Jungle”, há 3 anos atrás (hoje ele possui cerca de 30.000.000 de visualizações no YouTube – assista abaixo). Com uma câmera estática filmando seu processo de “maga” dos sons, ela mostrou ao mundo que o cenário do indie-rock da Austrália ia muito além do Tame Impala. A performance de Tash, adicionando camadas e mais camadas de sons ao seu caldo de bruxa, voodoo child da novíssima generation, estarreceu muita gente com uma espécie de orquestra rock de uma mulher só:

Natasha (vulgo Tash) empilha sons em camadas superpostas sem precisar para isto do recurso de estúdio do overdub. Ela é capaz de criar, ao vivo, as “paredes de som” Phil Spectorianas que muitos pensavam só serem produzíveis em um contexto de estúdio e overdubbing. Ela é mestra na produção de um fluxo sônico onde os primeiros sons que ela produz na canção entram em estado de loop (repetição cíclica), repetindo-se como um eco do passado que segue presente, e os próximos sons adicionam-se a estes sons tocados no passado que seguem ressoando por proeza da tecnologia digital.

Conforme a canção progride, o que temos é uma espécie de câmara de ecos que poderia chafurdar na confusão mais caótica se não houvesse, no controle do processo, uma “regente” genial de si mesma como esta moça é. A revista Rolling Stone publicou uma crítica onde demonstrou toda sua admiração por um disco de estréia descrito como “deeply impressive”, onde sobressai a “guitar wizardry” da moça que é uma faz-tudo (cantora, compositora, multi-instrumentista, produtora, e por aí vai):

This Melbourne-based busker-gone-legit raises the “do it yourself” stakes with her debut, which is a top-to-bottom showcase of her varied virtuosity; she’s the lone musician credited on the album, as well as its producer and songwriter. Given Sultana’s playing-for-tips roots, it’s probably appropriate that Flow State whirls through styles — “Cigarettes” starts as loose-limbed R&B then speeds things up to a near-frantic pace, “Salvation” recalls the marriage of big beats and gossamer voices that dominated indie discos in the late Nineties, and the simmering “Seven” showcases Sultana’s violin skills over plush synth-pop and agitated chase-scene scores. Sultana can play 20 instruments, but her guitar wizardry is the clear star here; the yearning solo on “Pink Moon” yawps and shudders, while the gathering-storm riffage of “Blackbird” stretches out over nearly ten minutes, all thrilling. After years of being a festival and YouTube sensation, Sultana’s thrown down the gauntlet forcefully. (ROLLING STONE)

Parece-me que este é um procedimento estético que, além de dialogar com aquilo que o Radiohead fez de mais vanguardístico em sua carreira (a exploração cada vez mais arrojada de patterns rítmicos e ambiências que rompessem todas as caixinhas fechadas dos dogmas e paradigmas), aproxima Tash da “lógica” dos mantras budistas. Além disso, faz com que ela dialogue com a filosofia do Eterno Retorno Nietzschiana, como se seu imperativo categórico enquanto musicista fosse: “toque cada nota e cante cada frase como se você quisesse que aqueles compassos se repetissem eternamente no futuro da canção”.

Mas ninguém precisa intelectualizar demais a sua “stésis” (ou seja, seu aprendizado a partir da experiência sensorial) pra apreciar esta música: ela é capaz de fazer algo de benigno com nosso cérebro se simplesmente nos abrirmos a ela, sem pensamentos inúteis servindo de barreira para o impacto de seus encantos. Seus dois primeiros álbuns, Notion (2016) e Flow State (2018) – que A Casa de Vidro disponibiliza para dowload gratuito – penetram por nossos sentidos como uma avalanche sensorial complexa e inebriante, uma espécie de hippie-prog-rock do século 21.


“Synergy”, canção que abre o EP de estréia de Tash Sultana, Notion 

A habilidade rítmica da moça faz com que ela seja mestra em nos conduzir ao transe místico. Como uma neo-hippie pilotando a tecnologia da atualidade com maestria poucas vezes vista, Tash Sultana abre novos horizontes para uma percepção mais fluida de mundo e para uma redescoberta da música como mística. Ouvir os álbuns é uma vivência que recomendo, mas antes de ir a eles seria interessante uma imersão nos vídeos, pois neles se explicitam melhor os procedimentos técnicos e performáticos que permitem que uma musicalidade de tamanha complexidade possa nascer, ao vivo, de uma única pessoa, extraordinariamente jovem, que toca todos os instrumentos que se ouvem em seus shows e discos – o que alguns ouvintes vão julgar inacreditável. Tash Sultana toca como se quisesse nos conduzir, pela via dos sons, a alguma espécie nova de iluminação búdica.

FAÇA O DOWNLOAD DA DISCOGRAFIA DE TASH SULTANA EM MP3 – Notion EP (2016) e Flow State LP (2018)

Pra se ter uma noção do que são Notion e Flow State, são necessárias repetidas imersões em seus complexos sons. As explorações de territórios novos no indie rock, como Velvet Underground, Talking Heads ou Pixies fizeram no passado, convivem na obra de Sultana com influências culturais orientais, vibes meio rasta, flertes com o dub e o trance, tudo impregnado de uma espiritualidade meio búdica. Uma neo-hippie no perfeito comando da tecnologia a seu dispor, ela é também capaz de explorações existenciais e mergulhos psicológicos que expressam sua subjetividade conturbada. Uma de minhas prediletas fala sobre tudo aquilo que nos oprime por dentro, nos confunde a subjetividade, nos esmaga invisivelmente – tudo que é “assassinato pra mente” (“murder to the mind”):



“I was only screaming out for help
It was murder to the mind
It was blood on my hands
Fire in my soul…”

“Murder to the Mind” é uma das músicas que mais impressionam em Flow State, um dos álbuns de estréia mais ambiciosos do século 21. O videoclipe é primoroso e revela ao espectador toda a densidade da experiência sensorial envolvida em Tash Sultana. Ela, em operação, é um corpo pulsando intensamente com a música, com seu organismo inteiro movimentado pelo estado-de-fluxo que a música propicia quando se é capaz de cometer, com ela e através dela, “abraço místico”, tema de outra das lindas canções do disco, “Mystic”, que evoca Van Morrison e sua música que nos conduz a “velejar into the mystic” em obras-primas da história da música como Moondance e Astral Weeks:


“There’s a natural mystic in the air…”

Na guitarra de Tash, repercutem os ritmos do dub, do ska, do reggae, do R&B, enfim: da diversidade abraçada, celebrada, praticada. Ela vai criando riffs onde também se manifestam toda a maestria Sultânica para a arte do loop. E acima de tudo isso, evidências de sobra de que ela sabe rockear: sua atitude nos palcos e na vida é de alguém que sabe também ser confrontacional. Outro de seus méritos enquanto musicista é que, não importa quão experimental seu som se torne, ela é sempre groovy em seu processo de ir experimentando… Não se trata apenas duma geek privilegiada que está com tempo livre de sobra pra aprender uns gimmicks com pedais-de-guitarra e softwares de sequenciamento de beats. Em Tash Sultana, estes instrumentos estão a serviço da maestria expressiva e interpretativa:


Estamos em uma era, na música, onde se agigantam de novo as teens fenomenais, dando uma nova versão da angústia adolescente através de uma Billie Eilish, mas igualmente através da imensa sabedoria que Tash Sultana já manifestava aos 21 anos de vida. Isso se evidencia na TED Talk em que ela, em clima confessional (similar àquela linda sessão TED com Flaira Ferro), relembra de certos episódios de sua vida pregressa em que lidou com a “psicose”, a confusão mental, a insociabilidade, a incapacidade de funcionar corretamente em meio à sociedade careta. Toda aquela dor, ela diz, foi sendo trabalhada através do tocar música, até que ela tenha alcançado um pouco de “clareza” [clarity] sobre os afetos [passions].

Aí, parece-me, está se exprimindo algo que também marcou a trajetória de Kurt Cobain, aquele irônico e icônico ídolo juvenil suicidado aos 27 e que cravou versos inesquecíveis como aquele que agora acorre à memória: “teenage angst has paid off well” (de “Serve the Servants”, magistral faixa de abertura do “In Utero”). Talvez Sultana possa dizer que conheceu a teenage angst cobainiana, que esteve tentada a auto-destruir-se devido a suas suicidal tendencies, mas que conseguiu, ao contrário do líder do Nirvana, encontrar saúde e clareza através da catarse musicoterápica. O que a aproxima também de Laura Jane Grace, mulher-trans à frente de uma das mais importantes bandas punk do mundo, o Against Me, que também fala no processo de “buscar claridade” em meio ao caos, através de sua arte, em álbuns incríveis como Searching For a Former Clarity e Transgender Disphoria Blues.

Ela não buscou esta catarse através da expressão por vontade de se conformar aos padrões e paradigmas da sociedade careta, mas ao contrário foi “playing the pain away” em sessões de performance-de-rua [streetperforming] que ela foi burilando seu estilo e aprendendo a comandar a impressionante aparelhagem que ela opera. Multi-instrumentista capaz de tocar mais de 10 instrumentos diferentes, ela é prova da vivacidade extasiante da capacidade de aprender humana manifestando-se na flor da juventude. Skateira, pouco conformada aos padrões de gênero que propõe à mulher que seja dócil e comportada, sempre de trejeitos “femininos” (ou seja, delicados…), ela traz na pele tatuada os signos de uma ânsia por sentido, diante da morte, construída com arte.

Aquela TED Talk, neste contexto, ensina uma imensidão: uma mente humana, há 21 anos no mundo, é uma das coisas mais complexas e fascinantes do cosmos – e pobres dos velhos que, prepotentes e arrogantes, ousam desprezar a juventude e supõe que ela é sempre mais tola e estúpida do que a geração que está a mais tempo no mundo. Na verdade, pode ser que o apego às velharias conhecido pelo nome de conservadorismo seja uma esclerose senil e que as forças da renovação da existência encarnam-se na geração juvenil. Isto é tão óbvio e evidente mas precisa ser reafirmado diante de uma faceta que nos esfaqueia no fascismo da atualidade: os fascistas são quase sempre velhos, opressores da juventude, apegados ao dogma de que os mais velhos devem mandar, numa espécie de gerontocracia. 

A música e a pessoa de Tash Sultana é pra dar um pontapé nesses arrogantes gerontocratas. A juventude pode muito e ainda vai poder mais: Rimbaud já tinha marcado para sempre a história da poesia francesa com 17 anos de idade, e eu afirmaria sem medo de errar que a música “pop” nos EUA poucas vezes foi marcada por uma obra prima artística tão primorosa quanto foi pelo lançamento de Tidal, disco de estréia gravado por uma Fiona Apple  que havia criado aquilo após apenas 16 giros de seu corpo ao redor do Sol.

Na esteira dos Beatles e do mantra “Can’t Buy Me Love”, ela realizou “Can’t Buy Happiness” (Não Se Pode Comprar Felicidade), sugerindo que só se é feliz, nesta vida, quando utilizamos a criatividade para lidar com os sofrimentos inevitáveis que a vida comporta.

A salvação não precisa ser privilégio dos crentes, nem ser necessariamente post mortem: pra salvar-se em vida de uma morte travestida de existência, de uma meia-viva apagadinha e meia-boca, é preciso que a arte seja convocada para infundir beleza e sentido ao que de outro modo poderia chafurdar no nonsense e na insignificância confusa. Para além de ser uma wizard dos instrumentos musicais, de ser brilhante no controle dos aparatos tecnológicos, Tash Sultana é também alguém que vivencia a arte como espiritualidade – o que é laico, secular, acessível a qualquer ateu. A beleza é um deus terreno que não exige de nós crença na transcendência sobrenatural, nem sacrifícios ascéticos em louvor a esta. Salvação, aqui e agora, através da criação, pela arte, de um mundo mais belo e mais habitável, de uma vida mais fascinante e envolvente.

É claro que, de um viés crítico, há o que se dizer sobre esta hipérbole do protagonismo que é o método do-it-yourself de Sultana levado ao extremo de um do-it-alone (with no one else). Alguns podem ler excesso de individualismo nesta estratégia artística de alguém que quer fazer tudo, estar no controle de todos os elementos, levando a questão da expressão individual à elefantíase. Avessa à especialização de funções, Tash não quis chamar uns brothers ou sisters para tocarem baixo, batera, trompete com ela. Ela toca consigo. Será isso solipsismo? Mesmo numa artista que, em “Mystic”, nos fala de uma sabedoria que consiste em botar o ego pra dormir?

“I guess I laid my ego to rest.” (“Mystic”)

Ela corre o risco de se embrenhar numa jornada egóica, como muito guitar hero já fez, fazendo a ostentação de seus feats técnicos para platéias embasbacadas. Ela é prodigiosa e sabe disso, mas isto coloca o perigo de um ego que cresça como um balão que se enche de ar e se desprega do chão. De todo modo, como o clipe de “Cigarettes” indica, Tash é um exemplo vivo do que pode acontecer com alguém que tem sua iniciação musical bem cedo, que tem seus dons expressivos incentivados desde o berço, e que ademais consegue trilhar como estudante os caminhos do aprendizado auto-didata (ela se diz self-taught):

Em seu pertinente e provocante documentário The Century of the Self, Adam Curtis sugeriu que vivemos no “século do self” no último centênio. Tash Sultana é expressão isso, de uma self made woman que conseguiu tornar-se “sozinha” um fenômeno transnacional da música. Só que este self é nela questionado pelos tropismos que ela manifesta pelas vertentes da sabedoria oriental que colocam a felicidade justamente na transcendência do ego e numa mística da re-união. Búdica religião do re-ligare, que através da arte faz o eu transbordar de si e encontrar-se com outros na mística profana e maravilhosa da comunicação estética. Através de sua arte, como uma blueswoman tecnizada, ela segue a caminhada da vida playing the blues away, na descoberta de uma catarse musicoterápica.

 

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 20/12/2019

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Conheça o videoclipe da canção “Morro Abaixo”, de Luiza Camilo e Iná Avessa, uma produção d’A Casa de Vidro Ponto de Cultura

Presente em Nascência, álbum de estréia da artista goiana Luiza Camilo, a canção “Morro Abaixo” conta com participação especial de Inà Avessa, MC em ascensão no cenário Hip Hop de Goiânia.

O video-clipe é uma produção do ponto de cultura A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com), com filmagem e montagem por Eduardo Carli de Moraes, assistência e making of por Naihara Moraes.

O lançamento oficial aconteceu na Festa da Resistência Latinoamericana com shows de Adriel & Iná, n’A Casa de Vidro, durante a 3ª Jornada Goiana de Direitos Humanos, organizada pelo Comitê Goiano de Direitos Humanos ‘Dom Tomás Balduino’, em 14 de Dezembro de 2019.

O lirismo e a musicalidade ímpares da Camilo já lhe renderam o reconhecimento em festivais como Canta Cerrado, Canto da Primavera e Juriti – Festival de Música e Poesia Encenada. Neste último, por exemplo, Camilo foi a vencedora do 1º lugar, na terceira edição do Juriti no ano de 2013, por sua interpretação da obra de poesia encenada “Amanheçamos” (Fonte: https://bit.ly/2RZrgS6). Ela também integrou a banda Bandita Codá (assista, desta, ao clipe da canção “Destino”, também presente em Nascência). 

Convidamos a todos para que apreciem e disseminem o vídeoclipe oficial de “Morro Abaixo”, uma das mais belas canções do disco “Nascência”. A confluência entre Luiza Camilo e Iná Avessa, nesta canção emblemática do que de melhor tem nascido na cultura goiana, está em sintonia com outros trabalhos de protagonismo feminino que vem despontando e florescendo no cenário: AveEva (da dupla Paula de Paula e Flávia Carolina), Cocada CoralBanda MadáIngrid Lobo, Lorranna Santos, Coró Mulher, Retalha Vento, Luciana Clímaco, Nina Soldera e Banda Mundhumano e Meimundo, M’Bandi, dentre outros.

Este é o terceiro videoclipe produzido e publicado pel’A Casa de Vidro: antes vieram “Marginal Latina”, de Vitor Hugo Lemes (VH, O Escrivão) e Bergkamp Magalhães (acesse: https://www.youtube.com/watch?v=s2svqzGlXew), e “Peles Negras Máscaras Brancas”, de VH e Jordana Luz Negra (https://youtu.be/pwx-qGRtE_M).

“Morro Abaixo” nasceu da colaboração de muita gente que somou forças para atingir este resultado e que estão reconhecidas abaixo:

CRÉDITOS DA PRODUÇÃO MUSICAL:
Arranjo, bateria e guitarra – Ricardo de Pina
Trombone – André Luiz
Percussão – Diego Amaral
Trompete – Wellington Santana
Composição, voz e contra-baixo elétrico – Luiza Camilo
Voz e composição – Iná Avessa

CRÉDITOS DA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL:

Câmera e Montagem – Eduardo Carli de Moraes
Fotografia e Making Of – Naihara de Moraes
Figuração e Assistência – Guilherme Eurípides, Afrodite Flow
“Performers” / Atrizes – Luiza Camilo e Iná Avessa

CRÉDITOS DA COMPOSIÇÃO:
Camilo / Iná

MORRO ABAIXO [Letra]:

É, ‘tá difícil respirar aqui
Tanta gente que não vê
o dia florir, a sorrir.

É, tanta tragédia acontece aqui
Muita gente foi embora.
E na TV ainda tem um tal de besteirol
Enganando a cabeça de quem acha
Que tudo vai bem.
‘Tá na hora de pensarmos mais além.

Os dias passam,
Tudo continua o mesmo.
Pessoas morrem,
Tudo continua o mesmo.
O lixo só aumenta
E continua igual. Continua igual.

(RAP – Iná Avessa MC)

O tempo do plantio é diferente do tempo da colheita. Sobrevoam duvidas suspeitas, espreitam, e vezes ganham atenção que desejam. Então não pense que eu estou parada. Isso não é um simulador, a vida é um tiro, eu ‘tô engatilhada, ando pensando, conhecendo a escola do caminho, algo que agora beira o não espera nada. Nada melhor que o não visto, nada melhor que o não quisto. O horizonte com firmeza é bem maior que o objetivo, a alma calma, o indivíduo o coletivo e o subjetivo. Então não pense que eu estou parada. Poesia marginal contra toda alienação, guerrilha verbal no país da alegria, onde impera a covardia, liberdade é utopia e no momento é ilusão. P’ros parça força nessa caminhada. Não deixe não.

E no jornal uma reportagem sensacional,
Acomoda a cabeça
De quem acha a norma normal,

Basta olhar e ver
Que o mundo vai bem mal.

Os anos passam,
Tudo continua o mesmo
Pessoas matam, mentem,
Tudo continua o mesmo.
O lixo só aumenta e continua igual.
Continua igual.

É hora de atenção, muito mais ação
Porque se não,
Felicidade vai virar ilusão.
Felicidade vai virar ilusão.
Felicidade vai virar ilusão.
Não deixe não.

* * * *

CLIPE DISPONÍVEL EM:
YouTube – https://youtu.be/VeLJb8die4E
Facebookhttps://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/759319991215726
Vimeo – https://vimeo.com/332085237
IGTV / Instagramhttps://www.instagram.com/tv/B6LpC9KnwNE/

SAIBA MAIS:

Site oficial: www.acasadevidro.com
Instagram: @acasadevidro_pontodecultura
Facebook: www.facebook.com/blogacasadevidro

* * * * *

ÁLBUM DE FOTOS – MAKING OF e SCREENSHOTS

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Conheça o videoclipe da linda canção "Morro Abaixo", de @luizaa.camilo e @ina.avessa, uma produção audiovisual independente d' @acasadevidro_pontodecultura: https://wp.me/pNVMz-5PD. Fotografia deste post: Naihara Moraes @naihohnaih. Quem apreciou este trampo, dê aquela mão amiga na divulgação dos agentes culturais independentes que estão na batalha de seguir fazendo arte nesta época obscura! Clipe disponível em várias plataformas: * Youtube: https://youtu.be/VeLJb8die4E * IGTV do Instagram: https://www.instagram.com/tv/B6LpC9KnwNE/ * Facebook: https://www.facebook.com/blogacasadevidro/videos/763236654157393/ * Vimeo: https://vimeo.com/332085237 * WordPress: https://acasadevidro.com/2019/12/17/22421/

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Adriel Vinícius lança o álbum “Vivo Aqui e Agora” (2019), gravado em A Casa de Vidro Ponto de Cultura em parceria com Bern Studio Live

A Casa de Vidro Ponto de Cultura, em parceria com Bern Studio Live, apresentam o álbum ao vivo de Adriel Vinícius, Vivo Aqui e Agora (2019), contendo 10 canções autorais (ouça na íntegra em YouTube: http://bit.ly/33wXg2i). O show contou com participação especial do rapper Vitor Hugo Lemes (VH – O Escrivão) nas músicas “Ande” e “Preto”. Faça o download gratuito do disco: http://bit.ly/2IUgg2R (MP3 de 320kps).

TRACKS:

01 – Ande (Feat. VH) (0:17)
02 – Areia Vermelha (8:59)
03 – De Rolê (12:15)
04 – Buquê de Plástico (16:18)
05 – Netflix (19:33)
06 – Esferográfica (23:02)
07 – Casa de Ferro (26:05)
08 – Vida Rara (29:28)
09 – Força Flor (30:52)
10 – Preto (Feat. VH) (37:27)

Gravado em 28 de Setembro de 2019, em Goiânia, no ponto de cultura A Casa de Vidro em 1ª Av. 974 (St. Leste Universitário). Técnico de som e gravação: Bern Silva. Produção cultural e audiovisual: Eduardo Carli de Moraes. Ilustração da capa (em transparência): Rafael Brito. Poster por Gustavo Lopes Assis.

Todas as letras são inéditas, com exceção de “Preto”, que encerra a mixtape “Pele Negra Máscaras Brancas” de VH (https://www.youtube.com/watch?v=DBUyh…), e “Areia Vermelha” e “Netflix”, presentes no EP de Adriel lançado em 2019 (https://www.youtube.com/watch?v=ICP_D…).

VÍDEOS:

“Preto”

“A rede social é um Buquê de Plástico…”

Artvismo feminista negro e interseccional cintila no álbum de estréia da Bia Ferreira, “Igreja Lesbiteriana” (2019) [Download e Crítica]

A música é uma arma, ensinava Fela Kuti, e Bia Ferreira foi boa aprendiz: ela funde seu ativismo com sua arte, propulsionando um mix explosivo de produção cultural e engajamento político em seu primeiro disco. Na Noize, Brenda Vidal percebeu bem que “na cena musical independente e contemporânea, Bia parece ser a voz e a mente que mais traduz a filosofia Kutiana em seu trabalho”:

Multi-instrumentista, compositora e cantora, ela faz da sua arte o ponto de fusão com seu ativismo. Ou, como ela mesma conceitua: faz artivismo. Das dores e das alegrias, dos medos e das coragens, Bia faz da sua composição escrevivência – conceito da escritora Conceição Evaristo – e faz do seu disco de estreia Igreja Lesbiteriana: Um Chamado (2019) um manifesto de seu propósito de vida: nunca se calar, principalmente frente à opressão.

A fenomenal Bia Ferreira lança seu álbum de estréia após uma trajetória repleta de repercussões significativas no cenário cultural e político através de seus vídeos-virais. Em contraste com a viralização das fake news e da masculinidade tóxica que hoje hegemoniza o rolê dito mainstream, Bia despontou viralizando uma das grandes canções de protesto brasileiras do século 21 (com mais 8 milhões de visualizações do vídeo da So Far):

“Cota Não É Esmola”, uma das forças propulsionadoras do debut da Bia, já merece estar no cânone do que se produziu de melhor cá na música popular de Pindorama nos últimos anos. Híbrido de folk com rap, este hino feminista-negro é um manifesto completo em defesa da inclusão social através de uma educação autenticamente democrática. É também a denúncia, que Bezerra da Silva já fazia com seus sambas subversivos, do “Preconceito de Cor”– assim cantado por Bia:

Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV!
Opressão, humilhação, preconceito.
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito.

Na melhor tradição da trova narrativa, Bia evoca uma garotinha, talvez seu alter-ego lírico, que chega atrasada na escola não por preguiça ou negligência, mas por estar “desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais”:

Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha…

A lírica de Bia, nesta sessão nada nostálgica de relembrança e catarse de traumas passados, está calcada na sensação de portas que se fecham. O apartheid racista é repleto destas portas batendo nos narizes daqueles que insistem em afirmar sua dignidade humana, seu direito ao tratamento como cidadãos e não párias. Diante deste batalhão de portas que se fecham, Bia reabre os portais da igualdade com a força descomunal de seu canto, com o vendaval de seus versos.

Saltando, com sua lábia hábil, do individual para o coletivo, Bia Ferreira solta as mãos da menininha que evocou em sua narrativa e alça sua poesia àquelas alturas habitadas por Bob Marley, Gilberto Gil, Manu Chao: artistas capazes de expressar a “alma” de um povo que protesta contra seu próprio silenciamento e extermínio. Se ela afirma e reafirma que cotas raciais nas universidades não consistem em mimimi dos movimentos negros – “nem venha me dizer que isso é vitimismo! não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!”, é devido a toda uma ancestralidade sangrenta, toda uma antiquíssima história de injustiça, abuso de poder, espoliação colonial, que projeta as trevas de seu domínio tirânico sobre o nosso presente:

São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar, ei!
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio para revolucionar…

Tudo eclode com um “não deixe calar a nossa voz não!” que tem tudo pra se tornar um dos lemas propulsores do movimento anti-censura à que já estamos condenados, enquanto agentes culturais “subversivos” e inquietos, no Brazzzil da ditadura BolsoNerus. Aguerrida, combativa, mas essencialmente pacífica, Bia levanta as armas de suas canções com a força de quem nas raízes sabe se nutrir com os cadáveres de heroínas caídas. Não é difícil lembrar de Marielle Franco – e do luto dolorido vivenciado não só por Mônica Benício, mas por milhões de mulheres que engrossaram o caldo do #EleNão, maior movimento cívico a se manifestar em 2018 no Brasil – ao ouvir Bia cantar: “Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai.”

Bia Ferreira, assim como Talíria Petrone na política, assim como Mel Duarte na poesia, são sintomas deste Florescer da Voz, força que também vem desta semente replicável em que Marielle Franco se transformou. A História dirá se Marielle desempenhará, por aqui, papel semelhante ao ícone (cooptado ou não pelo consumismo capitalista) Che Guevara, transformado após sua morte num símbolo mobilizador de força inaudita.

O “chamado” de Bia, ecoando o de Marielle, consiste em nos convencer a “levantar a bandeira do amor” – contra todas as igrejas e seitas que enxergam pecado e lançam os anátemas (ou coisa pior) contra os amores considerados ilícitos. A exemplo do amor lésbico que Bia canta, celebratória, esfregando na cara dos homofóbicos a beleza sedutora, quase irresistível, de sua música de mulher livre, voadora, que “não mede amor em conta-gotas” (para lembrar uma linda canção do Adriel Vinícius, “Longe Daqui”).

Quem foi que definiu o certo e o errado?
O careta e o descolado?
A beleza e o horror?
Quem foi que definiu o preto e o branco?
O que é mal e o que é santo?
O ódio e o amor?
Cada um é dono da sua história
Quantos gigas de memória
Você separa pra sua dor, hein?

É assim esta Igreja Lesbiteriana – Um Chamado: um templo erguido para os questionamentos ácidos, para as questões bem colocadas, para a arte de pôr os pontos de interrogação bem no fundo (como recomendava Wittgenstein). Mas, para além do tom interrogativo, cáustico e crítico, Bia Ferreira também é muito exclamativa. Uma mulher-exclamação, cintilando chamados à luta em prol do amor celebrado em todas as suas formas e manifestações, para além das cercas binárias dos caretas e dos autoritarismos abusivos impostos pela masculinidade tóxica e pela heterossexualidade compulsória:

Então ame, e que ninguém se meta no meio!
O belo definiu o feio pra se beneficiar!
Ame e que ninguém se meta no meio!
Por que amar não é feio neguinho, o feio é não amar!
Levante a bandeira do amor, neguinhô-oh-oh!

Exclamativa ao extremo, “Diga Não” – que não entrou no disco, mas foi sucesso no vídeos que pavimentaram o caminho de Bia – nos convoca para todas as potências dos nãos: não ao “racismo, ao preconceito, ao genocídio do povo negro”:

Diga não à polícia racista
Diga não à essa militarização fascista
Diga não
Não fique só assistindo
Muita gente chora irmão enquanto você tá rindo
Diga não! Diga não!

O álbum de Bia, evitando o caminho da explicitação política logo de cara, inicia-se com a cantora a capella fazendo uma espécie de evocação dos orixás, convocando ancestralidades que a guiem: “Brilha Minha Guia”, música que abre o disco, tem sintonia e sinergia com o álbum póstumo de Serena Assumpção, Ascensão.

Convocados os orixás, Bia embarca no reggae pesadão de “Não Precisa Ser Amélia”. Eis uma obra-prima da canção de protesto em que a trovadora decide tomar as dores de suas irmãs, num espírito de sororidade, ofertando sua canção a várias mulheres sofridas que em nossa sociedade estão oprimidas por variadas explorações, espoliações e abusos:

Canto pela tia que é silenciada
Dizem que só a pia é seu lugar
Pela mina que é de quebrada
Que é violentada e não pode estudar
Canto pela preta objetificada
Gostosa, sarada, que tem que sambar
Dona de casa que limpa, lava e passa
Mas fora do lar não pode trabalhar.

Uma multidão de mulheres é evocada na canção que termina filosofando, com Simone de Beauvoir, sobre a diversidade intrínseca ao feminino e o processo de trânsito que faz com que alguém não nasça mas se torne mulher: “Seja preta, indígena, trans, nordestina / Não se nasce feminina, torna-se mulher.”

Nesta peça, Bia está em diálogo com o clássico samba “Ai, Que Saudade da Amélia!”, de Ataufo Alves e Mário Lago. “Lançada pela primeira vez em 1942 e considerada uma obra-prima pelo historiador da música brasileira Jairo Severiano“.

Esta música (ouça na voz de Ataufo)  foi inspirada na figura da empregada de Aracy de Almeida e consagrou na sociedade um conceito de “amélia” como sendo a mulher submissa e companheira do homem em todas as dificuldades, a tal ponto que foi integrada ao vocabulário no Dicionário Aurélio com o seguinte conceito: “Mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem”. (Wiki)

“Her first place”, de G. D. Leslie

Em “De Dentro do Ap”, o clima de sororidade e de sisterhood que despontara em “Não Precisa Ser Amélia” é preterido em prol de algo muito mais treta. Bia Ferreira, fazendo-se porta-voz do feminismo negro, lança os dardos de seus argumentos contra o feminismo branco, liberal, privilegiado. Seu discurso torna-se cáustico, corrosivo, de alta provocatividade, atacando a hipocrisia das mulheres privilegiadas envolvidas em certas vertentes do movimento feminista:

De dentro do apê,
Com ar condicionado, Macbook, você vai dizer:
Que é de esquerda, feminista, defende as muié.
Posta lá que é vadia, que pode chamar de puta.
Sua fala não condiz com a sua conduta!

Vai pro rolê com o carro que ganhou do pai
Pra você vê, não sabe o que é trabai
E quer ir lá dizer
Que entende sobre a luta de classe
Eu só sugiro que cê se abaixe
Porque meu tiro certo, vai chegar direto
Na sua hipocrisia…

É Bia exercitando através da arte uma espécie de Pedagogia pro Opressor, ou A Oprimida Empoderada Ensina: evocando várias experiências vividas das mulheres negras, ela quer educar a “branquitude” arrogante dos que nunca viveram nenhum dos seguintes cenários:

Quantas vezes você correu atrás de um busão
Pra não perder a entrevista?
Chegou lá e ouviu um “não”?
– Não insista,
A vaga já foi preenchida, viu?
Você não se encaixa no nosso perfil!

Quantas vezes você você saiu do seu apartamento
E chegou no térreo com um prato de alimento
Pra tia que tava trampando no sinal?
Pra sustentar os quatro filhos
que já tá passando mal de fome?
Quantas vezes cê parou pra perguntar o nome
E pra falar sobre seu ativismo?
Quando foi que cê pisou na minha quebrada,
pra falar sobre o seu Fe-mi-nis-mo?

Sempre deixando pra amanhã
Deixando pra amanhã
A miliano que cês tão queimando sutiã…

O clima vai esquentando até que Bia dispara a sua farpa mais afiada: “sua vó não hesitou quando mandou a minha lá pro tronco”. A acusação, à mulher branca privilegiada de hoje, estende-se às gerações passadas: a “vó” da patricinha, feminista de Macbook, esteve ao lado dos escravocratas, enquanto a vó da mina-de-quebrada penou nos troncos sob os açoites dos capatazes após o brutal desenraizamento que os sequestrou do seu lar africano.

Eis, portanto, uma compositora que, apesar de sua juventude, tem realizado uma arte com consciência histórica, buscando conexão com a ancestralidade, exercendo uma crítica social inter-geracional e interseccional, o que também se manifesta em “Mandela” (“Mandela, Mandela: mudou o mundo numa cela / Lutou pela liberdade, terminou sem ela”). Canção que não entrou no álbum, mas é um exemplo icônico da capacidade de Bia em escrever canções políticas, manifestos cantados, que se alçam contra o “maldito apartheid” em composições de densa tessitura histórica.

Na Europa, cuja sanha imperialista ela tanto denuncia, Bia Ferreira ensaiou uma recente Invasão Portuguesa. Em seus shows nas terras de Camões, chamou a atenção do Jornal Público: “Ela vem espalhar a palavra: não é soul, r&b, rap nem reggae. É tudo isso, é MMP – Música de Mulher Preta.” O caderno de cultura Ípsilon, apelidando-a de “missionária da revolução”, forneceu talvez uma das melhores definições desta artivista “para quem cantar é educar”.

Em 2018, Bia Ferreira viu a sua canção Cota Não É Esmola tornar-se viral nas redes sociais. Nela, a cantora, compositora e activista brasileira de 25 anos fala em defesa do sistema de quotas raciais, reforçado pelo governo de Lula da Silva, que permitiu aumentar o acesso à universidade de estudantes negros, pardos e indígenas de classes mais baixas. Por causa dela, Caetano Veloso diz ter ficado “com vontade de pedir a todos os brasileiros para ouvirem Bia Ferreira”. E de certa forma, é isso que ela quer: chegar ao máximo de pessoas possível para “passar informação e educação”.

Cota Não É Esmola” é uma explicação didáctica para pessoas brancas que são contra as quotas e é também uma música em que as pessoas pretas, pobres e indígenas podem ver a sua história contada ali e contá-la a outras pessoas. É isso que faz a informação circular”, diz Bia Ferreira em conversa com o PÚBLICO, um dia depois de o Ministro da Educação do novo governo de Jair Bolsonaro ter declarado que a “ideia de universidade para todos não existe” e que ela “deve ser ocupada por elites intelectuais”, lembra a compositora. “Corre-se o risco de retroceder mais do que conseguimos evoluir, daí a necessidade de falar sobre isso sempre que tivermos oportunidade”, assinala…

Lado a lado com sua companheira Doralyce,unida com outras artistas também fortalecendo-se na atualidade como Silvia Duffrayer ou Nina Oliveira, Bia Ferreira consolida-se como uma das mais potentes expressões da Música Popular Brasileira na atualidade, sempre contestando os estereótipos – como fizeram em “Miss Beleza Universal”.

Cintilam no álbum de Bia canções libertárias, cantadas com alta expressividade, propulsionadas por um lirismo aguerrido, cheias de groove e charme, epidêmicos convites a entrar dançando na luta até que o Patriarcado caia. Depois, a festa começa de fato, tendo a História cessado o pesadelo da opressão para se tornar, oxalá, nossa colaborativa construção coletiva.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2019
Ponto de Cultura A Casa de Vidro


SIGA VIAGEM: ENTREVISTA DA BIA PRA NOIZE

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MANOS E MINAS – Completo

CURTA TAMBÉM:

“MULHERES” – SAMBA DE SILVIA DUFFRAYER E DORALYCE

 

“Nós somos Mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Lembro de Dandara, mulher foda que eu sei
De Elza Soares, mulher fora da lei
Lembro Marielle, valente, guerreira
De Chica da Silva, toda mulher brasileira
Crescendo oprimida pelo patriarcado
Meu corpo, minhas regras
Agora mudou o quadro

Mulheres cabeça e muito equilibradas
Ninguém tá confusa, não te perguntei nada
São elas por elas
Escuta esse samba que eu vou te cantar:

Eu não sei porque tenho que ser a sua felicidade
Não sou sua projeção, você é que se baste
Meu bem, amor assim quero longe de mim
Sou mulher, sou dona do meu corpo
E da minha vontade
Fui eu que descobri Poder e Liberdade
Sou tudo que um dia eu sonhei pra mim…”

Doralyce Gonzaga e Silvia Duffrayer
Rio de Janeiro, 2018

Versão paródica do samba do Martinho da Vila
Reblogado de Samba Que Elas Querem
https://www.youtube.com/watch?v=B5YJqc-rK-A

Elza Soares retorna com suas flamejantes canções de libertação em “Planeta Fome” (2019) – Ouça o álbum íntegra e leia a matéria @ A Casa de Vidro

Deixem Elza cantar até o fim. Nada será para este país mais salutar. Depois de A Mulher do Fim do Mundo (2015) e de Deus é Mulher (2018)a diva afrobrasileira chega com estrondo, sambando na cara da opressão, fula da vida com o blá blá blá do macho tóxico e racista, apresentando ao mundo sua mais nova coleção de canções de libertação.

“Não vamos sucumbir”, garante Elza na aurora de “Libertação”, acompanhada pelo BaianaSystem. Com esta aliança com os autores do sensacional O Futuro Não Demora, Elza também mostra-se interessada em “seguir cantarolando e bolando altos planos pra poder contra-atacar”.


Enquanto nos cinemas Bacurau estremece o chão do conformismo com seu neo-cangaço cineguerrilheiro, desembarca entre nós um disco que vem todo efervescente de insurgência cultural e política, evocando ícones e proliferando links – Marielle Franco, Rosa Parks, Wakanda… – para mandar um forte recado. Toda a resiliência, toda a ancestralidade guerreira, todo o ímpeto dionisíaco-carnavalesco do povo afrobrasileiro pulsa nesta obra-prima recém-parida por uma gênia do Planeta Fome.

É negro, é branco, é nissei
É verde, é índio peladão
É mameluco, é cafuzo
É confusão Oh, Pindorama eu quero o seu porto seguro
Suas palmeiras, suas feiras, seu café
Suas riquezas, praias, cachoeiras

Há muitos Brasis – e Elza quer mesmo é o “Brasil de cabeça em pé” e ciente de sua própria confusão. Dessa mixórdia de etnias e tradições dos Brasis todos nasceu toda a nossa desgraça e maravilha – eis o que Elza parece querer expressar através de um álbum destinado a ecoar pelo mundo e quebrar muitos paradigmas do que os gringos consideram como world music. E lá vem os rótulos espertinhos para catalogá-la como “dirty samba” ou algo que o valha.

Mas restam poucas dúvidas de que na história de nossa arte, Elza Soares expressa como poucos a tragicomédia épica desta pátria fraturada. Ela exige, com seu cantos e batuques, um “País do Sonho” na mais utópica das músicas do disco:

Eu preciso encontrar um país
Onde a saúde não esteja doente
E eficiente, uma educação
Que possa formar cidadãos realmente

Eu preciso encontrar um país
Onde a corrupção não seja um hobby
Que não tenha injustiça, porém a justiça
Não ouse condenar só negros e pobres

Eu preciso encontrar um país
Onde ninguém enriqueça em nome da fé
E o prazer verdadeiro do crack
Seja fazer gols como Garrincha, obrigada Mané!

Eu preciso encontrar um país
Onde tenha respeito com austero pudor
E qualquer pessoa em pleno direito
Diga: “Adeus preconceito de raça e de cor”

Eu preciso encontrar um país
Onde ser solidário seja um ato gentil
Eu prometo que vou encontrar
E esse país vai chamar-se Brasil.

No título de “Planeta Fome” (2019), Elza relembra o episódio lendário de seu passado: com cerca de 13 anos de idade foi participar do programa de rádio do Ary Barroso, que perguntou à jovem aspirante a cantora de onde ela tinha vindo e ela cravou: “Vim do Planeta Fome”.

De fato: a carioca, nascida em 1937, hoje com 82 anos, emergiu do Planeta Fome de sua infância e ascendeu até o destino de alguém que já marcou para sempre a história da Música Popular de seu país. E Elza sempre teve um talento espontâneo pela subversão, por uma cultura comprometida com a libertação, com a superação da opressão. Tudo isso jorra na nova obra da cantora, que traz em sua capa uma cromática odisséia criada pela pena da pessoa pós-binária Laerte (que declarou, sobre o processo criativo:  “Primeiro dei uma ouvida nas canções e achei que era o caso de evocar as turbulências da nossa realidade combinadas com os movimentos siderais. Minha intenção era produzir uma sensação de caos”).

Este álbum já nasce clássico. O primeiro clássico novíssimo em folha dos nossos Brasis em meio a este hospício em chamas que é o desgoverno BolsoNero. Elza recupera duas canções de Gonzaguinha, um dos artistas mais censurados pela Ditadura Militar, para reativar na Nova Ditadura a mordaz dissidência dos que se insurgiram na arte contra a Velha Ditadura. Em “Comportamento Geral” e “Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória”, Gonzaguinha revive na voz de Elza em arranjo classudo e complexo.

Ainda que transpire tanta revolta ardente e indignação justa, a constelação afetiva do novo disco é sobretudo afirmação da vida, sim à resistência que a vivacidade ergue contra as hordas da necrofilia. Mauro Ferreira propôs, em seu artigo para o G1, que:

“A cantora concilia indignação e esperança ao discorrer sobre questões sociais do Brasil no disco produzido por Rafael Ramos. (…) No país dos banguelas, a cantora carioca tem fome de igualdade e justiça social, assuntos recorrentes no repertório do 34º álbum dessa artista cuja dureza na queda é reafirmada nos versos quase clichês da letra da ‘Virei o jogo’ (2019).

Música inédita escrita por Pedro Luís para Elza, Virei o jogo é ouvida em gravação cujos vocais remetem à arquitetura sonora do álbum anterior da cantora, ‘Deus é Mulher’ (2018), cuja composição-título também é da lavra de Pedro. “Se vem de não / Eu vou de sim / Afirmação até o fim”, brada Elza na penúltima faixa do disco ‘Planeta Fome’. [https://glo.bo/2lOIh3i]

Elza é a verdadeira voz que o Brasil, em sua pluralidade de povos, deveria propagar para os outros povos do planeta. A boca-ânus que não cessa de vomitar atrocidades dos Bolsonaristas brazileiros, a começar pelo pseudo-Mito, só nos envergonha diante do mundo e só macula nossa História. A cultura não se cala diante deste crudelíssimo neofascismo, desde bárbaro capitalismo neoliberalizado até as raias da insânia. Elza, ao contrário, é uma vida extraordinária que hoje lembra às novas gerações sobre lutas pretéritas que voltaram a se tornar nossas urgências presentes.

Genialmente, trazendo versos fortíssimos de Gonzaguinha de volta da tumba, des-censurando quem outrora foi ditatorialmente censurado, Elza realimenta todo o potencial subversivo dos Brasis que se recusam a sucumbir ao pesadelo neofascista que por enquanto nos desgoverna. E com poesias cantadas de intensa beleza como as que seguem, ela nos conclama, de novo, “vamos à luta!”:

“Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria

E vamos à luta.”


Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.
Setembro de 2019. Faça o download do álbum completo.

Leia também: Pan African MusicTireless advocate of the women’s rights, and loud activist for the Afro-Brazilian culture, legend Elza Soares released her 34th studio album with Planeta Fome via Desk Records. The new album features notable artists from Soares’ native country, such as veteran rapper BNegão and rising artist Rafael Mike. On the single “Libertação” the diva invites Brazilian vocalist Virgínia Rodrigues and afro-futuristic band BaianaSystem.

Anelis Assumpção ao vivo e a cores no Teatro do Centro Cultural UFG || Veja o vídeo em A Casa de Vidro

Para os sentidos e a inteligência, testemunhar Anelis sobre um palco é um pouco como estar diante de um fenômeno da natureza que estarrece. Uma mulher empoderada, cheia de encantos expressivos, chega com seu séquito de músicos dionisíacos querendo “jogar conversa dentro”. E nos pergunta, em plena era do frenesi e da desatenção: “cê tá com tempo?” Uma hora e meia na companhia de Anelis e banda são tempo-de-vida bem utilizado, pode ter certeza. Tenha tempo pra deixá-la cair dentro de ti, com Música que convida pra dança mas também instiga um “mergulho interior”.

Filha de “Nego Dito” Itamar Assumpção, irmã da falecida Serena (que fez Ascensão), companheira de Curumin o superbatera-do-groove, Anelis decerto não chega jamais sozinha pra nos brindar com sua arte que não é só conversa fiada. Um sexteto sonicamente esplendoroso a acompanhou em seu show no Teatro Centro Cultural UFG ao raiar deste segundo semestre de 2019 em evento promovido pelo Engroove. E em tempos de radicalização tantos das censuras ditatoriais quanto da resistência contracultural (vide o Caso B Negão em Bonito/MS), Anelis tratou de sagazmente traficar para dentro da letra de “Eu Gosto Assim”: “Jair Bolsonaro… não gosto!”

Pra me sacar não tem segredo
Sou bem fácil de acessar
Agonia demais é que me amarga
Eu gosto mesmo é de gostar…

Marginal parada não gosto
Burocracia não gosto
Guerra no Golfo não gosto
Panela vazia não gosto

Mentira deslavada não gosto
Porrada na cara não gosto
Conversa fiada não gosto
Dedada no zóio não gosto…

É com um trechinho desta música, transformada em um mini-panfleto antibozo, que se inicia o vídeo produzido por A Casa de Vidro durante o show. Na sequência do videoclipe live temos um gostinho do álbum mais recente da diva, o Taurina. Integrante deste, a canção chama-se “Mortais À Toa” e fala com sabedoria zen e certa profundida filosófica sobre a “desgraça de ser mortal” e a “graça de estar mortal”.

Ela gravou a canção na excelente companhia de Liniker, Tulipa Ruiz e Ava Rocha (esta última, colaboradora de Anelis também em videoclipes como o de “Song to Rosa”). Para além da musicalidade experimental e exploratória, que não deixa de evocar um certo sabor de Arrigo Barnabé e Clara Crocodilo, a música é também pura poesia musicada. Suspeito que Leminski, se vivo estivesse, adoraria este rebento de Anelis e sua turma:

Da morte tudo se sabe
Fato fatídico
Viver é inevitável
Mas até que se cale, pare, congele
Todo corpo vale
O prazer de ser mortal na proa
De dar mortal à toa, à beira mar
Mortal garoa e a dor de ser mortal

Da morte não se escapa
Escalope a galope
Na esquina do destino
Cavalo marinho
Até que o coração pare
Todo corpo é um vale
Um passe para ser
Um passe para dar
Um passe pra sofrer
Um passe pra curar
Mortal na proa

Um beijo mortal
Um abraço mortal
Um gosto mortal
Um cheiro mortal

[Refrão]
Desgraça de ser mortal
E a graça de estar mortal

Satisfação imensa poder apreciar a performance de uma das figuras que mais admiro no Brasil atual – a filha-maravilha do lendário Itamar, el cascavel à frente da Isca de Polícia. Anelis Assumpção, na última década, vem numa trajetória incandescente, fez ao menos um discaço-destino-a-clássico ao lado da banda Amigos Imaginários e hoje está consolidada como uma das mais magistrais cantoras-compositoras da atual conjuntura cultural brasileira.

Assista na sequência o vídeo, produzido por A Casa de Vidro – Ponto de Cultura, com alguns dos melhores momentos da Anelis em Goiânia, incandescendo no CCUFG:

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, Ago/2019

 

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A contracultura e suas urgentes responsabilidades – Sobre a turnê cancelada dos Dead Kennedys e o grito punk de um poster

“Don’t hate the media, become the media.” JELLO BIAFRA

Uma cultura ajoelhada diante do altar do conformismo é uma cultura com rigor mortis. E é disso que sofre a cultura hegemônica sob o império do capetalismo neoliberal que hoje em dia anda flertando desavergonhadamente com o fascismo: é uma cultura engessada na forma-mercadoria, quando a bagaça sempre esteve conectada, para o artista revolucionário, com o ato explodir a gaiola da mercadoria e instaurar no mundo a experiência sensorial inédita que é vocação da arte autêntica propiciar.

A Cultura Viva é balbúrdia anticonformista, e não – nunca! – cumplicidade com os tiranos. Diante das injustiças, os artistas são os berram, não os que se calam. Em nossos tempos de neofascismo e de democracias golpeadas pras cucuias, a Contracultura tem sua responsa e sua urgência. Até porque o Coiso que hoje tem por função ser presidente da república é tão “culto” que não fala uma palavra em homenagem a Chico Buarque pelo prêmio Camões, não dá seus pêsames após a morte de Beth Carvalho, mas presta suas homenagens ao MC Reaça depois que este espancou sua amante grávida e depois se suicidou…

O Brasil de 2019, sob a batuta insana do Bolsonarismo, raiou já com a extinção do MinC perpetrada pelos que, no palanque, faziam o gesto das armas de fogo, instrumentos da morte. A arte, que é o sim da vida à criatividade que é intrínseca a tudo que prospera e evolui, é o contrário do armamentismo destrutivo que pregam aqueles que poderiam repetir como o célebre dito nazista: “quando ouço a palavra Cultura, puxo meu revólver”. Quando Bolsonaro ouve a palavra Paulo Freire, puxa seu lança-chamas. E o Museu Nacional ardeu mesmo em chamas até as cinzas no país do pós-Golpe, desgovernado pela barbaridade desses “cidadãos-de-bem” que aniquilam a cultura no altar de Mammon, ou seja, da mercantilização geral de tudo e da imposição da política de terra-arrasada para a educação e a cultura…

Contra tal barbarismo, somos os que levantam uma contravoz, dissonante em relação à monocórdica voz dominante: quando nos falam em revólver, sacamos nossa cultura. Somos os que se armam de livros e se livram de armas. Os que se armam de grafites e beats, de teatro e de poemas, de cinema e de canções, para resistir à canalhização geral da vida. Assim coletivamente e sem muito programa vamos parindo a contracultura da atualidade, cultura-do-contra que é essencial para a cultura viva. Como Gilberto Gil e Juca Ferreira sonharam e começaram a concretizar, antes de tal utopia ser (também ela!) golpeada. Tantos golpes, e ainda assim nos levantamos (and still we rise!). A contracultura enquanto organismo indomável e insurgente é prova viva de que o devir histórico é Movimento irrefreável e serão levados pela correnteza os que desejam imobilizá-lo.

Em seu cartaz para a turnê dos Dead Kennedys no Brasil, Cristiano Suarez criou a A Grande Carapuça, obra endiabrada em que evoca clássicos da banda hardcore californiana como “Kill The Poor” e “Nazi Punks Fuck Off”. O artista parodia o Cidadão-de-Bem, vulgo Coxinha ou Bolsominion, que está todo aderido ao projeto-de-país miliciano-torturador hoje em voga:

O polêmico cartaz realizado por Cristiano Suarez já se tornou uma das imagens mais emblemáticas do Brasil de 2019 (quer comprar um poster, em tamanho A2 e por apenas 30 pilas? Siga o link >>> https://bit.ly/2Ji6fgL). Emblema de um país desgovernado pela extrema-direita Bolsonarista que tomou o Estado de assalto para impor uma fusão caótica e imbecilizante de neoliberalismo selvagem e neofascismo.

Emblema também de um território contaminado pela disseminação massiva de odientas ideologias que foram inoculadas nesse pessoal que relincha slogans como: “bandido bom é bandido morto!”, “o Lula tá preso, babaca!” e “nossa bandeira jamais será vermelha”. Originalmente criado para a turnê-que-não-rolou dos Dead Kennedys – na formação atual, que não inclui o vocalista original Jello Biafra (líder do Guantanamo School of Medicine) -, o poster foi renegado pela banda de hardcore californiana (a despeito de um entusiasmo inicial do qual eles depois arregaram).

Os Kennedys Mortos cancelaram sua vinda ao Brasil devido a todas as tretas vinculadas à disseminação viral desta provocativa peça de propaganda antifa saída da pena de Suarez. Uma arte rapidamente reapropriada, via hacking cibernético, por outras bandas – a exemplo dos Ratos de Porão, dos Garotos Podres e do francisco, el hombre. Sobre o episódio, Biafra assim se manifestou:

Sim, nós estamos preocupados com o Brasil. Porque nós nos importamos com o Brasil. E porque nós nos preocupamos com o mundo. Nós tememos pela situação dos brasileiros, tememos pela Amazônia. Tememos pelas tribos indígenas que poderão ser massacradas. Nós não queremos que mais nenhum inocente morra como aconteceu com a Marielle Franco. Sim, a notícia de seu assassinato chegou até os noticiários americanos. E, meus caros amigos, nós admiramos e respeitamos muito cada um que tenha a coragem de se posicionar contra o Bolsonaro e seus apoiadores fascistas metidos a valentões. – JELLO BIAFRA, Leia na íntegra em Tenho Mais Discos Que Amigos

 

Com o cancelamento da tour, choveram críticas contra os Dead Kennedys (sem Jello, os fake kennedys…) por terem “amarelado” – e não faltaram antigos entusiastas da banda, responsável por discos clássicos como “Fresh Fruit for Rotting Vegetables”, que os xingaram, cuspindo e dizendo que não se fazem mais punks como ultimamente…

A produtora EV7 Live teve que arcar com os custos astronômicos vinculados ao cancelamento da turnê e, para isso, está vendendo camisetas e pôsteres A2 com a arte de Suarez, numa curiosa estratégia mercadológica de transformar em commodity aquilo que o poder hegemônico desejaria censurar e silenciar.

A viralização do poster não foi à toa: ele encapsula toda a insanidade coletiva que conduziu ao triunfo provisório do que existe de mais sórdido e péssimo entre nós: a cultura do ódio e do irracionalismo, da segregação e da desunião, da intolerância e do chauvinismo cego, da subserviência acéfala ao Tio Sam e seus tanque$ e dollar$ – todo o “caldo” mórbido que serviu de substrato para o assalto-ao-poder que empoderou a Necropolítica mais brutal.

Não é preciso ser um ás da semiótica para ler, no centro do quadro, a presença da Família Tradicional Brasileira, pequeno-burguesa e que sonha em enriquecer mais, conservadora nos costumes e liberal na economia, idólatra das armas de fogo e das soluções truculentas para os problemas sociais. A Família, muitas vezes bestificada por religiões instituídas e por lógicas evanjegues, que reúne-se diante da TV para sua dose diária de alienação com sitcoms e filmes de ultraviolência made in Hollywood.

A Família Tradicional Brasileira que, aos milhões de exemplares, é o sustentáculo do Estado de Exceção que hoje nos desgoverna propondo o desmonte dos bens públicos e dos direitos sociais duramente conquistados. A Família Tradicional Brasileira que, durante a fraude do golpeachment, teleguiada pela rede Globo e demais integrantes do P.I.G., bateu panelas e encheu as ruas do país para “protestar contra a corrupção”, sem notar no absurdo que era fazer isso vestindo camisetas da CBF, votando em Aécio Neves e apoiando um golpe parlamentar liderado pelo gangster Eduardo Cunha.

Ecoando a ironia de “Kill The Poor”, porrada hardcore em que Jello Biafra exibia toda sua endiabrada e cáustica crítica social repleta de um cinismo indomável, o cartaz fala da Família Bozólatra como adoradora do cheiro de pobres mortos na manhã que fede à gasolina e óleo diesel. Tudo pega fogo no país em que os incêndios na favela são comemorados de dentro das BMWs e dos apartamentos de luxo onde se juntam, na Varanda Gourmet, os eleitores do Homem-de-Bem (aquele mesmo, que idolatra torturadores e defende grupos de extermínio… aquele mesmo, que até agora não sabemos que relações tinha com seu vizinho, assassino de Marielle Franco, miliciano dos mais de cem fuzis domésticos…).

O cartaz é brilhante por mostrar em uma cápsula imagética todo o tragicômico de nossa desastrosa situação. Em situações normais de temperatura e pressão, uma figura como o Coiso não passaria de fato de uma piada de mau gosto, de um Bozo da política, não muito diferente de um Tiririca anazistado. Em um país que estivesse são da cabeça e são do coração, uma figura como Jair Bolsonaro seria apenas uma espécie de Novo Enéas e não teria conquistado nem 5% dos votos para a eleição presidencial, tamanho o grau de sadismo, crueldade e desconsideração com os parâmetros mais básicos de ética e civilidade que ele manifestou nestes 28 anos de vida pública. Aliás completamente pífia e nula em matéria de quaisquer benefícios prestados à população.

Em suma, qualquer mente lúcida sabe que esse cara nunca fez merda nenhuma em prol de ninguém a não ser a favor de seu enriquecimento familiar e do favorecimento de conglomerados empresarias de que é o títere e o bem-remunerado cafetão.

Este poster incendiário, retrato hiperbólico da Bozolatria (mas que também remete ao Coxinismo), serve também como um retrato caricatural da Base Eleitoral que foi usada como trampolim por aquela minúscula fração da elite brasileira tão bem cognominada por Jessé de Souza como “Do Atraso”.

A Elite do Atraso composta por homens brancos e ricos, herdeiros dos senhores de escravos e capitães-do-mato, que se notabilizam por misoginia, racismo, LGBTfobia, supremacismo, armamentismo, para não falar na apologia da tortura e dos grupos de extermínio, tudo isso portando a máscara do “cristão” e do “cidadão-de-bem”.

Aos que se sentiram incomodados e ofendidos com a arte, talvez seja pois a carapuça serviu. Aos que gritaram por censura e mordaça, talvez seja pois vocês tem saudades do AI-5 e do totalitarismo repressor que foi o fruto amargo, em 1968 (início dos Anos de Chumbo), do golpe desferido contra o governo Jango em 1964.

Aos que acham que isto não é arte, mas propaganda política, eu diria que as noções de arte de vocês estão muito quadradinhas: a arte está aí também pra incomodar, pra instigar o debate, pra provocar reações emocionais, pra sacudir as apatias, pra cutucar as onças com varas curtas.

Aos que desejariam acender fogueiras para queimar este pôster junto com seu autor, vocês são a Nova Inquisição e integram a vergonhosa Cruzada por um Brasil Medieval – e contra vocês, só nos resta desejar que os artistas do Brasil resistente e insurgente prossigam sendo, e cada vez mais, deliciosamente endiabrados.

Fellipe Fonseca foi outro artista que, nada sutil e seguindo na senda de Vitor Teixeira, botou a boca no trombone, ou melhor, meteu as tintas no papel pra gritar #EleNão, porra (e seus minions muito menos!):

São claros os sinais de que a Cultura se insurge, apesar do decreto de extinção do MinC. Como organismo social de vida que transcende o âmbito institucionalizado, a cultura (selvagem) é indomável, resiste à domesticação. O mesmo fogo que incendeia as favelas no poster de Cristiano Suarez – um fogo-no-morro que vem somado às cataratas de sangue que fluem por debaixo dos tanques no asfalto – é convocado para outras funções pelo Francisco El Hombre, a banda neotropicalista latinoamericana que cometeu dois álbuns de extrema caliência e incandescência: Soltasbruxa Rasgacabeza.

O ato de botar fogo na monotonia, expressa pela banda, é sinal desta vivacidade da ContraCultura, organismo indomável e insurgente, prova viva de que o devir histórico é Movimento inescapável e serão arrastados pela correnteza aqueles que tiverem pretensões de estagnação. Algumas obras de arte do Brasil contemporâneo parecem-me expressá-lo com uma admirável beleza queer de intenso fascínio:


Queimando os velhos mapas pra vida renovar, Ju Strassacapa teve a genialidade criativa suprema ao parir “Triste Louca ou Má” – uma tão bela poesia, e que encontrou sua perfeita expressão musical nesta canção destinada ao cânone da MPB do Futuro. O Francisco El Hombre é um coletivo utópico, neohippie, purpurinado, pós-binário, que demonstra a vitalidade desta cultura que estou chamando de selvagem e indomável.

Num país que observa também brutais retrocessos nas políticas de drogas, com o incremento das internações compulsórias em “Comunidades Terapêuticas” de forte marca teocrática-sectária, o “Parafuso Solto” francisco-el-hombreano, somado ao jornalismo-subversivo do Gregório Duvivier, são salutares doses de cultura insurgente:


Pra terminar, queria lembrar de algo aparentemente estúpido, mas que tem seu interesse: o termo Bozo, que alguns usam para apelidar Bolsonaro, remete a um famoso palhaço televisivo brasileiro, mas também na língua inglesa existe o termo Bozo e este possui toda uma carga semântica dentro do movimento punk. Os Dead Kennedys, por exemplo, têm uma canção chamada “Rambozo, The Clown”, fusão de Rambo com Bozo, perfeitamente atual para a descrição de muitos brucutus Bolsonaristas.

Tanto que, em fins de 2018, com a ascensão do Capetão, o Rambozo fã do Ustra, “California Übber Allez” foi reavivada pela vigorosa versão, transposta pro Brasil em incendiário videoclipe em p&b pelo Projeto Rambozo:



Retrocedendo ainda mais na História da Contracultura, encontramos pulsando no epicentro do Movimento Punk a entidade inglesa The Clash; numa adorável entrevista concedida a Steve Walsh e publicada em Sniffin’ Blue em Setembro de 1976, Joe Strummer, Mick Jones e companhia já se manifestavam explicitamente como Anti-Bozos:

– Some people change and some people stay as they are, bozos,  and they don’t try to change themselves in any way. (…) I think people have got to find out where their direction lies and channel their violence into music or something creative.  (…) The alternative is for people to vent their frustrations through music, or be a painter or a poet or whatever you wanna be. Vent your frustrations, otherwise it’s just like clocking in and clocking out. (Mick Jones, In: Let Fury Have The Hour, p. 26)

Eles que foram um dia conhecidos como A Única Banda Que Importam ensinam lições que nada perderam de seu valor à contracultura da atualidade: em uma das mais icônicas faixas de London Calling, de 1979, “Clampdown”, Joe Strummer pede que a gente dê uma chance à fúria:

“Let fury have the hour
Anger can be power
D’you know that you can use it?”