Lula é a prova viva de que não se pode encarcerar sonhos

Sinto e confesso que, diante de uma figura como Lula, sinto todo o peso de minha pequenez e insignificância. Pois Lula é um daqueles raros seres humanos que agigantou-se a ponto de transformar-se em figura histórica. Transcendeu as limitações da carne e ascendeu ao reino dos mitos. É hoje o que merece ser chamado pelo adorável clichê: uma lenda viva. 

Nesta ano de 2018, Lula evidenciou novamente sua imensa grandeza – que contrasta de modo gritante com a pequenez e a baixeza do presidente eleito Jair Bolsonaro, que é uma encarnação do que este país produziu de pior e de mais monstruoso em sua história. Vão acusar-me de maniqueísta e fanático ideológico, mas falo a partir de jorros afetivos do coração: estou plenamente convicto que Bolsonaro, que idolatra Ustra e Duque de Caxias, que defende a tortura e enaltece a ditadura, é de fato um monstro em comparação com este sábio que Lula tornou-se. 

As adversidades da vida ensinam muito mais que sucessos e glórias. E foi nas adversidades, desde o berço pernambucano até a migração para terras paulistas, que forjou-se este mito de carne-e-osso que atende por Lula e que, como a História do futuro dirá, merecerá estar inscrito na aventura do caminhar desta nação em posição equiparável a Tiradentes, a Lampião, a Antonio Conselheiro, a Prestes, a Marighella. Comparável, lá fora, a Mandela, a Gandhi, a Luther King. Sem deixar de ser absolutamente singular, idiossincrático, inimitável – um cara que poderia perfeitamente cantar “só eu sou eu” com toda a razão deste mundo. Não há personalidade pública que rebrilhe no Brasil da atualidade com tamanha singularidade. 

Só em dias extraordinários é oferecido a alguém a experiência de ver a cidade em que cresceu transformar-se no epicentro de um drama nacional e planetário. Foi o que ocorreu em Abril de 2018, quando a São Bernardo do Campo de minha infância e adolescência estava bombando em todas as mídias. Os olhos do mundo estavam focados no épico que se desenrolava no ABC paulista enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagia à iminência de seu encarceramento.

Nascido em 1984, eu não estava ainda entre os vivos quando explodiram, no fim dos anos 1970, aquelas colossais greves operárias que colocariam o governo ditatorial brasileiro em xeque. Acredito, porém, que as ressonâncias daqueles eventos me atingiram na infância, crescendo no ABC dos anos 1980 em meio aos antagonismos sociais violentos desta país que, desde que me entendo por gente, reconheço como uma tragédia de dimensões continentais. Um barril-de-pólvora em formato de país, onde a injustiça triunfa, a violência se alastra e “quem não presta fica vivo, quem é bom mandam matar” (para lembrar os versos de Cecília Meireles que Chico Buarque musicou).

No vídeo incrível da Mídia Ninja (assista a seguir), temos acesso a um condensado audiovisual de alto calibre com algumas das palavras históricas de Lula, em 07 de Abril de 2018, diante da multidão que estava diante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de ser encarcerado injustamente. Naquela ocasião, segundo Rosane Borges, professora da ECA-USP, “ouvimos um discurso fundador que se inscreveu irrevogavelmente na lápide da História”:


“Seja pela vocação que têm para suscitar outros / novos modos de existência, seja por instituírem novas configurações da política, seja por inventarem novas bússolas para a travessia de nossas vidas, alguns discursos se consagraram na História como prenúncio ou advento de um novo tempo, apesar dos perigos.

Num amplo arco, recordemos, entre tantas, algumas falas de repercussão sísmica, como o audacioso discurso ‘E eu não sou uma mulher?’, da estadunidense Sojourner Truth, ex-escravizada que demoliu a Women’s Rights Convention, em Ohio. Na ocasião, 1851, Truth questionou por que as mulheres brancas eram privilegiadas e as mulheres negras vistas como inferiores, intelectual e fisicamente, úteis somente para o trabalho braçal.

Menção obrigatória deve ser feita também ao discurso de posse de Nelson Mandela. No mesmo diapasão, está o discurso memorável de Martin Luther King (“Eu tenho um sonho”).

O celebrado “Saio da vida para entrar na História”, redigido na última linha da carta-testamento de Getúlio Vargas, é outro fragmento discursivo com desdobramentos importantes (…), escrito horas antes dele [Vargas] se matar, em 24 de agosto de 1954.

(…) Reafirmando que é dono do seu destino, Lula fez um discurso antológico em 7 de Abril de 2018. Um discurso indutor de esperanças várias, como um rio com múltiplos afluentes. Lula provocou estímulos inabarcavelmente amplos. (…) Quando Moro anuncia que ‘já era’ para Lula, eis o que o ex-presidente inverte, com seu pronunciamento, os elementos dessa equação, e anuncia que na verdade tudo só está começando. ‘A partir de agora minhas ideias vão se misturar com as ideias de vocês’.

Rosane Borges arremata: “Foram necessárias apenas 48 horas de nossas vidas – entre 5 e 7 de Abril de 2018, em São Bernardo do Campo/SP – para que testemunhássemos, em meio à politização do Judiciário, ao triunfo do Estado de exceção, um gesto de altíssima envergadura, vocalizado por um discurso emancipatório, o que fez desses 2 dias um marco temporal com potência para desbloquear o amanhã, interceptado que está pela política destruidora do presente que avança na velocidade da luz.” (BORGES, 2018, pg. 82 a 88)

Já a psicanalista Maria Rita Kehl pode dizer que testemunhou as duas prisões de Lula: enquanto repórter do jornal Movimento (de oposição à ditadura militar e ligado ao PC do B), ela conheceu o jovem líder operário Lula em 1978, quando o futuro presidente “foi o negociador entre operários e patrões na greve da Scania – a primeira greve operária desde o famigerado AI-5”.

Como rememora Kehl: “No ano seguinte, 1979, o movimento grevista se estendeu para um número grande de fábricas , em todo o ABC. No dia 1º de Maio de 1979, tive a sorte de ir, com amigos, à festa dos metalúrgicos. Ouvi Lula falar para 80 mil operários em greve, reunidos no estádio da Vila Euclides. Explicou, com clareza científica, as razões da greve. Não apostava na ‘condução das massas’ e sim na politização esclarecedora. O trabalhador que entende por que luta sabe o que reivindica e luta melhor…

Em agosto daquele ano, a lei da anistia permitiria a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos que ainda permaneciam encarcerados. Foi o começo do fim da ditadura. O movimento operário do ABC teve papel importante para que isso acontecesse.

Em 1980, Lula fundou o PT – Partido dos Trabalhadores, ao lado de outras lideranças operárias e um time de intelectuais progressistas de primeira linha: Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Francisco de Oliveira, Marilena Chauí, Paulo Freire, Mário Pedrosa, Hélio Pellegrino, Lélia Abramo, Perseu Abramo. Intelectuais que não se pretendiam ‘condutores do povo’; ao contrário, apoiavam a criação de um partido que nascia de dentro da luta de classes.

Foi preciso esperar mais de 20 anos para que o país elegesse o melhor presidente de sua história.” (KEHL, pg. 39 e 40)

Neste ano de 1980 em que nasce o PT, ocorreu algo fenomenal no mês de Abril: no estádio municipal da Vila Euclides, em São Bernardo, uma “greve de metalúrgicos, dezenas de milhares de operários presentes à assembléia num campo de futebol”. Camilo Vanucchi relembra: “No alto, dois helicópteros riscavam o céu. Eram helicópteros do Exército. Nas portas, soldados empunhavam metralhadoras apontadas para a massa. Opressão contra resistência pacífica. Se um único disparo fosse feito, o que poderia acontecer? (…)

Um dos filhos de Lula, Marcos Cláudio, aos 9 anos de idade, voltou para casa impressionado e desenhou um daqueles helicópteros do Exército. A IstoÉ de Mino Carta publicou. Marisa contava com tristeza do impacto da prisão de Lula na vida de Marcos, o primogênito. Sofreu bullying na escola, duas décadas antes da popularização da palavra bullying: ‘Teu pai está preso porque é bandido. Se fosse honesto, não estava preso.’ Marcos ficou quase dois meses sem ir à escola e precisou repetir o ano.


38 anos depois, saquei o smartphone e registrei os helicópteros de 2018. Havia pouca diferença entre aquelas imagens tão distantes no tempo entre si. Do alto, a transmissão feita pela Globonews e reproduzida no Jornal Nacional nos atingia a todos com a mesma violência das metralhadoras apontadas para a multidão no estádio da Vila Euclides – hoje Estádio Primeiro de Maio, sede do São Bernardo Futebol Clube. A qualquer momento, as câmeras suspensas deflagariam tiros letais, como os tantos disparados contra nós ao longo de todos esses anos. Bastaria ajustar o calibre-diafragma, definir o gatilho-obturador, escolher a teleobjetiva mais adequada para os tiros de longo alcance. O bombardeio entraria ao vivo, em horário nobre. Sem silenciador.” (VANNUCHI, p. 65)

O bombardeio midiático antipetista preparou o terreno para a 2ª prisão de Luiz Inácio, 38 anos após ele ter ido parar no DOPS em 1980. O clima de fascismo se acirrou desde o processo contra Dilma Rousseff, que derrubou-a do poder em 2016, e o encarceramento de Lula era o telos de todo esse processo, a cereja do bolo golpista, a “consumação do golpe”. E assim foi.

O que o processo eleitoral nos ensinou através de sua amarga escola foi o nível bestial a que podem descer alguns de nossos condidadãos, ainda que se auto-intitulem “cidadãos-de-bem”: ao se entregar à polícia, Lula voou numa aeronave onde ouviram-se frases como “manda este lixo janela abaixo aí”. Um dito em consonância com a personalidade autoritária atroz de Bolsonaro, que quer condecorar com medalhas aqueles fardados que praticarem chacinas nas favelas ou nas manifestações populares, afinal não passam de marginais vermelhos e matáveis terroristas toda essa corja do PT, do MST, da UNE, do MTST…. 

Recusando o discurso do ódio, Lula falou ecoando Pablo Neruda, e Salvador Allende, e Che Guevara: “eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera.” É preciso aprender com a primavera, que a cada mudança de estação vê-se despida e outonal, só para retornar plena e viçosa na próxima temporada. Aos juízes que agem como algozes e enforcam a Justiça em praça pública, ao presidente eleito com fraudes e calúnias e seu Ministério de Bandidos, à parcela da população que abraçou o fascismo e a intolerância, é preciso gritar em alto e bom som: ainda que vocês realmente façam como Bolsonaro pregou e deixem o Lula para “apodrecer na cadeia”, com o beneplácito do Batman dos Coxinhas (o Sr. Moro), cedo ou tarde descobrirão que os nossos sonhos não são encarceráveis. Se o inverno é de vocês, a primavera será nossa.

“Eu sou um construtor de sonhos. Eu há muito tempo atrás sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país. Eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma universitário, cuidar mais da educação que os diplomados e concursados que governaram esse país. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil levando leite feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juiz e procuradores só da elite. Daqui a pouco vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascidos em Itaquera, nascidos na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST, da CUT formados. 

Esse crime eu cometi.

Eu cometi esse crime e eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.” – LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Leia a íntegra do Discurso de 7 de Abril de 2018.

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BIBLIOGRAFIA
“LUIZ INÁCIO LUTA DA SILVA”, Ed. Contracorrente. São Paulo, 2018.

O Golpe de Estado está consumado: do impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma à condenação sem provas de Lula, triunfou o brutal atentado contra a Democracia

Vivemos numa época, neste manicômio a céu aberto que se chama Brasil, em que o Golpe veste toga e não farda. Para estuprar a democracia e deixá-la largada na sarjeta toda arrombada, o golpismo hoje utiliza-se dos tribunais e não dos tanques. E o golpismo só interrompe suas transmissões midiáticas, repletas de fake news para consumo de massas e de criminalização caluniosa do lulopetismo, para os lucrativos reclames do plim-plim (Amém, Itaú! Aleluia, Ambev, Riachuelo, Volkswagen!).

O golpeachment só funcionou pela ampla aliança que conseguiu congregar: uma frente parlamentar, uma jurídica, uma midiática, uma empresarial, com apoio dos manifestoches teleguiados por MBL e Rede Goebbels, tudo sob a regência do Santo Império Yankee, sempre desejoso de aniquilar democracias pela América Latina para aqui instalar regimes-fantoche, servis aos interesses das corporações multinacionais.

O golpismo é entreguista e atentatório à soberania nacional: o pré-sal já está virando propriedade internacional (Shell from Hell já dominou geral…), assim como o Aquífero Guarani encaminha-se para ser propriedade da Nestlé… Em breve teremos uma Disneilândia em plena Amazônia? E várias Trump Towers na Avenida Paulista e à beira das praias de Copabacana e Ipanema? Pogré$$io, Pogré$$io… eu sempre escutei falar

E assim assistimos, vergonhosamente apáticos, ao truculento tropel dos brucutus que vem reduzindo nosso frágil Estado Democrático de Direito a uma papa de ossos fraturados que boiam sobre uma poça de sangue que vai se ampliando – e sobre os quais se alimenta fartamente a cadela do fascismo (que, segundo Brecht, está sempre no cio).

Re-eleita em 2014 com 54 milhões de votos, Dilma Rousseff estaria encerrando seu segundo mandato como presidenta da república caso não tivesse sido deposta ilegalmente por este Golpe de Estado que pôde unir a “nata” de nossa casta dominante para produzir a hecatombe humanitária hoje em curso. Se, ao fim do segundo mandato de Dilma, o desemprego estava em seu menor índice da série histórica, hoje estamos com mais de 15 milhões de desempregados, voltando ao mapa da fome e a caminho da barbárie plena: austeridade para os pobres, lucros imensos para os ricos, tudo defendido por um Estado policial-militar que já tirou seu fascismo do armário e nem mais se disfarça com uma máscara de democrata…

Hoje, aquele crápula golpista e aquele troglodita imbecil que é o Bozonaro – que votou “sim” para o impeachment elogiando um dos chefes da tortura do regime militar, o Ustra, e que fez uma campanha em que vomitou pela boca doses intragáveis de machismo, racismo, homofobia, armamentismo e apologia da tortura – é o grande beneficiário do processo putschista.

Àqueles que insistem na ladainha de que Dilma caiu por sua “incompetência”, pelo “conjunto de sua obra”, é preciso lembrar da intensa sabotagem que sofreu das gangues parlamentares de oposição, que aprovaram várias pautas-bomba tendo como objetivo explícito causar o caos no governo, com base na lógica repleta de sadismo do “quanto pior, melhor”. Figuras sórdidas como Cunha e Aécio, Anastasia e Jucá, Janaína e Ana Amélia, fizeram tudo para nocautear o segundo mandato de Dilma, apesar desta ter inclusive praticado aquela lamentável “guinada à direita”, para agradar seus futuros algozes, quando nomeou Joaquim Levy e tentou implementar, para acalmar os cães raivosos que haviam sido derrotados nas urnas, uma política mais ao gosto de nossas elites privilegiadas e fissuradas em desigualdade e injustiça.

Bozonazi hoje surfa na onda de antipetismo que vem sendo insuflada desde Junho de 2013 por aqueles que buscaram – com sucesso – se apropriar da insurreição popular que tomou as ruas na primeira fase das Jornadas de Junho. Tudo se desencaminhou quando, do protagonismo do MPL e das lutas populares focadas em mobilidade urbana e melhoria dos bens públicos, tudo tornou-se uma micareta do Coxinato, imbecilizado pelo MBL e usado como títere por aquela rede de mídia corporativa que, é bom lembrar, apesar da verdade ser dura: ela apoiou a Ditadura, e ainda apóia. Se de fato se confirmar que a Rede Globo está preferindo pôr no poder a chapa dos “profissionais da violência” (Bostossauro e Mourão), pode mudar de vez seu nome para Rede Goebbels.

Toda essa farsa grotesca e de graves consequência culminou em 2018 com a condenação grotesca (sem provas, mas com muitas convicções) do líder absoluto nas intenções de voto para a presidência da República. A prisão do ex-presidente Lula, o chefe-de-Estado que encerrou seu mandato com o melhor índice de aprovação popular da História, entrará para os anais deste país como uma das injustiças mais infames já perpetradas por aqui. Em ano eleitoral, num processo que fede de cabo a rabo a perseguição política, a prisão de Lula está destinada a se tornar objeto de estudo, pelo mundo afora, para aqueles interessados em compreender o quando as práticas do lawfare se tornaram cruciais no jogo político contemporâneo. Os mais lúcidos dentre nós já perceberam que a Ditadura Togada, por mais que faça suas poses de estar respeitando a Constituição, não se abstém nem mesmo de botar fogo no Comitê de Direitos Humanos da ONU.

As ações de parte do Poder Judiciário fedem a fascismo. Como escreveu Fernando Horta: “Em todo o lugar que se desenvolveu o fascismo, ele sempre precisou dos juristas. O fascismo troca a política pela norma. É a ditadura da ‘ordem’, o império da punição. A política dá lugar ao exercício do poder, e poucos recordam que o Direito sempre é feito por alguém e com algum objetivo. Em todos os lugares, o fascismo perverteu a lei para atacar seus opositores, ao mesmo tempo que fazia da ritualística vazia do judiciário a legitimidade da aniquilação política dos inimigos. No Brasil não é diferente.” (Jornal GGN)

Para desvelar as tenebrosas transações que levaram à derrubada de um governo legítimo (com o Supremo, com a Mídia corporativa, com a Fiesp e outras entidades patronais, com o PSDB derrotado nas urnas, com o MDB chefiado pelo gangster do Cunha, com o Vampirão Neoliberalista, com o Moro do bico de tucano, com tudo…), Dilma acaba de lançar um documentário histórico.  Assista já ao “Ato 1” de A HISTÓRIA DO GOLPE: 

“É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado em 2016 por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo” – Dilma Rousseff, presidenta do Brasil entre 2010 e 2016. In: SINGER, André. “O Lulismo em Crise”. Pg. 14. Companhia das Letras, 2018.

De volta à cena pública em 2018, Dilma é candidata ao Senado por Minas Gerais e lidera as pesquisas de intenção de voto por larga margem segundo o Ibope: https://glo.bo/2Qw5HFx. O novo filme soma-se a uma outra obra crucial na história do documentário político contemporâneo: O Processo de Maria Augusta Ramos, onde também escancaram-se as entranhas de um Impeachment kafkiano que fez colapsar no Brasil o Estado Democrático de Direito e foi um prelúdio para a prisão injusta de Lula, ferindo de morte a legitimidade das Eleições de 2018. Leia a resenha sobre “O Processo” em A Casa de Vidro.

Em brutal desrespeito à vontade da ampla maioria do eleitorado do Brasil, além de recusando a legitimidade do Comitê de Direitos Humanos da ONU, o TSE agiu no sentido de cassar os direitos políticos de Lula, criminalizado pela guerra jurídica (lawfare) da Lava Jato como meio para perpetrar a violência que Renato Lessa chamou de “impeachment preventivo”. Torna-se cada vez mais evidente que a onda de criminalização do PT – Partido dos Trabalhadores é simultânea, concomitante e co-dependente à ascensão da extrema-direita fascista que hoje ameaça a democracia brasileira com seu colapso total através da chapa dos militares Bozonazi & Mourão.

Contra a ascensão dos “profissionais da violência”, figuras sádicas e desumanas, que fazem apologia da tortura, propagam o ódio machista e racista, estamos convictamente ao lado dos que lutam e lutarão incansavelmente por justiça social, inclusão, expansão dos bens públicos, comunitarismo, solidariedade, respeito às diferenças, celebração das diversidades. Por isso defendemos que após as violências institucionais cometidas contra Dilma e Lula, todo brasileiro sensato e lúcido deve repudiar com veemência não só a candidatura fascista, mas também as candidaturas veiculadas à Aliança Golpista (não a Meirelles, Alckmin, Amoêdo!).

Dilma e Lula agora estão apoiando com todas as energias a candidatura do ex-Ministro da Educação e ex-Prefeito de São Paulo Fernando Haddad, acompanhado pela Manuela D’Ávila  (PC do B), em defesa de nossa democracia tão combalida e golpeada. Estamos juntos na empreitada desafiadora e complexa de construirmos coletivamente um projeto de país onde o povo seja a solução, e não o problema; onde direitos sejam respeitados, e não aniquilados; onde investimentos em bens públicos sejam intensificados, e não congelados; onde o trabalhador seja valorizado, e não escorraçado e re-escravizado.

“Vocês já devem saber que PROIBIRAM minha candidatura. Proibiram o povo brasileiro de VOTAR LIVREMENTE. Há mais de 5 meses estou preso sem prova nem crime. (…) Se querem CALAR A NOSSA VOZ, estão muito enganados. Continuamos vivos, no coração e na memória do povo, e nosso nome agora é Fernando Haddad. Já somos milhões de Lulas, e de hoje em diante Haddad será Lula para milhões de brasileiros.” – Luiz Inácio Lula da Silva

Veja também: Manuela D’Ávila, do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, candidata à vice-presidenta na chapa com Fernando Haddad, do PT – Partido dos Trabalhadores, expõe 10 medidas para reformar o sistema tributário de modo a diminuir as brutais desigualdades sociais do Brasil:

Por Eduardo Carli de Moraes / 15 de Setembro de 2018
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LEIA TAMBÉM:

OBJETIVO ALCANÇADO – Por Eric Nepomuceno em Página/12:
https://www.pagina12.com.ar/141592-objetivo-alcanzado

Nesta semana, foi concluído o processo iniciado quando o juiz de primeira instância Sérgio Moro sentenciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão – além de impedir que ele ocupe qualquer cargo público pelos próximos 19 anos. O motivo: ter (supostamente) recebido um apartamento de três andares e pouco mais de 200 metros quadrados, no decadente balneário do Guarujá, como propina em troca de contratos na Petrobras.

A sentença já era esperada. No fim das contas, desde o início da chamada “Operação Lava Jato” está mais que clara a obsessão fundamentalista deste juiz provinciano contra o ex-presidente mais popular do último meio século no Brasil e principal figura política do país nos nossos tempos.

Provas de que o apartamento foi realmente adquirido por Lula? Nenhuma. Para começar, o imóvel em questão teve sua propriedade repassada ao banco estatal Caixa Econômica Federal, como parte de um acordo de suspensão de pagamentos e recuperação judicial da empreiteira OAS. Mas há outros elementos: não existe um só registro de propriedade do imóvel no nome de Lula, e isso por uma simples razão: nunca pertenceu a ele.

A história do apartamento triplex é bastante conhecida no Brasil, e devidamente omitida pelos meios de comunicação hegemônicos, que foram um dos pilares do golpe institucional que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, mas cujo objetivo claríssimo sempre foi o de liquidar a figura política de Lula da Silva.

Efetivamente, há mais de uma década, a falecida esposa de Lula, dona Marisa Leticia, adquiriu uma quota de um apartamento, em um edifício que seria construído no Guarujá. De acordo com as leis e costumes do Brasil, é possível comprar uma quota de uma construção e, quando ela esteja terminada, escolher determinado apartamento e pagar a eventual diferença. Foi o que ocorreu: quando o edifício ficou pronto, dona Marisa foi visitá-lo, e desistiu do negócio, inclusive pedindo o ressarcimento da quota. A empreiteira, que obteve gordos contratos com a Petrobras durante os mandatos de Lula, entendeu o óbvio: ter o ex-presidente entre os proprietários do edifício seria um atrativo insuperável. Mandou reformar todo o imóvel, e até incluiu um elevador privado, e chamou Lula para vê-lo já com as remodelações. Quando o analisou, Lula – em sua única visita ao apartamento – deu o não definitivo da família ao negócio.

Não há uma só prova de que, em algum minuto, de qualquer dia, o ex-presidente tenha recebido o apartamento. Sobram provas, contudo, de que a empreiteira OAS continua sendo sua verdadeira e a única proprietária. Então, por qual motivo Lula foi condenado?

Por uma única e verdadeira razão: porque liquidá-lo era o objetivo final do golpe iniciado com a destituição de Dilma Rousseff.

A frustrada presidenta era uma pedra no caminho do grupo que armou o golpe: o atual senador Aécio Neves, derrotado por ela nas eleições de 2014 e que liderou a campanha de sabotagem legislativa do seu segundo mantado, entre 2015 e 2016, com o pleno aval do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; os meios hegemônicos de comunicação; os partidos políticos que negociam seu apoio nos bastidores de Brasília; o grande capital nacional e (claro) os interesses das multinacionais que pretendem se beneficiar da nova situação. Para que o plano pudesse se completar, era necessário liquidar Lula e seu partido, o PT – Partido dos Trabalhadores.

A chegada de Michel Temer e seus capangas ao governo teve como objetivo primordial o de impor “reformas” que, na verdade, significaram desmantelar tudo o que se construiu em termos de direitos sociais, não só durante os governos de Lula e Dilma como nos últimos 50 anos – e, no caso dos direitos trabalhistas, em mais de 70 anos. Agora, quando se vê quem são os verdadeiros bucaneiros, os personagens deixam de ser necessários. Temer é um presidente que, além de ilegítimo, está moribundo.

Lula da Silva se transformou no primeiro ex-presidente condenado por corrupção, graças à atuação de um juiz provinciano cujo autoritarismo e parcialidade são mais que evidentes, e não somente segundo os juristas como também para cada vez mais numerosas parcelas da opinião pública, que não se deixaram idiotizar pelos meios de comunicação hegemônicos, encabeçados pela Rede Globo.

Sempre é bom repetir: não há sequer uma mísera prova contra Lula no caso do apartamento do Guarujá, ao mesmo tempo em que abundam as provas do massacre que o ex-presidente sofre, de forma incessante, da imprensa cartelizada, que considera sua popularidade como uma ameaça. Para esses meios, Lula é um pássaro perigoso, que deve ser abatido antes que volte a sobrevoar o país.

Para defender interesses desse tipo, a direita mais retrógrada encontrou um jovem juiz do interior, obcecado pela fama e pelo troféu que significa prender alguém como Lula, e se esse mesmo magistrado ainda conta com a ajuda de promotores fanáticos, tudo isso amparado pelos meios de comunicação e a omissão cúmplice das instâncias superiores da Justiça, quer dizer que o roteiro do filme já está concluído.

Agora, é preciso ver como o público vai reagir. Se com a devida indignação, ou com a miserável resignação.

Eric Nepomuceno

Tradução por Carta Maiorhttps://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FPolitica%2FO-objetivo-de-Moro-foi-alcancado%2F4%2F41712

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Ilustrações por Vitor Teixeira e Laerte

O GOLPE VESTE TOGA – Guerra Jurídica nas Eleições de 2018 perpetua o Golpe de Estado de 2016 e nos encaminha para futuro turbulento

Marcha em direção ao TSE de Brasília para o registro da candidatura de Lula à Presidência da República. Foto: Gustavo Bezerra. Data: 15/agosto/2018.

“Não sei se eles vão passar para a história como juízes ou como algozes.”
Luiz Inácio Lula da Silva, preso político e candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhadores

Se o Diabo veste prada, o Golpe veste toga. Como disse Pedro Serrano: “o que parece estar ocorrendo na América Latina é a substituição da farda pela toga.”

O golpismo que derrubou Lugo no Paraguai e Dilma no Brasil, que atentou contra Chávez e Maduro na Venezuela, que segue tentando desestabilizar o governo Evo Morales na Bolívia, que celebra a chegada de neoliberais como Macrí na Argentina e Piñera no Chile, não opera mais com tanques de guerra, soldados e escopetas.

Hoje, um Golpe de Estado é dado nos tribunais. Seu maquiavélico xadrez é jurídico. Sua guerra é jogada em conluio com as mídias, com altas comemorações no topo (estreitíssimo) da pirâmide social quando se consegue substituir um governo de soberania popular por um outro que seja fantoche dos interesses da elite, ou que seja a elite tirânica ela mesma, exercendo sua supremacia sem intermediários.

“É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado em 2016 por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo” – Dilma Rousseff, presidenta do Brasil entre 2010 e 2016. In: SINGER, André. O Lulismo em Crise. Pg. 14. Companhia das Letras, 2018.

Sempre que a elite, já privilegiada ao excesso, puxa o tapete do adversário para manter-se em sua palaciana posição, não faltam os aplausos dos idiotas úteis que, na classe média, preferem a solidariedade com as elites opressoras à empatia com os oprimidos. Eis um breve retrato do Brasil…

O grande “beneficiário” do coup d’état de 2016 é a maré montante de fascismo, que ameaça colocar o Brasil na rota dos países decaídos no autoritarismo, no genocídio racista, no terrorismo de Estado. Como se fôssemos incuráveis amnésicos, que não só reduzem a cinzas o Museu Nacional do RJ, mas recusam-se a aprender com lições do passado, vítimas do que um de nossos melhores escritores e pensadores, Bernardo Kucinski, chama de “mal de Alzheimer nacional”.

São milhões teleguiados pela rede Globo, e só um punhado de leitores de K – Relato de Uma BuscaTriste povo que não aprende com a sabedoria de sua própria literatura. Que não se informa com Kucinski, mas sim com os Marinho. Um povo que não lamenta a morte da revista Caros Amigos, pois julga que sua fonte confiável de informação está semanalmente na Veja (mesmo com o colapso generalizado do grupo empresarial Abril…).

É como se não quiséssemos aprender com as lições da Ditadura inaugurada pelo golpe militar de 1964 e que nos lançou a bem mais que 21 anos de trevas políticas: estamos até hoje atolados no “entulho autoritário”, nos legados tenebrosos daquela época, e ao invés de tirar sabedoria desta História, nós… incineramos nosso passado. Nossos museus estão virando cinzas, e nossa sanidade coletiva também.

Vamos rumo ao caos da guerra civil caso a democracia termine seu processo de auto-destruição com a tomada de poder pela extrema-direita Bolsonazista. Digo tomada de poder pois não existirá, jamais, nunca, em nenhuma hipótese, um “regime Bolsonaro” que seja legítimo. Das eleições de 2018, com a exclusão via guerra jurídica da candidatura do Lula, não existe possibilidade de nascer um governo legítimo. Muito menos um que busque se basear em inaceitáveis práticas de genocídio, limpeza étnica, tortura, fuzilamentos, como prega o candidato.

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O sintoma mais grave da psicopatologia coletiva que nos acomete – e que mereceria ser decifrada na companhia de Wilhelm Reich, Erich Fromm e Hannah Arendt – é o tamanho do eleitorado da chapa presidencial do PSL: Bolsonaro/Mourão.

Aquela excelente video-reportagem da Vice já escancarou o tamanho do nosso buraco. Pois nosso buraco deixou de ser a presença entre nós de um partido fascista, o nosso problema é um fascismo social, o fato de que uma parte significativa da nossa população realizou já uma espécie de conversão ao campo do fascismo. De onde, aliás, talvez nunca tenha de fato saído, dada à pregnância e disseminação, entre nós, da “personalidade autoritária”, que faz de nossas elites políticas, tão frequentemente, estes mandões escrotos e tirânicos que carregam a mão na opressão truculenta contra o povo, enquanto gozam de iguarias e privilégios defendidos com base na força militar escancarada e na imposição terrorista do Medo intimidador.

Quando um candidato é capaz de falar no Jornal Nacional que um policial militar que entrasse na favela metralhando, e que matasse 15 pessoas, deveria ser “condecorado”, e quando as intenções de voto para esta figura boçal e truculenta atingem mais de 20% dos eleitores, sentimos que o Brasil é um país que fracassou. A nossa “polarização política” já não pode ser vista com um sintoma normal de uma pujante sociedade democrática que experimenta os riscos e aventuras do pluralismo e do pluripartidarismo. A nossa polarização é bélica e violenta, e o Mito do Brasileiro Cordial vai se esboroando cada vez mais. Querem-nos brutos e brutais como os Bolsonazistas. Nós insistiremos na senda difícil da solidariedade com os injustiçados, endurecendo pero sin perder la ternura jamás, como o Che.

O que a extrema-direita faz com o debate público é puxá-lo para o nível (boçal e truculento) deles, convidando-nos a compartilhar da psicopatia deles. Pois Bolsonaro não é nada menos que um psicopata (diferente do normopata Alckmin, o picolé-de-chuchu da mediocridade burguesa, mas que em período de crise se mostra, como se fez no Pinheirinho em São José dos Campos, como burguesia-fascista também… Como Brecht ensinava: nada mais parecido com um fascista que um burguês assustado).

Bolsonaro, em sua psicopatia, em sua personalidade repleta de fobias, em seu temperamento de genocida, é a pior pessoa do mundo a quem confiar poder em excesso, dado a alta probabilidade de abuso em larga escala desse poder, e subsequente crise humanitária. Com Bolsonaro no poder, estamos falando da banalização ainda piorada dos crimes contra a humanidade que já ocorrem tanto no Brasil.

Um país “do futuro” (que nunca chega), o Brasil é tanto a pátria das róseas esperanças do judeu perseguido Stefan Zweig e a pátria onde o mesmo naufragou com os destroços de suas ilusões (suicidou-se com a esposa em Petrópolis). Um país desencaminhado, como de praxe, por suas elites, responsáveis por tantos de nossos atrasos. Vamos afundando no lodaçal que aprofunda o estado de guerra civil latente. É guerra de classe, e os ricos estão vencendo. Eles não vencem mais com tanques, vencem com PECs. Eles não impedem as eleições, mas eles nos proíbem de votar em quem eles não querem que vença. E assim vamos, caminhando e cantando…

Com Bolsonaro no poder, porém, esqueçam o papo hippie de flores contra canhões. Preparem-se para novas guerrilhas, para uma nova onda de novos Marighellas, pois aqueles que querem impor tamanha violência militarizada aos governados podem esperar uma reação também violenta por parte dos violentados.

Não haverá governo Bolsonaro sem uma clandestina efervescência de movimentos que serão obrigados à tomar a via insurrecional e revolucionária, já que a democrática foi travada pela apropriação indevida das elites golpistas, transmutadas em Estado fascista.

A catástrofe que foi o governo Temer, nascido da aliança golpista entre PMDB e PSDB, entre ruralistas e velha mídia corporativa, pôs no poder elites lambe-botas de gringos endinheirados. Elites que cagam em cima da soberania nacional e são totalmente entreguistas, dando de mão beijada nossas riquezas para as corporations: nosso petróleo da camada do pré-sal já não é nosso: é da Shell… e o Aquífero Guarani, encaminha-se para ser da Nestlé? A Amazônia um dia será um parque privado gerido pela Walt Disney Corporation?

“A atual eleição é incompreensível sem o golpe de 2016”, afirma o sociólogo Jessé Souza em Carta Capital. É significativo, por exemplo, que exatos 2 anos após a deposição final de Dilma Rousseff, o TSE recusou a legitimidade da candidatura de Lula, contrariando um imenso movimento de massas que está fervilhando nas ruas e nas redes (vide Festival Lula Livre nos Arcos da Lapa), e desrespeitando inclusive uma recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Segundo Jessé:

“O cheiro é de coisa podre e todos o sentem. A grande dificuldade do conluio golpista comandado pela mídia venal e pela “casta jurídica” do Estado, ansiosa por mesquinhos dividendos corporativos de curto prazo, é o fato de serem lacaios de um capitalismo rentista não só improdutivo como abertamente fraudulento e destrutivo.

O País é literalmente assaltado pela pirataria rentista e o povo empobrece a olhos vistos. Este é o real pano de fundo das eleições.

Lula cresce a cada dia posto que é a memória viva de quando as coisas eram diferentes e melhores. Ainda que não tenha havido uma reconstrução coletiva consciente dos motivos inconfessáveis do golpe, essa lembrança basta como esperança para muita gente.

Preso, seu prestígio só aumenta, pois seu ordálio é concomitante e tem o condão de representar o sofrimento da imensa maioria da população. Ele é, portanto, o “profeta exemplar” do crime cometido contra todo o povo brasileiro. Isso é algo que os pigmeus intelectuais da “casta jurídica”, que comanda a estratégia golpista na dimensão conjuntural e concreta, têm enorme dificuldade de compreender.

Exceto a eficiente rapina de todos os ativos importantes do País, articulada de fora para dentro, a estratégia interna dos pigmeus jurídicos e midiáticos é burra e, por conta disso, obviamente ineficiente.

A condenação pela ONU da perseguição política a Lula só faz agravar o processo. A “casta jurídica” golpista, embora não confesse, foi atingida no coração e posta na defensiva. O “ônus da prova” foi simplesmente invertido. O Brasil tende a perder qualquer credibilidade e respeitabilidade internacional, cujo reflexo interno, ainda mais em um país “vira-lata” que idealiza as “culturas superiores”, não é pequeno.

Como a “casta jurídica” não vai ficar mais inteligente de um dia para o outro, o preço no médio prazo será altíssimo em termos de perda de respeitabilidade institucional das corporações jurídicas.”

Para incremento das tensões e incertezas, em Setembro de 2018 a temperatura, literalmente, esquentou até a ebulição. Os ânimos estão em incêndio. Bolsonaro, enquanto o Museu Nacional do RJ ardia em chamas, estava no Acre fazendo o que ele sabe fazer de melhor: cagar pela boca para entreter os idiotas desumanizados que não se envergonham de apoiar um homem sádico e boçal.

O candidato fascista prometeu “fuzilar a petralhada”, assim como dias antes tinha dito que ia tratar o MST como “grupo terrorista”. Em pleno Jornal Nacional, falou em cadeia nacional que deveriam ser “condecorados” os policiais militares que entrassem na favela para perpetrar chacinas. Em um país que desceu a tal grau de barbárie, nem nos surpreende mais que o Bozonazi possa andar solto pelo país, fazendo apologia da tortura e do genocídio, vomitando discurso de ódio, propagando misoginia e racismo, expressando a mais truculenta e acéfala “receita” para tudo: resolver no tiro.

A existência de um crápula fascista de mentalidade retardada como Bolsonaro já seria em si mesma uma lástima, mas o pior de tudo é o tamanho de seu fã-clube. Ou, pior ainda, de seu eleitorado. A mente custa a compreender que existam tantos milhões de cidadãos brasileiros que são estúpidos a esse ponto – tão estúpidos que sequer enxergam a sua própria estupidez – e que seguem celebrando uma figura tão execrável.

Enquanto isso, um ser humano da estatura histórica e da excelência ética que é Luiz Inácio Lula da Silva continua padecendo nas masmorras de Curitiba um cárcere político pré-eleitoral que nos envergonha diante do mundo.

Um cara que deixou seu cargo na presidência com mais de 80% de aprovação do povo (e não foi à toa); que liderou o governo que mais fez pela inclusão social e pelo combate à miséria em toda nossa história republicana (mesmo a oposição mais ferrenha não nega a ascensão social de mais de 30 milhões de cidadãos); que realizou a maior expansão das universidades públicas e institutos federais que alguém já realizou como chefe de Estado (escudado por Fernando Haddad como Ministro da Educação); que pôs Gilberto Gil no MinC para fazer florescer a Cultura Viva naquela que foi talvez a melhor gestão de todos os tempos no Ministério da Cultura; que atentou para as necessidades dos milhões de desvalidos com programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, o Luz Para Todos etc.; que “fez o sertão virar mar” com a transposição do Velho Chico; que forjou solidariedades internacionais do Brasil com o Mercosul, a África, os BRICS, e mesmo contestando a subserviência brasileira aos EUA retirou de Obama o elogio de que era “O Cara”; que fez a economia seguir pujante por muitos anos, em que o salário mínimo não parou de subir, a inflação manteve-se sobre controle, o emprego era quase pleno, e até os tubarões do capitalismo não tiveram motivo para reclamações; que como democrata impecável costurou um jogo de conciliações e governabilidades que o tornam um verdadeiro gênio do xadrez político dentre aqueles que escolhem a via institucional do reformismo ao invés da via revolucionária; bem… esse “cara” hoje está impedido pelas elites de disputar as eleições devido à fraude jurídica do triplex que o Judiciário vergonhosamente está secundando com sua criminosa cumplicidade.

Presidente do Sindicato dos Seringueiros de Xapuri.

No vídeo a seguir, antídoto necessário contra o avanço da amnésia no país que reduz seus museus a cinzas e que permite que os golpistas aniquilem investimentos em educação, saúde e ciência, Luiz Inácio Lula da Silva fala no enterro de Chico Mendes, herói e mártir da defesa do meio ambiente, brutalmente assassinado pelas elites plutocráticas que desgovernam esta nação há tanto tempo.

Diante da trajetória de vida do Lula, do seu caráter de entusiástico defensor da justiça social, do seu ethos de indignação diante daqueles que impõe uma existência indigna àqueles que pisoteiam, não há como ficar em cima do muro: Lula é a civilização que resiste a duras penas, Bostossauro e sua manada de seguidores retardados é a Barbárie que avança. De que lado vocês vão ficar?

Nós aqui jamais estaremos junto aos desumanos, mas sim entre aqueles que labutam, dia e noite, no pensamento e na ação, para que possamos juntos nos humanizar mais e mais. Esta Humanidade como valor, espezinhada pelo fascismo desumano, ainda pulsa em nossas utopias, em nossas indignações, em nossas revoltas, em nossos poemas e canções, em nossos filmes e reportagens, e eles podem até matar-nos e enterrar-nos, mas sempre ressurgiremos das cinzas para provar a eles que éramos, somos, seremos Sementes.

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro – Setembro de 2018