O esforço lúcido de Vladimir Safatle para esclarecer o imbróglio brasileiro, fornecer balizas para a refundação da esquerda e propor vias para a democracia real

Vladimir Pinheiro Safatle, “Só Mais Um Esforço”
(Três Estrelas, 2017, 144 pgs)
Disponível na livraria A Casa de Vidro: http://bit.ly/2hPuW97

Após a consumação do golpe parlamentar que expulsou Dilma Rousseff da presidência da república, em Abril de 2016, Vladimir Safatle publicou em sua coluna na Folha de S.Paulo um artigo-manifesto chamado “Nós Acusamos”. Nele, evocando Émile Zola no Caso Dreyfus, Safatle fazia uma série de acusações contra os cleptocratas que usurparam o poder: “Nós acusamos”, bradava em tom jacobino, “os representantes deste governo interino de seres personagens de um outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução da crise política, mas são a própria crise política no poder.”

Neste livro de intervenção, “Só Mais Um Esforço”, o professor de filosofia da USP – Universidade de São Paulo dá sequência à sua obra anterior “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome”, publicando no calor da hora, à luz das ruas que queimam, palavras urgentes e contundentes numa espécie de amálgama de manifestos. São textos mais acessíveis ao grande público do que suas complexas análises de Hegel, Lacan, Adorno, Derrida, Butler, dentre outros pensadores, que marcam sua trajetória intelectual.

Na imprensa, em debates públicos, em entrevistas midiáticas e em livros como este, Safatle revela-se “um pensador comprometido com a causa dos oprimidos e explorados, um homem de esquerda autêntico, que usa sua pluma para denunciar os crimes e as injustiças do sistema capitalista e para propor alternativas radicais” – como escreve Michael Löwy no prefácio, .

Sem esconder sua admiração pelo governo de Salvador Allende no Chile (1970-1973), experimento de socialismo democrático rico em legados para o futuro da práxis utópica latino-americana, Safatle também se empolga com as insurreições recentes, pelo mundo afora, desde a Primavera Árabe e o Occupy Wall St. às Jornadas de Junho de 2013 no Brasil:


“Nada que se refere ao destino e às dificuldades da esquerda brasileira pode ser compreendido sem uma meditação a respeito das manifestações de Junho de 2013. Tais manifestações são certamente o conjunto mais importante de revoltas populares da história brasileira recente, não por aquilo que produziram, mas por aquilo que elas destruíram. A partir delas, todo o edifício da Nova República entrou paulatinamente em colapso. Mas, além disso, algo mais terminou: a primeira parte da longa história da esquerda brasileira chegou ao fim.” (p. 107)

Safatle lembra que 2013 foi o ano com “o maior número de greves desde o fim da ditadura, ou seja, 2.050 greves, sendo 1.106 apenas no setor privado. Tal fenômeno era sintomático: tratava-se de trabalhadores que não reconheciam mais suas ‘representações’ e que procuravam deixar claras sua insatisfação e precariedade.” (p. 108) A ascensão da insurreição popular que se viu em 2013, e que culminou nas mega-manifestações de Junho, manifesta o que Ruy Braga chamou de “A Revolta do Precariado”, uma insatisfação imensa da classe trabalhadora diante das condições de trabalho impostas pela hegemonia capitalista neoliberal globalizada, aquilo que Viviane Forrester – em livro traduzido pelo próprio Safatle e lançado pela Editora Unesp – chamou de “Uma Estranha Ditadura”.

Ora, Junho de 2013 foi uma “revolta que pegou a esquerda desprevenida, enfraquecida e acomodada à ilusão de perpetuação infinita no poder”, analisa Safatle. “Por isso, uma parte da esquerda preferiu abraçar o discurso da desqualificação da revolta, o que a livraria de ter de encarar sua própria obsolescência e envelhecimento.” (p. 53)

Safatle provoca-nos dizendo que, “em vista da paralisia completa do governo diante de tais revoltas e da incapacidade de todo o setor da esquerda de se constituir como intérprete qualificado das novas demandas, foi a direita que soube captar o momento, absorvendo de vez o discurso anti-institucional. Pela primeira vez desde 1984, a direita voltava às ruas, procurando mobilizar a força anti-institucional da política, enquanto a esquerda brasileira havia se transformado no mais novo partido da ordem. Com tal força, a direita, mesmo não tendo ganhado as eleições de 2014, impôs uma dinâmica acelerada de desabamento do governo e de incitação a um golpe parlamentar travestido de legalidade…” (p. 155)

Como a Revolta do Precariado e as insurreições vinculadas às demandas por um transporte público mais digno – capitaneadas pelo Movimento Passe Livre – MPL – puderam ser “colonizadas” pelas forças da Direita? O que explica que, ao fim de Junho, os “coxinhas” tivessem tomado a cena, mobilizados pela grande mídia corporativa e por entidades patronais como a Fiesp? A resposta, para Safatle, encontra-se no “circuito dos afetos”, em especial na mobilização que as forças reacionárias fizeram do medo. É o medo da desordem e da “anarquia” – brandido pelos mass media a todo momento através das imagens de vandalismo e descontrole – que permite a ascensão proto-fascista de uma ideologia que prega o autoritarismo truculento para resolver os conflitos sociais.

Em um dos capítulos mais interessantes de “Só Mais Um Esforço”, Safatle discute três fotografias emblemáticas: Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar brasileira aos 37 anos de idade; o ex-presidente Lula com as mãos sujas de petróleo; e manifestantes que depredam o Palácio Itamaratyem um episódio de clímax das Jornadas de Junho. Sinais de um país que, através da anistia, deixou praticamente impunes os torturadores e assassinos do Estado de Exceção inaugurado pelo golpe militar de 1964; que não soube propor modelos de desenvolvimento alternativos à civilização industrial devoradora de combustíveis fósseis e geradora de uma hecatombe ecológica global; e que não sabe lidar com a emergência de uma contestação bruta senão mobilizando a força repressiva de um Estado ainda militarizado e que tem na PM um dos piores legados de seu passado mal enterrado.

“A foto do Palácio do Itamaraty em chamas tem sua ironia”, explica Safatle. Pouco antes, a massa estivera enfurecida diante do Congresso Nacional do Brasil, ameaçando quebrá-lo. A Polícia Militar tentou impedir, mas não conseguiu fazer nada melhor do que empurrar a massa para o lado, fazendo com que sua fúria destruísse o primeiro edifício público à frente…. A foto mostra a destruição de um substituto. Para salvar o Congresso com seus oligarcas, outro objeto é oferecido para ser sacrificado em um ritual de expiação da revolta. Essa estratégia será utilizada uma segunda vez, de maneira simbólica e bem-sucedida, no golpe de 2016.

Mas essa imagem não será apenas a expressão de uma armadilha criada de forma astuta por uma oligarquia exímia na arte de se perpetuar. Ela será o eixo dos últimos anos da história brasileira em um outro sentido, mais forte. Pois a fúria popular contra o Itamaraty era a encarnação do verdadeiro medo que sempre assombrou este país, a saber, o medo da insurreição de uma massa amorfa e descontrolada, de força negadora bruta, que encarnaria todas as décadas e séculos de revolta muda e surda. Uma força que não se submeteria mais ao poder do Estado, à lógica de suas representações. ” (p. 53)

É “o povo que diz não” subindo à cena política. “Essa insurgência, com sua negação bruta, que pareceu ser uma ferida aberta que poderia não mais parar de sangrar, foi o motor que levou parcelas da população brasileira, depois de 2013, a reagir e a abraçar de forma cada vez mais descomplexada os discursos protofascistas de ordem e de justificação da violência estatal. Pode parecer paradoxal esse resultado, mas não será a primeira vez na história que as latências de uma revolta popular dão espaço à emergência de um sujeito reativo.” (p. 55)

Junho de 2013, longe de ter tido efeitos libertários de longo prazo, causou um assanhamento das forças reacionárias e fascistas no Brasil, com o cenário preocupante que se desenha para 2018: a da candidatura, apoiada por milhões, do racista, misógino, homofóbico, militarista – amálgama de toda a estupidez desavergonhada do fascismo brazzzileiro – Jair Messias Bolsonaro. São sinais claros de que o Brasil fracassou em lidar com seu passado, que volta a assombrá-lo como um espectro horrendo:

“Nenhum outro país protegeu tanto seus torturadores, permitiu tanto que as Forças Armadas conservassem seu discurso de salvação através do porrete, integrou tanto o núcleo civil da ditadura aos novos tempos de redemocratização quanto o Brasil. Há de se lembrar que o Brasil é o único país da América Latina onde os casos de tortura aumentaram em relação à ditadura militar. Por isso, nenhum outro país latino-americano teve um colapso tão brutal de sua ‘democracia’ como o nosso, com uma polícia militar que age como manada solta de porcos contra a própria população que paga seus salários. Nenhum outro país latino-americano precisa conviver com um setor proto-fascista da classe média a clamar nas ruas por ‘intervenção militar’, a ponto de invadir o plenário do Congresso Nacional com suas bandeiras. Tudo isso demonstra algo claro: a ditadura brasileira venceu. Como um corpo latente sob um corpo manifesto, ela se conservou e a qualquer momento pode novamente emergir.” (p. 65)

É o que estamos vendo na era Michel Temer: uma cleptocracia escrota que vem massacrando sem dó os direitos trabalhistas, que vem impondo medidas de austeridade altamente impopulares, que vem enfiando-nos goela abaixo as intragáveis PECs do Fim do Mundo que ameaçam precarizar escolas e hospitais pelos próximos 20 anos – e quem protesta contra isso é considerado um inimigo público digno só do porrete, do spray de pimenta, das bombas de gás lacrimogêneo.

“Diante desse cenário, a tendência brasileira agora é a desagregação. Com uma casta política que bloqueou todo processo de renovação, com uma paralisia em relação à compreensão de processos de emergências de novas modalidades de corpos políticos, o país tende a se deslocar paulatinamente para um modelo cada vez mais autoritário e desprovido de qualquer legitimidade. Os sistemas de pactos ruíram e não é mais possível reeditá-los. Todas as ‘reformas’ apresentadas em 2016 e 2017 visam à destruição das defesas trabalhistas e ao fortalecimento das dinâmicas de produção da desigualdade, no pior dos pesadelos neoliberais.

Nesse cenário, não é surpreendente que, diante do crescimento da resistência contra a espoliação, a elite dirigente brasileira jogue todas as suas forças na brutalização do discurso social, na criminalização da oposição e no uso recorrente de seu braço armado para gerir conflitos.” (p. 117-118)

As alternativas radicais propostas por Safatle para sairmos do atual cenário catastrófico envolvem medidas que deixam nossas elites com a pulga atrás da orelha: taxação de grandes fortunas e heranças; instauração do salário máximo; restrição do direito à propriedade privada etc. O leitor atento pode ficar estarrecido com certas omissões: o filósofo não menciona em lugar algum do livro a reforma agrária, a demarcação de terras indígenas, a luta contra o agronegócio e os agrotóxicos, nem menciona movimentos sociais como o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, tão esforçados na instauração de uma outra realidade, menos injusta e hedionda do que a que vivemos.

O outro mundo possível que hoje demanda nosso esforço e nossa luta também exige a refundação radical da esquerda e a construção coletiva de uma autêntica democracia direta, onde o povo não delegue sua soberania a ninguém, e onde o Estado se utilize de todas as ferramentas das novas tecnologias digitais para a instauração de uma “ágora virtual” onde proliferariam os plebiscitos e assembléias populares.

“Temos atualmente todas as condições técnicas para criar uma sociedade de deliberação contínua baseada em uma democracia digital”, opina Safatle (p. 128), propondo inovações políticas nos processos decisórios através de uma “ágora virtual” (noção contestada por Luis Felipe Miguel, cientista político e professor da UnB – Universidade de Brasília, neste artigo em Justificando).

Longe de decretar que o marxismo ficou obsoleto, Safatle busca re-avivar a chama de Karl Marx eEngels para nossos tempos, dizendo que “a teoria marxista da revolução é, mais do que uma teoria das crises, uma teoria da emergência de sujeitos políticos com força revolucionária. No caso de Marx, tais sujeitos têm nome: proletários.” (p. 102)

Safatle insiste que o conceito de proletário no pensamento marxista não é apenas uma “categoria sociológica dos trabalhadores que têm somente sua força de trabalho”, mas sim uma “categoria ontológica que diz respeito a certo modo de existência com grande força revolucionária, é um modo que depõe regimes de existência baseados na propriedade, no individualismo possessivo e na identidade, com seus sistemas defensivos e projetivos.

O século XIX conheceu uma sequência impressionante de revoltas, movimentos e insatisfação social oriundos de crises econômicas profundas em todos os lados da Europa. Tal como agora, as ruas queimaram em sequência. Mineiros da Silésia, operários ingleses, tecelões franceses: todos pararam fábricas, quebraram máquinas, montaram barricadas, desafiaram a ordem instituída. No entanto, essa multiplicidade de revoltas só se transformou em um fantasma que assombrava aquele tempo quando todas as ruas em chamas foram vistas como a expressão de um só corpo político, um só sujeito em marcha compacta pelo desabamento de um mundo que teimava em não cair.

Um sujeito político só emergiu quando os mineiros deixaram de ser mineiros, os tecelões deixaram de ser tecelões e se viram como um nome genérico, a saber, ‘proletários’, a descrição de quem é totalmente despossuído, de quem é ninguém. Foi quando a multiplicidade das vozes apareceu como a expressão da univocidade de um sujeito presente em todos os lugares, mas com a consciência de sua ausência radical de lugar, que a revolta deixou de ser apenas revolta. Pois essa força de síntese de outra ordem que aparece através da univocidade da nomeação era a condição para que a imaginação política entrasse em operação, permitindo a emergência de um novo sujeito. De certa forma, é isto que nos falta: precisamos ser, mais uma vez, proletários.” (p. 103)

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Por Eduardo Carli de Moraes
 www.acasadevidro.com

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Leia também:

ESTILHAÇOS DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO, POR RUY BRAGA EM “A PULSÃO PLEBÉIA” (ALAMEDA/FFLCH-USP)

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Alguns vídeos:



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“Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo…”

Torquato Neto​ & Gilberto Gil​,
“Marginália II”
Ouça:

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Nos Idos de Março: a Ditadura Militar na Voz de 18 Autores Brasileiros 
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Teatro de Rua: Brasil e Argentina nos Anos 80 – uma Paixão no Asfalto 
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Na Estrada – o Cinema de Walter Salles 
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O Núcleo e a Periferia de Machado de Assis 
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A Barreira e o Nível – Retrato da Burguesia Francesa
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LIVRARIA A CASA DE VIDRO – Novidades no Acervo (Julho de 2017)

Foo Fighters – Learning to Fly, a Biografia Definitiva da Banda
Mick Wall

Tipo: novo
Editora: Planeta
Ano: 2017
Estante: Biografias
Peso: 680g
Idioma: Português

A biografia de Dave Grohl e os Foo Fighters, uma das maiores bandas de rock da atualidade: “Há um motivo pelo qual Dave Grohl é conhecido, ainda que ingenuamente, como o cara mais legal do rock. Um motivo que explica por que milhões compram os CDs e DVDs do Foo Fighters, os ingressos de shows e de festivais; por que gerações acreditaram na história, no sonho e nas profecias deles, que se realizaram. Dave é generoso. Ele pode não ter o glamour culto de Kurt Cobain, do Nirvana, mas Kurt era alguém que tirava em vez de doar. Kurt afundou na escuridão, no lado escuro da lua. Dave é um adorador do Sol, um amante e não um solitário, um canal de luz, defende o biógrafo Mick Wall, o mesmo autor de Led Zeppelin – When Giants Walked the Earth.

Sinopse, via Travessa: Foo Fighters – Learning to Fly é a verdadeira história do Foo Fighters – como nunca foi contada antes. Desde o tempo de Dave como um garoto novo do Nirvana até se tornar o Ringo Grunge do Foo Fighters, onde ele está agora –  talvez o maior e mais popular astro mundial do rock na categoria masculina. Nada disso aconteceu por acidente. E o internacionalmente famoso crítico de rock Mick Wall nos conta como e por que, em um estilo que pulsa com os próprios ritmos do rock, ao entrevistar amigos, antigos colegas de bandas, produtores, executivos de gravadoras de discos e as pessoas mais íntimas de Dave Grohl e dos Foos… Essa explosiva biografia – a primeira, completa e sem censuras literárias – explica por que.”



Kurt Cobain: a Construção do Mito
Charles R. Cross

Tipo: novo
Editora: Agir
Ano: 2014
Estante: Música
Peso: 450g
Idioma: Português
Comprar em Estante Virtual

Do mesmo autor de “Mais Pesado Que o Céu”, este livro foi lançado mundialmente em Abril de 2014, vinte anos após o suicídio do líder do Nirvana. Em Tenho Mais Discos Que Amigos, uma boa síntese do livro: contextualiza o impacto de Cobain e sua obra não só no cenário do rock, mas também como tem influenciado, desde então, a moda, o papel dos gêneros, o feminismo, a forma com que o mundo encara o suicídio, o vício em drogas, e o papel de Seattle e do grunge na cultura pop. Livro novo, sem grifos, 176 pgs. Relembre:



Na Livraria A Casa de Vidro:
Ray BradburyFarenheit 451 (2016, 165 pgs, capa dura): http://wp.me/pNVMz-1Sb.
Compre em Estante Virtualhttp://bit.ly/2eL96lm.
Adaptado para o cinema por François Truffaut.
Saiba mais: https://acasadevidro.com/2015/06/23/a-distopia-de-truffaut-adaptada-de-bradbury-livros-ardem-a-451-graus-fahrenheit/



GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

“A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.” – Saiba mais



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CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas, 4ª Edição: Trip, 23/6, com Chá de Gim, Distoppia, Tião Locomotiva e Veneno, Exposição fotográfica “Caminho do Cerrado”, Discotecagem cannábica

Vem aí a 4ª edição do Confluências: Festival de Artes Integradas, propiciando altas viagens sensoriais e estéticas através de shows, exposição fotográfica, discotecagem cannábica, poesias de autores goianos, livros e HQs à venda, dentre outras atrações.

O evento vai acontecer na Trip (Rua 115e, Setor Sul, Goiânia), no dia 23/06 (Sexta-feira), a partir das 20h, no mesmo dia da Marcha da Maconha – Goiânia 2017. Confira nosso cardápio cultural para a ocasião:

* Shows: Chá de Gim; Distoppia, Tião Locomotiva & Veneno, Laptop Ensemble (Eduardo Kolody & Eufrasio Prates) da BSBLOrk – Orquestra de Laptops de Brasília.

* Exposição fotográfica: O Caminho do Cerrado, de Mel Melissa Maurer, trabalho de cunho artístico e denunciativo sobre a devastação crescente do Cerrado na região da Chapada dos Veadeiros. Conheça: https://ocaminhodocerrado.blogspot.com.br/.

* Feirão de livros e HQs com preços imbatíveis da Livraria A Casa de Vidro.

* Discotecagem: Canções cannábicas, nacionais e internacionais, dos mais variados gêneros musicais, que tematizam e/ou simulam a expansão de percepção e as situações sociais propiciadas pelo consumo da cannabis sativa. Amostras / aperitivos: #1: Quique Neira & Alborosie#2: Bezerra da Silva; #3: Steppenwolf; #4: Amy Winehouse; continua em breve.

Uma produção A Casa de Vidro – Livraria e Produtora Cultural. Siga Confluências no FacebookPágina do evento.

E MAIS:
►Cervejas e drinks com diversidade e preços acessíveis
►Massas e outros rangos deliciosos com Lobato Massas Artesanais
►Jardim good vibes
►Pet Friendly
►Bazar com livros, CDs e discos de vinis selecionados
►Ambiente seguro
►Chegou de bike ganha 10% de desconto!

Local:
Trip Música e Artes – Rua 115-E (entrada) com a 115, Setor Sul.
#entranatrip #trip #tripmusicaeartes
Entrada: R$10

Arte do flyer: Annie Marques

P.S. Em 23 de Junho, há a culminação dos trabalhos do Coletivo Antiproibicionista MenteSativa, organizador da Marcha da Maconha, que promove também a Semana pela legalização – Mente Sativa – eventos de crucial relevância para o debate público e a conscientização cívica, plenamente apoiados pelo Conflu. Conflua também!


SAIBA MAIS / RELEASES


Despontando no cenário rocker de Goiânia, Tião Locomotiva & Veneno, uma dupla de blues-rock turbinado e intenso, tocará nesta Sexta (23/06) na Trip no Confluências #4 – Festival de Artes Integradas. É pra chaqualhar o esqueleto com o groove intenso dos caras! Confira o mais recente videoclipe ao vivo como aperitivo:


A Chá de Gim lançou recentemente a bela “Canção do Futuro”, novidade no repertório da banda e que integrará o segundo álbum de estúdio, o sucessor de “Comunhão” (Ouça: http://bit.ly/2rdpvQU). No Confluências #4 – Festival de Artes Integradas, vocês poderão curtir esta pérola ao vivo e a cores, além de outras maravilhas do cancioneiro da Chá como “Zé”, “Samba Verde” e “Cordeiro do Mundo”. Borá pra Trip na Sexta 23/06 pra apreciar este showzaço?

O quarteto  surgiu no cenário artístico goiano dos últimos anos como uma das mais saborosas novidades ao sintonizar MPB, samba-rock e muita lisergia com letras cheias de lirismo e contestação. A Chá despontou no radar daqueles que estão antenados ao cenário musical de Goiânia com a canção “Zé”, consagrada com o prêmio do júri e do público no Festival Juriti de Música e Poesia Encenada em 2014 [assista à performance: http://bit.ly/2gQJZMl].

Na ocasião, o júri contou com a presença de Jorge Mautner e sob o impulso da premiação a banda pôde gravar este seu vigoroso debut. Uma digna reportagem no Monkeybuzz esclarece um pouco da inserção da Chá de Gim – que sempre marca presença em festivais como Festival Vaca Amarela e Grito Rock – no cenário alternativo de “Goiânia Rock City”:

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Festival Juriti de Música e Poesia Encenada 2014, uma produção da Matuto, durante a premiação do Chá de Gim por melhor música, segundo júri e público, com “Zé” – Fotografia: Layza Vasconcelos

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MONKEYBUZZ: “A rápida ascensão do grupo Chá de Gim deve-se puramente à cena efervescente de Goiânia. Já não é novidade para ninguém que a capital é um dos maiores expoentes brasileiros de revelações nos últimos anos. A sua cena musical é autosustentável e festivais como Bananada e Vaca Amarela são a porta de entrada para que artistas de outros estados possam entender o que parece ser mágico na cidade: o Rock’n’Roll. Nos últimos anos, inúmeros atos romperam o casulo e alcançaram projeção nacional, como Boogarins, Hellbenders, Black Drawing Chalks e Carne Doce, entre outros. No entanto, se cada um cria o Rock à sua maneira, o que parecia estar em evidência na região é a tal da Psicodelia – e é nesse quesito que esta nova banda Goiânia se encaixa perfeitamente.

Formada em 2014 por Diego Wander (vocal e percussão), Alexandre Ferreira (bateria), Bruno Brogio (baixo) e Caramuru Brandão (guitarra), o grupo surpreende pela rápida ascensão(…). Os singles e Samba Verde, no entanto, mostram que existe muita unidade por trás dos sons da banda e um futuro muito interessante pela frente. A mistura traz muito da música brasileira tradicional, como o Samba e o Forró, ao lado de Rock e Psicodelia – adereços que criam maior profundidade e impacto no som criado. (…) Auxiliada por acordes aéreos processados no atraso do delay e combinados a uma percussão marcante, a música torna-se um hit certeiro.” (Txt: Gabriel Rolim)

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Recentemente, a Chá também participou do IV Muvuca Festival, na Praça das Artes, e estivemos lá registrando a vibe no começo do show – sente a brisa do “Samba Verde”:

Relembre também a participação da Chá de Gim na primeira edição do Confluências.


O Distoppia, novidade no cenário do rock alternativo autoral com letras em português, é outra das atrações do Confluências #4. A banda já se apresentou em festivais como o Grito Rock (produção Fósforo Cultural) e já realizou show no Teatro do IFG – câmpus Goiânia. Confiram abaixo duas das canções da banda goianiense, “Morador” e “Alter Ego”:

Com o objetivo em dar vida às composições do vocalista Matheus Damasceno, a banda teve seu início com o intuito de participar de um Festival local (Bouga Fest) no ano de 2013, onde a mesma foi finalista.

Após essa experiência, a banda passou a permear a cena local da cidade e no ano de 2015 lançou duas singles de estréia. Através de amigos de faculdade e da cena musical, a banda passou a contar com uma formação fixa com Matheus Damasceno (vocais e violão), Pedro Guilherme(guitarra), Muryllo Pacheco (bateria), Emerson Fagundes (contrabaixo) e Matheus Guerra – Guitarrista (guitarra).

Desde então, com uma relação de amizade entre os músicos, a sonoridade passou a ser mais solta e a banda passou a se apresentar com mais frequência na cena local, com apresentações significativas no Grito Rock Goiânia (uma produçãoFósforo Cultural) e no Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial – câmpus Goiânia.

Distoppia é distinguida pelas influências individuais de seus integrantes que ao se juntarem acabaram criando um belo mosaico sonoro. A intenção da banda é criar uma paisagem auditiva de modo a promover certa transcendência com o ouvinte à medida que ela é somada a poesia de suas canções.

O ano de 2017, marca a estreia do primeiro álbum em estúdio da banda, que além de contar com faixas inéditas, também terá uma regravação da Single ‘Morador”. O álbum esse que será divulgado junto a uma turnê por terras Portuguesas com o selo da Music For All.


O Caminho do Cerrado, impressionante projeto fotográfico de Mel Melissa Maurer, estará em exposição durante o Confluências #4 – Festival de Artes Integradas. Em parceria com a artista, selecionamos 15 das fotografias mais significativas deste projeto e elas irão decorar o ambiente e instigar a reflexão no evento. No vídeo abaixo, confira o making off da primeira etapa desta empreitada artística que tematiza e denuncia a devastação crescente do Cerrado, gerada principalmente pelo agronegócio.

As fotos, protagonizadas por uma modelo que vesta apenas botas e máscara anti-gás, propiciam alertas sobre a aproximação e extensão dessas atividades do agronegócio devastatório por todo o percurso entre Brasília e a Chapada dos Veadeiros. As imagens fazem com que um novo olhar se abra sobre o caminho que o Cerrado, considerado a savana com maior biodiversidade do planeta, e a região da Chapada dos Veadeiros (Patrimônio Natural da Humanidade – UNESCO), vem enfrentando.

A trilha sonora do vídeo é a canção “Não Dá Mais”, de MC Vacy, MC Pato Roco, com participação de Rafael Nunes.

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Assista:



No Confluências #4 – Festival de Artes Integradas, teremos também Eufrasio Prates e Eduardo Kolody mostrando um pouco do trabalho da BSBLOrk – Orquestra de Laptops de BrasíliaLeia a matéria:

“Tecnologia alinhada à natureza, o Coletivo BSBLOrk utiliza inovação para criar música eletrônica experimental. Criado em 2012, na Universidade de Brasília, o grupo é formado por nove integrantes, entre ex-alunos e professores da UnB. Misto de arte, física e filosofia, a Orquestra de Laptops funciona com um software que transforma os movimentos em frente à webcam em som.

A inovação é resultado de muito estudo. Fruto do doutorado do maestro Eufrasio Prates, o software Holofractal Music é capaz de traduzir as distancias e velocidades dos movimento em frequências sonoras. Cada computador é ligado em uma hemisfera, caixa com vários alto-falantes em 360°. “A pessoa deve ouvir o seu próprio som e estar em harmonia com o do outro”, explica o estudioso. A ideia surgiu a partir de um simpósio de laptops em Louisiana (EUA), em 2012. A Orquestra foi lançada no evento Tubo de Ensaios, da Universidade de Brasília.

São sons da natureza, da vida cotidiana e de outros instrumentos que juntos entram em harmonia para criar algo totalmente novo. O suporte tecnológico utiliza os princípios da física, matemática e da música. “Para tocar um instrumento comum a pessoa precisa estudar, mas tirar som deste exige muito mais conhecimento”, comenta Eufrasio. – LEIA NA ÍNTEGRA



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AMÁVEL MAS INDOMÁVEL – Nota sobre Hilda Hilst

Acusa-de Hilda Hilst​ de “hermética”. Ela seria escritora que escreve difícil e é inacessível à compreensão do comum das gentes. Conexa a esta acusação de hermetismo vem a de certo “elitismo”, já que um texto complexo de decifrar destina-se somente às classes cultas, não só muito bem alfabetizadas mas dotadas também da paciência e do tempo livre que exigem a decifração de escritos que mais parecem hieróglifos.

Se, de fato, há escritos Hilstianos que parecem impenetráveis, temos que rebater aos detratores da escritora que a literatura às vezes ascende a graus de densidade e profundeza que realmente não são passíveis daquela compreensão lépida, apressada, en passant, que é epidêmica na era do Tweet. E que o valor de textos como os de Hilst – alguns deles verdadeiros “palimpsestos selvagens”, para emprestar uma expressão de Beatriz Azevedo​ – também está na possibilidade que eles nos abrem de uma convivência mais demorada, de uma leitura mais ruminante, e daquela arte um pouco esquecida: a da re-leitura, em que voltamos e voltamos ao mesmo texto, re-descobrindo-o a cada nova imersão.

Há um texto de Hilda Hilst que acho particularmente fascinante: “Amável Mas Indomável”, presente no livro “Rútilos” (Ed. Globo, 2003). Aí manifesta-se a potência de uma Hilst altamente lírica e irreverente, capaz de formular interrogações que vão fundo na sondagem das relações do poeta com o poder. Nem hermética, nem apolítica, nem elitista: Hilst revela-se aí alguém de obscena lucidez. Alguém que passou pela escola de Ernest Becker e de Samuel Beckett, re-inventando-os em sua prosa originalíssima.

O protagonista ou eu-lírico de “Amável Mas Indomável” é um poeta: “à noite esperava que a lua habitasse o papel” e “imantado de luar escrevia”. Estas frases, dignas de Olavo Bilac, logo são transtornadas pelo estrondo das perguntas que o tal poeta lançava ao papel, sob uma Debussyana “claire de la lune”:

“É lícito cantar de amor quando o rei é cruel em seu reinado? Se o canto das gentes se juntasse à audácia fremente do meu canto, talvez o rei cruel nem reinasse. E começou a cantar esses versos numa guitarra escura, uns nasais de dentro…” (32)

A questão que não quer calar é a liberdade (ou não) de cantar em uma situação histórica onde reina a crueldade, a tirania, o rei indiferente à miséria geral. Hilda invoca um poeta-cantor, evocando até uma nasalidade Dylanesca, pondo no palco deste escrito uma espécie de personagem folkster que protesta através da audácia de seu canto em sua guitarra escura. O que diz a canção? Irreverências questionativas.

“É rei ainda se na miséria nunca se demora?
É rei se foge de nós?” (p. 32)

O canto dirige-se àqueles que tem a mesa vazia e os estômagos roncando de fome. O poeta-cantante faz-se um pouco didático, pedagógico, ensinando caminhos para cultivar o “fruto-futuro”. O poder da palavra é afirmado como superior ao poder da espada. Idealismo de trabalhador do verbo? Exagero de quem quer crer que versos e cantares podem derrubar tiranos? Ouçamos sem pressa e com empatia:

“…se esse fruto-futuro se colar à tua carne, vão nascer palavras aí de dentro, extensas, pesadas, muitas palavras, construção e muro, e adagas dentro da pedra, sobretudo palavras antes de usares a adaga, metal algum pode brilhar tão horizonte, tão comprido e fundo, metal algum pode cavar mais do que a pá da palavra, e poderás lavrar, corroer ou cinzelar numa medida justa. Tua palavra, a de vocês muitas palavras pode quebrar muitos bastões de ágata, enterra então brilhos antigos, mata também o opressor que te habita, esmaga-o se ele tentar emergir desse fruto de carne, nasce de novo, entrega-te ao outro. Versos de Lu, cantoria e veios velhos da terra renascendo em lava, de Lih, foram escutados longe, nuns esquecidos de mundo, nuns charcos, nuns imundos barrancos, no barraco de esteira e barro de tantos, perguntas com a cor rebrilhosa das estrelas, é rei se foge de nós? é rei se na miséria nunca se demora? e estribilhos novos: é rei se não chora conosco? se não morre com seu povo?” (p. 33)

Se esta linguagem Hilstiana soa esquisita é pois derrama-se sobre o papel como a lava vulcânica de um fluxo de consciência que não é mera permissão para um derrame cerebral, não é mera “escrita automática” onde registra-se tudo o que dá na telha, é mais que isso: é trabalho em prol da intensidade. Hilda Hilst, aprendiz com os grandes compositores, sabe fazer como Tchaikovsky ou Dvórak, ou seja, infunde à sua linguagem altas doses de intensidade.

Sua prosa-poética atinge assim, nos seus melhores momentos, o teor de explosividade de um Rimbaud ou um Lautréamont. E qualquer acusação de hermetismo elitista lançado contra Hilda Hilst esboroa-se diante de frases como “mata também o opressor que te habita, esmaga-o se ele tentar emergir desse fruto de carne”!

Ao fim de “Amável Mas Indomável”, “Lih de todos, no percurso, convidou pássaros e gentes, repartiram arroz e grãos, e uma tarde diante do rei cantaram com a voz das sementes. Mas ao redor de reis há sempre um corpo amedalhado, metais e botas, rigidez e cercados, farpas, facas, e orelhas rasas distorcendo o fundo das palavras, e o canto de Lih ouvido por esse Corpo Tosco se assemelhou a taturanas dentro de um cubo d’água… No fim da tarde, o Tosco espelhou-se no sangue de todos que cantaram. O Tosco, ereto sim, mas eternamente porco. Os ventos trazem a cada ciclo o aroma de Lih junto a essa gente, ensaiam uns nasais de dentro, um murmúrio-memória, exercitam-se duros agora para a grande batalha.” (p. 34)

A crueldade e o derramamento de sangue mostram-se às claras: o rei e seu séquito de toscos servidores põe sua máquina mortífera para aniquilar aqueles que cantam com a voz das sementes. O texto acaba soando como uma manifesto contra os brutos, um lírico protesto contra os brucutus, rasos em seu trato com a palavra e com todos aqueles que lavram o verbo esculpindo beleza. A gente comum, tratada como arraia-miúda ou bucho-de-canhão por aqueles que, no poder, arrumam suas coroas olhando-se em espelhos de sangue, é aquela que precisará não só da fúria das espadas e adagas, mas da solidariedade que também pode ser facilitada e galvanizada pelos poderes da música e da poesia.

A gente precisará do canto comunal, da voz das sementes e da disposição para uma grande batalha. A gente precisará aprender que a bruteza dos cruéis não pode ser confrontada com a mesma bruteza por parte dos oprimidos, mas que teremos que aprender a fazer emergir, de dentro e do fundo, um rugido de leão libertário nascido do peito daqueles que souberam cultivar o fruto-futuro.

Hilda Hilst deu-nos um emblema de si mesma: amável, mas indomável. Sejamos isso – amáveis e indomáveis – em nossos cantares e batalhas?!?

– Eduardo Carli de Moraes​
10/03/2017


NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Click na capa para abrir na Estante Virtual e saber mais.
Todos eles editados pela Ed. Globo.

CantaresO caderno rosa

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SIGA VIAGEM:

HILDA HILST MUSICADA

Ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dioniso

Poemas de H. Hilst musicados por Zeca Baleiro. Intérpretes (na ordem das faixas): Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byinton, Mônica Salmaso, Ângela Maria.

DOWNLOAD DO ÁLBUM COMPLETO


Alice Caymmi declama:

HILDA HILST – Erupções poéticas de obscena lucidez

HILDA HILST (1930 – 2004)

Por que me fiz poeta?
Porque tu, morte, minha irmã,
No instante, no centro
de tudo o que vejo.

Me fiz poeta
Porque à minha volta
Na humana idéia de um deus que não conheço
A ti, morte, minha irmã,
Te vejo.

* * * * * *

Os cascos enfaixados
Para que eu não ouça
Teu duro trote.
É assim, cavalinha,
Que me virás buscar?
Ou porque te pensei
Severa e silenciosa
Virás criança
Num estilhaço de louças?
Amante
Porque te desprezei?
Ou com ares de rei
Porque te fiz rainha?

Da Morte. Odes Mínimas


hildinha

DO DESEJO 

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

* * * * *

ENQUANTO FAÇO O VERSO

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.


Hilda

Recomendamos a edição da revista Cadernos de Literatura Brasileira do IMS dedicada à Hilda Hilst. Originalmente publicada em 1999, a revista inclui entrevista com a escritora, estudos de especialistas, depoimentos de amigos, fotografias variadas, dentre outras atrações. Confira!


4 POEMAS NA VOZ DA AUTORA


“Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.”

Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão


NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Click na capa para abrir na Estante Virtual e saber mais.
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CantaresO caderno rosaRutilos

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Poemas de H. Hilst musicados por Zeca Baleiro. Intérpretes (na ordem das faixas): Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byinton, Mônica Salmaso, Ângela Maria.

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Alice Caymmi declama:

André Dahmer: “A Cabeça É A Ilha” – Antologia com 238 tiras [LIVRARIA A CASA DE VIDRO]

“A CABEÇA É A ILHA” – André Dahmer
>>>  (R$15 + frete @ A Casa de Vidro)

Criador do fenômeno dos quadrinhos “Malvados”, André Dahmer nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, é pintor e quadrinista. Neste livro, com prefácio de Arnaldo Branco, Dahmer sonda a solidão, o desencontro e a incompreensão em suas múltiplas formas. Nesta antologia de 238 tirinhas em preto-e-branco, repletas de sarcasmo e poesia, Dahmer revela um mundo em que “os solitários são muitos e estão em todos os lugares. Seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro de quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool. Eles estão nos cinemas, comendo pipoca sozinhos. Despercebidos, os solitários se arrastam pelos labirintos da timidez ou vivem de um sentimento permanente de estranheza diante do mundo, com toda razão: é que hoje em dia o amor é artigo raro e a indiferença é vendida, aos borbotões, como moderno (e único) modelo a ser seguido. ‘A Cabeça É A Ilha’ é um livro para esses seres estranhos, gente que conversa com os outros olhando para o chão. Para os que falam sozinhos, bêbados em seus apartamentos. Para os que os olham para os edifícios altos como uma saída digna para o sofrimento. Não que o livro vá curá-los de toda angústia… mas rir da própria dor é uma forma de domesticar nossos monstros e aceitar nossa fragilidade diante do abandono, da indiferença…” (André Dahmer, prefácio, p. 8-9)

Livro novo, 150 pgs. Compre n’A Casa de Vidro em Estante Virtual:
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