POESIA MUSICADA: WALY SALOMÃO (1943 – 2003) por Caetano Veloso, Jards Macalé, João Bosco, Gilberto Gil, Adriana Calcanhoto, Lirinha, Paralamas do Sucesso, Luiz Melodia etc.

“Eu não sou um fóssil, sou um míssil.”
Waly Salomão

A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com) reúne neste espaço uma coletânea-amálgama com as canções que, através da história da música brasileira, desde o Tropicalismo até nossos dias, beberam na fonte fecunda que foi Waly Salomão (1943 – 2003). “Tenho fome de me tornar tudo o que não sou”, dizia Waly. Segundo Leminski, “essa fome se traduziu, com exuberância, num percurso vivencial e criativo em que Waly, se não chegou a se tornar tudo, foi muitas coisas” (Leminski, Veja, 10/8/1983).

Antonio Risério, tentando resumir o irresumível, arriscou: “pensamento agudo, língua afiada, voz de trovão, o baianárabe Waly é um happening ambulante. Um trickster. Uma verdadeira monta-russa de grossura e de finesse, indo das baixarias de botequim à suprema limpeza do construtivismo de Maliévitch.” Foi também Waly o “audaz navegante da Navilouca junto com Torquato Neto, mas tendo por timão as invenções de Oiticica”, como relembra Davi Arrigucci Jr, que destaca ainda: “o poeta retornava à raiz da modernidade e a Poe, evocando a concepção da poesia sob o signo de Proteu: da mudança ou da metamorfose, que ora assume e reafirma com força plena.” (p. 476).

Suba o volume, escancare os sentidos e boa jornada pelas Walycanções!

Seleção de canções por Eduardo Carli & Diego de Moraes



A FÁBRICA DO POEMA
Waly Salomão & Adriana Calcanhotto

In memoriam Lina Bo Bardi (1914-1992)

Sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite da pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

pois a questão chave é:
sob que máscara retornará?

OUÇA:

Por Lirinha (Cordel do Fogo Encantado)

Por Adriana Calcanhotto



MUSA CABOCLA
Waly Salomão e Gilberto Gil

Uirapuru canta no seio da mata
Papagaio nenhum solta um pio
Sereia canta sentada na pedra
Marinheiro tonto medra pelo mar

Sou pau de resposta, gibóia sou eu, canela
Sereia eu sou, uma tela sou eu, sou ela

Coração pipoca na chapa do braseiro
Sou baunilha, sou lenha que queima
Que queima na porta do formigueiro
E ouriça o pelo do tamanduá

Mãe matriz da fogosa palavra cantada
Geratriz da canção popular desvairada
Nota mágica no tom mais alto, afinada

Sou pau de resposta, jibóia sou eu, canela
Sereia eu sou, uma tela sou eu, sou ela




ALTEZA
Waly Salomão e Caetano Veloso

Quando meu homem foi embora
Soprou aos quatro ventos um recado
Que meu trono era manchado
E meu reino esfiapado
Sou uma rainha que voluntariamente
Abdiquei cetro e coroa
E que me entrego e me dou
Inteiramente ao que sou
A vida nômade que no meu sangue ecoa
Abro a porta do carro fissurada
Toma-me ao mundo cigano
E sou puxada por um torvelinho
Abraça a todos os lugares
Chamam por mim os bares poeirentos
E eu espreito da calçada
Se meu amor bebe por lá
Como me atraem os colares de luzes
À beira do caminho
Errante, pego o volante
E faço nele o meu ninho
Pistas de meu homem
Aqui e ali rastreio
Parto pra súbitas, inéditas, paisagens.
Acendo alto o meu farol de milha
Em cada uma das cidades por que passo
Seu nome escuto na trilha
Aldeia da Ajuda, Viçosa
Porto Seguro, Guarapari, Prado
Itagi, Belmonte, Prado
Jequié, Trancoso, Prado
Meu homem no meu coração
Eu carrego com todo cuidado
Partiu sem me deixar nem caixa-postal, direção
Chego a um lugar
E ele já levantou a tenda
Meu Deus! Será que eu caí num laço
Caí numa armadilha, uma cilada
E que este amor que toda me espraiou
Não passou de uma lenda
Pois quando chego num lugar
Dali ele já levantou a tenda
A tenda

OUÇA COM BETHÂNIA:



TALISMÃ
Waly Salomão e Caetano Veloso

Minha boca saliva porque eu tenho fome
E essa fome é uma gula voraz que me traz cativa
Atrás do genuíno grão da alegria
Que destrói o tédio e restaura o sol

No coração do meu corpo um porta-jóia existe
Dentro dele um talismã sem par
Que anula o mesquinho, o feio e o triste
Mas que nunca resiste a quem bem o souber burilar

Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?

Minha sede não é qualquer copo d’água que mata
Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
Essa sede é uma sede que só se desata
Se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia

Sonho colher a flor da maré cheia vasta
Eu mergulho e não é ilusão, não, não é ilusão
Pois da flor de coral trago no colo a marca
Quando volto triunfante com a fronte coroada de sargaço e sal

Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?
Sim, quem dentre todos vocês
Minha sorte quer comigo gozar?

OUÇA COM BETHÂNIA:



ASSALTARAM A GRAMÁTICA
de Waly Salomão, Musicada por Lulu Santos

Assaltaram a gramática
Assassinaram a lógica
Meteram poesia
na bagunça do dia a dia
Sequestraram a fonética
Violentaram a métrica
Meteram poesia
onde devia e não devia
Lá vem o poeta
com sua coroa de louro,
Agrião, pimentão, boldo
O poeta é a pimenta
do planeta!
(Malagueta!)

OUÇA COM PARALAMAS NO SUCESSO (Ao vivo no Rock in Rio 1985)





MAL SECRETO
Waly Salomão e Jards Macalé

Não choro,
Meu segredo é que sou rapaz esforçado,
Fico parado, calado, quieto,
Não corro, não choro, não converso,
Massacro meu medo,
Mascaro minha dor,
Já sei sofrer.
Não preciso de gente que me oriente,
Se você me pergunta
Como vai?
Respondo sempre igual,
Tudo legal,
Mas quando você vai embora,
Movo meu rosto no espelho,
Minha alma chora.
Vejo o rio de janeiro
Comovo, não salvo, não mudo
Meu sujo olho vermelho,
Não fico calado, não fico parado, não fico quieto,
Corro, choro, converso,
E tudo mais jogo num verso
Intitulado
Mal secreto.

OUÇA COM JARDS E FREJAT

OUÇA COM WALY E LUIZ MELODIA



REAL GRANDEZA
Álbum de Jards Macalé: As parcerias com Waly Salomão

1 – 00:00 – Olho de Lince; 2 – 04:20 – Rua Real Grandeza; 3 – 07:30 – Senhor dos Sábados; 4 – 10:38 – Anjo Exterminado; 5 – 13:53 – Dona de Castelo; 6 – 17:20 – Vapor Barato; 7 – 21:52 – Mal Secreto; 8 – 25:40 – Negra Melodia; 9 – 29:59 – Revendo Amigos; 10 – 34:51 – Berceuse Crioulle; 11 – 38:09 – Pontos de Luz.



VAPOR BARATO
Waly Salomão e Jards Macalé

Sim
Eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você

Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Eu vou descendo por todas as ruas
Eu vou tomar aquele velho navio
Eu vou tomar aquele velho navio
Aquele velho navio

Eu não preciso de muito dinheiro,
Graças a Deus
E não me importa, e não me importa não

Oh minha honey baby, baby, baby
Honey baby

Sim
Eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu estou indo embora

Talvez eu volte
Um dia eu volto, quem sabe
Mas eu preciso
Eu preciso esquecê-la

A minha grande
A minha pequena
A minha imensa obsessão
A minha grande obsessão

Oh minha honey baby, baby, baby,
Honey baby

OUÇA COM O RAPPA:



ANJO EXTERMINADO
Waly e Jards

Ouça com Adriana e Jards



ZONA DE FRONTEIRA
Waly Salomão, Antonio Cícero e João Bosco

Rei
Eu sei que sou
Sempre fui
Sempre serei
Oba
De um continente por se descobrir

Alguns sinais
Estão aí
Sempre a brotar
Do ar
De um território que está por explodir
Sim
Mas é preciso ser sutil
Pois justo na terra de ninguém
Sucumbe um velho paraíso
Sim, bem em cima do barril
Exato na zona de fronteira
Eu improviso o brasil.
Rei
Eu sei que sou
Sempre fui
Sempre serei
Oba
De um continente por se descobrir

Alguns sinais
Estão aí
Sempre a brotar
Do ar
De um território que está por explodir
E
Minha cabeça voa assim
Acima de todas as montanhas e abismos
Que há no país
Mas algo chama a atenção
Ninguém jamais canta duas vezes uma mesma canção.

Do álbum Zona de Fronteiraque inclui 12 faixas, a maioria delas parcerias entre Waly, Bosco e Cícero.
Ouça mais uma canção deste disco abaixo:



HOLOFOTES
Waly Salomão, Antonio Cícero e João Bosco

Dias sem carinho
Só que não me desespero:
Rango alumínio
Ar, pedra, carvão e ferro.
Eu lhe ofereço
Essas coisas que enumero:
Quando fantasio
É quando sou mais sincero
Desde o fim da nossa história
Eu já segui navios
Aviões e holofotes
Pela noite afora.
Me fissurarm tantos signos
E selvas, portos, places,
Línguas, sexos, olhos
De amazonas que inventei.
Eis a Babilônia, amor,
E eis Babel aqui:
Algo da insônia
Do seu sonho antigo em mim.
Eis aqui
O meu presente
De navios
E aviões
Holofotes
Noites afora
E fissuras
E invenções:
Tudo isso
É pra queimar-se
Combustível
Pra se gastar
O carvão
O desespero
O alumínio
E o coração

OUÇA:



SALOMÃO, Waly.  Poesia Total.  São Paulo: Companhia das Letras, 2014.  549 p.  13,5×21 cm.   ISBN  978-85-359-2400-8   Capa e projeto gráfico: Elisa von Randow.  Foto da capa: Marcia Ramalho.  Antologia com toda a obra poética do autor, em ordem cronológica. Inclui também uma fortuna crítica ao final. COMPRAR LIVRO NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO.

SINOPSE – Waly Salomão foi uma das figuras mais fecundas e heterogêneas da vanguarda brasileira. Não é à toa que Caetano Veloso, em música dedicada a ele, diz: “tua marca sobre a terra resplandece […] e o brilho não é pequeno” (ouça abaixo).  Baiano, filho de sírio com sertaneja, Waly foi ponta de lança de uma geração de poetas que — num movimento de resistência à censura — contrariaram os princípios formais da tradição e pensaram a produção literária a partir de sua articulação com as outras artes, o que contribuiu para sua escrita tão permeável às diversas manifestações do inquieto cenário cultural no Brasil das décadas de 1970 e 1980. Seus versos continuaram se reinventando ao longo dos anos 1990 e 2000, e consolidaram seu papel de poeta múltiplo em livros como Algaravias, lançado em 1996.  Poesia Total reúne pela primeira vez a obra poética completa de Waly Salomão, desde Me segura que eu vou dar um troço, de 1972, até Pescados vivos, de 2004. O volume traz ainda uma seção de canções inéditas em livro, além de apêndice com os mais relevantes textos sobre sua obra, assinados por nomes como Antonio Cícero, Francisco Alvim e Davi Arrigucci Jr.  Em Gigolô de Bibelôs, seu segundo livro, o seguinte verso ecoa: “tenho fome de me tornar em tudo que não sou”. Tal desejo de abolir fronteiras e de confronto com os limites — entre o eu e o outro, entre a prosa e a lírica, entre a arte e a vida — é uma das principais marcas da obra de Waly Salomão. Poesia total é uma viagem sem volta: um “processo incessante de buscas poéticas”, como disse o próprio autor sobre seu trabalho poético-visual, os Babilaques.



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TROPICÁLIA: 50 anos de um movimento estético e político que catalisa as confluências

TROPICÁLIA: 50 anos de um movimento estético e político que catalisa as confluências

“Como todo movimento explosivo”, opina Luiz Tatit (oficial), “o tropicalismo deixou estilhaços em diversos lugares da cultura brasileira e, à medida que o tempo passa, descobrem-se fragmentos que ainda fervilham e geram novos focos de criação de alguma forma tributários daquele final dos anos 60.”

Cerca de meio século depois de ser “abatida em pleno vôo pelo AI-5”, como diz Tárik de Souza, a Tropicália faz por merecer um destino de Fênix, renascendo das cinzas. A chama ainda ardente da Tropicália inspira a nós do Confluências: Festival de Artes Integradas a dar novos impulsos às práticas e valores da trupe que revolucionou estética e política no Brasil que então gemia sob os tanques e torturas que se seguiram ao golpe militar de 1964 e suas “tenebrosas transações”.

Acreditamos que a Tropicália, apesar de ser compreendida pelo senso comum como um movimento musical, transborda das fronteiras da música e expressa-se através de variadas linguagens artísticas, tendo intenções mais amplas do que uma mera inovação das formas musicais. A Tropicália propunha a renovação da vida através das confluências sem medo de elementos aparentemente díspares, mas que a trupe provou serem deliciosamente mescláveis. Propunha que fôssemos todos Os Mutantes, jamais estagnados.

Na capa do disco manifesto “Tropicalia ou Panis et Circenses” (ouça: https://youtu.be/KIiwbHqtb7w), é explícita a confluência entre a cultura popular (de que Tom Zé e Gilberto Gil eram tão inventivos representantes) e a cultura mais erudita (ali representada pelo maestro Rogério Duprat, que parece tomar chá em um penico que remete à obra de MARCEL DUCHAMP). Ali também está clara a confluência entre a literatura e a música, com a presença do poeta e jornalista Torquato Neto (também um dos mais brilhantes letristas de nossa MPB) e do poeta José Carlos Capinam (representado em fotografia emoldurada que seu parceiro Gil carrega como porta-estandarte).

As confluências não param de proliferar na história da constituição da Tropicália: o nome do movimento vem do ramo das artes plásticas, era o nome de batismo de uma instalação bolada em 1967 por Hélio Oiticica, o célebre inventor dos parangolés e divulgador de motes vanguardistas como “incorporo a revolta” e “seja marginal, seja herói”.

Parangolé de Oiticica

Caetano e Nara na companhia dos Beatles (faltou cola e Paul McCartney ficou fora da parede…)

Quando Caetano Veloso criar a canção “Tropicália”, fará isto não só sob a influência de Hélio Oiticica e seus parangolés, mas tremendamente impactado também pelo cinema de Glauber Rocha – que havia realizado, aos 23 anos de idade, a obra-prima “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, e que na época de eclosão tropicalista havia lançado ao mundo seu desnorteante “Terra em Transe”. Pouco tempo depois de finalizar a composição da música, relembra Caetano, ele foi assistir a outro fenômeno descomunal da cultura brasileira da época: “O Rei da Vela”, peça de Oswald de Andrade encenada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona de Zé Celso Martinez Corrêa.

A devoração antropofágica da diversidade cultural é um dos motes dos artistas Tropicalistas que, segundo Celso Favaretto em seu livro “Tropicália: Alegoria Alegria”, “retém do primitivismo antropofágico a concepção cultural sincrética, o aspecto de pesquisa de técnicas de expressão, o humor corrosivo, a atitude anárquica com relação aos valores burgueses” (pg. 57).

No livro Antropofagia e Tropicalismo, publicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e que me foi recomendado pela Salma Jô e pelo Macloys do Carne Doce, o artigo inaugural de Bina Friedman relembra que o próprio movimento antropofágico já era pura confluência. Confluências múltiplas entre Oswald e Tarsila, por exemplo, por razões tanto óbvias – a transa sexual-criativa do casal – quanto outras menos evidentes – entre o Manifesto Antropófago e o Abaporu (1928):

“Inspirado no quadro de Tarsila do Amaral – que aliás teria detonado a idéia do Manifesto Antropófago e que a artista reproduziu em bico de pena para ilustrar o primeiro número da Revista de Antropofagia, Oswald funda, cunha, teoriza e consagra na literatura modernista o tema e o tratamento da Antropofagia. (…) A devoração do bispo Sardinha, aproveitada por Oswald como metáfora, propõe, em irreverência e ironia, um novo calendário nacional: a história brasileira deveria iniciar a partir de uma data que sugeria uma reação dessacralizante com o poder… O episódio do bispo Sardinha é marotamente aproveitado por Oswald como data do Manifesto Antropófago (“Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha”). Devorado em 1554 por índios antropófagos quando o navio em que viajava naufragou na costa brasileira, o Bispo Sardinha do texto alude ironicamente à história do Brasil Colônia. O Manifesto rende, com o chiste, uma ‘homenagem’ carnavalizada a todos que, na pessoa do bispo, deveriam ser comidos.” (FRIEDMAN: 1993, p. 9, 10)

Bebendo na fonte da utopia antropofágica oswaldiana, do Cinema Novo, do dionisismo teatral do Oficina, da Poesia Concreta, da “geléia geral brasileira” de que falou Décio Pignatari, a Tropicália explode em 1967 no cenário artístico como algo que chuta para escanteio a mesmice, a caretice e a zona de conforto. Bagunça com a polarização entre Jovem Guarda e MPB, subverte os códigos transformados em clichê que caracterizaram seja o iê-iê-iê, seja a canção-de-protesto engajada.

Muitos dos episódios lendários desta empreitada estão descritos por Carlos Calado em seu Tropicália – A História de Uma Revolução Musical (Editora 34). O mesmo autor, pela mesma editora, também publicou o seminal estudo biográfico sobre Os Mutantes – A Divina Comédia dos Mutantes. 

Frederico Coelho tem um excelente livro que nos ajuda a expandir os horizontes sobre o tal do Tropicalismo (termo cunhado pelo jornalista cariosa Nelson Motta): “Eu, Brasileiro, Confesso Minha Culpa e Meu Pecado – Cultura Marginal no Brasil das Décadas de 1960 e 1970” (Civilização Brasileira & Paz e Terra, 2010, 335 pgs). Nele, Coelho defende que, a partir de 1967, o “movimento apresentou posturas e práticas que liberavam o artista e o intelectual do compromisso de obrigatoriamente relacionar sua obra a uma ‘cultura nacional’ ou a um ‘povo’. Suas ações abalaram a crença necessária desses segmentos no nacional-desenvolvimentismo de esquerda e colocaram em xeque seu temor xenófobo do ‘imperialismo estrangeiro’, assumindo uma nova forma de inserção desses agentes no mercado de bens culturais” (p. 111).

Embora a música popular brasileira seja o “epicentro” de eclosão do tropicalismo, Coelho argumenta que o tropicalismo foi “um movimento cultural mais amplo e diretamente conectado à emergência, pós AI-5, do que chama de marginália, que aproveita-se de aberturas e rupturas estabelecidas pelos artistas durante a breve aventura da Tropicália. “Mais do que um movimento musical, o tropicalismo representou um novo elemento em um espaço de ação que já estava ficando imobilizado pela díade engajados / alienados.” (p. 112) Abrindo espaços para a renovação da cultura brasileira, Tropicália e Marginália transbordam de qualquer caixa de categorização de diversos setores artísticos: Glauber Rocha, Hélio Oiticica, Torquato Neto, todos eles são artistas do híbrido, da mescla, da confluência entre vertentes, sempre “desafinando o coro dos contentes” (para lembrar verso inolvidável de Torquato, musicado por Jards Macalé em “Let’s Play That”).

Se em 1967 a Tropicália pôde explodir no cenário através da exuberância de “Alegria, Alegria” ou de “Domingo no Parque”, em 1968 a situação torna-se mais escura, tensa, violenta. Glauber filma Câncer enquanto a barra pesada do aprisionamento, da tortura e do exílio se abate sobre boa parte dos artistas mais relevantes do país. A mordaça do regime de exceção instalado através da violência militar truculenta busca abater em pleno vôo a ave demasiado águia da Tropicália. É preciso calar a ferro e fogo esses arruaceiros que dizem seja marginal, seja herói e celebram heróis perigosos como Ernesto Che Guevara ou Carlos Marighella.

“Temas como banditismo, armas de fogo, enfrentamentos armados entre policiais e estudantes, desagregação de valores da classe média brasileira, grupos marginalizados da sociedade, entre outros, passam a fazer parte do universo temático das canções tropicalistas a partir da segunda metade de 1968. Canções como “Enquanto Seu Lobo Não Vem” (Caetano Veloso), “Divino Maravilhoso” (Caetano e Gilberto Gil), “É Proibido Proibir” (Caetano), “Marginália II” (Torquato e Gil) ou “Deus vos salve esta casa santa” (Torquato e Caetano) eram emblemáticas para esse momento de radicalização. São canções que tratam de ‘bombas’ e de ‘botas’, de não ter tempo para ‘temer a morte’, das pichações dos jovens de maio de 1968 em Paris, de ‘pânico e glória’ e de ‘laço e cadeia’.” (COELHO, p. 116)


Levando adiante os ideais tropicalistas que convidam à miscigenação, ao hibridismo, à mistura de linguagens e à proliferação de pontos-de-vista, organizamos a Mostra Audiovisual em homenagem aos 50 Anos da Tropicália e disponibilizaremos vários dos livros importantes na decifração desta jornada.

Nesta 5ª edição do Confluências, na medida do possível, cientes da limitação espaço-temporal de um evento de apenas dia – autêntico “Domingo no Parque” (que, de preferência, termine sem crime de sangue!) – queremos contribuir para colocar mais lenha na fogueira dos debates públicos sobre a importância da Tropicália na história, no presente e no futuro da Cultura brasileira.



Mostra audiovisual celebrando os 50 anos da Tropicalia ou Panis et Circencis: assista documentários e filmes de ficção lendários:

► [14h às 15h30] “Meteorango Kid: O Herói Intergalático” (1969), de André Luiz Oliveira;

► [15h45 às 17h15] “Uma Noite em 67” (2010, 95 min), de Renato Terra e Ricardo Calil, dentre outros.

► [17h30 às 19h] “Tropicália” (2012, 87 min.), de Marcelo Machado;

► [19h15 às 20h30] “Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!” (2011, 76 min), de Ninho Moraes e Francisco Cesar Filho



LIVROS TROPICALISTAS – SELEÇÃO ESPECIAL


* Feirão de livros da Livraria A Casa de Vidro, em especial obras focadas nas Artes – cinema, música, teatro, além de biografias de grandes artistas e personalidades culturais. Selecionamos também um punhado de excelentes livros, que estarão à venda durante o evento, que estão entre as mais importantes obras já escritas no Brasil sobre o tema, tais como:

► “Tropicália: Alegoria Alegria”, de Celso Favaretto

► “Brutalidade Jardim”, de Christopher Dunn

► “Tropicália: A História de uma Revolução Musical”, de Carlos Calado

► “Torquatália: Geléia Geral”, de Torquato Neto

► “Hélio Oiticica: A Asa Branca do Êxtase”, de Gonzalo Aguilar

► “A Biografia de Torquato Neto”, de Toninho Vaz

► “Oiticica: Qual É O Parangolé?”, de Waly Salomão

Dentre outros!

* * * * *

SE LIGUE: CONFLUÊNCIAS #5: TROPICALIÊNCIAS
DOMINGO, 24 de Setembro de 2017, a partir das 14h.
Na Trip – Música e Artes: Rua 115e, Setor Sul, Goiânia.
Ingressos: R$5 até às 17h, R$10 reais a partir das 17h.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA E OUTRAS INFORMAÇÕES: https://acasadevidro.com/2017/09/20/confluencias-festival-de-artes-integradas-5a-edicao-24-de-setembro-na-trip-em-goiania/

DISCOS ESSENCIAIS NA HISTÓRIA DA TROPICÁLIA

SIGA: CONFLUÊNCIASA CASA DE VIDRO

Lançado o ebook gratuito: “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional dos Pontos de Cultura” (Editora IFG, 2017, 175 pgs)

Já está disponível para leitura e download gratuito o livro “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional de Pontos de Cultura”, co-escrito por mim, Eduardo Carli de Moraes, e meu colega Rafael Moreira do Carmo, ambos professores do IFG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), sob a coordenação do Vinicíus Ferreira (PROEX – Pró-Reitoria de Extensão e Cultura), com colaboração de Maíra Soares Ferreira.

A publicação – colorida, repleta de lindas fotos e diagramada com primor – busca revelar em minúcias o que ocorreu em 2015, durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, uma realização da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Naquela ocasião, ocorreu ali a reunião da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, com representantes de todo o Brasil reunidos para pensar as potencialidades e os obstáculos no contexto do programa Cultura Viva.

O conceito chave e fio condutor do livro é a participação social, de modo que buscamos dar voz a muitos dos ponteiros, artistas, produtores culturais, jornalistas, ativistas, agentes comunitários, dentre outros, que participaram desta Polifonia Participativa dentro do “Encontrão”. No manifesto gerado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, nesta ocasião – a Carta de São Jorge – os trabalhadores da cultura escreveram:

“A Política Nacional Cultura Viva (Lei n. 13.018/2014) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Essa política é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada. Chamamos os governos federal, estaduais e municipais a assumirem seu compromisso com a política e o cumprimento das metas do Plano Nacional de Cultura. Mais do que resistir, convocamos o movimento cultural brasileiro a exercer protagonismo na luta, organizando a sociedade nas redes e nas ruas por mais democracia e mais direitos, unificando esforços de mobilização.” – Carta de São Jorge (Leia na íntegra – imagem na abertura deste post)

O livro também visa frisar a relevância do trabalho deste Pontão de Cultura que há 20 anos vêm realizando um trabalho de imenso mérito na região da Chapada dos Veadeiros: a Cavaleiro de Jorge, sempre atuando em defesa da sociobiodiversidade, da inclusão social participativa e da expressão cultural múltipla e multifacetada das comunidades tradicionais da região.

A obra funciona como grande reportagem, documento histórico e reflexão crítica sobre as políticas públicas de cultura no Brasil, abordando o cenário cultural brasileiro nos arredores do ano de 2015, época de frutificação de muitas das sementes plantadas pela gestão Gilberto Gil & Juca Ferreira no Ministério da Cultura. O trabalho é fruto de uma parceria IFG & MinC, estabelecida através dos esforços do pessoal coordenado pela então secretária Ivana Bentes.

Lançamos esta obra em Setembro de 2017, primeiramente em cerimônia no Teatro do IFG – Câmpus Goiânia, em 01º de Setembro, ocasião em que a editora do IFG lançou 10 novas publicações. Também estivemos lançando este rebento durante as festividades dos 20 anos de existência da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em 07 de Setembro de 2017. Agora, convidamos a todos à leitura e à discussão! 

ACESSE O EBOOK: 
http://editora.ifg.edu.br/index.php/editoraifg/catalog/view/19/15/51-1

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No ano de 2016, participei da equipe de voluntários de Comunicação, selecionados por edital para realizarem a cobertura do 16º Encontrão – uma vivência extraordinária e inesquecível. Naquela ocasião, fui flagrado nesta foto pelo hermano Santi Asef – um fotógrafo argentino magistral – filmando um pouco dos agitos do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Apesar da total ausência de fotogenia de minha parte, guardo com carinho esta foto que me traz com Raul Seixas no peito e olhando para o quadro de Luiz Gonzaga no alto. Um vislumbre do que foram aqueles 15 dias de intensas e memoráveis convivências e aprendizados, tanto na Aldeia Multietnica 2016 quanto no festival da Vila de São Jorge, na correria boa da criação intensa de reportagens (umas 20, no total), todas elas reunidas em A Casa de Vidro

ACESSAR REPORTAGENS – ENCONTRO DE CULTURAS 2016
https://acasadevidro.com/category/encontro-de-culturas-2016/

Na toada da relembrança, um maremoto de memórias invade a mente e me garante que esta foi uma experiência das mais incríveis poder trabalhar, como voluntário de jornalismo, deste eventaço junto com a equipe de comunicação constituída também pela Fernanda Verzinhassi no texto e pela Bruna Brandão e pelo Pedro Henriques na fotografia. Satisfação, galera! Também aprendi uma imensidão com o trabalho da Narelly Batista, da Ana Ferrareze, do Juliano Basso, de toda a galera responsável pelo Encontrão e pela Cavaleiro de Jorge.

Pude conhecer gente preciosa e que a gente não esquece mais: as caminhadeiras Suzana Zana e Luisa Ritter (http://bit.ly/2unN1PO), o fotógrafo Danilo Christidis e a psicóloga Giuliana Mattiazzo Pessoa (http://bit.ly/2us0A0v), a Thâmile Vidiz e suas Sabenças da Infância(http://bit.ly/2usf3Jx), os documentaristas Bruno Goulart e Vinícius Fernandes (http://bit.ly/2ttYQ2J), o trampo do Ramon Lopes Negoativo Berimbrown da banda Berimbrown (http://bit.ly/2tYigyA), as lições do cineasta e ativista Rodrigo Siqueira Arajeju (http://bit.ly/2urSjJS), a sabedoria ancestral de pajés e curandeiras como Raimundo Dessana (http://bit.ly/2v6oL26), a musicalidade acachapante dos cânticos e danças rituais dos Fulni-Ô (http://bit.ly/2uo66S8), e por aí vai. Pude pirar também nas deslumbrantes imagens do time do audiovisual que incluía Diego Zanotti, da Agustina Martínez, da Isabella Lanave, do Bemmoithi Mekragnotire, da Ester Simon, dentre outros.

Neste 2017, em que compromissos de trabalho no Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial me impediram de participar da Aldeia Multiétnica e do Encontro de Culturas, deixo aqui este tributo de gratidão por tudo o que vivi ali. Na esperança de que o livro Encontros no Encontro e a série de reportagens possam somar algo à iniciativas tão louváveis para a Cultura e as Artes no Brasil, este cidadão-do-cosmos, debaixo do céu estreladíssimo de São Jorge, entusiasmado com as múltiplas efervescências e intercâmbios propiciados pelo Encontrão, convida à leitura e deseja: longa e fértil vida ao Encontro de Culturas, à Aldeia Multiétnica e à Chapada dos Veadeiros!

Obra do artista Moacir, morador da Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás

LEITURAS SUGERIDAS:

NO CALDEIRÃO DA CULTURA VIVA – A utopia cultural de Gilberto Gil enquanto Ministro da Cultura

I. Trechos do discurso de posse do Ministro Gilberto Gil (02/01/2003)

“O Estado não deve deixar de agir. Não deve optar pela omissão. Não deve atirar fora de seus ombros a responsabilidade pela formulação e execução de políticas públicas, apostando todas as suas fichas em mecanismos fiscais e assim entregando a política cultural aos ventos, aos sabores e aos caprichos do deus-mercado. É claro que as leis e os mecanismos de incentivos fiscais são da maior importância. Mas o mercado não é tudo. Não será nunca. Sabemos muito bem que em matéria de cultura, assim como em saúde e educação, é preciso examinar e corrigir distorções inerentes à lógica do mercado – que é sempre regida, em última análise, pela lei do mais forte. Sabemos que é preciso, em muitos casos, ir além do imediatismo, da visão de curto alcance, da estreiteza, das insuficiências e mesmo da ignorância dos agentes mercadológicos. Sabemos que é preciso suprir as nossas grandes e fundamentais carências. 

O Ministério da Cultura não pode, portanto, ser apenas uma caixa de repasse de verbas para uma clientela preferencial. Tenho, então, de fazer a ressalva: não cabe ao Estado fazer cultura, a não ser num sentido muito específico e inevitável. No sentido de que formular políticas públicas para a cultura é, também, produzir cultura. No sentido de que toda política cultural faz parte da cultura política de uma sociedade e de um povo, num determinado momento de sua existência. No sentido de que toda política cultural não pode deixar nunca de expressar aspectos essenciais da cultura desse mesmo povo. Mas, também, no sentido de que é preciso intervir. Não segundo a cartilha do velho modelo estatizante, mas para clarear caminhos, abrir clareiras, estimular, abrigar. Para fazer uma espécie de “do-in” antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país. Enfim, para avivar o velho e atiçar o novo. Porque a cultura brasileira não pode ser pensada fora desse jogo, dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa encruzilhada de matrizes milenares e informações e tecnologias de ponta.

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O que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta “classe artística e intelectual.” Cultura, como alguém já disse, não é apenas “uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos”. Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra “folclore”. Os vínculos entre o conceito erudito de “folclore” e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. “Folclore” é tudo aquilo que – não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura de massa – é produzido por gente inculta, por “primitivos contemporâneos”, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe “folclore” – o que existe é cultura.

Lina Bo Bardi em foto de 1978

Lina Bo Bardi em foto de 1978

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Oswald e Oficina

Ou o Brasil acaba com a violência, ou a violência acaba com o Brasil. (…) O Brasil não pode continuar sendo, como dizia Oswald de Andrade, um país de escravos que teimam em ser homens livres. Temos de completar a construção da nação. De incorporar os segmentos excluídos. De reduzir as desigualdades que nos atormentam. Ou não teremos como recuperar a nossa dignidade interna, nem como nos afirmar plenamente no mundo. Como sustentar a mensagem que temos a dar ao paneta, enquanto nação que se prometeu o ideal mais alto que uma coletividade pode propor a si mesma: o ideal da convivência e da tolerância, da coexistência de seres e linguagens múltiplos e diversos, do convívio com a diferença e mesmo com o contraditório. E o papel da cultura, nesse processo, não é apenas tático ou estratégico – é central: o papel de contribuir objetivamente para a superação dos desníveis sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano.

A multiplicidade cultural brasileira é um fato. (…) Em verdade, podemos mesmo dizer que a diversidade interna é, hoje, um dos nossos traços identitários mais nítidos. É o que faz com que um habitante da favela carioca, vinculado ao samba e à macumba, e um caboclo amazônico, cultivando carimbós e encantados, sintam-se – e, de fato, sejam – igualmente brasileiros. (…) Somos um povo mestiço que vem criando, ao longo dos séculos, uma cultura essencialmente sincrética. Uma cultura diversificada, plural – mas que é como um verbo conjugado por pessoas diversas, em tempos e modos distintos. Porque, ao mesmo tempo, essa cultura é una: cultura tropical sincrética tecida ao abrigo e à luz da língua portuguesa.

(…) Sobretudo temos de saber que recado o Brasil – enquanto exemplo de convivência de opostos e de paciência com o diferente – deve dar ao mundo, num momento em que discursos ferozes e estandartes bélicos se ouriçam planetariamente. Sabemos que as guerras são movidas, quase sempre, por interesses econômicos. Mas não só. Elas se desenham, também, nas esferas da intolerância e do fanatismo. (…) Sim: O Brasil tem lições a dar, no campo da paz e em outros, com as suas disposições permanentemente sincréticas e transculturativas. E não vamos abir mão disso. (..) Aqui será o espaço da experimentação de rumos novos. O espaço da abertura para a criatividade popular e para as novas linguagens. O espaço da disponibilidade para a aventura e a ousadia. O espaço da memória e da invenção.

Cultura Pela Palavra – Pgs 229 a 234

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II. Pronunciamento de Gil na Comissão de Educação e Cultura do Senado Federal (Brasília, 20 de maio de 2003)

“O espírito que anima a cidadania e o cidadão, que mantém a chama da auto-estima viva e irradiante, para dentro e para além de nós mesmos, chama-se Cultura. Na nossa língua, uma palavra feminina, insinuante, envolvente, irresistível e determinada. Como a mulher, também suporte fundamental da vida social, deslumbrante e indispensável, entretanto colocada sempre numa posição secundária e lateral pela porção masculina, machista e dominante da sociedade, que ainda insiste em vê-la apenas como ornamento floral, decorativo e de brilho efêmero. Nos tempos em que a porção mulher da sociedade cada vez mais, como na canção, impõe-se ao super-homem rendido à sua superioridade e encanto, nada mais natural do que entronizarmos a mulher Cultura no espaço central de nossas vidas.

(…) É preciso entender que a Cultura é a estrada pela qual todos os aspectos da sociedade transitam. Tudo se passa e se reflete nessa estrada. Essa é a via única que leva ao grande espetáculo da identidade singular e plural do povo brasileiro. Essa passarela tem que ser cuidada permanentemente para que o grande desfile do povo brasileiro possa sempre acontecer. Ao lado desse espetáculo, é preciso debater que país, que nação, que povo queremos ser. Novos-ricos arrogantes e deslumbrados com os últimos bombons oferecidos pela tecnologia para o conforto e o consumo supérfluo? Sádicos insaciáveis em busca de emoções cada vez mais fortes? Consumidores de drogas cada vez mais excitantes? Obesos televisivos esparramados nas poltronas flutuantes da nossa vasta ignorância ilustrada? Guerreiros poderosos prontos a desafiar qualquer povo cujo comportamento não nos agrade, ou que julgamos incapazes de explorar suas próprias riquezas? Usurpadores do patrimônio natural da humanidade posto a serviço dos nossos interesses?

Ou

Gente pacífica e alegre, voltada para sua própria beleza e diversidade e para a beleza do mundo. Consciente do seu papel de nação aberta, pacífica e fraterna, capaz de compartilhar sua fraternidade com os outros povos, especialmente os povos que contribuíram definitivamente para sua formação, como o povo africano, confinado ao continente negro, carente de tudo; ou com os remanescentes das nações indígenas, no interior do nosso próprio continente, à espera de nossa solidariedade, respeito e atenção?

(…) Nós, a Cultura, somos a língua em cujas palavras os textos que convocam para a luta são escritos. Somos a voz que entoa os hinos e as canções nas horas de conclamar e unir a nação para o momento das grandes transformações. O povo entende e atende aos chamados da sua mãe cultural. Sua mãe pátria. Sua mãe gentil. Nos estádios de futebol é a voz da cultura que se faz ouvir em todos os cantos do país. Nos seus maiores momentos de alegria, é a voz da cultura que se faz ouvir em todas as gargantas de todos os carnavais. E nos momentos de reflexão e debate é a voz dos cultos representantes do povo que clareiam as mentes e apontam caminhos para o país.

É grande a guerra a ser vencida. A guerra contra a fome, contra a ignorância e a favor da saúde. A guerra, se possível não violenta, pela salvação da espécie humana, pela sobrevivência da humanidade, enfim, pela pax desarmada. Enquanto essa guerra não for totalmente ganha, só há um único combatente que não pode sucumbir, cuja voz não pode ser emudecida, pois dela depende a vitória final. Este combatente é uma mulher e o seu nome é Cultura.”

pg. 259 a 261

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EXPERENCIE GIL COMO MÚSICO:




CONVITE


Na próxima sexta-feira (1º de Setembro), no Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial, câmpus Goiânia, serão lançadas 10 publicações da Editora IFG, dentre elas um livro com o qual colaborei: “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional de Pontos de Cultura”, aborda o cenário cultural brasileiro nos arredores do ano de 2015, época de frutificação de muitas das sementes plantadas pela gestão Gilberto Gil & Juca Ferreirano Ministério da Cultura.

A publicação busca revelar em minúcias o que ocorreu durante o XV Encontro de CulturasTradicionais da Chapada dos Veadeiros, uma realização da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, pois naquela ocasião, à celebração dos 15 anos do Encontrão, ocorreu também um encontro nacional envolvendo “ponteiros” – produtores culturais, artistas, jornalistas, trabalhadores-da-cultura de toda estirpe – que representavam Pontos de Cultura e estavam reunidos para pensar as potencialidades e os obstáculos para efervescer a utopia da Cultura Viva.

O livro, que será lançado em ebook downloadável, é uma co-autoria com o Rafael Moreira Do Carmo e a supervisão do Vinícius Ferreira (da Proex – Pró Reitoria de Extensão e Cultura do IFG), contou também com a colaboração inestimável da Maíra Cerrado.

E um grande lançamento não poderia ter menos que um belo show do lendário cantor e compositor goiano Juraildes da Cruz. Para completar a celebração, haverá uma roda de conversa com os autores das obras, seguida de uma festiva sessão de autógrafos.

Estão todos convidados!

ACESSE O EBOOK COMPLETO: ENCONTROS NO ENCONTRO

CONHEÇA O SITE DA EDITORA IFG

Eduardo Carli de Moraes
Professor de Filosofia do
Instituto Federal de Goiás – Câmpus Anápolis
e editor de A Casa de Vidro

 

CULTURAS EM EXTINÇÃO – Por Wade Davis, antropólogo canadense, TED Talk com legendas em português e transcrição completa

Wade-Davis-Photo-Credit-Ryan-Hill

CULTURAS EM EXTINÇÃO – Por Wade Davis [TED TALKS]

Um dos principais prazeres ao viajar e uma das delícias da pesquisa etnográfica é a oportunidade de poder viver entre povos que não esqueceram as suas antigas tradições, que ainda sentem o passado no vento que sopra, que o tocam as pedras que brilham com a chuva, que o saboreiam nas folhas amargas das plantas. Saber que os xamãs dos Jaguares ainda viajam além da Via Láctea, ou que os mitos dos anciãos dos Inuit ainda ressoam com significado, ou que no Himalaia os Budistas ainda perseguem o alento do Dharma, é lembrarmos da revelação central da antropologia. E essa é a idéia de que o mundo em que vivemos não existe no sentido absoluto, mas é só um modelo de realidade, a consequência de um conjunto particular de escolhas de adaptação que nossos antepassados fizeram, mesmo que corretas, há muitas gerações.

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E, naturalmente, todos nós compartilhamos dessas decisões adaptativas. Nascemos e colocamos nossos filhos no mundo. Passamos por rituais de iniciação. Precisamos lidar com a inexorável separação da morte, então não devemos nos surpreender se todos cantamos, dançamos e cultivamos a arte.

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Mas o que é interessante é a cadência exclusiva da melodia, o ritmo da dança em cada cultura. E não importa se são os Penan nas florestas de Bornéu, os seguidores de Vudu no Haiti, os guerreiros no deserto de Kaisut no norte do Quênia, o curandeiro nas montanhas dos Andes, ou um caravançarai no meio do Sahara. A propósito, este é meu companheiro de viagem com quem andei pelo deserto há um mês, ou um criador de iaques nas montanhas do Qomolangma, no Everest, a mãe deusa do mundo.

01:52

Todos estes povos nos ensinam que há outras formas de existir, outras formas de pensar, outras formas de se orientar na Terra. E esta idéia, se você refletir, pode apenas nos dar esperança. Em seu conjunto, a miríade de culturas do mundo cria uma rede de vida espiritual e cultural que circunda o planeta e é tão importante para o bem-estar do planeta assim como a rede biológica que você conhece por biosfera. E você poderia pensar sobre esta rede cultural de vida como uma etnosfera e poderia definir a etnosfera como a soma total de pensamentos, sonhos, mitos, idéias, inspirações, intuições trazidas à vida pela imaginação humana desde o alvorecer da consciência. A etnosfera é o grande legado da humanidade. É o símbolo de tudo o que somos e tudo o que podemos ser como uma espécie impressionantemente curiosa.

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E assim como a biosfera tem se deteriorado seriamente, o mesmo ocorre com a etnosfera, e, infelizmente, mais rapidamente. Nenhum biólogo, por exemplo, ousaria dizer que 50 por cento ou mais de todas as espécies estiveram ou estão sob risco de extinção, porque isso não é verdade, mas mesmo assim – o cenário mais apocalíptico no reino da diversidade biológica – não se aproxima nem um pouco do cenário mais otimista no reino da diversidade cultural. E o grande indicador disso, obviamente, é o desaparecimento das línguas.

03:09

Quando cada um de vocês nesta sala nasceu, havia 6.000 línguas faladas no planeta. Agora, uma língua não é somente um grupo de palavras ou um conjunto de regras gramaticais. Uma língua é um lampejo do espírito humano. É um meio através do qual a alma de uma cultura em particular entra no mundo material. Toda língua é uma antiga floresta da mente, um divisor de águas, um pensamento, um ecossistema de possibilidades espirituais.

03:33

E dessas 6.000 línguas, conforme sentamos aqui em Monterrey, metade não são mais sussurradas nos ouvidos das crianças. Não são mais ensinadas para bebês, o que significa que, a menos que algo mude, elas já estão mortas. O que poderia ser mais solitário do que estar circundado em silêncio, sendo o último de seu povo a falar a sua língua, não tendo possibilidade de transmitir a sabedoria dos ancestrais ou antecipar a promessa das crianças? Ainda assim, este destino horrendo é a situação de alguém em algum lugar da Terra a cada duas semanas, porque a cada duas semanas, algum ancião morre e leva com ele para o túmulo as últimas sílabas de uma língua antiga.

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E sei que alguém entre vocês dirá: “Isso não é ótimo? O mundo não seria um lugar melhor se todos falássemos só uma língua?” E eu digo: “Ótimo, vamos todos falar ioruba. Ou cantonês. Vamos falar kogi.” E então, de repente, você descobrirá como seria não poder falar a sua própria língua.

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Assim, o que eu gostaria de fazer com vocês hoje é levá-los a uma viagem pela etnosfera, uma breve viagem através da etnosfera para tentar dar uma idéia do que está sendo perdido. Muitos de nós esquecemos que quando digo: “formas diferentes de existir”, realmente quero dizer formas diferentes de existir.

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Por exemplo, esta criança dos Barasanas no noroeste do Amazonas, o povo da anaconda que crê mitologicamente que vieram do rio de leite do leste na barriga das serpentes sagradas. Este é um povo que cognitivamente não distingue a cor azul do verde porque a cor do céu é igualada à cor da floresta da qual o povo depende. Eles têm uma regra de casamento e língua curiosa que é chamada exogamia linguística: você deve se casar com alguém que fala uma língua diferente. E tudo isso encontra suas raízes no passado mitológico, mas o curioso é que em casas grandes onde seis ou sete línguas são faladas por causa do casamento misto, você nunca ouve alguém praticando uma língua. Eles simplesmente ouvem e começam a falar.

05:34

Uma das tribos mais fascinantes com que convivi é a dos Waoranis, no nordeste do Equador, um povo incrível com quem o primeiro contato foi feito pacificamente em 1958. Em 1957, cinco missionários tentaram entrar em contato e cometeram um erro brutal. Eles deixaram cair do arfotografias deles mesmos onde acreditavam estar fazendo poses amigáveis, esquecendo que estas pessoas da floresta tropical nunca tinham visto nada bidimensional em suas vidas. Eles coletaram as fotos do solo da floresta, tentaram olhar atrás do rosto para encontrar a forma ou figura, e nada achando, concluíram que eram cartas do diabo, então com suas lanças, mataram os cinco missionários. Mas os Waoranis não mataram apenas forasteiros. Eles mataram uns aos outros com suas lanças. Cinqüenta por cento de sua mortalidade foi por terem estacado lanças uns nos outros.Traçamos genealogias de oito gerações, e descobrimos duas instâncias de morte natural e quando pressionamos o povo um pouco sobre isso, eles admitiram que um deles tinha ficado tão velho que ele morreu envelhecendo, então estacaram uma lança nele de qualquer forma. (Risos) Mas ao mesmo tempo, eles tinham um conhecimento perspicaz da floresta que era impressionante. Os caçadores podiam sentir odor de urina de animais a uns 30 metros e dizer de que espécie era.

06:38

No início dos anos 80, me foi atribuída uma tarefa impressionante quando meu professor em Harvard me perguntou se eu queria ir ao Haiti, e me infiltrar em sociedades secretas que eram a base do poder de Duvalier e de Tonton Macoutes, e obter o veneno usado para fazer zumbis. Para fazer sentido, naturalmente, eu tinha que entender um pouco desta fé admirável de Vodoun, e que o Vudu não é um culto de magia negra. Pelo contrário, é uma visão metafísica complexa. É interessante. Se eu pedisse para vocês citarem as religiões mais importantes do mundo, quais vocês diriam? Cristianismo, Islamismo, Budismo, Judaísmo, não importa.

07:11

Sempre há um continente deixado de fora. Pensa-se que na África subsahariana não havia crença religiosa. Claro que havia, e o Vudu é simplesmente a destilação destas idéias religiosas profundasque vieram à tona durante a trágica diáspora da era da escravidão. Mas o que torna o Vudu tão interessante é que é uma relação viva entre os vivos e os mortos. Os vivos dão origem aos espíritos.Os espíritos podem ser invocados sob as Grandes Águas, respondendo ao ritmo da dança para deslocar, por um momento, a alma do vivo, de forma que naquele breve momento, o acólito se torna o deus. É por isso que os praticantes gostam de dizer: “As pessoas brancas vão à Igreja e falam sobre Deus. Nós dançamos no templo e nos tornamos Deus”. E como está possuído, você é levado pelo espírito, e como isso pode fazer mal a você? Assim, você vê essas demonstrações impressionantes: os praticantes de Vudu em um estado de transe que tocam em brasas e saem impunes, uma grande demonstração da habilidade da mente de afetar o corpo que a mantémquando catalizado no estado de empolgação extrema.

08:08

De todos os povos onde estive, o mais extraordinário são os Kogis de Serra Nevada de Santa Marta no norte da Colômbia. Descendentes da antiga civilização Tairona que vivia nas planícies costeiras caribenhas da Colômbia no início da conquista, essas pessoas se retiraram para um maciço vulcânico isolado que se ergue na planície costeira caribenha. Em um continente onde muito sangue se derramou, essas pessoas nunca foram conquistadas pelos espanhóis. Até hoje, continuam governados por um sacerdócio ritual mas a preparação para o sacerdócio é realmente extraordinária.Os jovens acólitos são afastados de suas famílias com três e quatro anos, segregados em um mundo sombrio e escuro onde ficam em cabanas de pedra na base de geleiras por dezoito anos. Dois períodos de nove anos deliberadamente escolhidos para imitar os nove meses de gestação que passam no ventre da Mãe Natureza. Agora eles estão metaforicamente no ventre da grande mãe. E durante este tempo todo, são aculturados nos valores da sociedade deles, valores que mantêm a proposta de suas orações e suas orações mantêm o equilíbrio cósmico, ou, poderíamos dizer, ecológico. E no final dessa iniciação fantástica, eles são repentinamente retirados um dia e, pela primeira vez na vida, com dezoito anos, vêem o nascer do Sol. E nesse momento lúcido de consciência de primeira luz, conforme o Sol começa a iluminar os picos da paisagem belíssima, de repente tudo o que aprenderam no abstrato é afirmado em todo o seu esplendor. E o sacerdote dá um passo para trás e diz: “Viu? É realmente como eu disse. É lindo. E você deve protegê-lo”. Eles são chamados de irmãos anciãos e dizem que nós, que somos os irmãos mais jovens, somos os responsáveis pela destruição do mundo.

09:44

Agora, este nível de intuição se torna muito importante. Sempre que pensamos em indígenas e paisagens, invocamos Rousseau e a velha história do nobre selvagem, que é basicamente uma idéia racista, ou então invocamos Thoreau e dizemos que estes povos estão mais próximos da Terra do que nós. Os indígenas não são sentimentais nem estão sensibilizados por nostalgia. Não há muito espaço para isso nos pântanos cheios de malária em Asmat ou nos ventos gélidos do Tibet, mas ainda assim, eles criaram uma mística tradicional da Terra, através do tempo e com rituais que não é baseada na idéia de ser conscientemente próximo dela, mas em uma intuição muito mais sutil: a idéia de que a Terra só pode existir por causa da consciência humana.

10:26

O que isso significa? Isso significa que um jovem dos Andes que cresce acreditando que a montanha é um espírito Apu que direcionará o seu destino será um ser humano profundamente diferente e terá uma relação diferente com a montanha ou com o lugar, em relação a um rapaz de Montana criado para acreditar que a montanha é uma rocha e que está lá para ser minada. Se é o lar de um espírito ou uma rocha, é irrelevante. O que é interessante é a metáfora que define a relação entre o mundo individual e o natural. Fui criado nas florestas de Colúmbia Britânica para acreditar que as florestas existem para serem derrubadas. Isso fez de mim um ser humano diferente dos meus amigos Kwagiulth que acreditam que as mesmas florestas são o lar de Huxwhukw e o bico curvo do paraísoe dos espíritos canibais que habitaram na extremidade norte do mundo, espíritos que eles teriam que engajar durante a iniciação no Hamatsa.

 
11:13

Agora, se você começar a entender a idéia de que essas culturas poderiam criar realidades diferentes, você poderia começar a entender algumas das descobertas extraordinárias deles. Veja essa planta aqui. É uma foto que tirei ao norte do Amazonas em abril. Isto é ayahuasca, sobre o que muitos de vocês já ouviram falar, o preparo psicoativo mais poderoso do repertório do xamã. O que torna o ayahuasca fascinante não é o potencial farmacológico puro de seu preparo, mas a sua elaboração. Ela é feita de duas fontes. Por um lado, há este cipó que tem nele uma série de beta-carbolinas, harminas e harmolinas, levemente alucinógenos. Pegando somente a cepa há um tipo de fumaça azulada que altera um pouco a consciência mas é misturada com as folhas de um arbusto da família do café chamado Psychotria viridis. Esta planta tinha algumas triptaminas muito fortes, muito próximas da serotonina cerebral, dimetiltriptamina, 5-metoxidimetiltriptamina Se você já viu os Yanomami inalando aquela coisa, a substância que eles fazem de um conjunto diferente de espéciestambém contém metoxidimetiltriptamina. Puxar aquele pó pelo nariz é como sair disparado pelo cano de uma espingarda carregado com pinturas barrocas e aterrissar em um mar de eletricidade. (Risos) Não cria uma distorção da realidade; cria uma dissolução da realidade.

12:36

Eu costumava discutir com meu professor, Richard Evan Shultes — uma pessoa que iniciou a era psicodélica com a descoberta dos cogumelos mágicos no México nos anos 30. Eu argumentava que não é possível classificar estas triptaminas como alucinógenos porque quando você está sob efeitonão há mais ninguém para experimentar a alucinação. (Risos)

12:54

Mas o fato é que as triptaminas não podem ser ingeridas oralmente porque são modificadas por uma enzima encontrada naturalmente na gordura humana chamada monoamina oxidase. Eles só podem ser tomadas oralmente se tomadas em conjunto com outros produtos químicos que modifiquem a MAO. Mas o fascinante é que as beta-carbolinas encontrados no cipó são inibidores de MAO do tipo necessário para ampliar o efeito da triptamina. Então pergunte-se o seguinte. Como em uma flora de 80.000 espécies de plantas, esses povos encontram estas duas plantas morfologicamente sem relação que quando são combinadas dessa forma, criam um tipo de versão bioquímica do inteiro sendo maior do que a soma das partes?

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Usamos aquele grande eufemismo, tentativa e erro, que acaba sendo insignificante. Mas você pergunta aos indígenas e eles dizem: “As plantas falam conosco”.

13:41

O que isso significa? Esta tribo, o Cofan, tem 17 variedades de ayahuasca. Todas são distinguidas a uma grande distância na floresta, e são consideradas pelos nossos olhos como uma espécie. E então você pergunta como eles estabelecem a taxonomia deles, e eles dizem “Pensava que você sabia algo sobre as plantas. Você não sabe nada?” E eu digo: “Não.” Você pega cada uma das 17 variedades na noite de lua cheia e ela canta para você em um tom diferente. Isso não vai lhe dar um Ph.D. em Harvard, mas é muito mais interessante do que contar estames.

14:13

Mas, (Aplauso) o problema — o problema é que nem mesmo os que simpatizam com a situação dos povos indígenas os vêem como pitorescos mas, de alguma forma, reduzidos à margem da história conforme o mundo real, o nosso mundo, vai em frente. Bem, a verdade é que o século XX, daqui a 300 anos, não será lembrado por suas guerras nem por suas inovações tecnológicas, mas como a era na qual nós aceitamos passivamente ou aprovamos ativamente a enorme destruição da diversidade biológica e cultural do planeta. O problema não é mudar. Todas as culturas através do tempo têm participado de uma dança com novas possibilidades de vida.

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E o problema não é de tecnologia. Os indígenas Sioux não deixaram de ser Sioux quando deixaram de usar arco e flecha assim como um americano não deixou de ser americano quando deixou de andar a cavalo e carroça. Não é a mudança ou a tecnologia que ameaça a integridade da etnosfera. É o poder. A face crua da dominação. E sempre que você olha pelo mundo, descobre que estas não são culturas destinadas a desaparecer. Estas são pessoas com uma vida dinâmica sendo conduzidas ao fim da sua existência por forças identificáveis além de sua capacidade de adaptação.Não importa se é um desmatamento na terra dos Penan — um povo nômade no Sudeste da Ásia, de Sarawak — um povo que vivia livre na floresta há uma geração, e agora foi reduzido à servidão e à prostituição nas margens dos rios, onde você pode ver o rio poluído com a lama que parece estar levando metade de Bornéu embora para o Mar Chinês Meridional, onde os barcos japoneses iluminam o horizonte prontos para se encher com a madeira tirada da floresta. Ou no caso dos Yanomamis, são as doenças que chegaram, com o despertar da descoberta de ouro.

15:55

Ou se formos às montanhas do Tibete, onde estou fazendo muita pesquisa recentemente, você verá que é a face crua da dominação política. O genocídio, a extinção física de um povo é condenado globalmente, mas etnocídio, a destruição da forma de vida de um povo, não somente não é condenado, mas é globalmente celebrado como parte de uma estratégia de desenvolvimento. E não é possível entender a dor do Tibete até você se deslocar por ele pelo solo. Certa vez viajei 10.000 quilômetros de Chengdu na China ocidental através do sudeste do Tibete para Lhasa com um jovem colega e somente quando cheguei em Lhasa entendi a face por trás da estatística que você ouve.Seis mil monumentos sacros destruídos a cinzas, 1,2 milhão de pessoas mortas pelos militaresdurante a Revolução Cultural. Este jovem pai tinha sido indicado para Panchen Lama. Isso significa que ele foi morto instantaneamente no momento da invasão chinesa. O seu tio fugiu com sua santidade na diáspora que levou o povo para Nepal. A mãe dele foi presa pelo crime de ser rica. Ele foi levado escondido para a prisão com dois anos sob as saias da mãe porque ela não aguentava ficar sem ele. A irmã que foi resistente foi colocada em um campo de reeducação. Um dia ela pisou inadvertidamente em uma faixa de Mao, e por essa transgressão, recebeu sete anos de trabalho forçado. A dor do Tibete pode ser impossível de suportar, mas o espírito redentor das pessoas é algo para se contemplar.

17:25

E no final, é necessário escolher. Queremos viver em um mundo monótono monocromático ou queremos abraçar um mundo de diversidade policromático? Margaret Mead, a grande antropóloga, disse antes de morrer que seu grande medo era que, enquanto caminhamos nessa direção de uma visão genérica amorfa do mundo, não somente veríamos a inteira amplitude da imaginação humanareduzida a uma modalidade mais limitada de pensamento, mas acordaríamos de um sonho um diatendo esquecido que havia outras possibilidades.

17:56

E é sempre bom lembrar que a nossa espécie existe há, talvez, 150.000 anos. A Revolução Neolítica — que nos deu a agricultura, em um tempo que nós tínhamos o culto da semente, a poesia do xamã foi deslocada pela prosa do sacerdócio, criamos o acúmulo de especialização da hierarquia — tem apenas 10.000 anos. O mundo industrial que conhecemos tem apenas 300 anos. Agora, essa história breve não me indica que temos todas as respostas para todos os desafios que nos confortará nos milênios seguintes. Quando se pergunta a essas várias culturas do mundo o significado do ser humano, eles responderem com 10.000 vozes diferentes.

18:32

E dentro dessa melodia, todos nós redescobriremos a possibilidade de ser o que somos: uma espécie totalmente consciente, totalmente ciente de assegurar que todos os povos e todos os jardinsencontrem uma forma de florescer. E há grandes momentos de otimismo.

18:50

Esta é uma foto que tirei no norte da ilha Baffin quando fui caçar baleias narval com algumas pessoas Inuit e este homem, Olayuk, me contou uma história maravilhosa de seu avô. Nem sempre o governo canadense foi amável com o povo Inuit e durante os anos 50, para estabelecer a sua soberania, os forçamos a ficar em assentamentos. O avô deste homem idoso se recusou. A família, com medo que ele perdesse a vida, escondeu todas as suas armas e suas ferramentas. Você deve entender que os Inuit não têm medo do frio, eles tiram vantagem dele. A base de seus trenós eram feitas de peixe envolvidos em pele de caribu. Assim, o avô deste homem não ficou com medo da noite no Ártico ou do vento que soprava. Ele simplesmente saiu, abaixou as suas caças de pele de foca e defecou em sua mão. E conforme as fezes congelavam, ele moldou uma lâmina. Ele cuspiu na ponta da faca de excremento e conforme ela se solidificava, matou um cão com ela. Ele retirou a pele do cão e improvisou uma cinta, retirou a gaiola toráxica do cão e improvisou um trenó, prendeu um outro cão, e desapareceu no gelo, com a faca de excremento na cintura. Isso é que é viver com nada. (Risos)

 20:02

E isso, de muitas formas, (Aplauso) é um símbolo da resiliência do povo Inuit e de todos os povos indígenas no mundo. Em abril de 1999, o governo canadense devolveu o controle total dos Inuit uma área de terra maior do que a Califórnia e o Texas juntos. É a nossa nova terra. É chamada Nunavut. É um território independente. Eles controlam os recursos minerais. Um exemplo sensacional de como um estado-nação pode alcançar — buscar restituição com o seu povo.

 20:31

E finalmente, acho que é muito óbvio pelo menos para todos nós que viajamos até estes pontos extremos do planeta, perceber que eles não são remotos. São lar de alguém. Representam ramos da imaginação humana que voltam ao princípio dos tempos. E para todos nós, os sonhos dessas crianças, como os sonhos de nossas próprias crianças, se tornam parte da geografia pura de esperança.

 20:54

Assim, nós na National Geographic, finalmente, acreditamos que os políticos nunca farão nada.Acreditamos que a polêmica — (Aplauso) acreditamos que a polêmica não é persuasiva, mas acreditamos que contar histórias pode mudar o mundo, e somos provavelmente a melhor instituição contadora de histórias no mundo. Recebemos 35 milhões de visitas em nosso website todos os meses. 156 países transmitem o nosso canal. Nossas revistas são lidas por milhões. O que estamos fazendo é uma série de viagens para a etnosfera e levaremos a nossa audiência a lugares com maravilhas culturais de onde se sai impressionado pelo que se vê, e esperamos, portanto, abraçar gradualmente, um a um, a revelação central da antropologia: que este mundo precisa existir de uma forma diversa, que nós podemos encontrar uma forma de viver em um mundo plural verdadeiramente multicultural onde toda a sabedoria de todos os povos podem contribuir para o nosso bem-estar coletivo.


Present and Past

“The voices of traditional societies ultimately matter because they can still remind us that there are indeed alternatives, other ways of orienting human beings in social, spiritual and ecological space. This is not to suggest naively that we abandon everything and attempt to mimic the ways of non-industrial societies, or that any culture be asked to forfeit its right to benefit from the genius of technology. It is rather to draw inspiration and comfort from the fact that the path we have taken is not the only one available, that our destiny therefore is not indelibly written in a set of choices that demonstrably and scientifically have proven not to be wise. By their very existence the diverse cultures of the world bear witness to the folly of those who say that we cannot change, as we all know we must, the fundamental manner in which we inhabit this planet.” – WADE DAVIS

CONFLUÊNCIAS: Festival de Artes Integradas, 3ª Edição: Domingo, 02 de Abril, na Trip

Vem aí o Confluências: Festival de Artes Integradas, 3ª edição, chegando para unir as tribos e somar as vertentes artísticas em um mesmo caldeirão efervescente! Neste Domingão (02 de Abril), lá na Trip (Rua 115e, Setor Sul), teremos vários MCs mostrando toda a força do rap de Goiânia em shows com Tati Ribeiro, A Jay Ajhota e Subversão Feminista.

Vai rolar também uma exposição com algumas das melhores ilustrações de Heitor Vilela, da Rabiscos e Escarros, além de roda-de-prosa com o artista. Vão rolar ainda intervenções poéticas com Walacy Neto, William Trapo, Ma Ha (Siririca Poética), Goitacá Escafandrista, Kesley Rocha Dias. Complementando as artes visuais, teremos o Vinícius Yano grafitando a entrada da Trip. Além disso, discotecagens timbradas com os DJs Bruno Vieira Batista (Caveira) e Eduardo Carli de Moraes.

Não perca!

Abertura da casa: 16h. Ingresso: R$ 10. Conflua!

Endereço: Rua 115e, Setor Sul.

CONFLUÊNCIAS é uma produção d’A Casa de Vidro


Design gráfico e identidade visual: Annie Marques.

Página do evento: https://www.facebook.com/events/277267286060351/


APERITIVOS:

Ilustração: Heitor Vilela. Acesse o álbum completo.


A JAY A JHOTA
Ep de Estréia


DJ BRUNO CAVEIRA




TATI RIBEIRO




RELEMBRE: Vídeos das primeiras edições do Confluências

“SE LIGA NO SOM!” – RITMO, POESIA & CONTESTAÇÃO: As transformações do rap no Brasil

RITMO, POESIA E CONTESTAÇÃO
Reflexões sobre o livro “Se Liga No Som!” de Ricardo Teperman
por Eduardo Carli de Moraes

“A música está no mundo”, escreve Ricardo Teperman ao princípio de Se Liga No Som – As Transformações do Rap no Brasil (comprar na Livraria A Casa de Vidro). “Nas potentes caixas de som de carros que atravessam a cidade marcando presença no volume máximo; nas esperas telefônicas; nos elevadores dos shopping centers; nos fones dos milhões de pedestres que ouvem músicas em seus celulares e leitores de MP3; numa sala fechada e tratada acusticamente para esse fim, com um grupo de músicos de um lado e um grupo de ouvintes de outro…”.

A quase oni-presença da música, em suas múltiplas formas, nos mais variados espaços sociais,  é um fato facilmente constatável, mas na maior parte das vezes nossa experiência musical ocorre enquanto estamos completamente  esquecidos ou desatentos em relação aos condicionantes sociais da produção musical.

Neste espaço social altamente sonorizado (e cheio de dissonâncias), Teperman busca compreender o que o rap tem de específico: seu ímpeto transformador, sua chama contestatória, seu enraizamento na realidade histórica, sua conexão umbilical com vivências sociais e antagonismos políticos etc. Algo que me traz à mente a tese de Bertolt Brecht sobre a arte: “ela não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo.” 

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Ricardo Teperman é músico e antropólogo. Fez uma dissertação de mestrado sobre batalhas de MCs e atualmente é doutorando no departamento de antropologia social da USP. Em seu livro, o rap emerge como um dos melhores exemplos na cultura global contemporânea de uma “música que está no mundo para transformá-lo, e não apenas para servir de trilha sonora.” (TEPERMAN, 2015, p. 7)

Para compreender a gênese deste fenômeno do rap, “bombadíssimo” no cenário cultural mundo afora, Teperman busca recuperar a genealogia desta “cultura de rua” que viria a ser chamada de hip hop. Oferece explicações etimológicas e históricas que revelam os “mitos de origem” daquilo que constitui hoje uma das mais impressionantes e vivazes manifestações culturais globais e que nasceu, em seus primórdios, como uma das múltiplas encarnações de hibridismo afroamericano vinculado à diáspora pelo Atlântico Negro (tematizada em estudo clássico de Paul Gilroy):

Teperman


Leia um trecho em PDF – Playlist para acompanhar a leitura

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A interpretação consagrada da etimologia da palavra rap é que seria uma sigla para rhythm and poetry [ritmo e poesia]. O mito de origem mais frequente sobre o gênero é que teria surgido no Bronx, bairro pobre de Nova York, no início dos anos 1970. São dois lugares-comuns que, independente de seu conteúdo de verdade, merecem ser estranhados. Alguns preferem dizer que o rap nasceu nas savanas africanas, nas narrativas dos griôs — poetas e cantadores tidos como sábios. Ou ainda, como sugerem alguns rappers e críticos brasileiros, que é uma variante do repente e da embolada nordestinos. Outros MCs brasileiros defendem que rap é a sigla para “Revolução Através das Palavras”, e já foi dito que as três letras poderiam corresponder a “Ritmo, Amor e Poesia”. Mais do que explicações, essas são interpretações, e defender um delas é uma espécie de alinhamento ideológico, que terá impacto no modo como essa música se situará no mundo social.

H Rap BrownA palavra “rap” não era novidade nos anos 1970, pois já constava dos dicionários de inglês havia muitos anos — seu uso como verbo remonta ao século XIV. Entre os sentidos mais comuns, queria dizer algo como “bater” ou “criticar”. Um dos principais líderes dos Panteras Negras, grupo ativista do movimento negro norte-americano dos anos 1960, incorporou a palavra em seu nome: H. Rap Brown. Foi assim que ele assinou sua autobiografia, “Die Nigger Die!” [Morra Preto Morra!], lançada em 1969 — antes de qualquer registro da palavra “rap” associada a uma manifestação musical. No livro, ele conta suas memórias de infância, quando brincava na rua com amigos do bairro. Uma das brincadeiras mais frequentes era um jogo de desafios verbais conhecido como the dozens [as dúzias]. Nele, as crianças se provocavam com os insultos mais odiosos que podiam conceber, muitas vezes envolvendo a mãe do oponente. Mas os insultos deviam ser construídos com rimas, essa era a graça. As dozens são desafios tipo “trava-língua”, com tiradas espirituosas e picantes.

(…) É claro que o fato de que as letras R, A e P componham uma sigla que corresponda a rhythm and poetry é um achado poderoso. E é conveniente que funcione também em línguas latinas como português, espanhol e francês (R para ritmo e P para poesia). Como sigla, o termo reúne um aspecto comumente associado às manifestações musicais africanas — o ritmo — a outro, que tem grande legitimidade nos circuitos culturais “hegêmonicos” — a poesia. Assim, a própria definição da palavra “rap” defende uma ideia: de que as letras de rap são poesia — em oposição a críticos conservadores, que fazem questão de reservar o privilégio da denominação “poeta” para autores que se filiem às tradições literárias canônicas, como William Shakespeare, W. H. Auden ou W. B. Yeats, apenas para ficar com nomes de língua inglesa. Não é pouca coisa, e não é à toa que a etimologia de rap como sigla para ritmo e poesia “colou”. Se non è vero, è ben trovato.

No que diz respeito ao “local de nascimento” do rap, dez entre dez mcs dirão que é o Bronx. Mas, para dar sentido a essa geografia do rap, é preciso considerar pelo menos duas ondas de imigração. Em primeiro lugar, a vinda de centenas de milhares de africanos, das mais diferentes origens, para alimentar o maquinário insaciável dos regimes escravocratas nas Américas. No contato com as tradições musicais europeias, levadas aos Estados Unidos desde a chegada dos primeiros colonos ingleses, esses africanos — descendentes dos hoje conhecidos como afro-americanos — liderariam diversas revoluções na música do mundo, contribuindo de maneira decisiva na criação de gêneros como blues, jazz, rock, soul, reggae, funk, disco e, claro, rap. Para a musicóloga norte-americana Susan McClary, autora de livros importantes sobre música clássica de tradição europeia, essa herança é a principal influência para a produção musical contemporânea, de modo geral.

Uma segunda onda migratória, após o final da Segunda Guerra Mundial, levou largos contingentes de homens e mulheres pobres de ilhas caribenhas como Jamaica, Porto Rico e Cuba para os Estados Unidos, em busca de melhores condições de trabalho. Esses imigrantes tenderam a se estabelecer nas periferias das grandes cidades, onde o custo de vida era relativamente baixo e as ofertas de emprego estavam próximas. Nessas regiões, os novos imigrantes caribenhos passaram a conviver com imigrantes latinos e também com afro-americanos estabelecidos nos Estados Unidos havia várias gerações.

Um desses bairros era o Bronx, no extremo norte da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York. No início dos anosm 1970, a região vivia uma situação de degradação e abandono.Com pouca oferta de espaços de esporte, lazer e cultura, os jovens do Bronx estavam expostos à violência urbana crescente e às guerras brutais entre gangues. O bairro era predominantemente negro, e o país ainda trazia abertas as feridas dos violentos conflitos raciais da década de 1960. Em poucas palavras, o Bronx era uma espécie de barril de pólvora.

Conheça um dos primeiros raps da história, lançado em 1979, por Sugarhill Gang:

Nos finais de semana dos meses de verão, alguns desses imigrantes acoplavam poderosos equipamentos de som a carrocerias de caminhões e carros grandes (os chamados sounds systems), tocavam discos de funk, soul e reggae, e com isso criavam um clima de festa nas ruas. Inspirados nos disc jockeys que animavam programas de rádio, se autodenominavam DJs. Além disso, usavam um microfone para “falar” com o público, não só entre as músicas mas também durante a música, como mestres de cerimônia (daí a sigla mc — master of cerimony). Figuras como Kool Herc e Grandmaster Flash, dois dos mais célebres agitadores das festas de rua no Bronx, cumpriam ao mesmo tempo as funções de DJ e de CM.

Em um desses improvisos, o DJ e MC Lovebug Starski teria criado uma espécie de refrão: Hip hop you don’t stop that makes your body rock [quadril, salto, não pare, isso faz seu corpo balançar]. Associar a palavra “hip” [que pode ser traduzida por quadril, mas que também quer dizer “segundo a última moda”] à palavra “hop” [pular ou dançar] era uma maneira graciosa de dizer: não pare de mexer os quadris, não pare de dançar, “essa é a última moda”. A expressão “hip-hop” dava o recado e soava bem.

A competência do DJ e do MC se fazia comprovar pela empolgação da “pista” — mesmo que a festa fosse no meio da rua. Os dançarinos mais animados e talentosos, que criavam coreografias para essa nova música, cheia de breaks, passaram a ser chamados de b-boys (break boys). Apresentando-se um de cada vez ou em pequenas equipes, bem em frente ao DJ, os b-boys faziam demonstrações de virtuosismo coreográfico, por meio das quais competiam. Mais tarde, campeonatos organizados passariam a fomentar essa competição e se disseminariam mundo afora.

hip-hop_break_dance_bboy_rap

A origem dos movimentos do break também rendeu verdadeiras mitologias. O giro de cabeça, um dos passos mais notáveis, foi muitas vezes descrito como uma imitação das hélices de helicópteros, em menção à Guerra do Vietnã, de onde haviam recentemente regressado muitos jovens afro-americanos — hipótese que valoriza o caráter político da dança. Alguns comentadores sugerem que uma influência importante são as artes marciais, populares nos Estados Unidos graças aos filmes de Bruce Lee — o que reforça o aspecto “combativo” do break. Nos últimos anos, críticos chegaram a sugerir que o movimento teria sido importado da capoeira — argumento que fortalece as origens africanas da dança. Se non è vero…

Nenhuma dessas hipóteses é totalmente convincente — mas tampouco precisam ser descartadas. De todo modo, não são historicamente verificáveis — assim, aquele que esperar uma conclusão definitiva ficará decepcionado. O que é certo é que constroem um discurso que apresenta o break como uma dança politicamente engajada, combativa e bem ancorada em suas raízes africanas.

Vimos como o hip-hop está ligado etimologicamente ao movimento dos quadris, ou seja, à dança, à festa. Se hoje a expressão remete a um movimento cultural no geral bastante politizado, isso foi uma construção posterior. Rap costuma designar apenas a música, enquanto hip-hop se tornou o termo mais geral, que engloba também dança, moda, grafite, estilo de vida e atuação política — muitas vezes se fala em “movimento hip-hop”. Em todo caso, o ponto que interessa destacar é que as dimensões festivas e críticas do rap e do hip-hop não são tão facilmente separáveis, e não é à toa que essa aparente contradição gera frequentemente debates acalorados. (TEPERMAN, 2015, p. 13)

Antes de tornar-se um gênero musical, portanto, o rap já era uma presença cultural marcante nos EUA. Servia para descrever as habilidades verbais utilizadas em jogos de rua e as sábias palavras saídas das bocas dos mestres-griô africanos. Desde os anos 70, manifestações proto-rap pintam por aí em criações de artistas inovadores como Gil Scott-Heron e The Last Poets, figuras que ajudaram a parir a novidade através de suas brilhantes incursões poéticas e musicais.

Inovadores que ajudaram no parto do que vieria a ser o rap foram não só Scott-Heron e os Last Poets, mas figuras como James Brown e o Funkadelic, que muitas vezes abordavam vocais realizando um rapping de suas letras espertas, experimentando os universos sônicos do blues, do funk, do soul, algo sintetizado por “The Revolution Will Not Be Televised” (“A Revolução Não Será Televisionada”).

Se quisermos retornar ainda mais rumo ao passado, na história musical, em busca das sementes do rap, podemos encontrá-las também em Nina Simone, que em canções seminais como “Mississipi Goddam” já havia entrado no tom contestatório e impertinente de um eu-lírico rebelado contra o supremacismo branco e seu terror racial.

Além disso, toda uma tradição de “canto falado” e de criação verbal lúdica atravessa a história da arte musical afroamericana, manifestando-se em figuras como Bo Diddley, Cab Calloway, Langston Hughes, além de oradores explosivos e cheios de “atitude” como Malcolm X ou os Panteras Negras.

Cantoras negras mais vinculadas ao soul e ao rhythm’n’blues foram essenciais para o desenvolvimento do canto sincopado e da dicção característica do rap – caso de Esther Phillips ou Millie Jackson. O rap, mesmo quando ainda não tinha sido batizado, já desenvolvia-se como tática artística de confronto, como arte contestatória e transformadora, em clash com elementos da realidade social e interpessoal sentidos como intoleráveis e revoltantes. Um exemplo:

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960Muito antes de existir o rap como estilo musical consagrado, com seus artistas canônicos e suas formas de composição, artistas como Nina Simone foram pioneiras da vibe que animaria o rap.

Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas.Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”.

Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista. A politização e radicalização de Nina se exacerbaram nos anos seguintes e ela entregou-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960.

Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!”  (“Eu não sou não-violenta!”)

Poderíamos pois considerar Gil Scott-Heron e Nina Simone como uma espécie de vovô vovó do rap, inovadores revolucionários que deram alguns dos mais importantes ímpetos iniciais ao estilo que depois tomaria conta do mundo. Visto sob esta perspectiva, o rap está enraizado na contracultura afroamericana. Emerge como auto-afirmação identitária e solidarização coletiva para os negros violentados pelo racismo e pela opressão nos guetos da AmériKKKa.

Como eu escrevi no artigo Nina Simone – Rebelde Com Causa, a magnífica Nina foi “influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers)” e “chegou à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada.

Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, chorando ainda o assassinato de Luther King, conclama o povo à Revolução:

Remontando às raízes do rap, descobrimos a importância da concepção de Afrika Bambaataa, que “já em 1977 havia criado a Zulu Nation, tida como a primeira organização comunitária do hip-hop. Bambaataa pretendia combater a violência entre gangues promovendo a competição por meio dos chamados quatro elementos: DJ, MC, break e grafite. Bambaataa passou a defender a existência de um quinto elemento na cultura hip hop: o conhecimento. A ideia é um contraponto à redução do rap a um produto de mercado, reforçando sua potencialidade como instrumento de transformação.” (Teperman, op cit, p. 27).

O quinto elemento – conhecimento – marca presença em alguns dos primeiros raps da história, como “The Message”, de Grandmaster Flash, que “descreve as condições precárias da vida em um bairro pobre na periferia de uma cidade norte-americana” (uma música que impressionaria imensamente um dos rappers brasileiros dos primórdios do estilo no país, Thaíde).



Ouça na íntegra: Thaíde e DJ Hum – Preste Atenção (1996)

Mas “a grande virada foi promovida pelo grupo Public Enemy, cujo primeiro disco foi lançado em 1987, com enorme sucesso de público e crítica. No ano seguinte, o grupo seguiu aprofundando seu posicionamento crítico ao lançar o disco It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back [É preciso uma nação de milhões para nos segurar]. O título já era uma declaração política, que evoca a célebre frase dos Racionais MC’s, incluído no encarte de Sobrevivendo no Inferno, de 1997: “Apoiado por mais de 50 mil manos.”

Convidado pelo cineasta Spike Lee a compor uma música especialmente para a trilha sonora do filme Faça a Coisa Certa / Do The Right Thing, de 1989, o Public Enemy veio com “Fight The Power”, faixa que marcaria para sempre a história do rap. O músico Elvis Presley e o ator John Wayne figuram no panteão dos grandes ídolos norte-americanos, mas na letra do rap do Public Enemy são vistos de maneira crítica, como ídolos para a população branca mas não para os negros” (TEPERMAN, p, 29-30):

Public Enemy – “Fight The Power” (1989)

Elvis was a hero to most
But he never meant shit to me you see
Straight up racist that sucker was
Simple and plain
Mother fuck him and John Wayne
Cause I’m Black and I’m proud
I’m ready and hyped plus I’m amped
Most of my heroes don’t appear on no stamps
Sample a look back you look and find
Nothing but rednecks for 400 years if you check

Link: http://www.vagalume.com.br/public-enemy/fight-the-power-traducao.html#ixzz430SPhYYZ

Estas evidências conduzem à tese, que Teperman defende baseando-se na obra de Paul Gilroy, de que “o rap é uma das manifestações musicais mais significativas do Atlântico negro”, sendo também um dos objetos de estudo e de devoção de alguns dos mais brilhantes intelectuais negros da contemporaneidade, caso de Cornel West e Angela Davis.

Em seu livro Atlântico Negro, Gilroy “reflete sobre a vitalidade que os gêneros da chamada black music ganharam ao redor do mundo” e sustenta que “há um fundo comum de experiências urbanas, pelo efeito de formas similares de segregação racial, bem como pela memória da escravidão, um legado de africanismos e um estoque de experiências religiosas definidas por ambos. Deslocadas de suas condições originais de existência, as trilhas sonoras dessa irradiação cultural africano-americana alimentar uma nova metafísica da negritude…” (GILROY, apud Teperman, p. 28).

* * * * *

II. O RAP NO BRASIL 

“BRAIL COM P” – Um rap de Gog
(inteirinho composto por palavras iniciadas em P!)

“Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto pobre prostituta
Pra polícia prender
Pare, pense: por quê?”

A potência do rap no Brasil começa a expandir de fato a partir da segunda metade dos anos 1980: os Racionais MC’s nascem em 1988 e já chegam ao começo da década de 1990 com alta representatividade: “quando o Public Enemy se apresentou em São Paulo, em 1991, o rap no Brasil já tinha alguma densidade. O público lotou o ginásio do Ibirapuera e, para esquentar a platéia antes da atração internacional, foi convidado um grupo de rap brasileiro que despontava com o mesmo tipo de discurso politizado. O Racionais MC’s já se impunha como o principal grupo do rap nacional” (Teperman, p. 31).

Racionais MC’s – Raio X do Brasil (1993)

Banda Black Rio – Maria Fumaça (1977)

No país, as sementes do rap estão um pouco por toda a parte da cultura popular: nos bailes black das periferias do Rio e de São Paulo, onde despontaram mamutes sônicos do groove denso como a Banda Black Rio; na influência tremenda de Jorge Ben e seu samba-rock afrocêntraico (em LPs como Tábua de Esmeraldas, Força Bruta, Samba Esquema Novo); no soul encorpado e hedonista de um Tim Maia (cujos álbuns Racional são a inspiração para o batismo dos Racionais MC’s) ou do funky DiMelo, dito “O Imorrível”; no samba-malandro de figuras como Bezerra da Silva (inspiração determinante para o Planet Hemp e seus MCs Marcelo D2, BNegão e Black Alien) – antes de existir oficialmente rap, já tínhamos exemplos de letras de malandríssima crítica social e subversão inteligente em canções como “Vítimas da Sociedade” e “Pastor Trambiqueiro”.

Obviamente, o rap no Brasil também sofreu a influência intensa de sua matriz afroamericana na América do Norte: desde os donos-do-groove na história do funk como James Brown e Curtis Mayfield, até os popstars (ídolos-de-massa) dos EUA, que tinham uma penetração violenta em nossas mentes, dada a natureza altamente “colonizada” de nossa mídia burguesa: lá nos “States”, o mainstream já estava “tomado de assalto pelo rap”; aqui no Brasil, muitos começaram a entrar em contato com ele já através de sua versão capitalizada-pelo-aparelho midiático, devidamente “embranquecido” e palatável ao consumidor médio (ver o caso Gabriel O Pensador).

Gabriel O Pensador – Ainda É Só O Começo (2005)

 “O break vinha havia alguns anos se popularizando, reaproveitado por campanhas publicitárias e incorporado nos clipes e shows de Michael Jackson, talvez o artista mais popular do planeta à época. (…) Seguindo o exemplo do filme A Loucura do Ritmo,  os b-boys colocavam pilha em seus aparelhos de som portáteis e vestiam-se com roupas esportivas de marcas como Adidas ou Nike…” (Teperman, p. 34)

A rua Vinte e Quatro de Maio torna-se, junto com a estação do Metrô São Bento de SP, uma espécie de epicentro dos agitos hip hop brasileiros. Algumas figuras carismáticas, como Nelson Triunfo, marcariam época como um dos pais-da-matéria (como Scott-Heron ou Nina Simone foram nos EUA).

O rap floresce nas quebradas, como cultura de resistência, e não cessa de ver-se cercado e violentado por forças de repressão: cegos à exuberante riqueza artística e efervescência cultural que manifestam-se no rap, alguns desmiolados sempre quiseram transformá-lo em caso de polícia.

 “Em funcionamento desde 1988, o Geledés – Instituto da Mulher Negra  [http://www.geledes.org.br/] oferecia um serviço chamado SOS Racismo. Em 1991, jovens rappers procuraram o instituto reclamando que muitas vezes suas apresentações eram interrompidas e interditadas de maneira violenta pela polícia. A partir dessa demanda, o Instituto Geledés criou juntamente com as bandas o projeto Rappers Geledés: os artistas passaram a participar dos Fóruns de Denúncia e Conscientização do Programa de Direitos Humanos do Geledés, e foi criada a revista Pode Crê!, tida como o primeiro veículo segmentado para jovens negros e inspiração para iniciativas como a da revista Raça Brasil.” (Teperman, p. 42)

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PODE CRÊ! É oficialmente a primeira revista brasileira especializada em Hip Hop de que se tem notícia. Em sua primeira edição (fevereiro/março 1993), a revista PODE CRÊ! Trás em sua capa na menos que Mano Brown dos Racionais, no auge dos seus 23 anos.

Racionais

Os Racionais MC’s tiveram de fato um “impacto difícil de dimensionar na juventude das favelas e periferias do Brasil”, aponta Teperman, que enxerga todo o contexto sócio-político que foi o cenário-de-emergência dos discos Holocausto Urbano (1990), Escolha Seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993):

“No início da década de 1990, o país vivia uma espécie de ressaca dos anos de ditadura civil-militar. A militância política, ligada ao sindicalismo ou às organizações eclesiásticas de base, muito ativa nas periferias dos grandes centros urbanos (e notadamente no ABC paulista) no final dos anos 1970 e ao longo dos anos 80, arrefecera ou mudara de foco. Os sucessivos episódios de violência policial, que assustavam tanto quanto ou mais que os outros índices de violência urbana, ganharam triste notoriedade com tragédias como as chacinas do presídio do Carandiru, da igreja da Candelária e da favela de Vigário Geral.

Carandiru

Candelária
Vigário GeralFonte: Chacinas no Brasil – Terra

Com a queda do Muro de Berlim e a derrocada dos regimes comunistas, o discurso triunfalista do mercado e as teologias da prosperidade passaram a invadir sem freios todas as esferas da sociabilidade. A redemocratização do Brasil nada teve de tranquila, contradizendo o discurso oficial dos militares e sua promessa de uma abertura ‘lenda, gradual e segura’. (…) Com a abertura política, nesse momento candente, o Racionais surge, captando a experiência brasileira com sua lente original, ‘falando da violência de modo violento’, como bem definiu Walter Garcia. Diante da crueza da realidade das periferias paulistanas, o rap do Racionais preferia o papo reto.

A relação do rap com o poder público sempre carregou uma grande ambiguidade. Se por um lado há momentos de aproximação (como em 1992, quando a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na gestão Luiza Erundina, reconhecendo a força do movimento, criou o projeto Rapensando a Educação), conflitos com a polícia também são uma marca do gênero. Em novembro de 1994, uma apresentação dos Racionais em palco no vale do Anhangabaú foi interrompida pela polícia militar e os integrantes do grupo foram detidos e levados ao 3º DP… os policiais alegaram que as letras das músicas do grupo ‘incitam a violência’. A detenção ocorreu enquanto o Racionais cantava ‘Homem na Estrada”, que traz o verso: ‘Não acredito na polícia, raça do caralho.’

(…) Anos depois, em 2007, um novo e violento conflito com a polícia interromperia o show do Racionais na praça da Sé durante a primeira edição da Virada Cultural, em São Paulo. Em entrevista à revista Rap Nacional, em 2012, Mano Brown fez declarações elogiosas a Marcola, tido como chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital), organização que se entende como o ‘partido do crime’, comparando-o a Carlos Marighella, líder da guerrilha urbana assassinado pela ditadura civil-militar em 1969.

Uma das músicas mais famosas e marcantes de Mano Brown é ‘Diário de um Detento”, sobre o terrível massacre do Carandiru, em que 111 presos foram assassinados pelo batalhão de choque da Polícia Militar durante uma rebelião. O rap foi escrito em parceria com Jocenir, que estava preso na época e presenciou a tragédia. O vigor de ‘Diário de um Detento’ só é explicável por essa proximidade do sujeito que canta com o que é cantado. Como diria Mano Brown em ‘Negro Drama’, lançada em 2002, ‘eu não li, eu não assisti / eu vivo o negro drama / eu sou o negro drama / eu sou o fruto do negro drama.” (Teperman, p. 67-70)

Este “fruto do negro drama” que é o hip hop está definitivamente “no mundo”, e nele age de modo a transformá-lo para melhor, por exemplo através da proliferação de rádios comunitárias, que criam canais de comunicação e solidariedade, como registrado em película no filme Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, seja através do engajamentos em projetos e movimentos sociais como a Cufa (Central Única das Favelas).

Prova de que a fervilhante cultura do rap não gosta de cercas de arame farpado, mantendo-a cerceada em território lacrado, é o quanto o cinema já foi marcado por ele. No documentário O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, “discute-se a violência urbana na capital pernambucana, tendo como fio narrativo a experiência de dois personagens: Garnizé, baterista do grupo de rap Faces do Subúrbio, e Helinho, um presidiário acusado de 65 homicídios.” (Teperman, p. 91)

rap-do-pequeno-principe-poster011O Rap Do Pequeno Príncipe Contra As Almas Sebosas (2000, 90 min)
de Marcelo Luna e Paulo Caldas


Onda no ARUma Onda No Ar (2002, 92 min)
de Helvécio Ratton
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Não devemos considerar que o rap brasileiro é algo de homogêneo e monolítico, muito pelo contrário: é algo de mutante e de fluido, que ganha novos contornos em cada região do país. Não há uma “mensagem única” mas sim uma multiplicidade de mensagens; não há uma ideologia central que se refrata em todo e qualquer MC ou grupo de rap, mas sim uma miríade ideológica que constitui uma constelação de cintilante diversidade.

Na arte do RAPadura e do Costa a Costa, do Recife, Teperman enxerga uma nova hibridez, uma inovação estética, um

“notável uso de tradições musicais como o mambo, o carimbó e o reggaeton. (…) O rap de Costa a Costa soa menos sisudo que o gangsta rap de São Paulo: é mais dançante e alegre, sem que por isso as letras sejam menos corrosivas. Ao criticar a presença de dinheiro, sexo, drogas e violência ‘de costa a costa’, o grupo dá dimensão nacional (e mesmo continental) a problemas que, na formulação dos Racionais, aparecem apenas em sua versão local (e paulistana).

RAPadura vai mais longe no mergulho nas tradições musicais nordestinas: praticamente todas as bases de seus raps são construídas em cima de ritmos como o baião e o arrasta-pé; são usados dezenas de samples de discos de forró; e a presença de instrumentos como agogô, pandeiro e sanfona é uma constante. (…) RAPadura se veste com chapéu de cangaceiro, evocando Luiz Gonzaga, que nos anos 1950 popularizou nacionalmente o forró.  O gesto do rapper é original e, até certo ponto, desafia as convenções do gênero, como já haviam feito à sua maneira artistas como Potencial 3, Sabotage, Marcelo D2 e Rappin Hood, ao de forma deliberada buscar ‘misturar’ tradições musicais tipicamente brasileiras às batidas de funk, tradicionalmente usadas nas bases de rap.” (Teperman, 1991).

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CONTINUA EM BREVE com Emicida, Criolo e muito mais!

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SIGA VIAGEM:

No final de 2014, foi divulgado o resultado final do Prêmio Cultura Hip Hop da Funarte (Fundação Nacional de Arte do Ministério da Cultura). Foram, ao todo, 164 vencedores – 14 instituições privadas sem fins lucrativos e 150 pessoas físicas e grupos ou coletivos “sem constituição jurídica” -, que ganharam de R$14 mil a R$20 mil cada. Na mesma época, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, anunciou a produção do maior mural de grafite a céu aberto da América Latina, realizado na Avenida 23 de Maio, uma das principais vias da cidade. O projeto contou com a participação de mais de 200 artistas e o mural possui 15 mil metros quadrados. Pouco tempo depois, o grupo Racionais MC’s lançou seu novo disco, “Cores e Valores”, que veio após um hiato de 12 anos desde o último álbum do grupo. O que todos esses acontecimentos têm em comum? Além de sua grandiosidade e consequente visibilidade, o Hip Hop como protagonista. Nos últimos dez anos, a cultura Hip Hop teve um aumento vigoroso do espaço que ocupa na sociedade, tornando-se essencial para definir o que é a cultura brasileira nos dias de hoje. – Hip Hop cultura de transformação, por Lana Ohtani

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O primeiro disco do rap brasileiro:

Hip Hop Cultura De Rua (1988)

01 – Corpo Fechado (Thaide & Dj Hum)
02 – Codigo 13 (Codigo 13)
03 – Centro da Cidade (Mc Jack)
04 – O Credo (O Credo)
05 – Deus A Visão Cega (O Credo)
06 – Homens da Lei (Thaide & Dj Hum)
07 – Gritos do Silencio (Codigo 13)
08 – Calafrio (Melo do Terror) (Mc Jack)
09 – A Minha Banana (Mc Jack)
10 – Vicio (Mc Jack)
11 – Cidade Maldita (Mc Jack)
12 – Loucura (Codigo 13)
13 – Teu Negocio é Grana (Codigo 13)
14 – A Garota da Casa (Codigo 13)

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OUTROS ÁLBUNS BACANAS DO RAP BRASILEIRO

Sabotage – Rap É Compromisso

Marcelo D2 – Eu Tiro É Onda

Cirurgia Moral – Cérebro Assassino

Faces do Subúrbio (1996)

GOG – Das Trevas À Luz (1998)

RZO – Todos São Manos (1999)

Black Alien – Babylon By Gus (Vol. 1)

Faces do Subúrbio – Perito em Rima (2005)

Criolo – Convoque Seu Buda

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TO BE CONTINUED…