O PUNK ROCK AINDA GRITA “LIBERDADE & AUTONOMIA!” – The Interrupters: muito mais que o ska-punk mais chiclete do pedaço

Caí violentamente fissurado numa droga sônica bombando no pedaço: The Interrupters, banda da Califórnia que grava pela Hellcat Records, braço da Epitaph. Justo quando as veias pediam uma dose cavalar de punkadaria política e poesia flamejante, descobri nos Interrupters uma banda que é muito mais que o ska-punk com as canções mais “chiclete” do pedaço. 

Além de mestra em grudar melodias em nossas memórias, Aimee Allen é também querosene. Seus bandmates, vestindo terninhos à la The Hives, são uns carequinhas com TDAH, que em seu hiperativo transe puxam ao extremo o andamento e a pulsação rítmica das canções. Querem ser serelepes como foram um dia Little Richard e Chuck Berry, dois dos Pais da Matéria: rock and roll, um das artforms of the 20th century. Secundada pela trupe, Aimee parece antenadíssima com os músicos que lhe fornecem às mancheias as fagulhas e faíscas que fazem-na explodir como incendiária vocalista:

Para além do bubblegum, da máquina de rhythm’n’blues apunkalhado que o quarteto realiza com seu impetuoso senso rítmico, evocando grandes bandas de outrora como Richard Hell, Television ou Blondie, há conteúdo subversivo explosivo. Desde a denúncia da indústria midiática de celebridades em “Media Sensation” até a conclamação à insurreição e à rebeldia em “Take Back The Power”.

MEDIA SENSATION

“Land of the free, home of the slave
The uniformed are digging their own grave
Pacified with the mainstream media
What’s it gonna take? mass hysteria!
And that’s fine ‘cause i’m not blind
I’m ready for a fight of any kind
And we’re forming, trust me the drones are swarming
Take this as a global warning!
 
Don’t watch their T.V. stations!
It’s all a fabrication!
And don’t march in their formation!
A media sensation…

They’ll keep you suspended in fear
Until your freedoms disappear
I said it once, but you’re not hearing me.
You’re giving up liberty for security
And that’s fine, the sheep are blind
shepherds indoctrinate the minds of the masses,
Poor and middle classes
all parading like a bunch of fascists.
 
Don’t watch their T.V. stations!
It’s all a fabrication!
And don’t march in their formation!
A media sensation…
(I’m not buying, I’m not buying)
a media sensation
(I’m not buying, I’m not buying)
a media sensation
(I’m not buying, I’m not buying)
a media sensation!”

 

A discografia se limita, por hora, a três álbuns estupendos onde convocam, em alta dosagem de decibéis, a “lutar a boa luta”: The Interrupters, de 2014, o álbum de estréia; “Say It Loud”, de 2016; “Fight the Good Fight”, de 2018.

É verdade que, escutando os Interrupters, vocês se arriscam a ser fisgados pela iscas melodias infectious e o contágio será profundo – e a cura, repetidas doses da drug-of-choice. Assim como faziam outrora Green Day, Offspring, Undertones ou Ramones, os Interrupters são propulsionados pela forte melodiosidade das linhas vocais de sua fenomenal cantora-líder, Aimee Allen. Mas por trás de todo, um senso de performatividade de quem acredita que a música mobiliza. Canções são forças mobilizatórias, e o punk é movimento-de-movimentação.

Na primeira das mais de trocentas repetições do álbum Fight the Good Fight que por aqui rolou, o impacto das paredes-de-som do Interrupters serviu de background para que explodisse um vulcão de lirismo em flor. Foi só ouvir aquela voz e todo um panteão de musas se levantou: Brody Dalle no auge dos Distillers, Mia Zapata cantando no The Gits até ser brutalmente silenciada-assassinada, Patti Smith encarnando aqueles orixás brilhantes que ajudaram a parir obras-primas como Horses e Easter.

Os Interrupters são mais uma prova inconteste do poderio feminino no punk rock, um estilo musical que conta entre seus greatest chick-artists um time deste nível: Patti Smith, Blondie, Sleater-Kinney, Elastica, Breeders, X-Ray Spex, Hole, The Gits, Bellrays, Bikini Kill…

Uma canção como “Jenny Drinks” é um exemplo do quão foda o Interrupters consegue ser: sobre uma máquina de groove que evoca o The Clash ou o Gang of Four, a banda descreve a mina vida lôka Jenny, uma junkie a quem se dá voz no refrão da canção para que ela enuncie, em desespero altissonante:

“The world just ain’t ready for a spirit like me!
I never been so frustrated with humanity!
And I suppose that I’m the one who seems crazy!
But the world just ain’t ready for a spirit like me!”

Um certo espírito nietzschiano está aí manifesto: a sensação de ser “extemporâneo”, de ter “nascido póstumo”, como Nietzsche dizia de si mesmo.

A Jenny, eu-lírico da canção, provável alterego de Aimee Allen, sabe que gentileza não é fraqueza. Seu senso apurado de inadequação provêm de seu inconformismo: ela não se conforma em abaixar-se até a mediocridade que reina no tempo contemporânea.

E assim grita à rosa dos ventos para que todos ouçam: “o mundo não está preparado para um espírito como eu / nunca estive tão frustrada com a humana / e eu suponho que sou quem parece louca / mas o mundo não tá pronto pr’um espírito como eu!”

O aspecto político deste desespero inconformista fica mais explícito em “Take Back The Power” e “Babylon”. A primeira reativa afetos insurrecionais presentes no Rage Against the Machine, no System of a Down, e mete no trilho de um delicioso punkpop TheClash-esco. A segunda, adere a um tom imperativo e tenta afetar nas massas a rebelião: “Rebel against the kings of Babylon!”

BABYLON
God made man and man made kings
And the kings rule man and they bring the suffering
When the people rise up they see it as a riot
They wanna have control so you can’t be self-reliant
They make your world and don’t make an alliance
They sell your soul, they will buy it for a dime
They sell it for a dollar, so they can turn a profit
It’s a vicious cycle and the only way to stop it:
Rebel against the kings of babylon!

Yeah: they got the swords and the spears
and the bows and the knives
But we’ll fight it with our brothers
And our sisters for our lives.
Rebel against the kings of babylon!

A extraordinária cantora que encabeça o quarteto, Aimee Allen, tem alguns trampos pré-Interrupters que vale a pena conhecer, a começar por “I’d Start a Revolution If I Could Get Up in the Morning”, canção título do álbum homônimo e que tornou-se famosa na trilha sonora da série Birds of Prey:

Batizando a nossa era como The Age of Outrage, o Interrupters denuncia os poderosos e suas máscaras, trazendo abaixo o engodo e a fraude por trás das media sensations. Realizam assim um trampo de importância social ao tirar um sarro e lançarem um alerta aos que ficam pagando micos ao tratarem imbecis psicopatas e fascistas monstruosos (como Trump ou Bolsonaro) como se fossem Mitos:

Aimee Allen, em toda sua versatilidade, é uma artista imensamente colaborativa. As parcerias são notáveis: com o Sublime, gravou “Safe and Sound”; com Tim Armstrong do Rancid, “Phantom City” e “Got Each Other”; com um tal de Scott, um álbum inteiro (ao vivo e em clipe abaixo:).

Para além dos memoráveis e cantaroláveis refrões, a banda vem para interromper a caretice de um cenário que parece ter esquecido a lição do The Clash, a de que o único sentido de uma banda existir é tentar ser a “única banda que importa”.

A ponte Rancid – Interrupters aparece na atualidade histórica do punk-rock-em-movimento como uma reativação daquele espírito salutar que animava Joe Strummer, Mick Jones e Cia. Os Interrupters sabem-se enraizados em uma história linda e cujo legado tem que ser berrado para as próximas gerações – e é o que acontece no hino-de-empoderamento “11th Hour”, um emblema do poderio do punk como forma estética e ruptura comportamental. Tudo isso cabe em 2 minutos e meio de pura dinamite estética:

Neste esplêndido tributo (dê o play acima) prestado a uma das melhores bandas punk da história, o Rancid, quem homenageia os mestres é o quarteto ska-punk mais quente da atualidade, The Interrupters.

Honrando o legado do Rancid, os Interrupters replicam e reativam todo aquele ímpeto indomável, aquele entusiasmo afetivo, aquela salutar idolatria pela “Única Banda Que Importa” (o The Clash), toda a lírica subversiva e rançosa desses punkrappers do gueto, todo o espírito de equipe-em-plena sintonia que ajudam a consagrar …And Out Come The Wolves (1995, Epitaph Records) como um dos melhores álbuns já paridos na história deste treco ruidoso, rebelde e rude que se chama rock’n’roll.

A poesia questiona onde começa e termina o Poder:

THE 11TH HOUR

“Hey little sister,
Do you know what time it was
When you finally seen
All your broken dreams
Come crashing down your door?

They demand an answer
And they demand it quick
Or the questions fade
And then the wasted days
Come crawling back for more

Do you know where the power lies?
And who pulls the strings?
Do you know where the power lies?
It starts and ends with you!

The face of isolation
Well that’s one you recognize
Well you can’t get straight
It’s a lonely place
And one you do despise

Boredom is for sale now
And helplessness you feel
It’s a wounded dove
And the hawks are above
Blood splattered in a reel to reel

Do you know where the power lies?
And who pulls the strings?
Do you know where the power lies?
It starts and ends with you!

I was almost over
And my world was almost gone
And in a sudden rush
I could almost touch
The things that I’d done wrong

My jungle’s made of concrete
Although the silence I could feel
My aim is true
And I will walk on through
These mountains made of steel

Do you know where the power lies
And who pulls the strings
Do you know where the power lies
It starts and ends with you
Ohh, I say: it starts and ends with you!
I say: it starts and ends with you!”

Nestes tempos tenebrosos em que somos submergidos por uma enxurrada de retrocessos civilizatórios e agressões fascistas, em que estar antenado à mídia é como estar alerta a um constante pesadelo de péssimas notícias, há pelo menos uma boa nova: o punk rock ainda grita “Liberdade & Autonomia!”

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Um minidoc A Casa de Vidro (2018, 9 min)

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Saiba mais sobre o atual cenário de poesia, literatura e artes integradas neste documentário curta-metragem realizado por A Casa de Vidro (2018, 9 min). Um filme de Eduardo Carli de Moraes.

Ultimamente, novas iniciativas vem contribuindo pra aumentar as doses de lirismo e criatividade verbal que circulam nas veias da capital de Goiás. Para sondar estas efervescências poéticas, ontem documentamos alguns destes agitos em vídeos filmados com esta trupe bacaníssima: Mazinho SouzaRaissa PagaldayRosa Neves e Gabi Rodrigues, galera que vem participando ativamente deste cenário.

Este curta-metragem, de 9 minutos e pouco, ainda serve para contrabandear versos do Bruno Brogio (declamado por Mazinho), de Maha Iza (declamada por Raissa), de  Paulo Manoel, de Rosa Neves, de Pio Vargas.

COM CATUPIRY

Já se pensou que o homem comum poderia
mudar tudo
que o homem comum não é um
é um milhão
e que da força dessa união se formaria uma
muralha
com corpos de sonho e margarida

mas o homem comum tá distraído
pela bola rolando
a novela passando
o pastor que não é santo
e de vez em quando
pela própria vida
os amores, os terrores
a dificuldade, a delícia
a falta de perspectiva
e de um salário justo

o homem comum tá preocupado demais pra pensar
o homem comum gosta mesmo é de coxinha de frango.

Bruno Brogio

Já pra trilha sonora convidei meu queridíssimo Sergio Moraes Sampaio, com “Cada Lugar na Sua Coisa”:

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia na calçada
Lugar de quadro é na exposição
Lugar de música é no rádio

Ator se vê no palco e na televisão
O peixe é no mar
Lugar de samba enredo é no asfalto
Lugar de samba enredo é no asfalto

Aonde vai o pé arrasta o salto,
Lugar de samba enredo é no asfato
Aonde a pé vai se gasta a sola
Lugar de samba enredo é na escola

A Poesia, pra quem está antenado ao que vem rolando no cenário artístico underground, vem marcando presença cada vez mais forte em Goiânia, tomando conta de festivais como o já tradicional Juriti – Festival de Música e Poesia Encenada e o novo-em-folha Goiânia Clandestina (que já realizou 2 edições e ainda realizará mais 3 até Dezembro).

Espaços como Evoé Café com LivrosLivraria Palavrear e a nova Casa Liberté são alguns dos points onde você corre o sério de risco de ser atropelado, de repente, por um caminhão de poesia. Apesar dos percalços, a Poesia mostra-se resiliente em propostas culturais louváveis como o Sarau das Minas GO, organizado pela Carol Schmid, ou a Feira E-cêntrica da Larissa Mundim & Rico Lopes.

Em saraus e slams, em feiras de economia alternativa ou em batalhas de MCs, a Poesia, vibrante e multiforme, toma conta dos espaços e praças da cidade. Está colada nos lambes pelos muros, gritando nos pixos, multicor e psicodélica na poesia visual dos muros (como expusemos no filme Gastrite, lindo trampo dirigido pelo Hugo Brandão, uma obra essencial para pensar o presente e o futuro das poéticas visuais na nossa urbe).

A Poesia, indomável, vem circulando também em zines punk (que o digam Matheus Germano e Gil Célio) e em antologias de poetas goianos, como é o caso “Antologia Clandestina” – que já esgotou suas 500 cópias iniciais e está com inscrições abertas para a 2ª Edição.

Ffiquem atentos, escritores locais: as inscrições encerram em 03 de Outubro; envie já seus versos para

curadoriagoianiaclandestina@gmail.com

e corra o risco de ir parar na coletânea mais chocantemente poética que será lançada neste ano cá na Goiânia véia do Cerrado.

Na antologia #1, 22 poetas inéditos dividem as páginas deste poderoso artefato literário clandestino. É o caso de poetas como Paulo Manoel, que manda versos direto no queixo, nos levando quase a um nocaute estético, como estes:

AÇÕES AFIRMATIVAS

Quando não tem ninguém olhando
Os três malucos das três raças
Saem da Praça, sobem a Goiás
E dão uma surra no bandeirante

A Poesia, irreverente e incansável, está também nos livros publicados recentemente por Walacy Neto, pela Nega Lilu Editora, pelo Adérito Schneider e a galera do Cidade Sombria

E não poderíamos deixar de mencionar as letras de música, em que a Poesia também hoje efervesce lindamente no caldeirão da arte goianiense. A Poesia, sempre tornando a vida mais doce e tragável apesar de suas muitas amarguras, vem usando como seu veículo as canções maravilhosas de Salma JôDiego De MoraesKleuber Divino GarcezDiego W’anderCamilo LuizaAdriel ViníciusVitor Hugo LemesFlávia Carolina AlmeidaPaula de Paula, Dinho Fernando Almeida FilhoBruno BrogioJordana LuzNegra, Carlos BrandãoNina SolderaA Jay Ajhota, dentre muitos outros.

Poucas cenas musicais alternativas no Brasilk atual, creio eu, possuem tanto alimento a proporcionar aos que tem fome de poesia, ânsia de beleza, sede de lirismo, vontade de criatividade e colaboratividade. É fenomenal que coexistam no mesmo-espaço tempo sócio-cultural estes fenômenos, sincrônicos e complementares, que fazem de Goiânia um dos maiores centros latino-americanos para a música alternativa: Boogarins, Carne DoceDiego MascateChá de GimAveEva, @CambrianaPó de SerBanda, Shotgun WivesTerra CabulaBanda Mundhumano etc. Porra, QUE CENA!

É poesia pra dar com o pau. É poesia que ameaça em breve pôr em estado de delírio lírico toda essa metrópole. E não tenham medo de overdose… pois de Poesia em excesso nunca se morre.

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P.S. – Evocações de Pio Vargas (fantasma de poeta defunto-vivo, pretérito-presente), para quem “o acaso é uma empresa para a qual tudo conspira”:

considerações necessárias

é preciso tirar a poesia da clausura dos concursos, das gaiolas do acaso, do exílio das gavetas, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno.

poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor. poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.

poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não. pois ia ousar um dia popularizar a poesia.

viva a poesia viva!”

https://acasadevidro.com/?s=Pio+Vargas

Pio Vargas (1964-1991)

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Aproveito o gancho e convido vocês a assistirem também meus outros filmes recentes:

“Afinando o Coro dos Descontentes”: PLAY >>> https://bit.ly/2NmELK9

“O Futuro nos Frutos: As Semeaduras do Encontro de Culturas”: PLAY >>> https://bit.ly/2pihvib.

Valeu a todos os artistas que estiveram colaborando e somando com meu trabalho. A gratidão não cabe em palavras. Sigamos adiante, contando com as benesses do Acaso, aquela empresa para a qual tudo conspira.

Por Eduardo Carli de Moraes / Goiânia, Setembro de 2018

“Yo quiero caminar donde no hay senda…”

SEMILLAS (SEMENTES)

Linda canção nas vozes de Muerdo e Lola Membrillo do Perotá Chingó

Yo quiero caminar donde no hay senda
Donde nadie cantó ya mi cantar
Yo quiero caminar por las veredas
De un río que mañana nacerá
Y tiraré semillas a la tierra
Semillas que muy pronto brotarán

Déjame ver cómo va entrando por mis pies
Es la tierra latiendo que va encendiéndome la piel
Y puedo ver la raíz sentirme tierra también
Quiero sentir mares vertiendo sobre mí
Todo el agua que empuja lo que no quiere salir
Y lo que no me hace bien lo voy echando de mí

Tendré que navegar contra mareas
Que tratan de arrastrarme hasta el final
Mas quiero yo volar con alas nuevas
Que iré haciendo de acordes y al compás del ritmo
Y tiraré semillas a la tierra
Semillas que muy pronto brotarán
Y traerán amor y llevan guerra
Que traiga redención y libertad

Déjame ver cómo va entrando por mis pies
Es la tierra latiendo que va encendiéndome la piel
Y puedo ver la raíz sentirme tierra también
Quiero sentir mares vertiendo sobre mí
Todo el agua que empuja lo que no quiere salir
Y lo que no me hace bien lo voy echando de mí

Clipe Oficial

Voz-e-violão

Todo Mundo Nasce Artista

Todo mundo nasce artista
Depois vem a repressão
Não faz arte, diz a tia
Vê se deixa de invenção

Todo mundo nasce artista
Depois vem a castração
E o artista que há em nós
Vai do quarto pro porão

Todo mundo nasce artista
Depois vem a podação
E a vida fica triste,
Sem arte, sem emoção

Todo mundo nasce artista
Depois vem a piração
Alcoolismo, suicídio
Doença mental, depressão

E essa doença tem cura!
Existe uma salvação!
Faça arte! faça arte!
Mesmo que sua mãe diga que não

Aíla


Dê o play:

 

SENTIMENTOS GRUNGY NA ERA TRUMP – O suicídio de Chris Cornell, a Renascença do Stone Temple Pilots, e a redescoberta do Hole

Como a mítica Fênix, que não cessa de renascer das cinzas, o GRUNGE renasce de suas tragédias. Sua maré no mainstream já passou, mas os sentimentos grungy sejam vivos na Era Trump. Fazendo frente ao baque tremendo que foi para este cenário pós-grunge o suicídio de Chris Cornell (Soundgarden / Audioslave), o cenário tenta se reinventar.
Stone Temple Pilots renasce agora após duas outras mortes: a de Scott Weiland (vocalista dos 6 primeiros álbuns) e a de Chester Charles Bennington (do Linkin Park, que gravou apenas 1 EP como cantor do STP, em 2013, tendo se suicidado em 2017). São os corações ensombrecidos pelas tragédias reais, que recolocam tudo em clima de “Hunger Strike”:

“I don’t mind stealing bread
From the mouths of decadence
But I can’t feed on the powerless
When my cup’s already overfilled…”

Temple Of The Dog (1991) – Com Eddie VedderChris Cornell, Jeff Ament, Mike McCready, Jeff Ament, Matt Cameron.

Somando-se neste caldo as mortes trágicas de Kurt Cobain e Layne Stanley, pra não falar na overdose fatal de Andrew Wood (do Mother Love Bone) nos primórdios da saga Pearl Jam), temos um microcosmo cultural assombrado pela recorrência de fins-da-vida violentos, de pungente tragicidade, o que também se expressa nas sombrias e intensas paisagens sônicas que marcaram para sempre a estética contemporânea com as obras de Screaming Trees, Mudhoney, Nirvana, The Gits, dentre tantas outras bandaças.

“Roll Me Under” traz todo o peso e intensidade dos grandes dias do grungy noventista de novo ao primeiro plano, ilustrando sua mensagem sônica impactante com um clipe meio Into the Wild, evocando a vertente Steppenwolfiana que sempre nutriu o estilo grunge, este ethos do rock’n’roll que tão bem entremesclou o punk, o heavy metal e o indie-garage, reinventando para sempre a estética musical dos anos 1990.

Quem assume os vocais neste retorno do STP em 2018 é Jeff Gutt, que vem sendo chamado por alguns críticos de “um Scott Weiland bem-comportado”: “He nails how the late singer could slide from a snarl to a sigh, conjuring a bit of a snaky sexuality while still seeming a bit safe”, escreveu Stephen Thomas Erlewine em sua crítica para a AllMusic.

As 12 músicas novas demonstram uma banda ainda vigorosa e re-colocam o Stone Temple Pilots no epicentro do rock mainstream global para disputar as atenções com as mega-bandas Foo Fighters, em que Dave Grohl decolou após o naufrágio do Nirvana, e o Pearl Jam, já uma instituição consagrada da música global, que em breve completa 30 verões, merecendo um lugar de honra na História do Rock na companhia de um Neil Young & Crazy Horse ou de um Grateful Dead.

Já o STP, que sempre soou mais despretensioso e menos grandiloquente que o Pearl Jam, retorna para mostrar que um dos caminhos mais interessantes para a evolução do estilo grunge estava na tentativa de mesclá-lo com a new wave, o punk rock 77, o glam à la T.Rex. O poderio guitarrístico da banda sempre foi impressionante, desde os estupendos álbuns iniciais “Core” e “Purple”, e em 2018 eles não demonstram nenhum desejo de se aquietar. Os amps continuam no talo, o batera continua batendo forte, os riffs continuam te enganchando pelo queixo e batendo contigo nas paredes até tirar sangue.

O STP é uma daquelas raras bandas que pode soar alegremente subversiva como atos punk seminais como Johnny Thunders and the heartbreakers ou Richard Hell & The Voidoids, e na próxima faixa já se transmutar num denso e desesperador propagador de um estilo de rock grave e angustiante, à maneira das bandas históricas do movimento como Screaming TreesSoundgarden e Alice in Chains.
É um álbum que agrada e empolga por mostrar artistas grunge em plena forma, e prometendo ainda muito futuro. O grunge resiste! Ainda que o melhor álbum lançado ultimamente na estética grunge não tenha sido feito por uma banda que assim se rotule, ou que a este cenário cultural se vincule: me refiro ao “Wilderness Heart”, do Black Mountain, que fez neste álbum uma obra-prima do gênero, com canções magníficas como “Rollercoaster” e “The Hair Song”.

Com muito gosto ouvi este comeback do STP, um disco tão agradável de ouvir, tão lindamente executado, tão “radiofônico” (até mesmo no sentido Bon Joviano do termo), que quase nos convida a abandonar qualquer pose de crítico musical e simplesmente recomendar aos amigos: “ouve lá, é um discaço da porra!” A música fala bem em sua própria defesa e até nos desarma da iniciativa inglória de perguntar pelos interesses econômicos que possam estar envolvidos nesta empreitada, certamente acusável pelos críticos mais “cricos” de ser um “caça-níqueis”.

A indústria da música é de fato uma mina de ouro e não está fora de cogitação que o STP se enxergue como uma empresa, e das mais lucrativas. Mas isto não significa que estes caras não tenham algo a dizer artisticamente. Seria bem injusto, aliás, taxar de “comercial” uma banda que nunca abriu as pernas para o Sistemão do Rock Mainstream como fizeram os Creeds e Nickelbacks. O Stone Temple Pilots seguiu com seus fios elétricos plugados nas tomadas do Grunge noventista, soando como banda independente que teve acesso aos estúdios de gravação do Big Business – e soube se aproveitar disso.

Se o cérebro coloca estas questões, questionando se há vontade de grana alta por trás da nova encarnação do STP, os tímpanos e o coração simplesmente embarcam no rollercoaster deste álbum pulsante e cheios de belos thrills. Fazia tempo que um álbum de estilo grungy chegava com tamanho estrondo – que o Queens of the Stone Age  se cuide, pois tem rival forte de volta na cena!

Saudamos a chegada deste álbum como uma bela anfetamina musical para nossos tempos em que o Grunge segue tendo muitas razões para existir. Pois temos direito à divergência e a dissonância. E queremos nossa fúria tomando de assalto as ondas do rádio!

A alucinógena borboleta que estampa a capa do disco, e que parece a obra de algum artista das HQs que tomou um peiote, indica de modo simbólico o poder desta banda: dentro da borboleta, há uma teia de aranha.

A aparência mais englobante, da bela butterfly, é atraente e sedutora, mas na essência mais interna esconde-se o perigo, o aracnídeo.

Entre as asas desta borboleta, parece caber todo o caos e maravilha do mundo – e o som que fazem estas asas ao voar indica que, por mais agradável que seja esta rock-sinfonia, propulsionada pelos músicos como um foguete, pulsa aqui também algo de perigoso.

Algo que morde, que devora, como um aranha faz com o inseto que cai em sua teia.

As reações iniciais da imprensa musical parecem ser muito positivas, com reviews que destacam o quanto o álbum traz “a banda lidando emocionalmente com suas tragédias”:

The album comes after STP’s tragic last few years which saw the deaths of Scott Weiland and Chester Bennington. Losing two singers in such a short period is really one of the biggest tragedies in rock history, to see STP come back with a new album with some really triumphant sounding songs is powerful especially on the first few listens. Scott and Chester’s spirits are definitely felt throughout the album.” – Alternative Nation

Chester e Scott, dois mortos precoces do rock contemporâneo, somados à ausência monumental de Chris Cornell, também recentemente suicidado, mostram que a Era Trump, nos EUA, está sendo também a de uma maré cultural de redescoberta do grunge, em tudo aquilo que ele tem de problemático e obscuro. A Geração X ainda está entre nós, assim como o Fantasma de Kurt Cobain, assombrando com sua poesia atormentada a propaganda do cartão postal chamado American Dream, aquele em que só acreditam os que estão dormindo.

O grunge parece passar pela história da cultura humana como uma espécie de híbrido entre tragédia e resiliência. Um movimento cultural que sobrevive a todas as suas tragédias, que se reinventa na mudança: Mark Lanegan cantando com o QOTSA, Josh Homme e Dave Grohl (dos Foo Fighters) flertando com o que restou do Led Zeppelin (Them Crooked Vultures), Alice In Chains seguindo em frente com novo vocal após a morte de Layne Stanley… Para não falar da farta colheita que foram as passagens de Cornell e Weiland pelo mundo, já que eles também povoaram nosso horizonte artístico com as criações de Audioslave e Velvet Revolver, além dos respectivos álbuns-solo…

Enquanto seus heróis vão caindo mortos, o grunge segue em frente como pode, aos trancos e barrancos. E no epicentro deste drama, segue queimando supremo o inesgotável Nirvana: Cobain não precisou de mais que 27 anos de idade para causar um terremoto cultural que não dá sinais de que irá simplesmente desaparecer, e em pleno 2018 aquele som que smells like teen spirit está por aí, pulsando no coração do Império decadente!
O retorno, em tão boa forma, do Stone Temple Pilots nos mostra isso: o ímpeto nirvânico está sendo re-acendido. A Fênix grunge alça vôo outra vez. E ela vem enraizada no passado, atenta ao novo e disposta a ser ouvida em toda sua dissonância e dissidência.

Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

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OUÇA O ÁLBUM COMPLETO:


LEIA TAMBÉM:

SOMOS SEMENTE! Lançado video-clipe oficial da canção “Peles Negras, Máscaras Brancas” de VH & Luz Negra

SOMOS SEMENTE!

Está no ar o video-clipe oficial da canção “Peles Negras, Máscaras Brancas” de VH (Vitor Hugo Lemes) e Jordana Luz Negra, com produção de Saggaz Beats. Um videoclipe de Eduardo Carli de Moraes, assistido por Ramon Ataide. Um lançamento A Casa de Vidro e Confluências: Festival de Artes Integradas. Com participações de Bergkamp Magalhães, A Jay Ajhota, Hugor Henrique, Gabriel Uri, Daniel da Silva. Assista já:

SAIBA MAIS:

“Peles Negras, Máscaras Brancas” é a quinta faixa da mixtape homônima, primeiro trabalho autoral do MC “VH”, que compõe o grupo Caseiro. Canção e mixtape foram inspiradas no primeiro livro de Franz Fanon, filósofo do séc. XX que debateu a fundo os temas da descolonização e da libertação dos povos oprimidos, tendo dialogado também com o existencialismo francês, mas é raramente lembrado nos círculos intelectuais das grandes academias mundo à fora senão por aqueles que têm um interesse genuíno por essas questões.

Este trabalho de VH & Luz Negra leva em seu cerne a proposta de discutir temas como o racismo, a resistência e a marginalidade, tanto no âmbito das expressões culturais como na perspectiva da construção dos saberes. Saberes esses tantas vezes reprimidos por uma estrutura colonizadora, eurocêntrica e imperialista, que de certo modo buscou sempre legitimar a hegemonia branca numa sociedade construída pela pluralidade, mas nunca em prol desta. Nesse sentido, a chamada Expressão Negra se viu forçada a sucumbir cada vez mais ao “embranquecimento” e as “máscaras” não eram outras senão um modo de ser aceito, um meio de sobrevivência, numa estrutura que exclui e assassina estéticas e modos-de-existência que incomodam.

Por outro lado, houve sempre a resistência, uma resistência que de modo algum se separa da vida e da própria existência do povo preto. Da cultura da oralidade às expressões culturais e religiosas, “pretos e pretas fazem da arte a sua trincheira”. Ou seja, o Samba, o Funk, o Rap, o Jazz e tantos outros estilos cumprem uma função maior que a meramente estética, ainda que esta seja inquestionável: além disso, propagam a vida, a existência e o grito daqueles que nunca puderam ser ouvidos.

O vídeo-clipe, apostando na confluência das diferentes linguagens artísticas, visa recuperar o radicalismo originário do Movimento Hip Hop, que une as expressões do MC, do DJ, do breakdancer e do grafiteiro, tendo o Conhecimento como o “quinto elemento”, na expressão de Afrika Bambaata, que dá liga a tudo.

Filmado em lugares representativos da capital de Goiás, o petardo audiovisual convida à ocupação criativa e ousada dos espaços públicos, registra intervenções diretas no cenário urbano e re-significa de modo crítico alguns dos monumentos da cidade, como a Estátua ao Bandeirante Anhanguera e o Monumento das Três Raças da Praça Cívica.

Além disso, coloca os artistas em interação com grafites, pixos e outras irrupções artísticas no cenário goianiense, com destaque para um mural em homenagem a Marielle Franco, símbolo da luta interseccional por direitos humanos para mulheres, negros e LGBTs, brutalmente assassinada no Rio de Janeiro por denunciar os descaminhos da Intervenção Militar, mulher-guerreira cuja morte, em Março de 2018, comoveu o Brasil e o mundo, merecendo aqui ser rememorada e ter a potência de sua vida resistente re-ativada.

Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos semente!

Suba o volume, abra bem os olhos, dê o play e boa viagem!

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FICHA TÉCNICA:

Participantes: VH & Luz Negra
Instrumental / Mix / Master: Saggaz Beats
Captação: Estúdio NEO Pub
Colagens: Allan da Rosa & Provocações (o bloco do negro)
Audiovisual: Eduardo Carli de Moraes
Assistente de Produção: Ramon Ataide
Elenco: Luz Negra, A Jay Ajhota, Bergkamp Magalhães, Hugor Henrique, Gabriel Uri, Dam Caseiro e VH.
Poesia citada no clipe: “Ações afirmativas” de Paulo Manoel

Contato: caseirorapgyn@gmail.com #pelenegramascarasbrancas #vh

Um agradecimento especial a todos os envolvidos!

ASSISTA JÁ: https://goo.gl/SnHahi.

LETRA – Por Vitor Hugo Lemes

Máscaras brancas em peles negras
Pretos e pretas
Fazem da arte sua trincheira
O Rio Vermelho num é só em Matrinchã
Se duas das três raças descem à praça
O bandeirante leva péia.
Na santa ceia das acusações
Coronéis e capatazes inda tem suas funções
Na política e nos batalhões
Inda há brasões, inda a brasa
Que acendem essas fogueiras da inquisição
Do genocídio de milhões, nas invasões
Senhores de engenho e sinhás lucraram milhões
Minha ancestralidade é nunca ser Camões
Contra os canhões meu povo investiu com as próprias mãos
Negro igual Machado de Assis ou de Xangô
Dom Casmurro, com as mãos, com os murro, o beat eu surro
E vou mostra pra vocês o que é que rap sujo
Sou livre, me aflige chamar porcos de ‘sinhô’.

Peles Negras, Máscaras Brancas
Se eu li os franceses onde Franz Fanon tá?
No alto escalão são mais caras brancas
Meus irmão são preto e nós vamo tomar

Velhos decrépitos da colonial aristocracia caduca
Caminham tranquilamente pelas ruas do centro.
Oeste à dentro madames tão à vontade em meio a art déco
que aos anos 50 já era declínio.
A estátua de um implacável genocida escravocrata
Segue intacta no ponto alto da cidade.
‘Diabo velho’ atrás de ouro e prata. (A prata foi com os frades)
Hoje herói, mas não mais.
São rude boys, marginais
Que resgatam dos destroços do tempo
O genocídio, os assassinatos e o holocausto
De todos os dias em becos e esquinas.
Caminhando sob o sol ardente, ou fumando sentados,
escrevem na torrente “3”
e esperam outra vez o serviço inacabado.
O velho preconceito nada velado dos velhos que
Quando não encaram, faltam quase cruzar a rua pelo outro lado.
E o caso é que há sempre espaço pro novo,
contesta-se o consolidado, como Belchior,
tomemos de assalto seus palcos montados para outras intervenções.
Chega de óbitos dos nossos. (Cadê o Sabotinha?)
Numa utopia de moldes distópicos alguém sonhou
Com um escritor negro, vagando pelas ruas da cidade,
um cigarro nos dedos e um sorriso doentio nos lábios.
Escrevendo versos sádicos, sádicos…

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