CINEPHILIA COMPULSIVA – Trajetórias cinematográficas: Listas de filmes assistidos em 2017 / Parte 2 (Julho a Dezembro)

CINEPHILIA COMPULSIVA
Trajetórias cinematográficas
Itinerários 2017 / Parte 2 (Junho a Dezembro)

“Animal Político”, de Tião
(Pernambuco / BR, 75 min, 2017)



CANÇÃO DA VOLTA (2016, 1h 38min)
Direção: Gustavo Rosa de Moura
Elenco: Marina Person, João Miguel, Marat Descartes.



CORRA! (Get Out), de Jordan Peele (EUA, 2017)
Reviews: Salon



MUNDO CÃO (2016), um filme de Marcos Jorge. Com Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Babu Santana
Disponível no Netflix Br





A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA,
um filme de Vinicius Coimbra, inspirado em conto de Guimarães Rosa



À Queima Roupa, Documentário de Theresa Jessouroun (Brasil, 2014).



Trash (2015), um filme de Stephen Daldry e Christian Duurvoort,
baseado no romance de Andy Mulligan, com Wagner Moura e Selton Mello.

Resenhas em Rotten Tomatoeshttps://www.rottentomatoes.com/m/trash_2015



 


COMO FUNCIONAM QUASE TODAS AS COISAS
Um filme de Fernando Salem (Argentina, 2016)
Assistido em Goiânia durante o Sappi no Lumière Bougainville




BORN IN FLAMES ou NASCIDAS EM CHAMAS
de Lizzie Borden



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CINEPHILIA COMPULSIVA

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A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS – Sobre o filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS
por Eduardo Carli de Moraes​

“Nós somos todos refugiados”, dispara Carmem Silva, uma ativista da Frente de Luta por Moradia (FLM) de São Paulo. “Somos refugiados da falta dos nossos direitos.”

Carmem, esta mulher da vida real que interpretou a si mesma em “Era o Hotel Cambridge”, fusão de ficção e documentário, talvez seja a responsável pela frase mais emblemática deste memorável, contundente e relevantíssimo filme dirigido por Eliane Caffé.

O filme é espetacular por sua capacidade de transcender o cinema e tornar-se um evento cívico, um acontecimento político, uma “experiência de cinema colaborativo em São Paulo que aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática.” (Rede Brasil Atual)

Eliane Brum​, em artigo magistral para EL PAÍS Brasil​, disse que o desembarque entre nós deste OVNI cinematográfico equivale a “um acontecimento político-cultural capaz de expressar as tensões e a potência do Brasil atual”:

“O Hotel Cambridge, personagem central do filme, foi na vida real de São Paulo um hotel de luxo construído no final anos 50 com evocações hollywoodianas. Com o crescimento da cidade e o abandono da região central pelos mais ricos, ele testemunhou sua própria decadência. Em 2004, cerrou suas portas e tornou-se mais um esqueleto do centro, um morto insepulto, abandonado ao vazio. Em 2012, foi ocupado pelo movimento dos sem-teto, uma das forças de maior potência da maior cidade do Brasil.

O hotel foi ocupado por cerca de 140 famílias, mais de 240 crianças. A quantidade de meninos e meninas fica explícita em cuidados como um surpreendente e bem organizado estacionamento de carrinhos de bebê. Na dinâmica da especulação imobiliária, que se impõe como uma lógica questionada por poucos, o fato de o Cambridge ter ficado abandonado por oito anos, juntando lixo e empoçando água, tornando-se um criadouro de mosquitos numa época de dengue, zika e chikungunya, não parece ser um problema para a população.

Já quando o velho hotel foi ocupado para a moradia de quem não tem, os ocupantes são tachados de “invasores” – e a urgência de sua denúncia é apagada pelo processo perverso da criminalização.”

(ELIANE BRUM – Leia na íntegra em http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/20/opinion/1490015804_432739.html)

Em “Era o Hotel Cambridge”, baseado em livro de Carla Caffé, o cinema brasileiro alça-se às alturas artísticas que dele se espera por sua gloriosa história pregressa (de Glauber e Sganzerla, a Meirelles e Coutinho, com incontáveis outros gênios que poderiam ser lembrados). É uma obra coloca-nos algumas questões cruciais para o século 21, época em que vivenciamos a pior crise de refugiados no pós-2ª Guerra Mundial (1939-1945) (sobre o tema, leia: Vladimir Safatle) e em que as utopias urbanas têm insistido em sonhar e construir outros mundos possíveis baseados em ideários como “se a cidade fosse nossa….”.

“Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.” – CAROLINA CAFFÉ em REDE BRASIL ATUAL – Click e leia o artigo na íntegra

Refugiados e imigrantes provenientes do Congo, da Palestina e da Colômbia estão entre os personagens principais desta obra polifônica, rica em diversidade humana, em que Eliane Caffé inscreveu de vez seu nome nos anais da 7ª arte em nosso país. Desde já, a obra merece ser estudada nas aulas de sociologia, já que torna explícita a práxis deste conceito, às vezes compreendido de modo demasiado teórico ou abstrato do  Direito à Cidade, tão essencial na obra da cientistas sociais como Henri Lefebvre e David Harvey (autor de Cidades Rebeldes), e que possui no Brasil um de seus principais pensadores e praticantes na figura do Guilherme Boulos, filósofo e líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Eliane Caffé já havia realizado um filmaço com “Narradores de Javé” (2003), onde um banquete linguístico de deixar contente qualquer fã de Guimarães Rosa, José Cabral de Melo Neto ou Ariano Suassuna somava-se à descrição de um drama social que retorna ao foco, ainda em que transformado e em outras condições, em “Era o Hotel Cambridge”.

Ambos filmes falam sobre aqueles que são refugiados no Brasil, apesar de serem brasileiros; são gente que poderia figurar no tratado “Os Excluídos da História”, da historiadora francesa Michelle Perrot (Ed. Paz & Terra); são aqueles que foram expulsos de seu direito constitucional à moradia, ao território tradicional/originário, ao usufruto da terra que nos é comum.

São gente como a gente, da qual subtraem-se direitos a fórceps. São gente que sofre na carne as incontáveis desumanidades institucionalizadas que em toda parte vem maculando esta Terra que hoje encontra-se toda conspurcada pelas cercas, arames farpados e muros altos edificados pelas elites dos privilégios.

Em “Narradores de Javé”, os refugiados são os moradores do vilarejo de Javé, que está sob ameaça de desaparecer debaixo d’água devido à construção de uma gigantesca hidrelétrica. É surpreendente notar que um filme realizado no ano de 2003 pode hoje soar profético, emblemático de uma era do nosso Brasil que prossegue vigente 15 anos depois. É como se Eliane Caffé tivesse previsto com uma quase miraculosa clarividência, desde o começo do século, que vivenciaríamos os conflitos e antagonismos que hoje nos atravessam com os projetos à la Belo Monte e os fluxos migratórios desordenados e caóticos que hoje ocorrem pelo globo afora, piorados após as desastrosas campanhas da chamada Guerra Contra o Terror no Oriente Médio.

A resistência rural à redução do cidadão ao estado de refugiado interno tinge “Narradores de Javé” de um teor contestatório latente, transformando o filme, que poderia ser visto apenas como excelente entretenimento, a um só tempo humorístico e pedagógico, ao patamar mais alto das obras-de-arte que são também documentos históricos e sócio-culturais. É uma obra que permite-nos, por exemplo, avançar uma compreensão mais cheia de empatia e de entendimento dos dramas atuais como a luta do povo Munduruku contra as hidrelétricas no Rio Tapajós.

Em “Era O Hotel Cambridge”, os refugiados são os moradores da megalópolis paulista que têm negados pelos gestores palacianos da sociedade a chance, constitucionalmente garantida, à casa própria e digna. São aqueles que, obrigados por circunstâncias adversas a ocuparem imóveis abandonados, dão suor e sangue a prédios abandonados com a nova vida que lhe infundem através da ocupação.

A ocupa, força vivificante, resistente, que contesta o império atualmente vigente da especulação imobiliária e da gentrificação, serve como laboratório de outros mundos possíveis. Um mundo onde a propriedade de privilégios que privam concidadãos do mais básico para a existência digna seja reconhecida pelo que é: privilégio é só propriedade abusiva, ilegítima, reconhecível apenas como “roubo”, como dizia Proudhon. O privilégio é um roubo.

Em uma resenha escrita por Isabel Wittmann, ela pontuou muito bem o potencial do filme em pôr em questão o abismo existente entre a Constituição de 1988, em sua dimensão igualitária e em suas pretensões de instaurar justiça social, com nossa realidade atual, tão marcada por direitos que nos são violentamente subtraídos, em especial com a avalanche de retrocessos patrocinada pelas forças sociais e políticas responsáveis pelo Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016-2017.

“O artigo sexto de nossa Constituição Federal estipula que “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. O Estado tem a obrigação de garantir que sua população tenha moradia, mas o que fazer quando os governos não só se recusam a fazê-lo, como reagem no sentido de silenciar movimentos que tentar garantir seus direitos? Essa é uma das muitas questões levantadas em Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé.

Trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, Caffé registra o cotidiano dos moradores do Hotel Cambridge, edifício abandonado no centro da cidade de São Paulo, destacando as vivências caleidoscópicas de alguns personagens que dão corpo à experiência coletiva. A rotina, as reuniões as tarefas e momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Dentre as personagens, o destaque é Carmem, líder real da Frente de Luta por Moradia (FLM), que aqui tem sua força coordenadora descortinada para o público. Mas a narrativa é polifônica: não só se pauta em muitas vozes, como é perceptível a colaboração dos participantes com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo (José Dumont), que organiza um espécie de vlog da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Não há um foco pois o protagonista é a luta, sendo cada um apenas uma faceta dela.” (WITTMANN, Isabel)

(http://estantedasala.com/era-o-hotel-cambridge/)

Se o filme oferece-nos motivos para indignação, em especial quando desponta toda a truculência das Tropas de Choque, sob comando do Tucanistão, trata-se de um filme bem mais esperançoso do que, digamos, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. A São Paulo focalizada por ambos os filmes é semelhante: é a cidade suja, abandonada, fervilhante de contradições, vista de cima pra baixo, sob a perspectiva dos mais humilhados e ofendidos pelo Sistema; em suma, não é Sampa vista de uma heliponto na Avenida Paulista ou de uma cobertura de 5 milhões no Morumbi, é a Sampa tal como ela é vivenciada nas Crackolândias, favelas e cortiços da maior cidade da América Latina.

“Riocorrente” parece evocar uma Sampa distópica, mais dark que Blade Runner 2049​, onde um dia o Tietê virará nada menos que um rio de fogo – e os protagonistas não vão economizar nas fagulhas e faíscas que tem a fornecer pra que tudo pegue fogo.

“Era o Hotel Cambridge” acredita mais na empatia humana e na força telúrica do amor sob sua encarnação social, expandida para além da cela individual e familiar – aquilo que chama-se comumente de “solidariedade” ou “fraternidade”. O bicho pode estar pegando – a Tucanalha fardada está prestes a chegar, com toda a grosseria brucutu de herdeiros da Ditadura Militar, para cumprir mandato judicial de reintegração de posse com a delicadeza e o respeito humano que viu-se no Pinheirinho (São José dos Campos) – mas o povo, unido, pode até ser vencido, mas luta com união, fortalece-se no esforço de superação das opressões vigentes, reergue-se como Fênix de cada derrota.

Se o Brasil não é um pesadelo totalmente desesperador, é pois existem fortes focos de resistência contra a mercantilização e canalhização completa de nossas vidas. No campo e nas cidades, MSTs e MTSTs, Levantes Populares de Todas as Juventudes, resistências enraizadas dos povos indígenas e quilombolas, artistas com consciência crítica, intelectuais orgânicos atentos aos horrores galopantes, midiativistas e artivistas, dentre outras forças, fazem desta pátria pluritétnica algo muito mais interessante e amável do que a pálida e pútrida propaganda pra patriotário que é a “Ordem e Progresso” do regime Michel Temer​.

Após o golpe de Estado de 2016, “Era o Hotel Cambridge” levanta-se como uma das mais preciosas respostas da Arte Brasileira ao cenário de devastação que está sendo gestado pelos arquitetos da Ponte Para o Futuro (“imaginem quantos milhões de pobres vão morar debaixo dela”, como provoca a tirinha de André Dahmer – malvados​). Este filme pode inclusive ensinar-nos um bocado sobre solidariedade internacionalista, este pilar básico do movimento socialista, que jamais acreditou em emancipação paroquial, mas sim na união de várias emancipações coordenadas, pois onde quer que haja opressão, há resistência e ímpeto de revolução, algo a tecer em união numa grande Internacional Comunista. Com o perdão deste arroubo Trotskysta, voltemos aos refugiados…

Zygmunt Bauman, o finado sociólogo polônes que tanto nos ensina sobre o mundo atual e o drama global dos refugiados, talvez diria, assistindo ao filme de Eliane Caffé, que ele exemplifica perfeitamente o conceito de “sub-classe”, ou de “sub-gente”, que com tanta frequência é mobilizado por nossas elites que tratam vastos contingentes populacionais como simplesmente “matáveis”.

Em “Danos Colaterais – Desigualdades Sociais Numa Era Global” (Ed. Zahar), ele escreveu:

“A condição de subclasse é a de emigrados internos, ou imigrantes ilegais, ‘estranhos de dentro’ – destituídos dos direitos de que gozam os membros reconhecidos e aprovados da sociedade; em suma, um corpo estranho que não se conta entre as partes ‘naturais’ e indispensáveis do corpo social. Algo não diferente de um tumor cancerígeno, cujo tratamento mais sensato é a extirpação…” (BAUMAN, 2011, p. 10)

Esta é a ideologia do nosso inimigo: o fascismo das elites que elegem certos povos, etnias ou territórios como “zonas de sacrifício” (Naomi Klein​), lidando com gente como se fosse sub-gente, meros bichos a serem mandados para matadouros, danos colaterais a aparecerem nos gráficos dos senhores da guerra reunidos em um bunker do FMI…

Como Eliane Brum bem percebeu, “Era o Hotel Cambridge”, sem nenhum panfletarismo explícito – quero dizer, sem nunca ficar parecendo com um discurso de Guilherme Boulos – trabalhou com uma noção crucial para nós no mundo contemporâneo: a fraternidade dos refugiados.

“Esta ideia está explícita na síntese produzida por Carmen Silva, ao abrigar estrangeiros de diversas origens com brasileiros de diversas origens sob o teto da mesma palavra-casa: refugiados”. Ela sinaliza que a identidade só pode existir como atravessamento de múltiplos.

Este é o amálgama que une todos aqueles homens e mulheres, adultos e crianças que se dedicam ao absurdo da vida nos corredores do Hotel Cambridge. O amálgama que coloca os brasileiros como um “fora” mesmo dentro do seu próprio país, os estrangeiros como um “fora” de suas pátrias de origem. Mas todos eles sem refúgio de fato, exceto o do provisório, do efêmero, que constroem num antigo hotel de luxo abandonado. O único refúgio permanente é o desta identidade atravessada que permite que se movam e que confrontem o sistema por “dentro”, eles que são aqueles que foram colocados “fora”. O refúgio permanente é justamente o improvável de sua existência coletiva.

E assim, “Era o Hotel Cambridge” (…) converte-se em uma das obras culturais mais criativas e criadoras dos últimos muitos anos. E uma obra que incorpora a política, na sua expressão mais profunda, como a própria carne do seu fazer. Vida e obra se entrelaçam de tal maneira que o filme está nos cinemas e nas ruas ao mesmo tempo. Para Carmen Silva e moradores do Cambridge, a obra se tornou um instrumento de luta na medida em que se converteu em um meio para se fazer conhecer.” (BRUM)

No ano em que “Eu, Daniel Blake” (de Ken Loach) faturou a Palma de Ouro em Cannes, colocando no epicentro do debate cinematográfico global o tema das desumanidades cometidas pelo neoliberalismo reinante, e em que iniciou de modo tenso a Era Trump na Casa Branca, com ameaças palpáveis de um recrudescimento das guerras imperialistas e de uma piora tanto da crise dos refugiados quanto da insana caminhada para catastróficas mudanças climáticas, o Brasil ergue-se à altura do tempo histórico com um filme que têm algo a dizer a todo o Globo.

EXTRAS


Reportagem TVT


No estúdio TVT, entrevista com Carmem Silva, uma das líderes do Frente de Luta por Moradia (FLM)



Trailer oficial



Metrópolis – TV Cultura


Depoimento de Camila Pitanga
https://www.facebook.com/eraohotelcambridge/videos/1282159991875503/?hc_location=ufi

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS: http://bit.ly/1n6tZGn (Linha de Montagem, Greve de Março e A Luta do Povo)
 
Compartilhamos aqui 3 documentários de alta relevância histórica, dirigidos por Renato Tapajós. São importantes testemunhos históricos das lutas populares na vida política do Brasil, em especial no fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980. O foco dos filmes são as táticas de resistência contra a ditadura militar; a emergência do sindicalismo proletário no ABCD paulista com as intensas greves e épicas assembléias dos metalúrgico; os trabalhos de parto da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT); as mobilizações de rua e imensas passeatas no período de luta pela redemocratização; dentre outros temas. Confiram aí estes essenciais docs de Tapajós: “Linha de Montagem”, “Greve de Março” e “A Luta do Povo”, na íntegra:

LINHA DE MONTAGEMcartaz linha de montagem

Memorial da Democracia: O documentário “Linha de Montagem”, do cineasta Renato Tapajós, foi realizado no calor do movimento operário do ABC paulista. O enredo se desenvolve entre a organização das greves e a força do líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Lula. O lançamento do filme ocorreu na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP). No meio da projeção, a Polícia Federal tentou apreender o filme, que não tinha certificado de exibição. Os próprios operários salvaram uma cópia.

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GREVE DE MARÇO

“Greve de Março” aborda, em 35 minutos, a primeira fase da greve dos metalúrgicos do ABCD paulista, em 1979. Foi realizado para ser exibido aos operários durante a trégua entre as duas fases da greve, com o objetivo de mobilizá-los para a segunda fase. O filme mostra as grandes assembleias com mais de 100 mil metalúrgicos, a mobilização em vigília no Sindicato, os conflitos de rua e a volta triunfal da diretoria – encabeçada por Lula – na grande assembleia em que a trégua é proposta.

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A LUTA DO POVO
A Luta do Povo



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DO MESMO DIRETOR, ASSISTA:

O ROSTO NO ESPELHO

Um documentário de Renato Tapajós

Sinopse: Um documentário que investiga a relação entre os movimentos culturais de hoje e a transformação social, revelando um Brasil profundo e multicultural, geralmente ignorado pela mídia e preconceituosamente esquecido pela cultura dominante. A viagem pessoal do documentarista Renato Tapajós (o mesmo de Linha de Montagem)  se surpreende com a força nascente das comunidades índias, negras e caboclas, que reconstroem suas identidades e se reapoderam de suas vozes.

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SIGA VIAGEM NA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO…

RESISTÊNCIA CULTURAL: “O cinema brasileiro teve um importante papel na resistência cultural à ditadura. Antes do golpe civil-militar de 1964, a produção cinematográfica vivia um momento fecundo, iniciado em 1955 com o lançamento do filme “Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, marco do surgimento do Cinema Novo. Engajada nos intensos debates daquele momento sobre a realidade do país e a necessidade de transformações, uma geração de jovens cineastas dispôs-se a superar os problemas técnicos e de financiamento das produções, empunhando o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Seu propósito era realizar filmes de apelo popular que discutissem o subdesenvolvimento e a realidade nacional numa linguagem baseada nos valores culturais brasileiros. Os filmes da chamada “trilogia do sertão”, que viriam a seguir, sintetizam esses compromissos estéticos e políticos. São eles: “Vidas Secas”, de 1963, de Nelson Pereira dos Santos; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964, de Glauber Rocha; e “Os Fuzis”, de 1965, de Ruy Guerra. Nessa fase, destacam-se ainda outros jovens diretores como Sérgio Ricardo, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Gustavo Dahl, David Neves, Joaquim Pedro de Andrade e Luiz Carlos Barreto.” – Memorial da Democracia

Obras-primas na história do cinema brasileiro para assistir online: clássicos de Glauber Rocha, Mário Peixoto, Nelson Pereira dos Santos, Alselmo Duarte, dentre outros

  1. LIMITE (1931)
    de Mário Peixoto
    Limite


  2. GANGA BRUTA (1933)
    de Humberto Mauro
    Ganga_Bruta


  3. O CANGACEIRO (1953)
    de Lima Barreto
    OCangaceiroPoster


  4. BAHIA DE TODOS OS SANTOS (1960)
    de Trigueirinho Neto
    DEDE


  5. BARRAVENTO (1962)
    de Glauber Rochacapabarravento


  6. O PAGADOR DE PROMESSAS (1962)
    de Anselmo Duarte, baseado na obra de Dias Gomes
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    Vencedor da Palma de Ouro em Cannes


  7. ASSALTO AO TREM PAGADOR (1962)
    de Roberto Farias
    Assalto


  8. VIDAS SECAS (1963)
    de Nelson Pereira dos Santos
    Vidas Secas 1963


  9. OS FUZIS (1963)
    de Ruy Guerra
    Os Fuzis


  10. DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964)
    de Glauber Rocha
    Deus e o Diabo


  11. NOITE VAZIA (1964)
    de Walter Hugo Khouri
    Noite Vazia


  12. TERRA EM TRANSE (1967)
    de Glauber Rocha
    TErra


  13. O CASO DOS IRMÃOS NAVES (1967)
    de Luis Sergio Person
    http://quixotando.wordpress.com/


  14. O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (1968)
    de Rogerio Sganzerla
    bandido da luz vermelha


  15. BEBEL – GAROTA PROPAGANDA (1968)
    de Maurice Capovilla

    Bebel
    capovilla_4


  16. MEU NOME É TONHO (1969)
    de Ozualdo Candeias
    Tonho


  17. MACUNAÍMA (1969)
    de Joaquim Pedro de Andrade
    Macunaima Joaquim-Pedro-de-Andrade


  18. O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (1969)
    de Glauber Rocha
    Dragao


  19. COPACABANA MON AMOUR (1970)
    de Rogério Sganzerla
    Copacana


  20. SÃO BERNARDO (1972)
    de Leon Hirszman, da obra de Graciliano Ramos
    S Bernardo 1972


  21.  CÂNCER (1972)
    de Glauber Rocha


  22. QUEM É BETA? (1973)
    de Nelson Pereira dos Santos


  23. A NOITE DO ESPANTALHO (1974)
    de Sérgio Ricardo, estrelado por Alceu Valença
    Noite do Espantalho


  24. IRACEMA – UMA TRANSA AMAZÔNICA (1976)
    de Jorge Bodanzky
    Iracema - Uma Transa Amazonica c


  25. XICA DA SILVA (1976)
    de Cacá Diegues
    Xica


  26. LÚCIO FLÁVIO: PASSAGEIRO DA AGONIA (1977)
    de Hector Babenco
    LUCIO_FLAVIO__28421_zoom


  27. TUDO BEM (1978)
    de Arnaldo Jabor


  28. PIXOTE – A LEI DO MAIS FRACO (1981)
    de Hector Babenco
    Pixote


  29. O HOMEM QUE VIROU SUCO (1981)
    de João Batista de Andrade
    O Homem Que Virou Suco


  30. PRA FRENTE BRASIL (1982)
    de Roberto Farias
    pra frente brasil


  31. A HORA DA ESTRELA (1985)
    de Suzana Amaral, da obra de Clarice Lispector
    Hora da Estrela


  32. CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRAZIL (1995)
    de Carla Camurati
    carlotajoaquinaprincesadobrasil


  33. ALMA CORSÁRIA (1993)
    de Carlos Reinchenbach
    Alma Corsaria


  34. COMO NASCEM OS ANJOS (1996)
    de Murilo Salles
    comonascemosanjos


  35. DOCES PODERES (1997)
    de Lúcia Murat
    doces-poderes-11


  36. CENTRAL DO BRASIL (1998)
    de Walter Salles
    Central do Brasil


  37. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1998)
    de Bruno Barreto, da obra de Fernando Gabeira
    O Q É iSso


  38. CRONICAMENTE INVIÁVEL (2000)
    de Sergio Bianchi
    cronicamente


  39. BICHO DE SETE CABEÇAS (2001)
    de Laís Bodanskybicho


  40. UMA VIDA EM SEGREDO (2001)
    de Suzana Amaral, da obra de Autran Dourado
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  41. O INVASOR (2001)
    de Beto Brant
    O invasor


  42. LAVOURA ARCAICA (2001)
    de Luiz Fernando Carvalho, da obra de Raduan Nassar
    lavoura-arcaica


  43. ABRIL DESPEDAÇADO (2001)
    de Walter Salles
    Abril


  44. AMARELO MANGA (2002)
    de Claudio Assisamarelomanga


  45. CAMINHO DAS NUVENS (2003)
    de Vicente Amorim
    caminho


  46. O HOMEM QUE COPIAVA (2003)
    de Jorge Furtado
    O Homem Q Copiava


  47. CIDADE BAIXA (2005)
    de Sergio Machado
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  48. SERRAS DA DESORDEM (2006)
    de Andrea Tonacci
    serr


  49. QUERÔ (2007)
    de Carlos Cortez, da obra de Plínio Marcos
    quero


  50. NOME PRÓPRIO (2008)
    de Murilo Salles, da obra de Clarah Averbucknome proprio


  51. EU OUVIRIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS (2012)
    de Beto Brant e Renato Ciasca
    eureceberia-filme


  52. O LOBO ATRÁS DA PORTA (2013)
    de Fernando Coimbra
    Lobo


  53. TATUAGEM (2013)
    de Hilton Lacerda
    tatuagem_poster-1

A SER CONTINUADO…

NOTA DO EDITOR: A Casa de Vidro, fiel à sua meta de ser um cyber centro cultural, pretende neste espaço reunir, de modo gradativo, uma vasta biblioteca de bons filmes da história do cinema brasileiro.

Na caixa de comentários, vocês podem deixar contribuições – de preferência com o ano de produção, o diretor e o link para o vídeo completo no Youtube – de modo que este post, longe de imutável, será frequentemente atualizado com novas inserções.

É bem sabido que o “esquadrão anti-pirataria” com frequência exige o deletamento destes filmes da Internet por violação dos direitos autorais, mas mesmo assim a cibercultura resiste e persiste proporcionando a nós, cinéfilos, a oportunidade de acesso livre à clássicos da cinematografia.

Apreciem sem moderação estes belos filmes de mestres como Glauber Rocha, Walter Salles, Walter Hugo Khouri, Anselmo Duarte, Roberto Farias, Laís Bodansky, Lúcia Murat, Joaquim Pedro de Andrade, Bruno Barreto, Beto Brant, Jorge Furtado, Rogério Sganzerla, dentre outros artistas geniais da 7ª arte!

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(Eduardo Carli de Moraes)

POR UMA ARTE DE INTERVENÇÃO CONTRA A OPRESSÃO – Reflexões pós “O Estopim” (Brasil, 2014, 80 min), documentário de Rodrigo Mac Niven

Bertolt Brecht diz que a arte não é um espelho pra refletir o mundo, mas um martelo com o qual esculpi-lo. A arte não é mecanismo neutro de “registro” do real, mas sim uma produção do labor criativo humano, surgindo da realidade mas transformando-a por sua própria irrupção. A arte é intervenção no real mais do que sua mera cognição. Por isso considero tão essencial que o filósofo vá à escola com o artista: pois o pensador nunca pode esquecer-se do que ensinava Karl Marx na célebre Tese Contra Feuerbach: até agora os filósofos parecem ter se ocupado somente em compreender o mundo, mas o que importa de fato é transformá-lo. A música, o cinema, a poesia, a escultura, o romance, o grafite, a dança, todas as vertentes da arte, são arma nas mãos da libertação. A arte é ação libertadora e intervenção ativa, ou não merece o nome de arte.

Digo isto sob o impacto do filmaço O Estopim, de Rodrigo McNiven (de Cortina de Fumaça), uma obra de alta qualidade estética e importante intervenção política em um debate radicalmente contemporâneo. A mesma violência que o pescador exerce sobre o peixe, ao fisgá-lo com uma isca, para em seguida puxá-lo com força para extraí-lo da água rumo a um ar irrespirável, é exercida pelos opressores sobre aqueles que parecem ter nascido para “morrer na praia”, de morte precoce, e não de morte morrida mas de morte matada. Interessante expressão do cotidiano: nadar, nadar e nadar, para morrer na praia. Amarildo foi um pouco a encarnação simbólica desta labor mau-pago, de sabor amargo, que tantas centenas de bilhões de oprimidos são coagidos a engolir em nosso planeta.

Amarildo poderia ter entrado como anônimo nas estatísticas obscenas da letalidade policial no Brasil; por sinuosos caminhos da estrada da História, este homem iria se transformar, durante o tsunami de manifestações populares de Junho e Julho de 2013, em símbolo de algo que não cessa de alimentar a indignação das mentes compassivas e lúcidas. Nos morros do Rio, há guerra civil, e como em toda guerra o chão está repleto de cadáveres de crianças de 10 anos, de mães baleadas por balas perdidas, de trabalhadores humildes confundidos com chefes-de-boca…

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Era Julho de 2013 e o Brasil vivia ainda sob o impacto dos eventos grandiosos do mês anterior: as “Jornadas de Junho”. Muitos daqueles que haviam se desesperançado com a política viram seu ânimo revigorado com a fenomenal adesão da população aos protestos que tiveram como estopim o aumento das tarifas públicas do transporte urbano. Os 20 centavos foram a gota d’água que fez transbordar o copo de fúria, mas este copo já havia sido gradativamente enchido. Enchemos o saco depois de tanto descalabro, de tanto descaso com o bem público, de tanta privatização-e-precarização corroendo a nação, de tanta militarização e truculência manifestando-se no morro e no asfalto (com várias diferenças, é claro, já que nas favelas as balas não são de borracha…).

Se o “caso Amarildo” explodiu no cenário público – sendo reivindicado nas ruas e nas redes, no país e no exterior, e recebendo atenção da mídia de massas, que de costume tende a ignorar este tipo de pauta – foi um pouco do mesmo modo: torturado até a morte pela PM, Amarildo foi como a gota d’água que fez transbordar de indignação todos aqueles que sabem da vivência cotidiana de milhões de brasileiros, em especial o esculacho que sofrem os afrodescendentes, no Brasil, por ação de instituições sociais que conservam o ranço do racismo institucionalizado e da ditadura militarizada. Amarildo, morrendo, forneceu um mártir oportuno àqueles que berravam em protesto frente às matanças, às torturas, às práticas ditatorialescas, da Polícia Militar brasileira.

Amarildo era carioca da gema, descendente dos africanos que o colonianismo europeu extraiu da África a fórceps, morador da mega-favela da Rocinha, e  trabalhava duro como auxiliar de pedreiro. Um edificador de lares, um membro de comunidade. Eu duvido muito que Amarildo tenha imaginado, enquanto sofria horrores em seus últimos instantes entre os vivos, ao ser torturado até a morte pela polícia em uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora?), que estaria prestes a entrar para a história. Morrendo, causou um tsunami: o poderio da manifestação popular manifestou-se então com força descomunal.

Sonhos e Urnas

Pois Junho de 2013, na História, foi também um dos ápices, no Brasil contemporâneo, de contestação da militarização que ainda vige, e tanto, em nossa vida cotidiana. Com aplausos, é claro, das elites e de certa fração das classes médias, que parecem realmente acreditar que a violência policial e a expansão do aprisionamento em massa são as soluções para nossa mega-tragédia de (in)segurança pública. É bem sabido e vastamente denunciado o tamanho hipertrofiado do complexo policial e carcerário brasileiro, sem falar em sua ineficiência e desumanidade.

Somos uma pátria encarceradora, que acompanha EUA, China e Rússia na liderança global nos índices de aprisionamento. Muitos julgam que a prisão é instituição que deve servir para proteger-nos contra a violência, mas se esquecem de lembrar o crucial: a prisão é um espaço onde pratica-se uma violência contra o cidadão lançado a ela, verdadeiro “inferno na terra”, que longe de “regenerar-se” e re-aprender as regras de convívio civilizado, fica privado não só da liberdade mas das mínimas condições dignas de existência… Conhece um Estado selvagem e revanchista, que joga gente na jaula após ter fracassado em levar políticas públicas que são direitos constitucionais.

No filme, os entrevistados na Rocinha salientam que as dificuldades da vida no morro ajudam os moradores a perceberem sua força na soma, na comunidade, um aprendizado que é fruto de experiências difíceis vividas por parentes e antepassados: os favelados são aqueles que, devido à sua situação precária de moradia, estão mais vulneráveis a perderem seu abrigo; um temporal mais forte, com grande volume de águas e fúria de ventos, pode derrubar suas casas. Estas vidas, construídas heroicamente sob o terreno movediço de um solo sujeito a periódicos deslizamentos, vão somando forças em busca do ser-mais, vão compondo raps para expressar suas angústias e esperanças, mas sempre antagonizando contra os opressores e seus braços armados.

A operação “Paz Armada”, como de praxe, envolveu muitos esculachos cometidos pela polícia contra os que são “detidos para averiguação”. Amarildo, aos olhos dos fardados, não foi visto como cidadão brasileiro com certos direitos constitucionais e humanos básicos, mas como bandido-em-potencial, e que por isso pode ser interrogado com métodos violentos e requintes de crueldade. O fim – a “averiguação” – justifica os meios – a prisão arbitrária, a tortura, o homicídio legalizado.

A última palavra de A Pedagogia do Oprimido, o clássico livro de Paulo Freire, é “amar”.  Ali ele diz que é preciso inventar, através de nossa práxis (a união indissociável entre ação e reflexão), um mundo onde seja menos difícil amar. Amarildo é também um nome que carrega em seu bojo o amor, ironicamente, pois eis o nome de alguém que morreu nas mãos do ódio institucionalizado: donde o poder do “símbolo” Amarildo como souvenir de um Estado que não ama, de uma polícia que não dialoga, de uma realidade sócio-política, historicamente determinada, que divide e segrega ao invés de somar e unir. O Brasil é um continente repleto de fraturas expostas.

A denúncia dos oprimidos é uma forma de ação que não deve ser menosprezada, já que é uma ativa tomada de voz e uma vitória sobre a doença do silêncio. O documentário de Mac Niven é excelente em sua disponibilidade de ouvir e dar ressonância ao discurso daqueles que viveram com Amarildo e que conhece o cotidiano esculachador imposto pela ocupação militar, Gaza style, vigente atualmente com as UPPs. Um dos protagonistas de Estopim, o “Duda”, encarna esta figura do denuncista que deseja desvelar as práticas desumanizadoras que testemunha, mesmo correndo risco de vida, o que é heróico e louvável.

Por exemplo: denuncia-se a prática policial comum de matar alguém primeiro e depois rotulá-lo como traficante. Como se fosse justificável o assassinato neste caso, o de vitimar uma pessoa que comercializa substâncias químicas que foram tornadas ilegais em um certo momento histórico do Direito… Até onde sei, tráfico de drogas não é crime punível com a pena-de-morte; no entanto, a polícia brasileira pratica a pena-de-morte diariamente contra suspeitos de tráfico. Duda – ecoando a mensagem de Marcelo Freixo (Deputado do PSOL) – denuncia uma polícia miliciada, gangsterizada, fascista, que prende e tortura gente inocente e mata trabalhador desarmado e desvalido…

Maioridade Penal

A morte de Amarildo gerou um debate público amplo; em muitos setores, em especial da mídia corporativa, o problema foi colocado nos seguintes termos: Amarildo era ou não era um traficante? Como se fosse plenamente justificada a tortura e a morte de um homem que fosse traficante de drogas. Ideia perversa, que utiliza a acusação de tráfico como estigma que justifica a ação homicida da polícia. É a mesma lógica vigente no sistema penal, na Guerra às Drogas, como se o problema da segurança pública pudesse ser resolvido na base da violência estatal exercida sobre aqueles que são estigmatizados como inimigos públicos número 1 só pelo fato de que vendem substâncias que o proibicionismo estipulou como ilícitas…

Como diz o juiz João Batista Damasceno, da associação Juízes para a Democracia, há uma “fantasia de que o traficante é alguém que precisa ser exterminado.” (49 min) Ou, como diz Francisco Carlos Teixeira, PhD em Ciência Política, membro do Instituto Tempo Presente, “você está escolhendo pessoas para morrer, e depois que elas estão mortas imediatamente viram traficantes. (…) Ora, mas quem mata criminoso também é criminoso. A Guerra às Drogas é uma cortina de fumaça para esconder um extermínio dos pobres.

Em uma das cenas mais impressionantes do cinema brasileiro no século XIX, O Estopim representa a tortura sofrida por Amarildo sem dourar a pílula, sem suavizar o horror: Toda a barbárie cotidianizada vêm à tona nesta cena onde os policiais-torturadores não poupam nada de seu arsenal bélico para humilhar e ofender Amarildo. A violência não é só física, destinada a alquebrar o corpo da vítima, mas é violência verbal da mais cruel:

Policial-torturador à Amarildo: “- Trabalhador? Todo vagabundo diz que é trabalhador! E você diz me que é trabalhador, seu merda? Só se for trabalhador do tráfico! Vocês são tudo amiguinho de bandido. Tua mulher é uma vagabunda cheiradora-de-pó. E eu vou armar um flagrante pra prender teu filho, Amarildo…”

O discurso policial, no trato com o outro, é o anti-diálogo por excelência. É o que esta cena com Amarildo explicita: a polícia como uma vespa que pica, odienta e sem misericórdia, sendo o supra-sumo do que Paulo Freire chama de “ação antidialógica”. A tortura é o oposto antagônico do diálogo, a encarnação explícita do fascismo cotidianizado. Tese do filme, tal como o compreendi: a polícia que tortura é bárbara e desumana, e Amarildo uma das milhares de vítimas que ela faz de maneira cotidiana.

O amigo do falecido deveria sentir o quê diante de policiais assassinos senão indignação e rebeldia? Uma polícia que planta injustiça vai colher rebelião. Duda expressa-se sobre Amarildo mostrando-se estarrecido que “eles tenham conseguido fazer uma maldade com uma pessoa tão boa” (59 min). Antes de simplesmente descartarmos este testemunho, como se não passasse de uma idealização póstuma que um amigo realiza em seu retrato do amigo-morto, levemos a sério a hipótese de que houve sim maldade, uma injustiça, uma barbárie injustificável. 

E que a Ditadura civil-militar (1964 – 1985) pode até ter sido extinta para dar lugar a este interminável processo de redemocratização, mas a Ditadura continua incrustada em várias instituições, sobretudo as Polícias Militares, e inclusive as UPPs. Moradores acusam as UPPs de serem uma carta branca que é dada para que as polícias dominem o morro, instalem milhares de câmeras de vigilância, dando o passo rumo a transformar o morro do Rio em Gaza. A Palestina – pasmem! – é aqui. E o Big Brother da TV não tem nada a ver com o Big Brother da UPP.

No Big Brother da vida real, soldados podem chutar a porta dos barracos para abri-los, sem aviso prévio. Podem levar presos quaisquer cidadãos que julgem “suspeitos”. Podem expulsar gente dos lares para que sejam construídos trecos “pra inglês ver” na Copa ou nas Olimpíadas. Podem mandar prender, por desacato a autoridade, quem contesta o abuso de poder praticado por milicos fardados. Fala o MC em Estopim: “A UPP é o AI-5 das favelas cariocas… Como era chamado o DOPS? Era a Polícia da Política. O que é uma UPP? É a mesma coisa, só muda o ano! A UPP só daria certo se fosse Unidade de Políticas Públicas”.

A UPP é sintoma de um aumento da militarização, de um Estado que sobe o morro querendo mostrar somente sua faceta repressiva e punitiva, seu ímpeto controlador e dominador. Nas periferias brasileiras, 1968 ainda vive. Esquecemos de desinventar a barbárie militarizada. Ainda falta-nos descobrir que a questão social não é uma questão de polícia, que não se constrói solidariedade com fuzis, e que não é reproduzindo o caso Amarildo que vamos superar estas páginas tão tristes de nossa História – repleta delas.

A arte, para relembrar Brecht e Boal, deve ser intervenção na realidade ao invés de passividade fatalista diante dela. O Estopim faz isso com excelência. Entra para uma história bela e fecunda: a do documentário brasileiro, uma das “coisas” que vai melhor em nosso país. O documentário, no âmbito do cinema, parece-me ser o ápice deste ideal da arte que não deseja só retratar o real, mas também informá-lo para revolucioná-lo. 

O documentário brasileiro é um “campo”  repleto em preciosas obras-primas e gênios justamente venerados – Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Pra Morrer, Jogo de Cena, Edifício Master), Silvio Tendler, João Moreira Salles (Santiago, Entreatos), Jorge Bodanzky, José Padilha (Ônibus 174, Garapa), dentre tantos outros. Os filmes de Mc Niven chegaram para integrar uma bela tradição, vivíssima a tal ponto que fica até estranho referir-se a ela usando um nome com tanto ranço de antiguidade quanto “tradição”. Um saravá, pois, ao tão iluminante e tão veraz documentário brasileiro, que desvela realidades com a ousadia de suas destemidas lentes!

E.C.M., Goiânia 29/07/15
@ A Casa de Vidro.com
Shortlink: http://bit.ly/1MVvnCC

10714387_536402499824550_9173944318112282282_o Capturar Diretor Rodrigo Mac Niven e Diretor de Fotografia Neto de Oliveira com o ator Brunno Rodrigues.  Informações do filme:
Gênero: Documentário
Diretor: Rodrigo Mac Niven
Duração: 80 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
Qualidade de Vídeo: webrip
Vídeo Codec: V_MPEG4/ISO/AVC
Áudio Codec: AAC LC
Tamanho: 1,09 gB
Legendas: Sem Legenda

Link do torrent:
O Estopim (2014)
Via Filmes Brazukas

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ANTES N’A CASA DE VIDRO:

QUE PAÍS É ESSE? SOLIDARIEDADE SOCIAL OU PRÁTICAS DO APARTHEID?

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P.S.

“Catatau chegou legal no Vidigal
Ia haver uma blitz naquele local
O malandro pinoteou
Pouco antes da hora que a justa chegou
Por onde está, Por onde andou, Ninguém dedou
De repente no beco da grande favela
Um vulto surgiu na viela
O soldado deu voz de prisão com decisão
Do outro lado negro desempregado
Bastante desesperado
Se rende correndo e cai
Mas caiu com a mão na cabeça
Para que ninguém esqueça
O quanto pediu clemência
E não foi ouvido
Por causa da violência
Que fez chorar o soldado
Que muito mal orientado não pode evitar o mal
E nem a sorte daquele inocente lá do Vidigal…”

O HOMEM QUE VIROU SUCO (1981) #ClássicosCinemaBrasileiro (Assista ao filme na íntegra em HD)

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Clássicos do Cinema Brasileiro:
O HOMEM QUE VIROU SUCO (1981)
de João Batista de Andrade
estrelando José Dumont

Assista completo e em HD: https://vimeo.com/103135361

Curiosidade: O diretor João Batista de Andrade chegou a cogitar o nome do músico Tom Zé para o papel do imigrante Deraldo.

Premiações:

– Festival Internacional de Moscou (1981): Recebeu a Medalha de Ouro (Melhor Filme)
– Festival de Gramado (1981): Venceu nas categorias de Melhor Roteiro, Melhor Ator, Melhor Ator Codjuvante.
– Festival de Brasília (1980): Venceu na categoria de Melhor Ator.
– Festival Internacional de Huelva (1981) (Espanha): Venceu na categoria de Melhor Ator.
– Juventude Soviética – Moscou (1981): Recebeu o Prêmio Mérito Humanitário.
– Festival de Nevers (1983): Venceu nas categorias de Melhor Filme e Prêmio da Crítica.
– Prêmio Qualidade Concine (1983) (Brasil)
– Prêmio São Saruê, concedido pela Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro (1983)

Resenhas: Centro de Memória Sindical (CMS) – L. C. Merten no EstadãoCinema de Boteco – Kátia Regina Miche