NÃO SEREMOS VARRIDOS DO MAPA – A mensagem dos oprimidos de Bacurau, escrita na linguagem das cabeças cortadas, é um recado para a tirania pós-golpe no Brasil

ANOTAÇÕES PRÉ-FILME – A história do cinema brasileiro ganha novas páginas turbulentas e intensas neste 2019. Ano em que desembarcam entre nós, com estrondo estético e político tremendo, Bacurau e Marighella. Em tempos pós-democráticos como os nossos, em que a censura vai levantando de novo os cornos, nossos artistas se mostram à altura das urgências da época. O tirano quer controlar com rédea ditatorial a Ancine, proibindo filmes do teor de Bruna Surfistinha mas dando o aval pra cinebiografia de pastor evangélico trambiqueiro.

Mas Edir Macedo que se foda, eu quero são filmes libertários como foram os de Glauber outrora, como são os de Cláudio Assis hoje em dia! O cinema que se conforma é um cinema moribundo e que apodrece. Queremos de novo um cinema que vá pro confronto e que se saiba instrumento coletivo de luta contra todas as opressões. Luta que envolve, na experiência coletiva compartilhada de uma sala de cinema, a necessidade incontornável de sermos afetados por imagens organizadas e narrativas comoventes capazes de explicar, esclarecer e refletir sobre nossa realidade fraturada.

O cinema luta ao nosso lado quando é trampolim pr’um salto de consciência rumo à outras percepções do nosso possível. Queremos de novo um cinema que não tema confrontar-se com as múltiplas fraturas que expõe os ossos quebrados da Nação Pau-Brasil, mas que também no processo nos abra vias libertárias que prefiguram um melhor mundo possível, um “inédito viável” – como dizia Paulo Freire. Com isso em mente, penetro na escuridão rumo a um encontro com Bacurau…

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ALERTA – O texto a seguir contêm spoilers.

Não seremos varridos do mapa com tanta facilidade como gostariam aqueles necropoderes que queriam nos dizimar como se não passássemos de pixels num videogame. Esta é uma das traduções possíveis das atitudes dos oprimidos-em-resistência que sangram, penam e se insurgem na obra de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Como escreveu Ivana Bentes na Cult, Bacurau é a “síntese do Brasil brutal”,  um microcosmo fílmico onde se entrechocam ogros mortíferos – semelhantes aos que hoje seguem a ideologia mortífera de Witzels, Moros e Bolsonaros – e os campesinos saturados de tantos lutos e de tanta dignidade arrombada.

Em uma conjuntura onde a Amazônia está em chamas, em que recentes rios de lama tóxica avançaram para varrer do mapa muitas vidas nas regiões de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, este filme distópico fica parecendo como obra do mais puro realismo. Nossas tragédias socioambientais e nossa violência epidêmica não estão desvinculadas jamais dos legados do imperialismo que nos colonizou. Bacurau, de modo esperto, transforma um museu histórico em um bunker de resistência onde vomitarão pólvora os bacamartes dos oprimidos em vendeta contra seus ofensores assassinos.

É um filme capaz de evocar várias de nossas tragédias recentes – como o Rio Doce, que teve sua vida dizimada na outrora próspera comarca onde afundou seus caninos o imperialismo estrangeiro para dali sugar riquezas fáceis, a custa de muito suor e sangue imposto às vítimas da espoliação e do escravismo. A questão da água, do controle dos fluxos de uma água escassa nos tórridos tempos de aquecimento global, faz deste Sertão um Mad Max do Capitalismo Gore. Nossa realidade está virando um splatter movie.

E agora, no cinema, ressurge um Nordeste insurgente e inconformista, com evocações das batalhas de Canudos, do cangaço e de seus heróis míticos como Lampião, dos filmes-manifesto de Glauber (Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, O Leão de Sete Cabeças…). Em Bacurau, uma alegoria de nossa desgraça coletiva e uma profecia impiedosa: do jeito que vamos, o sangue seguirá esguichando. E nem venham com band-aids que a hemorragia é demasiado extrema.

Um filme como Bacurau emerge do pântano da Nação Pau-Brasil em 2019 todo coberto de sangue e com mensagens de resistência, pondo muitos dedos nas feridas abertas de nossos tempos pós-democráticos. Somos hoje um paradigma global da desgraceira ocasionada pelo neoliberalismo neofascista, submisso aos interesses imperiais, entreguista de empresas públicas para o capital privado, onde aplica-se sem pudor nem misericórdia a Shock Doctrine tão bem esmiuçada e criticada por Naomi Klein.

O prefeito de Serra Verde, município a que Bacurau pertence, é a encarnação caricata do riquinho engomadinho, vestindo Lacoste, que só sabe ganhar eleição com demagogia barata para depois abandonar o povo que deveria representar na miséria, na sede e no desabrigo. Pior: o político que deixa a população exposta à fúria genocida de tubarões imperialistas em transe psicótico.

Já o personagem do ator alemão Udo Kier aproxima-se de uma caricatura da vilania extrema. Um alemão que emigrou pros EUA, ele fica todo ofendido quando um dos milicianos mercenários que o acompanha lhe chama de “nazista”. Ele não quer ser ofendido com clichês assim. No entanto, este psicopata impiedoso parece sim uma versão contemporânea de um nazi que tivesse sido colonizado pela atual ideologia armamentista e Ku Klux Klanesca do Trumpismo. Ele parece matar por esporte mais do que por interesse. Um serial killer que evoca o American Psycho do filme de Mary Harron, mas que ironicamente expressa seu item único de “ética” pessoal assim: “eu não mato mulheres”.

Vilões que expressam toda sua falta de empatia, toda a extensão de sua desumanização, lançam a população de Bacurau na necessidade incontornável de uma guerrilha que, longe de ser revolucionária, é reativa, defensiva, desesperada.

Talvez esteja aí uma das falhas principais do filme: na motivação das hienas assassinas que caem sobre Bacurau, não se descrevem com clareza os interesses materiais que pudessem estar por trás da intentona de rapina. Não se fala no desejo dos gringos do controle de recursos naturais – faria mais sentido se, ao invés de psychos sedentos por sangue como vampiros, estes vilões tivessem motivações econômicas explicitadas, por exemplo se estivessem buscando domínio de um território para desmatamento e posterior instalação de pastos cheios de gado exportável ou vastas lavouras de monocultura.

Assim, Bacurau mobiliza suas caricaturas de vilania de modo a lançar sua cidadezinha numa rota necessária para a revolta armada. Os gringos vão ter que perder as cabeças para a vendeta destes sertanejos que encarnam os Condenados da Terra de Fanon. Os gringos, depois de terem abusado da hýbris, caçando nordestinos como se fossem bichos num jogo de caçada hightech, com drones e metralhadoras sendo manejados por quem deixou a sensibilidade moral adormecida na Idade da Pedra Lascada, sentirão toda a fúria da vingança dos oprimidos.

Este filme se parece de fato com um “western”, mas chamá-lo assim já seria escorregar na casca de banana de um estrangeirismo que este filme repudia em toda parte, sendo uma espécie de panfleto anti-imperialista para uso dos Lampiões e Marighellas do futuro próximo.

Tudo se passa no “oeste de Pernambuco”, e do western made in USA emprestam-se vários elementos de gênero, mas já há muita gente percebendo que, em termos de ideologia, Bacurau é o avesso do western ocidental e busca sua força numa narrativa anti-imperial que chega a evocar cineastas como Glauber Rocha, Gillo Pontecorvo ou Werner Herzog.

“Exaltando a cultura do nordeste, Kleber e Dornelles evocam também os cangaceiros, principalmente na figura de Lunga (Silvero Pereira), um foragido da Justiça que vive com seus comparsas em uma represa desativada e que volta para ajudar seu povo. Nesse sentido, não é por acaso que Lunga, que atua como a liderança principal da resistência contra o ataque à cidade, é personagem transgênero.

É justamente na reação ao ataque estrangeiro que reside o cerne do filme. Cabe à própria comunidade, abandonada pelo poder público, instituir seu próprio modelo de democracia radical, em um quase flerte com o anarquismo. Cabe a Bacurau também resistir, preservar sua cultura e sua memória, tarefa árdua já conhecida pelas milhares de comunidades tradicionais pelo Brasil.” – NONADA 

Há muito de alegoria neste filme que também evoca um magnum opus do cinema contemporâneo, a obra-prima Dogville de Lars Von Trier. Dogville e Bacurau são duas cidades tão pequeninas que estão vulneráveis a um tipo de ataque visando o extermínio coletivo total. Um tipo de massacre que apesar de não subir aos níveis de atrocidade de um genocídio motivado por limpeza étnica que atinge um território amplo, é manifestação dos mesmos males que conduzem às práticas genocidas.

A anti-heroína de Lars Von Trier, a Grace encarnada por Nicole Kidman, após passar toda a película sendo a forasteira inerme que os citadinos exploram de mil maneiras, quando reganha o seu poder de fogo, com a chegada à vila de seu powerpapai e seus milicianos, revela-se como uma genocida. Sua vendeta é o extermínio. Ela diz que “se há alguma cidade no mundo que não vai fazer falta, esta é ela”.

Grace ordena que Dogville e todos os seus habitantes humanos – a única exceção ao extermínio que ela ordena sendo do cachorro – sejam varridos do mapa. Já Bacurau, nem no mapa hightech está: o Google Mapas e seus satélites não se dão ao trabalho de conceder informações sobre um “cu-de-mundo” tão irrelevante. Isolado, o povoado vive na vulnerabilidade extrema, com escasso acesso à água potável, fora do radar de quaisquer organismos de defesa dos direitos humanos, no abandono por parte do poder público.

Os gringos exterminadores talvez pensem assim: eis uma cidadezinha tão irrelevante que, se for aniquilada por inteiro, o mundo nem sentirá sua falta, a não ser por uns poucos gatos pingados que chorarão por seus mortos até que morram eles também. O niilismo dos vilões, capazes de matar crianças em uniforme de escola, revela um mundo onde qualquer senso de solidariedade se perdeu.

Dois emblemas da situação social do filme são o caminhão-pipa com água potável todo furado de balas, uma evocação de um cenário distópico à la Mad Max, e o busão escolar sem pneus que enferruja inútil na comunidade onde também as escolas são alvo da chuva de balas dos invasores (o que evoca também a situação das escolas periféricas no Rio de Janeiro atual).

Ivana Bentes, ao responder do que se trata o filme, assinala:

“Antes de mais nada Bacurau trata de um rural contemporâneo. Um Brasil das cidadezinhas do interior completamente conectadas com o urbano. Atravessadas por redes de celular, tecnologias de vigilância e controle, telas de LED, drones, carros e motos possantes, distribuição de psicotrópicos e remédios que controlam o humor, uma cidade rústica, mas que poderia protagonizar um episódio de Black Mirror e que querem apagar do Google Mapa.”

Esta aí uma boa síntese: Black Mirror no Sertão, Bacurau é um retrato do Capitalismo Gore num Brasil desgovernado pelo fascismo Bolsonazi. É verdade que no Festival de Cannes, onde foi vencedor do Prêmio do Júri, a equipe de Bacurau não armou um escarcéu de protesto como havia feito a equipe de Aquarius, o filme anterior de Kleber Mendonça (também responsável por O Som ao Redor e por curtas-metragens como Recife Frio). Mas isto se explica pela própria mensagem do filme, que de certo modo dispensa protestos extra-filme, como relata a reportagem do UOL:

“O protesto, desta vez, está em meu filme.” É assim que Kleber Mendonça Filho explica a ausência de manifestação política no tapete vermelho de “Bacurau”, filme que ele e Juliano Dornelles apresentaram na noite de ontem em Cannes, na disputa pela Palma de Ouro. Diferentemente de quando esteve no evento em 2016, quando a equipe de “Aquarius” levou cartazes contra o impeachment de Dilma Rousseff, o red carpet de ontem não teve nenhum grito contra Jair Bolsonaro; foi marcado pela serenidade e alegria dos diretores e elenco do filme. Mendonça tem razão: “Bacurau”, mesmo que tenha sido concebido bem antes que Bolsonaro fosse sequer cotado para assumir a presidência do Brasil (o roteiro começou a ser pensado em 2010), fala do país de hoje como quase nenhum outro. E é um filme que prega a resistência a qualquer tipo de opressão, por meio de uma trama barroca, com um pé no fantástico e outro no realismo.

A trama se passa “daqui a alguns anos”, no sertão do oeste de Pernambuco. A cidadezinha (fictícia) de Bacurau sofre com sabotagens diversas: não recebe mais água, enquanto comida e medicamentos se tornam raridade. O sinal de celular está cortado, e a cidade literalmente sumiu de todos os mapas oficiais. Quando assassinatos começam a acontecer, a população local se une para resistir, mesmo que, para isso, precisem ser tão violentos e sanguinários como os grupos interessados em dizimar a cidadezinha.” (UOL)

É óbvio que o filme merece ser criticado a fundo pelo que expressa sobre violência e luta de classes pois pode ser lido de modo simplificador e reducionista – pois até mesmo convida a isto com suas caricaturas da vilania. Digo isto pois neste faroeste no sertão os gringos invasores são caricatos – um pouco como psicopatas “desenhados” por quem não estudou de fato as psicopatologias da barbárie fascista. Dirão alguns que no nosso real atual não faltam os vilões caricatos, como Witzel comemorando como se fosse um gol quando um sniper abateu um sequestrador de ônibus que carregava um arma de brinquedo. Estamos na era de um governador que manda a polícia “mirar na cabecinha e atirar” e de um presidente que trata o Torturador-em-Chefe Ustra como herói nacional – vilões caricaturais com poder demais.

No filme, lá estão eles: são psychos que matam crianças gratuitamente, que atiram em cães que repousam quietos na tranquilidade da tarde, que sentem tesão e adrenalina em experimentar os thrills de uma missão militar assassina… O filme fica mais interessante quando pontua, para além da monstruosidade dos vilões, os métodos do capitalismo shock-doctrinesco, aquele que apela para mercenários e os chama de private contractors. Tudo a ver com o capitalismo selvagem e miliciânico de Bolsonaro.

No geral, porém, a motivação por trás dos crimes dos vilões fica sem evocação crítica, de modo que os vilões acabam parecidos com caçadores, killing for sport, ainda que numa das principais cenas do filme suas personalidades se manifestem de modo mais explícito e aprofundado.

Estou pensando naquela cena em que os dois brasileiros sulistas, que fingem estar turistando de motorbike e fazendo trilhas pelo sertão, são também friamente exterminados pelos “gringos” em uma tensa “reunião” em que são questionados sobre terem “atirado em sua própria gente”. Uma cena de bullying se manifesta ali cuja essência está no racismo dos “brancos” estrangeiros se manifestando contra aquilo que eles chamam de pseudo-brancos. O Sul do Brasil, ou seja, os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, descritos pelos sulistas como repletos de “colônias de alemães e portugueses”, vomitou no sertão de Bacurau aquele casal de sulistas que se acham os fodões diante dos campesinos pernambucanos.

Os sulistas, arrogantes com a crença em sua superioridade sobre os nordestinos, aprendem uma amarga lição antes de serem metralhados: para os racistas estrangeiros, eles não são “brancos puro sangue” porra nenhuma, não passam de “latinos”, de tipinhos meio “mexicanos”. Pouco antes de morrer, tinham recebido também duras lições cantaroladas pelo “gaiato” cantador-violeiro, que os critica como deve ser: com arte e palavras farpadas que só ferem por dentro.

Quando a gangue chefiada pelo personagem de Udo Kier resolve assassinar os sulistas, Bacurau se alça, enquanto cinema, a uma aventura de interpretação sociológica mais ousada – que infelizmente o filme não recupera nem aprofunda, desperdiçando uma rara oportunidade de debater mais a fundo o problema do racismo no Brasil. Fica sugerido que os crimes dos psychos gringos são motivados por ideologias racistas, por um “arianismo” requentado nos EUA de Trump. Mas o filme de Mendonça e Dornelles prefere desviar todo o foco para a guerrilha chefiada por Lunga, a “bicha Che Guevarista”, uma espécie de Lampião afeminado mas feroz, numa irrupção um pouco arbitrária das temáticas de gênero que o filme em nenhum momento avança.

Lunga, interpretado por Silvério Pereira, é um dos personagens mais fascinantes do longa

Respondendo à violência brutal com a violência reativa dos oprimidos sob risco de extermínio, os habitantes de Bacurau não fornecem solução alguma para os problemas estruturais do país. Mas são uma irrupção de rebeldia que nasce das vísceras de uma condição de acuamento extremo. Há quem descreva este processo como o Nordeste resistindo à barbárie fascista e como emblema de que chegou o tempo do revide.

No filme, os seres humanos forçados a tremerem de pavor diante do poderio de um genocídio racista são obrigados a levar ao extremo o desencadeamento das violências destruidoras. Vingam-se em desforra lampianesca ao fim de um filme onde o prefeito demagogo e playboy é banido para o deserto. Já o gringo psicopata, que mata como se estivesse ao video game, é enterrado vivo numa cova. Não sem antes prometer, em seu inglês com sotaque germânico, que a violência não vai parar: ele diz que ninguém ali imagina a quantidade de gente que eles já mataram. O ciclo interminável da violência fratricida irá prosseguir sem cessar. A Nação Pau Brasil, onde Bolsonaros e Witzels se elegeram, seguirá com sangue esguichando e manchando de vermelho nossa bandeira e nosso solo. Na barbárie que atravessamos, vão faltar até os caixões pra tantas vítimas da necropolítica.

Neste filme repleto de mortos e caixões, de conflitos binários entre racistas e campesinos, entre gringos imperialistas e enraizados sertanejos, Lampião e seus cangaceiros são reanimados da tumba, seus feitos heróicos retrazidos à sala de jantar para serem apresentados à família tradicional brasileira – que provavelmente vai preferir ficar bem longe do cinema e irá aplaudir quando Bolsonaro fizer movimentos no sentido de censurar Bacurau e Marighella. Afinal, o cidadão-de-bem quer ir ao cinema ver a cinebiografia de Edir Macedo para depois lamber as botas sujas de sangue indígena e quilombola das botas de seu tirano-de-estimação.

A mensagem dos oprimidos de Bacurau, escrita na linguagem das cabeças cortadas pela violência reativa dos que tiveram seu direito à vida destroçado e que estão na mira de uma necropolítica racista, é um recado para a tirania pós-golpe no Brasil. Mas não fornece nenhuma réstia de luz que pudesse nos conceder a esperança de paz. Bacurau, síntese do Brasil brutal, só promete o sem-fim do sangue a esguichar e parece sugerir que, do jeito que a coisa vai, sempre degringolando mais, a reação guerrilheira à barbárie fascista não é só o possível que pode não se realizar, mas sim algo que vai se desenhando como o necessário, o inevitável, aquilo a que estamos, de novo, condenados.

Carli – A Casa de Vidro – 03/09/2019

BICHOS DA NOITE
por Sérgio Ricardo

“São muitas horas da noite
São horas do bacurau
Jaguar avança dançando
Dançam caipora e babau
Festa do medo e do espanto
De assombrações num sarau
Furando o tronco da noite
Um bico de pica-pau
Andam feitiços no ar
De um feiticeiro marau
Mandingas e coisas feitas
No xangô de Nicolau
Medo da noite escondido
Nos galhos de pé de pau
A toda dança acompanha
Tocando seu berimbau
Um caçador esquecido
Espreita de alto jirau
Não vê cotia nem paca
Só vê jaguara e babau
Alguém soluça e lamenta
Todo esse mundo tão mau
Picando a sombre da noite
Pinica o pinica-pau
Alguém no rio agoniza
Num rio que não dá vau
Alguém na sombra noturna
Morreu no fundo perau…”

TRAILER OFICIAL

ENTREVISTA COM OS REALIZADORES [1]

ENTREVISTA [2] – RFI

JORNAL TVT

OS 100 MELHORES CURTAS-METRAGENS DA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO – Assista às obras selecionadas pela Abbracine

A ABBRACINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema realizou um levantamento sobre os 100 melhores curtas-metragens da história do cinema brasileiro, com obras que abrangem o período entre 1913 a 2018. A pesquisa servirá de base para livro “Curta Brasileiro – 100 Filmes Essenciais”, realizado em parceria com Canal Brasil e Editora Letramento (organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva).

O filme gaúcho “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, foi eleito o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos; esta obra foi a vencedora do Urso de Prata do 40º Festival de Berlim, em 1990.

Em segundo lugar na votação promovida pela Abraccine com críticos, professores e pesquisadores de todo o país, aparece “Di” (1977), de Glauber Rocha, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, seguido por “Blábláblá” (1968), de Andrea Tonacci, “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro, e “Couro de Gato” (1962), de Joaquim Pedro de Andrade.

Joaquim Pedro tem quatro filmes selecionados entre os 25 primeiros colocados – além de “Couro de Gato”, estão “Vereda Tropical” (15ª colocação), “O Poeta do Castelo” (21ª) e “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (22ª).

O cineasta com mais produções na lista, no entanto, é Aloysio Raulino, que, como diretor, construiu um corpo de obra muito mais prolífico e marcante no curta-metragem. Cinco de seus filmes foram destacados: “O Porto de Santos”, “O Tigre e a Gazela”, “Jardim Nova Bahia”, “Lacrimosa”, este codirigido com Luna Alkalay, e “Teremos Infância”.

Também ganha destaque na votação a filmografia de Ivan Cardoso no formato, com quatro títulos: “À Meia-noite com Glauber”, “Nosferato no Brasil”, “HO” e “Moreira da Silva”. Da produção mais recente, chamam a atenção Kleber Mendonça Filho (“Vinil Verde”, “Recife Frio” e “Eletrodoméstica”) e André Novais Oliveira (“Fantasmas”, “Quintal” e “Pouco Mais de um Mês”), cada um com três filmes. – ABBRACINE

Para colaborar com o acesso do público a este rico tesouro cinematográfico, que faz parte da história da cultura audiovisual brasileira, A Casa de Vidro fez um mapeamento de todos os filmes disponíveis no Youtube e disponibilizou-os na playlist abaixo. Confira abaixo, a lista completa com os 100 melhores curtas-metragens eleitos pela Abraccine, seguidos por outros curtas-metragens recomendados:

Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado


Di (1977), de Glauber Rocha


Blábláblá (1968), de Andrea Tonacci


A velha a fiar (1964), de Humberto Mauro


Couro de gato (1962), de Joaquim Pedro de Andrade


Aruanda (1960), de Linduarte Noronha


SuperOutro (1989), de Edgard Navarro


Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman


A entrevista (1966), de Helena Solberg


Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro


Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul


Viramundo (1965), de Geraldo Sarno


Vinil verde (2004), de Kleber Mendonça Filho


Documentário (1966), de Rogério Sganzerla


Vereda tropical (1977), de Joaquim Pedro de Andrade


Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho


Nelson Cavaquinho (1969), de Leon Hirszman


Zezero (1974), de Ozualdo Candeias


Sangue corsário (1980), de Carlos Reichenbach


O dia em que Dorival encarou a guarda (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart


O poeta do castelo (1959), de Joaquim Pedro de Andrade


Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), de Joaquim Pedro de Andrade


Maranhão 66 (1966), de Glauber Rocha


O som ou tratado de harmonia (1984), de Arthur Omar


Subterrâneos do futebol (1965), de Maurice Capovilla


Mato eles? (1983), de Sérgio Bianchi


Guaxuma (2018), de Nara Normande


Meow! (1981), de Marcos Magalhães


Eletrodoméstica (2005), de Kleber Mendonça Filho


O rei do cagaço (1977), de Edgard Navarro


Fantasmas (2010), de André Novais Oliveira


Socorro Nobre (1995), de Walter Salles


À meia noite com Glauber (1997), de Ivan Cardoso


Dias de greve (2009), de Adirley Queirós


A pedra da riqueza (1975), de Vladimir Carvalho


Memória do cangaço (1965), de Paulo Gil Soares


O duplo (2012), de Juliana Rojas


Quintal (2015), de André Novais Oliveira


Fala Brasília (1966), de Nelson Pereira dos Santos


O porto de Santos (1978), de Aloysio Raulino


Horror Palace Hotel (1978), de Jairo Ferreira


Esta rua tão Augusta (1968), de Carlos Reichenbach


Muro (2008), de Tião


Manhã cinzenta (1969), de Olney São Paulo


O tigre e a gazela (1977), de Aloysio Raulino


Cinema inocente (1980), de Julio Bressane


…a rua chamada Triumpho 969/70 (1971), de Ozualdo Candeias


Carro de bois (1974), de Humberto Mauro


Olho por olho (1966), de Andrea Tonacci


Praça Walt Disney (2011), de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira


Chapeleiros (1983), de Adrian Cooper


Juvenília (1994), de Paulo Sacramento


Os óculos do vovô (1913), de Francisco Santos


Dossiê Rê Bordosa (2008), de Cesar Cabral


Lampião, o rei do cangaço (1937), de Benjamin Abrahão


Animando (1983), de Marcos Magalhães


Jardim Nova Bahia (1971), de Aloysio Raulino


Partido alto (1982), de Leon Hirszman


Torre (2017), de Nádia Mangolini


Mauro, Humberto (1975), de David Neves


Ver ouvir (1966), de Antônio Carlos Fontoura


Congo (1972), de Arthur Omar


Caramujo-flor (1988), de Joel Pizzini


Lacrimosa (1970), de Aloysio Raulino e Luna Alkalay


Palíndromo (2001), de Philippe Barcinski


Um sol alaranjado (2002), de Eduardo Valente


Cantos de trabalho (1955), de Humberto Mauro


O guru e os guris (1973), de Jairo Ferreira


Nosferato no Brasil (1970), de Ivan Cardoso


Mulheres de cinema (1976), de Ana Maria Magalhães


Kbela (2015), de Yasmin Thayná


A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998), de Carlos Adriano


Libertários (1976), de Lauro Escorel


Meu compadre Zé Ketti (2001), de Nelson Pereira dos Santos


Seams (1993), de Karim Aïnouz


Céu sobre água (1978), de José Agrippino de Paula


Dov’è Meneghetti? (1989), de Beto Brant


Teremos infância (1974), de Aloysio Raulino


Texas Hotel (1999), de Cláudio Assis


Rituais e festas Bororo (1917), de Major Thomaz Reis


Integração Racial (1964), de Paulo Cezar Saraceni


HO (1979), de Ivan Cardoso


Kyrie ou o início do caos (1998), de Debora Waldman


Pouco mais de um mês (2013), de André Novais Oliveira


Cartão vermelho (1994), de Laís Bodanzky


Um dia na rampa (1960), de Luiz Paulino dos Santos


Moreira da Silva (1973), de Ivan Cardoso


Nada (2017), de Gabriel Martins


Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno (1981), de Miguel Rio Branco


O ataque das araras (1975), de Jairo Ferreira


Enigma de um dia (1996), de Joel Pizzini


Amor! (1994), de José Roberto Torero


Menino da calça branca (1961), de Sérgio Ricardo


Estado itinerante (2016), de Ana Carolina Soares


Amor só de mãe (2002), de Dennison Ramalho


Carolina (2003), de Jeferson De


Contestação (1969), de João Silvério Trevisan


Guida (2014), de Rosana Urbes


Exemplo regenerador (1919), de José Medina


Frankstein punk (1986), de Cao Hamburger e Eliana Fonseca




OUTROS CURTAS QUE VALEM A PENA

UMA HISTÓRIA SEVERINA (2005) || Eliane Brum & Débora Diniz

HABEAS CORPUS (2005) || Débora Diniz

À MARGEM DO CORPO (2006) || Débora Diniz

QUEM SÃO ELAS? (2006) || Débora Diniz

SOLITÁRIO ANÔNIMO (2007) || Débora Diniz

A CASA DOS MORTOS (2009) || Débora Diniz

ZIKA (2016) || Débora Diniz

HOTEL LAIDE (2017) || Débora Diniz

CLANDESTINAS || Fadhia Salomão

O FLORESCER DA VOZ || Jaime Leigh Gianopoulos

 

 

TORQUATÁLIA – PRECIOSA GEMA NA GELÉIA GERAL BRASILEIRA: Sobre a vida e a obra meteóricas de Torquato Neto (1944-1972)

“Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelos menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.”
TORQUATO NETO (1944 – 1972)

 “Na geléia geral brasileira alguém tem de exercer
as funções de medula e de osso.” 

DÉCIO PIGNATARI (1927 – 2012)

TORQUATÁLIA – PRECIOSA GEMA NA GELÉIA GERAL BRASILEIRA:
Sobre a vida e a obra meteóricas de Torquato Neto (1944-1972)

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Inovador artista que participou da comissão-de-frente da Tropicália, poeta-compositor de trajetória transitória e meteórica, Torquato Neto inscreveu sua obra iconoclássica na história da cultura brasileira com uma força e um esplendor inimitáveis, ainda que tenha vivido menos de três décadas.

Suicidado aos 28 anos de idade, este artista angustiado e inquieto, cravejado por desconfortos existenciais, nascido em Teresina (Piauí) durante os estertores da 2ª Guerra Mundial, agora tem em Todas As Horas do Fim (2018), dirigido por Eduardo Ades e Marcus Fernando, um documentário à altura de sua vida, obra e legado.


O brilhantismo do filme se manifesta na escolha acertada pela confluência entre as várias artes que o multi-facetado Torquato exerceu – a poesia, a música, o cinema, o jornalismo cultural etc. Montado de maneira ousada e tensionado pelo tema-bumerangue do fim precoce de sua vida (nisto comparável às de Hendrix, Rimbaud, Janis, Castro Alves, Cobain, dentre outras figuras hoje monumentais), a obra fornece um painel caleidoscópico de um destino estraçalhado.

Como bem notou José Geraldo Couto no texto A Sina do Menino Infeliz, o doc escapa do clichê das talking heads, usa e abusa do voice-over e integra as artes e a política no mesmo caldo fílmico: “um depoimento de Gilberto Gil sobre a característica de Torquato como menino franzino, herdeiro da ‘severinidade’ do sertão nordestino, é acompanhado de imagens de Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. Versos do poeta sobre o próprio nascimento são seguidos pela célebre cena de Macunaíma (Grande Otelo) despencando no chão entre as pernas da mãe (Paulo José) no clássico de Joaquim Pedro de Andrade.”

No filme, que comoveu Xico Sá até as lágrimas por conter “tanta violência, mas tanta ternura”, fazem aparições o poeta-parceiro Waly Salomão, com quem Torquato criou a revista de edição única Navilouca, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, além de Gil, Caetano e Tom Zé. Eles são alguns dos responsáveis por homenagens e problematizações àquele que estava destinado a “desafinar o coro dos contentes”.

Uma das melhores portas de acesso à constelação afetiva que em Torquato pulsava está naquele verso lapidar, inesquecível, em que Torquato diz que ao nascer um anjo muito louco lhe disse: “vai, bicho, desafinar o coro dos contentes!”.

Ele crava o verso em um poema-canção chamado “Let’s Play That”, musicado por seu parceiro Jards Macalé, em que Torquato pratica uma pirataria de subversão com o “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade. São palavras que encapsulam numa pílula poética-musical toda a sina torquateana:

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão.
não era um anjo barroco,
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião.

eis que esse anjo me disse,
apertando minha mão,
com um sorriso entre dentes:
vai, bicho, desafinar
o coro dos contentes!
let’s play that!

TORQUATO NETO

Roberto Muggiati, no prefácio ao livro de Toninho Vaz, tenta sintetizar esta vida e explicar as razões para refulgência atual de Torquato, tantas décadas após sua morte auto-provocada com gás:

Roberto Muggiati, autor do prefácio à biografia de Torquato Neto escrita por Toninho Vaz

“Sua odisseia abrange um arco perfeito num século de crises. Nasce em 1944, no final da 2ª Guerra; cresce à sombra da Guerra Fria, nos acanhados anos 1950 de um Brasil vira-lata entre as nações, e explode na década que mudou tudo, em meio aos anos de chumbo e à catarse multimídia da Tropicália. Nada mais atual do que o relançamento desta biografia – Toninho conta Torquato daria um bom show do Arena – neste inverno do nosso descontentamento, quando os jovens dão de novo o ar de sua (des)graça nas ruas do país.

Alma de contestador, Torquato escapou por pouco do incêndio da sede da UNE (costumava dormir lá), durante o golpe de 1964; participou ao lado de Gil na Passeata dos 100 Mil, em 1968, no centro do Rio; foi um dos ideólogos da Tropicália e do movimento ‘udigrudi’ do cinema Super-8… Mais de trinta anos após sua morte, sobrevivem a coerência, a integridade e a coragem de um contestador nato, um transgressor cultural inscrito no plano mais elevado das inventivas nacionais. Um mito. Outro poeta da mesma geração, o curitibano Paulo Leminski, escreveu: ‘Como Buda, Confúcio, Sócrates ou Jesus, Torquato não deixou livros.'” (MUGGIATI, 2013, p. 12) 

Uma das mais emblemáticas imagens que sintetizam a marcante presença de Torquato nas revoluções estéticas brasileiras está na capa do disco-manifesto Tropicalia – Ou Panis et Circenses. Ali está Torquato na companhia de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes, Rogério Duprat, Capinam (além do retrato de Nara Leão).

Letrista ousado, Torquato fornece ao movimento nascente da Tropicália alguns de seus manifestos musicados mais memoráveis, como “Geléia Geral” e “Marginália II”, além da pungente canção anti-edipiana “A Mãe”:

GELÉIA GERAL

Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira num calor girassol com alegria
Na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

A alegria é a prova dos nove e a tristeza é teu porto seguro
Minha terra é onde o sol é mais limpo e Mangueira é onde o samba é mais puro
Tumbadora na selva-selvagem, Pindorama, país do futuro
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

É a mesma dança na sala, no Canecão, na TV
E quem não dança não fala, assiste a tudo e se cala
Não vê no meio da sala as relíquias do Brasil:
Doce mulata malvada, um LP de Sinatra, maracujá, mês de abril
Santo barroco baiano, superpoder de paisano, formiplac e céu de anil
Três destaques da Portela, carne-seca na janela, alguém que chora por mim
Um carnaval de verdade, hospitaleira amizade, brutalidade jardim
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

Plurialva, contente e brejeira miss linda Brasil diz “bom dia”
E outra moça também, Carolina, da janela examina a folia
Salve o lindo pendão dos seus olhos e a saúde que o olhar irradia
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

Um poeta desfolha a bandeira e eu me sinto melhor colorido
Pego um jato, viajo, arrebento com o roteiro do sexto sentido
Voz do morro, pilão de concreto tropicália, bananas ao vento
Ê, bumba-yê-yê-boi ano que vem, mês que foi
Ê, bumba-yê-yê-yê é a mesma dança, meu boi

MARGINÁLIA II

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

MAMÃE, CORAGEM

Com Gal Costa, Jards Macalé e Wagner Tiso

Inspirado pelos versos iniciais de “Marginália II”, o historiador da cultura Frederico Coelho batizou seu livro Eu, Brasileiro, Confesso Minha Culpa Meu Pecado – Cultura Marginal no Brasil das Décadas de 1960 e 1970 (Ed. Civilização Brasileira).

Nesta obra, Torquato Neto é analisado na companhia de artistas como Hélio Oiticica, Glauber Rocha e Jards Macalé, dentre muitas outras figuras magistrais de nossa cultura. A obra foca suas atenções numa constelação contracultural que esteve fora-do-eixo do status quo, propondo anárquicas tropicalidades, instaurando novos cinemas, forjando parangolés de dar olé em qualquer fardado gorila…

Torquato é esmiuçado por Fred Coelho, inserido em sua contextura histórica, exposto em ação nas suas inúmeras parcerias, revelado por seus escritos como crítico musical em Última Hora, em seus poemas e letras, em seus filmes e suas incursões como ator (Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso, sendo a mais célebre delas).

O livro acaba por celebrar Torquato como uma das figuras que mais visceralmente criou uma obra de relevância, no âmbito da contracultura e à margem do mainstream, no Brasil daqueles duros anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar, que tantos amargos cálices obrigou o artista dissidente a engolir.

É uma obra que nos permite abordar o abissal destino de Torquato – com sua temporada no hospício e seu suicídio gaseificado – com um olhar atento às causas históricas e às determinações coletivas de sua sina.

Todas as obras sobre Torquato não conseguem se esquivar de reflexões sobre a loucura, o alcoolismo, a espiral de auto-destruição que fez com que esta vida fosse tão encurtada no tempo.

No doc Todas as Horas do Fim, temos até mesmo o testemunho de um psiquiatra que mostra o quanto Torquato não era “enquadrável” em nenhum rótulo psico-patológico, tendo permanecido em seus Diários de Hospício (que valeria a pena comparar com aquele escrito por Lima Barreto em Cemitério dos Vivos) um severo crítico da realidade manicomial.

Sobre o seu período internado “na cabine 103 do hospício de Engenho de Dentro”, outro artista seminal, Sergio Sampaio, escreveu a imortal canção “Que Loucura”:

Fui internado ontem
Na cabine cento e três
Do hospício do Engenho de Dentro
Só comigo tinham dez

Estou doente do peito
Eu tô doente do coração
A minha cama já virou leito
Disseram que eu perdi a razão

Tô maluco da idéia
Guiando carro na contramão
Saí do palco e fui pra platéia
Saí da sala e fui pro porão

Em sua excelente biografia de Torquato Neto, Toninho Vaz têm o mérito de evocar a presença de seu protagonista em meio às chamas do Golpe de Estado de 1964, frisando uma das imagens mais memoráveis do livro: os pertences pessoais de Torquato Neto, incluindo sua máquina de escrever, ardendo até as cinzas dentro do prédio da UNE, incendiado pelos militares golpistas.

Torquato e Gilberto Gil: Passeata dos Cem Mil

Dias antes do putsch, Torquato – com 20 anos de idade – havia participado de mega-eventos cívicos como o Comício da Central do Brasil, que reuniu cerca de 200.000 pessoas no Rio em 13 de Março, e era ali que

“o estopim iria se acender. De nada adiantou programar shows de Elza Soares, Nora Ney e Jorge Veiga, para despistar e abrandar o impacto do evento. O apoio ostensivo de políticos de esquerda (os governadores Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul, e Miguel Arraes, de Pernambuco) e de entidades ligadas aos trabalhadores, que subiram ao palanque de João Goulart, iria irritar profundamente os militares que já estavam aquartelados. Em Brasília, os líderes da oposição consideraram subversivas e violadoras as palavras de ordem que pediam reformas de base, mudança na Constituição e legalidade do Partido Comunista – e ameaçavam de prisão o gaúcho Brizola, que reagiu criando um foco de resistência e apoio ao presidente Goulart.

31 de Março de 1964. Torquato acorda no sofá da sala, no 4º andar da UNE, com alguém gritando seu nome da rua. Ele enfiou a cara na janela. Era o cunhado Hélio, que tinha caminhado vários km para avisar que os militares tomavam conta do país… A paisagem da cidade era desoladora; as ruas estavam bloqueadas por barricadas e jeeps militares circulavam ameaçadores… Horas depois a sede da UNE seria incendiada por tropas militares, em ato comandado pelo civil Flávio Cavalcanti, o apresentador de televisão, um dos grandes baluartes da direita brasileira. É claro que houve resistência por parte dos estudantes, algumas dezenas deles, mas nem a chuva impediu que o prédio fosse destruído, levando junto roupas e objetos de Torquato que estavam trancados num armário. Inclusive a pequena máquina de escrever…” (TONINHO VAZ, p. 106-108)

Toninho Vaz, autor de biografias de Torquato Neto e Paulo Leminski

 

O aspecto sócio-político da trágica sina de Torquato também é explorado pelo doc Todas As Horas Do Fim, onde as andanças pelo exílio – primeiro em Londres, morando com o pessoal da Exploding Galaxy, depois em Paris e além… – tornam Torquato um desterrado, que talvez sentia saudades das suas raízes (tanto que retorna a Teresina e realiza um filme trash). Mesmo casado com Ana Maria Duarte, e com seu filho Thiago Nunes ainda na primeira infância, mesmo com o tesão pelo cinema Super-8 e pela realização de filmes trasheira, mesmo com a oportunidade de seguir carreira como letrista, Torquato escolherá o suicídio em 1972 – com o Brasil ainda mergulhado nas trevas do pós-A.I. 5.

O cadáver de Torquato cai ao chão enquanto os gorilas começavam os massacres dos guerrilheiros do Araguaia. Na cilada do “ame-o ou deixe-o”, estes foram os que deixaram, de modo violento, insatisfeitos, inconformados, o palco sangrento de um Brasil que nada tinha de pátria mãe gentil.

O que significava na práxis de Torquato, enquanto poeta, compositor, jornalistas, este tal de “desafino” contra-cultural e tropicalóide contra o “coro dos contentes” pode ser sorvido nos dois volumes do livro Torquatália, reunião de suas poesias e artigos de jornal. Ali, por exemplo, podemos deparar com este texto sobre as grandes gravadoras – as empresas capitalistas que exploram financeiramente o mercado da música pop – que Torquato publica em sua coluna-com-escoliose, Geléia Geral, dando suas alfinetadas no Mercadão:

“…as gravadoras continua ‘por fora’ como sempre, cheias de preconceitos burros. (…) As sumidades das gravadoras teimam na obtusidade de sempre. (…) O famoso ‘samba-jovem’, tolice publicitária e musical, barulheira desagradável, mistura cafajeste de samba e iê-iê-iê…” (@ Geléia Geral, pg 31 e 33)

Torquato, em suas colunas de jornal sobre música pop, jamais trabalha como serviçal das corporações de mercantilizadas canções, mas sim com a autonomia de um sujeito fazedor-de-cultura, que não dispensava jamais a sua faceta crítica.

O criador Torquato – sabemos, legou-nos um corpo de canções compostas na era Tropicalista que teve profunda influência sobre Gil, Caetano, Gal, Tom Zé, Jards Macalé e tantos outros artistas brasileiros… – é também o criticador, às vezes mordaz em suas sagazes invectivas, outras vezes delicado e sensível, que passa o trabalho dos outros sob o crivo de uma crítica que tem algo de “Frankfurtiana”.

Os Mutantes

Mas, bem diferente de Adorno e Horkheimer, a crítica à Indústria Cultural, em Torquato Neto, é menos austera e pessimista, mais aberta à folia anárquica de um antropofágico tropicalismo. Levado a sério em sua brincadeirância sublime – a obra genial dos Mutantes sendo prova empírica da sua possibilidade realizada, de seu “inédito viável” (Paulo Freire) concretizado, podia gerar uma cultura brasileira exuberante.

Essa exuberância era explícita na Era dos Festivais. Sobre o surgimento, na década de 1960, da nova MPB, Toninho Vaz escreve: “Os festivais funcionaram como um rastilho de pólvora na explosão dos talentos de Chico Buarque, Gil e Caetano, para citar apenas a santíssima trindade desse evangelho. Era como se o elástico do estilingue estivesse esticado ao máximo, trazendo no bojo da catapulta o recheio ideológico de um novo Brasil, projeto sob medida para um povo que ansiava se assumir como nação.” (Vaz, apud Muggiati, p. 13)

Para Torquato, o poeta se faz no risco. Ele arriscou-se e petiscou. Àquela questão que perenemente nos acossa – “existirmos: a que será que se destina?” – Torquato Neto respondeu em aberto, propondo uma miríade de novas questões. Com sua obra e vida, tão radicalmente inconclusas, tão cheias de ressonâncias e influências, convida-nos a navegar a todo perigo. Pois, como disse outra gênia da América Latina, “la creación es un pájaro sin plan de vuelo, que jamás volará en línea recta” (Violeta Parra).

A Tropicália não seria a mesma sem a Torquatália. A cultura brasileira, após o meteoro Torquato, nunca mais seria a mesma após a passagem daquela jóia, daquela pérola, daquele anjo torto e sublime, que Caetano cantou como “a cajuína cristalina de Teresina”. Que esta triste sina nos ilumine ainda.

CAJUÍNA – de Caetano Veloso – Homenagem a Torquato Neto

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina


EPÍLOGO

COGITO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

In: “26 Poetas Hoje”, de Heloisa Buarque de Holanda, Ed. Aeroplano, 2007. pg. 65.



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NUVEM DE LINKS TORQUATEANOS: Tese de doutorado em História (Recife, UFPE, 2004) – Tese de Mestrado em Literatura (PUC-SP, 2010) –  Tese de Mestrado em História (Goiânia, UFG, 2011) – Hoje em DiaLivro Uma Poética de Estilhaços – Sugira outros links nos comentários.

CINEPHILIA COMPULSIVA – Trajetórias cinematográficas: Listas de filmes assistidos em 2017 / Parte 2 (Julho a Dezembro)

CINEPHILIA COMPULSIVA
Trajetórias cinematográficas
Itinerários 2017 / Parte 2 (Junho a Dezembro)

“Animal Político”, de Tião
(Pernambuco / BR, 75 min, 2017)



CANÇÃO DA VOLTA (2016, 1h 38min)
Direção: Gustavo Rosa de Moura
Elenco: Marina Person, João Miguel, Marat Descartes.



CORRA! (Get Out), de Jordan Peele (EUA, 2017)
Reviews: Salon



MUNDO CÃO (2016), um filme de Marcos Jorge. Com Lázaro Ramos, Adriana Esteves, Babu Santana
Disponível no Netflix Br





A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA,
um filme de Vinicius Coimbra, inspirado em conto de Guimarães Rosa



À Queima Roupa, Documentário de Theresa Jessouroun (Brasil, 2014).



Trash (2015), um filme de Stephen Daldry e Christian Duurvoort,
baseado no romance de Andy Mulligan, com Wagner Moura e Selton Mello.

Resenhas em Rotten Tomatoeshttps://www.rottentomatoes.com/m/trash_2015



 


COMO FUNCIONAM QUASE TODAS AS COISAS
Um filme de Fernando Salem (Argentina, 2016)
Assistido em Goiânia durante o Sappi no Lumière Bougainville




BORN IN FLAMES ou NASCIDAS EM CHAMAS
de Lizzie Borden



SIGA VIAGEM:

CINEPHILIA COMPULSIVA

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS – Sobre o filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

A FRATERNIDADE DOS REFUGIADOS
por Eduardo Carli de Moraes​

“Nós somos todos refugiados”, dispara Carmem Silva, uma ativista da Frente de Luta por Moradia (FLM) de São Paulo. “Somos refugiados da falta dos nossos direitos.”

Carmem, esta mulher da vida real que interpretou a si mesma em “Era o Hotel Cambridge”, fusão de ficção e documentário, talvez seja a responsável pela frase mais emblemática deste memorável, contundente e relevantíssimo filme dirigido por Eliane Caffé.

O filme é espetacular por sua capacidade de transcender o cinema e tornar-se um evento cívico, um acontecimento político, uma “experiência de cinema colaborativo em São Paulo que aproxima artistas e intelectuais de movimentos de sem-teto e refugiados. E explica o direito à cidade, na prática.” (Rede Brasil Atual)

Eliane Brum​, em artigo magistral para EL PAÍS Brasil​, disse que o desembarque entre nós deste OVNI cinematográfico equivale a “um acontecimento político-cultural capaz de expressar as tensões e a potência do Brasil atual”:

“O Hotel Cambridge, personagem central do filme, foi na vida real de São Paulo um hotel de luxo construído no final anos 50 com evocações hollywoodianas. Com o crescimento da cidade e o abandono da região central pelos mais ricos, ele testemunhou sua própria decadência. Em 2004, cerrou suas portas e tornou-se mais um esqueleto do centro, um morto insepulto, abandonado ao vazio. Em 2012, foi ocupado pelo movimento dos sem-teto, uma das forças de maior potência da maior cidade do Brasil.

O hotel foi ocupado por cerca de 140 famílias, mais de 240 crianças. A quantidade de meninos e meninas fica explícita em cuidados como um surpreendente e bem organizado estacionamento de carrinhos de bebê. Na dinâmica da especulação imobiliária, que se impõe como uma lógica questionada por poucos, o fato de o Cambridge ter ficado abandonado por oito anos, juntando lixo e empoçando água, tornando-se um criadouro de mosquitos numa época de dengue, zika e chikungunya, não parece ser um problema para a população.

Já quando o velho hotel foi ocupado para a moradia de quem não tem, os ocupantes são tachados de “invasores” – e a urgência de sua denúncia é apagada pelo processo perverso da criminalização.”

(ELIANE BRUM – Leia na íntegra em http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/20/opinion/1490015804_432739.html)

Em “Era o Hotel Cambridge”, baseado em livro de Carla Caffé, o cinema brasileiro alça-se às alturas artísticas que dele se espera por sua gloriosa história pregressa (de Glauber e Sganzerla, a Meirelles e Coutinho, com incontáveis outros gênios que poderiam ser lembrados). É uma obra coloca-nos algumas questões cruciais para o século 21, época em que vivenciamos a pior crise de refugiados no pós-2ª Guerra Mundial (1939-1945) (sobre o tema, leia: Vladimir Safatle) e em que as utopias urbanas têm insistido em sonhar e construir outros mundos possíveis baseados em ideários como “se a cidade fosse nossa….”.

“Ocupar está em voga na cidade de São Paulo. Secundaristas, massa crítica, hortelões comunitários, Ministério da Cultura (MinC), fábricas de cultura, Minhocão, jornadas de junho, ­rolezinhos foram e são fenômenos que apontaram para movimentos de apropriação e ressignificação dos espaços públicos e da vida pública. São insurgências distintas, na maioria um pontapé da juventude. E que, apesar de separadas no mapa, possuem pontos comuns: resistência, prática autônoma e discurso apartidário. Uma experiência chama especial atenção nesse fluxo, principalmente pelo cruzamento entre diferentes tribos urbanas – militantes, artistas, jornalistas, psicanalistas, arquitetos, médicos e refugiados: a Ocupação Cambridge, fruto de um movimento não tão novo, mas importante na história das lutas sociais da cidade, pela moradia digna.” – CAROLINA CAFFÉ em REDE BRASIL ATUAL – Click e leia o artigo na íntegra

Refugiados e imigrantes provenientes do Congo, da Palestina e da Colômbia estão entre os personagens principais desta obra polifônica, rica em diversidade humana, em que Eliane Caffé inscreveu de vez seu nome nos anais da 7ª arte em nosso país. Desde já, a obra merece ser estudada nas aulas de sociologia, já que torna explícita a práxis deste conceito, às vezes compreendido de modo demasiado teórico ou abstrato do  Direito à Cidade, tão essencial na obra da cientistas sociais como Henri Lefebvre e David Harvey (autor de Cidades Rebeldes), e que possui no Brasil um de seus principais pensadores e praticantes na figura do Guilherme Boulos, filósofo e líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

Eliane Caffé já havia realizado um filmaço com “Narradores de Javé” (2003), onde um banquete linguístico de deixar contente qualquer fã de Guimarães Rosa, José Cabral de Melo Neto ou Ariano Suassuna somava-se à descrição de um drama social que retorna ao foco, ainda em que transformado e em outras condições, em “Era o Hotel Cambridge”.

Ambos filmes falam sobre aqueles que são refugiados no Brasil, apesar de serem brasileiros; são gente que poderia figurar no tratado “Os Excluídos da História”, da historiadora francesa Michelle Perrot (Ed. Paz & Terra); são aqueles que foram expulsos de seu direito constitucional à moradia, ao território tradicional/originário, ao usufruto da terra que nos é comum.

São gente como a gente, da qual subtraem-se direitos a fórceps. São gente que sofre na carne as incontáveis desumanidades institucionalizadas que em toda parte vem maculando esta Terra que hoje encontra-se toda conspurcada pelas cercas, arames farpados e muros altos edificados pelas elites dos privilégios.

Em “Narradores de Javé”, os refugiados são os moradores do vilarejo de Javé, que está sob ameaça de desaparecer debaixo d’água devido à construção de uma gigantesca hidrelétrica. É surpreendente notar que um filme realizado no ano de 2003 pode hoje soar profético, emblemático de uma era do nosso Brasil que prossegue vigente 15 anos depois. É como se Eliane Caffé tivesse previsto com uma quase miraculosa clarividência, desde o começo do século, que vivenciaríamos os conflitos e antagonismos que hoje nos atravessam com os projetos à la Belo Monte e os fluxos migratórios desordenados e caóticos que hoje ocorrem pelo globo afora, piorados após as desastrosas campanhas da chamada Guerra Contra o Terror no Oriente Médio.

A resistência rural à redução do cidadão ao estado de refugiado interno tinge “Narradores de Javé” de um teor contestatório latente, transformando o filme, que poderia ser visto apenas como excelente entretenimento, a um só tempo humorístico e pedagógico, ao patamar mais alto das obras-de-arte que são também documentos históricos e sócio-culturais. É uma obra que permite-nos, por exemplo, avançar uma compreensão mais cheia de empatia e de entendimento dos dramas atuais como a luta do povo Munduruku contra as hidrelétricas no Rio Tapajós.

Em “Era O Hotel Cambridge”, os refugiados são os moradores da megalópolis paulista que têm negados pelos gestores palacianos da sociedade a chance, constitucionalmente garantida, à casa própria e digna. São aqueles que, obrigados por circunstâncias adversas a ocuparem imóveis abandonados, dão suor e sangue a prédios abandonados com a nova vida que lhe infundem através da ocupação.

A ocupa, força vivificante, resistente, que contesta o império atualmente vigente da especulação imobiliária e da gentrificação, serve como laboratório de outros mundos possíveis. Um mundo onde a propriedade de privilégios que privam concidadãos do mais básico para a existência digna seja reconhecida pelo que é: privilégio é só propriedade abusiva, ilegítima, reconhecível apenas como “roubo”, como dizia Proudhon. O privilégio é um roubo.

Em uma resenha escrita por Isabel Wittmann, ela pontuou muito bem o potencial do filme em pôr em questão o abismo existente entre a Constituição de 1988, em sua dimensão igualitária e em suas pretensões de instaurar justiça social, com nossa realidade atual, tão marcada por direitos que nos são violentamente subtraídos, em especial com a avalanche de retrocessos patrocinada pelas forças sociais e políticas responsáveis pelo Golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016-2017.

“O artigo sexto de nossa Constituição Federal estipula que “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. O Estado tem a obrigação de garantir que sua população tenha moradia, mas o que fazer quando os governos não só se recusam a fazê-lo, como reagem no sentido de silenciar movimentos que tentar garantir seus direitos? Essa é uma das muitas questões levantadas em Era o Hotel Cambridge, da diretora Eliane Caffé.

Trabalhando nos limites entre o ficcional e o documental, Caffé registra o cotidiano dos moradores do Hotel Cambridge, edifício abandonado no centro da cidade de São Paulo, destacando as vivências caleidoscópicas de alguns personagens que dão corpo à experiência coletiva. A rotina, as reuniões as tarefas e momentos de engajamentos são retratados com fluidez. Dentre as personagens, o destaque é Carmem, líder real da Frente de Luta por Moradia (FLM), que aqui tem sua força coordenadora descortinada para o público. Mas a narrativa é polifônica: não só se pauta em muitas vozes, como é perceptível a colaboração dos participantes com suas experiências reais nas falas de seus personagens. Em certo momento, Apolo (José Dumont), que organiza um espécie de vlog da ocupação, pergunta “Cadê o foco narrativo?“. Não há um foco pois o protagonista é a luta, sendo cada um apenas uma faceta dela.” (WITTMANN, Isabel)

(http://estantedasala.com/era-o-hotel-cambridge/)

Se o filme oferece-nos motivos para indignação, em especial quando desponta toda a truculência das Tropas de Choque, sob comando do Tucanistão, trata-se de um filme bem mais esperançoso do que, digamos, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. A São Paulo focalizada por ambos os filmes é semelhante: é a cidade suja, abandonada, fervilhante de contradições, vista de cima pra baixo, sob a perspectiva dos mais humilhados e ofendidos pelo Sistema; em suma, não é Sampa vista de uma heliponto na Avenida Paulista ou de uma cobertura de 5 milhões no Morumbi, é a Sampa tal como ela é vivenciada nas Crackolândias, favelas e cortiços da maior cidade da América Latina.

“Riocorrente” parece evocar uma Sampa distópica, mais dark que Blade Runner 2049​, onde um dia o Tietê virará nada menos que um rio de fogo – e os protagonistas não vão economizar nas fagulhas e faíscas que tem a fornecer pra que tudo pegue fogo.

“Era o Hotel Cambridge” acredita mais na empatia humana e na força telúrica do amor sob sua encarnação social, expandida para além da cela individual e familiar – aquilo que chama-se comumente de “solidariedade” ou “fraternidade”. O bicho pode estar pegando – a Tucanalha fardada está prestes a chegar, com toda a grosseria brucutu de herdeiros da Ditadura Militar, para cumprir mandato judicial de reintegração de posse com a delicadeza e o respeito humano que viu-se no Pinheirinho (São José dos Campos) – mas o povo, unido, pode até ser vencido, mas luta com união, fortalece-se no esforço de superação das opressões vigentes, reergue-se como Fênix de cada derrota.

Se o Brasil não é um pesadelo totalmente desesperador, é pois existem fortes focos de resistência contra a mercantilização e canalhização completa de nossas vidas. No campo e nas cidades, MSTs e MTSTs, Levantes Populares de Todas as Juventudes, resistências enraizadas dos povos indígenas e quilombolas, artistas com consciência crítica, intelectuais orgânicos atentos aos horrores galopantes, midiativistas e artivistas, dentre outras forças, fazem desta pátria pluritétnica algo muito mais interessante e amável do que a pálida e pútrida propaganda pra patriotário que é a “Ordem e Progresso” do regime Michel Temer​.

Após o golpe de Estado de 2016, “Era o Hotel Cambridge” levanta-se como uma das mais preciosas respostas da Arte Brasileira ao cenário de devastação que está sendo gestado pelos arquitetos da Ponte Para o Futuro (“imaginem quantos milhões de pobres vão morar debaixo dela”, como provoca a tirinha de André Dahmer – malvados​). Este filme pode inclusive ensinar-nos um bocado sobre solidariedade internacionalista, este pilar básico do movimento socialista, que jamais acreditou em emancipação paroquial, mas sim na união de várias emancipações coordenadas, pois onde quer que haja opressão, há resistência e ímpeto de revolução, algo a tecer em união numa grande Internacional Comunista. Com o perdão deste arroubo Trotskysta, voltemos aos refugiados…

Zygmunt Bauman, o finado sociólogo polônes que tanto nos ensina sobre o mundo atual e o drama global dos refugiados, talvez diria, assistindo ao filme de Eliane Caffé, que ele exemplifica perfeitamente o conceito de “sub-classe”, ou de “sub-gente”, que com tanta frequência é mobilizado por nossas elites que tratam vastos contingentes populacionais como simplesmente “matáveis”.

Em “Danos Colaterais – Desigualdades Sociais Numa Era Global” (Ed. Zahar), ele escreveu:

“A condição de subclasse é a de emigrados internos, ou imigrantes ilegais, ‘estranhos de dentro’ – destituídos dos direitos de que gozam os membros reconhecidos e aprovados da sociedade; em suma, um corpo estranho que não se conta entre as partes ‘naturais’ e indispensáveis do corpo social. Algo não diferente de um tumor cancerígeno, cujo tratamento mais sensato é a extirpação…” (BAUMAN, 2011, p. 10)

Esta é a ideologia do nosso inimigo: o fascismo das elites que elegem certos povos, etnias ou territórios como “zonas de sacrifício” (Naomi Klein​), lidando com gente como se fosse sub-gente, meros bichos a serem mandados para matadouros, danos colaterais a aparecerem nos gráficos dos senhores da guerra reunidos em um bunker do FMI…

Como Eliane Brum bem percebeu, “Era o Hotel Cambridge”, sem nenhum panfletarismo explícito – quero dizer, sem nunca ficar parecendo com um discurso de Guilherme Boulos – trabalhou com uma noção crucial para nós no mundo contemporâneo: a fraternidade dos refugiados.

“Esta ideia está explícita na síntese produzida por Carmen Silva, ao abrigar estrangeiros de diversas origens com brasileiros de diversas origens sob o teto da mesma palavra-casa: refugiados”. Ela sinaliza que a identidade só pode existir como atravessamento de múltiplos.

Este é o amálgama que une todos aqueles homens e mulheres, adultos e crianças que se dedicam ao absurdo da vida nos corredores do Hotel Cambridge. O amálgama que coloca os brasileiros como um “fora” mesmo dentro do seu próprio país, os estrangeiros como um “fora” de suas pátrias de origem. Mas todos eles sem refúgio de fato, exceto o do provisório, do efêmero, que constroem num antigo hotel de luxo abandonado. O único refúgio permanente é o desta identidade atravessada que permite que se movam e que confrontem o sistema por “dentro”, eles que são aqueles que foram colocados “fora”. O refúgio permanente é justamente o improvável de sua existência coletiva.

E assim, “Era o Hotel Cambridge” (…) converte-se em uma das obras culturais mais criativas e criadoras dos últimos muitos anos. E uma obra que incorpora a política, na sua expressão mais profunda, como a própria carne do seu fazer. Vida e obra se entrelaçam de tal maneira que o filme está nos cinemas e nas ruas ao mesmo tempo. Para Carmen Silva e moradores do Cambridge, a obra se tornou um instrumento de luta na medida em que se converteu em um meio para se fazer conhecer.” (BRUM)

No ano em que “Eu, Daniel Blake” (de Ken Loach) faturou a Palma de Ouro em Cannes, colocando no epicentro do debate cinematográfico global o tema das desumanidades cometidas pelo neoliberalismo reinante, e em que iniciou de modo tenso a Era Trump na Casa Branca, com ameaças palpáveis de um recrudescimento das guerras imperialistas e de uma piora tanto da crise dos refugiados quanto da insana caminhada para catastróficas mudanças climáticas, o Brasil ergue-se à altura do tempo histórico com um filme que têm algo a dizer a todo o Globo.

EXTRAS


Reportagem TVT


No estúdio TVT, entrevista com Carmem Silva, uma das líderes do Frente de Luta por Moradia (FLM)



Trailer oficial



Metrópolis – TV Cultura


Depoimento de Camila Pitanga
https://www.facebook.com/eraohotelcambridge/videos/1282159991875503/?hc_location=ufi

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS

A LUTA DO POVO – TRÊS DOCUMENTÁRIOS DE RENATO TAPAJÓS: http://bit.ly/1n6tZGn (Linha de Montagem, Greve de Março e A Luta do Povo)
 
Compartilhamos aqui 3 documentários de alta relevância histórica, dirigidos por Renato Tapajós. São importantes testemunhos históricos das lutas populares na vida política do Brasil, em especial no fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980. O foco dos filmes são as táticas de resistência contra a ditadura militar; a emergência do sindicalismo proletário no ABCD paulista com as intensas greves e épicas assembléias dos metalúrgico; os trabalhos de parto da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT); as mobilizações de rua e imensas passeatas no período de luta pela redemocratização; dentre outros temas. Confiram aí estes essenciais docs de Tapajós: “Linha de Montagem”, “Greve de Março” e “A Luta do Povo”, na íntegra:

LINHA DE MONTAGEMcartaz linha de montagem

Memorial da Democracia: O documentário “Linha de Montagem”, do cineasta Renato Tapajós, foi realizado no calor do movimento operário do ABC paulista. O enredo se desenvolve entre a organização das greves e a força do líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Lula. O lançamento do filme ocorreu na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP). No meio da projeção, a Polícia Federal tentou apreender o filme, que não tinha certificado de exibição. Os próprios operários salvaram uma cópia.

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GREVE DE MARÇO

“Greve de Março” aborda, em 35 minutos, a primeira fase da greve dos metalúrgicos do ABCD paulista, em 1979. Foi realizado para ser exibido aos operários durante a trégua entre as duas fases da greve, com o objetivo de mobilizá-los para a segunda fase. O filme mostra as grandes assembleias com mais de 100 mil metalúrgicos, a mobilização em vigília no Sindicato, os conflitos de rua e a volta triunfal da diretoria – encabeçada por Lula – na grande assembleia em que a trégua é proposta.

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A LUTA DO POVO
A Luta do Povo



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DO MESMO DIRETOR, ASSISTA:

O ROSTO NO ESPELHO

Um documentário de Renato Tapajós

Sinopse: Um documentário que investiga a relação entre os movimentos culturais de hoje e a transformação social, revelando um Brasil profundo e multicultural, geralmente ignorado pela mídia e preconceituosamente esquecido pela cultura dominante. A viagem pessoal do documentarista Renato Tapajós (o mesmo de Linha de Montagem)  se surpreende com a força nascente das comunidades índias, negras e caboclas, que reconstroem suas identidades e se reapoderam de suas vozes.

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SIGA VIAGEM NA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO…

RESISTÊNCIA CULTURAL: “O cinema brasileiro teve um importante papel na resistência cultural à ditadura. Antes do golpe civil-militar de 1964, a produção cinematográfica vivia um momento fecundo, iniciado em 1955 com o lançamento do filme “Rio, 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, marco do surgimento do Cinema Novo. Engajada nos intensos debates daquele momento sobre a realidade do país e a necessidade de transformações, uma geração de jovens cineastas dispôs-se a superar os problemas técnicos e de financiamento das produções, empunhando o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Seu propósito era realizar filmes de apelo popular que discutissem o subdesenvolvimento e a realidade nacional numa linguagem baseada nos valores culturais brasileiros. Os filmes da chamada “trilogia do sertão”, que viriam a seguir, sintetizam esses compromissos estéticos e políticos. São eles: “Vidas Secas”, de 1963, de Nelson Pereira dos Santos; “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de 1964, de Glauber Rocha; e “Os Fuzis”, de 1965, de Ruy Guerra. Nessa fase, destacam-se ainda outros jovens diretores como Sérgio Ricardo, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Gustavo Dahl, David Neves, Joaquim Pedro de Andrade e Luiz Carlos Barreto.” – Memorial da Democracia