AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES – Documentário curta-metragem aborda a arte de resistência e os agentes culturais transformadores no cenário de Goiânia em 2018 (Um filme de Eduardo Carli de Moraes, 25 min)

 

AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES

Novo documentário curta-metragem aborda a Arte de Resistência e dá voz a agentes culturais transformadores que estão em ação no cenário de Goiânia em 2018

Um documentário de Eduardo Carli de Moraes – 25 min

SINOPSE – Em um lugar “onde assassino tem o nome na avenida”, como canta Adriel Vinícius, há um microcosmo social que não se acomoda nem se conforma com o status quo indignante que hoje nos assola. O documentário curta-metragem Afinando o Coro dos Descontentes deseja amplificar a voz dos artistas goianienses que estão em franco levante contra as injustiças sociais e as violências estruturais conectadas ao reinado de Anhangueras, Marconis, Cachoeiras e Caiados, dentre outros podres poderosos que tiranizam Goiás.

Por 25 minutos, mergulhe nesta movimentação contra-cultural e subversiva, onde efervescem as obras e práticas de “muita gente bacana, com antenas ligadas no que está acontecendo aqui e agora”, como diz Diego Mascate, um dos personagens do filme, na companhia de Adriel, do Terra Cabula, de Vitor Hugo Lemes, de Jordana Luz, de Luiza Camilo, de Geovanni Santos, de Bergkamp Magalhães, das bandas Cocada Coral e Retalha Ventro, dentre outros.

Nas últimas duas décadas, o cenário cultural de Goiânia marcou época no Brasil com a emergência de um cenário efervescente de bandas nacionalmente reconhecidas (Boogarins, Carne Doce, Black Drawing Chalks, Cambriana, Violins etc.), festivais de alta potência (Bananada, Noise, Vaca Amarela etc.) e produtoras culturais que somaram muito à cena (Monstro, Fósforo Cultural, A Construtora etc).

A riqueza e diversidade deste  cenário é tamanha que pode-se sentir a existência pulsante, no underground, de uma eclosão de iniciativas culturais insurgentes, de resistência e contestação. Este doc faz uma “etnografia à quente” (para emprestar uma expressão de Ivana Bentes) do cenário artístico de Goiânia na perspectiva daqueles que insistem em resistir – ou melhor, que apostam na re-existência, em existir de outras maneiras.

Oferecendo uma rica experiência sensorial, o doc deseja seguir o mote fornecido por Itamar Assumpção quando recomendou que era melhor “afinar o coro dos descontentes”. Pois nossos sonhos não cabem não tuas urnas, deveras, mas cabem sim em nossas canções, em nossos filmes, em nossos grafites, em nossos raps, em nossos passos de break, em nossa ocupação criativa-colorida de uma urbe onde alguns já agem como se fosse carne aquele sonho: “se a cidade fosse nossa…”

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ARGUMENTO – por Eduardo Carli de Moraes

Brecht dizia que “a arte não é um espelho com o qual refletir o mundo, mas um martelo para dar-lhe forma” (uma frase também atribuída ao poeta russo Maiakóvski). O artista autêntico, segundo a visão brechtiana, não é aquele que se acomoda ao real e deseja somente “xerocá-lo” a mera mímesis lhe parece tarefa pífia, indigna da mobilização de suas forças criativas e expressivas, e ele não quer ser refém do realismo mais estrito e restrito. O genuíno artista seria reconhecível por ser aquele cuja existência radicalmente criativa transfigura o real, ou seja, dele participa como agente transformante. Já estamos bem longe da concepção do artista que segura um espelho diante de um real diante do qual ele ficaria passivo-contemplante…

O documentário Afinando o Coro Dos Descontentes chega para fazer uma espécie de “etnografia à quente” (para emprestar uma expressão de Ivana Bentes) do cenário artístico de Goiânia, em busca desta autenticidade em ação nos artistas da cidade. Filmá-lo foi uma aventura dionisíaca, uma espécie de transe de cinematografia em que embarquei no fluxo de eventos públicos e shows onde pude ver ao vivo Diego Mascate, Terra Cabula, Vitor Hugo Lemes, Jordana Luz Negra, Retalha Vento, algumas das mais belas manifestações atuais neste fervilhante microcosmo do Cerrado brasileiro que é Goiânia.

Incrustada no cósmico Cerrado (aquela entidade com a qual tantos místicos entram em contato pela Chapada dos Veadeiros), Goiânia é esta metrópole do Brasil Central onde algo muito singular ocorre no cenário das artes desde a emergência, há cerca de 20 anos, do cenário de festivais independentes mais sólido, sustentável e fértil da nação. Está lançada a missão para os antropólogos e historiadores do futuro: compreenderem a emergência. em Goiás, de Bananada, Goiânia Noise, Vaca Amarela, Encontro de Culturas, Grito Rock, jardins elétricos de cultura genuína que vem florescendo em meio a este espantoso prodígio da geologia planetária, o Cerrado tão trucidado por desmatamentos e ecocídios, onde pulsa sim uma arte politizada. e que atualmente se coloca na posição incontornável de resistência subversão. 

É só citar como exemplo a confluência temática que uniu bandas díspares mas solidárias como Carne Doce, Boogarins, Pó de Ser, Ave Eva: o hippie-slogan “o progresso é mato”, que ficou hype também nos lambes colados pelos muros da cidade, dialoga com aqueles “prédios que não nos deixam ver o Sol” de que nos canta o Dinho na “Avalanche” dos Boogarins. No mesmo contexto inserem-se as canções “A Dança da Canção Incerta”, composição de Diego Mascate e Kleuber Garcez, da banda Pó de Ser, e “Gota Miúda”, do Ave Eva, onde Paula de Paula canta os versos lamentosos: “o sol se escondeu atrás de um edifício, amor como é difícil perdê-lo na construção”. Este é apenas um dentre inúmeros exemplos de que as bandas da cidade tem debatido as contradições do Sertão Urbano, as avalanches de especulação imobiliária, as mudanças climáticas que fazem as chuvas serem de gotas tão miúdas e o confronto entre os privilégios do capital e o direito a cidade que fazem Goiânia dançar, trôpega e equilibrista, sua dança da canção incerta.

No curta-metragem, que busca capturar em 25 minutos alguns vislumbres deste cenário, estão reunidos artistas que pensam fora da caixa, saem da zona de conforto e desejam “ser a própria revolução”, como diz Diego Mascate. Segundo Vitor Hugo Lemes, a resistência, para alguns de nós, “é intrínseca à nossa própria existência” e o artista tem a responsabilidade de agir contra todas as opressões e violências estruturais de que nosso contexto sócio-político está repleto. A atriz e rapper Jordana Luz Negra resume tudo com a frase de Nina Simone, reativada por Larissa Luz: “liberdade é não ter medo”. É vontade de Afinando o Coro dos Descontentes contribuir para propagar a noção de que nunca devemos temer afirmar nossa liberdade.

* * * *

“É preciso amar, é preciso lutar
e resistir até morrer
Quanta dor cabe no peito
e numa vida só
é preciso não ter medo,
é preciso ser maior…”

“Samba do Fim do Mundo”, de Emicida, com Juçara Marçal e Fabiana Cozza

 

FILMOGRAFIA DO DIRETOR / EDUARDO CARLI DE MORAES

– CADÊ O SABOTINHA? (2018):

– FERMENTO PRA MASSA: A Greve Geral em Goiânia (2017):

– A BABILÔNIA VAI CAIR: A Batalha de Brasília (2016):

– PONTE PARA O ABISMO (2016):

– ABRE ALAS: Vislumbres da Primavera Secundarista (2016):

– PRIMAVERA SECUNDARISTA (2016):

– TRANSMUTANDO DOR EM LUTA: Insurgências Feministas (2016):

– DESTRUA O FASCISMO ANTES QUE ELE DESTRUA VOCÊ (2016)

– CANNABIAN CARNIVAL (Canadá, 2014):

– GREEN POWER: The People’s Climate March (Canadá, 2014):

REVISITANDO O “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO” – Obra-prima de Aldous Huxley, escrita nos anos 1930, ainda tem muito a nos provocar

Dentre as obras seminais na história da literatura de ficção científica no século XX,  Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, é uma das que mais merece ser revisitada

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

“Um Estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que os chefes políticos de um Poder executivo todo-poderoso e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão. Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos Estados totalitários de hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores.” – ALDOUS HUXLEY, 1946

O procedimento de Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, um dos romances mais importantes não só do sci-fi como gênero literário, mas de toda a literatura inglesa do século XX, centra-se na descrição de um Estado aparentemente utópico: uma Civilização de tecnologia ultra-avançada, que se gaba de suas proezas de engenharia genética, estabilidade social, condicionamento neo-pavloviano do comportamento, divertimentos eletrônicos multimídia e paraísos artificiais disponíveis com a ingestão de poucos gramas de soma (“dez centímetro cubículos vencem mil pensamentos lúgubres”, escreve Huxley descrevendo a wonderdrug da época).

O estilo de sci-fi nesta obra de Huxley é inteiramente terreno: não há aliens, OVNIs, colonização de outros planetas. As estrelas distantes mal aparecem na trama. Trata-se, para Huxley, de imaginar o futuro da Terra, tentando prever  alguns dos perigos, abismos, potenciais e esperanças que o presente encerra em seu ventre grávido de futuros. Mas trata-se, antes de mais nada, de fazer soarem os alarmes e denunciar os perigos desta Utopia pretensamente tão bela.

A Utopia, em Brave New World, é mais vilã do que mocinha. A epígrafe, de autoria de Nicolas Berdiaeff, lança-nos a um estranho problema em relação à utopia: “Comment éviter leur reálisation définitive?” [“Como evitar sua realização definitiva?”] Ou seja: evitar a utopia, ao invés de abraçá-la, passa a ser… o ideal.

Huxley, como quem arranca um Véu de Maya que encobria os olhos da Utopia, cegando-a para sua própria obscenidade e terror, realiza em Brave New World uma distopia – ou seja, uma inversão da utopia, quase uma nietzschiana “reviravolta de todos os valores”. O que é cultuado como ídolo sofre a revolução que o torna desdenhável como um cisco. O adorável mundo novo revela-se como um grotesco escândalo para o Selvagem que é triturado por suas engrenagens grotescas. O romance de Huxley, portanto, longe de ser uma celebração entusiástica do utopismo, é uma denúncia satírica dos perigos que se escondem nas tentativas humanas de criar sociedades perfeitas.

Huxley parece querer nos mostrar que sempre há um certo descompasso entre o desenvolvimento tecnológico e a antiquíssima confusão, indecisão e discórdia humanas quanto aos sentidos-da-vida. Não há unanimidade entre a humanidade sobre qual seria o “Objetivo Último” dela mesma.

Uns isolam-se em eremitérios na mata, procurando por sabe-se-lá que epifanias místicas, enquanto outros tornam-se homens-de-multidão, animais-de-manada, incapazes de suportar um grama que seja de solidão… Enquanto uns vão a missa e se mortificam, outros enchem a cara e caem na esbórnia; uns entram para mosteiros, outro viram militantes políticos; uns são carnívoros inveterados, outros vegetarianos convictos; há monogâmicos, adúlteros, polígamos, pedófilos, orgiásticos, perversos, celibatários, indecisos; há apolíneos, dionisíacos, socráticos, epicuristas, estóicos, pirrônicos, marxistas, nazis, céticos, agnósticos, fanáticos…

Uma utopia intenta acabar com a imperfeição de tudo o que é humano e instaurar uma sociedade homogênea, harmoniosa, em paz consigo mesma. O “estado” que a Utopia aspira a instaurar no Real consiste num estado de estabilidade, equilíbrio, estase. Uma vez concretizada a utopia, é como se as rodas da História cessassem de girar, como se a sociedade atingisse um ponto ótimo a partir do qual pode abandonar-se calmamente às delícias da inércia.

Em Admirável Mundo Novo, Huxley pinta o retrato de uma sociedade utópica onde “homens e mulheres padronizados, em grupos uniformes”, saem dos frascos das incubadeiras e laboratórios de eugenia absolutamente idênticos uns aos outros, produzidos em série como bichos-de-pelúcia ou automóveis.

A perversidade do sistema econômico é escancarada por Huxley: as castas inferiores, os Ípsilons, são literalmente criados em laboratório e têm seus fetos judiados por procedimentos malignos: seus embriões recebem injeções de álcool e outras substâncias desestabilizantes, a fim de que nasçam semi-aleijados, com retardamentos mentais, crippled for life. “Quanto mais baixa é a casta… menos oxigênio se dá.” (p. 42) “Todo o pessoal de uma pequena usina constituído pelos produtos de um único ovo bokanovskizado” (p. 32): “o princípio da produção em série aplicado enfim à biologia”!

Já os ministérios desta sociedade – Predestinação Social, Condicionamento Emocional… – são todos centrados em eliminar da vida social o imprevisível, programar corações e mentes para que ajam sempre da maneira desejável, sem indesejáveis desvios de conduta. Em Brave New World vigora o Império da Normopatia: os normais têm direitos de imperadores diante dos destoantes, dos anormais, dos desviantes, dos indivíduos demasiado… individualizados.

A utopia quer que cada indivíduo seja uma peça intercambiável de uma maquinaria social maior que ele; e uma peça que, ao quebrar, pode ser facilmente substituída por outra. Esta utopia deseja homens que ajam como abelhas na colméia, formigas num formigueiro. E além do mais esforça-se para que… amemos nossa servidão, nosso sacrifício, nossa auto-imolação nos altares do coletivo!

Que uma norma-de-conduta, imposta pelos poderosos de cima para baixo, seja aceita por toda uma sociedade… eis o sonho utópico cuja tentativa de edificação já fez nascerem tantos totalitarismos. O reinado da Utopia é um Absolutismo Moral. E absolutistas morais podem ser tanto os crentes quanto os ateus: de Hitler a Stálin, os utopistas derramam o sangue dos vivos em nome dos amanhãs cantantes.

Ao invés de leite materno, os bebês bebem uma “secreção pasteurizada” (p. 232). Ao invés de crescerem no ventre das mães, amadurecem na penumbra subterrânea de um laboratório científico, dentro de frascos, rolando linha-de-montagem abaixo na industriosa fábrica-da-vida. Ao invés de irem à escola, vão ao centro de Condicionamento, onde são soterrados debaixo da repetição de slogans e programas-de-comportamento que visam a regular, controlar e submeter o trabalho e o lazer, a moral e a sexualidade, o misticismo e a criação.

A sociedade que nasce disto é uma em que os cidadãos foram ensinados a crer que “não há crime mais odioso do que a falta de ortodoxia na conduta” (p. 233). Morte à imprevisibilidade e à experimentação lúdica! Seguir em trilhos de ferro com o trem de opiniões tão convictas que nenhum vento de argumento as abale.

Não há respeito pela diferença nesta sociedade: tudo que foge à normalidade, qualquer um que recuse-se a vestir o uniforme, que não queira “fazer como faz todo mundo”, que se negue a ser uma “mariazinha-vai-com-as-outras”, que se revolte contra seu destino de “animal de rebanho”, como diria Nietzsche, este é estigmatizado e perseguido pelos poderes sacerdotais e políticos que gerem esta República da Homogeneidade.

Bernard Marx, no livro de Huxley, é condenado ao exílio na Islândia, tratado como um pária e um subversor (p. 234), por ousar destoar da normalidade civilizada. É ele uma espécie de homenagem de Huxley a estas figuras heróicas que ousam “desafinar o coro dos contentes”, para relembrar um verso de Torquato Neto, através da afirmação de uma individualidade, por mais imperfeita e dissonante que soe.

Em prol da estabilidade social, ou seja, para que não surjam desníveis entre os indivíduos, o Estado proclama uma lei que… proíbe Shakespeare! Que bane Beethoven! Que lança a filosofia na lata de lixo da História! De agora em diante, só se ensinará nas escolas, e só se doutrinará na mídia, sobre assuntos que dizem diretamente respeito à utopia da Estabilidade! Tudo será dito e tudo será feito em nome desta estabilização… “Não se podia permitir que pessoas de casta inferior desperdiçassem o tempo da Comunidade com livros e que havia sempre o perigo de lerem coisas que provocassem o indesejável descondicionamento de algum dos seus reflexos.” (p. 55)

O condicionamento neo-pavloviano, os ovos bokanovizados, a hipnopedia, a ração diária de soma, a garantia de deleites sensórios no Cinema Sensível, tudo são torrões de açúcar dados pelo Estado para que cada casta sinta-se feliz com o status quo que lhe foi… predestinado.

“A flor do campo e as paisagens têm um grave defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica. Decidiu-se que era preciso aboli-lo, pelo menos nas classes baixas: abolir o amor à natureza…” (p. 56)

Cada um pertence a todos…” Esta é a doutrina enfiada na mente de todas as crianças, repetida milhares de vezes nos ouvidos das mentes hipnotizadas dos fedelhos, como se fosse a verdade absoluta e última sobre a afetividade e a sexualidade humanas: “ninguém é dono de ninguém!” Huxley problematiza (e isso umas três décadas antes do Movimento Hippie começar a despontar!) a questão do amor livre.

” – Felizes jovens! – disse o Administrador. – Nenhum trabalho foi poupado para lhes tornar a vida emocionalmente fácil, para os preservar, tanto quanto possível, até mesmo de ter emoções.” – pg. 85

Brave New World contêm a descrição de baladas daquelas no Mundo do Futuro: regadas à embriaguez ocasionado pelo soma, que talvez não seja lá muito diferente daquela que o ecstasy ocasiona aos ravers de hoje em dia, estas baladas são orgias de pisoteação do dogma destronado, pisoteado e posto fora-de-cartaz do… casamento monogâmico. Esta instituição social desapareceu por completo deste Admirável Mundo Novo onde as crianças não nascem mais de uma noite-de-amor entre seu pai e sua mãe, mas sim enfrascadas em provetas, tubos de ensaio, rolando nos trilhos de ferro de uma linha-de-montagem… Huxley e seu pesadelo sinistro!

Pois nada desestabiliza mais uma sociedade humana dos que… as paixões destas criaturas passionais que somos. Não são necessariamente assim inquietas as forças vitais, não é essencialmente móvel o élan que nos anima? E os utopistas sonham com um coração em descanso. Com uma paz impossível. Que a correnteza não mais nos arrastasse, que paixões não mais nos inundassem, que tudo quedasse… estável e sereno. Sem correria nem esforço, sem insatisfação nem desejo. “No alarms and no surprises”, como canta Thom Yorke. Um coletivo em Nirvana.

O triste na condição existencial dos Alfas, Betas, Deltas, Gamas e Ípsilons de Huxley é que nenhum deles “podia ter idéias verdadeiramente singulares”. Seus cérebros foram cuidadosamente construídos e programados no sentido da obediência estrita a regras, padrões de comportamento, fés inquestionadas. E se há algo de heróico em Bernard Marx e seu amigo Helmholtz, está no fato de que eles “recusavam-se a abandonar o direito de criticar essa ordem” (p. 246).

Muitos dos males que hoje são presenças prementes em nossa realidade, como a obsolescência programada, já eram prefigurados por Huxley nesta sociedade que imaginou como descartando sem fim, jogando meias no lixo ao primeiro desfiado, condicionada a seguir como preceito-de-vida que “mais vale dar fim que consertar” (95).

Como atingir esta beatitude política que a Utopia encerra em sua imagem idealizada? Doutrinação ideológica, desde o berço; condicionamento severo de condutas; muita disciplina social e muito controle; eis aí os caminhos para a concretização do estado utópico! Que cidadão ousará discordar da veracidade absoluta de um slogan que lhe foi martelado na consciência 62 milhões de vezes?

Um tal papaguear ideológico é capaz de reduzir um cérebro mirim a uma papa de imbecilidade. Brave New World é o retrato de uma sociedade de submissos imbecis que sorriem tolamente dentro de uma sociedade de castas altamente injusta e hierarquizada – e que não se revoluciona pois todo mundo está tão dopado e reduzido à apatia normopata que não há disposição para a luta, a mudança, a tentativa de novas vias.

Aqueles que buscam trilhar novas vias, ou que são arrastados, a despeito de si mesmos, para caminhos interditos e conclusões proibidas, são tratadas pelos Poderes Reinantes como perigosos párias que merecem ser mandados para uma ilha na Islândia… O stalinismo exilando oponentes políticos para a Sibéria é um exemplo histórico suficiente para mostrar o quanto Huxley, em sua obra de ficção científica, teve refinadíssima percepção da realidade histórica (inclusive em seus desdobramentos futuros)! Talvez por isso Admirável Mundo Novo seja uma obra literária à qual tão bem cabe o adjetivo honroso de visionária.

Esta obra-prima na literatura do século 20 serve como permanente alerta, além de provar que a ficção científica está apta a refletir sobre os rumos e descaminhos da Humanidade, pintando retratos de outros mundos possíveis onde nossa espécie se afunda em abissais poços de confusão e ignorância, angústia e guerra, domínio totalitário e opressão generalizada, tornando o indivíduo uma espécie de joguete de forças maiores desde “seu primeiro vagido de horror e espanto” (p. 231).

Por Eduardo Carli De Moraes || A Casa de Vidro
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Bem-vindo à Distopia do Real – Crítica do curta-metragem “2081”, baseado na obra de Kurt Vonnegut

Vivemos em uma era em que nada descreve melhor a sensação de habitar o real do que as distopias. Estamos na aurora de uma nova Era Dourada do sci-fi pesadelo, que manifesta-se em obras-primas da televisão como Black Mirror e The Handmaid’s Tale.

Os romances de Margaret Atwood​ bombam nas livrarias enquanto Blade Runner 2049 (de Denis Villeneuve)​ pousa nos cinemas, reavivando o interesse tanto pelo filmaço de 1982 de Ridley Scott, quanto pela obra de Philip K. Dick, uma das fontes originais do sci-fi cyber-punk.

Alguns best-sellers transformados em blockbusters provam também que é altamente lucrativo o negócio das narrativas catastrofistas em um planeta reduzido a uma caótica Devastolância, como provam as trilogias “Jogos Vorazes” (The Hunger Games) e “Divergente” (Divergent), cujos filmes explode-quarteirão levaram às multidões as criações literárias de Suzane Collins​ e Veronica Roth​ (respectivamente).

O curta-metragem “2081” encapsula em 25 minutos de filme muito da potência expressiva da ficção científica distópica no cenário artístico atual. Baseado no conto do genial escritor Kurt Vonnegut​, “2081” se passa nos EUA no fim do século 21, quando reina um governo que promete ter atingido, enfim, a Era da Igualdade.

“O ano era 2081 e todos eram finalmente iguais. Eles não eram iguais somente perante Deus ou e Lei. Eles eram iguais de todas as formas. Ninguém era mais inteligente que ninguém. Ninguém era mais bonito ou forte que ninguém. E toda essa igualdade era devida às 211º, 212º e 213º emendas constitucionais e à vigilância incessante do General Nivelador dos EUA. Os fortes usavam pesos para torná-los mais fracos. Os inteligentes usavam aparelhos no ouvido que os impediam de tirar vantagem injusta do cérebro. Até o belo às vezes usava máscaras em situações onde a beleza podia simplesmente ser… distrativa. Era a Era de Ouro da Igualdade.”

Vonnegut talvez tenha se inspirado, assim como fizeram Orwell e Huxley, na seminal distopia do escritor soviético Zamiátin, o romance Nós (Editora Aleph), emblemática sociedade imaginária onde a Igualdade é imposta com mãos firmes pelo Grande Benfeitor e todos fazem as mesmas coisas, sincronizados pela Tábua das Horas e vigiados pelos Guardiões da lei e da ordem que impõe: “o eu é diabólico, o nós é divino”.

Em 2081, trata-se de uma igualdade na mediocridade, de uma totalitarismo da imposição de homogeneidade social a partir de controles militares e vigilância hi-tech. Mais uma sociedade onde reina a imposição de um mesmo modelo medíocre a todos. Todos aqueles que possuem talentos extraordinários ou dons singulares tornam-se vítimas de um Estado que impõe por toda parte as ferramentas de controle e mediocrização – os “handicaps”.

Ou seja, em “2081” um Estado totalitário, gerido por uma Big Sister e não por um Big Brother, faz política de terra arrasada contra a Criatividade humana. Em toda parte, imposição autoritária, por parte das autoridades comandadas pela chefe-de-Estado, a “Handicapper” General, de um padrão de mediocridade.

O filme nos faz imaginar uma sociedade na qual quem tivesse ouvido absoluto seria obrigado a andar pelo mundo com cera nos ouvidos para ensurdecê-los um pouco. Uma sociedade na qual os inteligentes seriam enviados à força para a mesa de um neurocirurgião para passarem por um processo de dano cerebral que os emburrecesse. Uma sociedade na qual os cantores à la Orfeu, que encantam por seus talentos musicais, teriam suas línguas cortadas. E os poetas que escrevem bem demais teriam suas penas quebradas e a publicação proibida.

O diretor e roteirista Chandler Tuttle realiza esta pequena obra-prima com uma conjunção rara entre comédia e tragédia. Como alguém que aprendeu com a dramaturgia dos gregos a mesclar o cômico e o trágico, Woody Allen e Shakespeare, Apolo e Dionísio.

A comédia manifesta-se no cenário do filme: a sala-de-estar de um casal de velhinhos que assiste TV, no maior tédio, ele com a latinha de cerveja na mão, ela tricotando sua malha. A tragédia irrompe nesta sala-de-estar quando um prisioneiro de Estado, o anarquista e inimigo-público-número-1 Harrison Bergeron, foge da prisão e invade um teatro. O evento disruptivo – que evoca o V de Vingança de Alan Moore e o filme que o levou à telona – é transmitido ao vivo para todos os telespectadores acompanharem de olhos colados à Orwelliana teletela.

A velhinha tricotante é a encarnação do conformismo ao regime, da incapacidade de questioná-lo, da futilidade feliz com sua própria rasidão.

O velhinho, atônito em seu sofá, provavelmente com os músculos já atrofiados depois de tantos anos de handicaps, é rabugento com a presença da esposa, que considera também uma “handicapper”, uma mutilante-do-outro.

Este filme quase-de-terror nos revela uma sociedade tão doente que todo mundo mutila todo mundo e chama isso de “Igualdade”… Neste cenário de pseudo-igualdade, e de real ausência de qualquer estímulo à liberdade e à criatividade, irrompe o anarco-mártir.

Harrison é uma espécie de ativista anarquista, está em levante contra o regime, o sistema, as forças de repressão. Quer hackear a mídia de massas para mandar sua mensagem. Por essas e outras ele aparece como muito semelhante ao V, herói de “V De Vingança”, HQ do gênio-xamâ Alan Moore​ já adaptada para o cinema, tributo ao lendário Guy Fawkes e sua tentativa de destruição do Parlamento Inglês…

Harrison, em “2081”, é anarco, mas não punk: depois de fugir da cadeia, invade um balé e solicita música clássica como acompanhamento para uma memorável performance… Ele diz que instalou uma bomba no teatro e que está com o detonador em suas mãos. Joga xadrez com a Tropa de Choque que está a seu redor, pronta para trucidá-lo. Ensina suas lições à distinta platéia ao seu redor, pregando a divergência, a quebra das correntes impostas pelo regime político handicapante. Faz-se maestro de orquestra e parceiro de dança de uma das bailarinas. Conduz as peças no tabuleiro com maestria, enganando o inimigo até a hora de seu xeque-mate.

Para Harrison, a morte não é o pior dos males, mas sim viver sem liberdade. Inclusive a essencial liberdade de divergir, que é o que faz a vida digna de ser vivida. Não há democracia digna deste nome senão aquela onde exista o direito à divergência – e eis um ensinamento que podemos tirar tanto do herói anarco de “2081”, quanto da saga da personagem “Tris”, protagonista da trilogia “Divergente”.

Em ambos os casos, as obras comunicam uma mensagem libertária: escapar à norma, ao padrão, à divisão em castas ou facções. Resistir ao medíocre paradigma do que se deve ser, imposto pelos mediocrizadores de tudo, é essencial à ação e à reflexão daqueles que desejam melhorar o mundo através da criação de um outro mundo possível, que supere este que está “dado” mas não finalizado.

A criatividade é essencial para que se transcenda as limitações deste estado atual do mundo, e só se cria em um contexto que estimule a irrupção do novo, do extraordinário, do inédito. Queremos um mundo onde possam eclodir possibilidades novas, em que inauguremos uma reinvenção constante do que mundo que não é, mas que está sendo, rumo a um ser-outro, um alter-mundo, na Terra, e não no céu; pra aqui, e não para o Além…

“2081” sugere que pode-se morrer e vencer ao mesmo tempo. Kurt Vonnegut, o grande mestre que marcou a história do sci-fi literário com obras como Matadouro #5 Revolução no Futuro (Player Piano), conduz Harrison a ser devorado pelos lobos, mas faz com que os lobos queimem seu próprio filme diante do rebanho de ovelhas que assiste à carnificina. A ovelha sacrificada torna explícita a crueldade insana dos lobos que a mataram.

Talvez o grande mérito, tanto do personagem Harrison, quanto do brilhante curta-metragem de Chandler Tuttle cono um todo, seja algo além de prestar um tributo ao brilhantismo de um dos maiores escritores estadunidenses do século 20 – o brilhante Vonnegut. “2081” quer convocar as ovelhas para fora do rebanho, como fazia o Zaratustra de Friedrich Nietzsche​. “2081”, ecoando Rosa Luxemburgo​, quer que a gente perceba: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem.” “2081” nos inspira a ser hackers de um sistema falido, como Assange na empreitada Wikileaks. “2081” mostra que, na história da arte, as melhores distopias são aquelas que permitem, pelas frestas dos seus pesadelos, as irrupções utópicas e transformadoras de uma contestação libertária.

* * * * *

Crítica por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro​

Assista o filme:

(Áudio em inglês, legendas em espanhol)

 

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 04] “A câmera pode ser uma arma poderosa”, diz Rodrigo Siqueira Arajeju

X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

“A câmera pode ser uma arma poderosa”

O empoderamento midiático de uma geração de novos realizadores audiovisuais aliados às causas indígenas anima os debates no cineclube da X Aldéia Multiétnica

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (17 / 07 /2016)

“Em tempos de enganação universal,
dizer a verdade torna-se um ato revolucionário.”
GEORGE ORWELL

Durante os dias de intensa convivência na X Aldeia Multiétnica, não faltaram debates sobre o papel da tecnologia no mundo contemporâneo, com foco no tema do empoderamento midiático e na auto-expressão dos povos indígenas, quilombolas, periféricos. Além das excelentes contribuições trazidas por  Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, os (con)viventes também puderam debater o tema da “comunicação por direitos” com o fazedor-de-vídeos e documentarista Rodrigo Siqueira, realizador dos filmes Índio Cidadão? e Índios no Poder (click nos links e assista aos trailer).

A conversa com Rodrigo Siqueira teve como foco a produção de vídeos independentes, de teor documental e jornalístico, produzidos nas aldeias em momentos extremos, registrando situações quando ocorrem graves violações de direitos humanos. Ao anoitecer desta segunda-feira, 18 de julho, na Tenda Multimídia da Aldeia Multiétnica, Rodrigo Siqueira partilhou um pouco de sua rica experiência com os presentes. Sua participação no cineblube organizado pelo coletivo de audiovisual Brasileirando reforçou a certeza de que a democratização das tecnologias digitais de captura de áudio e vídeo abriu novos horizontes para o empoderamento expressivo dos povos indígenas, quilombolas e periféricos – como prova também o projeto Vídeo nas Aldeias.

Um exemplo debatido por Siqueira foram as ocorrências na aldeia Teles Pires, no Pará, que foi palco de cenas trágicas em novembro de 2012, quando Adenilson Kirixi Munduruku foi assassinado após uma intervenção violenta de tropas federais (saiba mais na reportagem de Ruy Sposati em Brasil de Fato). No calor do conflito, algumas pessoas puderam filmar, de seus celulares, os helicópteros militares que sobrevoavam a aldeia, os soldados fortemente armados com munição letal, as portas arrombadas e embarcações afundadas, o tiro na cabeça que arrancou brutalmente a vida de Adenilson. Este foi um crime cometido por agentes do Estado denunciado pelos celulares da própria comunidade vítima de uma atrocidade estatal.

Siqueira acredita que a câmera – mesmo que seja de um telefone celular – pode ser uma arma poderosa numa guerrilha midiática cada vez mais necessária. A sociedade civil, na era da digitalização, da interconectividade e da telefonia celular, está repleta de cidadãos com o potencial de tornarem-se agentes ativos de denúncia e informação. As redes sociais propiciam difusão imediata e o potencial de “viralizar”.

Unindo mídia independente com ativismo das causas sociais, Siqueira conta que, apesar de formado em Direito, preferiu praticar algo bem diferente da advocacia formal: ele atua naquilo que chama de “comunicação por direitos”. Boa parte de seus esforços consiste em ensinar as pessoas a utilizarem bem os recursos tecnológicos que elas têm em mãos. Um celular no bolso pode ser ferramenta importante na luta pelos direitos humanos ou na denúncia de atrocidades como as violências de Estado ou de milícias paramilitares.

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Os Munduruku, por exemplo, produziram um material informativo-didático interessante, o Guia De Como Filmar Com Celular, que dá dicas para aqueles que desejam, nas aldeias, contribuir para a documentação da realidade que vivenciam. O guia dos Munduruku, que foi um dos destaques da palestra de Siqueira, inclui dicas bem pragmáticas para filmar com boa qualidade técnica – “segure o celular na horizontal, evite mexer muito e mantenha a mão firme” – mas também esclarece sobre os direitos constitucionais (“a Constituição diz: filmar e fotografar é um direito de todo cidadão brasileiro”), o valor jurídico dos vídeos (que podem servir como provas para a justiça), os riscos que correm os cinegrafias (alerta: “filme para defender seus direitos e território, mas sempre avalie sua segurança”).

Os Munduruku são um povo guerreiro e que atualmente luta contra um complexo de hidrelétricas planejado para a região do Rio Tapajós. Já realizaram várias ações significativas de ativismo, como a ocupação da praça dos Três Poderes, em Brasília. Também realizaram uma ocupação do canteiro de obras da usina Belo Monte: “teve ordem de reintegração de posse e eles rasgaram o documento”, relata Siqueira. “Eles disseram: ‘se vierem nos tirar, a gente só sai morto’. Aí pousou lá um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), que os conduziu à capital federal para uma reunião com a Presidência da República”.

Atualmente, os Munduruku estão em permanente mobilização e assumiram para si a tarefa de demarcação de terras. “Eles começaram a fazer a autodemarcação: já tinham os estudos que definiam os limites e eles mesmos foram marcando o território, tiraram madeireiros etc”.

“Hoje, você estar com uma câmera é como você estar com uma arma”, dispara Siqueira. “As pessoas querem te barrar, não querem deixar você fazer. No caso dos Guarani-Kayowá, no MS, não foram poucos os casos de tomarem celular de quem está filmando ações de despejos e de pistoleiros. Eles chegam e tomam porque não querem que aquela imagem seja divulgada. É sempre bom estar filmando com alguém próximo. Quando você está numa situação de conflito, com o celular você pode pegar, por exemplo, quem está com uma arma na mão. Lá no MS isso acontece muito: as pessoas ficam receosas de publicar um vídeo e depois serem perseguidas”.

O Brasil, segundo estudo publicado pela ONG internacional Global Witness, detêm o triste recorde de ser o país no mundo com maior número de assassinatos de ativistas das causas socioambientais, ecológicas, indígenas etc. Em um cenário de trevas como este, os cinegrafistas independentes que registram cenas de relevância, em que direitos humanos são violados e atrocidades cometidas, podem eles mesmos tornar-se alvo de violências caso divulguem as imagens.

Siqueira recomenda que vídeos deste teor não sejam publicados em contas pessoais nas redes sociais: “Vale mais a pena você mandar o material para a Rádio Yandê, por exemplo, do que você postar no seu perfil no Facebook”. É preciso avaliar com prudência os riscos que a publicação das imagens acarreta para quem filmou e buscar abrigo em coletivos ou institutos com maior força de defesa contra estes perigos. A expressão “guerrilha midiática” é adequada para descrever certas ações, relembradas por Siqueira, de cinegrafistas amadores que, após filmarem cenas de relevância sócio-política, escondem os cartões de memória no corpo – dentro da cueca, debaixo da língua… – para que não percam as imagens gravadas caso seus celulares sejam confiscados ou destruídos.

Abrem-se assim novos horizontes que visam oferecer alternativas contestatórias e contra-hegemônicas que contrastam com a cobertura da mídia comercial-corporativa. Muitas vezes são estes cidadãos com celulares que fornecem registros documentais e históricos sobre fatos recalcados ou censurados pelos poderes dominantes. A disseminação da digitalização hoje permite um “jornalismo cidadão” cada vez mais forte, como mostram iniciativas como a Mídia Ninja e o Jornalistas Livres.

A oficina de Siqueira também contou com a exibição de alguns vídeos gravados recentemente, durante o dia de mobilização nacional do “Ocupa Funai”, em 13 de julho. Em um deles, Valdelice Veron, do conselho Aty Guassu, denuncia a situação dos Guarani-Kayowá no MS: “estamos sendo dizimados num grande genocídio em nome do agronegócio”. Já a ativista Sonia Guajajara demonstra seu repúdio à possível nomeação de um militar (general Petronelli) para a presidência da FUNAI: “é inadmissível que a gente possa aceitar esses atos de ataque a nossos direitos”.

A câmera pode ser uma ferramenta importante para dar voz àqueles que estão sendo vítimas de várias violências, como é o caso da cacique Damiana, uma liderança dos Guarani-Kaiowá, que deu um eloquente depoimento para a câmera de celular de Siqueira, às margens da BR-364, no MS, em um ocasião em que mais de 100 agentes da Polícia Federal, fortemente armados, foram mobilizados para desalojar nove pessoas.

Como relata Siqueira, comentando o vídeo que exibiu aos (con)viventes, “a Damiana estava sofrendo naquela ocasião o seu quarto despejo. Ela denuncia que nove dos “parentes” de sua família extensa já foram “atropelados” – uma forma de assassinato utilizada no MS – e estão enterrados neste lugar onde ela está sendo filmada. Ali há a usina de biocombustível São Fernando, do Bumlai, que está preso pela Operação Lava Jato. A gente fica triste de presenciar todas estas tragédias que ocorrem, mas a gente cumpre um papel importante ao registrar estes vídeos. Eles servem como provas, podem gerar repercussão, sensibilizar a opinião pública. Se não houvese ninguém lá filmando, talvez o problema nem seria conhecido. Esta é uma linha de trabalho de guerrilha, em que a gente filma e já faz a postagem imediata na internet; às vezes também é possível enviar para a mídia.”

Um curta-metragem como O Massacre de Caarapó (click no link para assistir) revela as atrocidades cometidas em um ataque paramilitar contra os Guarani-Kayowá na cidade de Caarapó (MS) e que deixou morto o Kaiowá e agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos. O vídeo foi publicado no site do Cimi (que também produziu um dossiê sobre o caso) e teve mais de 300.000 reproduções. Depois foi republicado na web pela Al Jazeera e conquistou mais de 1 milhão e 400 mil reproduções.

O vídeo revela cenas chocantes, como aquelas filmadas dentro do hospital, em Dourados (MS), onde os baleados estavam sendo tratados com urgência. Mostra cenas do velório da vítima fatal, onde mesclam-se, no comportamento dos presentes, o luto pela perda da pessoa amada e a indignação diante da máquina assassina que tem vitimado tanta gente deste que é o 2º maior povo indígena do país.

Segundo censo do IBGE de 2010, os Guarani Kayowá são mais de 43.000 pessoas. Eles estão com 47 retomadas de territórios tradicionais aguardando demarcação. Em seu diagnóstico dos porquês desta lastimável situação, Siqueira pondera que “a demarcação das terras não sai porque o MS é um estado forte do agronegócio. Alguns dos políticos ruralistas no Congresso Nacional são do MS; o governador e os deputados estaduais são ruralistas; as polícias atuam do lado dos fazendeiros; há grupos de milícia paramilitar, que dizem que é “segurança privada”. Os povos indígenas estão tomando a iniciativa das retomadas, pois sabem que se esperar, não vai sair jamais. Enquanto isso, eles estão vivendo confinados em oito reservas de 3.000 hectares. Para os Guarani-Kayowá, as autoridades máximas são os caciques-rezadores e as rezadoras-tradicionais, os nenhanderus. Na retomada são os rezadores que vão na frente, eles confiam na espiritualidade”.

Desde o ano 2000, já foram registrados mais de 300 assassinatos de Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. “A denúncia deles é realmente de uma situação de genocídio”, afirma Siqueira. “As lideranças estão sendo mortas, a terra está sendo envenenada, as matas estão sendo derrubadas para que eles não tenham onde sobreviver”.

E esta terra, para eles, é algo bem diferente do que é para um fazendeiro que tem um título de propriedade; para os Guarani-Kaiowá, a terra é onde descansam os ossos dos ancestrais, é o território onde enraíza-se uma história que vive e resiste em carne-e-osso, nos corações e mentes daqueles que mantêm viva esta chama.

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"Índio Cidadão?", um documentário de Rodrigo Siqueira Arajeju

“Índio Cidadão?”, um documentário de Rodrigo Siqueira Arajeju, será debatido em evento promovido por De Olho Nos Ruralistas (SP, 06 de Agosto).

 PARTE II – SOBRE NOSSO FUTURO COMUM ,
por Rodrigo Siqueira Arajeju

Em suas reflexões finais, Siqueira fez um diagnóstico completo dos problemas da nossa civilização contemporânea, num discurso que compartilhamos em seguida e que fornece uma excelente leitura de conjuntura:

“Num Brasil, num projeto de nação, onde não se respeita o direito dos originários, dos primeiros habitantes, a gente não tem uma perspectiva de futuro boa para ninguém. É bom ter clareza que, ao apoiar os povos originários, a gente não está apoiando só eles, pois o avanço do agronegócio traz como resultados: rios envenenados, fim das florestas… As terras indígenas no Brasil hoje são as mais protegidas, mais até do que as áreas de conservação (estas últimas partem da noção de que você não deixa ninguém viver ali para deixar a natureza intocada). A própria Constituição fala que as presentes e as futuras gerações tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. A gente vai ter este ambiente ecologicamente equilibrado com o agronegócio ou com as terras indígenas?

Minha atuação junto aos povos indígenas não vai só no sentido de como algo que ajuda a causa dos, mas sim pensando em nosso futuro comum, de todos nós. Se a gente entregar o país pro agronegócio, para as grandes hidrelétricas, vai chegar uma hora do colapso, como ocorreu em São Paulo com a crise hídrica. O clima não está mais como antes, está faltando água em alguns lugares, a qualidade do ar que se respira está degradada em vários locais. Hoje se fala em serviços ambientais: uma terra indígena produz água, alimentos; aí você vai expulsar os indígenas para as cidades pra quê? Pra virar favelado, mendigo? Eu me coloquei nesta luta muito por causa dessa consciência de que de um outro futuro possível. Pois qual é o caminho que a civilização traz?

A gente está rumando, numa velocidade impressionante, para um abismo. Todos os passos da nossa vida na sociedade ocidental é a morte. Hoje se está acontecendo um movimento médico pelo “parto humanizado”, ou seja, na “sociedade branca”, por assim dizer, a gente não nasce mais de modo humano. Nas maternidades, as gestantes chegam lá com suas malinhas e ficam esperando a hora da cesariana.

A nossa produção de alimentos está sendo feita com muito veneno: o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Calcula-se que cada um de nós, em um ano, consome mais de 5 litros de agrotóxico pelos alimentos. Esses agrotóxicos não só envenenam nós que comemos, envenenam os trabalhadores e também o ambiente.

Depois de comer os alimentos envenenados, na hora de defecar somos os únicos animais terrestres que defecam na água. Enquanto tem bilhões de pessoas no mundo que não tem acesso a água potável, nas cidades a gente vai literalmente cagar na água tratada, que vai ser depois jogada no rio de onde a gente vai tirar a água pra beber. Olha o tamanho da loucura!

E até na hora de morrer, está virando problema: nos cemitérios, a quantidade de corpos enterrados juntos, nesta proporção que temos nas cidades, já está contaminando os lençóis freáticos. Ou seja, a civilização é uma loucura. Ou seja, a última chance que temos de ter uma vida digna neste planeta é se a gente for aprender com aqueles que ainda estão segurando as tradições e que ainda estão mantendo a natureza, pois se vêem como natureza.

Tenho aprendido muito com todas as lideranças dos povos indígenas com quem tenho deparado e meu trabalho é comunicar a visão-de-mundo deles, as lutas deles, e particularmente estou muito interessado em saber como a gente vai salvar a nossa própria pele desta loucura que é a civilização.” – Rodrigo Siqueira

©Bruna Brandão-7414

A X Aldeia Multiétnica debateu o empoderamento midiático e a comunicação por direitos. Na foto, vemos uma filmagem realizada dentro da aldeia por um homem conectado ao DSEI – Distritos Sanitários Especiais Indígenas – no Rio Tapajós. Foto: Bruna Brandão.

SAIBA MAIS: www.encontrodeculturas.com.br/2016

A ERA DAS UTOPIAS – Uma série de Silvio Tendler (2009, 6 episódios) + UTOPIA & BARBÁRIE – Documentário completo

Era das Utopias
Minissérie exibida pela TV Brasil em 2009
Idealizada e dirigida pelo cineasta Silvio Tendler

Com depoimentos de: Eduardo Galeano, Edgar Morin, Leonardo Boff, Noam Chomsky, Susan Sontag, Ferreira Gullar, Leandro Konder, Chico de Oliveira, Sergio Amadeu, Toni Negri, Amos Gitai, Luis Fernando Veríssimo, dentre outros.

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Assista também:

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A VIVACIDADE DA CULTURA BRASILEIRA SEGUNDO IVANA BENTES [UFRJ/MinC] (Leia matéria da Revista Cult e vídeos selecionados de TEDs, ENTREVISTAS E PALESTRAS)

REVISTA CULT – #188
Matéria de capa com Ivana Bentes (Docente da UFRJ / Parceira do Ministro Juca Ferreira (acima) na Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural do MinC

Ivana Cult“Inocente, pura e besta”. É assim que a ensaísta e professora Ivana Bentes diz ter chegado ao Rio de Janeiro, em 1980, família de comerciantes, sem sobrenome para ostentar, nascida em Parintins, no Amazonas, e tendo passado a juventude em Rio Branco, no Acre. Foi a entrada em uma universidade pública, a Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que mudou sua trajetória.

Segundo ela, frequentar um espaço que ainda forma uma elite não foi uma inclusão, mas uma intrusão social, daquelas que fazem uma pessoa dar um salto astronômico. Foi naquele ambiente universitário borbulhante de oportunidades e desafios que Ivana foi traçando sua carreira profissional. Primeiro como redatora e ensaísta no Caderno Ideias, do Jornal do Brasil, onde teve a oportunidade de se conectar com centenas de escritores, intelectuais e pensadores. E antes escrevendo sobre cinema na revista TABU,do Grupo Estação Botafogo, o icônico cinema carioca, que deu a ela a chance de se formar cinematográfica e culturalmente e mais tarde protagonizar polêmicas como a que lançou em torno do filme Cidade de Deus e sua “cosmética da fome”. No Jornal do Brasil, entendeu o jogo de influência cultural, política e de intervenção no mercado da mídia e suas engrenagens.

No início dos anos 1990, engatou um mestrado e um doutorado na ECO, mas foi com a formação em grupos de estudo de filosofia, onde mergulhou no pensamento de Gilles Deleuze, Michel Foucault e mais recentemente Antonio Negri, que pôde perceber o poder de mobilização dos conceitos. Na ECO, onde entrou como aluna, se tornou professora da pós-graduação e diretora, tendo como professores e depois colegas Muniz Sodré, Márcio Tavares d’Amaral, Emanoel Carneiro Leão, Heloísa Buarque de Hollanda. Percebeu rapidamente que a Universidade só faria diferença se fosse o ambiente para o surgimento de formadores de opinião, críticos, pensadores e agentes de transformação e não formar o profissional fordista substituível das redações. Entre 2006 e 2013, ela assumiu a direção da ECO decidida a usar o grande laboratório universitário para radicalizar práticas democráticas, estimulando os alunos a participarem de ações de ativismo, movimentos culturais e sociais da cidade, redes de mídia e cultura.

Nesta entrevista, Ivana Bentes discute as novas diretrizes para os cursos de jornalismo, política e comunicação, o midialivrismo, a sociedade em rede e as mutações pós-mídiasdigitais. Para ela, se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática. Ciente da importância do campo das Comunicações nos dias de hoje, para muito além dos bancos universitários, a professora afirma que há momentos em que é preciso sair do figurino acadêmico para poder se comunicar e falar para o público fora da academia. Talvez por isso a jovem “inocente, pura e besta” topou posar para a foto dessa reportagem numa pose que ela chama de “respeitosamente vândala”.

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Qual a sua avaliação sobre os parâmetros curriculares recém-instituídos pelo Conselho Nacional de Educação para os cursos de jornalismo?

Um retrocesso e uma quase tragédia. Surge na contramão do entendimento de pensadores e teóricos da comunicação que fizeram o movimento oposto décadas atrás, procurando incluir o jornalismo como parte de uma formação mais ampla. Foge ao contexto atual de convergência das mídias e de produção da informação nas redes sociais que exige um profissional com múltiplas habilidades, um analista simbólico, um ensaísta, um ativador e produtor de desejos. Esse perfil não tem nada a ver com o profissional adestrado por uma formação fordista e extremamente limitada, do “quê, quem, como, onde”, e que passa longe de todos os clichês que construímos em torno desse personagem.

As novas diretrizes respondem a uma crise de mediação. Mas o jornalista não é mais o mediador privilegiado, o “gatekeeper”, o guardião do que é ou não é notícia, do que é ou não noticiável. As corporações de mídia e o jornalismo nunca foram tão questionados e buscam manter de pé uma mística da excepcionalidade da atividade jornalística. Com ou sem formação especializada, a mídia somos nós. O que não acaba com a necessidade de formação, mas a estende para toda a sociedade. O jornalismo é importante demais para ficar na mão de corporações, cartórios e especialistas.

Midialivrismo

A sra. começou afirmando que vê um retrocesso e uma quase tragédia…

É uma quase tragédia porque acredito que o paradigma das redes, do midialivrismo, do jornalismo-cidadão, a comunicação pós-mídias digitais, os estudantes, professores, ativistas e teóricos que lutam por uma formação des-engessada, todos eles vão canibalizar as diretrizes (do CNE) e subvertê-las. Pode ter retrocesso, mas não tem volta. As novas diretrizes são fruto de uma disputa por poder de um grupo de professores e especialistas a quem chamo de “as viúvas de Gutemberg”, extremamente corporativos e que funcionam no campo da Comunicação como a “vanguarda da retaguarda”, para sermos gentis. O que está em curso é a tentativa de manter uma excepcionalidade para a atividade jornalística e também uma manobra para a volta da exigência do diploma de jornalista para exercer a profissão, que foi derrubado em 2009 e até agora não fez a menor falta.

A sra. é contra o diploma de jornalista?

Sempre fui contra. O fim da obrigatoriedade não acabou com os cursos de Comunicação, nem diminuiu a busca pela habilitação em Jornalismo, campos que nunca foram tão valorizados. Os jornais sempre burlaram a exigência de diploma pagando muitas vezes os maiores salários aos não-jornalistas, cronistas, articulistas, vindos de diferentes campos. As universidades não precisam formar os “peões” diplomados, mas jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade, dentro e fora das corporações. Não precisamos de profissionais “para o mercado”, mas capazes de “criar” novos mercados, jornalismo público, pós-corporações, produção colaborativa em rede.

O mais importante nenhuma entidade corporativa defendeu nem pensou: uma seguridade nova para os freelancers, os precários, aqueles que não têm e nunca terão carteira assinada. Essas são as novas lutas no capitalismo. A ideia de que para ter direitos é preciso se “assujeitar” a uma relação de patrão-empregado, de “assalariamento”, é francamente conservadora.

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“Se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática.” (Ivana Bentes). Acima, um clássico da história do cinema que debate a mídia, “Network – Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet

Sem a obrigatoriedade do diploma, qual o sentido de um jovem ingressar em uma faculdade de Comunicação?

O capitalismo, as revoluções dentro do capitalismo e as ações anti-capitalistas, a publicidade, a economia imaterial, tudo isso depende desse domínio midiático e da posse dessas linguagens. O capital já entendeu isso faz tempo. E se quisermos pensar jornalismo público, jornalismo do comum, a produção de um midiativismo capaz de ativar os desejos por mudanças sociais, tudo isso passa por um outro tipo de formação. A comunicação é central na sociedade de redes. Se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática. É um campo fascinante, que não para de mobilizar os jovens.

Há duas décadas, a sra. iniciou sua vida acadêmica. Já formoucentenas de jornalistas que estão no mercado. Eles estão cumprindo seu papel social?

A Escola de Comunicação da UFRJ formou e forma desde a Fátima Bernardes, que até pouco tempo atrás dividia a bancada do Jornal Nacional com William Bonner, até o Rafucko, que acabou de lançar um vídeo com mais de 800 mil visualizações. Esse vídeo desconstruía, criticava e escrachava um editorial da Globo sobre as manifestações e a liberdade de expressão. Formamos a elite que reproduz o poder e os que lutam por mudanças radicais e se arriscam e inovam. Essa disputa é feita dentro da universidade. Somos criticados por formarmos editorialistas, jornalistas que colocam sua inteligência a serviço do capital ou nos entretendo com perfumaria. E, ao mesmo tempo, um blog da Veja, me acusou de ser uma “blackblocteacher”, de formadora de blackblocs e ativistas radicais, em um texto ressentido e equivocado, mas que não deixa de ser um elogio.

Ivana na Veja

A Revista Veja (Editora Abril) escreveu, sobre Ivana Bentes, os artigos “Mídia Ninja no MinC” e “Tom Crítico”. A revista também atacou o Fora-do-Eixo, o Ninja e outras iniciativas culturais e jornalísticas em artigos publicados por Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo.

Quais são as implicações do surgimento da chamada nova classe média do ponto de vista comunicacional?

As periferias são laboratórios de mundos e a riqueza do Brasil. Não mais os pobres assujeitados e excluídos de certo imaginário e discurso, mas uma ciberperiferia, a riqueza da pobreza (disputada pela Nike, pela Globo, pelo Estado) que transforma as favelas, quilombos urbanos conectados, em laboratórios de produção subjetiva. A carne negra das favelas, os corpos potentes e desejantes, a cooperação sem mando, inventando espaços e tempos outros (na rua, nos bailes, lanhouses e lajes), estão sujeitos a todos os tipos de apropriação. É que as favelas e periferias são o maior capital nas bolsas de valores simbólicas do país, pois converteram as forças hostis máximas (pobreza, violência, Estado de exceção) em processo de criação e invenção cultural. Além disso, o midialivrismo ganha força na periferias, em projetos como a ESPOCC, Escola Popular de Comunicação Crítica da Maré, Viva Favela, Agência Redes Para a Juventude, que formam comunicadores populares e midiativistas.


MARCELO D2, “A MALDIÇÃO DO SAMBA”

Isso tudo é muito novo no Brasil.

O Rio de Janeiro serve de exemplo. É um termômetro da difícil e paradoxal tarefa de calibrar essa euforia pós-Lula, do presidente Macunaíma que turbinou a periferia, e os retrocessos no governo Dilma, que trouxe os “gestores de subjetividade”, que revertem e monetizam a potência das favelas e periferias para o turismo, corporações, bancos e para o consumo. O que vemos na publicidade das UPPs, da Copa do Mundo e dos shoppings é o que chamo de inclusão visual dos jovens negros ou da cultura da periferia. Mas os mesmos jovens são mortos pela polícia como elementos “suspeitos” nas favelas ou impedidos de entrar nos shoppings para dar um rolezinho.

Cartum do sátiro Carlos Latuff

Cartum do sátiro Carlos Latuff

A ascensão social de jovens das periferias tem deixado parte da sociedade em transe. Eles estão no centro da profunda transformação social…

EspetaculoAí vem a reação da Casa Grande, e a mídia em geral amplifica esse discurso, colocando travas e controle na mobilidade urbana e no direito de ir e vir da juventude popular. A juventude negra e periférica vira uma “classe ameaçadora”, que não é bem-vinda nos espaços de consumo da classe média branca. Ao estado de exceção e à violência contra os pobres se acrescenta uma polícia que reprime o funk e os rolezinhos. Essa incapacidade de entender as novas formas de sociabilidade e mobilidade dos jovens traz à cena o velho horror das classes populares e o apartheid racial, social e cultural. A ascensão social expôs a crise das cidades, a privatização dos espaços públicos e o desinvestimento nos equipamentos de lazer. O esquema de segurança dos shoppings, revistando e controlando os pobres, é a ostentação do fracasso do Estado e da sociedade na partilha da cidade.

As maiores publicações do país, como Veja, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, TV Globo, vieram a público explicitar seus critérios editoriais. Trata-se de uma resposta às inúmeras críticas que a imprensa vem recebendo da população?

A mídia no Brasil parece querer substituir o Estado de direito, se vê como braço do Estado, podendo, inclusive, colocá-lo em crise a qualquer momento. Negocia denúncias, pessimismo e otimismo, reputações. Mal disfarça a editorialização dos fatos. Mas o mais preocupante é quando infundem o medo das ruas, da política, dos pobres, da juventude, da “esquerda”. Interferem e direcionam fatos e investigações, produzem histeria coletiva e ódio a grupos e movimentos sociais inteiros. Ao mesmo tempo são espaços de controvérsias e disputas necessárias e estratégicas, por isso repito sempre: critica a mídia? Odeia a mídia? Torne-se mídia!

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“NÃO ODEIE A MÍDIA, TORNE-SE A MÍDIA” – Um dos gritos-de-batalha de Jello Biafra, artista punk e anarco-ativista Californiano, que cantava no Dead Kennedys e hoje segue ruidoso com a banda Guantanamo School of Medicine

A morte do cinegrafista Santiago Andrade e a posterior perseguição de parte da imprensa aos blackblocs são um sintoma de um discurso midiático perdido ou, ao contrário, posicionado estrategicamente?

Já vimos essa história da construção de inimigos: os comunistas, os subversivos, maconheiros e agora os blackblocs, a ameaça que vai destruir a democracia, a Copa, a moral e os bons costumes. É redutor demais. Vidas são demolidas nesse jogo de demonização, como vimos na repressão brutal da polícia aos manifestantes, nas prisões arbitrárias e mortes, nas capas sensacionalistas da Veja e primeiras páginas e editoriais de jornais e televisões. O nível de manipulação dos fatos foi grosseiro depois da morte do cinegrafista da TV Bandeirantes. A lei que tipifica terrorismo, que querem votar a toque de caixa, e a pauta do medo buscam esvaziar e mudar foco das justas reivindicações para o comportamento dos manifestantes. E a mídia vem legitimando a desproporcional repressão policial, pouco questionada nos noticiários corporativos.Temos uma polarização das ruas contra a associação Mídia-Estado-Polícia, um confronto que produz avanços e retrocessos.

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A Mídia Ninja, que podemos chamar de filha pródiga do movimento Fora do Eixo, nasceu e ganhou muita evidência durante as manifestações de junho de 2013. A sra. vê a Mídia Ninja e suas derivações como o futuro da comunicação?

Um dos efeitos dos protestos de 2013 no Brasil foi a explosão das ações midiativistas. A Mídia Ninja fez essa disputa de forma admirável, amplificando a potência da multidão nas ruas. Ela passou a pautar a mídia corporativa e os telejornais ao filmar e obter as imagens do enfrentamento dos manifestantes com a polícia, a brutalidade e o regime de exceção. O papel dos midialivristas e dos coletivos e redes de mídias autônomas não pode ser reduzido ao campo do jornalismo, mas aponta para um novo fenômeno de participação social e de midiativismo (que usa diferentes linguagens, escrachos, vídeos, memes, para mobilizar). A cobertura colaborativa obtém picos de milhares de pessoas online, algo inédito para uma mídia independente. Nesse sentindo a comunicação é a própria forma de mobilização.

Abaixo: Cobertura fotográfica realizada pela Mídia Ninja do protesto feminista de 28 de Outubro de 2015 no Rio de Janeiro (#ForaCunha)

E o Fora do Eixo?

OFDE Fora do Eixo é um laboratório de experiências culturais e de invenção de tecnologias sociais radicais, que conseguiu transformar precariedade em autonomia. Ele inventou uma forma de viver coletiva e restituir o tempo que o capital nos rouba de uma forma que me toca e mobiliza. As causas políticas que defendem são as minhas e as de muitos: mídia livre, governança, democracia direta, combate a desigualdade e aos preconceitos, defesa da vida, potencialização da autonomia, da liberdade, economia colaborativa, invenção de mundos.

O Fora do Eixo possibilita que jovens dispensem empregos “escravos” ou precários na mídia tradicional, em produtoras comerciais, agências de publicidade, ou qualquer emprego fordista, e passem a inventar a sua própria ocupação. Conheço o Fora do Eixo desde 2011. Na prática,são uma rede de mais de mil jovens que revertem seu tempo e vida para um projeto comum com um caixa coletivo único que paga comida, roupa e casa coletiva, sem salário individual e um projeto comum. Eles não têm medo de dialogar com os poderes instituídos, ao contrário de um certo discurso midiático que procura criar um grande horror à política, que só afasta os jovens e muitos de nós das disputas.

E isso tem muito a ver com as suas pesquisas não se intimidam em enxergar novos dispositivos, conceitos e instrumentais, redes sociais. Qual é a resposta que a sra. procura?

Antes de tudo, viver e lutar por uma vida não fascista, no sentido colocado por Michel Foucault, de lutar contra o “fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”. Quero experimentar uma vida menos “normopata”, uma erótica do contato que restitua o prazer de vivermos juntos. Sou fascinada pelos dispositivos e a forma como co-evoluímos com eles, reinventando o social, produzindo novos prazeres e angústias, sem deixar de perceber como também expropriam o nosso tempo, nossa libido, nossa energia e nos colocam para trabalhar num novo regime de exploração da vida, brutal.

Tudo isso está provocando uma mutação antropológica. Acompanho e vivo de dentro esses atravessamentos. Recuso transformar os conceitos em juízes das experiências, o intelectual “justiceiro” que se vê ao largo, acima, distante dos fenômenos que analisa e estuda. Não tenho mais objetos de estudo, mas parceiros que me estimulam. Fiz a passagem para o que chamo de teoriativismo ou o tédio da erudição. No que faço está implicado todo o meu corpo e a minha vida. Como diria Nietzsche, ignoro o que sejam problemas puramente intelectuais.

Não lhe preocupa a difusão generalizada de manifestações rancorosas, preconceituosas, de baixíssima qualidade nas redes sociais?

As redes sociais têm tudo o que a sociedade tem: discursos de ódio, racismo, preconceito, desinformação, mas trazem a possibilidade veloz e massiva de combate e de embate. Não vejo os jornais e a mídia supereditorializada como “mais qualificada”. Ao contrário, um erro, uma distorção de análise, a manipulação de fatos, o sensacionalismo são questionados nas redes e não nas redações… Se esse novo ambiente produz venenos, ele cria com a mesma velocidade os anticorpos.

Há pouco, a sra. tangenciou o tema da Copa do Mundo no Brasil. Qual a sua opinião sobre esse tema? #NãoVaiTerCopa é algo a ser defendido?

O #NãoVaiTerCopa deixa irada a direita, a esquerda clássica e o governo ao seu simples enunciado. Eles e a mídia corporativa vão errar de novo, como erraram feio no inicio das manifestações em junho de 2013, com a histeria repressora e condenatória. O #NãoVaiTerCopa alarga o campo da democracia ao explicitar o dissenso, ao arriscar pensar diante de um fato consumado e de um processo que colocou os interesses empresariais, lobbystas e midiáticos acima dos direitos básicos. Vai ter Copa sim, mas não vai ter a Copa sonhada pela polícia de ordenamento e pelo ufanismo e desenvolvimentismo ultrapassado.

Os “idiotas da objetividade”, como dizia Nelson Rodrigues, são os que não conseguem ver que pós-junho de 2013 o Brasil provou que não existe incompatibilidade entre torcer pelo Brasil no futebol e fazer política. Ou seja,Vai Ter Copa e Não Vai Ter Copa. Particularmente vou torcer e participar para que ocorram manifestações e vou torcer pelo Brasil em campo. Essa é uma das formas de consolidar e aprofundar a jovem e provocativa democracia brasileira.

Tivemos um beijo gay numa novela global, casamento entre homossexuais é defendido abertamente por jornais, novas formações familiares passaram a ser aceitas. Já podemos comemorar ou ainda falta muito para termos uma sociedade mais tolerante?

O beijo gay na novela global faz parte das expressões da luta por direitos e narrativas afetivas novas. Em terra de Marco Feliciano, o beijo gay é político, é “fashion”, mas ainda estamos muito aquém de uma cultura não homofóbica, não racista, menos patriarcal e machista, ou que aceite a autonomia e liberdade das mulheres.O gay família, a lésbica fashion, o traveco amigo, os homens, as mulheres, os jovens, só têm um destino: o amor romântico em casal. Tabu é ter um relacionamento livre e autônomo.Está faltando um Nelson Rodrigues, mas um Lars von Trier também serviria, para fazer a narrativa dos novos tempos e nos atualizar de nós mesmos.

Cartum de Laerte

Cartum de Laerte

A sra. citou a necessidade de uma sociedade menos patriarcal e machista. A mulher continua tendo muito mais obrigações do que direitos.

Os homens continuam em pânico com a autonomia das mulheres. Um dia sexo vai ser considerado modalidade esportiva e prostituição (masculina e feminina), serviço e profissão de utilidade pública. Essa era uma das causas da Gabriela Leite, mulher e ativista admirável que criou a ONG Davida e a grife Daspu e morreu aos 62 anos. Moça de classe média que escolheu ser puta.O deputado Jean Wyllys apresentou no Congresso o projeto dela, que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo. Uma causa que vale uma vida. E além dos evangélicos e cristãos ainda tem feminista que é contra regulamentar a profissão.

Tomo esse exemplo para dizer que as lutas das mulheres passam por aceitar essas diferenças. Admiro as meninas do funk que ressignificaram o feminismo nas favelas, ao fazerem a crônica sexual a quente da periferia de forma explícita, como Tati Quebra Barraco, que considero uma Leila Diniz dos novos tempos. Há os que pensam que ao se colocarem como protagonistas da cena sexual, as meninas do funk só ocupam o lugar de poder dos homens. Na verdade, é um discurso radical de autonomia e de liberdade que, vindo das mulheres, subvertendo o sentido de “cachorras” e “popozudas”, coloca o preconceito e o machismo de ponta cabeça. Vivemos um tempo difícil, mas apaixonante.

Fies e Prouni

A educação no Brasil melhorou ou piorou durante a administração petista?

Melhorou e muito. Não tem comparação os investimentos que foram feitos na educação pública e nas universidades públicas no governo do PSDB e na administração do PT. Fiz concurso público e comecei a dar aulas na UFRJ no governo de FHC e foram 8 anos de sucateamento com as universidades à míngua. O governo Lula reinvestiu nas universidades públicas criando 14 novas universidades federais e 100 campi pelo interior do país e também investiu fortemente nas Escolas Técnicas e Institutos Federais. O programa do Reuni de reestruturação do espaço físico, expansão das vagas e criação de novos cursos foi vital para as universidades federais. Só a Escola de Comunicação ampliou em mais de 30 o número de professores por concurso público, ampliou vagas, contratou-se técnicos etc. Claro que existem problemas nessa expansão, mas foi decisiva e mudou o cenário radicalmente.

Outras duas ações decisivas foram o Prouni (que abriu 700 mil vagas para jovens nas universidades particulares) e as cotas raciais e sociais, que trouxeram novos sujeitos sociais, vindos das camadas populares, para dentro da universidade. Ao contrário dos que temiam os defensores de uma abstrata “meritocracia”, que o nível de ensino iria “cair”, que iria se “nivelar por baixo” para atender aos pobres, os cotistas surpreenderam e o que estamos vendo é o contrário. Adisputa na produção do conhecimento feita por novos sujeitos políticos. Poderia ainda falar do Enem que articulou a entrada unificada para a rede de universidades públicas. Hoje recebemos na ECO estudantes de todo o Brasil.

Sobre o ensino básico e fundamental acompanhei alguns debates e desafios enormes que precisam ser enfrentados, entre eles o fato da escola fordista e disciplinar, a “creche da tia Teteca”, o ensino sem corpo, sem desejo, sem participação dos estudantes ter se tornado obsoleto e ineficaz. O desafio de diminuir drasticamente o analfabetismo no país passa não só por mais investimento na carreira e salário dos professores, mas por uma mudança de mentalidade, não dá mais pra insistir no modelo da decoreba e do “vovô viu a uva” num contexto de ampliação de repertórios e de universalização da cultura digital, em que oralistas dominam, sem passar pelo letramento, a cultura audiovisual e digital.

Dilma

A sra. votou em Dilma Rousseff? Qual a sua avaliação do primeiro governo dela?

Votei na presidenta Dilma esperando uma radicalização e aprofundamento das políticas iniciadas no governo Lula, mas o círculo virtuoso se rompeu em diferentes pontos. Tivemos retrocessos absurdos nas políticas culturais, enfraquecimento do Programa Cultura Viva, que deu protagonismo à produção dos Pontos de Cultura, vinda das bordas e periferias, retrocesso no diálogo com os movimentos sociais e culturais. O Brasil que estava na vanguarda de alguns processos, com a estabilidade econômica e emergência de novos sujeitos sociais e políticos pós-redistribuição de renda, apresenta uma reconfiguração do campo conservador, minando todo um capital simbólico e real construído.

Estou falando de projetos engavetados como a Reforma da Lei dos Direitos Autorais, os retrocessos no Marco Civil para a Internet, a Lei Geral das Comunicações, obsoleta e concentracionista, que continua intocável, o plano de barateamento e universalização da Banda Larga pífio, o retrocesso no Código Florestal, a inexistência de propostas para a legalização do aborto e legalização das drogas.

O projeto nacional-desenvolvimentista, fordista, da presidenta Dilma, que investe em automóvel, hidrelétrica, petróleo, passando por cima da maior riqueza brasileira, que é seu capital cultural, ferindo direitos, destruindo o meio-ambiente, é insustentável. O maior paradoxo do desenvolvimentismo é querer transformar a cosmovisão indígena, a produção da periferia, em “commodities”, faturar a riqueza cultural, vender as favelas e sua cultura como pitoresco, os indígenas como exóticos, a carne negra como produto desejável e fashion, mas deixar isolados e sem autonomia esses mesmos sujeitos políticos, destituídos dos seus direitos, assujeitados, ou tornados corpos dóceis.

Nesse momento, continuo filiada ao PT, partido para onde entrei em 2011, no auge da crise do Ministério da Cultura, com a nomeação catastrófica da ministra Ana de Hollanda. Entrei para criticar e disputar de dentro avanços nas políticas públicas e para discutir as novas relações de poder nas cidades, a emergência do trabalho informal e do precariado em diferentes campos, a produção social que é a nova força de transformação dentro do próprio capitalismo e para pensar a cidade e a sociedade que queremos.

O governo Dilma é sustentado hoje por uma coalizão conservadora. Então oscilo entre o hiperativismo pessimista (não vai avançar, mas vamos tensionar ao máximo) e o otimismo crítico, que vai guinar para esquerda, sob a pressão das ruas.

É com angústia que vejo o PT, partido com a maior base social do Brasil, abandonar pautas e avanços históricos. Por isso, estou no PT criticando de dentro, mas, ao mesmo tempo, faço parte do conselho do mandato do deputado Jean Wyllys, parlamentar extraordinário. E votei em Marcelo Freixo, ambos do PSOL. Acredito cada vez mais em frentes suprapartidárias em torno das pautas e questões que nos interessam e na transformação dos partidos e do Estado em redes de colaboração e num Estado-Rede, co-gerido pela sociedade.

Vejo a democracia direta e participativa como horizonte da política, mas enquanto isso, luto para que o atual sistema partidário, inclusive o governo Dilma, incorpore as pautas e questões urgentes que emergiram nas ruas. Temos que sair do infantilismo político e purista que é o compromisso atávico com o inviável, pois a governança e a democracia direta vão brotar da remediação e ruptura com o atual sistema partidário. Votando ou não votando no PT, as ruas são ingovernáveis e temos que lutar contra a financeirização da vida.

Revista Cult

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“IVANA BENTES é professora e pesquisadora da linha de Tecnologias da Comunicação e Estéticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. É Doutora em Comunicação pela UFRJ, ensaísta do campo da Comunicação, Cultura, Cinema, Estética, Cultura Digital. É coordenadora do projeto Laboratório Cultura Viva, projeto de apoio e fomento à produção audiovisual dos Pontos de Cultura, em parceria com o MinC. É coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ, ponto de articulação de ações em Cultura Digital. Atualmente desenvolve as pesquisas: “Estéticas da Comunicação: Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo” (pesquisa CNPQ) e “Periferia Global”: sobre o imaginário em torno das favelas e periferias, na cultura brasileira e no cenário global, e suas redes de articulação e produção bio-políticas. É diretora da Escola de Comunicação da UFRJ desde 2006. Atualmente suas pesquisas têm se voltado para os temas relacionados às periferias globais, o devir estético na cultura digital e capitalismo cognitivo e o campo da mídia-arte, arte e ativismo, redes colaborativas, arte e cognição.” – Via Vida Secreta dos Objetos

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