OLHARES SOBRE O MAIOR CARNAVAL DE RUA DO BRASIL – Por Tamyres Maciela, direto de Recife e Olinda

OLHARES SOBRE O MAIOR CARNAVAL DE RUA DO BRASIL

RELATO DO CARNAVAL 2019 EM RECIFE/OLINDA

Desde 2013, ano em que conheci uma galera da universidade trabalhando com Cultura Popular, estive curiosa pra conhecer um pouco do nordeste brasileiro. Com o benefício do IDJovem foi possível estar em alguns lugares: na Bahia em 2018 e agora, iniciando o caótico 2019 na voadora, fui experienciar o maior carnaval de rua do mundo ou, como é chamado em sua casa: o verdadeiro Carnaval brasileiro de Recife/Olinda.

Saí de São Jorge – Alto Paraíso – Brasília dia 12, cheguei na capital de Pernambuco dia 14 de fevereiro e rumei pra Olinda, porque tinha guardado o telefone de um possível contato pra me hospedar por lá. E deu certo, uma casinha muito aconchegante de uma senhora e seu irmão na Rua do Sol, que dá acesso à Praça do Carmo no coração de Olinda, um dos principais focos do carnaval. Com um orçamento limitado pro rolê (média de 20 reais por dia), passei todas as semanas tratada como se fosse da família. Caminhos abertos pra chegar.

Na época de pré-carnaval, em que as troças de frevo, nações de maracatu, afoxés entre outros grupos de diversas manifestações artísticas ensaiam pelas ruas das cidades, as barraquinhas e vendedores ambulantes vão chegando a cada dia, marcando seus pontos e presenças nas prévias da grande folia. Essas foram as pessoas com quem mais interagi durante todo o tempo. Afinal, se eu queria conhecer essa festa, nada mais necessário que conversar com quem está à frente da produção dela. E nesse sentido, pra grande parte da população dali Carnaval é sinônimo de trabalho, não de curtição.

Até conhecer o Recife esse ano, havia determinado que a festa pra mim seria em retiros espirituais ou qualquer lugar bem longe das multidões. Outros carnavais que presenciei eram sempre no mesmo estilo: a cultura de ostentação e do desperdício, homens importunando mulheres por todos os lados, brigas… Vish, sem condições. Mas o que vi esse ano em Recife/Olinda mudou um pouco minha visão sobre nossa folia brasileira.

Pra além de toda estrutura da festa: palcos gigantes em vários cantos das cidades, bases de corpo de bombeiros em todo lugar e as lindas decorações das ruas, pude observar várias campanhas: contra o racismo e homofobia grafitadas em diversos pontos, contra o assédio e importunação às mulheres, principalmente. Além da prefeitura, várias empresas privadas contribuíram com materiais impressos e adesivos distribuídos no meio da multidão. Um clipe passava nos palcos em todos os intervalos de bandas:

Sentada no Marco Zero esperando pela próxima atração que viria, ao tocar essa música um homem do meu lado virou pra mim e disse: “É um absurdo ainda ter caras que tão nessa. Quando fui casado eu agredi minha ex-mulher algumas vezes. Hoje tenho vergonha de lembrar que fiz isso”.

No Recife antigo transitei por vários lugares. A Praça do Arsenal foi a que mais frequentei, porque era um palco de vasta representatividade feminina. Por ali passaram significativos nomes da música contemporânea como Dona Onete, Alessandra Leão, Karina Buhr e Isaar, além do desfile oficial do Movimento Feminista Baque Mulher, guiado pela Mestra Joana Cavalcante, a primeira e única mestra de uma nação de maracatu (Encanto do Pina) na história.

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Admirei muito o sentimento de pertencimento daquele povo. As pessoas amam seus sotaques e suas tradições. Como foi bom escutar bandas que já curtia muito como Nação Zumbi, Academia da Berlinda, Eddie, Cordel do Fogo Encantado, Siba, Banda de Pau e Corda e juntar no coro com a multidão cantando a plenos pulmões.

Uma máxima que rolou em vários lugares esse ano não passou despercebida por ali: “ai ai ai, Bolsonaro é o carai” em todo e qualquer bloco que passasse pelas ruas abarrotadas de gente. Outra que contagiou foi: “quem ficar parado é eleitor do Bolsonaro”, olhava pro lado e todo mundo se mexendo de alguma forma… Quando a figura do presidente apareceu num dos Bonecos Gigantes de Olinda não deu outra: foi vaiado e acertado por latas de cerveja.

Das coisas mais emocionantes que vi na vida foi a abertura da festa no Recife. O palco do Marco Zero na quinta-feira é o momento em que afoxés e maracatus fazem suas celebrações pedindo as bênçãos dos Orixás, pra que o Carnaval seja de paz para todas. “O Carnaval do Recife é negro”, Doroty Marques me disse uma vez e pude confirmar isso. Pra além dos tambores e atabaques, os estandartes, figurinos e danças, as heranças da ancestralidade negra reverberam por aquelas praças de uma forma que é impossível não se arrepiar.

Tudo que vi: afoxés, frevos, cocos, bois, maracatus deixaram explícita a grande força dos movimentos de resistência pela Cultura Popular. Boa parte dessas manifestações são oriundas dos Ilês, localizados em regiões periféricas das cidades. Então, muito além do brilhantismo e magnificência das apresentações no Carnaval, esses movimentos representam a religiosidade e o trabalho de muitas pessoas. Podemos aprender um pouco mais sobre ancestralidade africana com Mateus Aleluia:

É muito importante pra pessoas que, como eu, foram privilegiadas por iniciar os estudos de Cultura Popular na universidade, que busquem a oportunidade de ver de perto os princípios que regem isso tudo. Tocar maracatu, por exemplo, é uma coisa que se alastrou pelo mundo depois do movimento Manguebeat. Diversos grupos de estudo desse ritmo estão espalhados pelo país e é fundamental que todos se preocupem em dialogar sobre a ampla legitimidade que essa manifestação popular representa na história do Brasil.

Muito embora 100% das pessoas tenham me alertado sobre os perigos de andar só na cidade grande, me atrevi a fazer isso: andei sozinha na maior parte do tempo. Foi uma oportunidade de exercitar a ligeireza, o carisma com pessoas aleatórias que jamais vi ou verei novamente, entre outras que se tornaram novas amizades e amores. Passei várias tardes em Olinda e noites no Recife, me locomovendo por metrô e voltando pra casa nos ônibus da madrugada que saía do Cais de Santa Rita. Foi preciso criar estratégias: sair apenas com documentos e pouco dinheiro numa bolsa imperceptível por debaixo da roupa, andar nos fluxos de gente, aproximar de grupos fingindo que estava com eles… me aproximei muito das minas e monas, me sentia mais confortável perto delas. Quando percebiam minha presença eu explicava meu rolê solitário, a galera compreendia e cuidava de mim. Fiquei maravilhada com o acolhimento daqueles corações nordestinos.

Quando chega a quarta-feira de cinzas as cidades se esvaziam, mas a festa está longe de acabar. Seguindo um fluxo alternativo do foco central do Carnaval, as apresentações dos bois descem a ladeira na Rua da Boa Hora em Olinda com suas reverências, seus estandartes e brincadeiras com fogo ou bloco de pifes com zabumbas e triângulos e metais e tambores… O desfile dos boizinhos é também um espetáculo encantador, de encher os olhos d’água quando passa pela força ancestral que transmite.

O Carnaval hoje pra mim tem outro significado. É o lugar de fala do nosso povo, um momento pra brincar, se divertir, mas também praticar atitudes políticas. Desde a fantasia que se escolhe até o momento de deitar na cama pra descansar desses intensos dias de fevereiro/março, carregamos responsabilidades conosco e com a nossa sociedade. Quero ver esse Carnaval, que ainda “só em Pernambuco é assim”, inspirar outros em nosso país e deixar explícito pro mundo a força da Cultura Popular Brasileira.

TAMYRES MACIELA é cantautora e multi-instrumentista. Formada em Letras e mestra em Estudos da Linguagem pela UFOP. Desenvolve pesquisas nas áreas de estudos culturais, cultura popular e história da música brasileira. Colunista na Escuta que é bom e n’A Casa de Vidro.

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LEIA AS COLUNAS ANTERIORES DE TAMYRES MACIELA EM A CASA DE VIDRO:

#1 – Meu agora até aqui
#2 – Sobre construção de repertórios e produção musical contemporânea
#3 – Garimpar Músicas: uma das maneiras de se fazer bom uso da internet

DEMOCRACIA E DIFERENÇA – Por Gilberto Gil & Antônio Risério

DEMOCRACIA E DIFERENÇA
Gilberto Gil & Antônio Risério

Rousseau, um dos grandes clássicos da literatura e pensamento democráticos, diz no Contrato Social que se tomarmos a expressão democracia em sentido rigoroso, vamos verificar que “jamais existiu, jamais existirá” uma democracia verdadeira. Não é possível substituir o Estado pela Sociedade, nem fazer do povo uma Assembléia Permanente – e permanentemente ocupada com decisões coletivas relativas aos interesses e negócios públicos.

A democracia verdadeira, para Rousseau, só é possível num estado pequeno – muitas vezes menor do que a Bahia ou a Califórnia -, onde seja fácil reunir o povo, onde os costumes sejam simples e onde haja “bastante igualdade entre as classes e as fortunas”. Não é bem isso que vemos à nossa volta. E pensamos que o filósofo suíço está certo.

Não é por outro motivo que insistimos no óbvio, isto é, no fato de que só podemos viver em democracias reais. De que nos movemos e nos movimentamos, com todas as nossas pulsões e compulsões, no horizonte do possível – e nunca em circunstâncias ideais. A grande virtude do regime democrático, desta perspectiva, é que a democracia é um regime perfectível. Um regime in progress. Uma obra aberta.

O Brasil é um lugar onde o regime democrático, em suas fulgurações fugazes, mais sugere, antes do que qualquer outra coisa, uma ave de arribação – ou uma bênção muitas vezes negada. (…) As nossas elites dirigentes sempre se lembraram, nos seus discursos fantasiosos – mas sempre se esqueceram, em sua conduta efetiva – do fato de que a sociedade brasileira pode ser tudo, menos monocromática. E a verdade é que a democracia jamais se realizará, no Brasil, caso o processo construtivo passe ao largo de nossa questão sócio-racial e de nossa multiplicidade cultural.

O Brasil é um curto-circuito antropológico: uma aventura de etnias e culturas em rotação, em conflito e em mestiçagem permanente, dos tempos coloniais aos tempos televisuais, quando nos dispomos a investir do Oiapoque ao Chuí… Somos um país de muitas cores, nuanças e matizes. Não podemos falar em democracia brasileira sem uma consciência radical (no sentido etimológico da expressão) destas diversidades…

E ocorre que a “democracia racial” é o nosso mais belo sonho. É o sonho central da mitologia social brasileira. Ninguém pode pôr em dúvida o seu amplo e profundo alcance na sociedade que se formou entre a Amazônia e o Rio Grande do Sul. Temos, evidentemente, que desmascarar a construção ideológica elitista de um mito paralisante e neutralizador dos conflitos. Mas o que nós queremos, enquanto descendentes de escravos, não é simplesmente negar o mito – e sim realizá-lo. Sabemos que mitos passados movem moinhos.

É necessário, para a sobrevivência e afirmação do Brasil, que o mito se encarne na história, assim como na história se encarnaram a metalurgia e a malandragem. Este é o sentido de democracia que nos interessa. A história das Américas – articulada em complexa tessitura de astecas, europeus, tupinambás e nagôs – é a história de uma heterogeneidade. E esta heterogeneidade – este fascinante e meândrico conjunto multicultural de civilização – deve rebrilhar no horizonte democrático. Pois a democracia é a possibilidade – o projeto de que as diferenças, todas as diferenças, se realizem em sua plenitude.

Mas é preciso definir, em termos brasileiros, o significado dessas diferenças. Afinal, somos todos iguais perante a natureza – perante as irrevogáveis leis da vida e da morte -, mas não somos todos iguais perante a cultura. E aqui é que temos que chegar a uma espécie de optimum democrático que consiste, básica e essencialmente, em abolir as desigualdades sociais – e em sublinhar as diferenças de cultura.

(…) A discussão da diferença não nos mobiliza em função da construção deste ou daquele astucioso ardil ideológico, mas no sentido nítido da realização democrática de nosso povo. (…) O autoritarismo é o último refúgio do etnocentrismo. A personalidade autoritária é aquela que quer abolir as diferenças. E abolir as diferenças é a ilusão trágica do etnocentrismo. E denunciamos a canoa furada. A viagem democrática, nunca será demais repetir, é aquela que aposta na redução, e mesmo na supressão, das diferenças sócio-econômicas – e aquela que aposta no negritar das diferenças de cultura.

GIL/RISÉRIO. In: O Poético e o Político, Ed. Paz e Terra, pg 34 a 39.

EXPLORE TAMBÉM:


POR UM ABOLICIONISMO SOCIALISTA
De Gilberto Gil e Antônio Risério

Acabar com a escravidão não basta – é preciso destruir a obra da escravidão. Estas palavras, ditas por Joaquim Nabuco, permanecem intensamente atuais. É a partir daí que temos falado na retomada, em novo contexto e sob novas luzes, daquela movimentação que mobilizou a sociedade brasileira na década de 80 do século transato. Daí, também, a necessidade de uma ida ou retorno às fontes. De uma re/visão do Movimento Abolicionista. Aqui, como em tantos outros aspectos da vida social brasileira, é preciso dar um tranco na matreirice dos intermediários.

Nabuco via na escravidão a mancha de Caim que o Brasil trazia na testa. O sinal da maldição fratricida. Daí que o Movimento Abolicionista, considerando que “todas as transações de domínio entre entes humanos são crimes que só diferem no grau de crueldade”, tenha se lançado tão corajosamente ao combate.

Os abolicionistas se recusavam a reduzir sua missão ao objetivo de libertar os escravos. “Essa obra de emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do Abolicionismo”, pregava Nabuco 5 anos antes da promulgação da assim pitorescamente chamada Lei Áurea.

A meta maior do movimento – “a do futuro” – era apagar todos os efeitos do regime. Antes que se resumir ao esforço de reabilitação da raça negra escravizada, o Abolicionismo pensava-se como equivalente à “reconstituição completa do país”. Caso este generoso empenho de reconstrução nacional não se cumprisse, a “obra da escravidão” persistiria, mesmo quando não houvesse mais escravos.

E o fato é que a obra da escravidão persiste. Basta olhar em volta ou consultar as estatísticas disponíveis. Desta perspectiva, o Movimento Abolicionista é obra inacabada. Desencadeou o processo, cumpriu seu programa de curto prazo e se diluiu nos descaminhos da história. Os líderes do Movimento entendiam que as coisas não seriam fáceis. Conheciam bem nossa patologia social. Discerniam a gênese e o caráter de organismos sociais forjados por proprietários de homens.

Sabiam que a empresa de anular as influências da ordem escravocrata estava além do alcance do esforço de uma só geração. (…) Somos ainda hoje os herdeiros de um escândalo chamado escravidão. Esta é a herança que temos que liquidar. Arquivou-se legalmente um sistema de trabalho, mas não se suprimiu um contexto discriminatório. A situação atual das massas negromestiças brasileiras é prova da vinculação de nosso presente social às estruturas materiais e ideológicas da ordem escravocrata, cujas consequências e desdobramentos povoam e poluem o nosso dia-a-dia.

E se a obra da abolição é coisa inconclusa, declaramos que esta é a obra que queremos concluir. Vem daí o ímpeto da releitura, da revisão e da retomada, prevendo um salto suficientemente ousado em direção ao futuro. Estamos ainda muito longe de atingir o estágio histórico pressentido pela vanguarda liberal-revolucionária do século 19 – o da “união das raças na liberdade”. Mas é tarefa histórica de nossa geração tudo tentar para trazer este ideal para a dimensão pedestre e plebéia, fazendo com que ela se enraíze, cresça, oxigene e transforme a sociedade brasileira. Ou a mancha de Caim permanecerá, resistente aos truques, detergentes e maquiagens das classes dominantes.

(…) A luta hoje é pela liquidação final da herança escravista – nos planos social, econômico, ideológico e político. Daí que esta luta se inscreva no coração da luta pela construção do socialismo democrático brasileiro. Deste socialismo que é irreversível. E ao longe de cujo processo construtivo estamos erradicando as pragas sociais que nos perseguem e nos torturam ainda hoje, no limiar do século 21.

GIL/RISÉRIO (Pg. 57 a 59)

CARNAVALIZANDO A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E A RESISTÊNCIA À OPRESSÃO: Sambando na cara da tirania, a Tuiuti faz História na Sapucaí e deixa uma cicatriz na carne do Carnaval do Rio

“É CARNAVAL MAS FOI GOLPE!”
Roberta Martinelli

Um golpe de Estado não é nenhum piquenique, mas ao invés de derrubar lágrimas sobre nosso pesadelo, chegamos ao Carnaval do ano eleitoral com um ícone popular sobressaindo sobre tudo: a Tuiuti e sua estética do quilombo, carnavalizando as consequências nefastas do golpismo tirânico hoje empoderado.

O esqueleto de Castro Alves abriu um sorriso no cemitério ao ouvir “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, notando que os afrobrasileiros vão inventando uma resistência carnavalizada à opressão, uma anarquia antropofágica-tropicalista que infunde ânimo e esperança às nossas necessárias lutas do porvir.

Um coup d’État como este que se encontra entre nós hoje, fazendo o serviço do elefante na loja de louças, pode acarretar catástrofes humanitárias: a reversão do mundo do trabalho a níveis de desrespeito aos direitos humanos mais básicos dos cidadãos que mais se assemelha a uma reversão ao escravagismo (CLTs em chamas, enquanto matam a fome com cinzas os quase 15 milhões de desempregados…), Retrocesso rumo à abolição da lei Áurea, para delírios de efusão dos banqueiros e Bolsas de Capitais… O patronato Rei Patinhas comemora seu triunfo, nadando em piscina de ouro enquanto as massas padecem na miséria…

Este sistema aniquilador do mais básico estandarte da dignidade, a cidadania e o “direito a ter direitos” (como diz Hannah Arendt), hoje está sacrificado no altar dos lucros privados de minúsculas elites, que nos desgonernam a golpes de (D)eformas e PECs. Na linha de frente, como a Tuiuti inscreveu na História com seu desfile, vem um cara-pálida vampiresco, vestido de terno-e-gravata, feito um Temer, um Macri ou um Trump… Vilões do pesadelo do real. Nosso levante os ofende com arte!

Carnavalizando a nossa tragédia, a Paraíso do Tuiuti entrou como “sentinela da libertação” na Sapucaí e fez mais, fez muito mais do que mera arte popular na avenida: fez História nas páginas brasileiras onde estão escritos nossos maiores heroísmos de Desobediência Civil.

É de saudar a sabedoria das favelas cariocas resistentes que não param de cantar, além de seus sambas-enredo, o clássico do falecido Wilson das Neves: “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval):

O samba não está solitário na resistência à opressão: faz alianças com o rap, inventa seus modos de hackear seu acesso à grande mídia, e assim surgem fenômenos louváveis, do Lab Fantasma do “Pantera Negra” Emicida ao levante de empoderamento feminino com Larissa Luz, Tássia Reis e Rimas & Melodias, cenário no qual figura como trovão esplendoroso no céu do Brasil este já lendário desfile da Tuiuti em 2018.

Dentre seus méritos não menores está o ter se apropriado da mídia, já que o desfile foi transmitido ao vivo pela Rede Globo, apesar da Tuiuti expor de modo explícito o complô golpista de que os globais foram patrícios partícipes. Globosta golpista teve pôr no ar o Samba da Resistência Alegre de um Povo Aguerrido, passando outra vez Chico Buarquística-mente em era e época de “tenebrosas transações” (de Cunhas e Jucás, MDBs e Globos, Fiesps e Odebrechts…).

A Tuiuti sambou com sarcasmo, tirando sarro daqueles “manifestoches” manipulados por MBLs e Vejas, servindo aos interesses patíferos do empresariado Fiespista, títeres de petroleiras gringas de olho gordo pra cima do nosso pré-sal, dentre outras forças da Elite do Atraso (Jessé Souza) que estiveram por trás da derrubada injusta da presidenta eleita.

Os coordenadores do golpe tiveram novamente uma aliada nas Corporações Globo, mais uma vez – replays-de-farsa das tragédias de 64 e 68… – agindo não como deveria fazer um ente da mídia em um país democrático, mas como empresa capitalista umbigocêntrica que age como protagonista e fomentadora dos privilégios injustos das elites econômicas exploradoras.

O Carnaval do Rio deste 2018 tornou-se célebre mundialmente pela força de sua contestação – muito bem-vinda nestes tempos em que a América Latina mostra-se novamente como o terreno das “veias abertas”, de patas arriba, como ensinou Eduardo Galeano.

Um continente convulsionado: ao insulto que é o indulto a Fujimori no Peru
(processo levado a cabo um PPK ameaçado de ser impeachado), soma-se ao insulto da lawfare golpista condenando ao Lula – “sem provas, mas muitas convicções” – com o fim de inviabilizá-lo nas iminentes eleições.

Estive na Bolívia durante o Carnaval 2018 e voltei fortalecido com a resiliência de Evo Morales (do MAS – Movimento Ao Socialismo) na presidência da Bolívia, mesmo sob muitos ataques. No Carnaval ocorrido no Cambódromo de Santa Cruz de La Sierra, não faltaram críticas agressivas dos cambas caucasianos ao Evo Aymara, renovador do cenário político que propõe ao continente a utopia do Estado Plurinacional. O Brasil está surdo…

Amaré direitista que hoje nos assola na Argentina, no Chile, no Brasil, não nos deixa sequer suficiente área de respiro para que tomemos fôlego com as vitórias utópicas que resistem em outras partes do continente sul-americano que integramos, utopia concreta que hoje melhor se manifesta na Bolívia de Morales.

Esta maré direitosa atualmente mostra a transmutações do neo-liberalismo em um doutrina mais intolerante do que nunca, desenvolvendo perigosas tendências fascistas, tanto que estamos sob a ameaça de mais Intervenções Militares dos Yankees apoiadas por oligarquias locais vende-pátria, com o fim de trazer abaixo pela força de violências, explícitas ou veladas, os regimes “bolivariano-socialistas” que ainda resistem na Venezuela e na Bolívia.

Tio Sam e seu comandante psicopático Trump vem aí, regando a árvore sinistra de nossos Golpes de Estado contra Maduro e Evo…

Neste cenário, é um alento que a Tuiuti tenha sambado tão bonito na cara da Opressão… O que me lembra de algo que Celso Lafer ensinava sobre “Hannah Arendt”: “ela entende que, em situações-limite – uma categoria de inspiração Jasperiana, importante na sua reflexão -, a desobediência civil é legítima e pode ser bem-sucedida na resistência à opressão. Este foi o caso, por ela comentado em Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal, da resistência dos dinamarqueses, através da desobediência civil, à política antissemita do invasor nazista. Este também foi o caso da luta contra a segregação racial e da resistência à guerra do Vietnã… De fato, nesses casos a desobediência civil, sendo a expressão de um empenho político coletivo na resistência à opressão, não se constitui como rejeição da obrigação política, mas sim como a sua reafirmação.”

(LAFER, Celso. In: A Reconstrução dos Direitos Humanos – Um diálogo com Arendt, Cia das Letras, p. 39)

Em meio à situação-limite que vivemos enquanto país – um autêntico barril de pólvora de tamanho continental, e sem escassez de faíscas e estopins! – foi um esplêndido evento testemunhar essa carnavalização da desobediência civil e da resistência à opressão na Sapucaí, e por isso selecionamos interessantes posts com a repercussão do Carnaval Rio 2018, em publicações da Mídia Ninja, Revista Fórum, DW, El País, Sakamoto, entre outros. Façam bom proveito:

“Saudades e cinzas foi o que restou!”

Cena do filme "Orfeu Negro", de Marcel Camus, baseado na peça de Vinícius de Moraes, vencedor da Palma de Ouro em Cannes

Cena do filme “Orfeu Negro”, de Marcel Camus, baseado na peça de Vinícius de Moraes, vencedor da Palma de Ouro em Cannes

Marcha de Quarta-feira de Cinzas
 Compositores: Vinicius De Moraes / Carlos Lyra
Intérprete: Toquinho
Vídeo: Ramon Moreira

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz.

OUÇA: NARA LEÃOSIMONALELISJOYCE

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SIGA VIAGEM COM AS PLAYLISTS:
Polifonia de Pindorama: Janeiro / Fevereiro

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LEITURAS SUGERIDAS:

Brasil Post: “O período pós-abolicionista marcou a forte perseguição de quaisquer sonoridades, sotaques, danças e religiosidades afro-brasileiras, que visavam manter tradições que a sociedade brasileira queria tanto apagar. Nesse contexto, a importância das mulheres negras foi fundamental, porque além de manterem economicamente suas famílias — já que continuaram a trabalhar como empregadas domésticas nas casas grandes –, foram essenciais para a resistência do samba. No Rio de Janeiro, a Tia Ciata, que hoje seria o que é comumente conhecido como mãe de santo, se destaca como memória coletiva. Na sua casa acontecia o samba que era proibido, onde nomes como Pixinguinha, Sinhô e tantos outros se conheceram e puderam compor.”

Paulinho da Viola no El País: “Essa história nossa do samba é fascinante porque se enriqueceu e mudou muito. Os movimentos que vinham surgindo na música brasileira, desde a bossa nova na década dos 50, já propunham uma abordagem diferente daquilo que se fazia tradicionalmente com o samba. As escolas de samba mudaram de ano para ano e elas incorporaram muita coisa nova também. Você pode dizer que o samba tem origem na África, com elementos da cultura portuguesa, com grandes influências aqui no Brasil, mas você vê que o povo foi antropofágico, pegou tudo e o devolveu de outra maneira. Nesses cem anos sempre houve experimentações, desconstruções, jovens talentos trazendo coisas novas… E essa linha rítmica, tão forte, só não desapareceu por um motivo: porque o povo não deixou.”

P.S. – Wilson das Neves – “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval”