OS 100 MELHORES CURTAS-METRAGENS DA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO – Assista às obras selecionadas pela Abbracine

A ABBRACINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema realizou um levantamento sobre os 100 melhores curtas-metragens da história do cinema brasileiro, com obras que abrangem o período entre 1913 a 2018. A pesquisa servirá de base para livro “Curta Brasileiro – 100 Filmes Essenciais”, realizado em parceria com Canal Brasil e Editora Letramento (organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva).

O filme gaúcho “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, foi eleito o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos; esta obra foi a vencedora do Urso de Prata do 40º Festival de Berlim, em 1990.

Em segundo lugar na votação promovida pela Abraccine com críticos, professores e pesquisadores de todo o país, aparece “Di” (1977), de Glauber Rocha, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, seguido por “Blábláblá” (1968), de Andrea Tonacci, “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro, e “Couro de Gato” (1962), de Joaquim Pedro de Andrade.

Joaquim Pedro tem quatro filmes selecionados entre os 25 primeiros colocados – além de “Couro de Gato”, estão “Vereda Tropical” (15ª colocação), “O Poeta do Castelo” (21ª) e “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (22ª).

O cineasta com mais produções na lista, no entanto, é Aloysio Raulino, que, como diretor, construiu um corpo de obra muito mais prolífico e marcante no curta-metragem. Cinco de seus filmes foram destacados: “O Porto de Santos”, “O Tigre e a Gazela”, “Jardim Nova Bahia”, “Lacrimosa”, este codirigido com Luna Alkalay, e “Teremos Infância”.

Também ganha destaque na votação a filmografia de Ivan Cardoso no formato, com quatro títulos: “À Meia-noite com Glauber”, “Nosferato no Brasil”, “HO” e “Moreira da Silva”. Da produção mais recente, chamam a atenção Kleber Mendonça Filho (“Vinil Verde”, “Recife Frio” e “Eletrodoméstica”) e André Novais Oliveira (“Fantasmas”, “Quintal” e “Pouco Mais de um Mês”), cada um com três filmes. – ABBRACINE

Para colaborar com o acesso do público a este rico tesouro cinematográfico, que faz parte da história da cultura audiovisual brasileira, A Casa de Vidro fez um mapeamento de todos os filmes disponíveis no Youtube e disponibilizou-os na playlist abaixo. Confira abaixo, a lista completa com os 100 melhores curtas-metragens eleitos pela Abraccine, seguidos por outros curtas-metragens recomendados:

Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado


Di (1977), de Glauber Rocha


Blábláblá (1968), de Andrea Tonacci


A velha a fiar (1964), de Humberto Mauro


Couro de gato (1962), de Joaquim Pedro de Andrade


Aruanda (1960), de Linduarte Noronha


SuperOutro (1989), de Edgard Navarro


Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman


A entrevista (1966), de Helena Solberg


Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro


Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul


Viramundo (1965), de Geraldo Sarno


Vinil verde (2004), de Kleber Mendonça Filho


Documentário (1966), de Rogério Sganzerla


Vereda tropical (1977), de Joaquim Pedro de Andrade


Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho


Nelson Cavaquinho (1969), de Leon Hirszman


Zezero (1974), de Ozualdo Candeias


Sangue corsário (1980), de Carlos Reichenbach


O dia em que Dorival encarou a guarda (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart


O poeta do castelo (1959), de Joaquim Pedro de Andrade


Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), de Joaquim Pedro de Andrade


Maranhão 66 (1966), de Glauber Rocha


O som ou tratado de harmonia (1984), de Arthur Omar


Subterrâneos do futebol (1965), de Maurice Capovilla


Mato eles? (1983), de Sérgio Bianchi


Guaxuma (2018), de Nara Normande


Meow! (1981), de Marcos Magalhães


Eletrodoméstica (2005), de Kleber Mendonça Filho


O rei do cagaço (1977), de Edgard Navarro


Fantasmas (2010), de André Novais Oliveira


Socorro Nobre (1995), de Walter Salles


À meia noite com Glauber (1997), de Ivan Cardoso


Dias de greve (2009), de Adirley Queirós


A pedra da riqueza (1975), de Vladimir Carvalho


Memória do cangaço (1965), de Paulo Gil Soares


O duplo (2012), de Juliana Rojas


Quintal (2015), de André Novais Oliveira


Fala Brasília (1966), de Nelson Pereira dos Santos


O porto de Santos (1978), de Aloysio Raulino


Horror Palace Hotel (1978), de Jairo Ferreira


Esta rua tão Augusta (1968), de Carlos Reichenbach


Muro (2008), de Tião


Manhã cinzenta (1969), de Olney São Paulo


O tigre e a gazela (1977), de Aloysio Raulino


Cinema inocente (1980), de Julio Bressane


…a rua chamada Triumpho 969/70 (1971), de Ozualdo Candeias


Carro de bois (1974), de Humberto Mauro


Olho por olho (1966), de Andrea Tonacci


Praça Walt Disney (2011), de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira


Chapeleiros (1983), de Adrian Cooper


Juvenília (1994), de Paulo Sacramento


Os óculos do vovô (1913), de Francisco Santos


Dossiê Rê Bordosa (2008), de Cesar Cabral


Lampião, o rei do cangaço (1937), de Benjamin Abrahão


Animando (1983), de Marcos Magalhães


Jardim Nova Bahia (1971), de Aloysio Raulino


Partido alto (1982), de Leon Hirszman


Torre (2017), de Nádia Mangolini


Mauro, Humberto (1975), de David Neves


Ver ouvir (1966), de Antônio Carlos Fontoura


Congo (1972), de Arthur Omar


Caramujo-flor (1988), de Joel Pizzini


Lacrimosa (1970), de Aloysio Raulino e Luna Alkalay


Palíndromo (2001), de Philippe Barcinski


Um sol alaranjado (2002), de Eduardo Valente


Cantos de trabalho (1955), de Humberto Mauro


O guru e os guris (1973), de Jairo Ferreira


Nosferato no Brasil (1970), de Ivan Cardoso


Mulheres de cinema (1976), de Ana Maria Magalhães


Kbela (2015), de Yasmin Thayná


A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998), de Carlos Adriano


Libertários (1976), de Lauro Escorel


Meu compadre Zé Ketti (2001), de Nelson Pereira dos Santos


Seams (1993), de Karim Aïnouz


Céu sobre água (1978), de José Agrippino de Paula


Dov’è Meneghetti? (1989), de Beto Brant


Teremos infância (1974), de Aloysio Raulino


Texas Hotel (1999), de Cláudio Assis


Rituais e festas Bororo (1917), de Major Thomaz Reis


Integração Racial (1964), de Paulo Cezar Saraceni


HO (1979), de Ivan Cardoso


Kyrie ou o início do caos (1998), de Debora Waldman


Pouco mais de um mês (2013), de André Novais Oliveira


Cartão vermelho (1994), de Laís Bodanzky


Um dia na rampa (1960), de Luiz Paulino dos Santos


Moreira da Silva (1973), de Ivan Cardoso


Nada (2017), de Gabriel Martins


Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno (1981), de Miguel Rio Branco


O ataque das araras (1975), de Jairo Ferreira


Enigma de um dia (1996), de Joel Pizzini


Amor! (1994), de José Roberto Torero


Menino da calça branca (1961), de Sérgio Ricardo


Estado itinerante (2016), de Ana Carolina Soares


Amor só de mãe (2002), de Dennison Ramalho


Carolina (2003), de Jeferson De


Contestação (1969), de João Silvério Trevisan


Guida (2014), de Rosana Urbes


Exemplo regenerador (1919), de José Medina


Frankstein punk (1986), de Cao Hamburger e Eliana Fonseca




OUTROS CURTAS QUE VALEM A PENA

UMA HISTÓRIA SEVERINA (2005) || Eliane Brum & Débora Diniz

HABEAS CORPUS (2005) || Débora Diniz

À MARGEM DO CORPO (2006) || Débora Diniz

QUEM SÃO ELAS? (2006) || Débora Diniz

SOLITÁRIO ANÔNIMO (2007) || Débora Diniz

A CASA DOS MORTOS (2009) || Débora Diniz

ZIKA (2016) || Débora Diniz

HOTEL LAIDE (2017) || Débora Diniz

CLANDESTINAS || Fadhia Salomão

O FLORESCER DA VOZ || Jaime Leigh Gianopoulos

 

 

AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES – Documentário curta-metragem aborda a arte de resistência e os agentes culturais transformadores no cenário de Goiânia em 2018 (Um filme de Eduardo Carli de Moraes, 25 min)

 

AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES

Novo documentário curta-metragem aborda a Arte de Resistência e dá voz a agentes culturais transformadores que estão em ação no cenário de Goiânia em 2018

Um documentário de Eduardo Carli de Moraes – 25 min

SINOPSE – Em um lugar “onde assassino tem o nome na avenida”, como canta Adriel Vinícius, há um microcosmo social que não se acomoda nem se conforma com o status quo indignante que hoje nos assola. O documentário curta-metragem Afinando o Coro dos Descontentes deseja amplificar a voz dos artistas goianienses que estão em franco levante contra as injustiças sociais e as violências estruturais conectadas ao reinado de Anhangueras, Marconis, Cachoeiras e Caiados, dentre outros podres poderosos que tiranizam Goiás.

Por 25 minutos, mergulhe nesta movimentação contra-cultural e subversiva, onde efervescem as obras e práticas de “muita gente bacana, com antenas ligadas no que está acontecendo aqui e agora”, como diz Diego Mascate, um dos personagens do filme, na companhia de Adriel, do Terra Cabula, de Vitor Hugo Lemes, de Jordana Luz, de Luiza Camilo, de Geovanni Santos, de Bergkamp Magalhães, das bandas Cocada Coral e Retalha Ventro, dentre outros.

Nas últimas duas décadas, o cenário cultural de Goiânia marcou época no Brasil com a emergência de um cenário efervescente de bandas nacionalmente reconhecidas (Boogarins, Carne Doce, Black Drawing Chalks, Cambriana, Violins etc.), festivais de alta potência (Bananada, Noise, Vaca Amarela etc.) e produtoras culturais que somaram muito à cena (Monstro, Fósforo Cultural, A Construtora etc).

A riqueza e diversidade deste  cenário é tamanha que pode-se sentir a existência pulsante, no underground, de uma eclosão de iniciativas culturais insurgentes, de resistência e contestação. Este doc faz uma “etnografia à quente” (para emprestar uma expressão de Ivana Bentes) do cenário artístico de Goiânia na perspectiva daqueles que insistem em resistir – ou melhor, que apostam na re-existência, em existir de outras maneiras.

Oferecendo uma rica experiência sensorial, o doc deseja seguir o mote fornecido por Itamar Assumpção quando recomendou que era melhor “afinar o coro dos descontentes”. Pois nossos sonhos não cabem não tuas urnas, deveras, mas cabem sim em nossas canções, em nossos filmes, em nossos grafites, em nossos raps, em nossos passos de break, em nossa ocupação criativa-colorida de uma urbe onde alguns já agem como se fosse carne aquele sonho: “se a cidade fosse nossa…”

ASSISTA JÁ: YOUTUBE / VIMEO / FACEBOOK

 

ARGUMENTO – por Eduardo Carli de Moraes

Brecht dizia que “a arte não é um espelho com o qual refletir o mundo, mas um martelo para dar-lhe forma” (uma frase também atribuída ao poeta russo Maiakóvski). O artista autêntico, segundo a visão brechtiana, não é aquele que se acomoda ao real e deseja somente “xerocá-lo” a mera mímesis lhe parece tarefa pífia, indigna da mobilização de suas forças criativas e expressivas, e ele não quer ser refém do realismo mais estrito e restrito. O genuíno artista seria reconhecível por ser aquele cuja existência radicalmente criativa transfigura o real, ou seja, dele participa como agente transformante. Já estamos bem longe da concepção do artista que segura um espelho diante de um real diante do qual ele ficaria passivo-contemplante…

O documentário Afinando o Coro Dos Descontentes chega para fazer uma espécie de “etnografia à quente” (para emprestar uma expressão de Ivana Bentes) do cenário artístico de Goiânia, em busca desta autenticidade em ação nos artistas da cidade. Filmá-lo foi uma aventura dionisíaca, uma espécie de transe de cinematografia em que embarquei no fluxo de eventos públicos e shows onde pude ver ao vivo Diego Mascate, Terra Cabula, Vitor Hugo Lemes, Jordana Luz Negra, Retalha Vento, algumas das mais belas manifestações atuais neste fervilhante microcosmo do Cerrado brasileiro que é Goiânia.

Incrustada no cósmico Cerrado (aquela entidade com a qual tantos místicos entram em contato pela Chapada dos Veadeiros), Goiânia é esta metrópole do Brasil Central onde algo muito singular ocorre no cenário das artes desde a emergência, há cerca de 20 anos, do cenário de festivais independentes mais sólido, sustentável e fértil da nação. Está lançada a missão para os antropólogos e historiadores do futuro: compreenderem a emergência. em Goiás, de Bananada, Goiânia Noise, Vaca Amarela, Encontro de Culturas, Grito Rock, jardins elétricos de cultura genuína que vem florescendo em meio a este espantoso prodígio da geologia planetária, o Cerrado tão trucidado por desmatamentos e ecocídios, onde pulsa sim uma arte politizada. e que atualmente se coloca na posição incontornável de resistência subversão. 

É só citar como exemplo a confluência temática que uniu bandas díspares mas solidárias como Carne Doce, Boogarins, Pó de Ser, Ave Eva: o hippie-slogan “o progresso é mato”, que ficou hype também nos lambes colados pelos muros da cidade, dialoga com aqueles “prédios que não nos deixam ver o Sol” de que nos canta o Dinho na “Avalanche” dos Boogarins. No mesmo contexto inserem-se as canções “A Dança da Canção Incerta”, composição de Diego Mascate e Kleuber Garcez, da banda Pó de Ser, e “Gota Miúda”, do Ave Eva, onde Paula de Paula canta os versos lamentosos: “o sol se escondeu atrás de um edifício, amor como é difícil perdê-lo na construção”. Este é apenas um dentre inúmeros exemplos de que as bandas da cidade tem debatido as contradições do Sertão Urbano, as avalanches de especulação imobiliária, as mudanças climáticas que fazem as chuvas serem de gotas tão miúdas e o confronto entre os privilégios do capital e o direito a cidade que fazem Goiânia dançar, trôpega e equilibrista, sua dança da canção incerta.

No curta-metragem, que busca capturar em 25 minutos alguns vislumbres deste cenário, estão reunidos artistas que pensam fora da caixa, saem da zona de conforto e desejam “ser a própria revolução”, como diz Diego Mascate. Segundo Vitor Hugo Lemes, a resistência, para alguns de nós, “é intrínseca à nossa própria existência” e o artista tem a responsabilidade de agir contra todas as opressões e violências estruturais de que nosso contexto sócio-político está repleto. A atriz e rapper Jordana Luz Negra resume tudo com a frase de Nina Simone, reativada por Larissa Luz: “liberdade é não ter medo”. É vontade de Afinando o Coro dos Descontentes contribuir para propagar a noção de que nunca devemos temer afirmar nossa liberdade.

* * * *

“É preciso amar, é preciso lutar
e resistir até morrer
Quanta dor cabe no peito
e numa vida só
é preciso não ter medo,
é preciso ser maior…”

“Samba do Fim do Mundo”, de Emicida, com Juçara Marçal e Fabiana Cozza

 

FILMOGRAFIA DO DIRETOR / EDUARDO CARLI DE MORAES

– CADÊ O SABOTINHA? (2018):

– FERMENTO PRA MASSA: A Greve Geral em Goiânia (2017):

– A BABILÔNIA VAI CAIR: A Batalha de Brasília (2016):

– PONTE PARA O ABISMO (2016):

– ABRE ALAS: Vislumbres da Primavera Secundarista (2016):

– PRIMAVERA SECUNDARISTA (2016):

– TRANSMUTANDO DOR EM LUTA: Insurgências Feministas (2016):

– DESTRUA O FASCISMO ANTES QUE ELE DESTRUA VOCÊ (2016)

– CANNABIAN CARNIVAL (Canadá, 2014):

– GREEN POWER: The People’s Climate March (Canadá, 2014):

VULGO GRACE: Os indecifráveis mistérios de uma psiquê-esfinge na minisérie baseada no romance de Margaret Atwood

Aos 16 anos de idade, em 1843, Grace Marks foi condenada pelo duplo assassinato de seu patrão, Mr. Thomas Kinnear, e Nancy Montgomery, governanta da casa onde trabalhava. Nas 500 páginas do romance baseado em fatos reais Alias Grace, a escritora Margaret Atwood decidiu explorar todos os misteriosos meandros de Grace, “uma das mais notórias mulheres canadenses da década de 1840”.

Inicialmente condenada à prisão perpétua, depois favorecida pela clemência da justiça – sorte que não teve seu suposto cúmplice no crime, McDermott, que morreu na forca – Grace Marks serve agora como um ícone artístico para alimentar debates sobre a condição feminina e o embate entre feminismo e patriarcado.

Assim como seu romance de 1984, O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), Alias Grace também foi adaptada com maestria para a linguagem audiovisual e tornou-se uma mini-série de 6 episódios da Netflix em parceria com a CBC (Canadian Broadcasting Company).

Desvelando com sua fina ironia toda a complexa ambiguidade da condição feminina, Atwood tem uma obra que torna muito difícil o simplismo reducionista daqueles que querem dividir o mundo entre vilãs e mocinhas: sua Grace é uma esfinge em forma de mulher, que se esquiva aos esforços de compreensão que o psicólogo Simon Jordan empreende para desvendá-la, permanecendo indecidível se ela é algoz ou vítima.

Para além de todos os estigmas que a sociedade de sua época grudou sobre ela – assassina, louca, femme fatale, histérica etc. – o que testemunhamos nesta obra é o pormenorizado retrato de uma pessoa enigmática, labiríntica. Atwood não parece ter nenhum desejo de dar solução simples para esta incógnita, como se quisesse nos dizer que uma mulher é mil vezes mais difícil de resolver do que a mais cabeluda das equações matemáticas.

Grace Marks é uma sedutora esfinge que, tal qual a mítica fera derrotada por Édipo, acaba propondo ao Dr. Jordan um “decifra-me ou devoro-te!” Ele é devorado.

Não há proto-psicanálise (a ciência psicológica ainda estava em estado rústico), nem hipnotismos recheados com obscurantismo, que possam servir para que o doutor decifre a contento esta mulher-quebra-cabeça que acaba por devorá-lo como a Esfinge fez com boa parte da população de Tebas.

Incapaz de crer que encontrou a verdade sobre Grace, o doutor soçobra em uma confusão torturante e desce a escadaria fatal ao abismo: de médico a doido. Perde-se no labirinto desta psiquê e não encontra o fio de Ariadne que o liberte de estar face a face com o Minotauro indecifrável desta alma feminina torturada.

No episódio 6, em uma cena magistral, o advogado que defendeu Grace evoca a semelhança dela com a Sherazade das 1.001 Noites: ambas teceriam seus contos sem preocupação excessiva com as categorias Verdade e Mentira. Enquanto conta sua história ao médico, ela vai tecendo com a agulha os mantos com figuras simbólicas e que vão servir, ao fim da obra, como novas adições ao puzzle. 

Longe de querer dissolver esta sensação de estarmos diante de um quebra-cabeça com peças faltantes, ou mesmo peças excessivas,  a obra de Atwood parece se esforçar por transmitir uma resiliente carga afetiva de perplexidade sem solução – it leaves us puzzled. 

Grace Marks é originária da Irlanda e sua posição subalterna no Canadá talvez tenha relação com seu status de migrante. Seus traumas vem desde cedo: a morte de sua mãe ocorre em alto mar, na longa viagem do Reino Unido até Toronto, e a mãe é sepultada na travessia.

O pai de Grace é truculento, grosseirão, abusador. Os nexos entre os traumas infantis e sua futura condenação não são estabelecidos de modo claro, mas torna-se óbvio que a obra se engaja numa denúncia de um sistema que usa presídios e hospícios para uma espécie de tortura legalizada. “Há gente que se deleita com o sofrimento de seu fellow mortal, em especial se acredita que se trata de um pecador” – ouve-se no primeiro episódio.

Grace, diante do Dr. Jordan, depois de tão sofridos anos de silenciamento, após ser esmagada pelas micro-torturas do sistema prisional e psiquiátrico, encontra alguém que lhe fornece a escuta atenta e interessada. Ela embarca nesta talking cure como fez Anna O (1859 – 1936) nos primórdios da psicanálise, quando apelidou o processo como chimney sweeping, limpeza de chaminés.

Grace Marks vai lançar muita fumaça neblinosa por esta chaminé, a ponto de envolver o doutor num clima etéreo de apaixonamento. Diante do lápis do doutor que escreve o que ela conta, há em Grace o despertar de um ímpeto narrativo em que torna-se difícil distinguir entre fato e ficção.

Ela inventa seu próprio passado ou relata com realismo o vivido? Estaria ela relatando memórias inventadas, ou pelo menos retocadas? Relembra o que de fato vivenciou, ou tece o passado que lhe serve melhor? Tendo a crer que Grace é a ficcionista de sua própria biografia e faz aquilo que enuncia o título de uma das mais belas canções da banda escocesa The Delgados, escolhe “the past that suits you best”.

Dirigida pela proeminente cineasta Mary Harron (Psicopata Americano, Eu Atirei Em Andy Warhol, Wonderwoman), a série foi co-roteirizada pela própria Atwood e pela Sarah Polley. Um dos méritos maiores da obra está em frustrar as expectativas daqueles que buscam bater o martelo com juízos sumários e unívocos sobre a culpa ou inocência de Grace Marks (interpretada pela atriz Sarah Gadon).

Somos lançados a uma zona cinzenta, repleta de ambiguidades, em que esta mulher oscila entre as posições de vítima e algoz, amiga e traíra, o que só torna a personagem mais fascinante e a faz com que a obra ressoe mais tempo em nossa sensibilidade após os créditos finais.

Com sua amiga e colega-de-trabalho Mary Whitney (que tem notáveis similaridades com a personagem Moira de The Handmaid’s Tale), Grace aprende, por osmose e empatia, uma atitude iconoclasta e rebeldes. Mary Whitney se recusa àquela dócil subserviência que o Patriarcado costuma exigir do sexo dito frágil. Mary reverencia heróis rebeldes como William Lyon McKenzie (1795 – 1861), que foi prefeito de Toronto (Ontario) e atuou como um dos líderes da Upper Canada Rebellion.

Mary é a empregada politizada, a proletária com consciência de classe, que adora citar de cor os discursos de McKenzie destinados aos canadenses que odeiam a opressão. Impertinente e irreverente, Mary ensina a Grace a arte da chacota contra as patroas. Mary é também o primeiro contato de Grace com o radicalismo rebelde de uma garota mestiça, que tem avó índia (isto é, pertencente aos povos originários, às First Nations canadenses). Mary, brincalhona mas resoluta, expressa para a amiga os seus ímpetos de escalpeladora de patrões. Adora dizer:

– Os rebeldes não perderam; só não ganharam ainda.

A morte prematura de Mary, após seu aborto em uma clínica clandestina, é um choque traumático para a Grace adolescente, tão apegada afetivamente à sua melhor amiga. Grace tem pungente ciência de que aquilo explica de fato a tragédia é a conduta do macho, do patrãozinho – George Parkinson – que engravidou Mary e depois quis atirá-la fora como quem lança uma rosa murcha no lixo. Ainda que não se afirme ou se explicite que Mary tenha sido estuprada ou abusada, dificilmente se poderia dizer do filho em gestação que ele seria fruto do consentimento dos amantes, quando é muito mais plausível que seja fruto dos abusos patronais sobre sua empregadinha.

Um dos ápices da crueldade masculina em Alias Grace ocorre quando Mary revela sua gravidez a George e ele lhe entrega 5 dólares como contribuição para o aborto e lhe diz: “Se você quer uma solução mais rápida para seus problemas, vá e se afogue!” Ela escolhe o aborto e não o suicídio – e Grace não consegue censurá-la por esta escolha onde Mary julgou preferiu 1 cadáver (de feto) ao invés de 2 cadáveres (mãe e filho em gestação). A família de George depois irá tecer toda uma rede de mentiras, propinas e chantagens a fim de acobertar George e permanecer que o macho fique impune, ainda que tenha responsabilidade direta pela morte na juventude de Mary Whitney.

A figura do patrão abusivo, aproveitador, que se utiliza sexualmente das mulheres da classe trabalhadora, é um tema recorrente em Alias Grace – os próprios assassinados, Kinnear e Nacy, estavam envolvidos numa espécie de relação não propriamente amorosa, mas de abuso naturalizado, como se a posição de gentleman fornecesse ao macho as prerrogativas do usufruto (abusivo) das mulheres-serviçais, reduzidas a pouco mais que brinquedos sexuais a serviço da casta patriarcal.

Atwood, porém, não é simplista: não descreve apenas mulheres que são vítimas da opressão masculina / machista / patriarcal, há mulheres que oprimem mulheres devido às respectivas posições na hierarquia das classes sociais. Em The Handmaid’s Tale, algumas das piores vilanias são cometidas por mulheres – como a Tia Lídia, encarnação do puritanismo autoritário e torturador que reina em Gilead, ou Serena Joy, cujo nome sereno e alegre é fachada para uma persona amarga, cruel e dominadora. Estas são mulheres servis ao sistema teocrático instaurado em Gilead e que se enxergam como superiores às mulheres reduzidas à condição de aias ou coisa pior (pois há castas ainda mais degradadas e que se assemelham aos intocáveis indianos).

Um dos slogans de divulgação de The Handmaid’s Tale diz que o futuro é uma porra de um pesadelo (the future is a fucking nightmare); Alias Grace parece perguntar: e quem disse que o passado também não foi? Talvez todo presente seja um pesadelo esmagado entre os pesadelos pretéritos e os pesadelos ainda porvir?

Atwood não compreende o feminismo como tendo que conter uma nova versão do velho maniqueísmo: seria tosco e grosseiro fazer dos homens demônios e das mulheres santas, e por isso ela se esforça tanto para que Grace Marks seja repleta de ambiguidade, entremescla de fascínio e perdição, de doçura e de perigo. Uma mulher assombrada por suas memórias, mas que tem uma fortaleza interior que a permite atravessar viva, amadurecendo, as tempestades de uma vida que inclui não poucas provações.

Nas intrincadas relações de Grace com o Dr. Simon Jordan se desenha a figura de um “conhecimento proibido” (forbidden knowledge) que o homem de ciência e médico da alma busca atingir sobre a condição feminina. Profética, Grace Marks diz que a jornada do médico que adentra o labirinto psíquico desta mulher-esfinge equivale a uma descida ao abismo (a descent into the pit), onde o doutor desejaria segurar em suas mãos o coração feminino pulsante, enfim decifrado.

Mas este coração-esfinge permanecerá para ele esquivo, escorregando como água corrente entre os dedos, como a lhe ensinar, enquanto ele desce rumo à insanidade, que é sem esperança tentar compreender por inteiro uma mulher que se esforça para que o véu de mistério, tecido por sua arte de Sherazade, tremule sem fim sobre seus indevassáveis mistérios.

“One need not be a chamber to be haunted,
One need not be a house;
The brain has corridors surpassing
Material place…”

Emily Dickinson

Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento. Via Toronto Public Library.

Eduardo Carli De Moraes
A Casa De Vidro: http://www.acasadevidro.com

 

 



SIGA VIAGEM:

TEXTOS

Huff Post Brasil

Melanie Mariano em Medium

Women’s Voices For Change

VÍDEOS

SOBRE CRÂNIOS ESMAGADOS E A BANALIDADE DOS MALES: O que será do sangue derramado pela PM durante a Greve Geral em Goiânia?

SOBRE CRÂNIOS ESMAGADOS E A BANALIDADE DOS MALES

O sangue derramado sobre o asfalto pode até ter sido lavado, junto com o resto dos refugos da Greve Geral, mas ele não será esquecido tão cedo.

Ao escarlate do sangue misturavam-se as lágrimas indignadas que eu via correrem de muitas faces enquanto Mateus era atendido pelo Corpo de Bombeiros, estirado na Avenida Goiás, enquanto a galera gritava a plenos pulmões para a PM: “Polícia, fascista, você que é terrorista!”.

Passei as últimas horas obcecado com o pensamento de que aquele crânio esmagado poderia ter sido o meu. Ou o de algum amigo querido. Ou o de alguma companheira de midiativismo. A brutal agressão policial, furiosa irrupção de um autoritarismo brucutu, explicitação da completa incapacidade de reflexão e auto-controle por parte do criminoso fardado, poderia ter atingido qualquer um de nós.

Este texto poderia nunca ter sido escrito pois seu autor poderia estar agora numa UTI, com o crânio esmagado, pelo fato de estar nas ruas com uma câmera… O sangue entre as sobrancelhas da Júlia Aguiar, agredida por um policial enquanto tirava fotografias, não me deixa mentir.

Fotos: Júlia Aguiar, Ninja

Ao meio-dia deste 28 de Abril, enquanto o helicóptero da polícia sobrevoava baixo sobre nossas cabeças, ostentando o barulho de suas hélices e a metralhadora de seus soldados, eu filmava aquilo com as mãos tremendo: Mateus, desmaiado, a cabeça ensanguentada, carregado pelos companheiros desde a Anhanguera, através da Avenida Goiás, enquanto a Tropa de Choque e a Cavalaria já realizavam suas manobras para “dispersar” a multidão, usando aqueles métodos aprendidos com aquela Ditadura que alguns conjugam no passado, como se fosse matéria de livros de História, mas que ainda estamos longe de ter superado. A PM não só esmagou o crânio de um estudante de Ciências Sociais/Políticas Públicas; deixou-o ali para sangrar em praça pública.

Tudo isso aconteceu sob o olhar impiedoso da estátua do Anhanguera, genocida de pedra que decora o epicentro de Goiânia como um lembrete das autoridades ao povo: aqui tratamos como heróis e batizamos com nomes de avenidas aqueles que, no passado, marcaram época pelo sangue que derramaram em seus propósitos colonizadores. Se aquela estátua pudesse aplaudir, os PMs teriam tido as únicas palmas do dia. Agora, na cibercultura de nosso mundo cada vez mais insanizado e mais próximo de Black Mirror, fãs de Bolsonaro e fascistas de Facebook fornecem os aplausos ao horror…

Quem tenta justificar uma agressão homicida, que deixou o estudante da UFG com traumatismo craniano e respirando por aparelhos, já pôs-de do lado dos carrascos, já filiou-se como cúmplice do fascismo, já é funcionário inconsciente da banalidade do mal. “Se ele tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido”; “Ele provavelmente quebrou umas vidraças de banco, caso contrário não teria apanhado da polícia”; “Ele teve sua cabeça destroçada por um cassetete da PM, é verdade; mas quem mandou cobrir o rosto com uma máscara?” Nem é preciso ter estudado a “Psicologia de Massas do Fascismo” de Wilhelm Reich pra perceber nestes argumentos a manifestação do fascismo cotidianizado, que enxerga vidraças como mais sagradas do que vidas humanas, que aplaude a crueldade fardada como se esta fosse panacéia pra pôr ordem em nosso caos…

Pra completar a completa idiotia de tais argumentos, inúmeros vídeos, publicados pelo Desneuralizador e por outros manifestantes, já mostraram Mateus sendo agredido brutalmente por um policial enquanto andava “de boa”, sem mostras de agressividade ou resistência. Não há nenhuma evidência de que a vítima tenha praticado qualquer ato de vandalismo – e mesmo que tivesse, nenhuma vidraça destruída, saco de lixo queimado ou bandeira da CUT incinerada justifica que um agente do Estado pratique uma brutalidade com esta que presenciamos em Goiânia.

O sangue que eles derramaram neste dia de Greve Geral é combustível para uma indignação infinita contra certas ações de agentes fardados do Estado que, por seus comportamentos, não merecem mais do que serem caracterizados como “porcos fardados”.

O crânio esmagado brutalmente pelo policial militar é um horror que nos revela, mais uma vez, a face fascista dos cães-de-guarda desse status quo grotesco, que busca institucionalizar a espoliação e o apartheid em vasta escala na esteira do golpe parlamentar-jurídico-midiático que avassala o país.

O sangue do Mateus sobre o asfalto não é o sangue de uma pessoa, é o sangue de todos nós, agredidos por desejarmos ter voz e vez em um momento histórico onde nós, os 99%, somos tratados como sujeira a varrer pra baixo do tapete, junto com os farrapos de nossos títulos eleitorais.

Este sangue derramado será lembrado, assim como Guilherme Irish continua “presente” nas ruas mesmo depois de ter sido despachado do mundo pelos tiros disparados por seu pai. Na fornalha das tragédias estão sendo esculpidos nossos mártires – e tristes os tempos que necessitam destes!


Fotos: Annie Marques

AFASTA DE MIM ESSE CALE-SE [Doc, curta-metragem]

Esta agressão policial deixou cicatrizes nas memórias de todos nós que estávamos nas ruas, convictos de estar lutando e resistindo por uma causa justa – ainda que esta seja, infelizmente, mais a de barrar a avalanche de retrocessos do que a de avançar na construção de uma sociedade mais justa.

Aceito a provocação de Marx – os filósofos têm se ocupado demais em interpretar o mundo, quando o que interessa é transformá-lo. Mas isto não significa que a filosofia seja dispensável e que o ativismo deva ser irrefletido, impulsivo. Um longo contato com a obra de Arendt, mas também as descobertas mais recentes dos pensamentos de um Stanley Milgram ou de uma Mary Wollstonecraft, trouxeram-me à convicção cada vez mais forte de que a “banalidade do mal” é fruto da irreflexão; o sono da razão gera monstros; é alto o preço que pagamos por não exercitar o entendimento e não ativar nossas capacidades de empatia e diálogo.

A obediência cega, a subserviência de ovelha, a incapacidade de pensamento crítico e autonomia, são as incubadoras do fascismo que banaliza os males e coopta um exército de Eichmanns e PMs para realizar seu serviço sujo, depois congratulados pelos poderes que lucram com a repressão e a imposição da “cultura do silêncio.” (Paulo Freire)

Sei que não podemos tomar a parte pelo todo e dizer que por detrás das fardas dos policiais militares não estão seres humanos, mas porcos ou hienas. Este tipo de argumento totalizante, demonizatório, só perpetuará o ciclo de violência. O problema não está nos indivíduos sozinhos, mas na corporação que integram, no tipo de (de)formação que tiveram, nos comportamentos e ideologias que foram inculcados, que os leva a serem obedientes às ordens do patrão, do superior na hierarquia de comando, mesmo quando estas ordens rompam com os padrões éticos mais básicos da convivência humana – “não esmagarás o crânio de seu concidadão com um cassetete”.

Pode-se até dizer que, neste caso, o indivíduo fardado em questão não estava exatamente seguindo ordens de seu superior, mas sim dando vazão à brutalidade; mas por que permitimos a perpetuação de uma profissão que inclui a prática da crueldade, do racismo, da perseguição política, e que oferece excusas para o sadismo através de um uniforme que se veste e uma posição de poder que uma profissão supostamente outorga?

Se o indivíduo jamais pode ser desculpado como simples agente cego da corporação – esse cara tem que ser processado e demitido, pois cometeu algo próximo à tentativa de homicídio, no melhor dos casos; e homicídio mesmo, no pior… (torçamos pra que Mateus tenha força!) -, também não podemos desculpar toda a estrutura hierárquica e os vícios estruturais que fazem da Polícia Militar uma excrescência da Ditadura e uma das realidades mais revoltantes de um país que não tem escassez nenhuma de motivos de indignação (“tem tanta coisa errada que não cabe num cartaz”). Que participação social é possível sob a sombra dos Caveirões e dos crânios esmagados pela repressão?

Não há democracia real ou participativa possível com este tipo de polícia cometendo tais barbáries cotidianas contra os cidadãos e fazendo pender sobre nossas cabeças as espadas de Dâmocles da ameaça constante de que seremos vítimas da violência estatal. Odiei tossir gás lacrimogêneo e tomar gás de pimenta na cara lá em Brasília durante as duas batalhas da PEC 55 (registradas nos docs “A Babilônia Vai Cair” [https://youtu.be/CR6yMOzkzEU] e “Ponte Para o Abismo” [https://youtu.be/Yrv1VObgktk]).

Odiei também o sangue ontem derramado pela PM de Goiás durante o ato da Greve Geral, e não há filosofia capaz de transformar este ódio indignado em serenidade – donde este texto, uma erupção ou brainstorming de alguém que acharia muito pior, diante do acontecido, manter o silêncio que daria a vitória aos nossos inimigos. Pois eles nos querem quietos. Passivos. Obedientes aos desmandos e resignados a todos os golpes. Aos esmagadores de crânio e aos funcionários da banalidade do mal, é preciso seguir erguendo a voz, nas ruas e nas ruas, com um sonoro, polifônico “não!” “Não passarão!”

Sobre o episódio da lamentável brutalidade do policial contra o manifestante, a Faculdade de Ciências Sociais da UFG publicou a seguinte nota de solidariedade:

“A Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás reafirma o seu compromisso com a ordem jurídica vigente neste país e repudia a violência criminosamente perpetrada pela Polícia Militar do Estado de Goiás que, em desrespeito à lei e à sensatez, cometeu um bárbaro ato de agressão contra o estudante Mateus Ferreira da Silva, aluno do curso de graduação em Ciências Sociais – Habilitação: Políticas Públicas desta unidade acadêmica.

Mateus Ferreira da Silva é um exemplar estudante que, no dia 28 de abril de 2017, somou-se pacificamente à manifestação realizada no contexto da greve geral deflagrada contra as reformas previdenciária e trabalhista propostas pelo Governo Federal. Exercia, na ocasião, o seu direito fundamental de manifestação e de reunião, garantido no artigo 5o, incisos IV e XVI, da Constituição da República.

Como se infere de material audiovisual amplamente divulgado nos veículos de comunicação, Mateus sofreu uma agressão unilateral, criminosa e irracional por parte de um profissional que, investido em suas funções segundo o regime artigo 144, parágrafo 5o, da Constituição da República para manter a ordem, promoveu a ilicitude e a barbárie na manhã do dia 28 de abril, incorrendo arbitrária e imotivadamente contra os direitos fundamentais e a integridade físico-corporal de um cidadão.

Esta unidade acadêmica solidariza-se com os familiares e amigos de Mateus, esperando uma breve e plena recuperação de sua saúde.

Adicionalmente, diante deste repudiável episódio – cuja natureza de arbítrio e de desrespeito por agentes públicos às garantias fundamentais de cidadania soma-se à longa relação de casos similares no Estado de Goiás – exige-se a mais célere, contundente e efetiva apuração do crime que vitimou o nosso estudante, punindo-se o policial militar que o perpetrou e responsabilizando-se o Poder Público por esse bárbaro ato de desrespeito ao direito e aos mais basilares princípios civilizatórios.” – Goiânia, 29 de abril de 2017.

 

Eduardo Carli de Moraes [29/04/2017]
[COMPARTILHAR TXT VIA FABEBOOK]

ASSISTA AO DOCUMENTÁRIO COMPLETO SOBRE A GREVE GERAL EM GOIÂNIA:

FERMENTO PRA MASSA

Assistir no Facebook 

Mobilização Nacional Indígena realiza o Acampamento Terra Livre 2017 e demanda “Demarcação Já!” e “Nenhum Direito A Menos”




Brasília, 24 a 28 de Abril,
Acampamento Terra Livre

A seguir, palavras de  Helena Palmquist

“Os patrões e o estado, e a academia e a mídia que lhes servem, seguem nos acusando de sermos anacrônicos na reivindicação de direitos humanos, animais, florestais, ancestrais, básicos.

É anacrônico defender um rio, é ultrapassado lutar pela mata, não é racional brigar por territórios, chega desse negócio de índio, ribeirinho, quilombola, camponês, seringueiro, pescador, lavrador, colono, chega desses povos do mato, do rio e da terra, que atrapalham a nossa razão irrefutável.

Eles nos chamam de minorias com projetos ideológicos irreais.

Cantam e decantam, insuportavelmente afinados, em centenas de minutos de televisão pagos a peso de ouro, a cantilena de que qualquer legislação que nos proteja contra eles é ultrapassada, de que é preciso “modernizar”.

Eles falam da CLT, que é fruto de muita luta dos trabalhadores nossos avós; e da Previdência, que igualmente resultou da luta de nossos avós. São leis velhas, eles dizem em horário nobre e em infinitas publicidades patrocinadas em redes sociais.

Eles falam das leis ambientais e indígenas. E da Constituição brasileira. Estão ultrapassadas, dizem. Querem nos convencer que a modernidade reside na desproteção jurídica total do bem comum.

Querem nos convencer que o mesmo Agro que chacinou camponeses em Colniza há 5 dias, é Tech.

É moderno.

Querem nos convencer que é moderno o mesmo Agro que assassinou Dorothy em Anapu e Chico Mendes em Xapuri, Zé Carlos e Maria em Nova Ipixuna, Doutor e Fusquinha em Marabá, Dema em Altamira, Oziel e outros 18 em Eldorado dos Carajás e Quintino em Viseu.

Pela lógica dos patrões que nos governam, qualquer proteção ao bem comum e público representa uma ameaça ao lucro. E o nome do Brasil, na onomástica deles, é lucro.

O nome Brasil, uma árvore que, ao ser quase extinta, enriqueceu Portugal ao ponto de ser um dos impérios mais capitalizados do planeta. O nome que nos deram é como uma maldição. Um estado-nação que extingue o que tem para enriquecer outrem. Até quando?

Quando os portugueses, os patrões e o estado aqui aportaram, esse território hoje denominado Brasil continha em seus domínios as duas maiores florestas tropicais do planeta todo: a mata atlântica e floresta amazônica.

Em pouquíssimo tempo (em termos geológicos) após a chegada dos elegantes europeus, 90% da mata atlântica foi dizimada, junto com todas as cosmologias, entendimentos, tessituras e histórias que não temos mais como resgatar e que certamente participaram do processo que a formou. O que perdemos é irrecuperável? Acho que não. Tenho observado que a resistência, nesse território de tantos territórios, reside muito em manter modos de vida, em manter músicas, ritos, tambores, plantios, comidas, ditos, sotaques, objetos, jeitos, espécies, histórias.

Mas a persistência não é nossa, nós resistimos porque os patrões de sempre persistem em nos anular, expulsar, escravizar e se nada mais nos calar, matar à bala.

São eles que não entendem que o tempo deles já passou. Eles que persistem na desgraça, apaixonados pelo que produziram. Eles explicam que direitos devem ser eliminados para que o povo brasileiro seja objeto de caridade e salvação com fins corruptos e eleitoreiros. O hábito deforma não só a boca, mas principalmente a prática política.

Quanto menos direitos, mais empregos, eles dizem. Como disseram, não muito tempo atrás, na lei sancionada por Dilma Rousseff, que anistiar desmatadores diminuiria o desmatamento.

São mentiras fartamente demonstradas em exemplos vindos de todos os continentes do mundo. Mas ditas com candura por representantes de todas as colorações do espectro eleitoral brasileiro. Assim, na cara dura, o tempo todo.

A mentira, a mais óbvia mentira, é mesmo a base da política ocidental como profetizou Goebbels (quase escrevi Gleise)?

Nos impingem essa visão diariamente no Jornal Nacional e todo sábado nos programas do Luciano Huck, seja qual for o partido no poder. Progresso é a senha, à direita e à esquerda.

Progresso e propina, devia constar na bandeira nacional, se sinceridade e candura combinassem com esse país.

Não existe nada mais velho do que a modernidade, nada mais fracassado que o modelo dito moderno de exploração do trabalho e da natureza.

Essa modernidade mofada que agride índios, negros e pobres e confina-os à invisibilidade e à inexistência JÁ ERA e pertence a ERAS PASSADAS.

Não existe nada mais triste e ultrapassável do que a proposta dos patrões do mundo e é um sinal de sintonia cosmológica que, na mesma semana em que os povos indígenas estão em Brasília, símbolo máximo da corrupção patronal brasileira, reinvindicando seu direito a existência, os trabalhadores brasileiros estão intensamente mobilizados para impedir a retirada brutal de direitos duramente conquistados, por essa mesma meca da corrupção, da extinção e do genocídio que é Brasília.

Fascista é a Fiesp, ultrapassada é a Globo, velha é a ideia que sustenta Brasília longe do Brasil, triste é essa modernidade já morta que nos quer iguais no sub-emprego terceirizado e super-explorado, pagando fortunas por energia retirada de rios caudalosos dos quais não podemos mais beber e nos quais não temos mais como navegar, pescar, muito menos nadar.

Avante! Para quem não lucra com a desgraça significa que chega de exploração extrema de recursos nada naturais e que é chegada a hora de aprender com os povos autônomos e autossuficentes que habitam os beiradões e interflúvios da Amazônia.

Na Amazônia está a chuva, a floresta e o futuro. Nenhuma modernidade arcaica importada vai superar o que a Amazônia sempre deu de presente para os Brasis. Amazônia plantada e gestionada pelos povos indígenas por milênios. Amazônia inteira dos povos que se conectam com a mata e que sabem mantê-la, os nativos e os chegados.

Amazônias mil, todas empenhadas em envolver vários mundos de vivos e mortos, de animais humanos ou quase, de peludos e pelados, de plurifloras e de polifaunas, de reservados e de expostos, de espíritos e pessoas, de rexistentes e de dexistentes, de caçadores, coletores, agricultores, pescadores, construtores, arquitetos, xamãs, poetas, cantadores, filósofos, sonhadores. Contra o des-envolver.

Amazônias mil, íntegras e dignas contra os belos destruidores, belos negadores, belos agressores, belos cínicos, belos desastres, belos assassinos, pra sairmos dessa bela merda em que nos meteram.”


Confira a música “Demarcação Já!”, uma homenagem de mais de 25 artistas aos povos indígenas do Brasil. Pelo direito à terra, pelo direito à vida! #DemarcaçãoJá

Letra: Carlos Rennó
Música: Chico César
Direção: André Vilela D’Elia
Produção: Cinedelia

Artistas:
Ney Matogrosso
Maria Bethânia
Gilberto Gil
Djuena Tikuna
Zeca Pagodinho
Zeca Baleiro
Arnaldo Antunes
Nando Reis
Lenine
Elza Soares
Lirinha – José Paes de Lira
Leticia Sabatella
Zé Celso
Tetê Espíndola
Edgard Scandurra
Zélia Duncan
Jaques Morelenbaum
Dona Onete
Felipe Cordeiro
Criolo
Marlui Miranda
BaianaSystem
Margareth Menezes
Céu

Com participação de:
Eduardo Viveiros de Castro
André Vallias
Ailton Krenak

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo cadiveu e o panará –
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil               

Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –                         

Demarcação já!

Já que tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a TI é polifauna e pluriflora,
Ah!, Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;
Bah! Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóctone   
Mantém compacta e muito intacta,
E não impacta e não infecta,
E se conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelas feridas da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…
Demarcação já!

Já que tal qual o negro e o homossexual,
O índio é “tudo que não presta”, como quer
Quem quer tomar-lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,
Demarcação, tá?               

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá!

Já que é assim que certos brancos agem,
Chamando-os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá,
Demarcação já!

Pois índio pode ter Ipad, freezer,
TV, caminhonete, voadeira,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.  

Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo, um exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá,
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará. Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-nos ao olhar e ver       

As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo tá,
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras   
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,
Demarcação já!

Já que por isso o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu
                  
E ao deus-dará,
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem mais parola nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!
Demarcação já!

Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá! Demarcação ontem!
Demarcação já!

E deixa o índio, deixa os índios lá!