TURISTA ESPACIAL: Quando a ficção científica abraça a Ecologia – Sobre o filme “La Belle Verte” de Coline Serreau (França, 1996) #CinephiliaCompulsiva #SciFi

Turista Espacial é um sci-fi fascinante e inovador. É capaz de unir os temas já bem batidos, como a viagem intergaláctica e o contato entre inteligências de diferentes planetas, com uma crítica social arguta de nossa civilização atual, ecocida e catastrófica. É uma obra em que a ficção científica abraça a ecologia, comentando de modo sagaz os dilemas e incógnitas do Antropoceno, ainda que o tom seja mais leve do que aquele dark mood que marca obras cruciais que depois explorariam sendas semelhantes: Filhos da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón, e Expresso do Amanhã (Snowpiercer), de Bong Joon-ho.

Assim que o filme se inicia, somos lançados a uma imersão em uma sociedade estranha, onde ocorre um ritual raro, difícil de decifrar: em meio aos verdes prados acariciados pela brisa, um matriarcado hippie realiza assembléias bucólicas onde debate-se, entre outros temas, a iniciativa de mandar representantes ao planeta Terra.

Logo o espectador percebe estar no seio de um filme de ficção científica dos mais espantosos, com aliens dos mais benignos e sábios, nada nojentos e fatais como aqueles construídos pelo clássico de Ridley Scott (Alien – O Oitavo Passageiro) e depois levado adiante nas obras de James Cameron e David Fincher.

Em La Belle Verte, de Coline Serreau, esses ETs humanóides têm anciãos que chegam a viver quase 300 anos. Esta longevidade toda foi alcançada bem longe do escarcéu terrestre de carros, bombas nucleares, guerras colossais, devastação ecosistêmica e extinção em massa da diversidade biológica e cultural. Longevos são os seres sábios que souberam acordar para a importância quintessencial do Verde, símbolo de uma união holística do organismo com o meio natural.

Na assembléia, um senhor pede a palavra e relembra os tempos em que esteve em Paris, na época turbulenta das Revoluções: lembra dos burgueses querendo guilhotinar a cabeça do rei, dos proletários querendo as cabeças de burgueses na bandeja, dos imperadores genocidas que se apropriam da república como se esta fosse sua propriedade e o instrumento dócil de seu imperialismo agressivo… O caos dos assuntos humanos é pintado em meio ao idílio extraterreno, onde Napoleão Bonaparte e Robespierre despontam com a aura tenebrosa de vilões, desprovido de halos heróicos. La Belle Verte tem a comunicar um outro ideal, anti-napoleônico, contrário às dominações imperiais mas também ao domínio humano excessivo sobre a Natureza, que nos leva a despencar na húbris e no ecocídio.

coline-serreau-06O filme, que além de dirigido, foi escrito e estrelado por Coline Serreau, abre com chave cômica: o retrato dos terrestes que nos é ofertado, se não chega a ser misantrópico, é pelo menos uma bem-dada caçoada risonha pra cima dos humanos da Terra. Somos risíveis criaturas estúpidas, ainda atreladas a carros que queimam energias fósseis e vomitam poluição; ainda cindidos em assassinas rivalidades patrióticas, étnicas ou tribais; tão pouco sábios que criaram uma situação planetária tão desgraçada e instável que nenhum dos ETs de inteligência média deseja entrar em contato conosco.

Na assembléia, não há quem se manifeste como voluntário para visitar a Terra; ninguém acredita na eficácia de uma intervenção humanitária alienígena; em suma, aos olhos da imensa maioria da assembléia de extraterráqueos, os earthlings são um caso sem esperança… O que lembra uma tirinha de Calvin e Haroldo que cai como uma luva neste contexto:

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A protagonista do filme é única alien corajosa o bastante para vir nos visitar. Pousa na Terra e é subitamente fica maravilhada pelas grandes árvores de um parque de Paris, porém sente-se agredida e insultada em suas narinas pela atmosfera tóxica, mega-poluída, da megalópole francesa. O filme vai delineando suas barricadas no conflito ideológico, fincando sua fidelidade a figuras como Rachel Carson, autora de Silent Spring, que vociferou contra o DDT e os descalabros da indústria petroquímica em uma das obras fundamentais da ecologia no século XX.

A visitante do Além-do-Humano, desacostumada com aquilo que o hábito ensinou-nos que é natural, sai andando pelas calçadas de Paris, onde ela é intensamente consciente de que pisa sobre cimento que foi esparramado sobre a terra nua, o que impede o solo de ser espaço de uma florescência vegetal luxuriante. Nas calçadas, lotadas de bostas de animais que o poder público ainda não havia podido limpar através de seus lixeiros assalariados, ela não descobre muito espaço onde flores pudessem desabrochar do chão uniformizado pelo concreto. Cof, cof! – ela tosse enquanto desvia dos cagalhões dos totós de madame e viralatas de punks.

A ideia principal que impulsiona o enredo de La Belle Verte é a do planeta e seus habitantes humanos vistos a partir da perspectiva de alguém que chega provindo de uma civilização mais sábia. Mas aqui não se trata de viagem no tempo, rumo ao passado: nesta sci-fi, não há gente do futuro entrando em máquinas-do-tempo como as célebres parafernálias de Back Into The Future, a trilogia de Robert Zemeckis. Trata-se de viagem pelo espaço que conecta entes de diferentes graus de evolução da inteligência – sendo que os humanos perdem de lavada neste quesito. Somos os estúpidos do cosmos, ainda que, neste planetinha, alguns se gabem de serem os sabichões da Terra.

Enredos semelhantes impulsionam obras sci-fi como K-Pax (de Iain Softley) e Hombre Mirando A Sudoeste (de Eliseo Subiela), pois em ambos os filmes os visitantes do espaço sideral são tratados como loucos, internados em hospícios, alvos de hipnoses ou lobotomias. Em ambos se estabelece um contraste entre a sabedoria do forasteiro e a estupidez dos terráqueos, estratégia narrativa que frisa a possibilidade de criaturas mais inteligentes que nós existirem na pluralidade de mundos que constitui o Universo – para relembrar o título do livro clássico de Fontenelle.

A Bela Verde, neste caso, está experimentando pela primeira vez a poluição atmosférica, a barulheira estridentíssima e dissonante, de uma metrópolis humana no mundo dito Ocidental, civilizado, capitalista, consumista, auto-proclamado modelo supremo de como devem viver os povos. A Bela Verde é mais intensamente sensível a tudo o que os humanos tem de bizarro: com seu olhar limpo de interesses humanos, ela observa as mulheres fúteis que desfilam embonecadas pelos bairros comerciais e shopping centers, e pergunta-se, fitando os brincos espalhafatosos grudados às suas orelhas, se não seriam aqueles alguns símbolos religiosos de um culto bastante primitivo…

Uma das cenas mais significativas se dá quando ela pára diante de uma açougue e pela primeira vez depara com o espantoso espetáculo daquela “a exibição de cadáveres”. A Bela Verde, em sua ingenuidade, fica chocada por encontrar uma vitrine por detrás da qual estavam expostos partes dos corpos-sem-vida de animais recentemente sacrificados; as autoridades responsáveis pela construção e sustentação de tal sistema talvez explicariam à forasteira, do alto de suas presunções olímpicas, que aquilo que ela via no açougue era nada mais, nada menos, do que… mercadoria. “Deixemos de sentimentalismos quando se trata de incrementar nossos benefício$$$!”, poderiam dizer-lhe, ofertando-lhe um espetinho de vaca engordada à força, empanturra de antibióticos, criada em cativeiro absoluto, em meio à lotação desagradante de abatedouros que, se tivessem paredes de vidro, fariam vomitar a quase todos aqueles que hoje deleitam-se com salsichas e filés de frango…

Além da mercantilização em massa da carne animal, a Bela Verde também fica estarrecida com os carros, intermináveis, invasivos, que dominam a cidade como se fossem de fato seus imperadores, como se merecessem todos os privilégios. Onde outrora havia um pomar transbordante de frutas, ou um parque repleto de coqueiros, ou uma floresta abrigadora de miríades de diversas espécies de seres vivos, agora o que há… é um estacionamento! E este cobra preços abusivos. Em cada esquina, um posto de gasolina que vende petróleo roubado do Oriente Médio, provavelmenmte após invasão imperialista genocida justificada como “Cruzada Anti-Terrorista”.

O cogumelo atômico é a coroa na cabeça desta Sociedade Burguesa Globalizada, provando que sua estupidez, longe de ser negligenciável, é pra lá de perigosa. A extinção de espécies que o diga.

Quando nos auto-proclamamos os fodões da Criação, os filhos prediletos de Deus-Pai Todo-Poderoso, e partimos para a dominação e exploração generalizada da Natureza, produzindo escarros colossais de substâncias tóxicas e gases de efeito estufa no ambiente que sustêm a Vida em suas múltiplas formas, tornamo-nos os inimigos de nós mesmos, carrascos da mãe nutriz, aqueles que põe fogo em seu próprio lar (como sugere o mother! de Darren Aronofsky).

E assim nos tornamos os devastadores de boa parte daquilo que vive conosco. A miríade de organismos vivos que, só pelo fato de possuir a vida como propriedade comum e destino compartilhado, já mereceria ser tratado por nós como algo de mais digno do que estoque de bacon ou recheio de McNuggets e McChickens. Neste globo infestado por junk food e agrotóxicos, epidemias corporativas disparadoras de imensas crises de saúde pública, é bom lembrar: nos EUA de hoje, por exemplo, explodiram os índices de obesidade e diabetes, o que está intimamente conectado ao sistema de alimentação que eles deixaram tornar-se hegemônico.

Por essas e outras, considero Turista Espacial um filme digno de louvores e atenções, ainda que muitos espectadores possam torcer o nariz para um certo “didatismo” que transforma este filme de ficção científica em algo parecido com uma aula de ecologia. Junto com Ponto de Mutação (Mindwalk), filme baseado na obra homônima de Fritjof Capra, a obra de Coline Serreau tem muito a nos ensinar sobre como viver e conviver melhor neste planeta que a cada dia se parece mais com uma terra devastada.

A ideologia veiculada com o filme conecta-se com aquela dos teóricos do decrescimento, como Serge Latouche; com os ensinamentos de Alan Watts sobre O Que Está Errado Com Nossa Cultura; com os ensinamenos de Small Is Beautiful de Schumacher; com as obras de pensadores contemporâneos cruciais como Vandana Shina, Raj Patel, David Suzuki, Arundhati Roy, Davi Kopenawa. Que o cinema possa ser uma força de transformação social, ou mesmo de inseminação utópica, é algo óbvio para quem conhece iniciativas como a Films For Action e para quem já assistiu Dirt!, DisruptionThe Age Of Stupid, The Secret of the Seven Sistersdentre outros. Turista Espacial está aí para somar forças a esta eco-legião.

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Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – http://www.acasadevidro.com

CULTURAS EM EXTINÇÃO – Por Wade Davis, antropólogo canadense, TED Talk com legendas em português e transcrição completa

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CULTURAS EM EXTINÇÃO – Por Wade Davis [TED TALKS]

Um dos principais prazeres ao viajar e uma das delícias da pesquisa etnográfica é a oportunidade de poder viver entre povos que não esqueceram as suas antigas tradições, que ainda sentem o passado no vento que sopra, que o tocam as pedras que brilham com a chuva, que o saboreiam nas folhas amargas das plantas. Saber que os xamãs dos Jaguares ainda viajam além da Via Láctea, ou que os mitos dos anciãos dos Inuit ainda ressoam com significado, ou que no Himalaia os Budistas ainda perseguem o alento do Dharma, é lembrarmos da revelação central da antropologia. E essa é a idéia de que o mundo em que vivemos não existe no sentido absoluto, mas é só um modelo de realidade, a consequência de um conjunto particular de escolhas de adaptação que nossos antepassados fizeram, mesmo que corretas, há muitas gerações.

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E, naturalmente, todos nós compartilhamos dessas decisões adaptativas. Nascemos e colocamos nossos filhos no mundo. Passamos por rituais de iniciação. Precisamos lidar com a inexorável separação da morte, então não devemos nos surpreender se todos cantamos, dançamos e cultivamos a arte.

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Mas o que é interessante é a cadência exclusiva da melodia, o ritmo da dança em cada cultura. E não importa se são os Penan nas florestas de Bornéu, os seguidores de Vudu no Haiti, os guerreiros no deserto de Kaisut no norte do Quênia, o curandeiro nas montanhas dos Andes, ou um caravançarai no meio do Sahara. A propósito, este é meu companheiro de viagem com quem andei pelo deserto há um mês, ou um criador de iaques nas montanhas do Qomolangma, no Everest, a mãe deusa do mundo.

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Todos estes povos nos ensinam que há outras formas de existir, outras formas de pensar, outras formas de se orientar na Terra. E esta idéia, se você refletir, pode apenas nos dar esperança. Em seu conjunto, a miríade de culturas do mundo cria uma rede de vida espiritual e cultural que circunda o planeta e é tão importante para o bem-estar do planeta assim como a rede biológica que você conhece por biosfera. E você poderia pensar sobre esta rede cultural de vida como uma etnosfera e poderia definir a etnosfera como a soma total de pensamentos, sonhos, mitos, idéias, inspirações, intuições trazidas à vida pela imaginação humana desde o alvorecer da consciência. A etnosfera é o grande legado da humanidade. É o símbolo de tudo o que somos e tudo o que podemos ser como uma espécie impressionantemente curiosa.

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E assim como a biosfera tem se deteriorado seriamente, o mesmo ocorre com a etnosfera, e, infelizmente, mais rapidamente. Nenhum biólogo, por exemplo, ousaria dizer que 50 por cento ou mais de todas as espécies estiveram ou estão sob risco de extinção, porque isso não é verdade, mas mesmo assim – o cenário mais apocalíptico no reino da diversidade biológica – não se aproxima nem um pouco do cenário mais otimista no reino da diversidade cultural. E o grande indicador disso, obviamente, é o desaparecimento das línguas.

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Quando cada um de vocês nesta sala nasceu, havia 6.000 línguas faladas no planeta. Agora, uma língua não é somente um grupo de palavras ou um conjunto de regras gramaticais. Uma língua é um lampejo do espírito humano. É um meio através do qual a alma de uma cultura em particular entra no mundo material. Toda língua é uma antiga floresta da mente, um divisor de águas, um pensamento, um ecossistema de possibilidades espirituais.

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E dessas 6.000 línguas, conforme sentamos aqui em Monterrey, metade não são mais sussurradas nos ouvidos das crianças. Não são mais ensinadas para bebês, o que significa que, a menos que algo mude, elas já estão mortas. O que poderia ser mais solitário do que estar circundado em silêncio, sendo o último de seu povo a falar a sua língua, não tendo possibilidade de transmitir a sabedoria dos ancestrais ou antecipar a promessa das crianças? Ainda assim, este destino horrendo é a situação de alguém em algum lugar da Terra a cada duas semanas, porque a cada duas semanas, algum ancião morre e leva com ele para o túmulo as últimas sílabas de uma língua antiga.

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E sei que alguém entre vocês dirá: “Isso não é ótimo? O mundo não seria um lugar melhor se todos falássemos só uma língua?” E eu digo: “Ótimo, vamos todos falar ioruba. Ou cantonês. Vamos falar kogi.” E então, de repente, você descobrirá como seria não poder falar a sua própria língua.

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Assim, o que eu gostaria de fazer com vocês hoje é levá-los a uma viagem pela etnosfera, uma breve viagem através da etnosfera para tentar dar uma idéia do que está sendo perdido. Muitos de nós esquecemos que quando digo: “formas diferentes de existir”, realmente quero dizer formas diferentes de existir.

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Por exemplo, esta criança dos Barasanas no noroeste do Amazonas, o povo da anaconda que crê mitologicamente que vieram do rio de leite do leste na barriga das serpentes sagradas. Este é um povo que cognitivamente não distingue a cor azul do verde porque a cor do céu é igualada à cor da floresta da qual o povo depende. Eles têm uma regra de casamento e língua curiosa que é chamada exogamia linguística: você deve se casar com alguém que fala uma língua diferente. E tudo isso encontra suas raízes no passado mitológico, mas o curioso é que em casas grandes onde seis ou sete línguas são faladas por causa do casamento misto, você nunca ouve alguém praticando uma língua. Eles simplesmente ouvem e começam a falar.

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Uma das tribos mais fascinantes com que convivi é a dos Waoranis, no nordeste do Equador, um povo incrível com quem o primeiro contato foi feito pacificamente em 1958. Em 1957, cinco missionários tentaram entrar em contato e cometeram um erro brutal. Eles deixaram cair do arfotografias deles mesmos onde acreditavam estar fazendo poses amigáveis, esquecendo que estas pessoas da floresta tropical nunca tinham visto nada bidimensional em suas vidas. Eles coletaram as fotos do solo da floresta, tentaram olhar atrás do rosto para encontrar a forma ou figura, e nada achando, concluíram que eram cartas do diabo, então com suas lanças, mataram os cinco missionários. Mas os Waoranis não mataram apenas forasteiros. Eles mataram uns aos outros com suas lanças. Cinqüenta por cento de sua mortalidade foi por terem estacado lanças uns nos outros.Traçamos genealogias de oito gerações, e descobrimos duas instâncias de morte natural e quando pressionamos o povo um pouco sobre isso, eles admitiram que um deles tinha ficado tão velho que ele morreu envelhecendo, então estacaram uma lança nele de qualquer forma. (Risos) Mas ao mesmo tempo, eles tinham um conhecimento perspicaz da floresta que era impressionante. Os caçadores podiam sentir odor de urina de animais a uns 30 metros e dizer de que espécie era.

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No início dos anos 80, me foi atribuída uma tarefa impressionante quando meu professor em Harvard me perguntou se eu queria ir ao Haiti, e me infiltrar em sociedades secretas que eram a base do poder de Duvalier e de Tonton Macoutes, e obter o veneno usado para fazer zumbis. Para fazer sentido, naturalmente, eu tinha que entender um pouco desta fé admirável de Vodoun, e que o Vudu não é um culto de magia negra. Pelo contrário, é uma visão metafísica complexa. É interessante. Se eu pedisse para vocês citarem as religiões mais importantes do mundo, quais vocês diriam? Cristianismo, Islamismo, Budismo, Judaísmo, não importa.

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Sempre há um continente deixado de fora. Pensa-se que na África subsahariana não havia crença religiosa. Claro que havia, e o Vudu é simplesmente a destilação destas idéias religiosas profundasque vieram à tona durante a trágica diáspora da era da escravidão. Mas o que torna o Vudu tão interessante é que é uma relação viva entre os vivos e os mortos. Os vivos dão origem aos espíritos.Os espíritos podem ser invocados sob as Grandes Águas, respondendo ao ritmo da dança para deslocar, por um momento, a alma do vivo, de forma que naquele breve momento, o acólito se torna o deus. É por isso que os praticantes gostam de dizer: “As pessoas brancas vão à Igreja e falam sobre Deus. Nós dançamos no templo e nos tornamos Deus”. E como está possuído, você é levado pelo espírito, e como isso pode fazer mal a você? Assim, você vê essas demonstrações impressionantes: os praticantes de Vudu em um estado de transe que tocam em brasas e saem impunes, uma grande demonstração da habilidade da mente de afetar o corpo que a mantémquando catalizado no estado de empolgação extrema.

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De todos os povos onde estive, o mais extraordinário são os Kogis de Serra Nevada de Santa Marta no norte da Colômbia. Descendentes da antiga civilização Tairona que vivia nas planícies costeiras caribenhas da Colômbia no início da conquista, essas pessoas se retiraram para um maciço vulcânico isolado que se ergue na planície costeira caribenha. Em um continente onde muito sangue se derramou, essas pessoas nunca foram conquistadas pelos espanhóis. Até hoje, continuam governados por um sacerdócio ritual mas a preparação para o sacerdócio é realmente extraordinária.Os jovens acólitos são afastados de suas famílias com três e quatro anos, segregados em um mundo sombrio e escuro onde ficam em cabanas de pedra na base de geleiras por dezoito anos. Dois períodos de nove anos deliberadamente escolhidos para imitar os nove meses de gestação que passam no ventre da Mãe Natureza. Agora eles estão metaforicamente no ventre da grande mãe. E durante este tempo todo, são aculturados nos valores da sociedade deles, valores que mantêm a proposta de suas orações e suas orações mantêm o equilíbrio cósmico, ou, poderíamos dizer, ecológico. E no final dessa iniciação fantástica, eles são repentinamente retirados um dia e, pela primeira vez na vida, com dezoito anos, vêem o nascer do Sol. E nesse momento lúcido de consciência de primeira luz, conforme o Sol começa a iluminar os picos da paisagem belíssima, de repente tudo o que aprenderam no abstrato é afirmado em todo o seu esplendor. E o sacerdote dá um passo para trás e diz: “Viu? É realmente como eu disse. É lindo. E você deve protegê-lo”. Eles são chamados de irmãos anciãos e dizem que nós, que somos os irmãos mais jovens, somos os responsáveis pela destruição do mundo.

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Agora, este nível de intuição se torna muito importante. Sempre que pensamos em indígenas e paisagens, invocamos Rousseau e a velha história do nobre selvagem, que é basicamente uma idéia racista, ou então invocamos Thoreau e dizemos que estes povos estão mais próximos da Terra do que nós. Os indígenas não são sentimentais nem estão sensibilizados por nostalgia. Não há muito espaço para isso nos pântanos cheios de malária em Asmat ou nos ventos gélidos do Tibet, mas ainda assim, eles criaram uma mística tradicional da Terra, através do tempo e com rituais que não é baseada na idéia de ser conscientemente próximo dela, mas em uma intuição muito mais sutil: a idéia de que a Terra só pode existir por causa da consciência humana.

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O que isso significa? Isso significa que um jovem dos Andes que cresce acreditando que a montanha é um espírito Apu que direcionará o seu destino será um ser humano profundamente diferente e terá uma relação diferente com a montanha ou com o lugar, em relação a um rapaz de Montana criado para acreditar que a montanha é uma rocha e que está lá para ser minada. Se é o lar de um espírito ou uma rocha, é irrelevante. O que é interessante é a metáfora que define a relação entre o mundo individual e o natural. Fui criado nas florestas de Colúmbia Britânica para acreditar que as florestas existem para serem derrubadas. Isso fez de mim um ser humano diferente dos meus amigos Kwagiulth que acreditam que as mesmas florestas são o lar de Huxwhukw e o bico curvo do paraísoe dos espíritos canibais que habitaram na extremidade norte do mundo, espíritos que eles teriam que engajar durante a iniciação no Hamatsa.

 
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Agora, se você começar a entender a idéia de que essas culturas poderiam criar realidades diferentes, você poderia começar a entender algumas das descobertas extraordinárias deles. Veja essa planta aqui. É uma foto que tirei ao norte do Amazonas em abril. Isto é ayahuasca, sobre o que muitos de vocês já ouviram falar, o preparo psicoativo mais poderoso do repertório do xamã. O que torna o ayahuasca fascinante não é o potencial farmacológico puro de seu preparo, mas a sua elaboração. Ela é feita de duas fontes. Por um lado, há este cipó que tem nele uma série de beta-carbolinas, harminas e harmolinas, levemente alucinógenos. Pegando somente a cepa há um tipo de fumaça azulada que altera um pouco a consciência mas é misturada com as folhas de um arbusto da família do café chamado Psychotria viridis. Esta planta tinha algumas triptaminas muito fortes, muito próximas da serotonina cerebral, dimetiltriptamina, 5-metoxidimetiltriptamina Se você já viu os Yanomami inalando aquela coisa, a substância que eles fazem de um conjunto diferente de espéciestambém contém metoxidimetiltriptamina. Puxar aquele pó pelo nariz é como sair disparado pelo cano de uma espingarda carregado com pinturas barrocas e aterrissar em um mar de eletricidade. (Risos) Não cria uma distorção da realidade; cria uma dissolução da realidade.

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Eu costumava discutir com meu professor, Richard Evan Shultes — uma pessoa que iniciou a era psicodélica com a descoberta dos cogumelos mágicos no México nos anos 30. Eu argumentava que não é possível classificar estas triptaminas como alucinógenos porque quando você está sob efeitonão há mais ninguém para experimentar a alucinação. (Risos)

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Mas o fato é que as triptaminas não podem ser ingeridas oralmente porque são modificadas por uma enzima encontrada naturalmente na gordura humana chamada monoamina oxidase. Eles só podem ser tomadas oralmente se tomadas em conjunto com outros produtos químicos que modifiquem a MAO. Mas o fascinante é que as beta-carbolinas encontrados no cipó são inibidores de MAO do tipo necessário para ampliar o efeito da triptamina. Então pergunte-se o seguinte. Como em uma flora de 80.000 espécies de plantas, esses povos encontram estas duas plantas morfologicamente sem relação que quando são combinadas dessa forma, criam um tipo de versão bioquímica do inteiro sendo maior do que a soma das partes?

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Usamos aquele grande eufemismo, tentativa e erro, que acaba sendo insignificante. Mas você pergunta aos indígenas e eles dizem: “As plantas falam conosco”.

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O que isso significa? Esta tribo, o Cofan, tem 17 variedades de ayahuasca. Todas são distinguidas a uma grande distância na floresta, e são consideradas pelos nossos olhos como uma espécie. E então você pergunta como eles estabelecem a taxonomia deles, e eles dizem “Pensava que você sabia algo sobre as plantas. Você não sabe nada?” E eu digo: “Não.” Você pega cada uma das 17 variedades na noite de lua cheia e ela canta para você em um tom diferente. Isso não vai lhe dar um Ph.D. em Harvard, mas é muito mais interessante do que contar estames.

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Mas, (Aplauso) o problema — o problema é que nem mesmo os que simpatizam com a situação dos povos indígenas os vêem como pitorescos mas, de alguma forma, reduzidos à margem da história conforme o mundo real, o nosso mundo, vai em frente. Bem, a verdade é que o século XX, daqui a 300 anos, não será lembrado por suas guerras nem por suas inovações tecnológicas, mas como a era na qual nós aceitamos passivamente ou aprovamos ativamente a enorme destruição da diversidade biológica e cultural do planeta. O problema não é mudar. Todas as culturas através do tempo têm participado de uma dança com novas possibilidades de vida.

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E o problema não é de tecnologia. Os indígenas Sioux não deixaram de ser Sioux quando deixaram de usar arco e flecha assim como um americano não deixou de ser americano quando deixou de andar a cavalo e carroça. Não é a mudança ou a tecnologia que ameaça a integridade da etnosfera. É o poder. A face crua da dominação. E sempre que você olha pelo mundo, descobre que estas não são culturas destinadas a desaparecer. Estas são pessoas com uma vida dinâmica sendo conduzidas ao fim da sua existência por forças identificáveis além de sua capacidade de adaptação.Não importa se é um desmatamento na terra dos Penan — um povo nômade no Sudeste da Ásia, de Sarawak — um povo que vivia livre na floresta há uma geração, e agora foi reduzido à servidão e à prostituição nas margens dos rios, onde você pode ver o rio poluído com a lama que parece estar levando metade de Bornéu embora para o Mar Chinês Meridional, onde os barcos japoneses iluminam o horizonte prontos para se encher com a madeira tirada da floresta. Ou no caso dos Yanomamis, são as doenças que chegaram, com o despertar da descoberta de ouro.

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Ou se formos às montanhas do Tibete, onde estou fazendo muita pesquisa recentemente, você verá que é a face crua da dominação política. O genocídio, a extinção física de um povo é condenado globalmente, mas etnocídio, a destruição da forma de vida de um povo, não somente não é condenado, mas é globalmente celebrado como parte de uma estratégia de desenvolvimento. E não é possível entender a dor do Tibete até você se deslocar por ele pelo solo. Certa vez viajei 10.000 quilômetros de Chengdu na China ocidental através do sudeste do Tibete para Lhasa com um jovem colega e somente quando cheguei em Lhasa entendi a face por trás da estatística que você ouve.Seis mil monumentos sacros destruídos a cinzas, 1,2 milhão de pessoas mortas pelos militaresdurante a Revolução Cultural. Este jovem pai tinha sido indicado para Panchen Lama. Isso significa que ele foi morto instantaneamente no momento da invasão chinesa. O seu tio fugiu com sua santidade na diáspora que levou o povo para Nepal. A mãe dele foi presa pelo crime de ser rica. Ele foi levado escondido para a prisão com dois anos sob as saias da mãe porque ela não aguentava ficar sem ele. A irmã que foi resistente foi colocada em um campo de reeducação. Um dia ela pisou inadvertidamente em uma faixa de Mao, e por essa transgressão, recebeu sete anos de trabalho forçado. A dor do Tibete pode ser impossível de suportar, mas o espírito redentor das pessoas é algo para se contemplar.

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E no final, é necessário escolher. Queremos viver em um mundo monótono monocromático ou queremos abraçar um mundo de diversidade policromático? Margaret Mead, a grande antropóloga, disse antes de morrer que seu grande medo era que, enquanto caminhamos nessa direção de uma visão genérica amorfa do mundo, não somente veríamos a inteira amplitude da imaginação humanareduzida a uma modalidade mais limitada de pensamento, mas acordaríamos de um sonho um diatendo esquecido que havia outras possibilidades.

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E é sempre bom lembrar que a nossa espécie existe há, talvez, 150.000 anos. A Revolução Neolítica — que nos deu a agricultura, em um tempo que nós tínhamos o culto da semente, a poesia do xamã foi deslocada pela prosa do sacerdócio, criamos o acúmulo de especialização da hierarquia — tem apenas 10.000 anos. O mundo industrial que conhecemos tem apenas 300 anos. Agora, essa história breve não me indica que temos todas as respostas para todos os desafios que nos confortará nos milênios seguintes. Quando se pergunta a essas várias culturas do mundo o significado do ser humano, eles responderem com 10.000 vozes diferentes.

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E dentro dessa melodia, todos nós redescobriremos a possibilidade de ser o que somos: uma espécie totalmente consciente, totalmente ciente de assegurar que todos os povos e todos os jardinsencontrem uma forma de florescer. E há grandes momentos de otimismo.

18:50

Esta é uma foto que tirei no norte da ilha Baffin quando fui caçar baleias narval com algumas pessoas Inuit e este homem, Olayuk, me contou uma história maravilhosa de seu avô. Nem sempre o governo canadense foi amável com o povo Inuit e durante os anos 50, para estabelecer a sua soberania, os forçamos a ficar em assentamentos. O avô deste homem idoso se recusou. A família, com medo que ele perdesse a vida, escondeu todas as suas armas e suas ferramentas. Você deve entender que os Inuit não têm medo do frio, eles tiram vantagem dele. A base de seus trenós eram feitas de peixe envolvidos em pele de caribu. Assim, o avô deste homem não ficou com medo da noite no Ártico ou do vento que soprava. Ele simplesmente saiu, abaixou as suas caças de pele de foca e defecou em sua mão. E conforme as fezes congelavam, ele moldou uma lâmina. Ele cuspiu na ponta da faca de excremento e conforme ela se solidificava, matou um cão com ela. Ele retirou a pele do cão e improvisou uma cinta, retirou a gaiola toráxica do cão e improvisou um trenó, prendeu um outro cão, e desapareceu no gelo, com a faca de excremento na cintura. Isso é que é viver com nada. (Risos)

 20:02

E isso, de muitas formas, (Aplauso) é um símbolo da resiliência do povo Inuit e de todos os povos indígenas no mundo. Em abril de 1999, o governo canadense devolveu o controle total dos Inuit uma área de terra maior do que a Califórnia e o Texas juntos. É a nossa nova terra. É chamada Nunavut. É um território independente. Eles controlam os recursos minerais. Um exemplo sensacional de como um estado-nação pode alcançar — buscar restituição com o seu povo.

 20:31

E finalmente, acho que é muito óbvio pelo menos para todos nós que viajamos até estes pontos extremos do planeta, perceber que eles não são remotos. São lar de alguém. Representam ramos da imaginação humana que voltam ao princípio dos tempos. E para todos nós, os sonhos dessas crianças, como os sonhos de nossas próprias crianças, se tornam parte da geografia pura de esperança.

 20:54

Assim, nós na National Geographic, finalmente, acreditamos que os políticos nunca farão nada.Acreditamos que a polêmica — (Aplauso) acreditamos que a polêmica não é persuasiva, mas acreditamos que contar histórias pode mudar o mundo, e somos provavelmente a melhor instituição contadora de histórias no mundo. Recebemos 35 milhões de visitas em nosso website todos os meses. 156 países transmitem o nosso canal. Nossas revistas são lidas por milhões. O que estamos fazendo é uma série de viagens para a etnosfera e levaremos a nossa audiência a lugares com maravilhas culturais de onde se sai impressionado pelo que se vê, e esperamos, portanto, abraçar gradualmente, um a um, a revelação central da antropologia: que este mundo precisa existir de uma forma diversa, que nós podemos encontrar uma forma de viver em um mundo plural verdadeiramente multicultural onde toda a sabedoria de todos os povos podem contribuir para o nosso bem-estar coletivo.


Present and Past

“The voices of traditional societies ultimately matter because they can still remind us that there are indeed alternatives, other ways of orienting human beings in social, spiritual and ecological space. This is not to suggest naively that we abandon everything and attempt to mimic the ways of non-industrial societies, or that any culture be asked to forfeit its right to benefit from the genius of technology. It is rather to draw inspiration and comfort from the fact that the path we have taken is not the only one available, that our destiny therefore is not indelibly written in a set of choices that demonstrably and scientifically have proven not to be wise. By their very existence the diverse cultures of the world bear witness to the folly of those who say that we cannot change, as we all know we must, the fundamental manner in which we inhabit this planet.” – WADE DAVIS

Mobilização Nacional Indígena realiza o Acampamento Terra Livre 2017 e demanda “Demarcação Já!” e “Nenhum Direito A Menos”




Brasília, 24 a 28 de Abril,
Acampamento Terra Livre

A seguir, palavras de  Helena Palmquist

“Os patrões e o estado, e a academia e a mídia que lhes servem, seguem nos acusando de sermos anacrônicos na reivindicação de direitos humanos, animais, florestais, ancestrais, básicos.

É anacrônico defender um rio, é ultrapassado lutar pela mata, não é racional brigar por territórios, chega desse negócio de índio, ribeirinho, quilombola, camponês, seringueiro, pescador, lavrador, colono, chega desses povos do mato, do rio e da terra, que atrapalham a nossa razão irrefutável.

Eles nos chamam de minorias com projetos ideológicos irreais.

Cantam e decantam, insuportavelmente afinados, em centenas de minutos de televisão pagos a peso de ouro, a cantilena de que qualquer legislação que nos proteja contra eles é ultrapassada, de que é preciso “modernizar”.

Eles falam da CLT, que é fruto de muita luta dos trabalhadores nossos avós; e da Previdência, que igualmente resultou da luta de nossos avós. São leis velhas, eles dizem em horário nobre e em infinitas publicidades patrocinadas em redes sociais.

Eles falam das leis ambientais e indígenas. E da Constituição brasileira. Estão ultrapassadas, dizem. Querem nos convencer que a modernidade reside na desproteção jurídica total do bem comum.

Querem nos convencer que o mesmo Agro que chacinou camponeses em Colniza há 5 dias, é Tech.

É moderno.

Querem nos convencer que é moderno o mesmo Agro que assassinou Dorothy em Anapu e Chico Mendes em Xapuri, Zé Carlos e Maria em Nova Ipixuna, Doutor e Fusquinha em Marabá, Dema em Altamira, Oziel e outros 18 em Eldorado dos Carajás e Quintino em Viseu.

Pela lógica dos patrões que nos governam, qualquer proteção ao bem comum e público representa uma ameaça ao lucro. E o nome do Brasil, na onomástica deles, é lucro.

O nome Brasil, uma árvore que, ao ser quase extinta, enriqueceu Portugal ao ponto de ser um dos impérios mais capitalizados do planeta. O nome que nos deram é como uma maldição. Um estado-nação que extingue o que tem para enriquecer outrem. Até quando?

Quando os portugueses, os patrões e o estado aqui aportaram, esse território hoje denominado Brasil continha em seus domínios as duas maiores florestas tropicais do planeta todo: a mata atlântica e floresta amazônica.

Em pouquíssimo tempo (em termos geológicos) após a chegada dos elegantes europeus, 90% da mata atlântica foi dizimada, junto com todas as cosmologias, entendimentos, tessituras e histórias que não temos mais como resgatar e que certamente participaram do processo que a formou. O que perdemos é irrecuperável? Acho que não. Tenho observado que a resistência, nesse território de tantos territórios, reside muito em manter modos de vida, em manter músicas, ritos, tambores, plantios, comidas, ditos, sotaques, objetos, jeitos, espécies, histórias.

Mas a persistência não é nossa, nós resistimos porque os patrões de sempre persistem em nos anular, expulsar, escravizar e se nada mais nos calar, matar à bala.

São eles que não entendem que o tempo deles já passou. Eles que persistem na desgraça, apaixonados pelo que produziram. Eles explicam que direitos devem ser eliminados para que o povo brasileiro seja objeto de caridade e salvação com fins corruptos e eleitoreiros. O hábito deforma não só a boca, mas principalmente a prática política.

Quanto menos direitos, mais empregos, eles dizem. Como disseram, não muito tempo atrás, na lei sancionada por Dilma Rousseff, que anistiar desmatadores diminuiria o desmatamento.

São mentiras fartamente demonstradas em exemplos vindos de todos os continentes do mundo. Mas ditas com candura por representantes de todas as colorações do espectro eleitoral brasileiro. Assim, na cara dura, o tempo todo.

A mentira, a mais óbvia mentira, é mesmo a base da política ocidental como profetizou Goebbels (quase escrevi Gleise)?

Nos impingem essa visão diariamente no Jornal Nacional e todo sábado nos programas do Luciano Huck, seja qual for o partido no poder. Progresso é a senha, à direita e à esquerda.

Progresso e propina, devia constar na bandeira nacional, se sinceridade e candura combinassem com esse país.

Não existe nada mais velho do que a modernidade, nada mais fracassado que o modelo dito moderno de exploração do trabalho e da natureza.

Essa modernidade mofada que agride índios, negros e pobres e confina-os à invisibilidade e à inexistência JÁ ERA e pertence a ERAS PASSADAS.

Não existe nada mais triste e ultrapassável do que a proposta dos patrões do mundo e é um sinal de sintonia cosmológica que, na mesma semana em que os povos indígenas estão em Brasília, símbolo máximo da corrupção patronal brasileira, reinvindicando seu direito a existência, os trabalhadores brasileiros estão intensamente mobilizados para impedir a retirada brutal de direitos duramente conquistados, por essa mesma meca da corrupção, da extinção e do genocídio que é Brasília.

Fascista é a Fiesp, ultrapassada é a Globo, velha é a ideia que sustenta Brasília longe do Brasil, triste é essa modernidade já morta que nos quer iguais no sub-emprego terceirizado e super-explorado, pagando fortunas por energia retirada de rios caudalosos dos quais não podemos mais beber e nos quais não temos mais como navegar, pescar, muito menos nadar.

Avante! Para quem não lucra com a desgraça significa que chega de exploração extrema de recursos nada naturais e que é chegada a hora de aprender com os povos autônomos e autossuficentes que habitam os beiradões e interflúvios da Amazônia.

Na Amazônia está a chuva, a floresta e o futuro. Nenhuma modernidade arcaica importada vai superar o que a Amazônia sempre deu de presente para os Brasis. Amazônia plantada e gestionada pelos povos indígenas por milênios. Amazônia inteira dos povos que se conectam com a mata e que sabem mantê-la, os nativos e os chegados.

Amazônias mil, todas empenhadas em envolver vários mundos de vivos e mortos, de animais humanos ou quase, de peludos e pelados, de plurifloras e de polifaunas, de reservados e de expostos, de espíritos e pessoas, de rexistentes e de dexistentes, de caçadores, coletores, agricultores, pescadores, construtores, arquitetos, xamãs, poetas, cantadores, filósofos, sonhadores. Contra o des-envolver.

Amazônias mil, íntegras e dignas contra os belos destruidores, belos negadores, belos agressores, belos cínicos, belos desastres, belos assassinos, pra sairmos dessa bela merda em que nos meteram.”


Confira a música “Demarcação Já!”, uma homenagem de mais de 25 artistas aos povos indígenas do Brasil. Pelo direito à terra, pelo direito à vida! #DemarcaçãoJá

Letra: Carlos Rennó
Música: Chico César
Direção: André Vilela D’Elia
Produção: Cinedelia

Artistas:
Ney Matogrosso
Maria Bethânia
Gilberto Gil
Djuena Tikuna
Zeca Pagodinho
Zeca Baleiro
Arnaldo Antunes
Nando Reis
Lenine
Elza Soares
Lirinha – José Paes de Lira
Leticia Sabatella
Zé Celso
Tetê Espíndola
Edgard Scandurra
Zélia Duncan
Jaques Morelenbaum
Dona Onete
Felipe Cordeiro
Criolo
Marlui Miranda
BaianaSystem
Margareth Menezes
Céu

Com participação de:
Eduardo Viveiros de Castro
André Vallias
Ailton Krenak

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo cadiveu e o panará –
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil               

Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –                         

Demarcação já!

Já que tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a TI é polifauna e pluriflora,
Ah!, Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;
Bah! Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóctone   
Mantém compacta e muito intacta,
E não impacta e não infecta,
E se conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelas feridas da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…
Demarcação já!

Já que tal qual o negro e o homossexual,
O índio é “tudo que não presta”, como quer
Quem quer tomar-lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,
Demarcação, tá?               

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá!

Já que é assim que certos brancos agem,
Chamando-os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá,
Demarcação já!

Pois índio pode ter Ipad, freezer,
TV, caminhonete, voadeira,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.  

Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo, um exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá,
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará. Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-nos ao olhar e ver       

As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo tá,
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras   
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,
Demarcação já!

Já que por isso o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu
                  
E ao deus-dará,
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem mais parola nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!
Demarcação já!

Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá! Demarcação ontem!
Demarcação já!

E deixa o índio, deixa os índios lá!

VICIADOS EM RISCO – Naomi Klein

Naomi Klein: Viciados no risco

“Dias antes desta palestra, a jornalista Naomi Klein estava num barco no Golfo do México, a ver os catastróficos resultados da arriscada busca de petróleo pela BP (British Petroleum). As nossas sociedades têm-se tornado viciadas no risco extremo na procura de nova energia, novos instrumentos financeiros e mais… e, com demasiada frequência, fica-nos a tarefa de limpar os estragos. Klein pergunta: Qual é o plano B?”

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In the two months since the Deepwater Horizon explosion, millions of litres of oil have gushed out of BP’s well into the water each day, slowly encroaching on the coastline. Fault Lines’ Avi Lewis travels to the drill zone, and learns about the erosion in the wetlands from industry canals and pipelines, the health problems blamed on contaminated air and water from petrochemical refineries.

People and organizations in this film include: Avi Lewis, Aaron Viles, Larry Thomas, Henry Hess, Byron Encalade, Monique Harden, Tracie Washington, Dorothy Felix, Debra Ramirez, Linda Budwine, Advocates for Environmental Human Rights, Louisiana Oysters Association, Gulf Restoration Network, British Petroleum, US Coast Guard, Louisiana Justice Institute, Mosseville Environmental Action Now.

 

“Para onde foram as andorinhas?” – Curta-metragem documenta o impacto das mudanças climáticas nos povos do Parque Indígena do Xingu

PARA ONDE FORAM AS ANDORINHAS?

Premiado em festivais internacionais, o curta coloca em cena os índios do Parque Indígena do Xingu e mostra como as mudanças climáticas têm afetado suas vidas

“Produzido em parceria pelo ISA e pelo Instituto Catitu para ser exibido durante a Conferência do Clima de Paris (COP-21), foi apresentado e aplaudido também em eventos paralelos à Conferência Oficial, como a Zona de Ação Climática, espaço da militância da sociedade civil, em Paris; os debates contaram com expressiva participação do público.

Com roteiro de Paulo Junqueira, do ISA, e Mari Corrêa, do Instituto Catitu, que também é a diretora, o filme mostra de forma sensível como os povos que habitam o Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, estão percebendo e sentindo em seu dia a dia os impactos das mudanças do clima: seja em sua base alimentar, em seus sistemas de orientação no tempo, em sua cultura material e em seus rituais. Eles estão preocupados com futuro de seus netos, das novas gerações. Com o mundo que vão deixar de herança para eles.

Hoje, no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, vivem 6 500 índios de 16 povos diferentes, que com seu tradicional sistema de manejo do território garantem a preservação das florestas. Entretanto, no entorno do Parque a realidade é outra. Com 86% das florestas convertidas principalmente em soja, milho e pasto, os últimos 30 anos foram de devastação ambiental no entorno e as consequências no clima, nos animais, na agricultura estão sendo sentidas pelos índios.

Os sinais estão por toda parte. As cigarras não cantam mais anunciando que a chuva está por vir. Também desapareceram as andorinhas que voavam em bandos para anunciar o início das chuvas. As borboletas, que visitavam as aldeias avisando que o rio ia começar a secar, sumiram. São alguns exemplos do que está acontecendo. Antigamente não era assim, eles dizem. Mas o aumento do calor, a falta de chuvas, o desmatamento no entorno do Parque e até a construção de barragens são apontados como causas dessas mudanças. O fogo, antes restrito à roça, hoje, se alastra com muita facilidade, atingindo grandes áreas do Parque, exigindo que os índios se mobilizem e adotem novas técnicas e equipamentos para controlar o fogo.

O calor intenso também está matando as frutas e alimentos que fazem parte da culinária dos povos xinguanos estão desaparecendo, caso de algumas espécies de mandioca e batata. Até os pés de pequi, fonte de alimento e fundamental no ritual da furação de orelhas dos Waurá, estão sendo atacados por pragas que os xinguanos não conheciam. Preocupados, acreditam que vão passar fome no futuro, porque as plantações não vão resistir. E temem que as futuras gerações tenham que depender da comida dos brancos.” – Por Inês Zachetta / ISA

Prêmio de Melhor Curta Metragem no Festival Ambiental das Ilhas Canárias, 2016 | Prêmio Refúgios e Mudanças no Festival ENTRETODOS de Direitos Humanos, 2016
Direção: Mari Corrêa
Produção: Instituto Catitu e Instituto Socioambiental
socioambiental.org
institutocatitu.org.br

FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

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Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

Geral Encontro 2_2015_Foto Leonil Jr

Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

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O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

14a edição 4

Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

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NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

moacir-chapada

Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/