OS TINCOÃS COM MATEUS ALELUIA – Baixe a Discografia Completa – 1973 a 1977


DISCOGRAFIAS @ A Casa de Vidro

Badu, Dadinho e Mateus Aleluia dos Tincoãs

Os Tincoãs

Download gratuito dos álbuns completos:
Os Tincoãs (1973).zip [CLICK PARA BAIXAR]

Os Tincoãs (1977).zip [CLICK PARA BAIXAR]


BIOGRAFIA por AFREAKA: Não é de hoje que a Bahia é conhecida por oferecer o melhor da produção musical do Brasil. Os grupos e cantores vindos de lá carregam no peito os encantos de África, que aliados com a vivência do lado de cá do Atlântico, dão identidade e um tempero que só a música baiana tem. Entre os inúmeros conjuntos e artistas oriundos da terrinha boa está um grupo musical chamado Os Tincoãs.

Com nome inspirado em uma ave do cerrado, o Tincoã, o grupo foi formado entre o fim dos anos 1950 e o início da década de 1960. No início eram Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos nascidos no município de Cachoeira, que fcia às margens do Rio Paraguaçu, na região do Recôncavo Baiano. Cerca de 100 km distante da capital Salvador, a cidade muito contribuiu para a criação e preservação da identidade cultural da Bahia. O fato se deve pelo hábito de seus moradores de preservar costumes vindos de África, como o cuidado com a natureza e o saber popular.

No começo o trio interpretava boleros e outros tipos de canções do momento. O sucesso não aconteceu. Com a saída de Erivaldo que decidiu permanecer em Cachoeira e a chegada de Mateus Aleluia, o conjunto renovou seu repertório e revolucionou a música brasileira ao criar harmonias vocais para cantos de religiões afro e sambas de roda. A partir desta experiência o trio renovou seu repertório e mergulhou na cultura do Candomblé e seus terreiros, rodas de capoeira e de samba e tudo mais que fizesse alusão aos antepassados e raízes africanas. Nascia ali mais uma expressão musical que daria novos contornos para a música religiosa afro-brasileira e consequentemente para a música popular brasileira.

Contrariando muitos dos críticos que teimavam em dizer que após a chamada era dos festivais a MPB estava fadada ao fracasso, Os Tincoãs lançaram em 1973 um disco homônimo que chamou a atenção de todos. Com arranjos delicados, um violão, instrumentos de percussão e uma harmonia vocal repleta de doçura, o trio cantou para os Orixás: Iansã, Obaluaê, Iemanjá, todos eles estavam reunidos em um álbum que marcou época para a MPB.

“Meu Pai Veio da Aruanda
E nossa Mãe é Iansã
Ô Gira, deixa a gira girar.”

Para a produção do LP Os Tincoãs, Mateus Aleluia, Dadinho e Eraldo fizeram uma profunda pesquisa de cantos de Candomblé, o que colocou a cantiga de Orixás em um outro patamar na música brasileira. Figura fundamental nesse processo é Dona Ledinha, que de acordo com os integrantes vez ou outra cantava assim: ‘Sou de Nanã, ê uá’, entre outros cantos que integraram o repertório do disco.

Depois do imenso sucesso do álbum Os Tincoãs, o grupo sofreu um grande baque, a morte de Heraldo, substituído por Morais e posteriormente por Badu. Depois de as coisas se ajeitarem, o conjunto embarcou em 1983 para a África, precisamente para Angola, onde ficaram até o fim do grupo no ano 2000. Com a morte de Dadinho, autor do clássico Cordeiro de Nanã, Os Tincoãs resolveram encerrar de vez suas atividades.

Fiel retrato da negritude que pulsa nas veias do Brasil, Os Tincoãs são figuras fundamentais na música brasieira e principalmente na afirmação da cultura negra e todos os seus costumes, como o Candomblé e o samba de roda, por exemplo. Além disso, o conjunto deixou para a música do Brasil uma importante contribuição, a harmorinzação vocal com cânticos de religiões afro-brasileiras.”


OUÇA TAMBÉM: MATEUS ALELUIA – CARREIRA SOLO

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MAGOS DO RITMO: Conheça os grupos Barbatuques e Stomp, renovadores na arte da expressão rítmica

“A palavra RITMO provêm do indo-europeu Sreu (fluir) e do grego Rhytmos (medida, movimento recorrente e regular, ritmo, rima). O ritmo foi percebido na pré-história quando o homem notou que algo batia dentro do próprio corpo (o coração) e quis externalizá-lo. O homem primitivo utilizando seus próprios meios imitou os sons de sua experiência com a natureza, ouvindo o quebrar dos ramos enquanto caminhava pelas matas, o sussurrar do vento nas árvores, o ruído das águas no regato, a percussão da maré batendo regularmente na praia, e assim passou a conhecer o ritmo por meio da natureza.”JAMES GALWAYA Música no Tempo (Ed. Martins Fontes, 1987)

A Casa de Vidro – Publicado por Eduardo Carli de Moraes

Autênticos magos do ritmo e alquimistas do som, os grupos Barbatuques e Stomp atuam como renovadores na arte da expressão rítmica. Com muita criatividade, operam junções extravagantes entre a poética corporal e a rítmica musical, através de instrumentos pouco usuais, somando-se a uma linhagem de músicos como Hermeto Paschoal, Tom Zé, Uakti e Mawaca (para citar só alguns dos brasileiros) que se exercitam em expandir os limites do possível na expressão musical.


Stomp é um grupo originário de Brighton, no Reino Unido, em que a confluência de música, dança, teatro, coreografia e batucada gera um resultado estético pra lá de impressionante. Nascido em 1991, quando foi fundado por Luke Cresswell (percussionista) e Steve McNicholas (ator, músico e escritor), o STOMP é a manifestação coletiva de uma força de poiésis que vai além do mero virtuosismo de artistas que dominam a rítmica corporal e a arte da sincronicidade.

Os dançarinos-batuqueiros são também mestres da comédia visual, inserindo em suas performances várias gags (dignas dos melhores filmes cômicos do cinema mudo, como aqueles de Chaplin ou B. Keaton). Além disso, utilizando-se dos próprios corpos e de objetos comuns para criar suas performances. “Objetos do dia-a-dia são utilizados para criar coreografias e sons, tais como: tubulações, tampas de balde de lixo, isqueiros, rodos, vassouras, sacos plásticos, pias cheias de água, baldes, calotas de carros, caixinhas de fósforo, chaves, bastões.” (ARTAXO; MONTEIRO; 2013, p. 34)

Deslumbre-se com a diversidade estonteante das expressões rítmicas de que o ser humano é capaz através deste DVD completo, que reúne 1h50min de material do Stomp ao vivo e a cores, endiabrado de ritmos:

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Explorando uma senda criativa similar, o grupo brasileiro Barbatuques faz música, há mais de 20 anos, apenas com ritmos e sons produzidos nos próprios corpos de seus integrantes. O mentor da trupe de batuqueiros corporais é Fernando Barbosa (Barba) e o projeto está na ativer desde 1988, investigando todas as possibilidades de uma Orquestra de Corpos que se auto batucam, abordagem que eles apelidaram de “sintetizador humano”.

Desde o álbum de estréia, Corpo do Som, eles vem “aproximando a música brasileira de elementos da música africana, mediterrânea, cubana, eletrônica e minimalista, entre outros. O trabalho do grupo é uma orquestra orgânica”, afirmam as arte-educadoras Inês Artaxo e Gizele Assis Monteiro no livro Ritmo e Movimento – Teoria e Prática (Phorte, São Paulo, 5º ed, 2013, p. 35)

 

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ONDE QUEREM SILÊNCIO, SEGUIREMOS CANTANDO – Festival Lula Livre mobiliza mais de 60.000 cidadãos no Rio de Janeiro e promove histórico reencontro entre Chico Buarque e Gilberto Gil

“Quantas vezes, quando a sociedade calou diante de barbaridades, foram os nossos músicos, escritores, cineastas, atores, dramaturgos, dançarinos, artistas plásticos, cantores e poetas que vieram lembrar que amanhã há de ser outro dia?

Que ousaram acreditar em esperanças equilibristas e em flores vencendo canhões.

Que se rebelaram contra o “Cale-se!” imposto pela censura, gritando que era proibido proibir.

Que disseram que o povo da favela só quer ser feliz e andar com tranquilidade e consciência.

Que denunciaram o sofrimento de quem sai do nordeste expulso não pela seca, mas pela miséria e ganância dos coronéis.

Ou que era expulso de sua casa e vê ela ser demolida para passar “o progresso” que não inclui o trabalhador, como cantou Adoniram.

Os que sempre estiveram onde o povo está, e que agora, nesta que é mais uma página infeliz da nossa história, se juntam novamente ao povo brasileiro para soltar a voz em nome da liberdade.

Onde querem silêncio, seguiremos cantando.

Vocês não sabem quantas vezes a música, os livros, a arte, tem me ajudado a atravessar essa provação, que não é maior que a de tantos pais e mães de família brasileiros que hoje não sabem como irão trazer comida para casa. É em nome deles que não podemos desanimar jamais

Porque a gente ainda vai festejar, e muito. A alegria, a liberdade e a justiça de um povo que não tem medo e que não se entrega não.

Muito obrigado pelo carinho de vocês.

Aquele abraço!”

Luiz Inácio Lula da Silva
Via Lula.com.br

#LulaLivre
#EleiçãoSemLulaÉGolpe

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Artes visuais urbanas efervescendo em Goiânia: conheça o documentário curta-metragem Gastrite (2018, 20 min)

GASTRITE

“Imagine uma cidade em que o grafite não é ilegal, uma cidade em que qualquer um pode desenhar onde quiser. Onde cada rua seja inundada de milhões de cores e frases curtas. Onde esperar no ponto de ônibus não seja uma coisa chata. Uma cidade que pareça uma festa para a qual todos foram convidados, não apenas as autoridades e os figurões dos grandes empreendimentos. Imagine uma cidade como essa e não encoste na parede – a tinta está fresca.”Banksy

O documentário “Gastrite” é um curta-metragem idealizado e dirigido por Hugo Brandão. Conta com a colaboração de Eduardo Carli de Moraes  / A Casa de Vidro (Assistência de Direção e Entrevistador) e Débora Resendes Rodrigues / A Toca Coletivo (Produtora Executiva). Este projeto foi contemplado pelo Fundo de Arte e Cultura 2016, com apoio da Seduce e Governo de Goiás.

O filme “Gastrite” tem a cidade de Goiânia como cenário, ponto de partida para a discussão sobre o cotidiano das metrópoles e o protagonismo da arte de rua (como grafites, stencils, pixos, lambes, tipografia etc.) no contexto urbano contemporâneo. Nesse sentido, o documentário contextualiza o cenário controverso da arte urbana, retratando esse movimento por meio de um panorama de artistas dessa vertente, que se apropriam das ruas da cidade de Goiânia e a utilizam como plataforma de expressão.

Beco da Codorna – Museu de Arte Urbana (Fotos por Marcos Aleotti)

Pensando a cidade como um enorme organismo vivo, o filme sugere que a arte urbana é como um ruído, uma interferência, problematizando, denunciando e protestando, através de temas que vão da política à religião, nos fazendo refletir sobre a cadeia artística e a própria cidade. Sendo assim, a arte urbana se torna uma expressão singular da sociedade e do ser urbano.

A partir desta perspectiva, o principal objetivo do filme “Gastrite” é fomentar a discussão sobre esse movimento contemporâneo, abrindo espaço para debater questões como censura, espaço público e o papel que estas vertentes artísticas desempenham na nossa vida cotidiana, cultural e social.

O filme contêm entrevistas com:
Mateus Dutra
– Rustoff
Santhiago Selon
Juliano Moraes (FAV/UFG)
Bicicleta Sem Freio
Carol Viana
Kaiky Fernandez
– Eduardo Aiog
– Pixadores e artistas de rua
dentre outros

Trilha sonora: Vitor Hugo Lemes e DJ Saggaz Beats.

 

MAKING OF – Registros Fotográficos

GASTRITE - Documentário sobre arte urbana em Goiânia

ACESSE: Álbum em Flickr

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DEU NA IMPRENSA:

A GASTRITE NO CORPO URBANO – O filme goiano Gastrite, que terá Lançamento no dia 12 em A Toca Coletivo, contextualiza o cenário controverso da arte urbana

A Gastrite é uma erosão do revestimento do estômago, é o indício de que alguma coisa pode não estar muito bem. Ela pode ser temporária ou crônica, assim como qualquer elemento visual que está por aí pelas ruas da capital. Sob a perspectiva de que a cidade é um organismo vivo, portanto passível de demonstrar sintomas, foi construído o documentário “Gastrite”, um curta-metragem idealizado e dirigido por Hugo Brandão que aborda a arte urbana. O lançamento do filme será no dia 12 de Julho na Toca Coletivo.

O filme conta com a colaboração de Eduardo Carli de Moraes (Assistência de Direção e Entrevistador) e Débora Resendes Rodrigues (Produção Executiva). Este projeto foi contemplado pelo Fundo de Arte e Cultural 2016, com apoio da Seduce e Governo de Goiás. O filme “Gastrite” tem a cidade de Goiânia como cenário, ponto de partida para a discussão sobre o cotidiano das metrópoles e o protagonismo da arte de rua como: grafites, stencils, pixos, lambes, tipografia e outras erosões no contexto urbano contemporâneo.

O documentário contextualiza o cenário controverso da arte urbana, retratando esse movimento por meio de um panorama de artistas dessa vertente, que se apropriam das ruas da cidade e a utilizam como plataforma de expressão. O doc pensa a cidade como um enorme organismo vivo. O filme sugere que a arte urbana é como um ruído, uma interferência, problematizando, denunciando e protestando, através de temas que vão da política à religião, nos fazendo refletir sobre a cadeia artística e a própria cidade.

“Sendo assim, a arte urbana se torna uma expressão singular da sociedade e do ser urbano. A partir dessa perspectiva, o principal objetivo do filme é fomentar a discussão sobre esse movimento contemporâneo, abrindo espaço para debater questões como censura, espaço público e o papel que estas vertentes artísticas desempenham na nossa vida cotidiana, cultural e social” – explica a equipe de “Gastrite”.

Artistas em ação: Douglas do Bicicleta Sem Freio e Eduardo Aiog do Beco da Codorna. Fotos de Aleotti.

PONTOS CHAVE PARA O DIAGNÓSTICO

Hugo Brandão, o diretor, conta de onde começaram para chegar ao diagnóstico: “Partimos do centro, um ponto chave para a narrativa, e arredores, sempre buscando pontos importantes da cidade, que tivessem relevância para os temas que abordaríamos no documentário, como por exemplo espaço público, censura e abandono. Então, os locais escolhidos de alguma forma remetem a estes temas. E também buscamos os locais com maior número de intervenções e artistas urbanos diferentes.”

A equipe do filme correu a cidade para conhecer os personagens que gritam nos muros da cidade. “Conversamos com vários artistas de diferentes vertentes, que intervém na cidade. Desde grafiteiros, muralistas, pichadores, stickers, artistas de lettering e stencil. Consideramos a arte urbana uma manifestação contemporânea muito importante na construção da identidade da cidade. E gostaríamos, com esse projeto, fomentar a discussão sobre essa manifestação, que diz muito, basta parar para ouvir” relata Hugo.

Hugo Brandão resume a idéia do curta: “Durante a construção da idéia para esse projeto e a partir da pesquisa e entrevistas, percebemos que as intervenções urbanas ainda são vistas como um ruído, um corpo estranho, algo negativo, por uma boa parcela dos moradores da cidade. Daí que surgiu o paralelo com a gastrite e, de uma forma mais abrangente, a cidade como um organismo vivo, um corpo urbano. Então, a arte urbana não é só algo indigesto, como uma gastrite, é um indicativo, um alerta, para que olhemos com mais atenção para a cidade em que vivemos.”

DEMOCRACIA E DIFERENÇA – Por Gilberto Gil & Antônio Risério

DEMOCRACIA E DIFERENÇA
Gilberto Gil & Antônio Risério

Rousseau, um dos grandes clássicos da literatura e pensamento democráticos, diz no Contrato Social que se tomarmos a expressão democracia em sentido rigoroso, vamos verificar que “jamais existiu, jamais existirá” uma democracia verdadeira. Não é possível substituir o Estado pela Sociedade, nem fazer do povo uma Assembléia Permanente – e permanentemente ocupada com decisões coletivas relativas aos interesses e negócios públicos.

A democracia verdadeira, para Rousseau, só é possível num estado pequeno – muitas vezes menor do que a Bahia ou a Califórnia -, onde seja fácil reunir o povo, onde os costumes sejam simples e onde haja “bastante igualdade entre as classes e as fortunas”. Não é bem isso que vemos à nossa volta. E pensamos que o filósofo suíço está certo.

Não é por outro motivo que insistimos no óbvio, isto é, no fato de que só podemos viver em democracias reais. De que nos movemos e nos movimentamos, com todas as nossas pulsões e compulsões, no horizonte do possível – e nunca em circunstâncias ideais. A grande virtude do regime democrático, desta perspectiva, é que a democracia é um regime perfectível. Um regime in progress. Uma obra aberta.

O Brasil é um lugar onde o regime democrático, em suas fulgurações fugazes, mais sugere, antes do que qualquer outra coisa, uma ave de arribação – ou uma bênção muitas vezes negada. (…) As nossas elites dirigentes sempre se lembraram, nos seus discursos fantasiosos – mas sempre se esqueceram, em sua conduta efetiva – do fato de que a sociedade brasileira pode ser tudo, menos monocromática. E a verdade é que a democracia jamais se realizará, no Brasil, caso o processo construtivo passe ao largo de nossa questão sócio-racial e de nossa multiplicidade cultural.

O Brasil é um curto-circuito antropológico: uma aventura de etnias e culturas em rotação, em conflito e em mestiçagem permanente, dos tempos coloniais aos tempos televisuais, quando nos dispomos a investir do Oiapoque ao Chuí… Somos um país de muitas cores, nuanças e matizes. Não podemos falar em democracia brasileira sem uma consciência radical (no sentido etimológico da expressão) destas diversidades…

E ocorre que a “democracia racial” é o nosso mais belo sonho. É o sonho central da mitologia social brasileira. Ninguém pode pôr em dúvida o seu amplo e profundo alcance na sociedade que se formou entre a Amazônia e o Rio Grande do Sul. Temos, evidentemente, que desmascarar a construção ideológica elitista de um mito paralisante e neutralizador dos conflitos. Mas o que nós queremos, enquanto descendentes de escravos, não é simplesmente negar o mito – e sim realizá-lo. Sabemos que mitos passados movem moinhos.

É necessário, para a sobrevivência e afirmação do Brasil, que o mito se encarne na história, assim como na história se encarnaram a metalurgia e a malandragem. Este é o sentido de democracia que nos interessa. A história das Américas – articulada em complexa tessitura de astecas, europeus, tupinambás e nagôs – é a história de uma heterogeneidade. E esta heterogeneidade – este fascinante e meândrico conjunto multicultural de civilização – deve rebrilhar no horizonte democrático. Pois a democracia é a possibilidade – o projeto de que as diferenças, todas as diferenças, se realizem em sua plenitude.

Mas é preciso definir, em termos brasileiros, o significado dessas diferenças. Afinal, somos todos iguais perante a natureza – perante as irrevogáveis leis da vida e da morte -, mas não somos todos iguais perante a cultura. E aqui é que temos que chegar a uma espécie de optimum democrático que consiste, básica e essencialmente, em abolir as desigualdades sociais – e em sublinhar as diferenças de cultura.

(…) A discussão da diferença não nos mobiliza em função da construção deste ou daquele astucioso ardil ideológico, mas no sentido nítido da realização democrática de nosso povo. (…) O autoritarismo é o último refúgio do etnocentrismo. A personalidade autoritária é aquela que quer abolir as diferenças. E abolir as diferenças é a ilusão trágica do etnocentrismo. E denunciamos a canoa furada. A viagem democrática, nunca será demais repetir, é aquela que aposta na redução, e mesmo na supressão, das diferenças sócio-econômicas – e aquela que aposta no negritar das diferenças de cultura.

GIL/RISÉRIO. In: O Poético e o Político, Ed. Paz e Terra, pg 34 a 39.

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POR UM ABOLICIONISMO SOCIALISTA
De Gilberto Gil e Antônio Risério

Acabar com a escravidão não basta – é preciso destruir a obra da escravidão. Estas palavras, ditas por Joaquim Nabuco, permanecem intensamente atuais. É a partir daí que temos falado na retomada, em novo contexto e sob novas luzes, daquela movimentação que mobilizou a sociedade brasileira na década de 80 do século transato. Daí, também, a necessidade de uma ida ou retorno às fontes. De uma re/visão do Movimento Abolicionista. Aqui, como em tantos outros aspectos da vida social brasileira, é preciso dar um tranco na matreirice dos intermediários.

Nabuco via na escravidão a mancha de Caim que o Brasil trazia na testa. O sinal da maldição fratricida. Daí que o Movimento Abolicionista, considerando que “todas as transações de domínio entre entes humanos são crimes que só diferem no grau de crueldade”, tenha se lançado tão corajosamente ao combate.

Os abolicionistas se recusavam a reduzir sua missão ao objetivo de libertar os escravos. “Essa obra de emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do Abolicionismo”, pregava Nabuco 5 anos antes da promulgação da assim pitorescamente chamada Lei Áurea.

A meta maior do movimento – “a do futuro” – era apagar todos os efeitos do regime. Antes que se resumir ao esforço de reabilitação da raça negra escravizada, o Abolicionismo pensava-se como equivalente à “reconstituição completa do país”. Caso este generoso empenho de reconstrução nacional não se cumprisse, a “obra da escravidão” persistiria, mesmo quando não houvesse mais escravos.

E o fato é que a obra da escravidão persiste. Basta olhar em volta ou consultar as estatísticas disponíveis. Desta perspectiva, o Movimento Abolicionista é obra inacabada. Desencadeou o processo, cumpriu seu programa de curto prazo e se diluiu nos descaminhos da história. Os líderes do Movimento entendiam que as coisas não seriam fáceis. Conheciam bem nossa patologia social. Discerniam a gênese e o caráter de organismos sociais forjados por proprietários de homens.

Sabiam que a empresa de anular as influências da ordem escravocrata estava além do alcance do esforço de uma só geração. (…) Somos ainda hoje os herdeiros de um escândalo chamado escravidão. Esta é a herança que temos que liquidar. Arquivou-se legalmente um sistema de trabalho, mas não se suprimiu um contexto discriminatório. A situação atual das massas negromestiças brasileiras é prova da vinculação de nosso presente social às estruturas materiais e ideológicas da ordem escravocrata, cujas consequências e desdobramentos povoam e poluem o nosso dia-a-dia.

E se a obra da abolição é coisa inconclusa, declaramos que esta é a obra que queremos concluir. Vem daí o ímpeto da releitura, da revisão e da retomada, prevendo um salto suficientemente ousado em direção ao futuro. Estamos ainda muito longe de atingir o estágio histórico pressentido pela vanguarda liberal-revolucionária do século 19 – o da “união das raças na liberdade”. Mas é tarefa histórica de nossa geração tudo tentar para trazer este ideal para a dimensão pedestre e plebéia, fazendo com que ela se enraíze, cresça, oxigene e transforme a sociedade brasileira. Ou a mancha de Caim permanecerá, resistente aos truques, detergentes e maquiagens das classes dominantes.

(…) A luta hoje é pela liquidação final da herança escravista – nos planos social, econômico, ideológico e político. Daí que esta luta se inscreva no coração da luta pela construção do socialismo democrático brasileiro. Deste socialismo que é irreversível. E ao longe de cujo processo construtivo estamos erradicando as pragas sociais que nos perseguem e nos torturam ainda hoje, no limiar do século 21.

GIL/RISÉRIO (Pg. 57 a 59)