“Dante acharia que uma fábrica desse tipo ultrapassa todos os horrores que descreveu em seu Inferno.”
KARL MARX. O Capital [Das Kapital]
Volume I, capítulo 8, nº3
Charlie Chaplin, em Tempos Modernos, criou algumas cenas imorredouras da história do cinema ao transformar em paródia as condições de existência do operariado. Já nos primeiros quadros, Modern Times escancara sua veia crítica ao comparar os operários que entram na fábrica a um rebanho. Vale ressaltar que “em A Greve, de 1926, Serguei Eisenstein utilizou o mesmo recurso metafórico para identificar operários em greve com bois indo para um matadouro” (Alves). No meio do rebanho, o espectador atento pode notar uma ovelha negra. Há um outsider em meio à branca uniformidade da massa: é o clown Carlitos, agente da anarquia.
O destino que aguarda Carlitos no filme é o de ser uma espécie de ovelha negra do capitalismo. O filme enfatiza de modo recorrente o quanto um sujeitinho tão avoado e romântico acaba por sabotar, mesmo sem querer, o processo produtivo extremamente bem-regrado e calculado da fábrica capitalista. Carlitos é como um pequeno poeta de cartola, lúdico e desengonçado, que não sabe se encaixar nas engrenagens cruéis do mundo industrializado.
Ele é sempre o “peralta” que põe a descoberto as imperfeições da técnica ao causar uma catástrofe involuntária, seja apoiando-se na alavanca errada ou deixando cair a ferramenta nos momentos mais inoportunos. Ele é o terror dos burocratas, dos supervisores, dos patrões. Demasiado inadaptado ao trabalho mecanizado, sonhador demais para aceitar de bom grado ser reduzido a um instrumento de apertar parafuso, ele é um destes que parece condenado a participar de sistema que sente como cruel, desumanizador, que impõe cadências frenéticas e não tem pudores de extenuar a força de trabalho. Carlitos é um pouco aquele que não se resigna a ser usado e que irá, de travessura em travessura, desenhar para si um outro caminho.
um modo de produção, cognominado por uns de capEtalismo, que lida com os humanos como se fôssemos gado e que exaure-nos em labores infindos para que de nosso suor possam arrancar seus lucros e privilégios.
O que considero ainda profundamente atual, tanto em Modern Times quanto no marxismo, é o diagnóstico de uma patologia social. Marx ensina que as civilizações também podem adoecer (e morrer). Ensina também que a normalidade instituída pode não passar de uma cotidianização do crime. Bem antes da banalidade do mal ter sido detectada por Hannah Arendt nos regimes fascistas europeus, Karl Marx já havia exposto, em mil variações, um tema recorrente: o capitalismo é um crime coletivo que uma fração da sociedade pratica contra a comunidade como um todo.
O capitalismo inventa ideologias para fingir hipocritamente que não comete os males, tão frequentes em seus procedimentos cotidianos, do escravismo, da exploração feroz da mão-de-obra, da opressão de classe, do mandonismo autoritário… Põe-se auras de legalidade sobre processos baseados na mais profunda injustiça. E assim uma opressão de classe pode perdurar por séculos. A exploração é capaz de tornar-se instituição. O poder violento que impõe ao outro um labor abusivo é passível de transmissão, de geração em geração, em perpetuação de um mal – que, de tão recorrente, acaba banalizado e mau-compreendido como se fosse “natural”, quando Marx argumenta com tanta eloquência que a realidade presente é o resultado recente de um processo histórico revolucionável.
Longe de ser um estudo “frio” e “neutro” da realidade econômica, política e social de sua época, O Capital aparece-me também como um compêndio sobre a criminalidade coletiva. Para além do denuncismo barato, Marx desvela aos olhos do leitor o quão moralmente pútrida, revoltante e indignante é esta “Ordem” que produz em massa, além de mercadorias, os seguintes itens sociais: “operários estropiados” (p. 79); “óbitos ocasionados pela tuberculose” (p. 100); emprego de crianças e jovens em horrendas jornadas de trabalho, aliás causadoras de raquitismos e deformações (p. 101); ferreiros que “morrem aos 37 anos de idade por excesso de trabalho” (p. 105); disseminação da especialização emburrecedora e das pseudo-escolas que não educam ninguém (p. 93) etc.
Logo, é uma falácia dizer que O Capital é apenas análise econômica e política, realizada por uma razão neutra e não-engajada. O clássico de Marx é também um tratado de ética, que contêm uma reflexão sobre patologia social que têm íntima relação com uma espécie de perversão moral que é epidêmica sob o capitalismo. As páginas marxianas estão claramente impregnadas de indignação moral contra o sistema capitalista de produção (e que tão “bem” produz crises, miséria, opressão, escravidão… além é claro de subprodutos na forma de sublevações, resistências, revoluções…).
Marx, enraizado em amplos conhecimentos históricos de que era provida sua mente de vasta erudição, enxerga o presente como parte integrante da História. Vê além dos rasos e estreitos interesses privados e privatistas dos capitalistas, ávidos como sanguessugas ou vampiros, que massacram a carne viva das massas no intento egóico de acumular poder e capital. O Capital é repleto de provas documentais, e provindos de vários diferentes setores da indústria: por exemplo a indústria de fósforos, que desenvolve-se velozmente a partir de 1845 no Reino Unido, e que oferece condições de trabalho repugnantes e insalubres, incluindo a exploração em vasta escala de menores (“50% dos operários são garotos com menos de 13 anos de idade e moças com menos de 18”, p. 101).
Nos hospitais, os médicos, enfermeiras e cirurgiões conhecem em carne-e-osso os efeitos da produção capitalista, que imprime nos corpos seu estigma em forma de doença, deformação, vida abreviada. Charles Pearson, um cirurgião do hospital de Staffordshire, na década de 1860, declara: “não hesito em manifestar minha revolta crescente cada vez que olho para essas pobres crianças, cuja saúde é sacrificada para satisfazer a avidez dos pais e dos patrões.” (p. 101)
Lembremos novamente de Tempos Modernos. Apesar de seu “esquematismo”, o filme representa muitíssimo bem alguns dos elementos mais desumanizadores do capitalismo. Pra começo de conversa, o patrão é descrito como um parasita ocioso, que fica lá em seu escritoriozinho, montando seu quebra-cabeça, gerindo a fábrica através de câmeras de vigilância, sempre ordenando ao seu capataz que acelere a linha de produção. Enquanto isso o operariado suja a camisa de graxa do nascer do Sol ao fim do dia num frenesi enlouquecedor….
A mecanização e fragmentação extrema do trabalho é o próximo alvo: os trabalhadores estão reduzidos a funções simplérrimas, repetitivas e monótonas (Carlitos, lembrem-se, é um apertador de parafusos). A linha de montagem aparece como uma potência independente, que segue seu rumo de modo implacável, em perfeita indiferença em relação ao cansaço do operário ou às inconveniências que podem acometê-lo (como uma mosca pousando em seu nariz ou uma coceira nos fundilhos…).
Outro momento de sarcasmo certeiro é aquele em que uma Máquina de Alimentar Operário é oferecida ao patrão como uma oportuna aquisição para maximizar os lucros. É uma profecia chapliniana que aponta para o futuro advento do fast-food, aquela invenção americana que, dentre outras coisas, visava diminuir o tempo de almoço dos trabalhadores para maximizar a eficácia produtiva. Ao invés de liberar o “gado” para que ele vá comer capim por uma hora, interrompendo assim o trabalho, porque não alimentá-lo durante o próprio trabalho? O caráter grotesco e obsceno da obsessão pelos lucros se escancara aí, neste apetrecho técnico que trata um homem como um cavalo em quem enfiam ração enquanto ele galopa debaixo do chicote…“…um terrível acidente tinha custado a vida de centenas de passageiros” e o “Grande Júri de Londres deveria julgar três ferroviários: um condutor, um maquinista e um sinaleiro. (…) A negligência desses empregados é a causa da catástrofe. Eles são unânimes em declarar perante os jurados que há 10 ou 12 anos eles trabalhavam 8 horas por dia; mas que depois de 5 ou 6 anos a duração da jornada de trabalho tinha sido aumentada pouco a pouco para 14, 18 e mesmo 20 horas; que, quando aumentava o número de passageiros o trabalho se prolongava às vezes durante 40 ou 50 horas sem interrupção. Eles acrescentam que não são deuses, mas simples mortais, e que sua força de trabalho tem limite, que num dado momento o torpor os invadiu, seus cérebros pararam de pensar e seus olhos de ver. O muito respeitável júri proclamou um veredicto enviando-os para julgamentos seguintes por homicídio involuntário. Num apêndice tolerante, exprimiu todavia o piedoso desejo de ver os capitalistas, grandes acionistas das estradas de ferro, se mostrarem doravante menos avaros na aquisição da força de trabalho necessária…” (p. 103)

De Horace Vernet. Barricadas nas ruas de Paris durante a Revolução de junho de 1848.
Em junho de 1848, eclode uma heróica insurreição dos operários de Paris. Karl Marx relembra esta ebulição de revolta dos parisienses espoliados com tintas fortes, evocando imagens que parecem extraídas dos grandes poetas trágicos. Marx relata como a insurreição foi “esmagada com excepcional crueldade pela burguesia francesa” na “primeira grande guerra civil da história entre o proletariado e a burguesia”:Um dos temas prediletos de Marx é a realidade sócio-política da França em épocas de conturbada luta-de-classes. Não só a Comuna de Paris (1851), mas aquilo que a precede e prepara interessa intensamente ao autor d’O Capital. O livro A Revolução Antes da Revolução, publicado pela Expressão Popular, reúne alguns dos escritos mais cruciais de Marx sobre as turbulências e terremotos, em solo francês, de que foi contemporâneo. O nome da coleção – Assim Lutam Os Povos – sintetiza muito bem o que o leitor encontra nestas páginas repletas de narrativa histórica vibrante e comentário político mordaz que fluíam ambos com tal profusão da pena de Karl.
“Venceu a república burguesa. A seu lado estava a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe média, os pequeno-burgueses, o exército, o lumpemproletariado organizado como Guarda Móvel, as competências intelectuais, os padres e a população do campo. Ao lado do proletariado de Paris não estava ninguém senão ele próprio.
Mais de 3 mil insurgentes foram passados pelas armas depois da vitória e 15 mil deportados sem julgamento. Com essa derrota, o proletariado passou para o plano de fundo da cena revolucionária. Mas, pelo menos, sucumbe com as honras de uma grande luta de alcance histórico-universal; não só a França, mas também toda a Esuropa, tremem perante o terremoto de junho…
Certamente, a derrota dos insurgentes de junho tinha preparado, aplanado, o terreno em que podia fundar-se e erigir-se a república burguesa; mas, ao mesmo tempo, tinha mostrado que na Europa se discutiam outras questões que não a de “república ou monarquia”. Revelara que aqui uma república burguesa significava despotismo ilimitado de uma classe sobre outras…
[A república burguesa] Tinha dado como consigna ao seu exército as palavras de ordem da velha sociedade: “Propriedade, Família, Religião, Ordem”, e gritado à cruzada contra-revolucionária: “Por este sinal vencerás!” (No ano de 312, na véspera de uma vitória militar, o imperador Constantino I teria visto no céu uma cruz com a seguinte inscrição: “Por este sinal vencerás!”)
Vai-se restringindo o círculo dos dominadores e um interesse mais exclusivo é defendido contra um interesse mais amplo. Qualquer reivindicação da mais simples reforma financeira burguesa, do liberalismo mais vulgar, do republicanismo mais formal, da democracia mais trivial, é ao mesmo tempo castigada como “atentado contra a sociedade” e estigmatizada como “socialismo”.
E, por fim, os pontífices da “religião e da ordem” vêem-se expulsos eles próprios a pontapés de suas cadeiras píticas, arrancados da cama no meio da noite e do nevoeiro, encafuados em camburões, metidos no cárcere ou enviados para o exílio; o seu templo é arrasado, a sua boca é selada, a sua pena quebrada, a sua lei rasgada, em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem.
Burgueses fanáticos da ordem são espingardeados nas suas varandas pela soldadesca embriagada, a santidade do lar é profanada e as suas casas são bombardeadas como passatempo, em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem. As fezes da sociedade burguesa formam por fim a sagrada falange da ordem, e o herói Krapülinski faz a sua entrada nas Tulherias como “salvador da sociedade.”
O estado de sítio em Paris foi a parteira da Constituinte nas suas dores de parto republicanas. Se mais tarde, em dezembro de 1851, a Constituição foi mandada para o outro mundo pelas baionetas, não se deve esquecer que também tinha sido guardada no ventre materno e trazida ao mundo pelas baionetas, por baionetas voltadas contra o povo. (228)
KARL MARX. A Revolução Antes da Revolução. Expressão Popular. Pg. 217-218.

LUCE, Maximilien (1858 – 1941), “Uma rua de Paris em Maio de 1871”
“…todos os parisienses aptos a pegar em armas entrem na Guarda Nacional e sejam armados, de modo que os operários formavam agora a grande maioria. Em breve, estalou a oposição entre o governo quase composto só por burgueses e o proletariado armado. (…) Thiers, o novo chefe do governo, tinha de reconhecer que a dominação das classes possidentes – grandes proprietários rurais e capitalistas – estava em perigo permanente enquanto os operários parisienses conservassem as armas na mão. A sua primeira obra foi a tentativa de desarmamento destes. Em 18 de Março de 1871 enviou tropas com a ordem de roubar a artilharia pertencente à Guarda Nacional… A tentativa falhou, Paris ergueu-se como um só homem para a defesa, e foi declarada guerra entre Paris e o governo francês sediado em Versalhes. Em 26 de Março a Comuna foi eleita, e foi proclama no dia 28. (…) No dia 30, os estrangeiros eleitos para a Comuna foram confirmados nas suas funções, porque a ‘bandeira da Comuna é a da República Mundial’. Em 1º de Abril, foi decidido que o vencimento mais elevado de um empregado da Comuna, portanto dos seus próprios membros também, não poderia exceder a 6 mil francos. No dia seguinte foi decretada a separação da Igreja e do Estado e a abolição de todos os pagamentos do Estado para fins religiosos, assim como a transformação de todos os bens eclesiásticos em propriedade nacional. (…) No dia 6 de Abril, a guilhotina foi trazida pelo 137º batalhão da Guarda Nacional e queimada publicamente no meio de ruidoso júbilo popular…” (ENGELS, op cit, pg. 347)


Revolucionários da Comuna de Paris queimam a guilhotina na Praça Voltaire, em 1871. Por Ernst Alfred Vizetelly.
Um dos fenômenos históricos que mereceria ser estudado mais a fundo é o fato de que algumas das revoluções socialistas mais espetaculares – a Comuna de Paris em 1871 ou a Revolução Bolchevique na Rússia de 1917 – irrompem em uma era de Guerra. A Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) não somente servem como “pano de fundo” para estas irrupções revolucionárias, mais que isto: estas revoluções só são compreensíveis a partir das condições de existência das massas sob os regimes hegemônicos na Europa, tão maniacamente envolvidos em escaramuças imperialistas que não parecem dar a mínima para o sofrimento humano em massa que causam com seus ímpetos bélicos de conquista, predominância, opressão.
Quando Karl Marx escreve sobre A Guerra Civil Na França, comunica ao leitor com eloquência profunda o quão bárbara e genocida eram as elites dirigentes das potências européias quando se tratava de esmagar, como se fossem baratas, todos os movimentos, partidos e sindicatos estigmatizados revolucionários; a contra-revolução não tem escrúpulos quando ao uso de métodos como a tortura, o guilhotinamento em massa, as prisões lotadas de opositores políticos… A importância histórica crucial da Comuna de Paris, na perspectiva de Marx, está no triunfo, ainda que de vida curta, de um levante popular contra as forças reacionárias do imperialismo; a Comuna, “campeã intrépida da emancipação do trabalho, era expressivamente internacional. À vista do exército prussiano, que tinha anexado à Alemanha duas províncias francesas, a Comuna anexava à França o povo trabalhador do mundo inteiro.” (MARX, Karl. A Guerra Civil na França. In: A Revolução Antes da Revolução, Ed. Expressão Popular, SP/Brasil, 2008, P. 412)
São páginas em que fica explícito o engajamento do historiador: Marx não está somente sendo uma máquina neutra de registrar fatos, ele está debatendo com os fatos históricos e tomando uma posição, que é claramente pró-Comuna de Paris. Marx quase canta em louvor à “Paris operária, combatente, a sangrar – quase esquecida, na sua incubação de uma sociedade nova, dos canibais às suas portas – radiante no entusiasmo da sua iniciativa histórica! (…) Prodigiosa, na verdade, foi a mudança que a Comuna operou em Paris! Não mais qualquer traço da Paris meretrícia do segundo Império…” (MARX, op. cit., p. 415-416)
Em contraste com a Paris da Comuna, que Marx pinta refulgente de glória épica, a descrição do velho mundo em Versalhes revela o brilhantismo marxiano na arte do denuncismo justiceiro. O discurso de Marx não economiza em termos demonizantes – “sanguessugas”, “vampiros” e “canibais”, todos “ávidos de se alimentar da carcaça da nação” – para referir-se à elite que, derrotada pela insurreição que instaurou em Paris a Comuna, fugiu para buscar refúgio nos palácios de Versalhes. De lá, “considerava a guerra civil só uma diversão agradável” e “olhava o desenrolar da batalha através de telescópios” (pg. 417). Na perspectiva de Marx, em Versalhes ocorreu a reunião de uma minúscula elite cujo domínio já estava defunto, cuja decadência já denunciava-se pelo fato de ser “mantida numa aparência de vida só pelos sabres dos generais de Luís Bonaparte. Paris toda ela verdade, Versalhes toda ela mentira; e essa mentira, exalada pela boca de Thiers.” (pg. 416)
Um dos temas prediletos de Marx é a realidade sócio-política da França em épocas de conturbada luta-de-classes. Não só a Comuna de Paris (1851), mas aquilo que a precede e prepara interessa intensamente ao autor d’O Capital. O livro A Revolução Antes da Revolução, publicado pela Expressão Popular, reúne alguns dos escritos mais cruciais de Marx sobre as turbulências e terremotos, em solo francês, de que foi contemporâneo. O nome da coleção – Assim Lutam Os Povos – sintetiza muito bem o que o leitor encontra nestas páginas repletas de narrativa histórica vibrante e comentário político mordaz que fluíam ambos com tal profusão da pena de Karl.
Em junho de 1848, eclode uma heróica insurreição dos operários de Paris. Karl Marx relembra esta ebulição de revolta dos parisienses espoliados com tintas fortes, evocando imagens que parecem extraídas dos grandes poetas trágicos. Marx relata como a insurreição foi “esmagada com excepcional crueldade pela burguesia francesa” na “primeira grande guerra civil da história entre o proletariado e a burguesia”:
“Venceu a república burguesa. A seu lado estava a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe média, os pequeno-burgueses, o exército, o lumpemproletariado organizado como Guarda Móvel, as competências intelectuais, os padres e a população do campo. Ao lado do proletariado de Paris não estava ninguém senão ele próprio.
Mais de 3 mil insurgentes foram passados pelas armas depois da vitória e 15 mil deportados sem julgamento. Com essa derrota, o proletariado passou para o plano de fundo da cena revolucionária. Mas, pelo menos, sucumbe com as honras de uma grande luta de alcance histórico-universal; não só a França, mas também toda a Europa, tremem perante o terremoto de junho…
Certamente, a derrota dos insurgentes de junho tinha preparado, aplanado, o terreno em que podia fundar-se e erigir-se a república burguesa; mas, ao mesmo tempo, tinha mostrado que na Europa se discutiam outras questões que não a de “república ou monarquia”. Revelara que aqui uma república burguesa significava despotismo ilimitado de uma classe sobre outras…
[A república burguesa] Tinha dado como consigna ao seu exército as palavras de ordem da velha sociedade: “Propriedade, Família, Religião, Ordem”, e gritado à cruzada contra-revolucionária: “Por este sinal vencerás!” (No ano de 312, na véspera de uma vitória militar, o imperador Constantino I teria visto no céu uma cruz com a seguinte inscrição: “Por este sinal vencerás!”)
Vai-se restringindo o círculo dos dominadores e um interesse mais exclusivo é defendido contra um interesse mais amplo. Qualquer reivindicação da mais simples reforma financeira burguesa, do liberalismo mais vulgar, do republicanismo mais formal, da democracia mais trivial, é ao mesmo tempo castigada como “atentado contra a sociedade” e estigmatizada como “socialismo”.
E, por fim, os pontífices da “religião e da ordem” vêem-se expulsos eles próprios a pontapés de suas cadeiras píticas, arrancados da cama no meio da noite e do nevoeiro, encafuados em camburões, metidos no cárcere ou enviados para o exílio; o seu templo é arrasado, a sua boca é selada, a sua pena quebrada, a sua lei rasgada, em nome da religião, da propriedade, da família e da ordem.
Burgueses fanáticos da ordem são espingardeados nas suas varandas pela soldadesca embriagada, a santidade do lar é profanada e as suas casas são bombardeadas como passatempo, em nome da propriedade, da família, da religião e da ordem. As fezes da sociedade burguesa formam por fim a sagrada falange da ordem, e o herói Krapülinski faz a sua entrada nas Tulherias como “salvador da sociedade.”
O estado de sítio em Paris foi a parteira da Constituinte nas suas dores de parto republicanas. Se mais tarde, em dezembro de 1851, a Constituição foi mandada para o outro mundo pelas baionetas, não se deve esquecer que também tinha sido guardada no ventre materno e trazida ao mundo pelas baionetas, por baionetas voltadas contra o povo. (KARL MARX. A Revolução Antes da Revolução. Expressão Popular. Pg. 228)
O modo como findou a Comuna de Paris – através de um massacre perpetrado pela elite destronada, que havia se refugiado em Versalhes para ali preparar a carnificina vingativa contra a Paris proletária – serve como símbolo imorredouro da “raiva de que é capaz a classe dominante logo que o proletariado ousa defender o seu direito.” (ENGELS, op cit, p. 349) Mas o fato de ter sido esmagada em um banho de sangue patrocinado pelo regime de Thiers não impede a Comuna, na perspectiva de Marx e Engels, de ter uma importância histórica crucial como protótipo de uma sociedade comunista em via de instalar-se. “Na madrugada do 18 de Março de 1871”, relata Marx, “Paris acordou com o rebentamento do trovão de Vive la Commune! (Viva a Comuna!). Que é a Comuna, essa esfinge que tanto atormenta o espírito burguês?” (MARX, pg. 398)
Só entenderemos a Comuna de Paris, ou a Revolução Bolchevique, ou o triunfo dos guerrilheiros de Sierra Maestra em Cuba, se compreendermos a revolta organizada daqueles que “na fábrica, são apenas complementos vivos de um mecanismo morto, que existe independente deles. ‘A lamentável rotina de um trabalho sem fim, onde o mesmo processo mecânico renova-se sem cessar, assemelha-se ao trabalho de Sísifo’, escreve Engels em A Situação das Classes Trabalhadoras Na Inglaterra (1845, 2a ed, Stuttgart, p. 180). Ao mesmo tempo que o trabalho mecânico fatiga extremamente o sistema nervoso, suprime o uso variado dos músculos e confisca toda a livre atividade física e intelectual. (…) O código de punições do supervisor tomou o lugar do chicote do antigo feitor de escravos.” (MARX, O Capital, p. 113)
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“La Commune – Paris 1871”, um filme de Peter Watkins
Publicado em: 04/02/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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