O projeto Reviravoltas de Gaia pretende se insurgir contra a hidra capitalista [*] através da organização de atos públicos em que confluem a arte e o ativismo. Criada em 2021, em meio à pandemia de covid-19, num período em que o Brasil já havia superado o número de 580.000 vítimas fatais do coronavírus em conluio com o desgoverno, a iniciativa inicialmente surgiu como contestação cívica da tese do Marco Temporal (PL 490, STF), considerado pelos idealizadores como “um ataque aos povos originários de uma terra que habitaram e habitam desde tempos imemoriais.” (p. 6)


Ajuntamento de seres humanos que reivindicam os direitos da natureza, esta proposta de carnaval cívico cosmopolítico começou a tomar as ruas de São Paulo em agosto de 2021, promovendo uma espécie de performance coletiva nômade. Com pessoas representando animais e plantas, mobilizando uma estética muito inspirada por Hélio Oiticica, Oswald de Andrade e o Teatro Oficina, além de nutrida pela antropologia de Eduardo Viveiro de Castro e sua noção da Floresta de Cristal, as Reviravoltas de Gaia materializaram-se também em um livro homônimo, organizado por Mariana Lacerda e Rivane Neuenschwander (ed. Cobogó, n-1, 2023, 240 pgs), e no filme curta-metragem Eu Sou uma Arara, cujo título refere-se a um dito do povo indígena Bororo (do Mato Grosso).
O bloco carnavalesco cívico, com pessoas portando seus parangolés, marcou presença em vários atos na maior megalópole da América do Sul em 2021 e 2022, como o Dia Nacional da Consciência Negra, em 20 de novembro de 2021, em memória do dia em que Zumbi dos Palmares foi assassinado (20 de novembro de 1695); o ato feminista inspirado no “Ele Não” de 4 de dezembro de 2021; o Dia Internacional da Mulher (8M) de 2022; o ato em memória de Dom Phillips e Bruno Nogueira (assassinados na Amazônia); dentre outros. Ocasiões nas quais os manifestantes, escondidos por detrás de fantasias representativas da biodiversidade sob ameaça, portavam placas e cartazes com mensagens, escritas com tinta negra e vermelha, tais como: Patriarcado Acuado, Defender a Alegria, Sangue e Sobressalto, Futuro é Ancestral, Desmonte do Garimpo, Ecofeminismo, Neoliberalismo Perverso, Proliferar o Amor, Amarrado no Cipó, Obscurantismo Mata, Quem lucra com a guerra?, Quem mandou matar Marielle?, Capitalismo Suicidário, Orçamento Secreto = Bolsolão, Farda Fardo, Maldita Milícia, Malditos Milicos, SOS Raposa Serra do Sol, Vote como um Manguezal.


Apontando também para um protesto simbólico de dimensão global, as bacantes e os sátiros destas Reviravoltas de Gaia portavam ainda mensagens em línguas estrangeiras como o inglês e o francês (Stop Ecocide in Brazil, Quel Monde a Venir?), como se quisessem participar de um diálogo internacionalista com outros consternados cidadãos deste planeta em chamas.


Fornecendo uma experiência sensorial impressionante, o livro Reviravoltas de Gaia contém dezenas de fotografias coloridas, de intensa diversidade cromática, todas captadas em espaços públicos em situação de protestos cívicos, alguns multitudinários, e inclui também enxertos de panfletos, incluindo o Capítulo 7 da Constituição do Equador, que versa sobre os direitos da natureza, aprovado por referendo em 2008; o texto da Manifestação Pela Vida dos Povos Isolados e das Florestas; além do capítulo 8 da Constituição Federal Brasileira que versa sobre os direitos indígenas e nele reproduzido na língua indígena nheengatu. O livro inclui ainda ensaios, entrevistas e um glossário propiciando ao leitor um rico e robusto Caldeirão de pensamentos partilhados por Lisette Lagnado, Coletivo Centelha, Déborah Danowski, Peter Pál Pelbart, Inês Grosso, Achille Mbembe, João Paulo Lima Tukano, além das contribuições das organizadoras Lacerda e Neuenschwander.
Se a iniciativa Reviravoltas de Gaia nos parece bastante significativa, enquanto insurgência artístico-cultural, é pelo fato de que expressa uma preocupação cosmopolítica e uma disposição anti-antropocêntrica diante das urgências contemporâneas que se manifestam sobretudo no campo sócio-ambiental e econômico político. O filme Eu Sou Uma Arara, dirigido pela cineasta pernambucana Mariana Lacerda, inclui ainda trechos da leitura da “Carta às brasileiras e as brasileiros em defesa do Estado democrático de direito”, ocorrida na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, em 11 de agosto de 2022. Naquela ocasião, nosso país atravessava encruzilhada histórica das mais cruciais com o embate eleitoral pela presidência da república entre a extrema-direita encabeçada por Jair Bolsonaro, em busca de uma reeleição, e a centro-esquerda petista liderada por Luiz Inácio Lula da Silva, em busca de seu terceiro mandato.
Como bem pontuou Lisette Lagnado, “nas manifestações que antecederam esse momento histórico em defesa da democracia, os biomas saíram em bloco: cavala-marinho, vagalume, sapa, polvo, cobra, girassol, cogumelo vermelho, camaleoa, onça, água-viva, vitória régia… Ameaçadas fisicamente, juridicamente, espiritualmente, suas nações pediram socorro. Não sendo ouvidas pelas vias institucionais de praxe a selva e sua matilha deslocaram-se para os centros de decisão de seu porvir.” (p. 148)
O aspecto mais relevante que nos interessa aqui sublinhar é que se trata de uma forma de artivismo que não se confina no âmbito do humano, que não se limita a demandar direitos apenas para aqueles que pertencem a espécie homo sapiens, que não enxerga uma responsabilidade ética apenas envolvendo as pessoas mas se lança ao imprescindível âmbito de uma ética inter-espécies. Em um dos textos de chamamento para os atos públicos do coletivo Reviravolta de Gaia, convoca-se os humanos a assumirem as figuras e as máscaras da fauna e da flora, a pensar modos de expressão artístico-cultural no espaço público que levem a sério a tarefa de defender biomas devastados na época geológica do Antropoceno: “porque nos reconhecemos parentes de rios, pedras, montanhas e fungos, porque sabemos que biomas são seres de direito” (p. 148). A conjuntura intelectual em que este fenômeno pode ser enquadrado foi explorada com maestria pela tese de doutorado em filosofia de Juliana Fausto, a Cosmopolítica dos Animais (PUC-RJ, 2017, depois publicado em livro pela n-1).
O filme Eu Sou uma Arara, que carrega uma estética parcialmente inspirada por manifestos de Glauber Rocha, parece propor caminhos para uma “arte revolucionária que deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem até o ponto que ele não suporte mais viver nessa realidade absurda.” (ROCHA, Glauber. Eztetyka do SOnho, 1971, apud. pg. 151).
Esta absurdidade do real tem por emblema recente uma reunião ministerial, ocorrida em 22 de Abril de 2020, na qual o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recomendava “passar a boiada” em meio à pandemia de covid19, referindo-se à aprovação de medidas infralegais em prol do desmantelamento de normativas de órgãos como Ibama e Funai, que colocam algum freio na marcha devastadora do extrativismo e do desmatamento: “derrubar as normas de proteção das matas e florestas, sucatear os órgãos reguladores, desmantelar estruturas de fiscalização e punição de madeireiros e garimpeiros”, como bem resume Lagnado, eram as atrocidades institucionais promovidas pelo bolsonarismo que suscitaram a resistência contracultural que se expressa em Eu Sou Uma Arara, filme que tem “espessura ética” pois foi também cuidadosamente planejado a fim de que, através de seus enunciamos, faixas, estandartes, se pudesse “traduzir um ecossistema em vestimenta e coreografar a interação social dos corpos nas ruas.” (LAGNADO, op ct, p. 152).
A conjunção dos termos arte e ativismo no neologismo artvismo aponta para a superação do apartheid entre o campo artístico-cultural e o sócio-político. No caso de Reviravolta de Gaia, o artvismo vai na contra-corrente de expressões humanocêntricas e abraça a fauna e flora num movimento contrário ao avanço dos agrotóxicos, das serras elétricas, dos assassinatos de ambientalistas que fazem do Brasil o país mais perigoso do planeta para quem é ativista de pautas ecológicas. No cerne da práxis artístico-política das Reviravoltas de Gaia está a identificação com o outro-que-humano, a tentativa de encarnar um animal, produzindo assim um ser híbrido ou quimera que toma o asfalto da megalópole. Em seu artigo Já Eu Sou Um Sagui, Peter Pál Pelbart retoma retoma a emancipadora frase dos Bororo, “eu sou uma arara”, para desconstruir opiniões de antropólogos europeus, como Lévy-Bruhl, que enxergam na elocução dos Bororo apenas a mentalidade primitiva e pré-lógica típica do totemismo.
Para enfrentar o Antropoceno catastrófico com arte, talvez o que precisemos seja mesmo de um processo de humanos que deixam de ser demasiado humanos para performarem a bicharada hoje ameaçada pela espécie dominante do planeta. Não é à toa que a Reviravolta de Gaia emerge em um ponto da história brasileira onde a distopia do real atinge seu auge, assim como cresce a resistência à barbárie neo-fascista e ecocida representada não apenas pelo bolsonarismo, mas também pelas bancadas do boi, da bala e da Bíblia no Congresso Nacional e pelas forças empresariais interessadas em lucrar com a hecatombe de nossos biomas e florestas. Para Pelbart, é digno de ênfase que a Reviravolta de Gaia esteja em sintonia e convergência com eventos como o Acampamento Terra Livre, que em 2021 reuniu 6 mil pessoas de 127 etnias em Brasília, “gente dos mais remotos e inacessíveis rincões e florestas”: “nossa bicharada parecia ter nascido justo no momento de maior perigo, em que milhares de garimpeiros desavergonhadamente invadiam o território indígena com inteiro apoio do governo federal”:
“Da primeira vez que saímos a rua para chamar atenção do mundo para esse perigo já éramos um grupo de 20 bichos. A cada semana, apareciam novex voluntárixs: O crocodilo, a anta, o morcego, a raposa ticuna, o bicho preguiça, a borboleta azul, besouro, a Vitória Régia, o pica-pau, Água Viva, o polvo ao nos juntarmos a uma manifestação na Avenida Paulista, cada um de nós carregava um cartaz com algum enunciado, político cosmopolítico, de protesto ou afirmação. Bastou pisarmos na Avenida e meio aos manifestantes, e logo fomos longamente aplaudidos pela multidão, emocionada pelo que mais parecia uma miragem, uma aparição sobrenatural uma Alucinação Encantada… de fato, para os que nos olhavam espantados e maravilhados, não éramos apenas bichos, mas é Encantados – uma encantaria como nos nomeou a jornalista Eliane Brum. parecemos desafiar A pobre tradicional coreografia política, com suas faixas partidárias, formação militar, palavras de ordem ponto éramos os espíritos dos animais da floresta atravessando a cidade dos homens e dos negócios dos arranha-céus e da política. é preciso ouvir Eduardo Viveiros de Castro: tem espírito quem está na posição de sujeito, portanto dotado de intencionalidade. Mas não é um privilégio exclusivo dos humanos também os animais têm espírito ponto por mais mental, ralado ou imaterial que parece um espírito, ele se ingerem a partir de um ponto de vista, que forçosamente é o de um corpo. E um corpo nunca era matéria, porém o feixe de afecções, capacidades ou modo de ser ponto É nesse sentido que um corpo tem alma bom Pronto já estamos de hipótese do circuito a que se chama de perspectivismo ameríndio, corpo, afecções, ponto de vista, perspectiva, espírito, mundo, multiplicidade de mundo ponto dom de cortejo de implicações ontológicas, desde o transformismo cosmológico até as múltiplas realidades (multinaturalismo)”. (PÉLBART: p. 170)
Esta tese de doutorado (**), escrita em um contexto de agravamento das catástrofes sócio-ambientais no Brasil, interessa-se em ser caixa de ressonância e lócus de estudo das contundentes respostas por parte do campo artístico-cultural: o filme de ficção O Silêncio das Ostras (2025), de Marcos Pimentel, trouxe às telonas uma jornada distópica pelos territórios de Minas Gerais devastados pelos crimes da Vale e da Samarco; o artista contemporâneo do grafite Mundano realizou, através de um grande mural urbano na maior megalópole sulamericana, a obra “Operários de Brumadinho”, uma releitura de Tarsila Amaral realizada com tinta extraída da lama tóxica que aniquilou tantas vidas e biomas na catástrofe de Brumadinho; e o livro Reviravolta de Gaia, na companhia do filme Eu Sou Uma Arara, expôs uma insurgência artístico-cultural que expressa a cosmopolítica emergente em face de Gaia em tormenta.
O filme de Lacerda e Neuenschwander termina com uma frase lapidar, formulada pelo Coletivo Centelha para finalizar seu manifesto A Insubmissão da Natureza (p. 159 a 163): “nunca foi tão evidente a incompatibilidade radical entre o Capitalismo e a Vida.”
Esta ideia nos conduzirá ao próximo capítulo da tese, dedicado a sondar o tema do “Capitaloceno” e do “Negroceno”, propostas por autores como Jason Moore e Malcolm Ferdinand, propostas alternativas de se referir ao que se tem nomeado Antropoceno, dmbém de seus pressupostos colado o peso e a pegada não apenas da industrialização capitalista que se globalizou mas taoniais (a Conquista da América, a escravização de milhões de pessoas, o comércio transatlântico de escravizados por 3 séculos, fonte dos capitais que puderam ser investidos na Revolução Industrial). Reviravolta de Gaia serve-nos como emblema de uma revolta dos biomas na arte. Um abraço bem dado à estética decolonial, atenta às sabedorias indígenas ancestrais. Um experimento na arte sugerida por Donna Haraway: fazer parentes com seres outros-que-humanos no Chthluceno. Ao propor uma mímesis do gesto Bororo de identificação com a arara, o filme também aponta para a positividade de um devir-ave, de um devir-bicho, mas também de um devir-indígena, numa aproximação performática, em meio à selva de asfalto, às cosmovisões que nutrem os autênticos guardiões-guerreiros das floresta e de sua imprescindível biodiversidade, hoje em vertiginoso e assustador colapso.
Eduardo Carli de Moraes
Filósofo e jornalista
Professor de filosofia do IFG
(**) Doutorando em Filosofia da Arte na UFG

Publicado em: 13/01/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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