A ARTE VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947-1994): Labirintos negros de um doido que não se situa [OUÇA A DISCOGRAFIA COMPLETA!]

OS LABIRINTOS NEGROS DE UM DOIDO QUE NÃO SE SITUA: EXPLORAÇÕES DA OBRA VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947 – 1994)

 por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Talvez um dos adjetivos mais oportunos para definir o indefinível artista Sergio Sampaio seja visionário. Melhor, talvez, do que outro termo que costuma pintar pra dar conta do trampo difícil de rotulá-lo: maldito. 

Auto-definido como “um doido que não se situa”, Sérgio Sampaio parecia seguir os passos de Torquato Neto e estava aí para “desafinar o coro dos contentes”. Chamá-lo de visionário e de maldito já o inclui numa tradição artística que atravessa a História com as multiformes vozes da discórdia. Tanto que desde a Grécia Antiga já atuava esta figura do artista visionário, dionisíaco,

“aquele que elaborava em seu corpo as angústias de seu tempo, daí ser simultaneamente adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais.

Sem precisar ir às pulsões de vida e de morte estudadas por Freud, suspeito que talvez seja o convívio radical, por dentro, com o fracasso e o sucesso, com o paraíso e o inferno, com a criação e a destruição, que faz com que nos sintamos meio órfãos desses heróicos marginais que, parece, viveram intensamente por nós nossos desejos recalcados.

Recordá-los, como agora a Sérgio Sampaio, que quis procurar ‘viver além de mim’, não deveria ser um alimentar-se de ingênuas nostalgias e heroicizações, mas um ter na mente que o tempo é este agora eterno. Evoé.”

(SALGUEIRO, Wilbert. “Poesia e Vida, Enfim”. Ed. UFES, Vitória-ES, 2007, p. 27)

Em uma canção como “Ninguém Vive Por Mim”, Sérgio Sampaio revela-se como um dos maiores poetas na história do cancioneiro brasileiro, um rebelde avesso a todas as catalogações, um “boêmio cantor da lua”, pintor dos labirintos líricos de uma subjetividade incandescente, complexa, multifacetada: “eu, simples cantor solitário / entre malandros e otários / vivo o que sou / ninguém vive por mim.”


“Fui tratado como um louco, enganado feito um bobo
Devorado pelos lobos, derrotado sim
Fui posto de lado e fui um marginal enfim
O pior dos temporais aduba o jardim
Como um rato de bueiro, como um gato de calçada
Velho mendigo da rua, cão de butiquim
Disse adeus e fui embora, nada é mais ruim
O pior dos temporais aduba o jardim

E eu, boêmio cantor da lua
Doido que não se situa
Fui procurar viver além de mim
E eu, simples cantor solitário
Entre malandros e otários
Vivo o que sou, ninguém vive por mim

Tudo tem seu preço exato, ninguém vai pagar barato
Tudo tem seu peso certo, tudo tem seu fim
Escapei da armadilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim
Fui pro mato sem cachorro, numa de “ou mato ou morro”
Enfrentei um osso duro, duro de roer
Escapei dessa quadrilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim.”

Diante de figuras assim, que flertam com a loucura Rimbaudiana do “desregramento de todos os sentidos”, ficamos tentados a enxergar o grande artista como aquele que tem a capacidade de experimentar céu e inferno, delícia e fossa, ordem e caos, Apolo e Dionísio, para depois expressarem suas complexas experiências vividas enquanto criadores contra a corrente. 

Tal rebeldia é salutar. E uma sabedoria que aceite as borrascas e temporais por aquilo que podem nos legar de aprendizado (“o pior dos temporais aduba o jardim”) é inequívoca evidência de que estamos diante de um espírito livre Nietzschiano:

“Mesmo guiando carro na contramão esses quase-loucos legaram às gerações seguintes o desejo sadio da rebeldia criativa, sobretudo em tempos de nhenhenhém como os que vivemos. Rebeldia, diga-se pela justiça, rejuvenescida em vozes como as de Cazuza e Cássia Eller, por exemplos.” (SALGUEIRO, W. op cit, p. 19)


Estas últimas palavras, que evocam a salutar e sadia rebeldia criativa, são de um dos melhores artigos já escritos sobre a obra de Sérgio Sampaio, no qual Wilberth Salgueiro inspira-se no pensamento de José Miguel Wisnik para refletir sobre o legado artístico de Sampaio. Salgueiro faz “aproximações entre a obra musical do compositor capixaba e a Poesia Marginal, em especial a partir de aspectos temáticos comuns a ambos, como as drogas, a loucura, a morte, a repressão ditatorial, o amor e a solidão.” (op cit, p. 11)

Alguns poemas florescidos na sarjeta, nascidos da pena imunda dos poetas ditos “marginais”, servem para expressar um pouco do ambiente literário tão libertário quanto aquele que podemos nos deliciar em nossos encontros com a obra de Sergio Sampaio.

O poeminha (e também poemaço, pois tamanho não é documento!) de Guilherme Mandaro, aquele que diz “que não seja o medo da loucura / que nos obrigue a baixar / a bandeira da imaginação”, pode dialogar perfeitamente com o clima um tanto beatnik-hippie-carioca de “Que Loucura”, canção-de-hospício do Sérgio Sampaio dedicada a Torquato.

Uma canção, aliás, que também parece ter pitadas daquele mood que anima Um Estranho no Ninho, o romance de Ken Kesey adaptado ao cinema por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson, que deu voz eloquente ao movimento da “anti-psiquiatria” e propôs caminhos para os defensores da psicodelia místico-terapêutica.

Sérgio-Sampaio

“Fui internado ontem na cabine cento e três
Do hospício do Engenho de Dentro
Só comigo tinham dez
Eu tô doente do peito, eu tô doente do coração
A minha cama já virou leito, disseram que eu perdi a razão

Eu tô maluco da idéia, guiando o carro na contramão
Saí do palco e fui pra platéia, saí da sala e fui pro porão.”

Diante de figuras seminais na história de nossa cultura como Sérgio Sampaio e Raul Seixas, é incontornável colocar o tema da relação entre genialidade, loucura e consumo de drogas. Em outros termos: como é que alguém se torna “artista visionário”, uma chama viva de “rebeldia criativa”, senão através de uma experimentação, que pode beirar a temeridade, com a própria consciência?

É possível alguém tornar-se uma fonte jorrante de criatividade e originalidade se não vive numa busca permanente de expansão dos horizontes sensíveis e intelectuais? E que preço paga, em seu corpo e em sua mente, por metamorfosear-se neste médium que “elabora em seu corpo as angústias de seu tempo”, como diz Salgueiro?

O efeito da escuta atenta e prolongada das músicas de Sérgio Sampaio, alguém que “guia o carro na contramão” (“Que Loucura”), um “doido que não se situa” (“Ninguém Vive Por Mim”), é fazer-nos mais abertos à possibilidade que o gênio artístico muitas vezes avizinha-se do que a normopatia reinante concebe como loucura, a-normalidade. Mas o que seria da música brasileira sem nossos sublimes doidos, nossos deliciosos malucos beleza?


“Enquanto você se esforça pra ser
Um sujeito normal e fazer tudo igual
Eu do meu lado, aprendendo a ser louco
Um maluco total, na loucura real
Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez
Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza!”
Raul Seixas


“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu e brrrrr…
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
Que não é feliz, não é feliz!”
Os Mutantes

Enlouquecer, para o poeta visionário, vira “enloucrescer” (para emprestar um neologismo cunhado por Drummond). Ou seja, enloucrescer é crescer para além dos muros da normalidade, para um grau superior de percepção do espaço-tempo: não faltam “malucos-beleza” tupiniquins, como Raul Seixas e Arnaldo Baptista, somando-se aos gringos, como Syd Barrett e Skip Spence (entre outros), que apostam na via lóki de libertação da criatividade. Sérgio Sampaio merece um lugar de destaque entre estes sagrados doidões.

Com suas doiduras geniais demais eles questionam a validade e o mérito dos atuais modelos de representação do normal e do patológico. Verdadeiros gênios da arte e da filosofia – de Van Gogh a Artaud, de Nietzsche a Genet – podem ser depreciados por detratores como meros doidos e junkies. Mas eis uma má apreciação que muitas vezes provêm dos demasiado apegados aos modelos de sanidade vigentes, quando sabemos muito bem, depois de Arendt e Milgram, quão horrendamente cruéis foram aqueles “cidadãos normais e respeitáveis” como os Eichmann, os Pinochets, os Fleurys…

Que holocaustos, que chacinas do Carandiru, que Ditaduras sanguinárias e Pinochetescas, já não cometeram estes homens que se achavam “normais” – e mais que isso: dotados da missão celestial de impor aos outros os esteréotipos de normalidade com que foram nutridos e dos quais eram crédulos defensores!

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“Em brilhante ensaio intitulado Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados, José Miguel Wisnik vincula ao ‘olhar visionário’, como experiência concreta, um radical deslocamento da noção temporal. Do estar sob a ação da droga ao discursar sobre os efeitos dela, em especial no campo da dicção poética, um caminho complexo se percorre. O que aproximaria poetas, videntes e drogados seria exatamente esta visão diferenciada do tempo e do espaço: ‘toda distância ou nenhuma’.

Remontando à Grécia antiga, Wisnik recorda que o visionário, “enquanto canalizador (e formulador) da angústia e da violência social” (p. 285), é adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais. (…) Historicamente, no entanto, o neo-romantismo hippie (herdeiro da geração beat) alimenta a vontade contracultural dos anos 1960 e 70, avessa à regularidade e à ordenação do tempo capitalista, firmado numa ideologia que soma desempenho e produtividade.

Hoje, em suma, verificamos uma quase completa banalização do mundo da droga, já desinvestida de aura e transcendência, e tornada um rentável negócio pelos conglomerados do tráfico globalizado e bélico. Os belos paraísos artificiais de Baudelaire viraram paraísos financeiros para uns, e infernos sem saída para uns outros.” (SALGUEIRO, op cit, p. 13-14)

Qualquer discussão lúcida e aprofundada sobre a função social da arte precisa abordar de modo livre-de-tabus a questão dos phármakons, das substâncias de alteração da percepção, dos expansores de consciência que instauram “uma visão diferenciada do tempo e do espaço”. Temos que enxergar a questão das drogas para além dos discursos policialescos que pretendem criminalizar todos os usuários de entorpecentes ilegais (discurso proibicionista que pede o favor de consumir somente drogas legais, ou seja, àqueles que sirvam aos interesses de mega-corporações farmacêuticas! Dê dinheiro, por favor, à Bayer-Monsanto e não ao brother que planta cannabis no quintal…). 

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Raul Seixas e Sérgio Sampaio

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Talentos imensos como os de Sérgio Sampaio ou de Raul Seixas são uma afronta “patológica” aos cabrestos e dogmas reinantes, inclusive aqueles que querem confinar nossas personalidades nos estreitos moldes de nacionalismos, patriarcados, racismos, sectarismos e outros ismos limitantes. E colocam em debate a questão da qual não se pode desviar se quisermos alguma compreensão de que como foi possível o nascimento de obras tão inacreditáveis, tão magníficas: até que ponto estas obras nunca teriam acontecido a não ser em dependência relativa das experiências com drogas de seus cantautores? O quão “visionários” poderíamos nos tornar caso nos fosse dado o direito de sermos psiconautas em cosmológica exploração, nas asas dos vegetais acachapantes e dos psicodélicos sintéticos?

Jorge Luis do Nascimento, doutor em literatura pela UFRJ, pontua que Sergio Sampaio tem como de seus traços marcantes uma poética caracterizada por um

“lirismo existencial e possibilidades utópicas que aparecem compondo um retrato interessante do homem contemporâneo. (…) A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio possui a fúria modernista, porém o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices / ícones da paisagem urbana contemporânea.”  (NASCIMENTO, p. 32)

Quando Sampaio escreve sobre “Brasília”, a capital federal, em canção presente no disco póstumo Cruel, evoca “o olho do amor” que “desconhece a armadilha” – “assim ver Brasília”. Ele enxerga a cidade modernista, os monumentos de Niemeyer e Lúcio Costa, o mamute arquitetônico e urbanístico dos Anos JK, o emblema daqueles  50 anos supostamente condensados em 5, a cidade-avião com suas asas abertas no território, através de um viés muito peculiar:

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“esse olho do amor, desejoso de outridade, percebe algo – vislumbrado na natureza da lua, do sol, da noite, ou mesmo na artificialidade do lago fabricado, atrás das quadras, as quadrilhas que infestam aquela cidade futurista do Planalto Central, que tão bem simboliza a busca da modernidade desenvolvimentista perdida. E que tão bem representava – e representa – o poder das quadrilhas oficiais que tomaram o poder no Brasil ditatorial, e que continuam formadas e impunes a governar nossas vidas…” (NASCIMENTO, op cit, p. 40)


“Quase que ando sozinho por todos os bares
Freqüento lugares, Namoro suas filhas, Brasília.
E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião,
E mesmo com o ar desse jeito, tão seco, consigo cantar no seu chão.
Quase que me sinto em casa em meio a suas asas
E “Ws” e “Ls” e eixos e ilhas, Brasília!

Cidade que um dia eu falei que era fria, sem alma, nem era Brasil,
Que não se tomava café numa esquina
Num papo com quem nunca viu.

Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília.

Ver o que há, Paranoá
Lago de sol, noite, lua.
O olho do amor desconhece a armadilha .
Assim vim ver Brasília…

Quase que me sinto bem distraído em suas quadras,
tão bem arrumadas, c
om suas quadrilhas, Brasília.
Concreto plantado no asfalto do alto, o céu do planalto onde estou
Aqui na cidade dos planos conheço um cigano que não se enganou.
Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília…” 

Já sobre a “Cidade Maravilhosa”, para onde mudou-se em 1967 em busca de uma carreira como radialista e músico, Sérgio Sampaio também nos legou interessantes retratos, caso daquele Rio de Janeiro que aparece em “Filme de Terror” ou “Pavio do Destino”. Na primeira, Sérgio Sampaio passa o clima dos anos 70 do Brasil que vive sob o jugo do AI-5, decretado em 1968 no “golpe dentro do golpe” que fez recrudescer a ditadura militar-empresarial instituída pelos tanques em 1964:

Já “Filme de Terror” traz “dados pontuais da Cidade Maravilhosa” que estão “potencialmente vinculados ao momento histórico, quando o terror de Estado estava em seu ápice no Brasil”, destaca Nascimento.

“O refrão, além de ser foneticamente muito rico, trata de dois lugares específicos: o cemitério do Caju (bairro pobre da zona portuária) e o Cine Império da Tijuca (cinema do bairro de classe média da zona norte da cidade). A mim a alusão me parece clara: no bairro da Tijuca também situado o quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, para onde os suspeitos e inimigos do Estado eram levados para serem interrogados, torturados e/ou mortos. Assim, notamos que o filme de terror que ‘passava’ no Cine Império da Tijuca ‘se passava’ também no quartel da P.E…” (NASCIMENTO, op cit, p. 43)

Já Silvio Essinger, que citaremos na sequência em extensão, discute muitas coisas interessantes, a começar pela atribuição do selo de maldito à Sérgio Sampaio e seu antagonismo em relação ao mundo do pop-stardom de que é emblemática a Jovem Guarda e seu conterrâneo Roberto Carlos:

“Integrante de um grupo de artistas que, à revelia (principalmente) deles próprios, acabariam sendo rotulados de “malditos” ao longo dos anos 70 (Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé e Walter Franco incluídos), Sampaio não teve tempo de esperar a redenção, por mais secreta que fosse. O disco que planejava lançar em 1994, depois de 12 anos sem gravar, esbarrou num problema: a morte do artista, no dia 15 de maio, após uma crise de pancreatite, previsível diante das angústias e abusos alcoólicos cometidos ao longo de 47 anos de vida. Foram necessários mais 12 anos para que as derradeiras (e incompletas) gravações chegassem ao CD “Cruel”, empreitada de um aplicado discípulo, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, que com esse lançamento inaugura seu selo independente Saravá Discos.

Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Como lembra Essinger,  “esta cidade que entraria para a história da música brasileira por causa de um primo do cantor, Raul Sampaio Crocco (que compôs “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na era de ouro do rádio), e principalmente, claro, de Roberto Carlos (que, inclusive, regravou o “Cachoeiro”). Sérgio se beneficiou bastante da discoteca do primo, onde podia complementar a sua dieta de Orlando Silva e Sílvio Caldas que crescera ouvindo no rádio.

Ao mesmo tempo, acompanhava o crescimento artístico de Roberto a uma certa distância – inicialmente, a sua pretensão não era a de ser cantor, mas locutor de rádio, e assim poder viver toda a boemia que Cachoeiro (e mais tarde o Rio de Janeiro) pudessem lhe proporcionar. Quando veio o sucesso com “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, vieram também as comparações com o conterrâneo – Sampaio seria “o sucessor de Roberto”, segundo uma revista popular. Não poderiam ser mais antagônicos os dois personagens.

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O ANTI ROBERTO CARLOS – “Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que Roberto canta é totalmente diferente do que eu canto. Inclusive, acredito que os objetivos de Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus”, diria Sérgio Sampaio em 1989. “No entanto”, pontua Essinger, “ele não deixou de alimentar o desejo de ter uma música gravada pelo Rei, com quem poucas vezes cruzou, mas que mandara a ele um pedido de canção por meio de um assessor, no calor do sucesso do disco Eu quero é botar meu bloco na Rua (1973)”

Essinger prossegue:

“De uma conversa com Odair José (o “cantor das empregadas”, maldito da MPB por diferentes razões, que também sonhava em ser gravado por Roberto) veio a Sérgio a idéia de “Meu Pobre Blues”, uma canção amarga, feita não para o astro gravar – mas para ele ouvir e botar a mão na consciência. “E agora que esses detalhes/ já estão pequenos demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/ com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar”, cantava ele, reconhecendo a impossibilidade de compor para o Rei.

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O PRIMO, RAUL SAMPAIO, CANTA CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM:

O “REI” MIDIÁTICO E POP STAR, ROBERTO CARLOS:

O CANTAUTOR “MALDITO” E SEU “POBRE BLUES” – SÉRGIO SAMPAIO ENDEREÇA-SE AO “REI”:

Mas se Roberto Carlos era o antípoda e o antônimo de Sérgio Sampaio, um futuro nome cultuadíssimo da nossa música pode ser considerado como uma espécie de alma gêmea de Sérgio Sampaio: Raul Seixas. Em 1971, época em que o capixaba vivia como mendigo-hippie no Rio, em busca do sustento e de alguma chance como músico, ele esbarrou com o roqueiro baiano, dois anos mais velho que ele, à época empregado na CBS como produtor de artistas do núcleo comercial da gravadora, como Jerry Adriani, Renato & Seus Blue Caps, dentre outros.

“Eu fui à gravadora apenas acompanhar no violão um rapaz que ia fazer teste para cantor e compositor [Odibar, parceiro de Paulo Diniz]”, contou Sérgio em entrevista de 1973. “Senti que Raulzito não gostou da composição do cara. Realmente, era fraca. Mais do que depressa, apresentei uns trabalhos meus. Ele gostou e eu fiquei.”

Tornaram-se amigos imediatamente. Promoviam insólitos concursos de magreza (que Sérgio vencia) e influenciavam-se mutuamente, com Raul mostrando o rock a Sérgio e este tentando lhe mostrar o samba (consta que deu ao amigo um disco de Paulinho da Viola que o baiano tirou da vitrola logo no primeiro chiado da agulha).

Sampaio seria o cúmplice de Raul numa traquinagem perpetrada por ele enquanto o diretor da CBS viajava: o disco “Sessão das 10”, de uma tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, composta pelos dois, a sambista paulistana Miriam Batucada e o baiano desbundadíssimo (e assumidamente homossexual) Edivaldo dos Santos Araújo, o Edy Star.

Esse disco, que a matriz da CBS mandou de volta ao Brasil com um telegrama perguntando “what is this?”, acabou sendo a estréia de Sérgio Sampaio em LP. Uma colagem anárquica, influenciada tanto pelo tropicalismo quanto por Frank Zappa e os Mothers of Invention, trouxe  “Chorinho Inconseqüente”, “Todo Mundo Está Feliz” e “Eu Não Quero Dizer Nada”, algumas das mais sarcásticas músicas do compositor (ao menos, as que conseguiram passar pela Censura…).

Compreensivelmente, o disco foi recolhido e tanto ele quanto Raul logo estariam fora da gravadora. Sampaio tinha uma música nova, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, um grito surdo contra o estado de coisas na ditadura, que inscrevera no Festival Internacional da Canção de 1972, junto com “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”, de Raul.

“Fiz a canção num momento de angústia bastante grande, eu sozinho comigo cantando, e sentia que ela tinha um poder. Depois, mostrei para Raul e ele mesmo disse: ‘Pomba, é isso aí, dá pé, esse negócio aí é legal’”, disse Sérgio, que gradualmente a viu se transformar num sucesso.

O “Bloco” abriu as portas da Philips para a gravação de um compacto (que vendeu mais de 500 mil cópias) e de um LP, produzido por Raul Seixas (que já estava lá por causa do “Let Me Sing”), a ser batizado com o título da música. “A grande importância dessa canção é ter sido lançada numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca para falar qualquer coisa”, dizia o artista, que viu sua vida mudar de uma hora para outra. De repente, virara um astro, com toda a tietagem, espaço absurdo de mídia e dinheiro a que tinha direito.

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Quanto ao LP, um dos mais surpreendentes da MPB daquele 1973 – ano em que também estrearam no bolachão nomes como Raul, Secos & Molhados, Luiz Melodia e Walter Franco -, nada aconteceu. Mesmo com músicas do quilate de “Filme de Terror”, “Cala a Boca, Zebedeu” (samba do maestro Raul G. Sampaio, pai de Sérgio), “Pobre Meu Pai” (depois da homenagem, uma crítica ao autoritarismo do progenitor), “Viajei de Trem” e “Raulzito Seixas”, a adversidade da crítica (que o comparou a Caetano), a irritação com as cobranças por um novo “Bloco”, o cansaço do artista com a fama e a simples falta de vontade de promover o lançamento (o que foi agravado pelo fato de Sérgio viver seu momento mais tresloucado, em noites viradas de pó e bebida) acabaram por sabotar o trabalho.

“Esse disco fez um estrago danado lá em casa. Ele tem uma mágica, até hoje eu ouço e me emociono, ele me remete à infância, aquele ambiente familiar, dos meus irmãos tocando ‘Cala a Boca, Zebedeu’, o ‘Bloco na Rua’… É um daqueles discos da vida”, conta Zeca Baleiro, um dos poucos (mas felizes) a quem o disco atingiu na época.

Anos mais tarde, Sampaio deu sua explicação para o fracasso: “O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar, profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas eu não fazia isso conscientemente, era apenas uma postura de vida”.

Daí em diante, ele e Raul Seixas seguiriam caminhos distintos, mas paralelos. O roqueiro viveria alguns anos de estrondoso sucesso nacional (com “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”) e em seguida o ostracismo, a morte (em 1989, pelos mesmos excessos de bebida, drogas e paixão de Sérgio) e a posterior ressurreição, como uma lenda ainda maior do que era em vida. Já o amigo…

“Essa história de margem, acho que sempre vou correr por aí, até o fim da minha vida”, dizia Sampaio. Inspirado pelo poeta suicida Torquato Neto, ele compôs logo em seguida “Que Loucura”. Apesar do que se dizia, dado que Sérgio jamais abdicara da boemia selvagem, transferida em meados dos anos 70 para o Baixo Leblon, ele se considerava absolutamente são. “Se um dia acontecer de eu ser internado num hospício, uma coisa certa, bastante certa, é que é uma tramóia, é uma armação”, disse.

17-de-maio-sergio-sampaio-em-1981-um-ano-antes-de-lancar-sinceramente-foto-4Um confesso não-músico (“toco no violão como quem toca o corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas”), que buscava inspiração nas vidas alheias mais que na sua (“As intrigas, as cafajestadas, as manifestações de hombridade, de generosidade, carinho, gosto de tudo o que vem do ser humano, do pior ao melhor, do mais gostoso ao mais tétrico…”), Sérgio saiu da sala e foi para o porão: encontrou seu espaço nos centros culturais da Zona Norte e Baixada Fluminense, onde seguiu fazendo shows enquanto as casas nobres da MPB o desprezavam.

Gravou, pela Continental, em 1976, o disco “Tem Que Acontecer” (mais voltado para o samba, com clássicos como o “Que Loucura”, “Velho Bandido” e a faixa-título) que também não aconteceu em sua época. Mas ele foi adiante. Teve música gravada por Erasmo Carlos (“Feminino Coração de Deus”), conheceu novos parceiros como Sérgio Natureza (que o definiu como “um peixe muito vivo, nadando contra a correnteza”) e a arquiteta Angela Breitschaft, mãe de seu único filho, João (nascido em 1983), e grande batalhadora para que ele lançasse seu último disco em vida, o independente “Sinceramente” (1982), que conseguiu vender poucas de suas 4 mil cópias devido à falta de divulgação.

Mesmo desanimado com sua situação e a da música popular brasileira em geral (em 1989, dizia: “eu gosto muito de Lobão, de Cazuza… Mas a música de hoje é muito mais para chatura do que pra interessante”), Sérgio continuava compondo e chegou a gravar em Salvador, com voz e violão, algumas das músicas para aquele que seria seu disco de 1994, a ser lançado pelo selo paulista Baratos Afins, de Luz Calanca.

A essa altura, Zeca Baleiro deixara de ser o garoto fã e se tornara cantor e compositor – quatro anos depois, faria bastante sucesso com a regravação de “Tem Que Acontecer”, lançada no disco-tributo “Balaio do Sampaio”, organizado pelo parceiro (e grande amigo) Sérgio Natureza.

Zeca conhecera Sérgio em 1989 num show no Rio de Janeiro. “A gente tomou umas cervejas e, na época, eu e mais quatro amigos estávamos editando uma revista cultural lá no Maranhão que se chamaria ‘Umdegrau’”, conta. “E a gente queria um entrevistado, um nome nacional. Fiz o convite e ele topou. A gente mandou as perguntas e ele levou tanto tempo para responder que quando ele mandou as respostas a revista já tinha saído (risos). No fim da fita com a entrevista, ele gravou uma música, sem que a gente pedisse. Uma amostra do que ele estava fazendo. É uma canção linda, uma espécie de samba-canção meio Cartola, mas com uma letra moderna.”

Era “Maiúsculo”, música que encerra “Cruel”, o disco que o maranhense lançou depois de recuperar eletronicamente as gravações originais de Sérgio e vesti-las com um instrumental contemporâneo mas sóbrio. Os sambas “Roda Morta (Reflexões de um Executivo)”, “Polícia Bandido Cachorro Dentista” e “Rosa Púrpura de Cubatão” (que João Bosco tirara do ineditismo no “Balaio”) vieram da gravação de boa qualidade da Bahia. Os registros de outras como “Pavio do Destino” (dolorosa reflexão sobre as vidas dos meninos das favelas) e “Quem é do Amor”, por sua vez, vieram de uma fita cassete, já que as matrizes haviam se perdido.

Já a faixa-título (que o amigo Luiz Melodia transformara em sucesso no disco “Acústico”, de 1999 – o primeiro de sua carreira a vender mais de 100 mil cópias) teve voz e violão extraídos de uma gravação caseira de qualidade ainda pior. Zeca optou por organizar as músicas no disco de forma a que os registros de Sérgio mais precários – meio como se ele fosse sumindo – ficassem para o final. Coube a “Maiúsculo”, cheia de barulhos da rua e de portas batendo ao fundo, encerrar “Cruel”, com um pungente efeito de despedida.

“Acho que se o Sérgio tivesse sobrevivido, hoje ele estaria num lugar muito mais confortável, como aconteceu com o Tom Zé e com o próprio [Jards] Macalé. Sem aquela ilusão do grande sucesso”, acredita Zeca Baleiro. “Um lugar confortável, um lugar minimamente justo. Porque o Sérgio amargou um ostracismo muito grande nos anos 80. O trabalho que ele fazia, apesar de ter informações do rock e do pop, era muito out para aquela época. Quando veio um tempo de maior tolerância e respeito, de uma coexistência possível entre os gêneros, que foi a partir dos anos 90, seria o momento de ele se estabelecer.” No entanto, Sérgio Sampaio era o primeiro a exprimir a impressão, típica do poeta romântico, de que o seu sucesso poderia ser póstumo: “O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando Pessoa, em vida, ninguém lia. E hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos”. Mas Zeca sonhava com um pouco mais de generosidade do pavio curto do destino: “Sérgio não parecia ter vocação para o sucesso, porque era um cara muito temperamental, irascível. Mas talvez agora a idade trouxesse para ele uma serenidade”. ” – SILVIO ESSINGER, “O mais maldito dos malditos”

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Em seu artigo Nos Trilhos Sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção), o Diego de Moraes, cantor e compositor muito influenciado pela obra e pela persona de Sampaio, destaca a canção “Viajei de trem”, “com seus versos angustiados e sintomáticos de um período histórico obscuro”, onde o eu lírico lastima: “minha lucidez nem me trouxe o futuro”.

 Nos três álbuns já lançados pelo Diego – Parte de Nós, da banda Diego e o Sindicato; Diego Mascate; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; – fica evidente a intensa influência exercida pelo lirismo Sampaiano sobre uma das obras mais geniais já gravadas em Goiás. Através das gerações, Sergio Sampaio segue sendo semente e, como escreve Diego, “o sucesso do Bloco permanece, agradando a gregos e troianos e divulgando esse gênio, poeta do riso e da dor”.

Como prova de que um artista é fecundo e imorredouro está a possibilidade de múltiplas e renovadas interpretações de sua obra. Sérgio Sampaio passa folgado neste teste, pois suas canções seguem capazes de despertar em nós uma ampla gama de reações, diferentes daquelas que evocavam na época em que pintaram na praça e tomaram de assalto as ruas.

Emblemática não só de uma carreira, mas também de uma época, é a canção-título do classicaço Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (1973)é uma daquelas músicas que merece que nos demoremos nela e enxerguemos seus detalhes, suas sutilezas, suas aberturas à nossa contribuição, seu caráter de obra aberta. Sérgio da Fonseca Amaral, professor de teoria literária da UFES, escreveu um bom roteiro de exploração da canção.

“Partindo em definitivo para o Rio em 1967, Sérgio Sampaio procurava iniciar uma carreira de locutor de rádio, mas o que prevaleceu foi o músico em busca de sua chance. Esse ano ainda não conhecia o AI5, marco do recrudescimento da ditadura militar. A carreira efetiva do cantor/compositor seria de fato iniciada na fase mais implacável da ditadura do governo Emílio Garrastazu Médici. Época de perseguições, torturas e assassinatos de opositores em escalada progressiva. No Brasil, naquele momento em que a juventude dos países mais industrializados vivia o sonho do desbunde, do flower-power, do faça amor não faça a guerra, do maio de 68, do I’m Going To San Francisco, dos Beatles, entraríamos numa atmosfera cinza de um mundo em que a desconfiança, a vigilância, a perseguição e a violência lhe eram imputadas antecipadamente pelos aparelhos repressivos. O Estado olhava o sujeito de esguelha. Era-se culpado por suspeita.” (AMARAL, p. 54)

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval…
Eu quero é botar meu bloco na rua

Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Quando Sampaio finca esta pérola no imaginário artístico dos anos 1970, botar o bloco na rua, no caso, não era mera celebração festiva do carnaval. Estávamos em um cenário cultural que havia sido efervescido pela irrupção do Tropicalismo, pela “era dos festivais” e pelos fenômenos midiáticos como os pop stars da Jovem Guarda, e é neste contexto que “Bloco Na Rua” explode como uma espécie de samba-dinamite, crônica de seu tempo, em que manifesta-se, segundo Amaral, a terceira das

“três vertentes ou caminhos tomados por alguns nomes da música brasileira naquele momento: 1) o da simples inserção no chamado sistema comercial, sem veleidades críticas; 2) o do combate, direto ou alegórico, com músicas denunciando o ambiente de sufoco; e 3) o do desbunde, desapontando caminhos. Arrisco a enquadrar Sérgio Sampaio àquele terceiro grupo em que o desbunde foi o caminho encontrado para, de um lado, desprezar tanto a ditadura quanto a guerrilha política ou cultural, e, de outro, procurar uma saída pela música e por um comportamento no qual o espectro da contracultura dinamizava a ação.

É nessa interseção que uma sociedade alternativa se revelava como uma idéia a ser conquistada: no fora de tudo que cercava aquele contexto sócio-cultural. Dessa maneira, gerava-se uma contradição gritante: recusava-se o aparato da lógica empresarial, mas os arautos de uma nova ordem só ultrapassariam as fronteiras do mundo constituído pela reprodutibilidade técnica implantada pela indústria fonográfica. É dentro de tal lógica que Sérgio Sampaio foi para o Rio de Janeiro batalhar por uma carreira artística, mas, ao conseguir o feito, em seguida driblava e fugia da pompa circense que a indústria requeria: quer dizer, o artista se recusava a ceder aos holofotes espetaculares da indústria cultural e da embalagem que envolve toda e qualquer obra ao ser transformada em mercadoria. (…) O refrão da música se apresenta como um desbunde, estar pronto para a entrega do corpo ao erótico, ao lúdico, à alegria da festa popular. No entanto, pode-se também ler a estrofe sob o signo da conotação política, do grito de guerra solto no ar, conclamando que a rua é o lugar de encontro e ajuntamento e ação.” (AMARAL, op cit, p. 58)

O carnaval, nesse sentido, não é mera fuga de um cotidiano asfixiante, efêmera folia que depois nos deixa o amargor de ver “tudo se acabar na quarta-feira”; o carnaval tem potencial político, algo que Wilson das Neves escancarou em um dos sambas mais revolucionários da história, “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval” (parceria com Paulo César Pinheiro). Em seu artigo, Amaral destaca, sobre a canção de Sergio, que

“sendo o carnaval uma festa popular e a única atividade que movimenta uma quantidade grandiosa de gente num espaço aberto, colocar o bloco na rua pode significar que a força popular se faz, primeiro, no encontro, depois na multiplicação e na inteligência de um grupo com suficiente química para fazer o bloco passar e perseguir um objetivo comum: gingar, para dar e vender. A rua, de qualquer maneira, seria o único lugar para se resgatar e construir a liberdade de expressão. (…) Há uma proposta de transformação radical misturada com uma alegria arrebatadora que só a festa pode dar, pois ali é onde todos costumam se desarmar. (…) Não é uma louvação da pura rebeldia, mas de um mundo anárquico cujo poder seria horizontal e serpenteante como a evolução de um bloco.” (AMARAL, op cit, p. 58)

Quando Sergio Sampaio conclama “eu quero é todo mundo neste carnaval” – em radical contraste ao futuro Bloco do Eu Sozinho dos Los Hermanos – está desfraldando as bandeiras de uma utopia radical-democrática, horizontalizada, em que o lúdico é visto em todo seu potencial libertário. Parece-me que isso faz uma provocação àquelas vertentes da esquerda que são mais ascéticas sérias; Sérgio Sampaio parece assinar embaixo do que dizia Emma Goldman (1869 – 1940): “Se não posso dançar, não é minha revolução.

Através da canção, através da série de “há quem digas”, Sérgio Sampaio debate com as vertentes de ação política que, durante a ditadura, pregavam a guerrilha armada. “Há quem diga que eu fugi da briga / Que eu caí do galho / E que não vi saída / Que eu morri de medo / Quando o pau quebrou.” Segundo a interpretação de Amaral, o apelo para “botar o bloco na rua” também tem um significado de contestação da própria mensagem guerrilheira – Sérgio Sampaio parece mais próximo a Garrincha do que de Marighella!

“Colocar o bloco na rua passa a significar me deixem em paz! Quero seguir meu próprio caminho. Tal escolha num momento que qualquer laivo de preocupação consigo mesmo corria o risco de ser taxado, com desprezo, de pequeno-burguês é agressivamente libertado, pois a ação política requeria encerrar fileiras num projeto de demanda coletiva contra a violência do Estado. Pelo lado oposto, não havia um maior interesse de se dar bem na boquiaberta boca do milagre da euforia econômica do Brasil Grande da ditadura. Qualquer mundo ofertado dentro do esquema tradicional de poder constituído e de quem queria derrubá-lo não era aceito como uma verdade incontestável. Por isso, maldito, por isso, porra louca, por isso, marginal. A inalcançável terceira margem.

Creio que se pode afirmar, a partir de tal composição, que para uma situação alvoroçada como aquela, só mesmo ficando perturbado da idéia para encontrar um ponto de fuga onde se firmar para bem longe das certezas que petrificavam tanto uns, quanto outros postos em cada margem do naufrágio. (…) A letra traz, como um caleidoscópio, todos os lados envolvidos naquele conflito: do existencial ao político, do partidário ao econômico.” (AMARAL, op cit, p. 61-62)

Disseminador de poesia libertária, este gênio criativo que se auto-entitulou ironicamente “Velho Bandido”, este sábio-louco que vivia por si (“Ninguém Vive Por Mim”), parece-me também um tanto similar em espírito a Leminski (o bandido que sabia latim) na profundeza de seu amor fati e sua vivência fiel ao “não discuto com o destino / o que pintar / eu assino”. Sérgio Sampaio também é alguém que sempre ajuda-nos a aliviar os fardos das barras pesadas que esta vida insiste em nos aprontar (“o que pintar pintou / no que pintar eu tô, minha nêga / mesmo que a barra pesou”).

Num país que teve tantos poetas-da-música brilhantes-refulgentes (Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza, Gilberto Gil etc.), Sérgio Sampaio até mereceria um lugar neste panteão caso ele não tivesse, ao que parece, um pouco de asco pelo pop-stardom, pela canonização. Foi um artista em estado de selvageria e efervescência, alguém em busca permanente e avesso a todas as petrificações, um compositor popular que sabia da solidão (“ninguém vive por mim”), da morte (“não ligue que a morte é certa”), das aflições e delícias do amor e seu périplo de dor – e que viveu botando nas ruas e nas rádios os blocos utópicos com os quais pretendeu estabelecer o nexo, o abraço, o laço, a confluência cotidiana de Poesia e Vida. Indissociáveis.


“Não fui eu nem Deus
Não foi você nem foi ninguém
Tudo o que se ganha nessa vida
É pra perder
Tem que acontecer, tem que ser assim
Nada permanece inalterado até o fim
Se ninguém tem culpa
Não se tem condenação
Se o que ficou do grande amor
É solidão
Se um vai perder
Outro vai ganhar
É assim que eu vejo a vida
E ninguém vai mudar…”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2016

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, Sérgio da FonsesaFugir (pras veredas). In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

ESSINGER, SilvioO Mais Maldito Dos Malditos.

MORAES, Diego. A sinceridade de Sérgio Sampaio (Senhor F) Nos trilhos sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção).

MOREIRA, Rodrigo. Biografia em Viva Sampaio.  Ele é o autor da biografia Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua – Edições Muiraquitã, 2000.

NASCIMENTO, Jorge LuizLugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

SALGUEIRO, Wilbert. Notas: Tentando ouvir-me em Sérgio Sampaio nos anos 70. Revista Contexto, #11 – Vitória: UFES, 2004. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

WISNIK, José Miguel.Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados”In: O Olhar, Cia das Letras, org. Adauto Novaes.

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SERGIO SAMPAIO >>> DISCOGRAFIA
OUÇA / BAIXE:

SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA (1971), COM RAUL SEIXAS [DOWNLOAD]

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (1973) [DOWNLOAD]

TEM QUE ACONTECER (1976) [DOWNLOAD]

AO VIVO (1991)

AO VIVO (1992)

sinceramentecapaSINCERAMENTE (1982)
[DOWNLOAD]

CRUEL (2006, póstumo, prod. Zeca Baleiro) [DOWNLOAD]

CACHOEIRO EM TRÊS TONS (DOCUMENTÁRIO)

SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA – Por Tamyres Maciela

SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA
por Tamyres Maciela

Quando alguma pessoa se propõe a trabalhar com som ao vivo em bares, restaurantes ou passando o chapéu nas ruas, a tomada de decisão mais fundamental é a escolha do repertório. Espera-se da profissional musicista que demonstre seu desempenho sobretudo a fim de agradar ao máximo o público das casas. Nas ruas, quanto mais original e divertida a performance, maior serão as contribuições no chapéu.

Devido a alguns fatos: 1º influência das músicas que tocavam nas festas de família na infância e 2º ter começado os estudos de repertório na década de 2000, minhas primeiras escolhas repertorísticas (se me dão licença pra um neologismo) basearam-se fortemente nos clássicos dos anos 80/90, como Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Engenheiros do Havaí e outras consagradas. Na época tinha os DVDs Acústico MTV, que traziam até legendas com cifras, além daquelas releituras de artistas consagradas, a coleção Um barzinho e um violão, por exemplo.

Acredito que nossa formação social esteja diretamente relacionada às influências musicais que marcaram nossas histórias. Meu gosto musical nacional foi construído com aqueles sons regionais que falavam da preservação e riqueza da natureza (Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elba Ramalho), amor em suas mais diversas formas (Renato Russo, Cazuza, Cássia Eller, Nando Reis), e críticas ao sistema político, que até dispensa exemplos, porque 100% das bandas que sempre gostei apresentam ao menos uma música que critica a postura profissional de grande parte dos parlamentares do Congresso Brasileiro.

Até o final da década de 2000 tava suave tocar no violão o ritmo básico que chamamos de “chá com pão”. Mas aí entraram os anos da faculdade, década de 2010, em que minha formação foi plural e multi-diversa. No âmbito da formação musical, vi vários shows, fiz parcerias com musicistas veteranos e passei a ouvir e reproduzir coisas mais atemporais, produzidas sobretudo nas décadas de 70/80, tipo Mutantes, Secos e Molhados, Sérgio Sampaio, Cátia de França, Novos Baianos, Elis Regina, Chico, Gil, Gal, Caetano, Tim Maia, Rita Lee, Tom Zé, Clara Nunes, Milton, Clube da Esquina, entre outros nomes que passaram a me inspirar, tanto pela qualidade sonora quanto pelos posicionamentos políticos.

Hoje em dia, o repertório escolhido para as apresentações musicais continua na linha que aprendi nos tempos da universidade, além das ainda tímidas músicas autorais. É curioso perceber que grande parte do público dos bares se mostra muito apegado às canções produzidas pela leva de musicistas dos anos 80/90. É muito comum se deparar com pedidos de músicas como “La Belle de Jour” do Alceu, “All Star” do Nando Reis e “Telegrama” do Zeca Baleiro, por exemplo. Os ídolos ainda são os mesmos… O fato é que se trata de músicas memoráveis, não questiono a qualidade dos trabalhos. Mas para nós, que trabalhamos com isso todo final de semana, é impossível continuar na mesmice. Esses sons são cartas na manga, mas já não fazem parte do repertório. É urgente a necessidade de coisas novas, afinal, a produção cultural é constante, diversa, plural e precisa ser difundida.

Para sobreviver a esse mercado de som ao vivo, além da criação autoral, venho desenvolvendo uma pesquisa sobre o que chamo de Música Contemporânea da Melhor Qualidade. A principal plataforma que utilizo nesse estudo é o Youtube, por trazer álbuns completos, ficha técnica e ano de produção de muitos discos. Outro site recente, exclusivo de músicas, é a Escuta que é bom, produzido por uma coletiva que atua na pesquisa e difusão de artistas fora do mainstream que estão despontando nos dias de hoje.

É assim, Contemporânea da Melhor Qualidade, que defino a tendência da produção musical que nos tira do lugar comum, coloca à tona reflexões sobre a sociedade atual, o que temos de urgente pra falar e pensar nos dias de hoje. Sim, porque a música serve, tal qual a arte como um todo, não só pra entreter e animar os espaços, mas também pra trazer reflexão, incomodar, botar o dedo nas feridas, falar de coisas que precisam ser ditas de alguma forma, mostrar diversas perspectivas da realidade.

Existe um mercado de produção cultural imenso e diversificado no Brasil, o que fica invisível, muitas vezes e principalmente, pela falta do hábito de buscar informações úteis, mesmo com a democratização dos meios informativos. Aquele momento de só ouvir músicas por rádios, ver shows apenas na televisão acabou. Além desses meios midiáticos, é preciso lembrar que absolutamente tudo está na internet, nas redes sociais, em plataformas como Deezer e Spotify, entre outras que surgem dia após dia.

Além de musicista e educadora, me vejo também nesse lugar de difusora de contemporaneidades, pelo fato da música me servir de combustível e pelo estudo constante de repertório que desenvolvo. Divido aqui minhas opiniões e estou aberta ao que há de novo, irreverente e independente na produção cultural brasileira.

TAMYRES MACIEL, colunista d’A Casa de Vidro.
Leia os textos anteriores:
#1 – Meu Agora Até Aqui

CANTANDO AO RITMO DA DÚVIDA – Raul Seixas​ desvendado por O Pasquim​ em 1973

CANTANDO AO RITMO DA DÚVIDA – Raul Seixas​ desvendado por O Pasquim​ em 1973

O crítico musical Tárik de Souza​ conduziu magistral entrevista com Raul Seixas – aquele que “corta como uma navalha que ainda não foi inventada, porque tem gumes em todas as direções” – para o Pasquim (edição #228, Novembro de 1973). Ali, Tárik comenta de modo poético que Raul “canta ao ritmo da dúvida”: “nem exclamação, nem ponto final: reticências”. Transcendendo a demagogia e o dogmatismo, Raulzito teria fornecido à história da música popular brasileira uma das melhores encarnações do “espírito livre” que nos anuncia a filosofia de Friedrich Nietzsche​.

Fazendo um resgate de toda sua trajetória, Raulzito lembra como era Salvador, no fim dos anos 1950, quando o conjunto de rock Os Panteras – uma pá de bandas na época tinham nome de bicho… – começaram a fazer um barulho inovador. Não só pois evocavam e mimetizavam o rock’n’roll nascente, de Chuck Berry, Elvis Presley, Bo Diddley, mas também pois praticavam a mescla livre do rock com o baião, colocando Luiz Gonzaga pra dialogar e se entremesclar com a última novidade da música anglo-saxã. Foi um dos mais notáveis sincretismos culturais perpetrados sobre o rock’n’roll – ele mesmo um filho bastardo que o blues teve com o soul e o R&B – aquilo que os baianos roqueiros começaram a realizar lá pelos idos de 1959 e lá vai fumaça.

Na época da entrevista, Raul está envolvidão com aquele seu disco, hoje clássico, que envolve dois termos que hoje muita gente desconhece o contexto: “Krig-Ha!”, grito de guerra do Tarzan e que significa “cuidado!”, e “Bandolo”, que significa o inimigo, o adversário. O LP “Krig-Ha Bandolo” anuncia uma sociedade alternativa e traz em sua capa “o símbolo de Amon-Rá, acrescido de uma chave”. Segundo a piração do maluco beleza na época, esta sociedade “não surgiu imposta por nenhuma verdade, nenhum líder”, mas é um movimento internacionalista devotado à melhoria das coisas e que teria como membros ilustres John Lennon​ e Yoko Ono​. “Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome”, conta Raul. “Nós mantemos uma correspondência constante com eles.” (In: “O Som do Pasquim”, p. 222)

A viagem de “Krig-Ha Bandolo” é descrita como uma encarnação tupiniquim das utopias culturais hippies, sincretizada com tradições populares brasileiras, tudo mesclado com um fino caldo liquidificado de Contracultura, Antipsiquiatria, Filosofia. Além de excelente cantor, compositor e artista performático, Raul Seixas desde cedo foi um magistral escritor. E se percebia como tal:

“Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú que eu penso em publicar alguma dia. Eu sou muito dado a filosofias, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, de Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando outras coisas. Estudei literatura. Comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá para publicar.” (p. 224)

Meditando na companhia de Paulo Coelho, Raul e seu parceiro começando a pirar em ufologia, a falar sobre a possibilidade da existência de ETs e OVNIs, a brincar com a noção de “profetas do apocalipse”, a mergulhar em Aleister Crowley​, e tudo isso acaba sendo explorado de maneira garrafal por jornais sensacionalistas. “O homem que viu disco voador dá Ibope, chamam ele pro Silvio Santos…”, brinca Raul, ao mesmo tempo admitindo que o faro para o sucesso – os hits de Raul, os best-sellers de Coelho – tem a ver com uma certa conexão com as mídias de massas e os conteúdos insólitos e excêntricos que elas julgam lucrativo disseminar.

Raul Seixas sempre insistiu em seu papel de livre-pensador – ou melhor, livre-cantador! – que não quer impor a ninguém uma perspectiva estreita e absolutizada. “Ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir portas. Pras verdades individuais.” (p. 229) E este tema das portas obviamente abre-nos para evocações de acontecimentos seminais da contracultura: o livro de Aldous Huxley​, “The Doors of Perception”, batizado a partir de versos do poeta e ilustrador William Blake​, que por sua vez inspirariam a banda encabeçada por Jim Morrison​, o The Doors​. Raulzito estava ciente de que “se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria como realmente é: infinito.”

“If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, Infinite. For man has closed himself up, till he sees all things thro’ narrow chinks of his cavern.”
― William Blake, The Marriage of Heaven and Hell

Diante destas tendências ao misticismo e ao magicismo, que se manifestam na obra Raulzística (também por influxo de Paulo Coelho), O Pasquim questiona o músico: bem, você diz querer “abrir uma porta na cabeça de quem está ouvindo”, mas será que não acaba às vezes caindo num discurso esotérico e hermético, só para iniciados? “Há o perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?”

RAUL SEIXAS – Não. É uma escada, é um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase ‘Terra’ da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio já é outra coisa, já é mais aberto… Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima, eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar onde eu estou, porque se ele chegar onde eu estou, não vou comunicar mais.

O PASQUIM – Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?

RAUL – Esse Raul Seixas que está no Teatro Tereza Raquel cantando esse tipo de música, fazendo iê-iê-iê realista, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.

O PASQUIM – Você faz isso mais pra você se entender ou pra que os outros te entendam?

RAUL – Para que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as ‘classes’, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando “A Mosca na Sopa”.

O PASQUIM – Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.

RAUL – Não, que isso? Sabe por que? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.

O PASQUIM – Mas o magicismo pode cair.

RAUL SEIXAS – Mas é um magicismo estudado. É dosado, nego. Dosadinho.

(p. 230)

Por aí se vê um artista que deseja ser popular, transcender fronteiras, falar com o povo todo, e que nunca quis soar hermético, falando apenas para a área VIP dos detentores de capital cultural/intelectual. O que não quer dizer que Raul Seixas fosse um disseminador de mensagens banais, de filosofias vulgares, pois desejou através de sua arte um autêntico ataque coordenado contra a caretice, o conformismo e a estereotipia.

Ele rompeu com os estereótipos prévios do que deve ser o artista pop e se recusou a comer o alpiste alheio, forjando de maneira radical e autônoma uma nova figura do artista popular.

RAUL SEIXAS – “Tá todo mundo estereotipado. Por isso faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo Arthur Schopenhauer​, todo mundo num pessimismo incrível… Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo a coisa em termos globais.E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco do rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não ficar de fora fazendo bobagem, de calça Levi’s com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como o John Lennon disse: “They think they’re so classless and free”. Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo comendo alpiste, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.

O PASQUIM – Quer dizer que você conclui que os intelectuais brasileiros estão muito por fora, muito devagar. Não estão dentro da realidade. Toda essa sua estratégia é para ficar amigo do rato.

RAUL – Dos ratos. No plural.

O PASQUIM – Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. Produzir discos de Jerry Adriani, Wanderléa…

RAUL – Renato e Seus Blue Caps Original​. Eu acho muito bom, eu acho legal.

O PASQUIM – A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como era a tua transa pessoal com essa gente?

RAUL – Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconsequente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso, aprendia a usar aquele mecanismo.

O PASQUIM – Você estava de rato?

RAUL – Exatamente. Eu tava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a idéia de eu contratar Sérgio Sampaio​ (saiba mais: https://acasadevidro.com/?s=S%C3%A9rgio+Sampaio), um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10″. Mas o disco misteriosamente foi tirado do mercado porque não era a linha da CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora… Foi naquela fase hippie, aquela coisa toda. Adoro o disco, acho sensacional… Fui expulso da CBS em função desse LP…” (p. 231-233)

Em conversa com o Pasquim, Raul Seixas revela uma atitude, um ethos, que ainda tem muito a nos ensinar. Emana autonomia, independência de pensamento, inconformismo com as caretices sociais hegemônicas. Convida-nos a romper com os ratos e não mais comer o alpiste pop que a elite do atraso deseja que nos satisfaça. Com Raul Seixas, um icônico espírito livre, radicalmente anti-dogmático, emanando poesia por todos os poros, cantando no ritmo da dúvida, deixou-nos como legado uma obra tão magistral quanto salutar.

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA DE RAUL AO PASQUIM EM 1973

GITA

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar:

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Gita gita gita gita gita

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo

Gita gita gita gita gita

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio (2x)
Eu sou o início, o fim e o meio (3x)

* * * * *

Por Eduardo Carli de Moraes​

Saiba mais em A Casa de Vidro​ e ouça a Discografia Completa de Raulzêra: https://acasadevidro.com/?s=Raul+Seixas

A MARÉ VERMELHA QUE NA TV NÃO SE VÊ – “A praça é do povo como o céu é do condor!” – Castro Alves

Brasília, 17 de Abril de 2016

“Ó pátria, desperta… Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?

Já falta bem pouco. Sacode a cadeia
Que chamam riquezas… que nódoa te são!
Não manches a folha de tua epopéia
No sangue do escravo, no imundo balcão.”

CASTRO ALVES. Recife. 1865.

ASSISTA O DOCUMENTÁRIO / REPORTAGEM:
“O CÉU E O CONDOR – Brasília em Transe”
(16 e 17 de Abril na capital federal)

Há 20 anos atrás, ocorria o Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 ativistas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram assassinados pela Polícia Militar no Pará. É um escárnio grotesco que neste dia, 17 de Abril, que poderia ser devotado à construção coletiva da reforma agrária e do avanço no combate às hediondas desigualdades na distribuição de renda e terra que corrói nosso país, tenhamos visto – a maioria de nós com a bunda sentada no sofá e diante da TV – um complô golpista dos mais sórdidos e infames que já tivemos o desprazer de testemunhar.

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Deputado Chico Alencar (PSOL), um dos mais contundentes críticos da farsa parlamentar presidida por Cunha e a Bancada BBB.

A Câmara dos Deputados, presidida pelo delinquente Eduardo Cunha, perpetrou seu farsesco golpismo oportunista na tentativa de instalar um governo biônico, sem voto e sem legitimidade, atentando em gangue contra o mandato de Dilma Rousseff. Quem se beneficia com isso além do 1% no topo da pirâmide econômica?

O golpe faz a alegria dos capitalistões da Fiesp, gera muita comemoração nos bunkers habitados pela cleptocracia do P.I.G. e pela elite célebre por estrelar os Panama Papers – dentre outros listões da corrupção empresarial-estatal endêmica que nos afunda neste infernal lodaçal do capitalismo desenfreado e da política sequestrada por interesses financeiros.

Do lado de fora do circo armado pela Direitona lá dentro, teve muita garra e muita luta na caudalosa aglomeração de calor humano lá fora. Povo em flow em que pude embarcar como num rio, remando na multidão, com as mãos na câmera e o coração aos pinotes.

Aqui tento desvelar um bocadinho de experiência compartilhável sobre algo que a mídia corporativa “suína”, como era de se esperar, abafou e omitiu, mas que tem plena e intensa relevância: o “povo na rua”, o povo pedindo poder… O povo que o poeta Castro Alves dizia destinado à praça pública, à pólis dos indivíduos sociais interdependentes e solidários: “a praça é do povo como céu é do condor”.

Em 17 de Abril de 2016, os movimentos sociais que no espectro ideológico são classificados à “esquerda”, unidos contra o golpe e em defesa da democracia, mostraram uma impressionante capacidade mobilizatória. Pintaram de vermelho as ruas de Brasília numa belíssima passeata que foi do ginásio Gilson Nelson até a Esplanada dos Ministérios. Participaram do ato movimentos sociais como o MST, a CUT, o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Afetados por Barragens, dentre outros.

Jean Wyllys, Ivan Valente e Chico Alencar, do PSOL, além de Maria do Rosário e Jandira Feghali, do PT, estiveram entre a “turma” de parlamentares mais entusiasticamente aplaudidos pela multidão que, após a passeata, se concentrou diante dos telões para acompanhar a votação do impeachment. Tambores batucados com ímpeto e um mar de bandeiras vermelhas estavam nas ruas enquanto no “circo” do Congresso uma chuva de “Deus, Família e Propriedade” horrorizava as espinhas de quem não esqueceu as cicatrizes de nossa mau-enterrada ditadura.


“Eu estou constrangido de participar dessa farsa, dessa eleição indireta conduzida por um ladrão e apoiada por torturadores. Farsa sexista! Em nome da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem-teto/terra, voto NÃO AO GOLPE! E durmam com essa: CANALHAS!” – Jean Wyllys do PSOL 50

(BÔNUS) “SOBRE O CUSPE AO FASCISTA – Por Jean Wyllys do PSOL 50: Depois de anunciar o meu voto NÃO ao golpe de estado de Cunha, Temer e a oposição de direita, o deputado fascista viúva da ditadura me insultou, gritando “veado”, “queima-rosca”, “boiola” e outras ofensas homofóbicas e tentou agarrar meu braço violentamente na saída. Eu reagi cuspindo no fascista. Não vou negar e nem me envergonhar disso. É o mínimo que merece um deputado que “dedica” seu voto a favor do golpe ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército durante a ditadura militar. Não vou me calar e nem vou permitir que esse canalha fascista, machista, homofóbico e golpista me agrida ou me ameace. Ele cospe diariamente nos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Ele cospe diariamente na democracia. Ele usa a violência física contra seus colegas na Câmara, chamou uma deputada de vagabunda e ameaçou estuprá-la. Ele cospe o tempo todo nos direitos humanos, na liberdade e na dignidade de milhões de pessoas. Eu não saí do armário para o orgulho para ficar quieto ou com medo desse canalha. #‎FascistasNãoPassarão‬. Foto: Oliver / Mídia Ninja. Deu tb n’O Globo.

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Le peuple a sa colère et le volcan sa lave.
(O povo tem sua cólera e o vulcão sua lava.)
VICTOR HUGO

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“O Sol, do espaço Briaréu gigante,
Pra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.

O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!…

Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.

Quando nas praças s’eleva
Do povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor…

Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão…”

CASTRO ALVES.
O Povo ao Poder. Recife, 1865.

Na vanguarda da massa, faixas diziam: “1964 nunca mais, Globo mente!” Povos indígenas protestavam contra os latifundiários e exigiam demarcação de terras. As Mulheres Pela Democracia punham um colorido e aguerrido feminismo para sambar sobre o asfalto.

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Do carro de som, os discursos se sucederam, com destaque para o brado-hit: “NÃO VAI TER GOLPE (JÁ TEM LUTA!)”. Esperta contra o P.I.G., a massa em coro lembrava: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura (E AINDA APÓIA!)”. A maré humana, caudalosa e cheia de vida, atravessou a cidade garantindo aos golpistas Temer e Cunha que não pensem que seguirão em frente, sem resistência, com sua usurpação criminosa do poder.

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Não se viu nenhum helicóptero da mídia burguesa cobrindo aquela que foi, talvez, uma das significativas e históricas mobilizações populares ocorridas na capital federal nos últimos anos. Minutos depois, no gramado da Esplanada, cartazes em punho, com tinta vermelha, direcionados ao helicóptero policial que nos sobrevoava, manifestantes mandavam alfinetada óbvia: “A PM não sabe contar!”

Isso porque, para escárnio geral, a PM divulgou nota estimando o público em 8 mil pessoas, enquanto de cima do trio elétrico o mar-de-gente era tamanho que o início da marcha perdia-se de vista no horizonte e fazia pintarem números de estimativa da marcha que oscilava entre 50 e 100 mil participantes.

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Lá dentro do bunker do Parlamento, a classe política revelava o grau de sua sordidez e hipocrisia com um torrencial mantra ideológico, “família” e “religião” como carros-chefe, disfarçando o fato de que as bases jurídicas do processo são absurdamente injustas, Dilma Rousseff vivendo na pele o Josef K. do romance Kafkiano. Como pode estes ilustres engravatados, altivos senhores, louvarem a Deus na mesma frase que tem por efeito lançar uma condenação sobre um governante por crime de responsabilidade que nunca houve? O tema da responsabilidade não se discutia, quase; a punição aos responsáveis pela corrupção era, no discurso de muitos vociferantes defensores do “impeachment já”, uma performance teatral, cortina de fumaça para os corruptos de sempre poderem encher a pança de pizza em Miami assim que Temer-Cunha estiverem nos controles.

Caso o Senado aprove a deposição de Dilma, caso os movimentos sociais discordem radicalmente desta “medida institucional”, então teremos enfim constituído um cenário explosivo, incendiário. Serão inevitáveis os clashes entre uma frente de esquerda – Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular, MST, CUT, MTST, CTB, Levante Popular da Juventude, movimentos estudantis e sindicais, ativismos LGBT e críticas-práticas do feminismo militante etc. – que irá à luta, chocando-se contra as forças de repressão do “novo governo” e suas massas-de-manobra. Nesta hipótese, quanto sangue e quanta turbulência vão decorrer deste “assalto ao poder” da velhas dinossáuricas elites da cleptocracia tupiniquim?

Fico a imaginar as Olimpíadas do Rio, num eventual governo Temer – Cunha, caso estes usem as tropas estatais de repressão, comandando com “punho de ferro” na defesa do “novo governo”. Talvez muitos então repensem então o ceticismo com que encaram a denominação golpe de Estado (coup d’État) para explicar o que ocorre na crise política brasileira desta 2016.

O que se chama de “golpe” é um cancelamento da vontade de 54 milhões de eleitores, que se expressaram nas urnas de uma pátria que às vezes tenta se orgulhar de seguir o preceito republicano, consagrado em nossa constituição, de que “todo o poder emana do povo”. Golpe é rasgar isso, cuspir sobre isso, anular as urnas por meio de complôs de cúpula. Golpismo é usurpar o poder do representante eleito por sufrágio universal através de falsas acusações, processos caluniosos, linchamentos midiáticos, complôs de elites insaciáveis, nacionais ou gringas, dos magnatas da mídia e da construção civil aos interesses petrolíferos transnacionais…

Se Dilma for “chutada” do poder por causa de “pedaladas fiscais” que o próprio Temer assinou,  o governo já nasce podre por dentro, carcomido em sua legitimidade, com popularidade beirando o zero (vá lá: Temer seria o presidente biônico do 1% mais rico desta pátria ó tão desigual). Como viu Safatle, “não existirá governo Temer”, pois ele já nasceria natimorto, altamente contestado, sob uma enxurrada de greves e ocupações, com a perspectiva de resistência coletiva organizada envolvendo milhões de pessoas e ativistas país afora…

Este post serve também como um tiragosto do documentário curta-metragem independente que vocês podem conferir abaixo:

ASSISTA O DOCUMENTÁRIO / REPORTAGEM:
“O CÉU E O CONDOR – Brasília em Transe”
(16 e 17 de Abril na capital federal)

LINK PARA O ÁLBUM: http://bit.ly/1Sh59fA
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Fotos por Eduardo Carli de Moraes

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LEITURAS SUGERIDAS NA IMPRENSA:
O que disseram os jornais europeus sobre a votação do impeachment na Câmara

BRASIL DE FATO – Cientistas políticos criticaram a argumentação de deputados na sessão do plenário da Câmara que votou a admissibilidade do processo deimpeachment da presidenta Dilma Rousseff. Os parlamentares dedicaram os votos às suas famílias, a Deus, aos evangélicos, aos cristãos, aos prefeitos de suas cidades e correligionários. A sessão foi marcada pela presença de cartazes, bandeiras, hino e gritos de guerra.

Com 367 votos a favor (mais de dois terços dos 513 deputados), 137 contra, sete abstenções e duas ausências, o parecer pela instauração do processo de impeachment foi aprovado nesse domingo (17) na Câmara dos Deputados. Agora cabe ao Senado decidir se processa e julga a presidenta.

“Acho estarrecedor, em um país republicano, que tem princípios de laicidade do Estado, levantar argumentos religiosos e a família. Pouquíssimos levantaram os motivos reais que são julgados no processo. É entristecedor ver a qualidade de argumentos, todos arregimentados para seu entorno, em questões de seu interesse”, disse a professora do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos. (LEIA NA ÍNTEGRA)

Na imprensa gringa, sugiro A Coup Is In The Air, do The Wire.In, e os trabalhos de Glenn Greenwald.

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Trechos do “Diário Pessoal-Mas-Nem-Tanto de Viagens”

Eduardo Carli de Moraes

Rumei para Brasília com a sensação de ir a um face-a-face com a história. Não a que ficou nos livros, mas a que um dia neles estará. Fui com Sérgio Sampaio nos tímpanos, pra “ver o que há” pros lados do Paranoá. A Gi diz que nunca me viu tão politizado (e atribui isso também à má influência dela…), e é verdade: os afetos políticos têm me dominado. Não me sinto capaz de isenção ou indiferença diante do que venho chamando de “intentona golpista”. Nunca vi este país tão intensamente polarizado, algo que o muro recém-edificado na Esplanada mostra bem. Sociedade cindida. As torcidas trocam insultos e sopapos: “coxinhas!” “petralhas!”

Tenho alguma ilusão de poder influir no resultado deste jogo? Eu em toda a minha insignificância individual e pequenez cósmica? Não… serei um anônimo na massa – e sei de que lado da barricada irei estar. Este impeachment é uma farsa golpista capitaneada por delinquentes engravatados. Cunha presidir é um escárnio. Uma vergonha pior que o 7 a 1 da Copa – a que quase não teve. A impunidade dos tubarões é grotesca. E boatos fortíssimos são audíveis que dizem claramente: o intento é fazer a corrupção, no Brasil, novamente acabar em pizza, com impunidade para golpistas e perdão geral a todos os assaltantes dos cofres públicos. Angeli foi brilhante em seu cartum: é um golpe de dinossauros pra instaurar um retrocesso jurássico…

Angeli

Contra o mito insustentável da História como progresso, cada vez mais aparece-me como evidente e concreto que História é capaz de retrocesso, que há em todo presente, em potência, catástrofe (mas também maravilha). Como julgar avanços e recuos? É uma questão ética, e por isso não é possível separar ética e política, sob o risco de cairmos numa política da barbárie, que somente continua a guerra por outros meios, ao invés de ser esforço coletivo de instauração de convivência ética e civilizada. A polêmica sobre o progresso e o atraso, porém, não pode ser ignorada: o que é retrocesso pra uns é avanço pra outros e a “vitória” da Fiesp é a derrota dos direitos trabalhistas – e vice-versa.

Acabou o ganha-ganha do lulismo. A luta de classes se exacerba. Não engulo o papo niilista de que os partidos se equivalem em sua idêntica escrotidão. Isso é um atentado às nuances e complexidades do real. “Tomar partido” não implica necessariamente sectarismo e unilateralidade: pode-se ser do partido que não é particularista, que defende o bem comum e a solidariedade social.

O interesse pela política tem a ver com ânsia de participação, de união, de estar com outros no esforço conjunto. Política é remédio pra solidão, antídoto ao isolamento, negação do solipsismo, superação da indiferença pelo coletivo, sociabilidade ética em ação. Ainda assim, sinto-me bem só. Desfiliado. Não estou enquadrado num partido ou movimento específico. Ainda aprendo os modos de funcionamento da pólis. Nem mesmo sou exatamente “nacionalista”. Os problemas pátrios às vezes me enojam e me dão vergonha do Brasil e seus males. Não junto minha voz ao coro do “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Ao assistir a votação do impeachment, meu sentimento era o avesso do patriotismo: sou brasileiro, com muito asco, com muito horror…

Tento agir como midiativista independente, com autonomia de olhar, mas nunca a-partidário e indiferentista. Sei que meu impacto é pequeno. Não é nulo, porém. Prefiro fazer o pouco que posso a não fazer nada. Alice Walker: “o modo mais comum das pessoas renunciarem ao poder é acreditarem que não tem nenhum.”

AliceWalker

Sei que poderio midiático tem muito a ver com grana – meios de difusão de mensagens. Sou uma formiguinha, minúsculo diante dos elefantes corporativos, só um carinha com um blog, sem hype nem anunciantes. Mais um do monte que tem página no Facebook e esforça-se para ter seguidores como micro-investidor. Em contraste com a grande mídia, sou quase ninguém. Uma alternativa disponível entre milhares de outras. Não dá nem mesmo pra ter a imodéstia de dizer que sou um “formador de opinião” – isso é pra quem escreve e é lido por milhares de leitores, seja qual for o espector ideológico (de esquerda, como Eliane Brum ou Sakamoto, de direita, como Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi).

Ambiciono me tornar voz midiática de alguma importância? É minha “vontade de poder”? Talvez. Gostaria de influir mais, repercutir, ter voz mais ressoante. É deprimente o isolamento e me recuso ao cruzar-de-braços indiferentista. São esmolas para a auto-estima as curtidas no Facebook? Os acessos ao site me convencem de que não sou socialmente invisível? O que sei é que estou tendendo ao abuso de internet, pelo tempo excessivo que passo na postação e zapeando no feed, querendo ser uma “força da net”, querendo ver os posts “viralizar”… Que “festa” aos 1.000 compartilhamentos! Há essa possibilidade de que algo torne-se uma “bomba” informativa que se replica… Há a possibilidade imediata de contra-informar, de contestar algo que a mídia de massas está dizendo nos telepúlpitos da burguesia, dos antros do golpismo elitista.

Ainda que pequeno e quase inofensivo, há a chance deste micropoder servir como contra-poder, contra-cultura, que tece um fio numa teia de resistência e solidariedade. Isso é o que me anima na net, tecer teias de contatos, inaugurar algo – tipo um meme – que possa se espalhar e ser hit na web, no sentido de impactar de algum modo a opinião pública, ou pelo menos chaqualhar a indiferença letárgica dos silentes.

É vontade de aventura – aquilo que era tão quintessencial ao Che e à Rosa, ao Joseph Conrad e à Castro Alves, um ímpeto irrefreável de liberdade exploratória! É vontade de excitação vital, de colaboração (co-laborare, ou “trampemos juntos”!). É vontade, vivida existencialmente, de política, ou seja, política ontologicamente baseada nesta ânsia de ter não só vida pessoal mas também destino coletivo. Ter um coração que bata de indignação diante de qualquer sofrimento injusto sobre a face da Terra, como exortava o médico-guerrilheiro Ernesto Guevara…

Sofri por muito tempo por déficit de pertença – adolescente sem turma e sem muito lar que acontecia de passar muito temo sendo músico sem banda, jornalista sem revista, ativista sem movimento social, um tanto desajustado aos moldes caretas do mercado de trabalho, de tendências psíquicas subversivas e transviadas… Vou na política como se fosse – e é – vivência, existencialmente experenciada, de nossa pertença a um real comum, compartilhado, nosso commons. Constituído em seu cerne de uma teia de interdependêcia – “the web of life”…

Vou na viagem política na busca de aprender mais sobre  poder – aquele das cúpulas, aquele das bases; o poderio tirânico e teocentrado, o poderio contragolpista que desfere um levante de resistência “de baixo pra cima”… Interessam-me estes levantes da base contra o topo das pirâmides sociais historicamente constituídas. Recém-nascido neste mundo de tão complexos e desnorteantes legados históricos – da escravidão ao genocídio dos nativos – em meio aos quais o sentimento que poderia inundar e tomar conta, totalmente, o “fatalismo”. Nada fazer por nada poder. Niilismo. Nietzsche conclama a ir além dele, escapar ao niilismo fatalista de quem cruza os braços e recusa-se a agir.

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“Triste dia para ser ateu. Por dois motivos: 1) escutar tanto canalha falando de Deus no parlamento. 2) Não acreditar que há um inferno para todos eles passarem a eternidade.” Bruno Torturra. 17/04/2016. Ilustração: Carlos Latuff.

Neste vórtex vou explorando o poder – o meu, sei que é pouco, limitadíssimo, mas também que é dinâmico, expansível ou redutível. Uma potência passível de incremento e redução, como o sistema ético de Spinoza ilustra através de suas elucidações dos afetos humanos como conatus que sobe ou desce na escala da vitalidade. Meu “Paulo Freireanismo”, recém-adquirido, sugere-me que teias de alteridade dialogante podem galvanizar a eletrificação e revitalização de nossas vontades colaborantes, na re-elaboração perene de nossos fins coletivos (utopias) e rumos partilhados, no parto sempre difícil de nosso porvir possível, cheio da potencialidade de florescimento dos inéditos viáveis, dos nunca-dantes-visto.

Encontro em Marx um espírito livre o bastante para nunca dogmatizar, nunca pregar uma verdade indiscutível, mas sim praticar um método de crítica permanente e de perene predisposição à re-consideração. Contra a farsa idealista dos conceitos eternos e imutáveis, que empesteam a filosofia desde Pitágoras e Platão, Marx – nisso bem semelhante a Nietzsche… – denunciou como lorotas, pseudo-conceitos, muito do quê pregavam, de suas cátedras, os idealistas. Para Marx não há conceito que não seja historicamente determinado, como explica Engels no prefácio ao Capital:

“Nos escritos de Marx as coisas e suas influências recíprocas são concebidas não como fixas, mas como variáveis, os próprios conceitos também estão sujeitos a variações e mudanças. Nessas condições, não estarão contidos em uma definição, mas desenvolvidos conforme o processo histórico de sua formação.” – F. ENGELS

Marx foi sempre um destruidor de correntes, inclusive as que “prendem nos grilhões de definições rígidas”, como escreve Daniel Bensaïd neste livro que tem sido bom-companheiro-de-viagem, Marx – Manual de Instruções (autor também do magistral “MARX, O INTEMPESTIVO”). Mano Daniel Ben revela Marx como um “Prometeu” filosófico que quebra seus cárceres psíquicos e ideológicos, que exorta-nos a libertar-nos sem medo. A classe trabalhadora não teria nada a perder senão seus grilhões… e transformação não era só possível, era necessária. Um pensador-de-práxis, que espanta os abutres do obscurantismo e da inação niilista, através da exposição translúcida dos antagonismos da  realidade social, do conflito de poderes em disputa, que Marx revela sempre como sendo (Paulo Freire: não sou, estou sendo), tal como nossas vidas-em-teia constituída por uma natureza histórico-fluida, dinâmica, dialética, eflúvio de vida que flui, tudo sempre revolucionável. Permanentemente revolucionável. Revolucionável por natureza.

E.C.M. / Brasília e Goiânia, 17 e 18 de Abril de 2014

POST FACTUMMarx

“A fé no todo-poderoso mercado foi mortalmente abalada. Quando se deixa de acreditar no inacreditável, agrega-se à luta social uma crise de legitimidade ideológica e moral, que acaba por atingir a ordem política: ‘Um estado político em que alguns indivíduos ganham milhões enquanto outros morrem de fome poderá subsistir se a religião não estiver mais lá, com suas esperanças fora deste mundo, para explicar o sacrifício?’, perguntava Chateaubriand às vésperas das revoluções de 1848. Ele mesmo respondeu profeticamente: ‘Tente persuadir o pobre quando ele souber ler e não tiver mais crença, quando ele possuir a mesma instrução que você, tente persuadi-lo de que deve se submeter a todas as privações enquanto seu vizinho possui mil vezes o supérfluo…’ 

Sob a luz ofuscante da crise, milhões de oprimidos terão de aprender a ler.”

DANIEL BENSAID – MARX: MANUAL DE INSTRUÇÕES (Pg. 138). Editora Boitempo, 2013, trad. Nair Fonseca. 

POLIFONIA DE PINDORAMA – Coletânea de música brasileira [Janeiro de 2016 – 16 canções – 1 hora de duração]

POLIFONIA DE PINDORAMA
Coletânea de música brasileira
[Janeiro de 2016]

Faça o download gratuito (116 mb) || Ouça na íntegra @ 8 tracks

Um país polifônico e plural como o Brasil, dotado de uma cultura musical tão diversificada e múltipla, merece que esta riqueza toda se manifeste em coletâneas que não tenham preocupações com a homogeneidade ou a ortodoxia. É um pouco este o ideal que anima a série de cyber-coletas Polifonia de Pindorama, que busca abrigar as diferenças sob o guarda-chuva da mesma mixtape, colocando elementos díspares para conviver e “reagir” (no sentido quase bioquímico do termo!). No caldeirão dos grooves e batuques, das melodias e harmonias, procuramos fornecer uma viagem cultural pelo país. (Ouça as coletas já publicadas nos últimos anos)

Neste 2016, a periodicidade da “fitinha” digital será mensal, estará disponível para streaming ou download, e trará a cada edição sempre 1 hora de música timbrada, selecionada com esmero dentre aquilo que mais tem encantado nossos tímpanos e estimulado nossos cérebros pelas vias do som. Lançamentos e clássicos entram na mesma ciranda: nesta edição, pepitas das antigas (Elza Soares, Candeia, Clara Nunes, Bezerra da Silva, Edu Lobo e Bethânia…) convivem com algumas das melhores novidades da música nacional (Boogarins, O Terno, Ventre, Cícero…).

Nosso foco é na produção musical que consegue incluir uma dimensão política, elementos de crítica social ou de crônica cotidiana, de modo a incidir sobre os nossos modos-de-vida coletivos. “A Babilônia vai cair”, promete Russo Passapusso no dub batucante do Baiana System (“Jah Jah Revolta”). Já os Boogarins, em revolta contra os prédios que não nos deixam ver o Sol, cometem uma “Avalanche” de psicodelia e eco que pretende liberar espaços solares num contexto urbano cinzento. É justamente “O Cinza” que o power-trio paulista O Terno comenta liricamente em canção que adiciona novos matizes ao “Não Existe Amor em SP” de Criolo.

Já o folk introspectivo e cheio de lirismo de Cícero – que de bobo não tem nada… – e o pós-rock experimental e angustioso do Ventre fornecem outras vertentes interessantes exploradas recentemente por artistas independentes que “correm todos os riscos”, como diz a linda faixa do Pó de Ser (que dá nome ao disco de estréia dos caras já destacado por aqui). Já Lenine marca presença em composição em parceria com Carlos Rennó, “Quede Água”, um verdadeiro tratado ecológico que vai fundo no diagnóstico do sistema que têm estraçalhado nossos recursos hídricos e assassinado a doçura de nossos rios agora enlameados por tóxicos.

Destacamos também figuras que ainda merecem ser mais conhecidas e reverenciadas – caso de Sidney Miller e Jards Macalé (que aqui aparece tocando uma canção de Sérgio Sampaio). Dentre as instrumentais, oferecemos um choro animado composto por Chiquinha Gonzaga, o “Corta Jaca”, a cargo de Abel Ferreira, além da versão big band jazz do maestro Quincy Jones para o “Desafinado” de Tom Jobim e Newton Mendonça (célebre na interpretação de João Gilberto).

Subam o volume e apreciem sem moderação!

POLIFONIA DE PINDORAMA
Coletânea de Música Brasileira – Edição Janeiro de 2016
16 canções – 1h de duração

OUÇABAIXE

  1. Elza Soares – “A Banca Do Distinto” (2:13)
  2. Boogarins – “Avalanche” (3:30)
  3. O Terno – “O Cinza” (3:24)
  4. Sidney Miller – “Maria Joana” (2:06)
  5. Clara Nunes – “Fuzuê” (3:50)
  6. Baiana System – “Jah Jah Revolta” (5:21)
  7. Pó de Ser – “A Dança da Canção Incerta” (5:22)
  8. Jards Macalé – “Velho Bandido” (de Sérgio Sampaio) (3:08)
  9. Quincy Jones – “Desafinado” (2:57)
  10. Bezerra da Silva – “Vítimas Da Sociedade” (3:04)
  11. Candeia – “Ouro, Desça do Seu Trono / Mil-Réis” (4:50)
  12. Abel Ferreira – “Corta Jaca” (de Chiquinha Gonzaga) (2:27)
  13. Cícero – “O bobo” (3:41)
  14. Edu Lobo & Maria Bethânia – “Borandá” (3:22)
  15. Lenine e Carlos Rennó – “Quede Água” (5:30)
  16. Ventre – “Peso do Corpo” (6:50)

Click PLAY e boa viagem!

PÓ DE SER: “A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA” – Conheça um dos álbuns de estréia mais incríveis da música brasileira em 2015

A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA

Comprar o CD na Livraria A Casa de Vidro em Estante Virtual:
https://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/info.cgi?livro=1139842315

por Eduardo Carli de Moraes

“A vida é mais bela quando a surpresa a espreita.”
PÓ DE SER

Do pó viemos e ao pó retornaremos, não há escapatória. Porém, nesse meio tempo, estes seres incandescentes que provisoriamente somos têm na ARTE uma das aliadas mais preciosas para que o viver, ainda que efêmero e repleto de incertezas, valha a pena. Neste ano de 2015, repleto de sensacionais lançamentos na música brasileira (Elza Soares, Bixiga 70, Cidadão Instigado, Lenine, Karina Buhr, Emicida, Siba, Mari Aydar, Rodrigo Campos, Boogarins, BNegão, Los Porongas, dentre outros) – uma bandaça de Goiânia, o Pó De Ser, lançou um belíssimo disco de estréia, A Dança da Canção Incerta (2015, 54 minutos, baixe já). Abrir-se ao influxo destas canções tão cheias de vida, deixar-se penetras por estas músicas que parecem ter sangue quente correndo em suas veias de som, leva a dar razão a Nietzsche: de fato, “sem música a vida seria um erro!” 

Pó de Ser

Gravado no Rocklab Produções Fonográficas e produzido pelo “Mestre” Gustavo Vazquez (responsável por premiados trabalhos com Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Violins, Overfuzz, dentre outros), o disco da Pó de Ser é uma viagem estética exuberante, que expande os horizontes da Canção ao explorar suas múltiplas potencialidades sonoras e poéticas. Segundo a libertária concepção do Pó De Ser, a canção tem vocação pra ser de tudo: reflexão filosófica, confissão existencial, crítica social, crônica do cotidiano, retrato da metrópole, balada erótica, lisergia surreal, exercício de ufologia… Em suma: “tudo pode ser”.

Por ser uma banda sem ortodoxia e que não se agarra a nenhum gênero específico, a Pó de Ser escapa de ser capturada por qualquer rótulo. Tanto que a tarefa de encontrar uma etiqueta se torna uma divertida pilhéria: “Pó de Ser é vintage futurista, vanguarda ‘dodecafona’, pop experimental, cultbrega, regional intergaláctico”, arrisca Kleuber Garcez.

As letras de Diego de Moraes e Kleuber Garcez – dupla de parceiros responsáveis pelas composições – são repletas de referências e citações, mas nem por isso deixam de soar originais e autênticas, mesmo quando a tática posta em prática é a do pot-pourri. Em “Cuidado”, por exemplo, eles amarram as idéias através de menções a clássicos da música popular brasileira: “Iracema”, de Adoniran Barbosa; “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa (já gravada pelos Mutantes); “Na Terra Como No Céu”, de Geraldo Vandré; e “Nego Dito”, de Itamar Assumpção (uma figura idolatrada pelos integrantes da banda e que mereceu ainda uma releitura de sua canção “Leonor”).

Uma das virtudes mais evidentes da banda está em seu esmero poético e em seu lirismo multifacetado. Da utopia antropofágica de Oswald de Andrade às renovações estéticas do Tropicalismo, dos poetas marginais da geração mimeógrafo (Torquato Neto, Waly Salomão, Capinan, Leminski, Nicolas Behr etc.) aos compositores-cantores “malditos” (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Itamar Assumpção…), tudo entra no liquidificador linguístico da banda, onde as palavras pegam fogo e ganham inusitados sentidos. “Afina a viola e vai tocar o seu destino!”, cantam logo nos primeiros minutos do disco, na ousada “Pode Apostar”, que conta com participação guitarrística de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que toca também na faixa de encerramento, “Pó de Ser”.

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de "A Dança da Canção Incerta"

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de “A Dança da Canção Incerta”

A brasilidade é explícita pelo disco afora – que por vezes remete também à obra de Raul Seixas, Luiz Tatit, Odair José ou André Abujamra – mas isso não impede o Pó de Ser de dialogar também com a (contra)cultura gringa, em especial hippies, beatniks e gurus da psicodelia. Em “Venha Ver O Sol”, por exemplo, eles saúdam os Beatles com uma canção que parece misturar a vibe de “Here Comes The Sun” (de George HarrisonAbbey Road) e “Lucy In The Sky With Diamonds” (de Lennon e McCartney @ Sgt. Peppers), mas que acolhe também menções ao clássico de Bob Dylan (“Like a Rolling Stone”), ao James Dean de Juventude Transviada, ao romance de Kerouac On The Road, e por aí vai.

O disco estabelece uma densa teia sônica e poética que enreda o ouvinte, carregando-o numa montanha-russa que mais parece uma viagem de LSD por uma Goiânia Cósmica e Alucinógena. Somando forças a Diego e Kleuber estão as guitarras certeiras de Fernando Cipó, os batuques groovados de Danilo Rosolem (com participação de Fred Valle), além de belos teclados e flautas por Hermes Soares: com intrincado entrosamento, os músicos constroem um lindo sonho delirante, um fluxo musical delicioso, que recompensa repetidas audições. Essa é uma daquelas raras “bolachas” já que vai revelando novos encantos a cada nova “orelhada”.

Um certo tom satírico e humorístico marca presença em canções como “Refrão dos Diabos” – comentário irônico sobre os refrões que, por piores que sejam, grudam na memória feito chiclete – e “Captou?” – um lúdico e ca(p)tivante experimento que lembra o trabalho magistral de Diego & o Sindicato, Parte de Nós. Várias das músicas do Pó de Ser tem uma irreverência e uma jovialidade que têm tudo para agradar aos que curtem “etc.

Já em “Fantasia ao Pé do Ouvido” é uma balada erótica que enraíza o amor na corporalidade (“gosto do seu gosto e do seu cheiro, gosto do seu gozo por inteiro”) e traz o Pó de Ser mostrando que também sabe ser sexy, com a ajuda dos vocais de Bebel Roriz. Outra cantora goiana formidável, Cristiane Perné, faz dueto com Diego na faixa-título, “A Dança da Canção Incerta”, um verdadeiro tratado existencialista em formato canção.

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“O risco é a conta que eu pago por ser vivo”, cantam eles nesta canção que parece ecoar Guimarães Rosa e seu “viver é perigoso”. Assumir os riscos todos que a vida nos lança ao caminho, e abrir-se às surpresas que estão à nossa espreita, é a parte essencial da filosofia de vida de uma banda que, a golpes de batuques e melodias, demole qualquer tendência inércia e conformismo. Por isso é tão inspirador deixar-se influenciar por esta atitude exploratória e nômade destes humanos que encaram, tendo instrumentos e vozes como armas, todos os riscos – da bala perdida ao rastro de cobra no mato.

Já “Bicho Urbano” merece decerto o troféu de uma das obras-primas musicais já escritas sobre Goiânia. O eu-lírico assume uma postura ambivalente diante de uma cidade que percebe como “bela e medonha”, como mescla de rural e de urbano, como coexistência de cosmopolitismo e provincianismo. Longe do tom celebratório, o eu-lírico canta a partir de uma posição marginal (“ninguém me socorre nessa capital / que me deixa à margem… marginal!”), descrevendo-se como “mais um louco na multidão” que inclui putas, camelôs, hippies, fiéis; é um “mosaico de nós a se desatar”.

Goiânia atravessa um prisma poético e reaparece mais exuberante e bizarra do que nunca. Com “Bicho Urbano”, a Pó de Ser alçou-se ao nível do comentário sociológico de alto nível, proeza também realizada pelo Carne Doce em “Sertão Urbano”. Na canção do Pó de Ser, alguns dos locais mais célebres da capital de Goiás são evocados por alguém que “rumina a cidade em seu pensamento”, numa atitude de “antropofagia” com o Eixo Anhanguera, o Cererê, a Praça Tamandaré… Soma-se a isso a peraltice da menção aos onipresentes propagandistas  ambulantes de pamonha (“quentinha, caseira, é o puro creme do milho verde!”), tudo misturado, sem pudor, a referências à contaminação radioativa com Césio 137, que tornou a cidade uma espécie de “Chernobyl Brasileira” em 1987.

Encarte 1

Sem pudor de botar viola no rock and roll, de tecer elos entre brasilidade e estrangeirismo, de aliar o trágico e o cômico, o Pó De Ser consegue a proeza de ser, a um só tempo, altamente experimental e saborosamente palatável. Há todo um “microcosmo” escondido dentro dessa minigaláxia chamada “A Dança Da Canção Incerta”, uma obra-de-arte que chega com força para fazer parte do “cânone” da MPB goiana, merecendo até ser caracterizado por aquele delicioso paradoxo: o do “clássico instantâneo”. Figuras como Juraildes da Cruz, Umbando, Cristiane Perné, Carlos Brandão, Gustavo Veiga Jardim, dentre outros artistas seminais do cenário, devem estar felizes, saudando a aterrissagem entre nós desta preciosa música, que vem para deixar nossas vidas mais belas e poéticas, mais surpreendentes e pulsantes, mais delirantes e diferentes…

Como escreveu Cristiano Bastos, o disco é “uma poção sonora cuja alquimia vai além da música e derrama-se em fartas doses de cinema, literatura, poesia, cultura popular e tantas outras linguagens artísticas presentes na louca infusão sonora.” Eis uma banda que, mesmo tropeçando nos astros, siderada por estar de olhos postos nos OVNIs, não perde nunca a harmonia, o ritmo, o groove, o lirismo, o ímpeto aventureiro e exploratório. Mergulhe de cabeça na dança da canção incerta sem medo de overdose: esta música é, para lembrar Manoel de Barros, um baita “esticador de horizontes”. Corra o risco! 

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OUÇA JÁ!

PÓ DE SER
A Dança Da Canção Incerta (2015)

01. PODE APOSTAR
02. CUIDADO
03. A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA
04. BICHO URBANO
05. FANTASIA AO PÉ DO OUVIDO
06. VOU NÃO VOU
07. REFRÃO DOS DIABOS
08. LEONOR
09. PRISMA
10. CAPTOU
11. VENHA VER O SOL
12. PÓ DE SER

Comprar o CD na Livraria A Casa de Vidro em Estante Virtual:
https://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/info.cgi?livro=1139842315

Faça o download do álbum completo:
http://migre.me/siavg

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Ouça o primeiro EP da banda:
http://soundcloud.com/podeser

Integram a banda Pó de Ser: Diego De Moraes, Kleuber Amora GarcezFernando Assis, Hermes Soares Dos Santos, Danilo RosolemO álbum inclui ainda participações especiais de Fernando Catatau (do Cidadão Instigado), Cristiane Perné, Bebel Roriz, Frederico Valle, Leo Pereira (Terrorista da Palavra), dentre outros convidados. A arte da capa é de arte de Natália MastrelaNo vídeo abaixo, confira trechos da faixa-título e da canção “Bicho Urbano”, além de cenas das gravações do álbum no Rocklab de Pirenópolis (GO). O vídeo foi bolado para a divulgação da première do álbum, que rolou na Evoé Café Com Livros, em Goiânia.

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Confira também, na sequência, “De Repente” e “Ypsilone”, ambas canções do EP de estréia do Pó De Ser, Tudo Torto Em Linha Reta:

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Ouça também os álbuns de Diego de Moraes, Parte de Nós e Diego Mascate. Confira também seus clipes para “Dia Bonito”, “O Show Vai Continuar” e “Todo Dia”.


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P.S. A Casa de Vidro também tem a alegria de anunciar que o Diego de Moraes é o mais novo colunista do site e escreverá por aqui no ano de 2016. Aguardem!!!