DYLANMANÍACOS – Uma coletânea exclusiva só com canções de Bob Dylan em interpretações de: Jimi Hendrix, Jeff Buckley, Rage Against the Machine, Joe Cocker, The Band, Joan Baez, dentre outros

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Uma coletânea exclusiva só com canções de Bob Dylan em interpretações de: Jimi Hendrix, Jeff Buckley, Rage Against the Machine, Joe Cocker, The Band, Joan Baez, dentre outros

Click PLAY acima

1. HENDRIX. All Along the Watchtower.
2. JOAN BAEZ. Simple Twist of Fate.
3. JEFF BUCKLEY. I Shall Be Released.
4. PJ HARVEY. Highway 61 Revisited.
5. THE BAND. Tears of Rage.
6. ODETTA. Masters pf War.
7. RICHIE HAVENS. Just Like a Woman.
8. JOE COCKER. Girl From North Country.
9. JIMI HENDRIX. Like a Rolling Stone (live).
10. RAGE AGAINST THE MACHINE. Maggie’s Farm

Logo mais, volume 2.

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Tiragosto:

Jeff Buckley – “I Shall Be Released”

Read more at Relevant Magazine / Mojo / Paste

“O Terceiro Olho”, Um Ensaio Gonzo sobre Bob Dylan (+ Discografia Básica Para Downloadar)

“Do not go quietly into that good night!
Rage, rage against the dying of the light!”

Dele se dizia que “tinha sua mão sobre o pulso de sua geração”. Com a sabedoria que foi pescar em Steinbeck, Walt Whitman e Woody Guthrie, cantou aquela América que não está no cartão-postal: a América com a história conspurcada pela Klu Klux Klan e pelo ódio racista; a América da Guerra Fria, com seu arsenal nuclear pavoroso, ávida por Vietnãs a invadir e morta de pavor diante do espectro do comunismo; a América que acredita ter Deus a seu lado e que por isso se sente justificada a santos morticínios (“you don’t count the dead when God’s on your side…”).

Garoto judeu nascido nos EUA enquanto a Europa era assolada pelo Holocausto (em 1941), Robert Zimmermann tinha menos de 5 anos de idade quando seu país natal lançou as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (detalhe sinistro: com três dias de distância entre os dois massacres). Uns vinte anos depois, mostraria com algumas de suas canções – “A Hard Rain’s Gonna Fall” e “Masters of War”, por exemplo – que soube transformar sua indignação em crítica ferina. Nascia um artista cujas poesias e melodias traziam a marca de uma singularidade sem par. A música de protesto jamais seria a mesma. AMúsica jamais seria a mesma.

Robert Zimmerman despontou como “menino prodígio” na cena do Greenwich Village, Nova Iorque, com vinte e poucos anos de idade, com seu violãozinho surrado e sua gaitinha de boca, celebrizando-se rapidinho com uma escrita esperta e ousada que flertava com a dos beatniks. Revolucionou a vazia verbolatria da mídia-de-massas levando o “espírito” de Ginsberg, Kerouac e Cassady para as letras de música.  Além de um vasto conhecimento literário, o jovem folkie, que havia assumido o codinome “Dylan” em homenagem ao poeta Dylan Thomas, parecia haver devorado antropofagicamente todo o passado da música popular americana: era admirador de Hank Williams, Robert Johnson, Little Richards e Elvis Presley, sem estabelecer fronteiras entre o country, o blues e o rock. Os amores não respeitam os departamentos.

Para cantar a América – aquela de As Vinhas da Ira, não a da Disney! – Bob Dylan conquistou seu arsenal nas mais variadas fontes, enraizou-se fundamente no solo fecundo da cultura popular americana, aquela criada espontaneamente pelos folks que jamais assinam contratos com mega-gravadoras. Soube ouvir, longa e profundamente, ao que dizia a Voz do Povo. É por isso – esta capacidade de “escutar” aquilo que expressa sua geração e sintetizar isto numa expressão criativa – que Dylan foi um marco tão crucial nos anos 1960, inspirando “gentinha” miúda como… Jimi Hendrix e John Lennon. Bob Dylan faz parte da rara estirpe de artistas que desdenham de fronteiras, inventam novas misturas e redefinem tudo o que será feito depois deles. Como marcos divisores que racham a História em duas: uma antes deles, outra depois.

Dylan misturava sem dó nem pudor as referências mais eruditas com as mais popularescas gírias. Não acreditava nesta invenção de letrados que é o muro intransponível entre os cultos e os analfabetos, a Academia e o povo. Levou as tretas entre Rimbaud e Verlaine para suas canções de amor, e elevou canções de amor ao status de obras-primas da literatura (“Visions of Johanna” é ou não é um dos mais belos poemas do século?).

Diante de um artista tão audaz nas transformações que impôs a seu som e à sua identidade lá pelo meio dos anos 1960, os puristas, é claro, levantaram-se ofendidíssimos: que heresia eletrificar seu folk e lançar-se elétrico na Era dos Beatles! “Judas! Traidor!”, bradavam do público. Ele não queria nem saber e, numa atitude proto-punk de fodam-se os puristas, dizia para a The Band, debaixo das vaias dos indignados: “toquem alto pra caralho!” Porque o artista não existe só para agradar, mas tem que ousar agredir. Para dizer às pessoas o que elas querem ouvir já existem as religiões e as propagandas, os best-sellers de auto-ajuda e os mercadores de ilusões reconfortantes. O artista será um dedo na ferida, alguém que nos abre o olho, ainda que à nossa revelia, ou não será um artista.
* * * * *
Bob Dylan, me parece, foi um dos homens mais cultos da história de seu país, um colosso em relação à norma: escrevia aos 20 e poucos anos de idade algumas quilométricas canções narrativas que remetiam às peças de Brecht (“Only A Pawn In Their Game”) e que às vezes atingiam a beleza poética de William Blake (“Gates of Eden”, “Highway 61 Revisited”…). Usava como personagens tanto figuras bíblicas quanto trágicos heróis e heroínas de Shakespeare (como Ofélia, que transita por “Desolation Row” na companhia ilustre de Ezra Pound, T.S. Eliot e o Fantasma da Ópera). Bob Dylan, décadas antes do procedimento ser “viralizado” por Beck e pelo Rap, inventou um tipo de composição altamente “linkada”, que se assemelha a uma rede, repleta de setas apontando para fora dela mesma. Uma canção de Dylan era uma janela que se abria para um horizonte cultural mais amplo, que nos retirava os véus e as pálpebras que, bem em cima da testa, mantêm fechado o que Nietzsche gostava de chamar  “O Terceiro Olho”.

Não à toa, Dylan, nos 1960, foi defensor da cannabis – que, conta a mitologia, ele teria apresentado aos Beatles… – e teve a desfaçatez de iniciar seu  Blonde on Blonde com o mais lúdico e brincalhão de seus sons, clamando: “Everybody must get stoned!” Dylan, além do elogio explícito das substâncias químicas que abrem o Terceiro Olho, nos mostrou que a poesia também podia ser um barato embriagante:a poesia, este bem gratuito e disponível a todos, também é uma espécie de dispositivo psicodélico que, se consumido em doses adequadas, com os olhos corretos abertos, com o coração suficientemente vulnerável para que seja afetado e chaqualhado e impactado, abre-nos, súbito, na testa, um 3º olho.

Leminski, quando especula sobre a razão que explica porquê os povos amam seus poetas, esquece de comentar que a expansão de consciência sempre foi considerada pelo homo sapiens um bem em si mesmo, sempre foi acompanhada por um êxtase diretamente proporcional à abertura de horizonte conquistada, amada por todos aqueles que conquistavam o sentimento oceânico, ou órfico, ou dionisíaco, ou místico, chamem como quiser este Inefável. Não é por outra razão que a ayahuasca chegou até nossos dias, com sua receita milenar transmitida de geração em geração: é pela mesma razão que Shakespeare, Heine ou Fernando Pessoa prosseguem entre nós, consumidos como se fossem ácido, por mentes esfomeadas por enxergar mais longe do que permitem os cabrestos que nos enfiam na mente os Senhores.

Esse garoto judeu que vemos no festival folk de Newport em sua primeira ascensão, este Dylan cheio de energia juvenil, que não se envergonha de sua tosquice no afinamento do violão nem do nasalamento patolino de sua voz, é a convicção encarnada de que o poder da palavra importa mais do que ornatos, adornos e fogos de artifício. Ninguém foi menos glitter do que Dylan: ao invés de posar de estrelinha, ele preferia parecer-se com um andrajoso cigano, caroneiro de trens de carga, vadio cheio de dignidade, pobre em roupas mas rico em poesia. Dylan nunca foi realmente um showman e sempre esteve mais para um rapsodo vadio e esfarrapado. Tom Waits soube aprender muito com ele – assim como Nick Cave.

Victor Hugo dizia: “os poetas são milionários de estrelas”. Dylan é a riqueza interior que se afirma com as aparências exteriores mais humildes. Às vezes quer me parecer que em algumas de suas músicas há um ideal, não muito distante daquele de Alexander Supertramp, que consiste em crer que  mesmo sem ter no bolso um vintém, mesmo sem ter no mundo qualquer propriedade, é possível sentirmo-nos plenos simplesmente por estarmos vivos diante de um céu estrelado que se recusa a responder a nossos assombros.

“A resposta, meu amigo, está soprando no vento…”

* * * * *

Bob Dylan não cessa de fascinar e desconcertar pois é um vivente que talvez nenhum outro vivente entenda por completo – nem ele mesmo. Quando entramos no mundo destas canções que ele criou, a sensação que nos toma é a de uma alteridade misteriosa, como se ele próprio gostasse de se vestir de Esfinge e fazer se multiplicarem nossas dúvidas sobre ele. Não é possível definir Dylan com nenhum rótulo: a própria torrente infindável de suas canções, este caudaloso rio poético de mil faces, é uma correnteza que arrasta, como teias de aranha, toda tentativa de fixá-lo, esgotá-lo, domesticá-lo.

O que tantos evocam para explicar o charme, a graça e o talento de um David Bowie ou um Raul Seixas – o fato deles serem “mutantes”, metamorfoses ambulantes, homens-iguana… – também vale para Dylan: ele se revoltou contra a idéia de uma identidade única, fixa, imutável, e dissolveu-se em muitos eus, muitas faces, muitas cores, muitos Dylans, que formam um caleidoscópio que a Razão não entende por completo, mas que a sensibilidade sabe admirar, espantada e atingida.

É isso, me parece, que explica o poder de “Like a Rolling Stone”, aquilo que a faz ser considerada uma das melhores canções populares já compostas, digna de ser esmiuçada por livros inteiros (como o de Greil Marcus, por exemplo). Há toda uma “corrente afetiva” subterrânea que anima a canção e que convence o ouvinte que Dylan está falando sobre algo de crucial sobre a condição humana. Dylan usa a imagem poética da pedra que rola – que integra o que eu chamaria de “mitologia do rock and roll” em muitas versões, em Muddy Waters e nos Rolling Stones, por exemplo – mas não está falando somente sobre pedaços de matéria rolando por aí: não se trata somente de deslocamento no espaço, mas de mudanças no tempo. Não se trata somente de correr mundo, mas de correr de si mesmo. Dylan tematiza esta imposição cósmica que o Universo obriga todo eu a suportar como um Destino: mudar, transformar-se, correndo como o rio de Heráclito. E o Dylan dos anos 1960 marcou época por abraçar a mudança com um sábio amor fati: isso de transformar-se inexoravelmente em outra coisa sem nunca estagnar-se e conformar-se a ser o que já se é. A tragédia e a glória da pedra que rola é que ela não possui nenhum freio possível. É como na vida mesma, onde não existe como puxar o freio-de-mão, a não ser pelo suicídio – que aniquila qualquer possibilidade da vida re-aventurar-se em novos aceleramentos. O tempo não pára: ninguém énada, de uma vez por todas, mas sempre estamos sendo.

“Once upon a time you dressed so fine / Threw the bums a dime, in your prime, didn’t you?” Aí já se desenha, nos primeiros versos, um quadro de apogeu e decadência, de mudança brusca no curso dos tempos, algo que ele tematizou de modo poderoso também em “The Times They A-Changin'”. Ser um rolling stone é estar sempre na estrada, em busca de um lar que parece nunca se encontrar. É um sentimento (“without a home… a complete unkonwn…”) que dá o tom daquela melancolia saturnina que assombra os blues de Son House. Mas em Dylan sempre houve também uma paixão pelas raízes, por algo como um home sweet home que nos livre da sina de vagar, vadios, a procurar. É como se sua alma fosse um cabo-de-guerra entre o enraizamento e a vontade de correr mundo. Como se suas canções fosse um testemunho e um tributo deste fecundo diálogo existencial entre a atração do desconhecido e a vontade de settle down.

Estou longe de ser um dylan-maníaco que bate palmas para tudo que o “gênio” fez – estou convicto, aliás, que ele fez muita porcaria e que a Musa faltou ao encontro em numerosas ocasiões. Uma discografia tão imensa certamente comporta muitos álbuns fracos, desnecessários, que talvez ele tivesse feito melhor em engavetar. Olho com um pouco de desdém, mesmo, para os anos 80 de Dylan, marcados pela infame conversão ao cristianismo e por alguns flertes desavergonhados com a música gospel, mas logo me belisco para me acordar e percebo o absurdo que é ousar desdenhar de Bob Dylan sem ter feito um centésimo do que ele fez, sem ter criado porcaria nenhuma que chegue aos pés do que ele já criou. Minha admiração irrestrita se restringe àquela que considero a Fase de Ouro de Dylan – aquela que se extende mais ou menos de 1963 a 1976 e que inclui obras-primas como Freewheelin, The Times They Are-A Changin’, Another Side, Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, Nashville Skyline, Blood on the Tracks, Desire… O “resto” é algo ainda por explorar, mas que não me atrai com um magnetismo tão forte: é como se eu soubesse que vou me decepcionar e preferisse a companhia daquele jovem Dylan que preencheu, plenificou e fascinou tantos inquantificáveis momentos da minha juventude.

Sei bem que Dylan ainda está vivo, e por sinal acaba de soltar seu novo álbum, Tempest. Mas costumo falar dele como se ele estivesse no passado, como se já tivesse se transmutado em mito. São poucos os vivos, hoje, que já sabemos do status mítico que terão quando baterem as botas – caso, no Brasil, de um Chico Buarque ou um Tom Zé. O velhinho Dylan, hoje por aí, espanta-me um pouco com a falta de vergonha que ele demonstra em relação à sua voz, que por mais de uma década está estragadaça: quanto mais o tempo passa, ele se transmuta de Pato Donald em Bruxa do 71. Mas logo me lembro que uma das maiores graças de Dylan sempre foi isso: o fato dele colocar o conteúdo, a mensagem, a letra, muito acima dos ornamentos externos. Se ele acha que tem uma boa letra, ele irá cantá-la, mesmo com a pior voz do mundo, pois julga que aquilo precisa ser dito.
Dylan só marcou época como cantor de protesto pois seus ouvintes e admiradores reconheceram que aquilo que ele disse precisava ser dito: ele é uma figura que encarna, como Kurt Cobain nos 90, o status de “voz de uma geraão”. Depois, lançou por terra todos os rótulos que quiserem grudar nele: enfiou a guitarra elétrica no folk, abandonou a seriedade do engajamento político e abraçou a poesia surrealista e dadaísta, dando vazão ao homo ludens que trazia dentro de si. Atravessou a vida sendo um criador e morrerá um criador. E suas criações são tão complexas, multifacetadas e crípticas que Dylan é um homem indecifrável – daqueles que não permitem que a gente termine um ensaio sobre ele com satisfação, mas sim com a frustração de não ter dado conta de compreender e explicar um destino que escapa à Razão. Mas talvez todos os destinos escapem ao domínio da Compreensão? Talvez todos levaremos para o túmulo uma fatia imensa de Mistério? Sei lá eu… Sei que Dylan, pedra rolando pelo mundo, sempre se re-inventando, obcecado por sua mania criativa, sempre me inspirou o sentimento de que viver é inventar, que viver é mudar, que viver é não se conformar, que viver é saber que o nascimento não é algo que ficou pra trás, mas uma tarefa ainda por cumprir. É como se Dylan quisesse morrer ainda em pleno trabalho de parto criativo – em suma: morrer ainda nascendo. “Get Born!” é, talvez, o slogan dylanesco que mais adoro. E meu verso predileto das Obras Completas de Mr. Zimmermann talvez seja aquele: “he not busy being born is busy dying“. Pois, como diria o poeta Murilo Mendes, “nascer é muito comprido”. E pra ninguém é missão cumprida.
 
Eduardo Carli
Goiânia, Setembro de 2012
Originalmente publicado no Depredando

Este é o 3º ensaio que dedico a tentar decifrar Dylan. 
Eis os outros dois: X e Y.

“Murray Lerner’s documentary features Bob Dylan’s performances at the Newport folk festival between 1963 and 1965 – the time when Dylan changed the music of the world and changed himself from the fresh-faced cherub singing “Blowin’ in the Wind” to the rock ‘n’ roll shaman who blew pop music apart when he went electric. The film No Direction Home told the story of how Dylan affected the world and the world affected Dylan, but this film brings you face to face with the work itself. Like the discovery of a hitherto unknown manuscript or an unseen masterpiece, this is a treasure trove, newly opened up.”

BOB DYLAN
DISCOGRAFIA BÁSICA
Another Side (1964) [download]
Blonde on Blonde (1967) [download]
Blood on the Tracks (1975) [download]
The Freewheelin’ (1963) [download]
The Times… (1964) [download]
Highway 61 (1966) [download]
Bringing It All Back Home (1965) [download]

SE LIGA NO SOM! – Jazz Liberatorz, Rincon Sapiência, Seun Kuti, Lenine, Madlib, Tássia Reis, A. Nóbrega, Francisco El Hombre e muito mais… [#1]

SE LIGA NO SOM!

Por Eduardo Carli de Moraes

Sou o tipo de criatura tão fissurada em música, o mais delicioso de todos os vícios, que dou razão à hipérbole Nietzschiana: “sem música, a vida seria um erro”. É como se a existência perdesse em qualidade e deleite sempre que o ar ao redor não está animado e vivificado com o som e o sentido (para lembrar a obra do mestre Wisnik) criados pela musicalidade humana em sua infinita inventividade.

No dia a dia, além de aprendiz de músico que arranha uns instrumentos de corda (violão, guitarra e ukelele) e assopra uma gaitinha, também compartilho várias canções e videoclipes na página d’A Casa de Vidro no Facebook, pondo na roda de convivas algumas das sonzeiras que tem encantado meus dias, compartilhando os meus pet sounds como uma espécie de radialista ou DJ da web.

Na série de posts que agora se inaugura e que escolhi intitular Se Liga No Som! em homenagem ao livro de Ricardo Teperman, que adoro e com o qual muito aprendi – planejo coletar num “postzão” os vários “postzinhos” dispersos pela página do FB. Pelo menos uma vez por mês, deve pintar aqui em www.acasadevidro.com uma nova “coletânea digital” com o que mais tem encantado meus tímpanos e instigado minha reflexão em termos de produção musical. Ofereço também alguns humildes comentários e pitacos que visam contextualizar as obras e esclarecer um pouco as razões que tenho para admirá-las, curti-las e recomendá-las.

Por hora, este é um catálogo de sons de estimação e estou me abstendo daquele viés da crítica musical que consiste em descer o cacete naquilo que a gente não gosta. Em futuras edições, talvez, eu me aventure à arte de falar mal daquilo que ofende meus ouvidos e que me parece enveredar por rumos lastimáveis. Por hora, convido a todos a subirem o volume e embarcarem em viagens nas asas do som, convocando à comunhão musical na vibe de alguém que chega a um amigo, na empolgação de uma fissura vigente, e diz: “pira nesse som!” ou “cê tá ligado nesta banda?”


CONEXÃO AFROBEAT TROPICAL

É hora da conexão Brasil / Nigéria nas Aerolíneas A Casa de Vidro: basta dar um play e viajar sônicamente na companhia do filho caçula do mito Fela Kuti, fundador e pioneiro do Afrobeat. Em “Black Woman”, cujo clipe foi inteiramente filmado em solo brasileiro, Seun Anikulapo Kuti e a banda Egypt 80 celebram o “black power” unido ao feminismo. Reverenciam não apenas suas mais célebres encarnações – Nina Simone, Angela Davis, Maya Angelou etc. -, mas também a cotidianidade do “struggle” e da “strenght” da mulher negra “comum”, que com tanta frequência encara uma vida em que é um espetáculo invisível de força, perseverança, fortitude…

ASSISTA O CLIPE:

“Black Woman”, com seus metais calientes, seus coros femininos, seu neo-Afrobeat de impecável apelo transcontinental, suas imagens de exuberância tropical e feminilidade em efervescência, parece-me que serve também para abrir novos horizontes para a arte do videoclipe filmado no Brasil no âmbito da música global.

Desde que Spike Lee subiu o morro com Michael Jackson – este último vestindo uma camiseta da Banda Olodum Samba Reggae – para filmar o clipaço de “They Don’t Care About Us”, atualmente com “apenas” 350.000.000 views no Youtube, tenho a impressão que o Brasil pode ser um “point” global para o avanço da arte da videoclipagem. Assistir aos trabalhos audiovisuais de um rapper como Rincon Sapiência (“Meu Bloco”, por exemplo) só fortalece essa impressão.

Para bombar esse cenário da afrolatinidade, resistente, em expressão transcultural e cosmopolita, como fazem Seun Kuti e Rincon Sapiência, como fez Spike Lee em seu joint-clipe, turbinemos a conexão com o Atlântico Negro (brilhantemente analisado por Paul Gilroy), seu passado, seu presente e sua futuridade! Esta aí, quem sabe, a mais fecunda fonte para a cultura brasileira seguir efervescendo e propondo caminhos inovadores para o resto do mundo. Nosso pioneirismo será estético ou não será!

“I write this song for you
(Black woman)
And I see everything you go through
(Black woman)
I see your tears and your joy and your pain and your fears
(Black woman)
And your strength to endure all the beatings and the war
(Black woman)
That’s why me respect you
and I believe in you and I see your struggle
I never fear your strength…”
Seun Kuti

BIOGRAFIA SEUN KUTI: http://www.allmusic.com/ar…/seun-kuti-mn0000999541/biography

 


LIBERTANDO O JAZZ PARA TRANSAS HIP

O trio francês Jazz Liberatorz, neste impressionante disco “Clin D’oeil” [literalmente, Pisco d’Olho] (2008), insere o jazz na era do movimento hip hop, libertando a tradição de quaisquer amarras dogmáticas e livrando o caminho para interessantes fusões. No Brasil, também tem gente explorando este casório: é só pensar em Tássia Reis e seu “Rap Jazz”  (veja o clipe abaixo) ou no radical fusion tropical do Metá Metá – Juçara Marçal pode não ser uma rapper, mas seu verbo está tão enraizado de ancestralidade que evoca, de fato, toda a história da expressão artística proveniente da diáspora pelo Atlântico Negro (cf. Gilroy).

Sobre esta bolacha do Jazz Liberatorz (dê o play abaixo), lê-se na AllMusic: “The album reclaims the brief love affair between hip-hop and jazz that took place in the U.S. in the mid-’90s, using deep basslines, sampled horns, and beat poet-styled phrasings from a slew of guest MCs. The sound is ultra-cool, combining European hip-hop’s love of slicker, more urban beats with the simplest jazz instrumentation — atomic chunks of sound and songs that are reworked to soften the edges of a rapped delivery and convert it to a strong flow through sheer musicality.” (Adam Breenberg)

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RITMO E POESIA: O VERBO QUE JOGA E DANÇA

Um artista que desponta no cenário hip hop brasileiro encarna à perfeição a união entre ritmo e poesia que, segundo a lenda, batizou o estilo musical rap (rhythm and poetry): Rincon Sapiência chega para mostrar toda a exuberância de um verbo que joga e dança, dando prosseguimento aos experimentos percussivos-linguísticos brilhantes de seus contemporâneos mais ilustres em terra brasilis, Criolo e Emicida. Rincon é de fato muito bom de rima, desliza bonito no flow e não deixa a contundência de sua mensagem impedir a manifestação de um senso de humor afiadíssimo e de uma miríade de referências. Estamos na era da música linkada e em cada uma de suas composições, repletas de fato duma Sapiência colhida em suas vivências como artista periférico e poeta dos guetos, Rincon ascende como uma das figuras que mais impressiona na nossa música. Um tiragosto:

LINHAS DE SOCO, de Rincon Sapiência [FB]

“O rap me deixa alto, tipo THC
E o palco é o octógono do UFC
A batida é um soco, rap, a voz da plebe
No flow, deslancho, tipo um gancho, um jab
Na rima, Jackie Chan, na Hora do Rush
E a dama pensando em mim, bem na hora do blush
Um trato nas duas, diz que me ama, idem
Fiel e amante, aí vocês decidem
Sem teclados, mouse, tive meu panorama
Lan house, não, sou do tempo do fliperama
Bote a ficha e jogue, muito antes dos blogs
Dava a cara a tapa e batia feito Balrog
Tipo GOG, rolo compressor passando
Eles ficam grogue, vendo estrelas girando
Linhas de soco, minha poesia irônica
Microfone é que nem o coelho na mão da Mônica
Corre, Cebolinha, ataco!
Se passam por malacos, mas escrevendo linhas são flacos
Cômico, rap chapa, hidropônico
Fome de rima, overdose de Biotônico
Queremos o “faz-me-rir”, então, corra
Mas, por enquanto, é só piada do Zorra
E nóis segue, assim, na humilde
Sem aquele “faz-me-rir”, estilo Mussum, cacildis
Ó, meu dom nas ruas se exibe
Tipo rei Roberto no calhambeque, bi-bi
Tô quebrando grilhões, mesmo sem os milhões
MCs Trapalhões, Dedé e Didi
Opiniões divide, ataques, revides
Meu corpo é fechado, eu sou que nem Thaide
Ouvidos são profundos, penetro que nem Kid
Sou raro, que nem os paletós no meu cabide
Vide bula, playboy, na moral
Rap tarja preta, efeito colateral
As cores no visual, que nem graffiti do OPNI
Dois tipos de MC, eu sou que nem um OVNI
Vou passeando nos discos, marciano
É a lua e eu, que nem Cassiano
Língua afiando, línguas fatiando
Dom é como vinho, deixe que passem anos
Mando o papo quente, não levo desaforo
Rap sem calor, não passam de calouros
Cuspo fogo, Dhalsim, no Street Fighter
Rap light, mas mata que nem Marlboro
Choro, o racista de olho vermelho
Nem olha no meu olho, eu sou que nem um touro
Hip-hop é a clínica onde fui internado
Música no sangue, África no soro
Sem jaco de couro, aqui estou
Na pegada punk, que nem Sex Pistols
Batida, rima, DJ e um bom flow
Quatro integrantes clássicos, que nem os Beatles
Longe da música, saudade, eu fico como?
Inseparáveis, como Lennon e Yoko Ono
Roube a música de mim, se quiser uma guerra
Não vai ter paz pelo Papa e nem pela ONU
O mundo não tem dono, Sampa não tem sono
Microfone broca, pistas eu detono
Na ZL, rap ruim, isso eu questiono
Xis é rei e eu serei sucessor do trono
Cena rap Malhação, isso eu cancelo
Minha cena é preta, clássica, Grande Otelo
Sem estresse, trabalho só me engrandece
Que nem Super Mario, depois do cogumelo!”

VEJA TAMBÉM:


EXCURSOM DO MADLIB PELO BRASIL 

“Me vê uma viagem sonora gratuita pela multidiversa musicalidade do Brasil, DJ!” É pra já; suba o volume e embarque nesta excitante excursom turística do Madlib:

 Flight to Brazil é um incrível álbum/mixtape, lançado em 2010, de 1h 20 min, parte da série “Madlib Medicine Show” – Número #2, assim resenhado por Thom Jurek:

“Madlib goes all out — all the way out — on this platter: there are elements of MPB, early folk styles and field recordings, funk, jazz, psychedelia, tropicalia, carnival, forro, bossa nova, samba, Afoxe, and more, from Brazilian sources. In addition to the killer found sounds from his four-ton stack of vinyl, the mad mixer produces a truckload of new beats and creates wave upon wave of phased atmospheres and textures to accent what he samples. His manner of taking recordings and artists and juxtaposing them to create something new is his trademark. Examples are as rich as segments of Hermeto Pascoal’s Slaves Mass against a track by O Quarteto from 1969, then adding a bit of trippy guitar, three different rhythm tracks, a flute solo by Carlos Jimenez, and some of Moacir Santos’ Opus 3, before touching on Emilio Santiago, Maria Bethânia, and on and on and on. There are psychedelic rock groups here whose music we may never hear anywhere but here, as well as some we already know — Som Imaginario, Modulo 1000, Inferno No Mundo, and many others. The entire thing is a wild head and heart trip, saturated in gorgeous melodies, killer, slippery rhythms, and sonics that are so spaced out, they could only occur on one of Madlib’s recordings. This second volume is more of a treat than its predecessor, perhaps because of, rather than in spite of, its exotic point of departure. This is a spliffed-out joy to listen to. Fans of Madlib’s more jazz-oriented modes may dig this a bit more than those who dig the hard-edged beats, but this is an adventure to appreciate as much for its ambition as what it offers.”

TRACKLIST >>>

Rio De Janeiro 0:00
Sao Paulo 12:13
Belo Horizonte 19:19
Porto Alegre 27:31
Salvador 33:16
Recife 40:43
Fortaleza 53:23
Brasília 1:04:24
Curitiba 1:14:20

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EN VIVANT – Grandes álbuns ao vivo

Odetta at Carnegie Hall (1960, Show Completo, 44 min)

“A towering figure of folk revival and Civil Rights Movement, the African-American singer-songwriter provided voice for the voiceless.” – AllMusic: http://www.allmusic.com/artist/odetta-mn0000888730/biography


UM SAMBA DE BOTECO

“Vou de boteco em boteco
Bebendo a valer
Na ânsia de esconder
As dores do meu coração

Conselhos não adiantam
Estou no final
Perdi o elã, perdi a moral
Meu caso não tem solução

Eu bebo demais pro meu tamanho
Arranjo brigas e sempre apanho
Isso me faz infeliz

Entro no boteco
Pra afogar a alma
As garrafas então batem palmas
Me embriago
Elas pedem bis…”

NELSON SARGENTO (FB)


“BOLSONADA”: IRREVERÊNCIAS ANTI-FASCISTAS

Duas das principais novidades do cenário musical cá de Pindorama – Francisco, el hombreLiniker e os Caramelows – juntaram suas forças irreverentes para um caliente petardo anti-fascista, “Bolsonada”. Presente no álbum Soltasbruxa, vemos nesta canção de bem-humorada contestação todo uma atitude que realiza, no campo estético, o que seria no âmbito político pura desobediência civil. Desrespeitando o “mito” da extrema-direita Brazileira, o asno vociferante Jair Bolsonaro, a música pretende reduzir a nada o discursinho de ódio, xenofobia, racismo, misoginia, armamentismo e homofobia daquele que pretende candidatar-se à presidência da República, ainda que não passe de uma caricatura grotesca de líder autoritário e desmiolado. Em um mundo em que vimos a eleição de Trump e em que a vitória da Frente Nacional de Le Pen na França é plausível, devemos ficar atentos e ativos diante da ameaça fascista que também aqui nos ronda; ao invés do militarismo do “às armas, cidadãos!”, super-estimado slogan bélico cantado na Marselhesa, sou mais um “às rimas e melodias, foliões!” Franciso El Hombre e Liniker apontam o caminho de um alegre sarcasmo, aguerrido e combativo, que faz da luta anti-fascista (por que não?) também uma festa.

“Esse cara tá com nada
sabe pouco do que diz
muito blablabla que queima quem podia ser feliz
desrespeito é o que prega
então é o que colherá!
jogo purpurina em cima
para o feio embelezar
esse cara escroto
mucho escroto!

Esse já não sei se bate bem
se é um fascista concedido
cargo alto e voz viril
vai lucrar do desespero
da loucura já civil
bolso dele sempre cheio
nosso copo anda vazio…

Mesquinhez, intolerância,
Bolsonada que pariu…

Esse cara escroto
mucho escroto!!!”

(FB)

Se a “Bolsonada” é pra embalar um quente e envolvente anarco-baile, “Triste Louca Ou Má” já é de outra vibe, uma canção e um clipes lindos de chorar. 



NAÇÃO PLURI-ÉTNICA, ARCO-ÍRIS TERRESTRE DA SOCIOBIODIVERSIDADE

Dois mestres que muito reverencio na cultura brasileira, ambos vivos e operantes, revelam em suas canções o quanto esta terra é de fato pluri-étnica, manifestação visível e audível de diversidade acachapante: Lenine e Antônio Nóbrega foram capazes de encapsular em canção aquilo que Eduardo Galeano chamou de “arco-íris terrestre”. Ouçam “Tuby Tupi” (em que Lenine brinca com o mote de Oswald de Andrade, “tupi or not tupi, that’s the question” e “Chegança” (umas das obras-primas de Nóbrega) e tenham contato com duas músicas que expressam com perfeição o conceito, tão propalado nos ideais e práticas do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, de sociobiodiversidade. 

(FB)

TUBY TUPI – Lenine

Eu sou feito de restos de estrelas
Como o corvo, o carvalho e o carvão
As sementes nasceram das cinzas
De uma delas depois da explosão
Sou o índio da estrela veloz e brilhante
Que é forte como o jabuti
O de antes de agora em diante
E o distante galáxias daqui

Canibal tropical, qual o pau
Que dá nome à nação, renasci
Natural, analógico e digital
Libertado astronauta tupi
Eu sou feito do resto de estrelas
Daquelas primeiras, depois da explosão,
Sou semente nascendo das cinzas
Sou o corvo, o carvalho, o carvão

O meu nome é Tupy
Guaicuru
Meu nome é Peri
De Ceci
Sou neto de Caramuru
Sou Galdino, Juruna e Raoni

E no Cosmos de onde eu vim
Com a imagem do caos
Me projeto futuro sem fim
Pelo espaço num tour sideral
Minhas roupas estampam em cores
A beleza do caos atual
As misérias e mil esplendores
Do planeta Neanderthal

“CHEGANÇA” – A. Nóbrega

Sou Pataxó
sou Xavante e Cariri
Ianonami, sou Tupi
Guarani, sou Carajá
Sou Pancaruru
Carijó, Tupinajé
Potiguar, sou Caeté
Ful-ni-o, Tupinambá

Depois que os mares dividiram os continentes
quis ver terras diferentes
Eu pensei: “vou procurar
um mundo novo
lá depois do horizonte
levo a rede balançante
pra no sol me espreguiçar”

Eu atraquei
Num porto muito seguro
Céu azul, paz e ar puro
Botei as pernas pro ar
Logo sonhei
Que estava no paraíso
Onde nem era preciso
Dormir para se sonhar

Mas de repente
Me acordei com a surpresa:
Uma esquadra portuguesa
Veio na praia atracar
De grande-nau
Um branco de barba escura
Vestindo uma armadura
Me apontou pra me pegar

E assustado
Dei um pulo da rede
Pressenti a fome, a sede
Eu pensei: “vão me acabar”
Me levantei de borduna já na mão
Ai, senti no coração
O Brasil vai começar


LISTAS


PSICOLOGIA DE MASSAS: VISLUMBRE DO DELÍRIO COLETIVO INDUZIDO PELA MÚSICA

Impressionante e acachapante o efeito que tem a espetaculosa “De Música Ligera”, do Soda Stereo, sobre a multidão em Buenos Aires: parece que o povo vira um megaorganismo, composto por 50.000 pessoas, saltando e delirando em uníssono. Os fãs de futebol que me perdoem, mas a música é capaz de realizar façanhas em termos de psicologia de massas que você nunca verá parecido em nenhum clássico Boca Juniors vs River Plate… (FB)


RAGIN’ AGAINST THE MACHINE

Nasceu o supergrupo perfeito para confrontar furiosamente o início da Era Donald J. Trump! Mesclando membros do Rage Against The Machine, do Public Enemy e do Cypress Hilll, nasceu o crossover de thrash metal, hip hop e punk dos Prophets of Rage. Com EP de estréia já lançado, e com Tom Morello sempre endiabrado nas seis cordas, a banda promete subverter o slogan oficial daquele fascista YanKKKe que hoje dorme na Casa Branca; eles querem botar na boca do povo um outro lema: “Make America RAGE again!”

“Prophets of Rage” (Official Video, 2016, +700.000 views)

por Eduardo Carli de Moraes – Abril de 2017


LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO – SOBRE MÚSICA: 200 clássicos da MPB nos anos 60, 70 e 80Gil Scott-HeronNina SimoneJanis JoplinSergio SampaioBob DylanVioleta ParraFestival de Jazz de Montreal –  Bananada 2016 – Björk’s Biophilia.

Documentário explora as raízes e o legado da maior manifestação política do século 21 – Resenha sobre “We Are Many”, um filme de Amir Amirani

Naquele 15 de Fevereiro de 2003,slogan que dá nome ao filme We Are Many era mais verdadeiro do que no comum dos dias. Naquela ocasião extraordinária, estima-se que 15 milhões de pessoas tomaram as ruas de mais de 700 cidades, em todos os continentes, em protesto contra a iminente deflagração de uma guerra contra o Iraque.

Capitaneada pelos EUA, pela Grã-Bretanha e por seus aliados, mancomunados numa Coalizão Internacional que pretendia aniquilar o chamado Eixo do Mal (Axis of Evil), a Guerra do Iraque desde seus primórdios sofreu uma maré de oposição tão gigantesca que fez muitos analistas políticos lembrar das mobilizações sessentistas pelo fim da carnificina Yankee no Vietnã.

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2003, mundo afora: “give peace a chance!” (reloaded)

 We Are Many, o documentário de Amir Amirani,  revela de modo explícito as raízes e os legados desta imensa mobilização internacional anti-guerra. Mundo afora, naquele Sábado de Fevereiro de 2003, éramos de fato muitos, solidários na indignação, ruidosos contestadores daqueles masters of war denunciados pelo jovem Bob Dylan ainda nos anos 60.

Fluindo pelas veias das metrópoles em torrentes de indignação, flooding the streets with a beautiful rage, havia a esperança – que depois se mostraria vã – de que era possível dar uma chance à paz. Infelizmente, no fim das contas, como Lennon, Gandhi ou Martin Luther King poderiam testemunhar, a violência com frequência triunfa sobre o cadáver dos pacifistas.


Havia a percepção coletiva cada vez mais disseminada que esta nova guerra era baseada em velhas canalhices – ambição petrolífera, ganância corporativa, imperialismo etnocêntrico. Era a repetição sinistra daquela constelação de vícios e cegueiras que leva o Império anglo-saxão a fazer pose de xerife do mundo e de pretender-se, com uma arrogância que ultrapassa todos os limites do razoável e cai em uma trágica hýbris de funestas consequências, como dono da verdade e da justiça, professor e exportador de Democracia para os “povos bárbaros” do Terceiro Mundo.

As mega-manifestações estavam fundadas de fato numa  percepção muito disseminada de que muita mentira e hipocrisia estavam sendo empregadas, de modo despudorado e escandaloso, por figuras como George W. Bush e Tony Blair, apoiados por boa parte dos respectivos Parlamentos e por boa parte dos conglomerados da mídia corporativa,  para justificar o início dos massacres. Hoje, Bush e Blair são figuras merecedoras de entrar para a história como genocidas, como culpados de crimes contra a humanidade similares aos de Eichmanns, Pol Pots e Pinochets, por todo o sangue derramado durante as campanhas militares deflagradas no Iraque em 2003 e cujas consequências sinistras mudaram o mundo para sempre – para pior, é claro.

Em Fevereiro de 2003, nós éramos muitos e sabíamos muito bem que a guerra estava sendo justificada com pretextos espúrios e mentiras deslavadas:todas as falsas conexões que tentou-se estabelecer entre o regime de Saddam Hussein e a Al Qaeda, entre o Iraque e o 11 de Setembro, eram links mentirosos, assim como as famosas “almas de destruição em massa” que supostamente fariam do Iraque um perigoso inimigo da humanidade simplesmente não foram encontradas. Talvez pelo fato de que os EUA é que são os maiores detentores globais de weapons of mass destruction que ameaçam o futuro da Humanidade… Sobre as ideologias fabricadas pelo totalitarismo Yankee, José Arbex Jr escreveu excelentes textos – como este, “Jornalismo de Verdade”, em que relembra Orwell, Huxley e Arendt para apresentar algumas das lorotas de mass deception que o Estado dos EUA usa comumente:

Em “1984”, George Orwell cria uma fantástica metáfora para explicar os mecanismos utilizados pelo poder para produzir a amnésia social: a história é permanentemente reescrita, sempre de acordo com as conveniências dos mandatários de plantão. É perigoso ter ou cultivar a memória dos fatos, e muito pior – inimaginável – é olhar para o passado segundo uma perspectiva crítica. Também no “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley a percepção dos acontecimentos cotidianos é fabricada por uma engenharia social arquitetada por poucos que sabem e conhecem a dinâmica real dos processos históricos. O tema se repete, com variações, em muitos outros clássicos da ficção, na literatura e no cinema, que se preocuparam com a formação das sociedades totalitárias.

Passando à implacável esfera do “mundo real”, Hannah Arendt nota que, de fato, a produção social do esquecimento é inerente ao exercício do poder nos regimes autoritários ou mesmo em boa parte dos sistemas dito democráticos. (…) Interessa, por exemplo, a George W. Bush apresentar Osama Bin Laden como um ícone do terror islâmico, desde que se esqueça que ele foi treinado e armado pela CIA, para ajudar a Casa Branca a combater a ocupação do Afeganistão pelo Exército Vermelho (1979-1989); da mesma forma, a partir de certo momento, passou a ser vantajoso para Washington acusar o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein de ser o responsável pelo males do mundo, mas relegando ao mais profundo buraco negro da história o fato de ele ter sido armado pelos Estados Unidos, nos anos 80, com o objetivo de mover sua providencial guerra contra o Irã do aiatolá Khomeini.

Também interessa repetir à exaustão que o ataque às torres gêmeas, em 11 de Setembro de 2001, foi o “pior atentado terrorista da história”, pois isso ajuda a esquecer, entre outras coisas, o bombardeio atômico sobre a população civil de Hiroshima e Nagasáqui, em agosto de 1945. (JOSÉ ARBEX JR., prefácio à “Rompendo à Cerca – A História do MST, SAIBA MAIS)

O fato é que, no período entre os atentados de 11 de Setembro de 2011 e a irrupção desta mega-manifestação, orquestrada com auxílio das redes de comunicação digitais globalizadas, um caldeirão de indignação foi sendo aquecido até o ponto de ebulição. Às vésperas do início da carnificina que deixaria mais de 500.000 civis iraquianos mortos e que geraria mais de 4 milhões de refugiados, várias metrópoles relevantes foram tomadas de assalto por uma multidão em marcha pacifista que buscava parar a guerra antes que ela começasse. Em Londres, em Roma, em Madrid, em Atenas, em Nova York, foram realizadas algumas das mais grandiosas marchas do século 21 naquele 15 de Fevereiro de 2003, o que não escapou à percepção dos maiores intelectuais vivos – como Noam Chomsky.

 O filme We Are Many é vibrante, interessante, repleto de imagens com imenso mérito como retrato histórico. Porém, não vai fundo no debate sobre o que possibilitou, tanto em termos de tecnologia quanto em termos de organização e mobilização social, aquilo que foi justamente chamado de “primeiro megaprotesto global”. São fenômenos sociais da grandiosidade e da complexidade do 15 de Fevereiro de 2003 que oferecem muito material para reflexão de intelectuais e críticos dos mais relevantes da atualidade – é o caso de Manuel Castells (autor de Redes de Indignação e Esperança) ou David Graeber (autor de Democracia: Um Projeto).

O cinema de não-ficção têm se mostrado como um dos âmbitos mais importantes para a crítica e a denúncia dos horrores vinculados à infindável Guerra Contra o Terror, o que fica evidente através de outros documentários excelentes como Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris, que revela as entranhas apodrecidas do sistema que pariu a prisão de Abu Ghraib e todos as horríveis torturas ali perpetradas; Estrada Para Guantánamo, de Michael Winterbottom, que revela a realidade sobre a prisão mantida pelos EUA em território cubano; Farenheit 9/11, de Michael Moore, um vencedor da Palma de Cannes que revela todo o zeitgeist que rodeia o período pós-11 de Setembro; Taxi To The Dark Side, de Alex Gibney, que revela os múltiplos lados sombrios da invasão do Afeganistão; dentre outros. We Are Many é uma louvável contribuição a esta pedagógica e crucial filmografia.

Através de filmes assim ficamos sabemos que, junkies de petróleo, fissurados nos dólares aos bilhões que são gerados pela indústria armamentista, as elites que comandam os Estados Nacionais dos EUA e da Inglaterra puseram sua máquina de guerra em movimento contra o Iraque em 2003 sem absolutamente nenhuma prova ou evidência conclusiva de que o regime de Hussein tinha qualquer participação nos atentados de 11 de Setembro. Esta guerra, apesar de todo o lengalenga retórico e toda a embromação massmidiática, foi mais um grotesco episódio da infindável tendência do complexo militar industrial, mancomunado com as corporações de combustíveis fósseis, para seguirem lucrando com a morte e a destruição. Naomi Klein poderia dizer: é a Shock Doctrine em infinito repeat.

O próprio Conselho de Segurança da ONU, antes da invasão, mandou inspetores ao Iraque, checou se haviam ali bombas ou mísseis que pudessem pôr em perigo o poderoso Império anglo-saxão, e nada. Nada encontrou-se no Iraque que pudesse justificar uma “guerra preventiva”, o que logo descortinou de modo explícito a qualquer cidadão lúcido, bem-informado e capaz de usar seus neurônios que esta guerra estava sendo lançada sem fundamentos sólidos que a legitimassem, sustentada por grotescas mentiras tornadas “oficiais” com a cumplicidade de uma mídia corporativa vendida aos bélicos patrões.

O filme traz depoimentos e reflexões de figuras como os intelectuais Noam Chomsky e Tariq Ali, os músicos Brian Eno e Damon Albarn (Blur, Gorillaz), o romancista John Le Carré e o cineasta Ken Loach, além de figuras importantes da política, da diplomacia e do pensamento político, reconstruindo as raízes e os legados do 15 de Fevereiro de 2003. Entre as “sacadas” mais relevantes do filme está o estabelecimento de vínculos diretos entre a Revolução Egípcia de 2011, quando megaprotestos populares que culminaram na ocupação da Praça Tahrir e na renúncia de Mubarak à presidência, e a escola de insurreição que foram, no Cairo, aqueles dias de 2003 quando o Iraque começou a ser bombardeado e os egípcios foram em imensas torrentes para as ruas protestar. Um outro documentário – The Square – analisa em minúcias a Revolução Egípcia, parte da onda mais ampla que ficou conhecida como Primavera Árabe.

Um dos temas mais interessantes que We Are Many levanta, fornecendo amplo material para debate, é as razões para o fracasso da megamobilização global em prol da Paz. O documentário é, decerto, bastante celebratório deste movimento pacifista e sua capacidade mobilizatória impressionante – algo que voltaria a dar as caras, no âmbito do chamado “Mundo Ocidental”, com muita força também em 2014 na People’s Climate March.

Porém We Are Many também revela a decepção, a abissal queda no ânimo coletivo, que se seguiu à percepção da ineficácia concreta da “maior manifestação de todos os tempos” em pôr um stop nos planos da Coalização Internacional Contra o Terrorismo, auto-proclamada em Sagrada Cruzada contra o “Eixo do Mal”. Este é um dos temas que considero sub-discutido, bastante negligenciado: tendemos a criar uma espécie de mística da manifestação de rua, às vezes beirando a mais irracional das superstições, acreditando piamente na força numérica de massas em desfile pelas ruas como agentes de transformação, mas não nos perguntamos mais à fundo o que constitui de fato um perigo para o poder instituído. 

Por mais grandiosas que tenham sido as manifestações de 15 de Fevereiro de 2003, elas claramente não coibiram ou proibiram a guerra. Eu até me arriscaria a dizer, sem medo de despertar polêmica, que uma das explicações para este fato está na natureza pouco aguerrida dos protestos, que em vasta medida consistiram em cidadãos carregando placas e cartazes, que andaram em multidões pelas metrópoles gritando palavras de ordem, sem que tenham, na maior parte dos casos, tentado ocupar prédios públicos ou governamentais ou deflagar greves gerais que pudessem parar a produção ou travar o fluxo dos transportes, das mercadorias e dos capitais. O poder do Império pode ter ficado impressionado, mas não se sentiu realmente ameaçado lá onde ele possui seu calcanhar de Aquiles: seu bolso, ou melhor, suas Bolsas. Os 15 milhões de cidadãos nas ruas não puderam causar um estrago significativo na economia de guerra, seja através de boicotes organizados contra corporações vinculadas ao ramo bélico, seja através de ocupas ou acampas que colocassem em sinuca as instituições.

O músico Damon Albarn, do Blur/Gorillaz, sugere que a raiz do fracasso deste mega-movimento pacifista esteve no fato de que ele perdeu força e momentum: a multidão deveria ter continuado a ir para as ruas de modo torrencial, ao invés de permitir que a maré de insurgência cidadã ficasse limitada apenas àquele Sábado. Se a galera tivesse continuado a colar – “if we kept coming back…”, diz Albarn – talvez a paz pudesse ter triunfado. Eis outra das lições da Primavera Árabe: uma manifestação de rua, por mais gigantesca que seja, é episódica e efêmera, as pessoas retornam logo às suas casas; a potência contestatória maior está na ocupação – como ocorreu na Praça Tahrir ou durante o Occupy Wall Street – que toma conta do espaço público e diz que ele só será liberado quando certas demandas forem concedidas.

Em 15 de Fevereiro, pode-se dizer que nenhum Bastilha foi tomada, que nenhum intento revolucionário foi posto em marcha, e que mesmo os conflitos com a polícia foram pouquíssimos, a não ser em Atenas (na Grécia). É notável o contraste com o quanto o pau quebrou nos protestos de Seattle em 1999. Poderíamos dizer que, se o pau não quebrou, se não rolou tropa de choque e gás lacrimogêneo, se manifestantes quase não foram encarcerados, foi porque o 15 de Fevereiro de 2003 confundiu pacifismo com bom-mocismo e não exerceu com suficiente radicalidade as práticas de Desobediência Civil que através da história foram utilizadas para contestar regimes ilegítimos, opressores e genocidas.

O filme não é ingênuo, nem faz crer em quimeras, pois mostra muito bem o modo com as chefias políticas, os Parlamentos, os cabeças do Exército, os figurões no Pentágono, os brits cheios de regalias na House of Commons, basicamente levantaram um dedo médio elitista para a voz das ruas e disseram, basicamente, “foda-se!” Foda-se que há milhões de pessoas nas ruas protestando em um Sábado de Fevereiro de 2003 contra a deflagração de uma guerra contra o Iraque; foda-se, iremos em frente assim mesmo. E assim o fizeram, em Março, dando o foda-se não só para as torrentes de cidadãos que manifestavam-se em Fevereiro, mas também para a Organização das Nações Unidas: a ONU declarou a invasão ilegal e esta foi realizada à revelia do Conselho de Segurança. Crime de guerra.


Dentre os pensadores políticos que conheço, ninguém melhor que Arundhati Roy descreveu o momento histórico logo após o 11 de Setembro. Na sequência, selecionei alguns trechos de sua obra que são excelentes para pensar criticamente sobre todo este nosso lodaçal de sangue e violência. Considero seus livros – em especial The Algebra of Infinite Justice Listening to Grasshoppers, além dos discursos Imperial Democracy Come September – algumas uma das mais preciosas portas de acesso a uma compreensão mais ampla do zeitgeist que entre nós prolonga sua estadia: o fantasma de um fascismo genocida que tenta convencer-nos que há imenso perigo em um certo Outro demonizado – uma raça, uma seita, uma ideologia… -, um Outro alcunhado de malévolo sem remissão e só merecedor de ser extirpado com violência.

De George Bush a Donald Trump, as ideologias e das práticas da Guerra Contra O Terror estão ligadas à presunção e à arrogância de um american way of thinking que vem todo tingido com cores fascistas pois reduz vastas porções da humanidade àquilo que Naomi Klein chamou de “zonas de sacrifício” (como o Afeganistão, a Síria, a Palestina…). O Sonho Americano – aquele engodo que, segundo o humorista George Carlin, só compram e só acreditam aqueles que estão dormindo… – gerou o monstro destes líderes que se dizem os artífices do Bem absoluto e da Vontade de Deus sobre a Terra, quando na real só cometem mega-carnificinas em prol de petróleo e lucros, enquanto tratam irmãos em vida e humanidade como se pertencessem a uma zona de matabilidade livre semelhante aos videogames à la Doom Counter Strike.

Eduardo Carli de Moraes


A ÁLGEBRA DA JUSTIÇA INFINITA
ou DEMOCRACIA IMPERIAL: COMPRE UMA, LEVE A OUTRA DE GRAÇA

por Arundathi Roy

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“For strategic, military and economic reasons, it is vital for the US government to persuade the American public that America’s commitment to freedom and democracy and the American Way of Life is under attack. In the current atmosphere of grief, outrage and anger, it’s an easy notion to peddle. However, if that were true, it’s reasonable to wonder why the symbols of America’s economic and military dominance—the World Trade Center and the Pentagon—were chosen as the targets of the attacks. Why not the Statue of Liberty? Could it be that the stygian anger that led to the attacks has its taproot not in American freedom and democracy, but in the US government’s record of commitment and support to exactly the opposite things—to military and economic terrorism, insurgency, military dictatorship, religious bigotry and unimaginable genocide (outside America)?” (ARUNDHATI ROY,  “The Algebra Of Infinite Justice”, 08 de Outubro de 2001)

“When the United States invaded Iraq, a New York Times/CBS News survey estimated that 42 percent of the American public believed that Saddam Hussein was directly responsible for the September 11th attacks on the World Trade Center and the Pentagon. And an ABC News poll said that 55 percent of Americans believed that Saddam Hussein directly supported Al Qaida. None of this opinion is based on evidence (because there isn’t any). All of it is based on insinuation, auto-suggestion, and outright lies circulated by the U.S. corporate media, otherwise known as the “Free Press,” that hollow pillar on which contemporary American democracy rests.

Public support in the U.S. for the war against Iraq was founded on a multi-tiered edifice of falsehood and deceit, coordinated by the U.S. government and faithfully amplified by the corporate media.

mass deceptionApart from the invented links between Iraq and Al Qaida, we had the manufactured frenzy about Iraq’s Weapons of Mass Destruction. George Bush the Lesser went to the extent of saying it would be “suicidal” for the U.S. not to attack Iraq. We once again witnessed the paranoia that a starved, bombed, besieged country was about to annihilate almighty America. (Iraq was only the latest in a succession of countries – earlier there was Cuba, Nicaragua, Libya, Grenada, and Panama.) But this time it wasn’t just your ordinary brand of friendly neighborhood frenzy. It was Frenzy with a Purpose. It ushered in an old doctrine in a new bottle: the Doctrine of Pre-emptive Strike, a.k.a. The United States Can Do Whatever The Hell It Wants, And That’s Official.

The war against Iraq has been fought and won and no Weapons of Mass Destruction have been found. Not even a little one. Perhaps they’ll have to be planted before they’re discovered. And then, the more troublesome amongst us will need an explanation for why Saddam Hussein didn’t use them when his country was being invaded.

Of course, there’ll be no answers. True Believers will make do with those fuzzy TV reports about the discovery of a few barrels of banned chemicals in an old shed.

In stark contrast to the venality displayed by their governments, on the 15th of February, weeks before the invasion, in the most spectacular display of public morality the world has ever seen, more than 10 million people marched against the war on 5 continents. Many of you, I’m sure, were among them. They – we – were disregarded with utter disdain. When asked to react to the anti-war demonstrations, President Bush said, “It’s like deciding, well, I’m going to decide policy based upon a focus group. The role of a leader is to decide policy based upon the security, in this case the security of the people.”Democracy, the modern world’s holy cow, is in crisis. And the crisis is a profound one. Every kind of outrage is being committed in the name of democracy. It has become little more than a hollow word, a pretty shell, emptied of all content or meaning. It can be whatever you want it to be. Democracy is the Free World’s whore, willing to dress up, dress down, willing to satisfy a whole range of taste, available to be used and abused at will.

Until quite recently, right up to the 1980’s, democracy did seem as though it might actually succeed in delivering a degree of real social justice.

But modern democracies have been around for long enough for neo-liberal capitalists to learn how to subvert them. They have mastered the technique of infiltrating the instruments of democracy – the “independent” judiciary, the “free” press, the parliament – and molding them to their purpose. The project of corporate globalization has cracked the code. Free elections, a free press, and an independent judiciary mean little when the free market has reduced them to commodities on sale to the highest bidder.”  (ARUNDHATI ROY, Imperial Democracy)

A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO: GIL SCOTT-HERON (1949 – 2011): Discografia para download

TV Gil Scott Heron

Gil Scott-Heron

A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO…
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro 

 

“Gil Scott-Heron, O artista afro-americano, é simplesmente uma das figuras mais cativantes e importantes do pop mundial”, dispara Alex Antunes no prefácio ao romance Abutre (Ed. Conrad). Continua: “Se você não conhece Gil Scott-Heron, ou até conhece mas nunca ouviu isto posto com tanta convicção, não se acanhe. Nem você nem este escriba estarão errados. O fato é que o exuberante talento do cantor, compositor, poeta, pianista, ficcionista veio embalado em um contexto histórico e político convulsionado e nunca completamente, digamos, ‘dichavado’. Foi a passagem dos anos 60 para os 70, com a radicalização exponencial dos grupos negros, dos estudantes, dos ativistas antiguerra do Vietnã, das feministas…” (p. 9)

A revolução não vai passar na televisão. Nem virá com intervalos comerciais e replays. A revolução, irmão, vai ser ao vivo. Com estas palavras, declamadas no maior pique, Gil Scott-Heron marcou época com o hino de protesto setentista “The Revolution Will Not Be Televised”, perfeita síntese de sua carreira e que demonstra bem sua importância histórica, ao lado do grupo The Last Poets, como pioneiro na história do movimento hip hop.

Ele foi um MC antes de existir o rap; foi como Malcolm X cantando um soul; foi o poeta da Revolução Negra na era pós-Woodstock; foi a encarnação do espírito de confluências e subversões do Hip Hop, antes deste existir “oficialmente” como movimento cultural reconhecido e abocanhador de amplas fatias do mercado musical e audiovisual.

Gil é nativo de Chicago, terra musicalmente marcada pelo blues. Seu mamadeira, aposto, foi turbinada desde cedo com litros de Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker, Lightnin’ Hopkins – e talvez mais bourbon do que leite. Inspirou-se também na fonte jorrante do jazz e do funkraiz – Roy Ayers, Isaac Hayes, Ray Charles, Smokey Robinson, Curtis Mayfield, Aretha Franklin, Nina Simone, The Coasters, eram algumas de suas “estrelas-guia” e bandas-irmãs.

Já crescido, mudou-se  para New York, mas não aquela dos cartões-postais ou dos filmes de Woody Allen. Aquela N.Y.C. dos guetos e becos flagrados pela lente de Spike Lee, onde porto-riquenhos, dealers, cafetões, putas, tiras corruptos, brancos cuzões, gangues narcotraficantes, artistas contraculturais, comerciantes e camelôs se bicam e se estropiam num cenário urbano caótico e tenso.

BLAXPLOITATION CINEMATOGRÁFICA: Um dos filmes pioneiros, de Melvin Van Peebles

Segundo Antunes, o livro Abutre (The Vulture), que o jovem poeta-MC Scott-Heron publica em 1970, “dá voz ao dilema do negro urbano imobilizado entre ir da emancipação à pacificação – na integração racial – ou à ruptura revolucionária.” (p. 10) Um dos fundadores do movimento blaxploitation, que explodiria no cinema com o filme de 1971 Sweet Sweetback’s Baadassss Song, de Melvin Van Peebles, Gil Scott-Heron prenuncia em sua arte também o cinema de Spike Lee, talvez o cineasta que melhor captou a tensão inerente aos discursos antagônicos do doutor Martin Luther King e do brother Malcolm X.

Era o fim dos anos 1960 quando o que viria a ser conhecido como rap começou a nascer: Scott-Heron e os Last Poets faziam da declamação de poesia sobre uma base percussiva a fundação estética de sua arte inovadora, puro rhythm and poethy. O Black Power não era somente um penteado afro classudo, mas todo um efervescente movimento social, com significativa mobilização sob a forma dos Panteras Negras e de ativistas como Angela Davis e Huey P. Newton.

Impulsionados pelos exemplo de Malcolm X, Martin Luther King, Franz Fanon, Marcus Garvey, dentre outros inspirados, a população afroamericana “se organizava para desorganizar”. Em protesto contra a segregação racial, o preconceito supremacista, o fascismo e o imperialismo, Nixon e a Guerra do Vietnã, dentre outras pragas sociais que eles combatiam inventando um novo som e uma nova poesia, adequadas aos combates dos tempos.

Pouco tempo antes de Scott-Heron “decolar” com o lançamento de seus primeiros álbuns — o spoken word “Small Talk at 125th and Lennox” e o soul-funk “Pieces of a Man” – Jimi Hendrix havia blasfemado lindamente contra o Hino Nacional Americano em frente a 500 mil almas embasbacadas em Woodstock. Enfiando distorção e discórdia no discurso oficial, pintando de negro ou afundando na psicodelia a “Star Spangled Banner”, Hendrix impôs sua figura icônica ao zeitgeist. Scott-Heron, menos piromaníaco, seria também Hendrixiano, voodoo child, e  é hoje reconhecido como uma presença cultural de estatura equiparável a de um Curtis Mayfield, um James Brown, um Jimi Hendrix.

Gil Scott-Heron, junto com seu truta Brian Jackson, gravaram um punhado de discos brilhantes anos 70 e 80 afora. Ao mesmo tempo louvando seus heróis culturais do passado (John Coltrane, Aretha Franklin, Isaac Hayes, Billie Holliday, Al Green…) e com os pés fincados nas problemáticas sócio-políticas da era (em que a “canção de protesto” tinha voltado aos holofotes pelos esforços de Bob Dylan nos anos 60 e a Geração Folk que seguiu seus passos), fizeram pérolas das mais preciosas daquilo que hoje chamamos black music ou rhythm’n’blues (R&B).

Se a obra deste artistaço é tão desconhecida entre nós, brasileiros, isto se deve um pouco à estupidez da “Indústria Cultural”, que não se dava muito bem com o radicalismo ideológico e a riqueza sônica da arte de Scott-Heron. No meio dos anos 70, a black music de conteúdo político-crítico-lúdico-provocativo, que tinha ainda seus paladinos no Funkadelic e no Sly & The Family Stone, viu-se lançada nas sombras pela explosão da discow e da modinha yuppie. O funk Funkadélico e rap à Scott-Heron tomaram um nocaute das vertentes mais comerciais da popdisco, tudo chefiado por um redemoinho chamado Michael Jackson.  “Gil viu sua carreira ser progressivamente eclipsada com a aproximação e a passagem dos anos 80, época em que a caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop”, escreve  Alex Antunes.

Como o próprio Gil Scott-Heron diz, a galerinha da discow perdeu completamente a noção de que havia uma distinção entre a ferramenta e o objetivo — “the tool and the goal”, como ele diz. A “black music”, cooptada pelas grandes gravadoras, cessou de ser uma tool nas mãos de artistas-ativistas lutando pelo goal da transformação social e comportamental, ou até mesmo da ruptura revolucionária emancipadora, para chafurdar num hedonismo vazio e consumista. A “balada” foi sendo despolitizada e foi virando cada vez mais uma curtição frívola e sem consequências, quase um mecanismo de fuga, e demoraria alguns anos até que o Punk nascesse para chutar o rabo da Geração Discotèque e trazer de volta o inconformismo e a rebelião para o centro do quadro… O que queriam rappers e punks, é claro, é que as baladas voltassem a ser perigosas…


Gil Scott-Heron, apesar do ostracismo em que caiu por grande parte dos anos 90 e 00, principalmente por ter sido enjaulado pelos tiras duas vezes por posse de “substâncias controladas”, continuou ativo e operante até o início da década de 2010, quando lançou seu canto-do-cisne, o álbum “I’m New Here”. Suas palavras e discos ecoam dos anos 70 até hoje e “Gil sobreviveu nos samples – de Professor Griff, PM Dawn, Warren G, Chubb Rock, A Tribe Called Quest, KRS-One – para vir, finalmente, a ser entronizado como um dos pais do rap, apenas um passo atrás do coletivo nova-iorquino dos Last Poets”, diz o Antunes.

Pois é: não é à toa que Gil Scott-Heron é reconhecido por grandes figuras do Movimento Hip Hop mundial — como Chuck D ou Mos Def — como um dos Pais da Matéria, “The Godfather of Rap”. Sem ele, talvez não tivessem surgido o Public Enemy e o Outkast, a Lauryn Hill e o Ben Harper, o Rappa e o Planet Hemp. Sem falar que Gil, sendo um maconheirão prá-lá-de-gente-fina, continua sendo uma referência para todos os que curtem os efeitos de expansão da consciência, do senso-de-humor e da percepção estética gerados pela sagrada cannabis…

Pra quem curte literatura, vale frisar ainda que Gil Scott-Heron, poeta de mão cheia, escreveu ainda dois romances: The Nigger Factory e Abutre, e este último foi lançado no Brasil via Conrad e vale cada centavo. Narra a via-crúcis de um traficante de drogas de New York que não para de tretar com os porto-riquenhos e vê sua vida sempre ameaçada pelos becos escuros do Harlem, Chelsea e redondezas. Lê-se com o prazer que se tem vendo um bom filme de Spike Lee ou um clássico da blaxpoitation (tendência que Tarantino “homenageou” em Jackie Brown).

Devorem abaixo, pois, um bocado de discos deste grande Mestre do rhythm and poetry (R.A.P.!), Gil Scott-Heron – a discografia completa que aqui contrabandeamos pode ser baixada gratuitamente, mas não comercializada; o download está liberado pelo mérito cultural desta obra ainda inacessível em sua inteireza no Brasil, de modo que recomendamos aos usuários que queimem este Beck sônico no espírito do compartilhamento livre e da instrução mútua. Voilà!

DOWNLOAD DA DISCOGRAFIA COMPLETA



LIVE


BLACK WAX – 1h 41 min


Gil Scott-Heron and His Amnesia Express – Tales Of Gil (1990)
1. Three Miles Down
2. We Almost Lost Detroit
3. Angel Dust
4. Winter In America
5. Johannesburg
6. The Bottle

A Casa de Vidro marca presença no “Mercado das Coisas – Feira de Economia Criativa” (15ª Edição, 11 de Fevereiro de 2017)

Neste sábado, na Vila Cultural Cora Coralina (atrás do Teatro Goiânia, centro), das 15h às 20h, vai rolar o Mercado das Coisas – Feira de Economia Criativa, edição #15, e estarei lá com a banquinha literária d’A Casa de Vidro, com uma seleção de livros (novos e usados), DVDs, audiobooks, revistas Caroço, e por aí vai. Agora tá rolando débito e crédito.

Estarão disponíveis: RITA LEE, “Autobiografia”; “A Balada de Bob Dylan“, de Daniel Mark Epstein; “Minhas Lembranças de Paulo Leminski“, de D. Pellegrini; Caixa Caio Fernando Abreu – O Melhor das Décadas de 70, 80 e 90; Caixa “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir; Caixa “Ilíada/Odisséia” (Nova Fronteira); Guimarães Rosa em capa dura; Marilena Chauí, “Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro”; Biografia de Virginia Woolf; “O Som Do Pasquim”; Florestan Fernandes, “Pensamento e Ação”; e mto mais. Entre os CDs e DVDs musicais, tem “Cães de Aluguel” (Tarantino), “Trilogia das Cores” (Kieslowski), além de docs musicais de Foo Fighters, The White Stripes, o cream of the crop: Nirvana ao vivo em Roma 1991 etc.

Confira o acervo na Estante Virtual: https://www.estantevirtual.com.br/acasadevidro_livraria. Quem quiser algum, mande msg inbox até às 13h de 11/02 que levarei o item solicitado.

Contatos: Eduardo Carli de Moraes || educmoraes@hotmail.com

Evento >>> https://www.facebook.com/events/1117543565024988/

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ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX: A potência da palavra povoada de Violeta Parra (1917-1967)

ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX:
A POTÊNCIA DA PALAVRA POVOADA DE VIOLETA PARRA
por Eduardo Carli de Moraes

“…toda palavra se não tem brasa
se desprende e cai da árvore do tempo.”
PABLO NERUDA
citado por Antonio Skármeta em A Insurreição
(Cap. XXV, p. 189, ed. Francisco Alves, 1983)

Visitar o Chile ao raiar de 2017, aos 100 anos do nascimento de VIOLETA PARRA (1917-1967), foi ótima ocasião para uma imersão na obra desta magistral multi-artista, uma das mais celebradas cantautoras chilenas do século XX, capaz de incendiar sua palavra com seu brilhantismo e seu ânimo a ponto dela não cair da árvore do tempo.  Já se passaram 50 anos desde seu suicídio em 1967, mas Violeta Parra revela, no ano deste seu centenário, a capacidade de resiliência e de renovada atualidade que é o dom das obras rotuladas de clássicas. A travessia por Valparaíso e Santiago revelou-me um país que alimenta a chama da memória da querida presença desta violeta ainda em flor.

Em Santiago, onde há museu consagrado a ela, havia vistosa homenagem: bem maior que um mísero outdoor, um gigante painel fotográfico (foto acima) decorava de alto a baixo o frontispício de um prédio na Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, a via que dá acesso ao palácio presidencial La Moneda e onde o estouro de fuegos artificiales reúne a maior muvuca comemorativa do reveillon em Santiago.

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Em várias livrarias chilenas, exposto em vitrines e outros locais de destaque, marcava presença o belíssimo livro publicado pela Universidade de Valparaíso, em parceria com a Fundación Violeta Parra: Poesia (capa dura, 472 pgs). Trouxe-o comigo para servir não só como companheiro de viagem, mas como camarada na vida. Comprado na Libreria Crisis, em frente ao Congresso Nacional (Valparaíso), o livro abre janelas para a descoberta de imensos tesouros da arte popular latino-americana tão brilhantemente condensados nas canções e poemas de Parra.

Nascida no Outubro da Revolução Bolchevique de 1917, Violeta Parra terá o ano de 2017 a ela dedicado no Chile, pátria-mãe que mostra-se repleta de gratidão pela vida e pelo legado de uma de suas figuras culturais de maior relevo e importância, algo comunicado com muita potência por Paula Miranda, que destaca a influência da Teologia da Libertação tanto quanto da canção que é catarse em meio à dor e ao desamparo:

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: "Dulce Vecina De La Verde Selva"

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: “Dulce Vecina De La Verde Selva”

“Su gesto más revolucionario es abandonar progresivamente la función otorgada por el capitalismo a la canción y al arte en general, como mero accesorio artístico y de del espetáculo, para convertirlos en lugares de denuncia de las injusticias sociales y de los abusos de los poderosos, que protesta por los pobres  y redime los mártires que se han enfrentado al orden imperante: Lumumba, García Lorca, Vicente Peñaloza, Zapata, Rodríguez y Recabarren. Hay algo aquí de la teología de la liberación de la época, pero más de los valores que ha adquirido Violeta Parra de la cultura religiosa campesina: compasión, solidariedad, sacrificio, salvación, imagen de un Dios muy cercano, redentor. Hay algo também de la canción que cumple su función catártica em medio del dolor y del desamparo.” – PAULA MIRANDA (PUC-Chile), In: PARRA, Poesia, V. Valparaíso, 2016, p. 27.

Assim como o cantor e compositor Victor Jara, assassinado após o golpe de Setembro de 1973, prossegue cultuado por velhas e novas gerações (“Victor Jara será eterno”, li pintado na mochila de uma guria no metrô…), Violeta Parra também é homenageada com altos louros pelos chilenos. É descrita como “imortal”, comparada em sua maestria verbal a alguns dos luminares principais doa poesia do Chile, como Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Nicanor Parra (irmão mais velho de Violeta). Em artigo publicado em El País, Rocío Montes escreveu:

A chilena Violeta Parra (San Fabián de Alico, 1917; Santiago do Chile, 1967) viveu múltiplas vidas ao longo de seus 49 anos. Foi cantora e compositora, ofício pelo qual foi mais reconhecida, mas também compiladora de música folclórica e artista plástica. No centenário de seu nascimento – celebrado neste ano no Chile com a publicação de livros sobre sua obra, festivais, concertos, exposições e congressos internacionais –, o país a homenageia como uma criadora diversa e promove o reconhecimento de seu legado sob uma perspectiva integral. “Por que Violeta Parra transcende?”, pergunta-se a pesquisadora Paula Miranda, uma das maiores especialistas em sua figura. “Porque tem um trabalho com a palavra muito sofisticado. A dimensão poética está presente em toda sua obra”.

Miranda fala de Violeta Parra como uma das melhores poetas da música e ressalta que a discussão sobre a entrega do Nobel de Literatura a Bob Dylan no ano passado também poderia valer para a cantora e compositora chilena: “Existe muita poesia fora dos livros e a poesia, além do mais, era cantada em sua origem”. Miranda, doutora em Literatura e autora do estudo La Poesía de Violeta Parra, publicado em 2013, cita como exemplo um dos hinos mais conhecidos da criadora: “A poesia em sua máxima expressão é aquela que consegue transformar o mundo, e isso é o que Parra faz em “Gracias a la Vida”. Por um lado agradece e, por outro, tenta retribuir algo que recebeu da vida. Sua arte não é de adorno, nem de entretenimento, mas de reflexão e emoção. Acompanha as dores e os amores humanos”, diz a pesquisadora. [LEIA O ARTIGO COMPLETO]

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Em seu texto Arder Hasta Las Cenizas, Rosabetty Muñoz, pesquisadora da obra de V. Parra, sugere que ela viveu “no tempo do asco”, sempre junto ao pueblo e suas luchas, na convicção de que o artista trabalha flamejando nas chamas da coletividade a que pertence. É preciso arder até as cinzas para dar à luz algumas pérolas de imorredoura poesia, renascente como Fênix. Só as palavras em brasa, incendiadas pela vivacidade dos afetos da gente verdadeira, são capazes de seguir dependuradas na árvore do tempo, nutrindo as gerações que se sucedem como um milagroso fruto cujo sumo não se esgota mesmo se sorvido por um milhão de bocas. Escreve Muñoz, rememorando o impacto da obra de Violeta Parra sobre seus contemporâneos:

“Así la conocí: su poesía se abrió con la ferocidad propia de un tiempo que exigía de nosotros una ligazón entre la palabra y la historia, un compromiso com el presente que ella tenía claro. (…) ‘No puede ni el más flamante / pasar en indiferencia / si brilla en nuestra conciencia / amor por los semejantes.’ (…) El el tiempo del asco (como lo llamó Stella Díaz Varin) necesitábamos voces mayores y los versos de Violeta llovieron cargados de integridad. Así como tenía claro el lugar del creador (lejos de los privilegiados, cerca de los suyos) también declara ferviente la dirección que tomarán sus llamas líricas en la lucha por denunciar y marcar los daños: ‘entre más injusticia, señor fiscal / más fuerzas tiene mi alma para cantar.'” – R. MUÑOZ, Violeta Parra: Arder Hasta Las Cenizas. p. 11-12

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“Seus trabalhos foram a base para o desenvolvimento do movimento estético-musical-político chamado de Nova Canção Chilena, do qual fizeram parte também Victor Jara, Rolando Alarcón, e Patricio Manns, além dos grupos Inti-Ilimani e Quilapayún.” – Portal Vermelho

O livro traz em sua capa uma das obras realizadas por Violeta no âmbito das artes visuais, outro domínio onde ela também expressou sua fecunda criatividade, em especial em tapeçarias cuja técnica ela aprendeu com sua mãe, tecedora de raízes indígenas e vinculada ao povo Mapuche. Muitas das tapeçarias violetianas foram expostas em Paris, no Museu de Artes Decorativas do Louvre, reaparecendo também no início dos capítulos do livro. Confira abaixo algumas reproduções das obras:

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O cinema também reavivou Violeta há alguns anos com a bela biopic Violeta Se Fue Aos Cielos (2011), de Andrés Wood (o mesmo diretor de Machuca), em que Parra foi interpretada por Francisca Gavillan. O filme  saiu consagrado no badalado festival de Sundance, colheu farta bilheteria em seu país de origem e tem mérito duradouro não só como competente esforço biográfico e dramatúrgico, mas por oferecer uma convidativa porta de entrada para quem deseja descobrir mais a fundo a vida e a obra de Violeta.

Do filme de Andrés Wood eu destacaria algumas cenas e citações que me parecem memoráveis. Em uma entrevista televisiva, Violeta Parra revela muito de suas convicções políticas e estéticas. Sobre as primeiras, quando o jornalista lhe pergunta se ela é comunista, ela brinca: “Camarada, eu sou tão comunista que, se me derem um tiro, o meu sangue sai vermelho…” Achando graça da resposta, seu interlocutor contesta: “Ora, o meu sangue também sairia vermelho…” Ao que ela retruca, estendendo a mão para cumprimentá-lo: “Que bom, camarada!”

Em outro momento da entrevista re-encenada no filme, o entrevistador pede que ela dê conselhos a jovens artistas. Ela então aconselha: “A criação é um pássaro sem plano de vôo e que nunca voará em linha reta.” Longe dos conservatórios onde a música é ensinada com formalismo e rígida disciplina, Violeta Parra buscou sua pedagogia poético-musical através da imersão junto à gente comum, em meio ao “povão”, indo beber na fonte de campesinos e Mapuches, tendo realizado monumental trabalho como compiladora do folclore del pueblo. 

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Em um dos momentos mais tocantes de Violeta Fue A Los Cielos, podemos testemunhar longas e árduas caminhadas que Violeta fazia para chegar até as moradias campestres de idosos aos quais solicitava, com doçura e interesse, que compartilhassem com ela canções de tempos idos. Um senhor recusa-se terminantemente a ajudar: havia feito um juramento de nunca mais cantar desde que seu netinho havia morrido.

Empregando toda a sedução sincera de alguém que enxerga valor imenso naquilo que o velhinho trazia enclausurado em seu crânio, Violeta busca convencer-lhe a compartilhar os tesouros musicais e poéticos que, caso não sejam cantados e anotados em um caderninho, podem perder-se para sempre. É esta percepção de que os tesouros da tradição estão ameaçados pelo trator impiedoso da modernização, de que os depositários de cancioneiros de tempos idos estão caindo no túmulo e levando consigo canções e poemas irrecuperáveis, que faz de Violeta uma infatigável pesquisadora da cultura popular. Ela parece pesquisar na certeza de que é frágil e efêmero o depositário carnal das canções cuja chama está sob ameaça de para sempre apagar-se.

Estas cenas são comovedoras por revelarem uma Violeta Parra que é o avesso e o antônimo da popstar que recebe de magnatas da indústria e de fabricadores profissionais de hits as receitas prontas para os sucessos comerciais fáceis. Revelam uma trabalhadora em prol da memória, uma folclorista que foi em andanças pelo Chile afora para pesquisar a fundo a música, a dança e a lírica que o povão havia conservado por gerações, transmitido língua a língua sem ter nunca conseguido fixar-se em partitura e ganhar assim chances maiores de sobrevivência. Sua capacidade de escuta e de interesse evocou em mim a lembrança de um dos melhores filmes brasileiros de cinema verdade já realizados: O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho.

Quando Andrés Wood filma o velhinho, antes relutante em cantar e teimoso em seu silêncio juramentado, a cantar no velório de um bebê morto, é como se criasse um emblema para o mérito do labor de Violeta Parra: ela resgatou do esquecimento algumas pérolas que, sem ela, estariam mortas para sempre, oferecendo assim inestimável contribuição para a condensação cultural de uma miríade de manifestações culturais de seu povo (no Brasil, trabalhos similares foram empreendidos por um Mário de Andrade, por uma Ecléa Bosi, dentre tantos outros…).

Cena do filme de Andrés Wood

Cena do filme de Andrés Wood

A morte de um filho bebê, como narra o filme, serviu também para que Violeta, em meio aos tormentos do luto, compusesse uma de suas canções mais memoráveis – “Rin del Angelito”, célebre na versão do Inti-Illimani (ouça abaixo). Longe de qualquer pregação gospel, a canção é ainda assim uma reflexão religiosa sobre o después da “morte da carne”, cheia de um conteúdo consolador que vincula-se às ancestrais doutrinas de transmigração da alma. 

Da doutrina indiana do karma às crenças da seita do filósofo grego Pitágoras, a transmigração da alma ou metempsicose é um corpo de artigos de fé de uma ancestralidade que não sai de moda. No caso de Violeta, ela explora uma modalidade bastante latino-americana desta fé, afirmando uma espécie de panteísmo panpsiquista em que a alma do angelito falecido pode penetrar num passarinho ou num “peixinho novo”:

Ya se va para los cielos
ese querido angelito
a rogar por sus abuelos
por sus padres y hermanitos.
Cuando se muere la carne
el alma busca su sitio
adentro de una amapola
o dentro de un pajarito.

La tierra lo está esperando
con su corazón abierto
por eso es que el angelito
parece que está despierto.
Cuando se muere la carne
el alma busca su centro
en el brillo de una rosa
o de un pececito nuevo.

En su cunita de tierra
lo arrullará una campana
mientras la lluvia le limpia
su carita en la mañana.
Cuando se muere la carne
el alma busca su diana
en el misterio del mundo
que le ha abierto su ventana.

Las mariposas alegres
de ver el bello angelito
alrededor de su cuna
le caminan despacito.
Cuando se muere la carne
el alma va derechito
a saludar a la luna
y de paso al lucerito.

Adónde se fue su gracia
y a dónde fue su dulzura
porque se cae su cuerpo
como la fruta madura.
Cuando se muere la carne
el alma busca en la altura
la explicación de su vida
cortada con tal premura,
la explicación de su muerte
prisionera en una tumba.
Cuando se muere la carne
el alma se queda oscura.

De sua arte, tão enraizada nas tradições mas tão aberta também às invenções, “brotam luzes” – ainda que não haja escassez de sombras. É nesse jogo de claro e escuro que desenha-se a profundidade e a densidade destas composições que vão muito além e muito mais fundo do que a rasidão e a estreiteza a que estão limitadas as canções comerciais.

Ouçam, por exemplo, a emblemática “Cantores Que Reflecionam”, do álbum Las Últimas Composiones, um dos mais importantes discos na história da música chilena, uma daquelas poesias que não podem ser reduzidas a mera “letra de música”, já que os versos se sustentam perfeitamente em seu próprio mérito:

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En la prisión de la ansiedad
medita un astro en alta voz.
Gime y se agita como león,
como queriéndose escapar.
¿De dónde viene su corcel
con ese brillo abrumador?
Parece falso el arrebol
que se desprende de su ser.
«Viene del reino de Satán
–toda su sangre respondió–.
Quemas el árbol del amor,
dejas cenizas al pasar».

Va prisionero del placer
y siervo de la vanidad.
Busca la luz de la verdad,
mas la mentira está a sus pies.
Gloria le tiende terca red
y le aprisiona el corazón
en los silencios de su voz
que se va ahogando sin querer.
La candileja artificial
le ha encandilado la razón:
¡dale tu mano, amigo Sol,
en su tremenda oscuridad!

¿Qué es lo que canta? –digo yo.
No se consigue responder.
Vana es la abeja sin su miel,
vana la hoz sin segador.
¿Es el dinero alguna luz
para los ojos que no ven?
«Treinta denarios y una cruz»
–responde el eco de Israel.
¿De dónde viene tu mentir
y adónde empieza tu verdad?
Parece broma tu mirar;
llanto parece tu reír.

Y su conciencia dijo al fin:
«Cántale al hombre en su dolor,
en su miseria y su sudor
y en su motivo de existir».
Cuando del fondo de su ser
entendimiento así le habló,
un vino nuevo le endulzó
las amarguras de su hiel.
Hoy es su canto un azadón
que le abre surcos al vivir,
a la justicia en su raíz
y a los raudales de su voz.

En su divina comprensión
luces brotaban del cantor.

(1965-1966. In: Ultimas Composiones)

Não parece ser por mero saudosismo, típico de gente preocupada em tirar o pó dos vinis antigos, que os chilenos celebram Violeta Parra, mas sim pois esta obra tem resiliência e atualidade. Versos que ela escreveu em protesto ao presidente Ibañez (1877 – 1960), figura massacrada pelo escárnio do cineasta Alejandro Jodorowsky em seu ciclo de autobiografias surreais A Dança da Realidade Poesia Sem Fim – também servem para atacar a ditadura militar capitaneada por Pinochet entre o golpe de 1973 e o plebiscito de 1988. Já a celebração “Me Gustan Los Estudiantes” – regravada muitas vezes na América Latina, com destaque para versões de Mercedes Sosa e dos grupos corais brasileiros MPB4 & Quarteto em Cy – foi considerada apta a ilustrar vídeos no Youtube que revelam os levantes estudantis entre 2011-2014:

Que vivan los estudiantes,
jardín de las alegrías.
Son aves que no se asustan
de animal ni policía,
y no le asustan las balas
ni el ladrar de la jauría.
Caramba y zamba la cosa,
que viva la astronomía.

Que vivan los estudiantes
que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos,
pajarillos libertarios
igual que los elementos.
Caramba y zamba la cosa,
que vivan los experimentos.

Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura
para la boca del pobre
que come con amargura.
Caramba y zamba la cosa,
viva la literatura.

Me gustan los estudiantes
porque levantan el pecho
cuando les dicen harina
sabiéndose que es afrecho,
y no hacen el sordomudo
cuando se presenta el hecho.
Caramba y zamba la cosa,
el Código del Derecho.

Me gustan los estudiantes
que marchan sobre las ruinas;
con las banderas en alto
va toda la estudiantina.
Son químicos y doctores,
cirujanos y dentistas.
Caramba y zamba la cosa,
vivan los especialistas.

Me gustan los estudiantes
que van al laboratorio.
Descubren lo que se esconde
adentro del confesorio.
Ya tiene el hombre un carrito
que llegó hasta el purgatorio.
Caramba y zamba la cosa,
los libros explicatorios.

Me gustan los estudiantes
que con muy clara elocuencia
a la bolsa negra sacra
le bajó las indulgencias.
Porque, ¿hasta cuándo nos dura,
señores, la penitencia?
Caramba y zamba la cosa,
que viva toda la ciencia.

 Outra amostra da aptidão da obra de Parra para servir à apropriações criativas é uma canção como “Maldigo De Alto Cielo”: apesar de escrita muito antes do bombardeio ao palácio de La Moneda e os massacres do Setembro de 1973, foi mixada com fotografias do coup que derrubou o governo socialista, legítimo e eleito em eleições democráticas, de Salvador Allende,  em um vídeo com mais de 700.000 visualizações no Youtube (confira em La Pichanga – Música Chilena).

 

Escutar na sequência “Maldigo de Alto Cielo” e “Gracias a La Vida” é experiência inquietante: as duas canções parecem habitar dois pólos extremos, irreconciliáveis, quase como se não pudessem ter sido escritas pela mesma pessoa. Pode parecer paradoxal e absurdo que a mesma Violeta Parra que escreveu um belo hino de gratidão à vida, repleto de amor fati, espécie de símile latinoamericano de “Je Ne Regrette Rien” da francesa Edith Piaf, tenha podido compor algo o folk-punk de intensa malediciência de “Maldigo de Alto Cielo”, em que amaldiçoa tudo – a primavera e os planetas – numa orgia de pessimismo, niilismo e odium fati. Só se surpreenderá quem desconhece as complexidades afetivas que habitam e se digladiam no peito dos poetas.

Nietzsche chegou a dizer que o espírito fértil e fecundo é aquele rico em contradições, e este pensamento me ocorre ao contrastar estas duas canções: ouvi-las revela uma Violeta Parra capaz de explorar um amplo leque de afetos, de encarnar um vasto espectro de atitudes existenciais, que vai da ação de graças, sábia e serena, de “Gracias a La Vida”, à amarga maldição lançada contra o todo do mundo em “Maldigo Del Alto Cielo” por um eu-lírico sofredor, enlutado, deprimido, que ao fim de cada estrofe retorna ao seu lamento-bumerangue, que evoca uma dor imensurável, inquantificável, beirando o inefável.

 “Maldigo” talvez seja a canção que melhor evoca o estado de espírito que pôde conduzir Violeta ao suicídio – que verso pungente é “Maldigo el vocablo amor con toda su porquería!” – pero “Gracias” sintetiza a sabedoria amável e irradiante de uma artista que, para além da morte, tornou-se sol acalentando a vontade de viver dos que hoje segue celebrando seu legado, 100 anos após seu nascimento e 50 anos após sua auto-extinção. O espírito de “Gracias a La Vida” irá inspirar muitas cantoras latinoamericanas – de Mercedes Sosa a Elis Regina – mas Violeta Parra tem muitos espíritos para além da doçura graciosa, incluindo verves mais contestatórias, manifestas em canções de protestos e crítica social de espantosa atualidade.

Evoco alguns exemplos: as promessas demagógicas de políticos sacanas, cheios de falsas promessas e sorrisos hipócritas, são denunciadas em “Miren Cómo Sonrién” (p. 113). São versos que podem ainda hoje ser citados na denúncia de estelionatos eleitorais e que podem inspirar análises sobre os descaminhos da democracia representativa.

Miren cómo sonríen
los presidentes
cuando le hacen promesas
al inocente.
Miren cómo le ofrecen
al sindicato
este mundo y el otro
los candidatos.
Miren cómo redoblan
los juramentos,
pero después del voto,
doble tormento.

Miren el hervidero
de vigilante
para rociarle flores
al estudiante.
Miren cómo relumbran
carabineros
para ofrecerle premios
a los obreros.
Miren cómo se viste
cabo y sargento
para teñir de rojo
los pavimentos.

Miren cómo profanan
las sacristías
con pieles y sombreros
de hipocresía.
Miren cómo blanquearon
mes de María,
y al pobre negreguearon
la luz del día.
Miren cómo le muestran
una escopeta
para quitarle al pueblo
su marraqueta.

Miren cómo se empolvan
los funcionarios
para contar las hojas
del calendario.
Miren cómo gestionan
los secretarios
las páginas amables
de cada diario.
Miren cómo sonríen,
angelicales.
Miren cómo se olvidan
que son mortales.

Já em “Al Centro de la Injusticia”, uma mordaz crítica social, Violeta Parra faz por merecer sua pertença junto aos maiores nomes da canção de protesto em todos os tempos. Apesar de bem menos conhecida do que os norte-americanos (Woody Guthrie, Bob Dylan, Joan Baez), Violeta é uma cantora folk que soube dirigir afiados petardos contra a injustiça social, as barbáries militaristas, os desgovernos autoritários; até mesmo a especulação imobiliária e o turismo alienado são alvo alvejados pela cantautora, e isso décadas antes de estarem na crista da onda os fenômenos da gentrificação:

“Linda se ve la patria, señor turista,
pero no le han mostrado las callampitas.
Mientras gastan millones en un momento,
de hambre se muere gente que es un portento…” (p. 115)

O que torna a obra de Parra tão resiliente, tão capaz de sobreviver aos 50 anos de sua ausência física entre os vivos, talvez seja aquilo que chamo de a potência da palavra povoada. Com isso quero dizer que Violeta Parra não é simplesmente uma poetisa que expressa afetos e impressões individuais, não é apenas um eu isolado que fala sobre si, mas sim alguém que põe o seu verbo e sua voz, sua verve e sua arte, em contato íntimo e cotidiano com todo um povo.

Sua poesia busca amplificar a potência e disseminar a sabedoria de uma coletividade que atravessa as gerações, ainda que o precioso trabalho de resgate dos tesouros acumulados pela tradição não impeça que Violeta seja também inventiva e recriadora. Como Maiakóvski, que em célebre poema fazia-se caixa de ressonância para 150 milhões de russos, Parra besunta-se com os chilenos para tecer seus cantos. Por isso, ouvi-la é mais que ouvir uma mulher de extraordinário talento, é entrar em contato com a pulsação viva de todo um pueblo em seu esforço de criar beleza imorredoura e palavras que não vão cair da árvore do tempo.

Carli – Janeiro de 2017


OUÇA: DOWNLOAD GRATUITO
Antología: Grabaciones originales en EMI Odeon 1954-1966

De modo a contribuir para disseminar a obra de Violeta Parra na blogosfera do Brasil, A Casa de Vidro realiza um pequeno ato de cyberdelinquência e oferta a todos a versão pirata deste BOX de 4 CDs, uma das melhores coletâneas já lançadas como panorâmica da criação Parriana entre 1954 e 1966. São quase 5 horas de música e o download é inteiramente gratuito. Boa audição!

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CD 1: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. La petaquita; 2. Son tus ojos; 3. El sacristán; 4. El bergantín; 5. A dónde vas, jilguerillo; 6. Si lo que amo tiene dueño; 7. Casamiento de negros; 8. Tonada del medio; 9. Atención, mozos solteros; 10. Bella joven; 11. El joven para casarse;  12. Cuando salí de mi casa; 13. El palomo; 14. Hay un estero de vino (por ponderación); 15. Blanca, Flor y Filomena; 16. Adiós, corazón amante; 17. Qué pena siente el alma; 18. Ya me voy a separar; 19. Ausencia; 20. Cuando deja de llover; 21. Es aquí o no es aquí; 22. La inhumana; 23. Parabienes al revés; 24. Un reo siendo variable; 25. No habiendo como la maire.

CD 2: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Una naranja me dieron; 2. Verso por la sagrada escritura; 3. Verso por las doce palabras; 4. Viva Dios, viva la Virgen; 5. Las naranjas; 6. Viva la luz de Don Creador; 7. La jardinera; 8. Adiós que se va segundo; 9. Tonada por ponderación; 10. Cuándo habrá cómo casarse; 11. El jardinario; 12. Cueca valseada; 13. La cueca larga (Las Hermanas Parra); 14. La Juana Rosa; 15. La muerte con anteojos; 16. Amada prenda; 17. Las tres pollas negras; 18. Paloma ingrata; 19. Si te hallas arrepentido; 20. Niña hechicera; 21. Allá en la pampa argentina; 22. Verso por desengaño; 23. Verso por despedida a Gabriela; 24. Verso por el Rey Asuero.

CD 3: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Verso por la niña muerta; 2. Verso por padecimiento; 3. Verso por saludo; 4. Violeta ausente; 5. Viva el chapecao; 6. Yo tenía en mi jardín; 7. Cueca larga de Los Meneses; 8. En el norte corrió vino; 9. Entre San Juan y San Peiro; 10. Hay una ciudad muy lejos; 11. Tan demudado te he visto; 12. He recibido carta; 13. Imposible que la luna; 14. La Monona; 15. Los paires saben sentir; 16. Por el fin del mundo; 17. Por padecimiento; 18. Qué t’estai pensando, ingrato; 19. Huyendo voy de tus rabias; 20. Qué te trae por aquí; 21. Amigos tengo por cientos; 22. Por la mañanita; 23. El chuico y la damajuana; 24. Por pasármelo toman…; 25. El día de tu cumpleaños.

CD 4: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Las flores; 2. 21 son los dolores; 3. Los mandamientos; 4. El hijo arrepentido; 5. El pueblo; 6. Galambo temucano; 7. Maldigo del alto cielo; 8. Yo canto a la diferencia; 9. Miren cómo se ríen; 10. Arauco tiene una pena; 11. Y arriba quemando el sol; 12. A la una; 13. Escúchame, pequeño; 14. La pericona se ha muerto; 15. Los pueblos americanos; 16. Mañana me voy pa’l norte; 17. Paloma ausente; 18. Por ésta y otras razones; 19. Qué dirá el Santo Padre; 20. Se juntan dos palomitas; 21. Pedro Urdemales; 22. Según el favor del viento; 23. Una chilena en París; 24. Qué he sacado con quererte; 25. Tocata y fuga; 26. El moscardón.

SAIBA MAIS: MEMÓRIAS DA DITADURALIBERTAD DIGITAL – SHE SHREDSLIVIN SANTIAGOPORTAL VERMELHO.

ALLEN GINSBERG [1926-1997] – “Mente Espontânea – Entrevistas 1958 a 1996” #LivrariaACasaDeVidro

ALLEN GINSBERG“Mente Espontânea – Entrevistas 1958 – 1996”
Compre já na Livraria A Casa De Vidro @ Estante Virtual

ginsbergMente Espontânea reúne uma série de entrevistas, concedidas entre 1958 e 1996, revelando em minúcias a vida e a obra do poeta beatnik e pensador da cultura, Allen Ginsberg.

Autor daquele formidável Uivo, em larga medida composto sob o efeito psicodelizante do peiote, que tantos de nós consideram um magnum opus na história da poesia contemporânea, Ginsberg foi uma figura de proa da cultura global na época em que viveu. Estes bate-papos, alguns deles antes considerados impublicáveis, foram organizados cronologicamente e fornecem um excelente painel sobre a visão de mundo deste luminar da contracultura no século XX.

Ginsberg foi mais do que o autor de um one hit wonder literário; foi mais do que um ícone da Geração Beat junto com Kerouac, Burroughs, Ferlinghetti, Corso; foi mais do que um cara que influenciou Bob Dylan (agora reconhecido com o Nobel de Literatura 2016); foi uma espécie de sábio-místico-xamã, em busca perene de uma mente em profunda e constante expansão. “Através de suas opiniões podemos ter uma noção da grandeza, força, revolta e gratidão desse pensador que tanto respeito e admiro”, como escreve Lourenço Mutarelli na orelha desta edição publicada pela ed. Novo Século em 2013.

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Em sua introdução, Edmund White avalia que, no decorrer de suas entrevistas,  Allen Ginsberg “reafirma sua alta consideração por William Blake e Walt Whitman. Obviamente, ele ama o Blake visionário e o Whitman democrático sensualista; de fato, a sua personalidade literária pode ser interpretada como uma união dessas duas forças.” (p. 15)

Para Ginsberg, dar uma entrevista era um ato criativo e ao mesmo tempo uma ocasião para ensinar e disseminar suas idéias. Temas recorrentes em suas conversas, aponta E. White, são “a ecologia (ele já alertava sobre o aquecimento global duas décadas antes do alarme geral ter sido acionado), a expansão mental por intermédio das drogas e, mais tarde, do ioga, um engajamento ao pacifismo e à gentileza interpessoal, a homossexualidade, o papel fundamental da espontaneidade na criação artística” (p. 16).

Apologia da cannabis: Ginsberg e sua placa-poema "POT IS FUN" ("MACONHA É MASSA")

Apologia da cannabis: Ginsberg e sua placa-poema “POT IS FUN” (“MACONHA É MASSA”)

Como o próprio Ginsberg enfatiza, em suas entrevistas e conversas ele sempre tratava os interlocutores como seres sencientes e capazes de iluminação: “conversava com as pessoas como se elas fossem futuros Budas.” Costumava derramar sua gratidão sobre artistas e pensadores do presente e do passado que admirava, caso de figuras como Gregory Corso, Kenneth Rexroth, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Jack Kerouac, William Burroughs, Lenny Bruce, Timothy Leary, Carl Solomon, Chogyam Thungpa, dentre outros.

A leitura deste precioso material permite compreender melhor o formidável Uivo, que chaqualhou o cenário poético dos anos 1950, quando publicado em San Francisco pela City Lights Books de Ferlinghetti. Julgado “obsceno e indecente”, o livro logo seria envolvido numa batalha judicial e teria 520 cópias confiscadas pelas autoridades. Hoje, apesar das polêmicas empedernidas que se seguiram à sua publicação e que são narradas no filme estrelado por James Franco – o Howl and Other Poems – é tido como uma das obras-primas no cânone literário dos beatniks.

Ginsberg conta que, nesta época em que começa o bafafá em torno de seu livro e da a tentativa de censura ao Uivo, ele havia passado pela vivência de morar junto com Burroughs e Gregory Corso, por 8 meses, em Paris. As diversões da trupe incluíam visitar escritores malditos como Louis-Ferdinand Céline (autor de Viagem ao Fim da Noite Morte a Crédito). Não tenham dúvida de que nesta micro república beat as vitrolas tocavam muito free jazz bebop, enquanto os moradores viajavam e criavam sob a influência de substâncias estupefacientes das mais variadas.

Retornando a Nova York, em 1960, Ginsberg conclui o poema Kaddish – “em parte graças a pílulas de dexedrina” (como revela Ernie Barry, p. 27). No mesmo ano de 1960, sob supervisão do doutor Timothy Leary, tomou LSD e, voltando da trip, começou a bolar planos sobre a Revolução Psicodélica.

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Cosmonauta da galáxia interior e exterior, Allen Ginsberg uivou diante do dínamo estrelado da noite. Em suas viagens mais pé-no-chão, suas trips no sentido literal do termo, o poeta foi excêntrico e aventureiro em suas explorações do planeta Terra. Esteve em Tel Aviv, onde conheceu Martin Buber e Gershom Scholem. Passou longa temporada na Índia, fase relatada em seus Indian Journals, o que talvez tenha contribuído para torná-lo fissurado em sabedoria oriental e “cofundador da Escola de Poesia Desencarnada no Instituto Naropa, o primeiro renomado colégio budista do mundo ocidental”, segundo a minibiografia incluída neste livro.

Em 1963, sua escolha de turismo foi o Vietnã: foi a Saigon para ver as ruínas de Angkor Wat e ali “se informou com jornalistas e pessoas próximas acerca da situação daquele país e sobre o papel dos norte-americanos em solo vietnamita.” (BARRY, p. 28) Em 1964, em entrevista ao periódico da livraria e editora City Lights (de Ferlinghetti), Allen Ginsberg já falava como ativista de um movimento social dissidente, pacifista, crítico da presença dos EUA no Vietnã – e protestava “vestido” com placas repletas de versos como “man is naked without secrets, armed men lack this joy” “(o homem está nu sem segredos / homens armados carecem dessa alegria). Escrevia clamando – às vezes até mesmo profetizando! – “no more hell in Vietnam” (p. 29).

De Walt Whitman, o poeta das Leaves of Grass, libertador da poesia em relação às correntes do cânone, Allen Ginsberg aprendeu muito, mas sobretudo a coragem da ternura. Ao afirmar o valor da ternura, e a necessidade de coragem para ser termo, de certo soma a sua voz à de Ernesto Che Guevara (“hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”) e prenuncia Morissey e a vibe do verso dos Smiths: “it takes strenght to be gentle and kind”. Ginsberg, grato e devotado a um dos maiores poetas estadunidenses ever, diz que para Whitmanag-wait-featured

“foi preciso muita coragem para demonstrar ternura livremente, e pela primeira vez, nos EUA; isto está na base inconsciente de nossa democracia, não é? (…) Só através do afeto e da ternura é que teremos um mundo mais seguro para a prática da democracia. Seja gentil com os policiais; eles não são policiais, são apenas pessoas disfarçadas que foram enganadas pelos próprios disfarces.” (GINSBERG, 1964, San Francisco’s City Lights, p. 31-34)

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CONFIRA TAMBÉM:

SINOPSE: “Uivo” (1956), de Allen Ginsberg, um dos poemas mais importantes da Geração Beat, é um épico irado contra a sociedade desumanizante, que venceu ações de censura e acusações de obscenidade para se tornar um dos poemas mais lidos do século. Admirado por figuras como Bob Dylan e Patti Smith, Allen Ginsberg é um dos mais importantes poetas estadunidenses do século XX e sua obra recebeu nova propulsão com este livro, ilustrado pelo artista Eric Drooker. As ilustrações de Drooker também marcam presença em cenas do filme “Howl”, protagonizado por James Franco (veja o trailer: https://youtu.be/m5U3f-g4WPk). Confira esta graphic novel deslumbrante, inteiramente colorida, 222 pgs. Livro gráfico novo, em perfeito estado. Acesse na Estante Virtual.

Querida Janis: uma carta para um sol que brilha do além-túmulo (sob a influência do doc “Little Girl Blue”, de Amy Berg)

Querida Janis,

Não tenho em mim as crenças místicas necessárias para te crer viva, ainda, em alguma transcendental dimensão da imensidão cósmica. Não te atribuo ouvidos capazes de decifrar as palavras que te falarei, nem olhos que decriptem estes garranchos que te escrevo. Suponho que te tenhas acabado, em carne-e-osso, por inteiro, sem deixar subsistir o fantasma de um espírito imorredouro. No entanto, o teu esplendor enche meu coração ateu de convicções sobre a perspectiva concreta de sobrevida após a morte pois tua música é nada menos que isso: um vivificador tônico, um Biotônico Fontoura artístico, um fortalecedor do ânimo, o que faz do teu legado algo que está para além da possibilidade de servir de repasto aos abutres ou aos vermes.

És uma voz que transcende a morte, uma voz que condensa um destino que em 27 anos brilhou mais do que a maioria dos terráqueos consegue no triplo ou no quádruplo deste tempo. Inspira-nos, até mesmo a nós que nascemos quando você já estava morta, a sensação intensa de que é possível “viver sem tempos mortos”, para emprestar a expressão de Simone de Beauvoir. Querida Janis, você mostra que é possível existir no compromisso com a autenticidade extrema. Você não escondia tua verdade detrás das máscaras da conveniência, nem se calava diante da massa caótica e confusa de afetos que em ti conviviam criando nós que era preciso desatar. Teus nós eram cantáveis em libertárias catarses. Assim libertavas-nos a todos, teus contemporâneos e teus pósteros, ao dar às mancheias e sem avareza tantas lindas lições de tua liberdade.

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Por muito tempo este leitor de Nietzsche tentou encontrar exemplos concretos, históricos, de quem seriam os tais dos “espíritos livres”, dionisíacos e em êxtase diante da existência, e encontro poucas encarnações melhores desta liberdade-de-espírito do que você. Você e Jimi. Vocês, cometas que atravessaram com pressa o céu da existência, faiscando pelo cosmo com vidas incendiadas e que a gente não esquece mais, tão necessitados somos destas tempestades de beleza com que vocês nos agraciaram. A guitarra de Jimi em chamas evoca-me a imagem símile da tua voz rasgada, que não temia desafinar pois ascendia para uma região para além de todos os medos, um âmbito onde reina a expressão intensa de afetos verdadeiros, com o ímpeto e a verve, com a vibe e o groove, de uma divina bacante, maravilhosamente indomável.

Ainda assim, mesmo que fizesses “amor com milhares de pessoas” durante os shows, voltavas sempre sozinha pra casa. Janis, entendo teu blues tão bem pois não pusestes máscara em teu sofrer. Soubestes cantar o abandono e a carência como ninguém, na singularíssima irradiação do teu ser incatalogável, e vejo nesta tua frase – “On stage, I make love to 25,000 different people, then I go home alone” – uma espécie de emblema do teu ânimo e cerne do teu blues.

3007-janis-joplin-620x372“BALL AND CHAIN” (AO VIVO NO MONTEREY POP):

Querida Janis, tu gritavas a tua solidão de um modo que nos faz sentir que uma solidão só é horrenda se mantida secreta e presa, nas catacumbas mau-iluminadas de nosso tórax. Tu gritavas a tua solidão dando a entender que uma solidão gritada poderia virar alguma porra semelhante a um orgasmo estético vivenciável em comum por um bando de hippies loucos em Nirvana conjunto… O Big Brother & The Holding Company que me perdoe – eram uma bandaça, afinal, tão timbrada quanto um Steppenwolf ou um Grateful Dead! – mas eras de fato o astro mais brilhante daquela constelação humana. E não tenho a pretensão de saber explicar as razões do teu esplendor, só sei que a aura de liberdade é essencial a isto que irradiava de ti e que te fez, de fato, um astro. Não uma pop star, mas um astro iluminante de fato, daqueles que se consome no próprio incêndio, um pouco como aquele monge budista que está em pleno processo de virar cinzas na capa do álbum de estréia do Rage Against the Machie.

A tua “astridade” era legítima – pois esplendias como um sol – mas cedo também fizestes a descoberta do quão tão trágico é ser astro. Como Kurt Cobain um dia também compreenderia, outro que entrou para o mítico time dos 27. Há quem vá dizer que vocês foram estúpidos, imprudentes, que vocês desperdiçaram a vida jogando-a fora por causa do vício às drogas, e inclusive não faltaram jornais e revistas para grudarem em vocês os rótulos depreciativos de junkies. Vocês não foram só junkies, Janis, não do modo como esta palavra é mobilizada pelos detratores, pois vocês foram o inefável, o indefinível, o irrotulável esplendor da Arte, aquilo que está para além das capacidades dos críticos de verbalizar.

Ocorre-me à mente uma belíssima cena de A Liberdade é Azul, de Kieslowski, em que a personagem de Juliette Binoche está de olhos fechados sentindo os raios de sol em sua face: tua música é assim, pra ser ouvida de olhos fechados, como quem se banha no esplendor irradiante de um sol que aquece, derretendo a frieza que é em nós prenúncio e parente do rigor mortis. Querida Janis, mesmo que nunca venhas a saber disso, digo na gratidão intensa de quem não cessa de te ouvir e ser beneficiado ao teu contato: amo a tua irradiância. Tua ética, tua estética, era a mesma do sol.


Vejo-te em Monterey, pela primeira vez diante de um público de tal gigantismo que é de atemorizar qualquer reles mortal com o mais paralisante stage fright. Você, não: como um heroína que retira suas forças de mananciais secretos que nem Carl Jung saberia decifrar onde se encontram, você sabia se desnudar diante de uma platéia imensa, abrir a sua caixa toráxica e exibir um coração sangrento e pulsante, daqueles que não via nada melhor a se fazer na vida do que cantar e cantar. Cantar de verdade, a tua verdade, de modo a derreter até o mais empedernido dos sujeitos apáticos e convencionais. Diante de ti, ficamos boquiabertos com uma capacidade rara, que poucos de nós de fato chegamos a desenvolver, esta generosa entrega de si ao mundo, através de uma expressão, arrojada e ousada, do teu oceano de afetos.

Te vejo no Rio de Janeiro e tua liberdade ali esplende nos bicos dos teus seios, na displicência anti-chic com que bebes um goró e curtes a maravilha transitória de um pouco de anonimato. Mas a câmera fotográfica te flagra, e talvez você sentisse que viver momentos tão mágicos sem ter deles registro talvez fosse sentido como perda, desperdício; você queria, do seu percurso, carregar vestígios. Você tinha a ambição de ser amada, não a medíocre ambição do lucro que é epidemia. Ambicionava derreter corações ao sol da tua expressão hipérbole das verdades sentidas e vividas.

Teu foto-diário, que no documentário de Amy Berg ganha vida na voz de Cat Power, serve como janelas abertas para uma pessoa que tinha lá seus segredos, apesar do escancarado dos teus cantos. Segredos de sofrimentos antigos, de ter sido molestada por canalhas da Klu Klax Klan em Port Artur ou por ter sido maltratada por algum cowboy escroto de Austin. Segredos de uma adolescência repleta da sensação de ser um freak e estar apart em relação à ordem careta.

Te imagino livre demais para enquadrar-se nos quadrados pré-preparados pelo poder. Ao invés de murchar na depressão ao sentir-se pertencente à estirpe da freakidade, você soube se conectar a algo de coletivo, à corrente da contracultura e sua ética do desapego ao lucro monetário, tivestes  apegos à utopia de uma sociedade alternativa que Raul Seixas cantaria por aqui, no Brasil, mas que vocês também encarnavam naquele trem de doidos sublimes e músicos geniais que espraiou magia pelos trilhos da América na trip do Festival Express.

Que seria daquela cena sem a tua inestimável contribuição, que seria de San Francisco nos anos 1960 se você não estivesse impactado todo o cenário com a tua irrupção esplendorosa? E no entanto tua vida dá a impressão clara de que você disse a verdade quando te perguntaram se você foi ao Rio como turista, e você respondeu: “i’m a beatnik on the road.” 

Cara Janis, não sou mongolóide de achar que minha carta achará teu endereço, tu que não és mais deste mundo, mas eu não saberia me expressar sobre ti senão me endereçando ao teu fantasma tão presente, à tua presença em mim através destas canções que tu cantavas como se fossem cartas. Cartas daquelas tão sinceras que são de rasgar o coração, como em “Cry Baby”, quando você a cantou em Toronto, em 1970, mandando notícias para seu “lost love” na África. Uma carta endereçada àquele que, após as maravilhas do convívio e da intimidade te abandonou para ir em busca de algo, em busca de si, em busca de sei lá o quê, em Casablanca ou sabe-se-lá-onde.

Você diz a ele, no teu blues, algumas lições que são ao mesmo tempo seduções: “You’re lookin’ for your life over there, honey! Do you wanna know where your life is? You’re life’s waiting like a god-damned fool, right here, for you man!” Você, que não era fácil, faz recurso até a ameaças: “um dia, meu caro, você vai acordar em Casablanca e vai estar congelando-até-a-morte [freezing to death], cara! E você vai se perguntar, que diabo estou fazendo em Casablanca?”

Você canta no ímpeto da esperança de um reencontro, você imagina o retorno do amor perdido, no teu abandono você o chama com come on, come on, come on, e não conhece sedução alguma melhor do que dar-lhe permissão para chorar. Teu romantismo não era a idealização de um convívio perfeito, mas a mútua entrega à expressão de sentimentos, mesmo os mais negativos e pesarosos: amar é ter um ombro onde chorar tanto quanto é ter alguém com quem rir; amar é dividir com alguém os malefícios e crueldades da existência tanto quanto é uma festa do êxtase em conjunto; amar era, pra ti, Janis, mais que mero sonho ou fantasia, era aquilo que tu fazias com a naturalidade do vulcão que entra em erupção.

Teus afetos falavam a língua do fogo. Teu calor humano é aquilo em ti que é imorredouro. Tua voz é deste calor o veículo, teu coração fez-se indestrutível pela decomposição já que aqueces os vivos mesmo não estando mais entre eles. És uma força vivificante que emana do túmulo, ou melhor, os vestígios da tua vida são vivificantes a ponto de serem pouco distinguíveis do incêndio solar que apresenta-se para seu concerto diuturno a cada aurora e se põe a cada crepúsculo.

“CRY BABY” (AO VIVO EM TORONTO, 1970):

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Talvez, querida Janis, tenhas inventado um novo namastê, um culto solar, algo como “o sol que há em mim saúda o sol que há em ti”. És um emblema do que se chamou, por comodidade de classificação, a “Geração Hippie”. Vocês eram a mais esplendorosa das belezas nascidas de um país e de uma época chafurdados nos horrores da guerra e do genocídio imperialista. Você, Janis, nasceu em meio às carnificinas da 2a Guerra Mundial, em 1943, e as tuas faces de criança talvez tenham sido iluminadas, através da TV, pelas hecatombes nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Você deve ter visto aqueles cogumelos hediondos: teu blues não era somente cósmico, era também histórico. Você nasceu – alguém não nasce? – em tempos sombrios. E em Woodstock você deves ter sentido que algo se galvanizava e imantava num imenso evento que, para além do hedonismo, da libertação sexual, da experimentação com novas vivências intersubjetivas e estéticas, era também congregação daqueles que queriam encontrar as vias de co-construção de um mundo menos sangrento e cruel do que aquele do napalm despejado sobre as pessoas do Vietnã e do Camboja, do que aquele dos warmongers que teu ídolo Bob Dylan denunciara em “Masters of War” e outros folk-hinos.

Woodstock Music Festival (1969)

Woodstock Music Festival (1969)

 Tua beleza ensinava algo de precioso aos poderes ensandecidos pelas feiúras bélicas e pelos feitos de macheza destruidora e imperialismo agressivo. Tu eras desejo intenso de felicidade – “Jesus fucking Christ, I want to be happy so fucking bad!”, ainda te ouço dizer. Os caretas jamais vão compreender que tua relação com as drogas nada tinha de auto-destruição niilista ou fuga dos desafios da existência, era sim um desejo de intensidade e de viver sem tempos mortos, de sondar aquela sabedoria que só se encontra no excesso (segundo William Blake e seus Provérbios do Inferno). Você era um pouco como Jim Morrison, queria break on through to the other side. Depois, Patti Smith seria animada pelo que tu fizeras e diria: there’s a million membranes to break through.


Minha querida Janis, adoro-te pois você não se resignava a uma vidinha besta e sem thrills, você queria que viver fosse groovy, algo cheio de ritmo e paixão, cheio de dança extática e eloquência cantada, você queria a música que conduz ao transe, você queria ser para o público aquele médium de transfiguração que conduz um coletivo à congregação. Como faziam Otis Redding ou Aretha Franklin, você era xamã de um cerimonial pagão, bacântico, dionisíaco, onde as fronteiras delimitantes da chatura instituída eram lançadas por terra. Cantar te dava asas a ponto de não existir gaiola nesse mundo em que coubesses. Mas só eras este vulcão pela densidade de sofrimento que carregavas, tu te conectavas com os afetos que foram tão magistralmente expressados por algumas das melhores cantoras de blues da história: Billie Holliday, Bessie Smith, Odetta, Ma Rainey.

Odetta

Odetta

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Billie Holiday

Em 27 anos, você impôs-se neste panteão, você fez algo de tão extraordinário que as pessoas, te ouvindo, mal conseguiam acreditar que você não fosse negra. E dizer que Janis Joplin cantava como uma negona não é mero chiste ou brincadeira, é reconhecer tanto a tua capacidade de aprender com as blueseiras negras todas as técnicas, truques e feelings que você tão bem empregou, quanto a tua capacidade de transfigurar os sofrimentos e dúvidas que sentias em algo de tamanha intensidade e carga emocional que parece apenas ser possível só para quem passou por traumas muito severos e humilhações muito profundas – exatamente o caso do povo afro-americano que vivenciou as sequelas e as sobrevivências da escravatura.

Dirão alguns que tu cantavas dores pessoais, de relações intersubjetivas que tendemos a confinar hoje no âmbito do privado, e que para encontrar os gênios do canto de um sofrimento coletivo, grupal, histórico, a obra de uma Nina Simone ou de um Gil-Scott Heron é mais significativa. Já eu acho que teu canto é profundamente político pois carrega uma ética, um ideal de relacionamento humano, uma espécie de pregação laica, lindamente musicada, em que tu celebravas – tinhas sim algo de Aretha Franklin em seus trance-gospels – algo que talvez seja menos deus que valor: honestidade de expressão. É o ético é indissociável do político.

Aretha Franklin

Aretha Franklin

Tu eras, Janis, maravilhosamente capaz de pôr teus sentimentos numa linguagem que comandava a empatia com a força de imantação que o planeta Saturno acarreta à matéria que forma seus anéis circundantes. Tu talvez sentias o cosmic blues, semelhante ao de Pascal ao olhar para o “silêncio eterno dos espaços infinitos”, tinhas talvez o frisson melancólico daqueles que suspeitam que o céu é surdo a nossos apelos e que não há deus que nos salve de nosso abandono. Tinhas talvez a percepção visceral de que temos só uns aos outros, e aprendestes no amargor que humanos não são assim tão bons de entrega, de generosidade, de conexão. Precisamos de pedagogos do amor, e nisto fostes uma imensa fonte de luz, assim como Rita Lee, segundo Tom Zé, foi a educadora erótica de toda uma geração, você nos ajudou a aprender a arte difícil de amar – e oferecestes tudo o que tinhas àquilo que amavas mais que tudo, tua música e as teias de conexão que, por esta via, você estabelecia.

Você celebrava o potencial de congregação da música – aquilo que a anima há milênios, aquilo que transcende os contextos culturais específicos, aquilo que decerto já faziam os hominídeos e neandertais de gerações e gerações antes da História escrita começar.

Tua música é um sol que resplende e não cessamos de trepidar às bordas da tua fogueira, ao mesmo tempo aquecidos e estarrecidos, incapazes de compreender como é possível alguém compreender que a vida é isso: queimar. It’s better to burn out than to fade away. Como diria aquele outro membro do Clube dos 27 que, citando Neil Young, despediu-se do mundo em sua carta de suicídio, talvez sem suspeitar de que também viveríamos, nós, seus pósteros, à sombra fascinante da catarse de sua angústia. Eventos como você ou o Nirvana, na história da música, são raríssimos: são vocês que estabelecem os auges, são vocês que fazem os termômetros da cultura explodirem por excesso de temperatura, por explosão do vidro que contêm os mercúrios.

Ensinas a viver mesmo no teu fracasso, dás a lição da fragilidade e da beleza da vida enquanto deixas o ânimo vital cair no nada por causa de um estúpido pico de heroína num hotel qualquer de teu percurso que ainda era tão grávido de futuros.

Janis, escrevo para dizer que o futuro ainda se aquece à luz do teu calor e ainda se encanta com o esplendor da tua voz; sei que não me ouves, mas não posso ouvir-te sem querer este absurdo infazível de agradecer-te. Rock on, sis! Shine on your glowing light!

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Escrito em 18/09/16, em Goiânia, logo após a sessão do documentário “Little Girl Blue” em sessão no Cine Cultura

SIGA VIAGEM:

SHOWS:

AO VIVO EM ESTOCOLMO, SUÉCIA (1969)

AO VIVO EM FRANKFURT, ALEMANHA:

AO VIVO EM WINTERLAND (1968) – Só áudio:

AO VIVO EM MONTEREY POP – Só áudio:

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1965 – This Is J.J.
1966 – Big Brother & The Holding Company – Light Is Faster Than Sound
1966 – Big Brother & The Holding Company – Live In San Francisco 1966
1967 – Big Brother & The Holding Company
1968 – Big Brother & The Holding Company – Cheap Thrills
1968 – Live At The Winterland ’68
1969 – At Woodstock
1969 – Filmore East 1969
1969 – Frankfurt 12Th April 1969
1969 – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!
1969 – Janis Joplin & The Cosmic Blues Band – Texas International Pop Festival Vol. 3
1970 – Big Brother & The Holding Company – Be A Brother
1970 – Pearl
1970 – The Rarest Pearls
1970 – Wicked Woman
1971 – Big Brother & The Holding Company – How Hard It Is
1972 – Joplin In Concert
1973 – Janis Joplin’s Greatest Hits
1974 – Janis Original Soundtrack
1980 – Anthology
1983 – Farewell Song
1999 – Mercedes Benz (Rare Tracks – 1962-1970)
2000 – Super Hits
2001 – Love Janis
2005 – Pearl (Legacy Edition)

PÓ DE SER: “A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA” – Conheça um dos álbuns de estréia mais incríveis da música brasileira em 2015

A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA

por Eduardo Carli de Moraes

“A vida é mais bela quando a surpresa a espreita.”
PÓ DE SER

Do pó viemos e ao pó retornaremos, não há escapatória. Porém, nesse meio tempo, estes seres incandescentes que provisoriamente somos têm na ARTE uma das aliadas mais preciosas para que o viver, ainda que efêmero e repleto de incertezas, valha a pena. Neste ano de 2015, repleto de sensacionais lançamentos na música brasileira (Elza Soares, Bixiga 70, Cidadão Instigado, Lenine, Karina Buhr, Emicida, Siba, Mari Aydar, Rodrigo Campos, Boogarins, BNegão, Los Porongas, dentre outros) – uma bandaça de Goiânia, o Pó De Ser, lançou um belíssimo disco de estréia, A Dança da Canção Incerta (2015, 54 minutos, baixe já). Abrir-se ao influxo destas canções tão cheias de vida, deixar-se penetras por estas músicas que parecem ter sangue quente correndo em suas veias de som, leva a dar razão a Nietzsche: de fato, “sem música a vida seria um erro!” 

Pó de Ser

Gravado no Rocklab Produções Fonográficas e produzido pelo “Mestre” Gustavo Vazquez (responsável por premiados trabalhos com Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Violins, Overfuzz, dentre outros), o disco da Pó de Ser é uma viagem estética exuberante, que expande os horizontes da Canção ao explorar suas múltiplas potencialidades sonoras e poéticas. Segundo a libertária concepção do Pó De Ser, a canção tem vocação pra ser de tudo: reflexão filosófica, confissão existencial, crítica social, crônica do cotidiano, retrato da metrópole, balada erótica, lisergia surreal, exercício de ufologia… Em suma: “tudo pode ser”.

Por ser uma banda sem ortodoxia e que não se agarra a nenhum gênero específico, a Pó de Ser escapa de ser capturada por qualquer rótulo. Tanto que a tarefa de encontrar uma etiqueta se torna uma divertida pilhéria: “Pó de Ser é vintage futurista, vanguarda ‘dodecafona’, pop experimental, cultbrega, regional intergaláctico”, arrisca Kleuber Garcez.

As letras por Diego de Moraes e Kleuber Garcez – dupla de parceiros responsáveis pelas composições – são repletas de referências e citações, mas nem por isso deixam de soar originais e autênticas, mesmo quando a tática posta em prática é a do pot-pourri. Em “Cuidado”, por exemplo, eles amarram as idéias através de menções a clássicos da música popular brasileira: “Iracema”, de Adoniran Barbosa; “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa (já gravada pelos Mutantes); “Na Terra Como No Céu”, de Geraldo Vandré; e “Nego Dito”, de Itamar Assumpção (uma figura idolatrada pelos integrantes da banda e que mereceu ainda uma releitura de sua canção “Leonor”).

Uma das virtudes mais evidentes da banda está em seu esmero poético e em seu lirismo multifacetado. Da utopia antropofágica de Oswald de Andrade às renovações estéticas do Tropicalismo, dos poetas marginais da geração mimeógrafo (Torquato Neto, Waly Salomão, Capinan, Leminski, Nicolas Behr etc.) aos compositores-cantores “malditos” (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Itamar Assumpção…), tudo entra no liquidificador linguístico da banda, onde as palavras pegam fogo e ganham inusitados sentidos. “Afina a viola e vai tocar o seu destino!”, cantam logo nos primeiros minutos do disco, na ousada “Pode Apostar”, que conta com participação guitarrística de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que toca também na faixa de encerramento, “Pó de Ser”.

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de "A Dança da Canção Incerta"

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de “A Dança da Canção Incerta”

A brasilidade é explícita pelo disco afora – que por vezes remete também à obra de Raul Seixas, Luiz Tatit, Odair José ou André Abujamra – mas isso não impede o Pó de Ser de dialogar também com a (contra)cultura gringa, em especial hippies, beatniks e gurus da psicodelia. Em “Venha Ver O Sol”, por exemplo, eles saúdam os Beatles com uma canção que parece misturar a vibe de “Here Comes The Sun” (de George HarrisonAbbey Road) e “Lucy In The Sky With Diamonds” (de Lennon e McCartney @ Sgt. Peppers), mas que acolhe também menções ao clássico de Bob Dylan (“Like a Rolling Stone”), ao James Dean de Juventude Transviada, ao romance de Kerouac On The Road, e por aí vai.

O disco estabelece uma densa teia sônica e poética que enreda o ouvinte, carregando-o numa montanha-russa que mais parece uma viagem de LSD por uma Goiânia Cósmica e Alucinógena. Somando forças a Diego e Kleuber estão as guitarras certeiras de Fernando Cipó, os batuques groovados de Danilo Rosolem (com participação de Fred Valle), além de belos teclados e flautas por Hermes Soares: com intrincado entrosamento, os músicos constroem um lindo sonho delirante, um fluxo musical delicioso, que recompensa repetidas audições. Essa é uma daquelas raras “bolachas” já que vai revelando novos encantos a cada nova “orelhada”.

Um certo tom satírico e humorístico marca presença em canções como “Refrão dos Diabos” – comentário irônico sobre os refrões que, por piores que sejam, grudam na memória feito chiclete – e “Captou?” – um lúdico e ca(p)tivante experimento que lembra o trabalho magistral de Diego & o Sindicato, Parte de Nós. Várias das músicas do Pó de Ser tem uma irreverência e uma jovialidade que têm tudo para agradar aos que curtem “etc.

Já em “Fantasia ao Pé do Ouvido” é uma balada erótica que enraíza o amor na corporalidade (“gosto do seu gosto e do seu cheiro, gosto do seu gozo por inteiro”) e traz o Pó de Ser mostrando que também sabe ser sexy, com a ajuda dos vocais de Bebel Roriz. Outra cantora goiana formidável, Cristiane Perné, faz dueto com Diego na faixa-título, “A Dança da Canção Incerta”, um verdadeiro tratado existencialista em formato canção.

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“O risco é a conta que eu pago por ser vivo”, cantam eles nesta canção que parece ecoar Guimarães Rosa e seu “viver é perigoso”. Assumir os riscos todos que a vida nos lança ao caminho, e abrir-se às surpresas que estão à nossa espreita, é a parte essencial da filosofia de vida de uma banda que, a golpes de batuques e melodias, demole qualquer tendência inércia e conformismo. Por isso é tão inspirador deixar-se influenciar por esta atitude exploratória e nômade destes humanos que encaram, tendo instrumentos e vozes como armas, todos os riscos – da bala perdida ao rastro de cobra no mato.

Já “Bicho Urbano” merece decerto o troféu de uma das obras-primas musicais já escritas sobre Goiânia. O eu-lírico assume uma postura ambivalente diante de uma cidade que percebe como “bela e medonha”, como mescla de rural e de urbano, como coexistência de cosmopolitismo e provincianismo. Longe do tom celebratório, o eu-lírico canta a partir de uma posição marginal (“ninguém me socorre nessa capital / que me deixa à margem… marginal!”), descrevendo-se como “mais um louco na multidão” que inclui putas, camelôs, hippies, fiéis; é um “mosaico de nós a se desatar”.

Goiânia atravessa um prisma poético e reaparece mais exuberante e bizarra do que nunca. Com “Bicho Urbano”, a Pó de Ser alçou-se ao nível do comentário sociológico de alto nível, proeza também realizada pelo Carne Doce em “Sertão Urbano”. Na canção do Pó de Ser, alguns dos locais mais célebres da capital de Goiás são evocados por alguém que “rumina a cidade em seu pensamento”, numa atitude de “antropofagia” com o Eixo Anhanguera, o Cererê, a Praça Tamandaré… Soma-se a isso a peraltice da menção aos onipresentes propagandistas  ambulantes de pamonha (“quentinha, caseira, é o puro creme do milho verde!”), tudo misturado, sem pudor, a referências à contaminação radioativa com Césio 137, que tornou a cidade uma espécie de “Chernobyl Brasileira” em 1987.

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Sem pudor de botar viola no rock and roll, de tecer elos entre brasilidade e estrangeirismo, de aliar o trágico e o cômico, o Pó De Ser consegue a proeza de ser, a um só tempo, altamente experimental e saborosamente palatável. Há todo um “microcosmo” escondido dentro dessa minigaláxia chamada “A Dança Da Canção Incerta”, uma obra-de-arte que chega com força para fazer parte do “cânone” da MPB goiana, merecendo até ser caracterizado por aquele delicioso paradoxo: o do “clássico instantâneo”. Figuras como Juraildes da Cruz, Umbando, Cristiane Perné, Carlos Brandão, Gustavo Veiga Jardim, dentre outros artistas seminais do cenário, devem estar felizes, saudando a aterrissagem entre nós desta preciosa música, que vem para deixar nossas vidas mais belas e poéticas, mais surpreendentes e pulsantes, mais delirantes e diferentes…

Como escreveu Cristiano Bastos, o disco é “uma poção sonora cuja alquimia vai além da música e derrama-se em fartas doses de cinema, literatura, poesia, cultura popular e tantas outras linguagens artísticas presentes na louca infusão sonora.” Eis uma banda que, mesmo tropeçando nos astros, siderada por estar de olhos postos nos OVNIs, não perde nunca a harmonia, o ritmo, o groove, o lirismo, o ímpeto aventureiro e exploratório. Mergulhe de cabeça na dança da canção incerta sem medo de overdose: esta música é, para lembrar Manoel de Barros, um baita “esticador de horizontes”. Corra o risco! 

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OUÇA JÁ!

PÓ DE SER
A Dança Da Canção Incerta (2015)

01. PODE APOSTAR
02. CUIDADO
03. A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA
04. BICHO URBANO
05. FANTASIA AO PÉ DO OUVIDO
06. VOU NÃO VOU
07. REFRÃO DOS DIABOS
08. LEONOR
09. PRISMA
10. CAPTOU
11. VENHA VER O SOL
12. PÓ DE SER

Faça o download do álbum completo:
http://migre.me/siavg

Curta a fanpage do Pó de Ser :
https://www.facebook.com/podeserbanda

Ouça o primeiro EP da banda:
http://soundcloud.com/podeser

Integram a banda Pó de Ser: Diego De Moraes, Kleuber Amora GarcezFernando Assis, Hermes Soares Dos Santos, Danilo RosolemO álbum inclui ainda participações especiais de Fernando Catatau (do Cidadão Instigado), Cristiane Perné, Bebel Roriz, Frederico Valle, Leo Pereira (Terrorista da Palavra), dentre outros convidados. A arte da capa é de arte de Natália MastrelaNo vídeo abaixo, confira trechos da faixa-título e da canção “Bicho Urbano”, além de cenas das gravações do álbum no Rocklab de Pirenópolis (GO). O vídeo foi bolado para a divulgação da première do álbum, que rolou na Evoé Café Com Livros, em Goiânia.

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Confira também, na sequência, “De Repente” e “Ypsilone”, ambas canções do EP de estréia do Pó De Ser, Tudo Torto Em Linha Reta:

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Ouça também os álbuns de Diego de Moraes, Parte de Nós e Diego Mascate. Confira também seus clipes para “Dia Bonito”, “O Show Vai Continuar” e “Todo Dia”.


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P.S. A Casa de Vidro também tem a alegria de anunciar que o Diego de Moraes é o mais novo colunista do site e escreverá por aqui no ano de 2016. Aguardem!!!

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

What-Happened-Miss-Simone-posterO artista genuíno é ao mesmo tempo um espelho de sua época e uma fonte perene de beleza e inspiração para a posteridade. Tal definição me ocorre diante desse fenômeno da natureza que foi Nina Simone (1933-2003), a quem é devotado o documentário What Happened, Miss Simone? (uma produção Netflix, direção de Liz Garbus, 2015).

Eu, que já tinha Nina em alta estima como uma das cantoras mais magistrais da história de sua nação, no patamar duma Ella Fitzgerald, duma Billie Holiday, duma Sarah Vaughan, duma Bessie Smith, só tive minha admiração aumentada ao conhecer mais o ser humano extraordinário que ela foi. Tamanha honestidade e profundidade expressiva, tamanha capacidade de comunicar afetos dos mais diversos, tamanha sensibilidade à flor da pele, tamanha musicalidade genuína e transbordante, é uma jóia rara!

Logo no início do filme, ela revela sua fórmula da liberdade: “freedom”, opina Nina, significa “no fear” (ausência de medo). Levei pra vida este novo emblema, que carregarei lado a lado, no lado esquerdo do peito, junto com o verso da Janis em “Me and Bobby McGee” – “freedom’s just another word for nothing-left-to-lose” – e com as inesquecíveis palavras da Cecília Meirelles – “liberdade é um sonho que o coração humano alimenta, não há quem explique e não há quem não entenda.” Nina Simone, rebelde com causa, voz visceralmente comovente, ensina-nos um bocado, na práxis, sobre os espíritos livres e sobre as batalhas que combatem contra as gaiolas.

Eunice Waymon nasceu numa família pobre, de 8 filhos, na Carolina do Norte. Começou a tocar piano aos 3 anos de idade e desde cedo sonhou em entrar para a história como a primeira pianista clássica negra dos EUA. Estudando de 6 a 8 horas diárias, logo aprimorou-se em suas interpretações de Bach, Debussy, Chopin, Brahms, entre outros compositores. Porém, sentia na pele, desde então, o racismo da sociedade norte-americana na época da lei Jim Crow: para ter aulas de piano, por exemplo, precisava se dirigir ao “setor branco” da cidade, sinal inequívoco da segregação racial vigente.

Criança

A pequena Eunice Waymon

A carreira de “rebelde com causa” de Nina Simone teve seu início precoce aos 12 anos de idade, quando ela apresentou seu recital de estréia em uma igreja. O Sul norte-americano dos anos 1940 não era fácil: o racismo cotidianizado era tão difundido que os pais da pequena Eunice foram proibidos de sentar na primeira fileira para assistir a filha tocar, já que eram negros e aqueles assentos estavam reservados para brancos. Conta a lenda que Eunice recusou-se a começar o concerto antes que seus pais pudessem se sentar na frente.

Sua mãe, pastora metodista, costumava levar a pequena Eunice aos cultos, onde a intensidade da música gospel impressionou indelevelmente a pequena (é bem sabido que algumas das vozes mais sublimes e poderosas da música dos EUA, como Mahalia Jackson e Aretha Franklin, possuíam raízes firmemente plantadas no solo do gospel). Com o desenrolar de sua carreira pianística, Eunice Waymon estuda na escola Julliard em NYC. Posteriormente, é recusada como aluna de conservatórios mais conservadores (leia-se: mais racistas), como o prestigioso Curtis Institute da Philadelphia.

Para ganhar a vida, começa a tocar em bares e cabarés de Atlantic City, ocasião em que decide mudar seu nome de Eunice Waymon para Nina Simone (unindo o diminutivo carinhoso de Eunice, Nina, com uma homenagem à atriz Simone Signoret). A decisão de adotar o nome artístico veio menos de interesses comerciais e mais de seu desejo de que a mãe não soubesse que ela andava tocando “música do diabo” para platéias noctívagas em pubs de reputação duvidosa… 

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Sua carreira deslancha quando ela, além de tocar piano clássico de modo magistral, começa a soltar seu gogó-de-ouro em canções de jazz, blues, folk, soul. Logo ganharia o apelido “High Priestess of Soul” e se consolidaria como uma “diva”, mas com a originalidade de estar conectada à tradição afro dos griots. Nina apresenta-se em importantes festivais internacionais, com destaque para o Newport Jazz Festival em 1960 e para o Festival de Montreux, na Suíça, em 1976. Concretiza também seu sonho de tocar no Carnegie Hall, em 1963. Já sua produção discográfica, que abrange cinco décadas, é impressionante em quantidade e qualidade, levando-nos a pensar em Nina Simone como uma fonte exuberante e inesgotável de música sincera, intensa, sempre heartfelt (obs: ao fim deste post, baixe gratuitamente muitos álbuns dela na íntegra!).

Nem tudo são flores na vida pessoal de Nina, porém. Casa-se com Andrew Stroud, um policial do setor anti-narcóticos de NYC que, depois do casório, torna-se também seu empresário. Andy, como revelado pelo filme, era mandão e capaz de muitas brutalidades com a esposa, forçando-a a uma maratona de trabalho extenuante e violentando-a na vida doméstica. O casamento é problemático ao extremo: Andy pressiona a esposa para que trabalhe até o limite, viajando o mundo em turnês, a ponto dela sentir-se como um cavalo-de-corrida (race horse) que é forçado até às beiras do colapso. Pior: são frequentes os episódios de violência doméstica em que Nina é espancada pelo marido. Nina narra no documentário até mesmo a cena de um estupro perpetrado por um truculento Andy.

O casal tem uma filha, Lisa, entrevistada pelo filme, que revela os graus de violência doméstica em que viveram (e a própria Nina não é poupada de acusações, por parte da filha, já que Lisa revela ter sido vítima de espancamentos perpetrados pela mãe…). A vida privada da diva, sua agenda sempre lotada, sua farmacopéia de pílulas, vão gerando um quadro psíquico de depressão, fadiga, insônia, bi-polaridade, mood swings… O que culmina no divórcio e no auto-exílio de Nina, que deixou os EUA para tentar viver uns tempos na África, na França, na Holanda.

Além de canalizar todos estes afetos de sua vida inter-subjetiva em suas canções – de modo a influenciar a emergência posterior de artistas como Joni Mitchell, Fiona Apple, Tori Amos, Regina Spektor… – Nina Simone também era mestra em transformar em música alguns dos episódios sócio-políticos que vivenciou – o que coloca-a na companhia de figuras como Woody Guthrie e Bob Dylan.

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Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas. Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”. Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista.

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960A politização e radicalização de Nina se exacerbam nos anos seguintes e ela entrega-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960. Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!” 

Apesar de sua discordância em relação ao pacifismo absoluto de Martin Luther King, Nina Simone admirava-o profundamente como líder político e soube louvá-lo com uma de suas mais belas canções quando King foi assassinado. “The King Of Love Is Dead”, uma composição de Gene Taylor, estava destinada não só a arrancar cachoeiras de lágrimas dos milhões que se puseram de luto diante do cadáver de Martin Luther King, como também se transformaria num espectro a assombrar o país, com seus questionamentos contundentes sobre o que seria do amanhã depois que o amor foi mais uma vez morto a balas.

Once upon this planet earth,
Lived a man of humble birth,
Preaching love and freedom for his fellow man,

He was dreaming of a day,
Peace would come to earth to stay,
And he spread this message all across the land.

Turn the other cheek he’d plead,
Love thy neighbor was his creed,
Pain humiliation death, he did not dread

With his Bible at his side,
From his foes he did not hide,
It’s hard to think that this great man is dead. (Oh yes)

Will the murders never cease,
Are thy men or are they beasts?
What do they ever hope, ever hope to gain?

Will my country fall, stand or fall?
Is it too late for us all?
And did Martin Luther King just die in vain?

Cos he’d seen the mountain top,
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think
Cos we’re heading for the brink.
What will happen now that he is dead?

He was for equality,
For all people you and me,
Full of love and good will, hate was not his way.

He was not a violent man.
Tell me folks if you can,
Just why, why was he shot down the other day?

Well see he’d seen, the mountain top.
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think…and feel again,
For we’re heading for the brink.
What’s gonna happen now that the king of love is dead?

Nina9Influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers), Nina chega à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada. Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, conclama o povo à Revolução:

A politização de Nina Simone, sua adesão à doutrina Malcolm-X-iana do “all means necessary”, é fruto de tempos conturbados em que acirram-se os conflitos raciais no país que a própria Nina apelidou de “United Snakes of America” (Cobras Unidas da América). Nesse contexto, Nina Simone recupera e reinterpreta uma canção que ficou clássica na voz de Billie Holiday, “Strange Fruit”, um hino anti-racista que trabalha com imagens poéticas sinistras e impactantes: os tais “frutos estranhos”, pendendo das árvores, são cadáveres de negros enforcados por brancos. “Black bodies swingin’ in the summer breeze…”


Strange Fruit(Tradução via Vagalume)

Outra peça clássica de seu cancioneiro político é “Backlash Blues”, escrita em parceria com Langston Hughes (1902-1967). Neste petardo rebelde, Nina vocifera contra um certo “Senhor Backlash”, que ela interpela em tom acusativo e rebelde: você aumenta meus impostos, congela meus salários, manda meus filhos para morrer no Vietnã; me dá moradia de segunda classe, escolas de segunda classe, trata todos os negros como se fossem tolos de segunda classe. Aliás, o tal do “backlash” significa um tapa com a parte posterior da mão, oposta à palma, simbolizando a atitude supremacista do branquelo espancador.

BACKLASH BLUES

Mr. Backlash, Mr. Backlash
Just who do think I am?
You raise my taxes, freeze my wages
And send my son to Vietnam

You give me second class houses
And second class schools
Do you think that all colored folks
Are just second class fools?
Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

When I try to find a job
To earn a little cash
All you got to offer
Is your mean old white backlash

But the world is big
Big and bright and round
And it’s full of folks like me
Who are black, yellow, beige and brown

Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

Langston Hughes

É provável que a carreira de Nina Simone pudesse ter sido comercialmente mais bem-sucedida caso ela tivesse sido menos radical em suas posições políticas. O Mercado, entidade bastante cruel, boicotou Nina Simone assim que notou seu ativismo radical anti-racista e pró-direitos civis. De todo modo, o documentário congrega vários depoimentos de Nina em que esta diz que foi compelida a assumir tais atitudes pelos eventos históricos que testemunhou. André Barcinski, em seu texto Quando A Música Importava, explora o tema:

Nina passou a cantar somente músicas de cunho político. Seus discos pararam de vender e os shows rarearam. Os assassinatos de John Kennedy (1963), Malcolm X (1965), Bobby Kennedy (1968), Martin Luther King (1968) e Fred Hampton (1969) deram a Nina a certeza de que uma guerra racial estava em curso no país, e ela passou a defender a violência contra o “domínio branco”. Uma das cenas do filme mostra a cantora perguntando à plateia em um show: “Vocês estão prontos para incendiar prédios?”. Se hoje a radicalização política de Nina Simone pode soar paranoica e agressiva, é preciso analisar o contexto da época e o passado da cantora para tentar entender suas motivações. Numa época em que amigos e políticos que ela admirava eram mortos, jovens negros eram mandados para o Vietnã em números proporcionalmente muito maiores que jovens brancos, e grupos armados como os Panteras Negras prometiam incendiar o país, todo o ressentimento de uma infância passada em um lugar segregado, onde os pais não podiam sequer entrar nos teatros onde Nina tocava piano, fez explodir nela uma fúria incontrolável. Por quase dez anos, Nina Simone sabotou a própria carreira. Defendeu o poder negro “por todos os meios necessários”, aproximou-se de grupos radicais e criticou artistas negros que, segundo ela, faziam concessões ao mercado.

Slavery

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Lorraine Hansberry (1930-1965)

Prenunciando o espírito que daria o tom de várias vertentes do movimento Hip Hop – se Gil Scott-Heron é o “vovô do rap”, Nina Simone pode ser considerada como sua madrinha nutriz! – a arte de Nina também inclui um forte elemento de valorização identitária, de auto-afirmação da negritude, algo exemplificado bem pela canção “Young, Gifted and Black”. Esta música foi escrita em memória de uma das melhores amigas de Nina Simone, a escritora Lorraine Hasberry, autora de Raisin’ in the Sun, falecida aos 34 anos de idade. Mais uma vez, a canção tornou-se um hino para todos aqueles que eram “jovens, talentosos e negros”, conclamando à uma atitude de auto-estima e cabeça-erguida que lembra um pouco James Brown e seu hit “Say It Loud: I’m Black and I’m Proud”.

Por essas e outras, Nina Simone é uma daquelas celebridades musicais que não se apaga como as estrelas comerciais mais vulgares, que navegam a crista do hype para serem esquecidas no próximo verão. Nina Simone construiu uma obra cujo legado sobrevive e sobreviverá pela qualidade estética, pela expressividade afetiva, pelo caráter de espelho de toda uma época. Não tenho dúvidas de que esta rebelde com causa foi uma das figuras mais geniais que já pudemos testemunhar em ação diante de um piano e de um microfone.

O lançamento recente do documentário What Happened, Miss Simone? e do disco tributo Nina Revisited (com versões primorosas cantadas por Lauryn Hill e outras figuras contemporâneas) só reativa a chama desta inextinguível fogueira humana. Nina não só viveu e cantou, dando-nos tudo o que tinha, como é cada vez mais inadequado conjugá-la no passado: ela ainda vive e ainda canta, pássaro negro exuberante e sublime que, para citar um poema de Maya Angelou, canta tão belamente pois está em rebelião aberta contra as gaiolas e celebra sempre a liberdade.

A liberdade vivenciada, a liberdade ausente, a ambiguidade da liberdade cuja ausência sofremos e cuja presença deliciosamente desfrutamos, tudo isso anima o canto de Nina a ponto de torná-la uma das vozes mais libertárias que conheço – ainda que não ruja como Zack de la Rocha e não faça as macacagens hardcore de Jello Biafra. Em “I Wish I Knew How It Feels To Be Free”, Nina Simone talvez tenha nos presenteado com a mais sintética expressão de sua vontade de liberdade:

“I wish I knew how
It would feel to be free
I wish I could break
All the chains holding me
I wish I could say
All the things that I should to say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole round world to hear.”

A versão do Cold Blood, grupo psicodélico de San Francisco, 1960s, com uma vocalista meio Janis Joplin:

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Nina66

Caged Bird

By Maya Angelou

A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2015

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LEIA TAMBÉM: ANDRÉ BARCINSKIJORNAL GGN – OBVIOUS – NINA SIMONE.COMDAZED – BIOGRAPHY.COM

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ALGUNS VÍDEOS RECOMENDADOS

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DOWNLOADS DE ÁLBUNS COMPLETOS:folder

DOWNLOAD DO CD COMPLETO:
NINA SIMONE
Antologia das Canções de Protesto
Acesse via Google Drive

Playlist files:

  1. Nina Simone – By Any Means Necessary (Interview) (1:13)
  2. Nina Simone – Revolution (4:40)
  3. Nina Simone – Mississippi Goddamn (Interview) (1:54)
  4. Nina Simone – Mississippi Goddamn (4:31)
  5. Nina Simone – Old Jim Crow (Interview) (1:07)
  6. Nina Simone – Old Jim Crow (2:19)
  7. Nina Simone – Backlash Blues (Interview) (2:45)
  8. Nina Simone – Backlash Blues (3:07)
  9. Nina Simone – Four Women (Interview) (2:14)
  10. Nina Simone – Four Women (4:09)
  11. Nina Simone – Nobody (Interview) (1:26)
  12. Nina Simone – Nobody (5:08)
  13. Nina Simone – I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (4:53)
  14. Nina Simone – Strange Fruit (Interview) (0:59)
  15. Nina Simone – Strange Fruit (3:28)
  16. Nina Simone – Definition of an Artist (3:04)
  17. Nina Simone – Why? The King of Love is Dead (9:20)
  18. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (Interview) (1:01)
  19. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (3:40)

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CYBERJUKEBOX #002 – Baixe os 2 primeiros álbuns de Tim Hardin [1941-1980] – Vol. 1 (1966) e Vol. 2 (1967)

TimHardin
TIm-Hardin-1
TimHardin2

CYBER JUKEBOX #2
TIM HARDIN – I & II (1966 e 1967)
MP3 320 kps – 100 MB de ZIP

Carxs,

A Casa de Vidro, através da série de posts Cyber Jukebox, disponibiliza downloads de álbuns musicais que desfrutamos intensamente por aqui e que desejamos, como Bodhisatvas piratas, pôr na roda e compartilhar. Apreciem sem moderação, pois, esses sons aqui ofertados a todxs que concordam que, sem música, a vida seria um erro, como disse Nietzsche. Hoje, apreciem os dois primeiros álbuns do cantor-e-compositor Tim Hardin [1941-1980] (MP3, 100 MB), figura memorável da cena folk anglo-saxã nos anos 1960 e 1970.  Tim Hardin marcou época no cenário folk do Greenwich Village sessentista e chegou a tocar no lendário festival de Woodstock em 1969. Sua canção mais famosa, “If You Were a Carpenter”, foi gravada por Johnny Cash (em dueto com June) e pelos Four Tops (da Motown). Porém, lembra-nos a Wikipedia, “seu vício em heroína e o medo dos palcos fazia com que seus shows fossem deveras erráticos.” O próprio Bob Dylan reconheceu Hardin como um dos grandes cantores-compositores de sua geração. Décadas depois, uma das vozes mais expressivas do grunge, Mark Lanegan, também celebraria o legado Hardin no Screaming Trees e em sua carreira-solo (chegando a gravar “Shiloh Town”). Uma das bandas do rock alternativo atual mais influenciadas por Tim Hardin é o Okkervil River, que gravou a canção “Black Sheep Boy”, que também dá nome a uns dos primeiros álbuns da banda. Richie Unterberger, em uma biografia publicada na AMG Allmusic Guide, define-o como “a gentle, soulful singer who owed as much to blues and jazz as folk, Tim Hardin produced an impressive body of work in the late ’60s without ever approaching either mass success or the artistic heights of the best singer/songwriters.”

P.S. – No Facebook, um álbum dá acesso a todos os discos já postados, que também podem ser acessados por aqui:
https://acasadevidro.com/category/cyber-jukebox-discos-para-download/

Pra quem gosta de: Tim Buckley, Tom Waits, Nick Drake, Neil Young, Wilco.

DOWNLOAD: TIM HARDIN
OS DOIS PRIMEIROS ÁLBUNS

SAIBA MAIS:

TIM HARDIN – Vol. 1 (1966) [CLICK TO DOWNLOAD]
AllMusic Review by Bruce Eder

Tim Hardin‘s debut album was something of a happy accident, a killer record at least a third of which was comprised of tracks intended as demos, while another half utilized a string orchestra that the artist knew nothing about. Whatever its origins, Tim Hardin 1 is one of the most powerful and compelling records of its era, encompassing deeply personal and compelling poetry, blues, rock, and folk in settings ranging from stripped-down Sun Records-style rock & roll to lightly orchestrated folk-rock. The beautiful, briskly paced “Don’t Make Promises” — which, along with “Reason to Believe,” became one of the two huge songwriting hits here — opens the album on an ambitious note, its sound mixing a small-band and string section behind a confessional lyric. “Green Rocky Road” and the rollicking “Smugglin’ Man” are both more in a traditional folk-rock vein, showcasing the darker and rougher side of Hardin‘s singing, while “How Long” carries listeners into electric blues that is as raw and stripped down as anything coming out of the British blues boom of the same era, and which could’ve passed muster on Chess’ Fathers & Sons blues showcase. Hardin wasn’t happy about the presence of the blues-style demos on the finished album, but when they’re placed alongside such startlingly original and personal songs as “Reason to Believe,” “Misty Roses,” “While You’re on Your Way,” “It’ll Never Happen Again,” and “Hang on to a Dream,” they vividly show off the sheer range of Hardin’s singing and his musical sensibilities. The string accompaniment on most of those songs reportedly wasn’t to Hardin’s liking, but Artie Butler‘s arrangements are models of restraint, and the bluesier cuts here keep the album from going too far in that direction. And so what if “Ain’t Gonna Do Without” was Hardin’s informal joke based on “Hi Heel Sneakers,” never intended for release? It offered some of the best blues harmonica that John Sebastian ever laid down on a record. The result is a seminal folk-rock album, every bit as exciting and urgent as it was in 1966, and as important a creative effort as Bob Dylan‘s Bringing It All Back Home and Highway 61 Revisited. And this wasn’t even Hardin’s best album, though it set the pattern for everything he did after.

TIM HARDIN – Vol. II (1967) [CLICK TO DOWNLOAD]
AllMusic Review by Richard Mortifoglio

While not as prolific as Bob Dylan, Paul Simon, or Neil Young, the prototypical folk-rocker Tim Hardinremains one of the greatest singer/songwriters, as much for his masterly delivery and subtle, jazz-inflected accompaniments as for the enduring songcraft of his classics “If I Were a Carpenter,” “Reason to Believe,” “Misty Roses,” and “The Lady Came from Baltimore.” Opening with “Carpenter,” a song on the same level as “Like a Rolling Stone” or “Norwegian Wood,” Tim Hardin 2 is a lovely, all too brief set from tune heaven. An unlikely highlight might just be its very last song, “Tribute to Hank Williams,” which sounds nothing like a country song, but manages in just a few lines to bring the myth of Hank Williams forth into the beautiful chaos of the ’60s: “Goodbye Hank Williams, my friend. I didn’t know you but I’ve been to places you’ve been.”

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Ouça algumas canções:

DOWNLOAD: TIM HARDIN – DOIS PRIMEIROS ÁLBUNS

  1. Don’t Make Promises (2:26)
  2. Green Rocky Road (2:18)
  3. Smugglin’ Man (1:57)
  4. How Long (2:54)
  5. While You’re On Your Way (2:17)
  6. It’ll Never Happen Again (2:37)
  7. Reason to Believe (2:00)
  8. Never Too Far (2:16)
  9. Part of the Wind (2:18)
  10. Ain’t Gonna Do Without (2:13)
  11. Misty Roses (2:00)
  12. How Can We Hang On to a Dream (2:03)
  13. If I Were a Carpenter (2:43)
  14. Red Balloon (2:36)
  15. Black Sheep Boy (1:56)
  16. The Lady Came from Baltimore (1:52)
  17. Baby Close Its Eyes (1:54)
  18. You Upset the Grace of Living When You Lie (1:49)
  19. Speak Like a Child (3:17)
  20. See Where You Are and Get Out (1:14)
  21. It’s Hard to Believe in Love for Long (2:18)
  22. Tribute to Hank Williams (3:11)

 

A MORTE DO GLAMOUR NA RUA DO CREPÚSCULO – Explorações sobre o clássico filme de Billy Wilder, “Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses” (1950)

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“Prédios vão se erguer
E o glamour vai colher
Corpos na multidão.”

CRIOLO. Casa de Papelão.
Do álbum Convoque Seu Buda, 2014.

Avançando pela rua do crepúsculo, envolvida por um brilho de empréstimo, roubando luz de seu passado, Norma Desmond tece – com a ajuda de seus cúmplices e serviçais – um véu de Maya diante dos próprios olhos.

O cinema já produziu inúmeros filmes em que o próprio cinema está em questão, mas poucos são tão magistrais e sublimes quanto Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses, uma das obras-primas de Billy Wilder.

É um filme sobre filmes, em especial sobre como a megaindústria Hollywoodiana funciona e como influi nas vidas de cineastas, escritores, atores, produtores, magnatas e escroques de toda estirpe. Sem sinal do kitsch costumeiro nos filmes comerciais de Hollywood, Billy Wilder fez em Sunset Boulevard um de seus filmes mais dark e Hitchcockescos.

É também, parece-me, o inaugurador de um subgênero, que eu chamaria de cinema metalinguístico, que tem entre seus clássicos Oito e Meio, de Fellini (1963),  A Noite Americana, de François Truffaut (1973), A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (1985), O Jogador, de Robert Altman (1992), Mulholland Drive – Cidade dos Sonhos, de David Lynch (2001), dentre outros.

O pai de todos os grandes filmes-sobre-o-cinema talvez seja esta obra de 1950 – que eu preferiria que se chamasse Crepúsculo dos Ídolos (e não Dos Deuses) – em que Wilder cria este inesquecível retrato das transformações radicais vivenciadas por uma celebridade da indústria cinematográfica, encarnada pela expressiva Gloria Swanson, atriz que sabe muito bem abraçar a insânia quase trágica, Lady Macbethiana, desta star do showbizz, Norma Desmond, retratada décadas depois de seu auge glorioso.

Como uma aranha, esta estrela caída, que há muito já não brilha nas telonas, tece uma Matrix diante de si onde seu ego continua no trono máximo. É o mito de Narciso que renasce: esta mulher vive rodeada por imagens de si mesma, prisioneira na Caverna do egocentrismo exacerbado, o que revela-se claramente tanto pelo excesso de fotos de si mesma com as quais ela abarrota com porta-retratos incalculáveis sua vasta casa, quanto por seu cinema doméstico, onde ela só assiste aos filmes em que ela própria aparece. Os limites estreitos de seu mundo parecem limitar-se a uma mansão que não passa de um gigantesco labirinto cujas paredes e chão e tetos são constituído inteiramente de espelhos.

 Billy Wilder soube retratar de modo genial todo um jogo de ilusionismo, aliás bastante próprio ao cinema como arte, que acaba transcendendo os domínios estéticos e transbordando para a existência daqueles que envolvem suas vidas demasiadamente com as engrenagens impiedosas de uma indústria do entretenimento que soube, por exemplo, conduzir Marilyn Monroe a seu suicídio e fez com que James Dean (outrora) e Heath Ledger (recentemente) se auto-aniquilassem ainda na juventude.

CaravaggioSalomeLondon

Salomé com a cabeça de João Batista em uma bandeja, obra de Caravaggio (1607)

Em Sunset Boulevard, o drama da atriz decaída em sua fama atinge alturas míticas: estamos diante de uma nova Salomé. As relações de amor de Norma Desmond, longe de possibilitarem o desabrochar das jovialidades e dos deleites que preenchem as comédias alegres de Wilder como Sabrina ou Love in The Afternoon, são matéria digna de Shakespeare ou Shelley. Norma Desmond tem poder demais em suas mãos, até mesmo pelo capital que concentra e mobiliza, para que esta mulher seja banal e sem consequências – pelo contrário, ela não somente quer ser gente importante, como também sua conduta e suas práticas tem quase sempre como télos uma ambição desmesurada, uma fome de glamour que é devoradora.

Há nela algo de vampira, mas não é exatamente uma personagem vilanesca caricatural, já que Wilder sabe também mostrar a humanidade de uma mulher frágil, insegura, com fome de amor, perdida em suas reminiscências de uma glória que em seu presente queima em fogo baixo, mas que ela está disposta a re-incendiar.

O véu de Maya de sua Matrix mulheril é a miragem de fama continuada que serve para acalentar um pouco a desolação daquela mansão. Ser milionária é tão triste que ela traz os pulsos marcados por várias tentativas de suicídio. Em sua primeira visita, o visitante surpreende-se com os ritos fúnebres de um macaco: Norma Desmond estava em luto após a morte de seu pet primata. Diante disso, o visitante – que se tornará, é claro, roteirista-ajudante e logo amante-serviçal – pergunta-se melancólico e assombrado: será que a vida desta mulher é assim tão vazia que ela tenha que investir tanto afeto em um macaco, a ponto dela ir toda solene enterrá-lo com pompas fúnebres Bergmanianas?

Sim: no clássico de Billy Wilder, Sunset Boulevard, Hollywood é uma terra impiedosa com aqueles que já deixaram para trás seus 15 minutos (ou no máximo 15 anos) de fama. A protagonista vive o pesadelo do pop, para lembrar uma expressão de Marcelo D2. Ou melhor, ela vive o melodrama da perda da aura: deixou de ser pop, mas quer intensamente continuar a crer em seu renascimento como estrela, em um sonhado futuro re-brilhante no pop stardom. Rodeada por fotos de sua juventude, assistindo seus filmes em replay, tem fome de uma glória reencontrada, o que é a motivação para seus atos profundamente egocentrados.

Narciso de saias, esta atriz sedenta por holofotes e um tanto rejeitada pelo sistema (que quer as novinhas e despreza as envelhecidas), transformada em figura excêntrica demais para o gosto da indústria do entretenimento normalóide, Norma Desmond vai seguindo o declive que conduz o filme a profundezas dignas de Bergman ou Tarkovsky. Apesar de seus momentos de novelão melodramático mexicano, Sunset Boulevard é de um impacto equiparável ao de O Sétimo Selo ou A Infância de Ivan.

Norma acaba por ser uma encarnação hollywoodiana da lendária Salomé, símbolo de uma feminidade traída que acaba demandando a cabeça na bandeja ou o cadáver boiando na piscina daquele que ousou rasgar o tecido precioso da ilusão romântica. Se ela investe (afeto e dinheiro) às mancheias em seu escritor de estimação, é um pouco com a atitude mandona e megera de quem acha que a grana compra tudo. Mas descobre que o capital não compra fama eterna assim de forma tão fácil e mecânica quanto os capitalistas desejariam. Fama efêmera, capital impotente.

Esta estrela de Hollywood olha para os astros da noite murmurando: the stars are ageless (“as estrelas não envelhecem”). Mas descobre amargamente que a condição humana não comporta escapatórias: é rua de mão-única, da maternidade ao cemitério, e envelhecer é destino inelutável para aqueles que desejam seguir vivendo até encontrarem seu crepúsculo natural.

Tudo passa, até a glória.

E isso descobrem muitos dos que tornaram-se gloriosos muito cedo, de Marilyn Monroe a Kurt Cobain. Sempre me impressionou o fato de que os famosos muitas vezes acabam suicidados: é como se batessem suas cabeças até o coma cerebral contra o labirinto de espelhos onde vivem. Norma Desmond deseja as câmeras, os holofotes, as atenções, mas quer mais: deseja ser regida pelos maiores, estar em relações com os grandes criadores, de modo que investe esperanças no plano de ser estrela de um novo épico de Cecil B. De Mille. Grandes planos, imensos tombos.

No fim das contas, quando seu plano mirabolante mostra-se vão e esfacela-se no chão, como castelo de areia à beira da praia que era, aí então destrava a psicose, aflora a fúria de Salomé, ela pega um atalho para outro tipo de fama. Melhor alguma fama do que fama nenhuma. Ainda que seja a fama dos loucos, dos assassinos, dos pinéus, dos que colapsaram, dos que perderam as estribeiras e cometeram o irremediável.

São raros os momentos da história do cinema onde uma obra-de-arte chega ao grau de reflexão profunda sobre a loucura que Billy Wilder conseguiu realizar no desfecho inolvidável de Crepúsculo dos Ídolos. Um filme que acaba possibilitando um diálogo com a obra de um Artaud, um Nietzsche ou um Van Gogh. Se algum Foucaultiano um dia tivesse a ideia de mapear uma História da Loucura no Cinema, Norma Desmond teria que aparecer em uma tribuna de honra. Pois esta personagem tem a mistura de comédia e tragédia, de esperança grandiosa e fragilidade emocional, que marcou tantos dos maiores e mais atormentados artistas da história…

Wilder aproveita também para satirizar – como já havia feito de modo brilhante em The Front Page – uma indústria cultural e uma mídia de entretenimento que usam as estrelas como se fossem absorventes, estes que depois da menstruação delem ser logo lançados no lixo. Depois do spotlight, o olvido. A fila anda. Mais recentemente, Kurt Cobain e Courtney Love – casal trágico e desajustado, deveras, mas que também eram capazes de intensa empatia e conexão – souberam satirizar toda esta cultura hegemônica do “use once and destroy”. 

O que me leva a pensar que a colonização que o capitalismo opera sobre a indústria do cinema gera fenômenos como as estrelas descartáveis, usadas em sua juventude para adornar os filmes com belos rostinhos, e cujas vidas pessoais podem ser investigadas de modo impiedoso pelo comércio de fofocas e pelos sensacionalismos midiáticos que propulsionam a mídia marrom a esta indústria conexa. Mas vou fechar o bico quanto a outras especulações e Pierre Bourdieuísmos que talvez não venham tanto a propósito aqui.

Em suma: não é só um filmaço, é uma obra-de-arte das mais magistrais do século 20, de tanta qualidade quanto um romance de Proust ou um álbum sessentista de Bob Dylan. Sunset Boulevard é um pouco como a lendária Salomé se fosse renascida em Hollywood, com pitadas de Cleópatra e algo de Elizabeth Taylor. No filme, uma apaixonada desiludida vê desmoronar seu castelo de cartas: o filme é sobre o colapso de uma fantasia subjetiva, mas descreve este procedimento de decadência e de insânia como parte de uma teia de relações bastante complexa, analisável inclusive pelo seu aspecto sociológico e político.

Norma Desmond, em seu momento de fúria, ao notar que sua Salomélica dança dos 7 véus não havia surtido o efeito desejado sobre o mundo, perde o controle e transforma-se em criminosa. Será que seu inconsciente lhe ditou que era melhor ser famigerada do que não ter nenhuma fama? Eis a condição humana, desde Homero descrita de modo pungente através dos inesquecíveis desvarios de Aquiles na Ilíada: nós humanos não queremos somente sobreviver, e não suportamos apenas viver, queremos mais do que isto: temos vontade de significar valer. 

Debaixo da luz cósmica de estrelas silentes e enigmáticas, banhados pelas emanações cósmicas da estrela solar, não suportamos bem as sombras, as catacumbas, os porões: no isolamento sofremos e murchamos. “Nenhum homem é uma ilha”, como lembra o lapidar verso de John Donne, e o ser humano que tentar ilhar-se irá certamente violentar sua própria natureza. Isolar-se em uma mansão repleta de espelhos, habitar ali em narcísica auto-celebração que não cessa, é a receita para a catástrofe – e uma que Norma Desmond continua a nos ensinar. Sunset Boulevard: tratado sobre a tragédia do narcisismo.

De todo modo, o filme parece animado pela presença deste afeto talvez universal e que faz com que todo ser humano possua a vontade de que o outro enxergue-o, reconheça-o, valorize-o. Somos universalmente desejosos de relações com o amplo domínio da alteridade, sem o qual nosso valor próprio naufraga aos nossos próprios olhos. Só sei o quanto valho a partir do outro, do ouro ou desdouro que o outro me conceda ou me retire. Sedentos por reconhecimento, às vezes marchamos às cegas, irracionais como somos tanto e tão frequentemente, apesar de termos nos auto-proclamado, narcisinhos que somos, como “homo sapiens” (“homens sábios”? Aonde encontrá-los?).

 O glamour é só uma nova embalagem para uma velha isca que mordemos e mordemos, como peixes pescados mil vezes e que jamais aprendem. Glamour: esta mercadoria oferecida em mil anzóis por publicitários e empresários, interesseiros e oportunistas, comerciantes e políticos, e que é um dos símbolos mais fortes do quanto o capitalismo colonizou nosso espaço íntimo, invadiu nossos sonhos, reinando até sobre nossas fantasias. É verdade que o desejo de fama já existia em sociedades pré-capitalistas – e que os gregos, como Jean-Pierre Vernant tão bem argumenta, já discutiam de modo intenso sobre a questão da bela morte, da reputação póstuma, do papel do artista como aquele que transmite à posteridade um retrato imorredouro daquilo que merece ser memória. Mas hoje o capitalismo reina também sobre nossos sonhos de fama e Norma Desmond – ultra-capitalista e mega-neurótica -mostra-nos um caso paradigmático do quanto temos tendência massiva a sermos Hollywoodianescos quando sonhamos com a glória.

Nosso imaginário também precisa ser revolucionado se quisermos cuspir fora das profundezas de nossa psique este vírus ideológico que é o individualismo narcísico competitivista que hoje passa por “natureza humana” no discurso do capitalismo liberal.

Vivendo em uma cultura capitalista que é competitiva até as raias da loucura, somos convidados a pensar a glória como algo acessível a uma pequena elite; mas, apesar dos reality shows e Big Brothers Televisivos, sabemos muito bem que não há democracia autêntica na vigência de uma meritocracia aristocrática. Será que não colheremos o conflito e a violência enquanto continuarmos pondo combustível na maquinaria deste ideário que conduz cada um a querer reinar e brilhar sozinho debaixo dos holofotes de uma glória exclusivista? Pois não há glória do eu que chegue aos pés da glória do commons. Mas ao commons estamos – Saramago ensina – cegos.

Norma Desmond, depois de muito caminhar pela avenida da fama, descobre fatalmente, ao entrar na rua do crepúsculo, que sua fantasia despedaçou-se ao contato com a realidade e sua vida transformou-se nas ruínas de um ídolo destroçado. Afinal de contas, ela tinha, como todos os ídolos, pés de barro.

Eduardo Carli de Moraes
29 de Maio de 2015
A Casa de Vidro.com

 Sunset BOulevard

“When the power of love overcomes the love of power, the world will know peace.” – Jimi Hendrix (1942-1970)

1

 

“Quando o poder do amor
Vencer o amor ao poder
O mundo conhecerá a paz.”

Hippie Jimi

Jimi Hendrix (1942-1970), além de ter sido um dos mais revolucionários músicos do século 20 e um dos mestres maiores da guitarra elétrica que já viveu, também se arriscava nas artes plásticas. Não chega aos pés de um Picasso ou Matisse, mas ainda assim é impressionante. Também através da expressão visual este espírito prodigioso do Hendrix pôs pra fora, em 27 anos de vida incandescente, sua fértil criatividade. Hoje alçado ao status de mito musical mor, lado a lado com Lennon, Marley, Janis ou Cobain, Jimi revela sua fascinante personalidade neste seu quadro “Drifter’s Escape”, que esteve em exposição durante o Festival International de Jazz de Montréal 2014:

03
“Hailed as the greatest guitarist of all time by Rolling Stone magazine in 2003, Hendrix recorded only four albums during his brief, incandescent career. Exploring the possibilities of amplification, pedals, wah-wah and feedback, he created a wholly new style, exploding the limits of the electric guitar as none other before or since, but it is above all his virtuoso musical talent that has left such an enduring and deep impression on our culture.

Drifter’s Escape is the title of a song written by Bob Dylan and covered by Hendrix. The song recounts the story of an outsider oppressed by society, put on trial and found guilty without knowing what the charges against him are. In this illustration, Hendrix offers us his visual interpretation of the story. In the upper right-hand corner, you can clearly see the outsider fleeing the injustices of society.”

In: http://www.montrealjazzfest.com/maison-du-festival-online/gallery/jimi-hendrix-silkscreen.aspx


Patti Smith canta “Drifter’s Escape” de Bob Dylan

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SIGAJimi-Hendrix-Wallpapers-1024x768 VIAGEM:

Jimi Zahar

DOWNLOAD EBOOK (RJ: Zahar, 2014)

Are_You_Experienced_-_US_cover-edit

 

DISCOGRAFIA [BAIXAR TUDO]: http://bit.ly/1FFJOIN

1967 – Are You Experienced?
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01 – Foxy Lady.mp3
02 – Manic Depression.mp3
03 – Red House.mp3
04 – Can You See Me.mp3
05 – Love Or Confusion.mp3
06 – I Don’t Live Today.mp3
07 – May This Be Love.mp3
08 – Fire.mp3
09 – Third Stone From The Sun.mp3
10 – Remember.mp3
11 – Are You Experienced.mp3
12 – Hey Joe.mp3
13 – Stone Free.mp3
14 – Purple Haze.mp3
15 – 51st Anniversary.mp3
16 – The Wind Cries Mary.mp3
17 – Highway Chile.mp3

1967 – Axis- Bold as Love
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01 – EXP.mp3
02 – Up From The Skies.mp3
03 – Spanish Castle Magic.mp3
04 – Wait Until Tomorrow.mp3
05 – Ain’t No Telling.mp3
06 – Little Wing.mp3
07 – If 6 Was 9.mp3
08 – You Got Me Floatin’.mp3
09 – Castles Made Of Sand.mp3
10 – She’s So Fine.mp3
11 – One Rainy Wish.mp3
12 – Little Miss Lover.mp3
13 – Bold As Love.mp3

1968 – Electric Ladyland
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01 – … And the Gods Made Love.mp3
02 – Have You Ever Been (To Electric Ladyland).mp3
03 – Crosstown Traffic.mp3
04 – Voodoo Child.mp3
05 – Little Miss Strange.mp3
06 – Long Hot Summer Night.mp3
07 – Come On (Let The Good Times Roll).mp3
08 – Gypsy Eyes.mp3
09 – Burning Of The Midnight Lamp.mp3
10 – Rainy Day, Dream Away.mp3
11 – 1983 … (A Mermaid I Should Turn To Be).mp3
12 – Moon, Turn The Tides … Gently Gently Away.mp3
13 – Still Raining, Still Dreaming.mp3
14 – House Burning Down.mp3
15 – All Along The Watchtower.mp3
16 – Voodoo Child (Slight Return).mp3

1970 – Band Of Gypsys

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01 – Who Knows.mp3
02 – Machine Gun.mp3
03 – Changes.mp3
04 – Power To Love.mp3
05 – Message To Love.mp3
06 – We Gotta Live Together.mp3

1972 – Hendrix In The West
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01 – Johnny B. Goode.mp3
02 – Lover Man.mp3
03 – Blue Suede Shoes.mp3
04 – Voodoo Chile.mp3
05 – The Queen.mp3
06 – Sgt Pepper’s Lonley Hearts Club Band.mp3
07 – Little Wing.mp3
08 – Red House.mp3

1986 – Jimi Plays Monterey
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01 – Killing Floor.mp3
02 – Foxey Lady.mp3
03 – Like A Rolling Stone.mp3
04 – Rock Me Baby.mp3
05 – Hey Joe.mp3
06 – Can You See Me.mp3
07 – The Wind Cries Mary.mp3
08 – Purple Haze.mp3
09 – Wild Thing (Burning Guitar!).mp3

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jimi-1

SHOW COMPLETO: 
THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
Ao vivo em Estocolmo, Suécia
1969

 

Uma leitura feminista da peça “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Bertolt Brecht (1898 – 1956) || por Eduardo Carli

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“…a pearl on the pathway of war she was,
And a pearl all genuine, too.
Though sometimes laughable she might be,
More oft was honor her due.”

A song by Runenberg, Lotta Svärd
(From “Songs of Ensign Stal”, 
New York, G.E. Stechert, 1925)

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INTRODUÇÃO

Tenho imensa admiração por Bertolt Brecht (1898 – 1956). Como dramaturgo, poeta e pensador político, Brecht é de um brilhantismo raro. Sua arte é de alto impacto e influenciou profundamente a posteridade, algo que sente-se claramente, por exemplo, no cinema de Lars Von Trier, ou em certas fases da carreira de Chico Buarque de Hollanda, em especial “A Ópera do Malandro”, uma adaptação da “Ópera dos Três Vinténs” de Brecht e Weill.

Compartilho aqui um artigo que escrevi na tentativa de interpretar uma de suas célebres peças, “Mãe Coragem e Seus Filhos”, sob um viés feminista. Tento compreender o militarismo e o belicismo como uma patologia do patriarcado. Estabeleço conexões com filmes – como “Nascido Para Matar” de Stanley Kubrick, e “A Corrida do Ouro” de Chaplin – e canções, como “Only a Pawn In Their Game”, de Bob Dylan.

Também procuro apontar similaridades entre a dramaturgia brechtiana e a tragédia grega, em especial “Ifigênia em Áulis” de Eurípides e “Oréstia” de Ésquilo. É um texto bastante extenso, mas senti que não poderia fazer justiça a uma obra tão complexa sem entrar em explorações minuciosas da trama. “Mãe Coragem” é uma experiência teatral inesquecível – mesmo para aqueles que, como eu, nunca puderam presenciá-la encenada e só tiveram contato com o texto. Confiram!

À direita: a atriz Meryl Streep interpreta Mãe Coragem. Saiba mais sobre esta produção assistindo ao filme (altamente recomendado!) “Theather of War” (download)

I. AS MÃES E AS GUERRAS

Ela está decidida a não atirar suas pérolas aos porcos. Ou melhor: esta mãe bate o pé e diz não ao Poder. Não vai permitir, sem resistência e sem luta, que seus filhos lhe sejam sequestrados, tragados para a guerra, roubados do ninho, para virar carne moída!

Infelizmente, as guerras às vezes são mais fortes que as vontades das mães.

Para citar um exemplo da atualidade: aprenderam sua impotência, através de amargas experiências, as mães de 400 mães de Gaza que, durante a ofensiva israelense de 2014, tiveram os frutos de seus ventres trucidados pelas bombas sionistas. Que a Mãe Coragem de Brecht possa ajudar-nos a aquecer a chama da empatia, com tanta frequência adormecida no peito, e nos leve a perceber cada vida ceifada pela guerra como o aniquilamento de uma individualidade única, insubstituível, cuja extinção causa desastres afetivos e existenciais em todos aqueles que constituíam com a pessoa morte uma teia de relações.

Às vezes mães são impotentes para impedir a carniceria que lhes transforma os filhos em cannon fodder (carne de canhão). Mãe Coragem é uma pacifista por uma razão bem simples, bem menos refletida e teoricamente refinada do que as doutrinas de um Mahatma Gandhi ou de um Martin Luther King: seu pacifismo de mãe nasce mais das vísceras do que do intelecto. Ela odeia a guerra pois não quer ver seus filhos sendo assassinados nela. Mas o que ela pode fazer contra a mega-maquinaria bélica?

Os tempos são terríveis: ela olha ao seu redor e quase todo mundo está só “pele e ossos”. A fome é imensa, disseminada e sem misericórdia. Para dar uma noção dessa miséria, digamos que se assemelha àquela de Carlitos quando ele decide assar e comer sua própria bota, em uma das cenas imortais de Charlie Chaplin em A Corrida do Ouro (The Gold Rush). No primeiro ato, cena 2, Mãe Coragem declara sobre as pessoas ao seu redor: “Elas estão tão esfomeados que arrancam raízes da terra para comer. Eu poderia ferver um cinto-de-couro e faria com que suas bocas salivassem.” (pg. 35)

Carlitos janta as próprias botas em "A Corrida do Ouro" (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Carlitos janta as próprias botas em “A Corrida do Ouro” (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Esta feminista espontânea não precisou ler Judith Butler ou Beatriz Preciado, nem ouvir Pussy Riot ou riot girrrls, para perceber os males que faz a elefantíase de testosterona nos neurônios e nas sociedades. Até tenta rebelar-se contra o Patriarcado e sua mania de belicismo. Mas seu poder é pouco, como foi pouco o poder somado de todas as mães de Guernica, de todas as mães de Nagasaki, de todas as mães de Gaza (e assim por diante…).

Mãe Coragem não é uma pacifista de academia, de cátedra, de discursinhos na ONU. Ela é uma pacifista de sangue quente, sem rede de proteção, que atravessa um fio estendido sobre o abismo, um pouco como o tight-rope dancer de Assim Falou Zaratustra, aquele que fez do perigo sua vocação. Mãe Coragem talvez preferisse uma vida tranquila, sem preocupações, mas calhou de nascer em tempos perigosos, sombrios, fratricidas. Não pediu nem escolheu, mas a guerra a rodeia com sua fúria e sua insanidade, obrigando-a a lidar com as potências mortíferas com um rebolado improvisado, na urgência da prática cotidiana. A Guerra, como Cronos na mitologia grega, devora um a um os rebentos de Mãe Coragem.

Albert Camus chamou um de seus melhores livros  L’Homme Revolté (O Homem Revoltado), e uma das poucas falhas de livro tão magistral é sugerir em seu título que a revolta é coisa exclusivamente masculina. Mas é claro que há uma revolta feminina – Emma Goldman, Simone Weil ou Arundhati Roy exemplificam-na bem – que é digníssima de nossa atenção e admiração! Mãe Coragem, parece-me, tem também algo do espírito destas rebeldes-de-saia, mas é de uma rebeldia que parece irradiar de seu útero: em intensa angústia materna, ela suspeita que a guerra irá privá-la de seus filhos, provavelmente arrebatá-los pra sempre. Ela se levanta em resistência ao draft militar, logo na primeira cena, interpondo-se entre o Exército e seus filhos como se defendesse a prole, no ninho, contra um abutre predador.

O mais desesperador desta cena é que o leitor ou espectador percebe que Mãe Coragem é apenas uma frágil tocha de feminilidade em um oceano de macheza. É uma voz solitária clamando pela paz em meio ao barulho ensurdecedor dos tambores de guerra, das explosões de bombas e do ribombar das balas cuspidas pelos rifles.

Os próprios filhos acabam “fisgados” pela ideologia do militarismo e começam a convencer-se de que a guerra não irá matá-los. Passam a crer que vão dar um jeito de escapar dos ataques dos adversários e que vão acabar sendo aureolados com renome glorioso. A epidemia da peste bélica se esparrama pois muitos se deixam fisgar pela isca que é a promessa de Glória nos feitos militares. Fazem poses de heróis por antecipação enquanto caminham para as batalhas urrando: “é preciso bem mais do que uma guerra para me assustar!”

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Em Nascido Para Matar (Full Metal Jacket), Stanley Kubrick escancarou o quanto o militarismo está conectado com um comportamento machistóide. Os soldados do exército dos EUA, que estão sendo preparados para suas missões no Vietnã, marcham sob o comando feroz da disciplina do comandante, berrando obscenidades com voz grossa. Cotidianamente, são humilhados e judiados, inclusive com socos no saco e outras delicadezas, para que fiquem muito machos. Preparar alguém para a guerra significa aniquilar quaisquer tendências às compaixões feminis, todos ímpetos “maricas” à empatia ou à misericórdia…

O resultado desse processo de condicionamento e lavagem cerebral, que Kubrick narra magistralmente na primeira parte do filme, é simbolizado pelo soldado suicida, que explode seus miolos no banheiro. Este sistema perverso – vale sempre lembrar que o orçamento militar dos EUA é, disparado, o mais alto do mundo – gera genocídios e massacres, seja no Vietnã (outrora) ou no Oriente Médio (hoje), e a morte precoce de muitos jovens cooptados para o belicismo. Mãe Coragem, de Brecht, permanece um estandarte ainda atual que nos lembra que o ímpeto guerreiro, civilização agonística, não cessa de gerar mães, emocionalmente destroçadas, que chorarão torrentes ao receberem do governo os caixões de seus filhos, envolvidos pela bandeira da pátria, junto com uma carta de condolências assinada pelo Ministro da Guerra.

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Em muitos campos de batalha, através da história, já largaram seus defuntos, para serem comidos por aves-de-rapina, inumeráveis desses “heróis” tão “corajosos” que se cadastram e se alistam e marcham obedientes para a guerra. Às vezes quem se acha corajoso está, de olhos vendados, correndo para um túmulo precoce, desperdiçando a vida em uma contenda desnecessária, que não precisaria ser resolvida na violência. É uma das características mais bizarras da criatura humana: muitas vezes, as pessoas escolhem uma morte precoce mas que acreditam ornada de valor e significado, a uma vida prolongada mas sem nenhum heroísmo. É o que daria para chamar de O Complexo de Aquiles (o que explorei em no seguinte artigo: Do Corpo Efêmero à Glória Imorredoura – Reflexões Sobre a Bela Morte na Companhia de Jean-Pierre Vernant).

Em sua leitura sobre o filme de Stanley Kubrick, em The Pervert’s Guide to Ideology (documentário de Sophie Fiennes), Slavoj Zizek destaca bem o quanto de sadismo está presente nestes rituais militares onde se leva até o delírio a idéia de que a masculinidade é um valor inestimável, e que é possível prová-la nos campos de batalha, através de atos de bravura e temeridade, aos quais se prometem a recompensa de troféus, reputações gloriosas, quiçá até gordos cheque-de-pagamento ou permissões para a pilhagem.

Por isso julgo que aquilo que une a Guerra de Tróia e a Guerra do Vietnã, apesar de suas diferenças e do abismo de tempo que as separa, é uma mentalidade que subjaz e justifica a guerra, propagandeada e vendida como caminho para a glória. Idéia de macho – e, se me perguntarem, direi também: idéia de jerico. Idéia retardada e bárbara. Idéia de quem pensa com os testículos. Idéia das mais destrutivas que a humanidade já teve a infelicidade de parir e disseminar.

* * * *

Meryl Streep as the title character in The Public Theater 2006 production of "Mother Courage and Her Children", as featured in John Walter's documentary THEATER OF WAR.  Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

Meryl Streep como personagem principal de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, em  espetáculo de 2006, filmado em documentário por John Walter no filme “THEATER OF WAR”. Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

A mãe, na peça de Brecht, percebe a insanidade do Patriarcado Briguento, que a rodeia com a força de um monstro, faminto por filhos. Infelizmente, ela é só uma mulher, que precisa sobreviver em tempos de crise, vender suas mercadorias para que não passe fome. Ela não tem os meios para revolucionar uma instituição social, muito menos uma civilização.

O filho mais velho de Mãe Coragem, Eilif, é-lhe roubado no meio da rua pelos senhores da guerra. Mãe e filho só vão se encontrar novamente dois anos depois. Dois anos em que Eilif não cessa de ouvir o comandante do exército berrar em sua orelha: “ó feliz guerreiro, você está participando de algo heróico, está servindo ao Senhor em uma Guerra Sagrada, e vai ganhar um bracelete de ouro quando nós tomarmos a cidade do inimigo!” (Cena II, p. 35) Promessas vãs, não mais que promessas mentirosas: a realidade é a fome, uma fome tamanha que os bifes que restam para alimentar a população em guerra estão fedendo de putrefação, como se a vaca tivesse morrido há um ano. O cozinheiro do exército mentir: “Que nada! Este bife aqui só tem um dia de idade, ontem mesmo era uma vaca que vi andando por aí.” Ao que Mãe Coragem, que não é desprovida de pontiagudo sarcasmo, responde: “Então essa vaca deve ter começado a feder antes mesmo de morrer.”

A guerra faz com que a atmosfera fique saturada com o fedor da putrefação. Eis um “argumento” fortíssimo que Mãe Coragem tem para seu pacifismo: além de irradiar do útero, de nascer de sua angústia materna, de seu amor umbilical aos filhos, seu pacifismo visceral é também uma reação das narinas, uma recusa em permitir que o cheiro da morte seja mais forte que o aroma das flores.

Mãe coragem “rebola”, dribla, insubordina-se, tenta escapar do jogo que lhe é imposto pelo poder, um pouco como uma personagem de Kafka, tentando se debater pra se libertar de uma opressão social sentida como tenebrosa. Em Brecht, porém, há muito mais humor do que em Kafka. Uma profusão de situações cômicas, que explodem com sua graça dionisíaca no ambinte dark desta peça-bélica, iluminam o construto Brechtiano com uma poesia cálida. É como se fosse possível ouvir o canto de um poeta lírico, entoando um hino em louvor ao Feminino, em Mãe Coragem encarnado, ainda que Brecht saiba também pintá-la em sua humanidade cheia de defeitos e em suas motivações bastante “mundanas”. Mãe Coragem não é heróica: faz o que pode para sobreviver, dá um jeito de prosseguir e atravessar os lutos, mas está longe de ser revolucionária; é vítima de poderes maiores, crushing powers. Mãe Coragem e seus filhos acabam parecendo como aqueles peões de que fala Bob Dylan em “Only a Pawn In Their Game”.

Mãe Coragem, a peça de Brecht, é um retrato da guerra como esta é vivenciada por uma mãe que tem seus filhos dela “arrancados” por uma pavorosa maquinaria, de criação e gestão masculina, que aniquila vidas humanas em contendas sangrentas, mortíferas, insanas. Ela, porém, não pode se dar ao luxo de virar uma pacifista com carteirinha de ONG, com direito à guarda-costas e carro-blindado: Mãe Coragem é pobre, desprovida, vulnerável, presa à urgência de sobreviver.

Em meio à guerra, ela tenta ser uma comerciante, com leros mercantis de convencimento:  seduz como pode para que os outros comprem seus pães, que se interessem pela carne que carrega em sua carroça. Atravessa os anos em meio à devastação da guerra, sempre carregando tudo o que possuí no mundo: a carroça que serve como loja itinerante e casa ambulante ao mesmo tempo. Como uma tartaruga, que carrega sua casa no próprio lombo, podendo adentrar em seu casco para puxar um ronco em qualquer lugar que aprecie, Mãe Coragem é tão despossuída quanto estes carregadores de papelão tão comuns em nossos centro urbanos. .

Como comerciante, Mãe Coragem é muito desconfiada: ela morde as moedas que recebe, pra checar com os dentes se são legítimas; já lhe passaram a perna algumas vezes no passado, e ela foi ficando esperta. Está bem claro que ela está acostumada a muita pilantragem rolando no comércio, mas o que pode fazer? Seu meio de vida é este e ela prossegue nele, mesmo em meio à guerra, mesmo durante o terrível processo de sentir os filhos escorregando por entre seus dedos, como grãos de areia, sugados pelo monstro feroz da belicosidade máscula.

Sua carroça, é evidente, anda lerda como tartaruga. Estamos ainda no século 17, em 1624, na Suécia. Imagino um mood similar ao das peças nórdicas de Shakespeare – o Hamlet, por exemplo – envolvendo as ocorrências que Brecht nos narra. Ademais, uma personagem como Mãe Coragem parece-me ter uma estatura trágica, assemelhando-se a uma figura como Clitemnestra, a mãe de Ifigênia. Este paralelo me parece possível pois Ifigênia, a filha de Clitemnestra, foi sacrificada pelo próprio pai Agamênon, o chefão do exército dos aqueus, lunático a ponto de crer que o sacrifício da primogênita geraria bons ventos para a campanha militar contra Tróia.

Euripides

Na peça de Eurípides, Clitemnestra é um pouco como a Mãe Coragem de Brecht: ambas são incapazes de impedir que a Máquina de Guerra – Masculina e Prepotente – arranque de seus braços os filhos, para na sequência devorá-los. No caso da mãe de Ifigênia, o delírio de dor e luto irá transformar-se em intento vingativo: em outra peça, o Agamenon de Ésquilo (publicado no Brasil pela Zahar como parte da trilogia Oréstia), Clitemnestra dá o contra-golpe contra seu tão odiado esposo, assassino da própria filha. Ao retornar cheio de poses de glória, celebrando-se como heróico vencedor após a década de carniceria em Tróia (narrada em minúcias por Homero na Ilíada), Agamênon encontra seu karma: é retalhado como um bode expiatório e morre horrendamente nas mãos de Clitemnestra e Egisto.

A peça de Brecht também lida com crimes graves, mas sem que estes sejam inter-familiares. Mãe Coragem passa por traumas-de-mãe semelhantes aos de Clitemnestra, e ambas tem um inimigo em comum, o militarismo associado ao patriarcado, esta a ideologia que faz propaganda em prol da guerra, este jogo fatal inventado pelos homens em seus ímpetos incontroláveis de agressão e domínio… Mãe Coragem implora aos próprios filhos: não caiam nesta armadilha, não se deixem enganar pelo lero-lero dos Senhores da Guerra, usem a cabeça e recusem-se a ir ao morticínio! No entanto, ela sabe do poder, devastador, invasivo, da “ideologia”: os soldados, os generais, não param de tentar convencer as crianças e os adolescentes que a glória está lá para ser colhida na guerra, e que quem se recusa a ela é um maricas, um efeminado que merece uma sova, alguém que tem o defeito de “não ser macho o suficiente”.

A jornada de Mãe Coragem em tempos de guerra multiplica-lhe as amarguras: ela não tem só seus rebentos roubados pela guerra, ela vê em ação um “mecanismo ideológico” que transforma seus filhos em assassinos. Não sofre só a amargura terrível do temor constante que um filho morra na guerra, mas a amargura suplementar de saber que o filho pode matar outros. As mães não costumam gostar quando seus rebentos tem como profissão matar filhos de outras mães. Algo de crucial se diz na peça de Brecht não somente sobre esta guerra e esta mãe em particular, mas sobre guerras e mães em geral. Aquilo que se elogia como virtude – coragem e virilidade – e aquilo que se promete como recompensa – glória e riqueza – talvez sejam embustes, falsificações grotescas, que os soldados só desvendarão como miragens quando estiverem agonizando nos campos de batalha.

Mãe Coragem adoraria se seus filhos fossem covardes vivos ao invés de corajosos mortos. Ela acha que aquilo que os militares consideram como covardia e coisa de maricas é na verdade bom senso e sabedoria prática. Mãe Coragem parece encarnar a voz da cautela, da defesa da vida, que tenta convencer aqueles a seu redor de que somos preciosos demais para nos tratarmos como açougueiros fazem nos matadouros de porcos. Só os másculos militares e seus cérebro-de-titica, que pensam com os testículos e estão inebriados por excesso de testosterona (em Grego, se não me engano, isso chama-se húbris), acreditam na conjunção entre matanças sádicas e gloriosas recompensas. A Mãe Coragem, não: em sua dor de mãe amputada, ela mantêm-se como ilha luminosa de lucidez em um oceano de cega brutalidade.

No tempo presente da peça, aliás, a Mãe Coragem cria sozinha seus filhos pois o Pai Coragem morreu na guerra há um tempão atrás. Agora os Filhos Coragem também seguem pelo mesmo caminho, sugados pelo mesmo fatal magnetismo, como se fosse um buraco negro. As gerações sucedem-se mas a sabedoria parece que não aumenta; a carnificina prossegue realizando suas ceifas fatais. A mãe tentou educá-los para o pacifismo e para a prudência, é claro, inclusive utilizando a pedagogia das canções, mas infelizmente as canções às vezes não são tão fortes quanto o barulho das bombas (mesmo John Lennon não foi ouvido quando imaginou all the people living life in peace, quando pediu “Give Peace a Chance”, e findou seus dias assassinado por um psicopata…). Eilif, o filho mais velho da Mãe Coragem, sabe de cor a cantiga ensinada pela mãe, mas ainda assim age muito mais como este soldado que, na canção, não presta atenção à sábia voz feminina e prefere caminhar correndo para o próprio túmulo:

THE SONG OF THE WISE WOMAN AND THE SOLDIER

“A shotgun will shoot and a jack-knife will knife,
If you wade in the water, it will drown you,
Keep away from the ice, if you want my advice”,
Said the wise woman to the soldier.

But that young soldier, he loaded his gun,
And he reached for his knife, and he started to run:
For marching never could hurt him!
From the north to the south, he will march through the land
With his knife at his side and his gun in his hand:
That’s what the soldier told the wise woman.

Woe to him who defies the advice of the wise!
If you wade in the water, it will drown you!…
But that young soldier, his knife at his side
And his gun in his hand, he steps into the tide:
For water never could hurt him!

The wise woman spoke: you will vanish like smoke
Leaving nothing but cold air behind you!
And the lad who defied the wise woman’s advice,
When the new moon shone, floated down with the ice:
He waded in the water and it drowned him.

The wise woman spoke, and they vanished like smoke,
And their glorious deeds did not warm us.
Your glorious deeds do not warm us!”

BERTOLT BRECHT.  Mother Courage and Her Children.
English version by Eric Bentley. New York: Grove Press, 1966.

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Siga viagem:

“O BODE EXPIATÓRIO” (THE FIXER), um romance de Bernard Malamud, vencedor do Pulitzer Prize

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BERNARD MALAMUD
“O Bode Expiatório ou O Faz Tudo”
(The Fixer)
compre aqui
Ensaio por
 Eduardo Carli de Moraes
apresentado como trabalho de conclusão de disciplina

ao Prof. Homero Santiago (FFLCH-USP)
na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.

Film2The Fixer é considerado o magnum opus de Bernard Malamud (1914-1986), uma obra em que sua alquimia literária alçou-se à genialidade de artistas como Franz Kafka ou Albert Camus. O romance faturou os prestigiosos prêmios Pulitzer e National Book Award em 1967. Gerou também uma adaptação cinematográfica de peso, O Homem de Kiev (1968), filme dirigido por John Frankenheimer e estrelado por Alan Bates (que foi indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação).

O livro de Malamud foi publicado no Brasil com dois títulos diferentes, dependendo da edição: O Bode Expiatório ou O Faz-Tudo. A pungente narrativa do livro revela como o protagonista, Yakov Bok, vítima de um complô anti-semita, acaba injustamente condenado à prisão, onde aprende, a duras penas (no pain, no gain!) algumas amargas verdades sobre a existência – ao mesmo tempo que, mesmo detrás das grades e na companhia do pensamento de Spinoza, realiza uma jornada em busca do significado genuíno da Liberdade.

Bernard Malamud foi um dos mais significativos autores norte-americanos de raízes judaicas no século 20, com uma importância equivalente à de Saul Bellow, Philip Roth ou Isaac Bashevis Singer. Mas também é possível situá-lo num quadro literário mais vasto: o crítico de literatura Alan Friedman comenta que Malamud é essencialmente um autor da tradição realista (apesar de frequentemente se utilizar de elementos góticos, fantásticos, grotescos e surreais). Em sua obra não se encontra muito pronunciada uma preocupação com inovações linguísticas ou com uma abordagem lúdica da escrita, como é o caso em importantes autores do século como James Joyce, William Faulkner, Virginia Woolf ou Guimarães Rosa. O livro tem muito mais o sabor de uma mistura do ambiente claustrofóbico e absurdista d’O Processo, de Franz Kafka, ou O Estrangeiro de Camus. É uma realização literária brilhante ao retratar um homem esmagado por quantidades cavalares de sofrimento injusto – Yakov Bok tem dimensões trágicas – mas que encontra a força para, mesmo no mais fundo do poço, rebelar-se.

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O Bode Expiatório é um romance se enquadra muito mais numa categoria que poderíamos chamar de “literatura realista de anti-herói”. Críticos enfatizam que ele se aproxima da abordagem naturalista celebrizada, por exemplo, por Émile Zola (Germinal), já que o naturalismo pode ser visto como uma radicalização do realismo, que costuma considerar os personagens como meros efeitos do ambiente e da hereditariedade. Os livros malamudianos “não são somente realistas, mas naturalistas quase ao ponto da miséria parecer pré-determinada”,  afirma Alan Friedman.

Pode-se também encontrar Malamud certos elementos do romance existencialista, principalmente o camusiano, como pode-se depreender do ambiente repleto de “absurdidade” da narrativa.  A crítica literária debruçou-se sobre a obra de Malamud com olhar cuidadoso, sendo que um corpo vasto de comentários e interpretações de seus livros foi se tornando disponível a partir dos anos 60, o que gerou, por exemplo, o livro Malamud and the Critics, organizado por Leslie Field.

Nas descrições que Malamud faz das prisões russas e dos sofrimentos que são impostos ao seu personagem, nota-se também uma grande influência de Dostoiévski, considerando-se que as imagem dos cárceres deve muito a cenários presentes em Crime e Castigo, Irmãos Karamazov e Memórias da Casa dos Mortos. Críticos destacam também que Malamud também é brilhante no sentido de não transformar esse romance num enredo detetivesco, à maneira de Agatha Christie ou Conan Doyle, já que de modo algum se transforma num livro em que a questão “quem é o verdadeiro assassino?” adquire qualquer importância. De modo que, como diz Friedberg, “o enredo whodunit nunca recebe permissão para obscurecer a trágica significação do julgamento”.

“The world” of the book is Kiev of 1911—this is between the 1905 revolution and the overthrow of Russia’s last Tsar—and the precarious political climate has created a culture of paranoia. Latent fears and hatreds have become explicit and aggressive. When a twelve-year-old Russian boy is found stabbed to death and drained of his blood, Yakov—a nonpracticing, unbelieving Jew—is accused of ritual murder. (Such accusations were not uncommon in the Christian milieu of the period.) As the charges against him grow and deform, Yakov becomes a Job-like figure in a Kafkaesque nightmare. And his predicament becomes a symbol—not only of the Jewish epic (which would make for a simple, good book), but of the world itself.

The world is the broken thing.”

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O Bode Expiatório, romance de 1968, conta a história de um judeu pobre chamado Iákov Bok, o faz-tudo, o pau-pra-toda-obra. A história acontece logo antes da eclosão da primeira grande guerra mundial (1914-1918), às vésperas da Revolução Bolchevique (1917), numa Rússia ainda sob o jugo do tzarismo Raputinesco, com o zeitgeist infestado pelo anti-semitismo, que manifestava-se em fortes ondas de violência contra a população judia nos chamados Pogroms.

Os Pogroms começaram um pouco antes do assassinato do Csar Alexandre II em 1881 e se disseminaram na Polônia oriental e na Ucrânia numa região denominada Galícia durante todo o governo de Alexandre III, seu sucessor, já com a conivência das autoridades. Cessaram, como tal, somente com a Revolução Bolchevique de 1917. Entretanto, serão retomados pelos nazistas.

O maior alvo destes ataques eram as pequenas aldeias judias chamadas de Shtetl. Estas vilas foram marcadas pela pobreza da maior parte de sua população e por uma quase autarquia sócio-econômica. Se por um lado eram uma forma da população se defender, uns ajudando aos outros, lembrando os futuros Kibbutzim, eram principalmente um meio de manterem suas tradições ao mesmo tempo que se oferecia ao czarismo a útil concentração da população judia em certas fatias do território imperial.

A vida de Yakov Bok, mesmo antes de sua prisão, já é extremamente complicada pelo fator deste anti-semitismo extremo que vigorava na Rússia czarista daquela época. O discurso anti-semita é representado em vários momentos do livro, mas um dos mais virulentos é posto na boca do barqueiro com quem Yakov pega carona para chegar até Kiev. Este personagem expressa sem rodeios suas opiniões sobre os judeus e em seu discurso sintetiza perfeitamente algumas fortes supertições antisemitas, chegando a haver a manifestação explícita de um desejo de Extermínio Absoluto da Raça Judaica:

“Deus nos salve de todos os malditos judeus, esses parasitas narigudos, enganadores, sugadores de sangue e marcados por pústulas. Eles nos roubariam da luz do dia se pudessem. Eles contaminam a terra e o ar com o fedor de seus corpos e seus hálitos de alho, e a Rússica vai ser levada à morte pelas doenças que eles disseminam a menos que nós acabemos com eles. Um judeu é um demônio – é fato bem conhecido – e se você alguma vez arrancar sua bota fedorenta vai ver um casco dividido. (…) Dia após dia eles enchem de lixo nossa Terra Mãe e o único jeito de nos salvarmos é varrendo-os para fora. (…) Eu digo que a gente devia chamar nossos homens, armados com armas, facas, tridentes – qualquer coisa que mataria um judeu – (…) e entrar no gueto deles, o qual pode ser encontrado pelo fedor, expulsando-os de onde quer que eles estejam se escondendo – porões, sótãos, buracos de rato… -, esmagando seus miolos, esfaqueando suas vísceras de arenque, arrancando seus narizes ranhosos, sem nenhuma exceção feita para jovens ou velhos, porque se você poupá-los eles se reproduzem como ratos e então o serviço tem que ser feito tudo de novo…”

Iakov Bok, depois de deixar seu shtelt, indo em busca de um futuro mais radioso em Kiev, tem que se adaptar às dificuldades do tempo: esconde sua identidade judia, assume um nome russo, arranja um emprego, e passa a frequentar um distrito proibido para judeus – não sobreviveria se não o fizesse. Certo dia, morre um menino russo, encontrado esfaqueado numa gruta próxima à olaria onde Iákov trabalha e dorme.

O fato é atribuído à ação de judeus que teriam sangrado o menino até a morte por supostos motivos religiosos, para coletarem seu sangue e confeccionarem matzos, um pão sem fermento, afim de celebrarem a Páscoa judaica. Por mais absurdas que sejam as acusações, Iákov é acusado pelo assassinato e preso. Ele havia levantado algumas suspeitas, não de ter cometido o crime mas de ser judeu, ao ser visto anteriormente com um judeu ortodoxo à quem ele ajudou dando abrigo numa noite gelada. Ele sofre um processo iníquo e é torturado e humilhado na prisão enquanto aguarda a oficialização de sua acusação por mais de dois anos.

A descrição dos maus-tratos sofridos na cadeia, que se prolonga por centenas de páginas, vai comunicando ao leitor o estado de horror prolongado por que passa o personagem: as sopas que lhe servem vêm com ratos mortos boiando no caldo; um excesso de tempo é passado na solitária e sob o ataque constante das tentativas de envenenamento por parte dos carcereiros; os cobertores eram insuficientes para abrigrar contra a friaca de invernos rigoríssimos; entre muitas outras técnicas de tortura empregadas contra o prisioneiro….

Mas os tormentos físicos são pequenos frente aos tormentos psicológicos de Yakov Bok: A solidão completa, a ausência de amigos e de visitantes, o tédio mortal, o medo da tortura e da morte, a indefinição de seu destino, a espera interminável, a indignação cega, a incapacidade de compreender sua situação, levam-no ao seguinte estado de espírito eivado de confusão e absurdismo: “muita coisa tinha acontecido que não fazia o mínimo sentido”. Ele não consegue se perceber como alguém que esteja sendo justamente punido, é claro, mas como uma “vítima acidental”, um tremendo dum azarado. Diz o narrador – “Em uma noite sombria uma grossa rede negra tinha despencado sobre ele somente porque ele estava debaixo dela, e apesar dele correr em todas as direções ele não conseguia se desembaraçar de suas pegajosas amarras.”

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A HISTÓRIA REAL

Kulturgeschichte / Religionsgeschichte / Juden / 19. Jh.

Plundering the Judengasse (Jewish Street) in Frankfurt am Main on 22 August 1614

Plundering the Judengasse (Jewish Street) in Frankfurt am Main on 22 August 1614

Film4A história de Iakov Bok é na verdade a história de Mendel Beilis, judeu que foi perseguido pelo czarismo e julgado em Kiev em 1913 – um caso de grande repercussão na opinião pública e na imprensa do mundo todo na época. Malamud praticamente retoma os fatos da história tal qual aconteceu. Cria inspirado nestes elementos históricos factuais, transpostos para o livro de modo fidedigno. O produto literário final demonstra a “mão firme de um talentoso artesão”, como comenta o crítico Maurice Friedberg. A dificuldade na escrita de uma obra desta está, como comenta o mesmo crítico, em que certos eventos históricos “ofuscam com sua grandiosidade e seu horror qualquer coisa que uma imaginação artística poderia imaginar.”

Conhecemos casos na História de grandes escritores que colocam suas obras na defesa de um personagem público injustiçado – como fez por exemplo Émile Zola no caso Dreyfus. A peculiaridade do caso Beillis, no entanto, é que este “não estava sendo acusado como um indivíduo, e em seu caso não era um simples equívoco judiciário, ainda que trágico, o que estava em jogo” – como comenta Friedberg. Beilis era um mero peão num jogo de xadrez social muito mais vasto, era um destes que Bob Dylan retratou em seu folk “Only a Pawn In Their Game”. Era um homem “pessoalmente tão insignificante e sem cor a ponto de ser de nenhum valor para seus carcereiros e perseguidores exceto como um símbolo da Judeidade Russa – e foi esta que, com efeito, foi colocada sob julgamento como uma comunidade.” (pg 276).

Ou seja, não se trata de um caso da justiça cometendo um erro involuntário, mas sim de uma espécie de conspiração que procura transformar um caso de homicídio comum em um caso de homicídio com motivações religiosas – de modo que, se ficasse provado que Beillis de fato tinha assassinado o garoto cristão com motivos ritualísticos, para preparar os matzos de Páscoa, a culpa podia ser estendida aos judeus em geral.

Como comenta Maurice Friedberg, o caso Mendel Beilis acabou num impasse. “Apesar dele ter sido declarado inocente do crime, o tribunal não expressou nenhuma opinião sobre a possibilidade de que tal crime pudesse ter sido de fato cometido por algum judeu radical”, ou seja, a hipótese do homicídio ritual não foi descartada, mas somente este indivíduo específico foi isento de responsabilidade. “Também nada foi feito para punir aqueles que iniciaram uma histérica campanha contra Beillis antes de seu julgamento formal, e por inevitável extensão, contra os Judeus em geral.”

Ou seja, a calúnia contra os Judeus não foi desfeita e as falsas acusações feitas contra eles permaneceram impunes. Com a chegada da Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e, posteriormente, o Holocausto tomando conta de uma Europa assombrada pelo fantasma do nazi-fascismo, esse caso Beillis caiu no ostracismo. A história só voltou à tona pelo esforço de 2 autores americanos judeus – o próprio Malamud e o historiador e jornalista Maurice Samuel, que escreveu Blood Acusation.

Friedberg diz que “apesar da experiência nazista do passado recente ter inevitavelmente diminuído o impacto da história de Beillis sobre o leitor moderno, não se pode dizer que esta acusação [de uso ritual de sangue cristão] foi irrevogavelmente desacreditada como um boato anti-semita completamente falso. (…) Ela continua a aparecer periodicamente em várias partes do globo, sempre servindo à mesma causa. (…) P. ex., um pouco depois da destruição do império Nazista, um grupo de judeus sobreviventes de campos de concentração foi massacrado pela polícia da Polônia na cidade de Kielce (em 1948).”

Robert Alter comenta que este caso Beillis foi na verdade “um cruel prenúncio das possibilidades do século 20” , uma das primeiras ocasiões em que o governo utilizou a “grande mentira”, através da qual uma poderosa burocracia subverte totalmente o senso moral de seus membros individuais. “O caso Beiliss é uma das primeiras ocasiões públicas notáveis neste século em que a ficção de Kafka de uma acusação arbitrária, de uma realidade governada por uma lógica inescrutavelmente insana e perversa, tornou-se fato histórico.”

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A QUESTÃO DE DEUS

Desde o começo do livro Yakov Bok é insistentemente flagelado, ferido, dilacerado e injustiçado feito um saco-de-pancadas humano. Poucos romances na história da literatura descrevem um martírio comparável a este em grau de sofrimento suportado e de horror injusto sofrido. Talvez por isso ele já nas primeiras páginas já apareça como um homem extremamente amargo e desconsolado. Ele se pergunta o que fez para ser tão amaldiçoado, mas não encontra em si nenhuma culpa que explique porque a vida o “espancou” tanto – sua “maldição” foi um fardo que caiu sobre um completo inocente (“Não quero que as pessoas sintam piedade de mim ou se perguntem o que fiz para ser tão amaldiçoado. Eu não fiz nada. Foi um “presente”. Sou inocente.” )

Iakov Bok, amargo e desiludido depois de tanto sofrimento experimentado, não consegue entender porque há tanto sofrimento e tanta miséria no shtetl (e no mundo em geral) se Deus é bom. Se ele existe, qual sua utilidade? “Ele não nos vê e não se importa conosco” – conclui Iakov, decidido a abandonar sua tradições judaicas e tornar-se um livre-pensador. Por isso, nos curiosos diálogos que ele tem com seu amigo, que tenta mantê-lo no “bom caminho” da religião, Yakov é sempre um poço profundo de azedume e de sarcasmo sagaz. Dizem-lhe: “Pelo menos Deus está conosco” e ele retruca: “Ele está conosco até que os cossacos venham galopando, aí ele está em outro lugar…”.Dizem-lhe que ele não deve ler os “livros errados” e que deve se manter fiel às Escrituras e ele retruca: “Não existem livros errados. O que é errado é o medo deles.”.

Suplicam-lhe: “não esqueça seu Deus!” E Yakov, num trecho impregnado de revolta contra o Criador, manda: “Quem esquece quem? O que eu ganho dele a não ser uma pancada na cabeça e um jato de mijo na cara? Então o que há para ser venerado Nele? (…) Nós vivemos num mundo onde o relógio bate rápido enquanto ele está em sua montanha intemporal fitando o espaço. Ele não nos vê e Ele não se importa. É hoje que quero meu pedaço de pão, não no Paraíso.” Na prisão, Yakov entra em uma discussão no mesmo tom: Shmuel diz-lhe: “Não culpe Deus pela miséria”, e Yakov replica: “Eu o culpo por não existir. Ou, se ele existe, ele está na Lua ou nas estrelas, mas não aqui. (…) Não posso ouvir a voz de Deus e nunca pude. (…) Tudo que eu jamais disse a ele, Ele nunca me respondeu. Silêncio é o que eu agora dou em troco.”

Baruch Spinoza retratado por Franz Wulfhagen, 1664

Baruch Spinoza retratado por Franz Wulfhagen, 1664

Esta concepção de Deus que Yakov Bok acaba por formar acaba por se assemelhar à de Spinoza, filósofo que, tanto em sua concepção de Deus, quanto em suas conclusões éticas, afastou-se da tradição judaico-cristã, a ponto de ser considerado herético o bastante para ser excomungado. Por um lado, Spinoza não concebe Deus como uma divindade transcendente, interventora, “separada” do mundo que conhecemos, conduzindo-o “de cima” como um rei, um cosmocrata, como normalmente é visto o Deus nas religiões monoteístas. Seu Deus confunde-se com a Natureza, razão esta que levou-lhe a ser chamado de panteísta ou mesmo ateísta por muitos.

Essa ruptura com os cânones religiosos acaba tendo o efeito complementar da completa derrubada da idéia de um Paraíso no além, alcançável nesta vida através de certos atos que agradariam à divindade julgadora e justiceira que o monoteísmo concebe. A caída dessa concepção religiosa, que via na resignação, narenúncia aos prazeres sensíveis e no sofrimento aceito como um bem (que somaria pontos para a conquista do Céu) faz com que Spinoza volte seu olhar para a vida presente, que é tudo que há.

Seria um engano pensar que a eternidade, como sugere o cristianismo, abrirá suas portas ao homem somente no momento da morte – e somente para aqueles que o merecerem. A eternidade já está aqui – é o próprio presente, que não cessa nunca de ser presente, eternamente presente. Yakov Bok também rompe com a tradição monoteísta e deixa de acreditar num Deus pessoal, transcendente, interventor, sentimental, compassivo, justiceiro, que se preocuparia com os destinos humanos e tentaria auxiliar suas criaturas em momentos de apuros.

Em todo o romance, mesmo nos momentos de sofrimento mais extremo, nunca vemos o personagem se render à oração – ele, no máximo, recita frangalhos de salmos bíblicos, mas nunca com a mínima esperança de estar sensibilizando as dinvindades. O Deus de Yakov Bov é um Deus indiferente. Como diz Spinoza na Ética V, “Deus não tem amor nem ódio por ninguém”. É isso que Yakov descobre a duras penas.

Por isso, o personagem chega a uma compreensão do Spinoza bastante adequada, mesmo sem ter tido uma educação formal /erudita no spinozismo (ele não tem muita tendência ao “intelectualismo”, aliás: diz por exemplo – “Se eu tenho alguma filosofia, é que a vida poderia ser melhor do que é.”). Yakov Bok em seus “flashes de percepção” da filosofia de Spinoza, que explica se utilizando de fórmulas bem pessoais e ditas em linguagem popular como: “Deus e a natureza são uma e a mesma coisa”; “a Natureza inventou a si mesma e também ao homem”; “Ou Deus é uma invenção nossa, ou é uma força na Natureza mas não na História. Uma força não é um pai”; “a mente do homem é parte de Deus”; “este Deus, apesar de preencher mais espaço, tem menos a fazer”; “a liberdade está em seu pensamento – é como se o homem voasse acima de sua própria cabeça nas asas da razão… você se une ao universo e esquece suas preocupações…”; “a vida é a vida e não tem sentido chutá-la para o túmulo…”.

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A QUESTÃO DO PRECONCEITO E DA SUPERSTIÇÃO

Yakov é um personagem que representa um livre-pensador, livre dos preconceitos e superstições que Spinoza tanto criticou, mas que se vê rodeado por um “clima cultural” profundamente marcado pela superstição, especialmente aquela que se refere aos judeus, tidos como extremamente temíveis, perigosos e sanguinários. No romance, há o discruso de um padre que sintetiza bem a quê extremos de preconceito se chegava na tentativa de acusar (falsamente) os judeus de crimes de assassinato ritual. Este padre se dirige assim aos cristãos em um inflamado discurso:

“Minhas queridas crianças, se as entranhas da terra se abrissem para revelar a população de homens mortos desde o começo do mundo, vocês ficariam pasmas de ver quantas crianças cristãs inocentes foram torturadas até a morte por judeus quem odeiam Cristo. Através dos tempos, como descrito nos livros sagrados deles, a voz do sangue semítico os dirige a dessacralizações e horrores impronunciáveis – por exemplo, o Talmud, que compara o sangue à água e ao leite, e prega o ódio aos gentios, que são caracterizados como sendo não-humanos, nada mais que animais…

Consequentemente houve uma multidão de crianças inocentes massacradas, cujas lágrimas não comoveram seus assassinos a serem misericordiosos… O assassinato ritual pretende re-encenar a crucificação de nosso Senhor. (…) Diz-se que o homicídio de um gentio – qualquer um – acelera a vinda do tão aguardado Messias deles, Elijah, para quem eles etrenamente deixam a porta aberta mas que nunca aceitou o convite para entrar e se sentar no trono vazio. Desde a destruição do Templo deles em Jerusalém não existiram mais altares de sacrifício para animais nas sinagogas, e então o sacrifício de gentios, em particular crianças inocentes, é aceito como um substituto adequado.

(…) No passado registrado, o Judeu utilizou o sangue cristão de muitas maneiras. O sangue foi utilizado em rituais de bruxaria e magia negra, e para poções do amor e envenenamento de poços d’água, fabricação de um veneno mortal que espalhou a praga de uma nação para a próxima – uma mistura de sangue cristão de uma vítima assassinada, a urina judia deles, as cabeças de serpentes venenosas, e até mesmo uma hóstia roubada e mutilada – o corpo sangrando do Cristo ele mesmo. (…) Naquele tempo eles consideravam nosso sangue como a mais efetiva terapêutica para a cura de suas doenças. Eles o utilizaram, de acordo com os velhos livros de medicina deles, para curar mulheres depois do trabalho de parto, parar hemorragias, curar a cegueira infantil e aliviar as feridas da circuncisão…”

Isso mostra, num discurso extremamente denso e concentrado, o grau de acusações falsas e superstições absurdas que estava no “ar dos tempos” e fazia com que Kiev fosse, como descreve um personagem, “uma cidade medieval cheia de superstição selvagem e misticismo” e que sempre foi o “coração do reacionarismo russo.” Spinoza, no TTP, comentava que “não há nada mais eficaz do que a superstição para governar a multidão.” – e a Kiev de The Fixer é um ambiente social que comprova essa tese.

 

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A QUESTÃO DA LIBERDADE E DO DESPERTAR POLÍTICO

CapaYakov Bok chega a uma concepção de Deus que é semelhante à concepção de Deus de Spinoza e, desse modo, não pode mais conceber que a solução para a sua situação crítica poderia vir “de cima”, já que a hipótese de uma divindade interventora e que se sensibiliza com os destinos humanos havia sido descartada. Ao mesmo tempo que Yakov atinge esse “ateísmo”, percebe-se também como uma figura histórica de relevância, uma personagem pública que faz parte de uma quadro social mais vasto. Por isso todo o processo de prisão e martírio de Yakov acaba conduzindo a um certo “despertar político”.

Durante todo o livro, vemos a evolução ética do personagem Iakov. O devir político de Iakov é uma mudança que se torna necessária. Num de seus delírios na prisão se vê falando novamente com Bibikov e lhe diz: “Algo em mim se transformou. Não sou mais o mesmo homem que era. Agora tenho menos medo e mais ódio.”Conforme ele vai tomando consciência que ser judeu é sua condição no mundo e que portanto ele tem sua posição na cena histórica, Iakov vai conquistando mesmo no cárcere um viés de liberdade.

Yakov, que no começo do romance é um “zé-ninguém”, que não parece ter grandes preocupações na vida além de escapar de seu vilarejo para tentar começar uma vida nova em Kiev, não tendo a mínima inclinação ou atração para a vida política, acaba descobrindo, no fim do romance, que de modo algum poderia se considerar uma pessoa politicamente “neutra”. Uma de suas mais essenciais descobertas na prisão é a de que “não existe homem apolítico, e muito menos quando você é um judeu”. Por efeito desse “despertar” político, Yakov, no fim do romance, transformou-se praticamente num revolucionário, que tem fantasias de assassinar o czar e que está certo de que existe muito mais coisas erradas na Rússia do que o anti-semitismo.

Yakov sente, quando acorrentado e torturado no cárcere, que ele não conseguia, pelos meros poderes da Razão, libertar-se. Sua conclusão parece ser de que sem o mínimo de liberdade física e de proteção por parte do Estado, não é possível atingir a salvação pela Razão e pelo conhecimento da Natureza que Spinoza sugeria. No TTP, Spinoza comenta:

“Dos fundamentos do Estado resulta com toda evidência que o seu fim último não é dominar nem subjugar os homens pelo medo e submetê-los a um direito alheio; é, pelo contrário, libertar o indivíduo do medo a fim de que ele viva, tanto quanto possível, em segurança, isto é, a fim de que mantenha da melhor maneira, sem prejuízo para si ou para os outros, o seu direito natural a existir e a agir. O fim do Estado, repito, não é fazer os homens passar de seres racionais a bestas ou autômatos: é fazer com que a sua mente e o seu corpo exerçam em segurança as respectivas funções, que eles possam usar livremente a razão e que não se digladiem por ódio, cólera ou insídia, nem se manifestem intolerantes uns para com os outros. O verdadeiro fim do Estado é, portanto, a liberdade.”

Deste modo, pode-se ver o romance como um longo e doloroso percurso que conduz um personagem simplório e auto-centrado a se transformar em algo que se assemelha a um “símbolo ético”, como sugere Robert Alter. Isso porque Yakov Bok, ao se libertar dos preconceitos finalistas e religiosos, ao deixar de esperar auxílio dos céus, ao despertar para a dimensão política de seu destino, toma em suas próprias mãos as rédeas de sua vida.

O sofrimento que ele suportou por toda a vida, e que parecia absurdo, injustificável, imerecido, adquire para ele uma espécie de sentido – que não é um sentido religioso, como seria se ele acreditasse que sua dor seria recompensada com uma eternidade de delícias no Paraíso. Friedman comenta que“Ele não é um herói trágico clássico, cujo sofrimento é magnífico por causa de sua grandeza de caráter e pela altura da qual ele cai; pelo contrário, ele é um pobre zé-ninguém que se distingue apenas pela miséria e por seu senso de vitimização. Mas porque ele os abraça, e porque, rejeitando um Deus que parece obcecado com a perpetuação da injustiça, ele encontra algo em si mesmo e em sua vida para afirmar, e se torna um paradigma de um novo tipo de herói (…) que triunfa porque ele persevera.”

Afinal de contas, ele, ao contrário do crente judaico-cristão, que insiste em ver no sofrimento um sentido sobrenatural (seja como uma punição divina, seja como algo que tem sua razão de ser num esquema maior…), chega à conclusão: “A única coisa que o sofrimento me ensinou é a inutilidade do sofrimento”. Mas, ao mesmo tempo, ele percebe que está numa situação em que o sofrimento é inevitável – e então conclui: “se eu devo sofrer, que seja por algo”.

De repente, iluminado por seu despertar político, seu sofrimento ganha a possibilidade de deixar de ser absurdo e se tornar significativo. No fim do percurso, afinal, Yakov parece alcançar um degrau ético superior àquele em que estava no começo do romance, como prova quando se recusa ao suicídio e a uma falsa confissão ou acusação. Quase como um herói existencialista, ele parte da noção de um mundo absurdo, onde o sofrimento é injustificável e Deus é indiferente, e depois escala degraus éticos até a adoção de uma postura de revolta, de luta e de sofrimento posto a serviço de algo maior. Como conclui Friedman: “Yakov, mesmo com sua alienação inicial e seu agnosticismo contínuo, consegue enfim conquistar o direito de sofrer pelos outros, e começa a reconhecer que ele é responsável por todo o seu povo, aquela nação de tão prolongados sofrimentos”.

Por isso o romance de Malamud, muito mais do que somente transposição para a literatura de um evento histórico (e um dos mais emblemáticos da decadência do czarismo russo e da iminente eclosão de Revolução de 1917), pode ser visto como uma obra de poder universal e atemporal. Como em Kafka, mostra-se um ser humano esmagado por poderes superiores que ele não consegue compreender nem aceitar; mas, como em Camus, sua situação inicial de sofrimento absurdo e gratuito vai adquirindo novos contornos conforme ele desperta para a ação política e para a revolta existencial. De mera vítima torturada e apática, ele se ergue, no fim das contas, como um símbolo ético que carrega numa mão uma bandeira quase marxista/revolucionária (“É hoje que quero meu Pão, não no Paraíso!”), e noutra um emblema existencialista, onde ostenta a prova viva do que significa passar “do absurdo à revolta”.

Eduardo Carli de Moraes
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A Desumanidade Humana: Novos Ensaios Sobre a Cegueira (por Eduardo Carli de Moraes)

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A Humanidade como Fraternidade permanece no horizonte das utopias. A cada passo em sua direção que damos, para relembrar um célebre dito de Galeano, a utopia dá dez passos para trás. Como se fugisse do abraço. Como se quisesse forçar-nos a ser camelos no deserto, em busca de oásis incerto, pelos séculos e milênios. Já são mais de 3 décadas desde que John Lennon imaginou, sentado ao piano branco, que não haveria mais céu nem inferno, apenas uma “brotherhood of man”. Mas ele, que só estava dizendo “dê uma chance à paz”, acabou assassinado.

Outro célebre pacifista, que peregrinou de pés descalços por toda a Índia, tentando ensinar a hindus, muçulmanos e sikhs a arte da convivência pacífica e do respeito à multiplicidade e à diferença, dizia: “O olho-por-olho vai deixar o mundo todo cego.” A triste verdade é que a cegueira venceu e também Gandhi foi assassinado, tendo seu ideal tripudiado pela catástrofe histórica da Partição Índia / Paquistão: em 1947, o pior dos pesadelos gandhianos se tornou realidade quando estourou a guerra civil entre hindus e muçulmanos. O saldo trágico do conflito: mais de 1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de refugiados.

Invocar uma canção de Lennon, um dito sábio de Gandhi, um convite à caminhada de Galeano: de que serve isso diante da desumanidade dos assassinos, diante do militarismo brucutu dos tiranos? Cantar sobre a beleza das flores e dos pássaros algum dia já impediu os tanques-de-guerra de marcharem sobre os jardins e de metralharem os sabiás? Clamar para que o valor da vida humana seja respeitado é o bastante para dissuadir os homens de uniforme, armados por seus Estados com licença-para-matar?

“A humanidade é desumana”, cantava Renato Russo, que encontrava razões para ser otimista no fato de “que o Sol nasce pra todos (e só não sabe quem não quer)”. O Sol pode até ser o mesmo, mas é bem diferente vê-lo nascer de uma cobertura de luxo em Ipanema ou Miami, e vê-lo nascer em um campo de refugiados na Palestina.

Em Gaza, hoje o Sol ilumina uma pilha de cadáveres, uma multidão de estropiados, um oceano de lágrimas. Às vezes me pergunto se o Sol não tem vergonha de iluminar certas realidades que meus olhos consideram obscenas. Por que ele não protesta e se recusa a nascer? Suspeito que também o Sol seja desumano.

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2

JUSTIFICANDO O INJUSTIFICÁVEL

Enquanto as utopias de paz fogem para longe, enfiando-se no horizonte distante, cá estamos com as pernas enfiadas em poças de sangue. No rés-do-chão da realidade contemporânea, permanecemos cindidos em facções frequentemente fratricidas. Como não poderia deixar de ser, escrevo isso sob o impacto dos acontecimentos horrendos que tem se desenrolado nas últimas semanas na faixa de Gaza.

Há quem pense que há justificativas aceitáveis para a ofensiva de Israel contra os palestinos, mas não sinto senão nojo e desprezo por genocidas que procuram justificar o injustificável. O que dizem os carniceiros sionistas que participaram ativamente do massacre de bebês e crianças? Que isso se justifica pois toda criança palestina pode crescer e um dia tornar-se um terrorista afiliado ao Hamas? Tudo não passa de uma louvável e pia ação de prevenção ao terrorismo?

E como justificar a matança de moças, mulheres e senhoras, que não oferecem nenhum perigo militar ao estado de Israel? Também neste caso se trata de prevenir o terrorismo, já que toda fêmea palestina tem um ventre com potencial de parir futuros terroristas? E que justificativas para a destruição de escolas e hospitais, de universidades e usinas de eletricidade, de abrigos da ONU e de instituições humanitárias? Tudo não passa, é claro, de uma tentativa de enfraquecer a infra-estrutura de uma sociedade que abriga terroristas, não é isso?

Pensei em escrever um conto sobre um jovem estudante em Gaza, que dedicou toda a sua breve existência a uma tentativa de compreensão e solução da discórdia sangrenta que opõe árabes e judeus na região. Devorador de livros, em especial os de Edward Said e Ilan Pappe, este jovem estaria no interior da Universidade Islâmica, nutrindo-se com o saber de Maimônides e Averróis, quando o prédio da Universidade é bombardeado.

Uma parte do teto despenca e rasga sua testa. Os livros mancham-se de sangue e concreto. Ele abandona as ruínas da universidade e corre para casa, só para descobri-la também bombardeada, com toda a sua família dentro. Mortos estão seus 3 irmãos, todos com menos de 10 anos de idade; mortos seu pai (um médico), sua mãe (uma professora de história), e sua avó (que completaria 90 anos no próximo mês). Esmagado pela súbita tragédia, rasgado internamente pelo trauma, ele chora torrentes de lágrimas sobre os cadáveres de sua ex-família e as ruínas de seu frágil lar, agora só escombros.

Ele nunca havia simpatizado ou participado de nenhuma organização armada islâmica; sempre havia discordado do terrorismo inspirado na idéia de jihad (guerra santa). Agora, num ímpeto de indignação e raiva, toma nas mãos uma pedra, um pedaço da parede que outrora protegera sua família contra as intempéries.

Sua ira é tamanha – maior do que qualquer que ele jamais sentira – que ele não pensa antes de agir. Simplesmente precisa liberar um pouco da insuportável pressão psíquica, realizar algum tipo de catarse-pela-agressividade, e assim lança o pedregulho contra soldados israelenses protegidos dentro de um tanque.

Um dos soldados mira em sua cabeça com um rifle M-16 e estoura seus miolos.

Os mortos da família eram seis, agora são sete. Mas com uma diferença: os seis primeiros entrarão nas estatísticas como mortos entre os civis, meros “efeitos colaterais”; o sétimo será caracterizado como terrorista (a evidência: lançou um pedregulho!) e sua morte será, nas estatísticas de Israel, justificável, legítima, irreprochável.

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A ÁLGEBRA DA JUSTIÇA INFINITA

Assisto, via Al Jazeera, com um misto de indignação fervente e melancólica sensação de impotência, as reportagens realizadas em Gaza. Quanto mais assisto, mais concluo que o Estado de Israel perdeu todo o senso de proporção, toda a capacidade de distinguir entre alvos legítimos e ilegítimos. Partiu para a truculência ignorante mais desumana: aquela que mata à esmo, que “mata geral”, que mata todo um coletivo para puni-lo pelos atos de uma parcela deste coletivo.

Mas matar crianças às centenas, e julgar que isso é um “efeito colateral” de uma ofensiva legítima contra o Hamas, parece-me o supra-sumo da cegueira desumana destes que Bob Dylan cognominou “Masters of War”. Escrevo para dizer que vejo através de suas máscaras.

Deixemos de balela. Se formos aos dicionários buscando a palavra mais adequada para descrever as ocorrências, com certeza esta não será “conflito”, mas sim “massacre”. O que Israel está praticando nestas últimas semanas não é uma campanha militar de auto-defesa legítima, é um genocídio. E eu diria que vai além do genocídio, porque os crimes do sionismo israelense vão além da destruição em massa de vidas; o que Israel está tentando fazer é transformar Gaza num Inferno terrestre, num território inabitável, ao destruir hospitais, escolas, universidades, usinas de eletricidade etc.

É como se o objetivo de Benjamin Netanyahu e sua trupe fosse não somente cometer um genocídio, mas depois impedir que água, comida, remédios, médicos, ajuda humanitária internacional, entrem em Gaza para aliviar os imensos danos causados pelos ataques. É como se Israel, depois da chuva de bombas, quisesse que os sobreviventes morressem de fome, de sede, no escuro, que agonizassem por semanas com suas feridas e queimaduras.

É o Guernica de Picasso, redivivo em território palestino. É um ato de extermínio do Outro, de aniquilação da infra-estrutura da sociedade do Outro. Não é só matar; é transformar a vida dos sobreviventes em algo tão insuportável, tão desumano, que eles enfim se decidam: ou vazam logo para longe, indo procurar refúgio em algum outro país do mundo árabe, ou então que se levantem em uma nova Intifada, ou juntem-se aos grupos armados, o que então daria uma justificativa extra para que Israel prossiga com o massacre.

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GUERRA AO TERROR OU TERRORISMO DE ESTADO?

Sob a máscara da Guerra ao Terror, o que Israel está praticando é terrorismo de Estado. Os quase 2 milhões de seres humanos que vivem em Gaza – em péssimas condições de existência, aliás – estão sendo tratadas pelo Estado de Israel como sub-humanas, como se fossem pragas e não pessoas. É um processo de desumanização que lembra aquele perpetrado contra os judeus pelo III Reich e que agora a teocracia sionista aplica aos palestinos.

A propaganda sionista e seus aliados ocidentais – EUA e Reino Unido entre eles – podem até ter o cinismo repugnante de justificar o injustificável. No entanto, as evidências concretas não deixam dúvidas: há uma imensa desproporção entre as forças em combate. A pilha de cadáveres palestinos sobe até o céu, enquanto a pilha de cadáveres israelenses mal bate no teto. É triste que haja pilhas de cadáveres dos dois lados, mas isto não nos deve cegar para a enormidade da discrepância entre o tamanho das pilhas.

Sei bem que isto não é um filme de Hollywood onde são facilmente discerníveis os bandidos e os mocinhos. Sei bem que toda análise que queira ser fiel aos fatos tem que evitar o perigo do maniqueísmo. O escritor israelense Amoz Os diz que o conflito Israel e Palestino é muitas vezes um choque entre “certo e certo”, ou entre “errado e errado” – pois ambos os lados do conflito tem demandas legítimas. Segundo ele, é uma situação que constitui uma tragédia grega muito mais do que um faroeste hollywoodiano.

Até concordo que o choque entre o Estado teocrático-sionista de Israel e os grupos islâmicos fundamentalistas como o Hamas possa ser descrito como um choque entre “errado e errado”. Uma questão importante, porém – e Amoz Os prefere não mencioná-la – é a desproporção da força militar. Israel tem um exército mega-mortífero e recebe centenas de milhões de dólares de seus aliados ocidentais, em especial os EUA; o Hamas pode até ter seus foguetes, mas seu poderio de destruição é minúsculo quando contrastado com as hecatombes que Israel é capaz de causar.

O argumento sionista, que me parece estar sendo abraçado pela maioria da sociedade civil em Israel, é o seguinte: “se o Hamas tivesse maior poderio militar, o que vocês acham que ocorreria? Se o Hamas tivesse em seu poder uma bomba atômica, Tel Aviv já teria se tornado a nova Hiroshima!” Isso é usar a paranóia como justificativa para o genocídio; é fazer uma previsão sobre o genocídio que o Hamas poderia vir a cometer, caso tivesse os meios, servir como pretexto para o genocídio que Israel está cometendo, em posse plena dos meios (e com o amém dos Estados Unidos da América).

Não subestimo o ódio do Hamas – e de outros grupos jihadistas – contra Israel. Também sei o quão repugnantes são muitas das doutrinas do Hamas – por exemplo o tratamento autoritário das mulheres, com a imposição patriarcal violenta das jihabs e burcas ou a pena de morte sem julgamento para as “adúlteras”. Há uma cena no “Palestina” de Joe Sacco que me parece emblemática do que está errado na visão-de-mundo tacanha, dogmática e moralista de muitos fundamentalistas islâmicos: uma mulher com os cabelos à mostra, dentro de seu carro, é apedrejada por uma gangue de fanáticos, que só descobrem que ela é uma cristã depois que o rosto da pobre mulher já está todo arrebentado e o sangue já jorrou pra todo lado.

Joe Sacco, Palestina

Joe Sacco, Palestina

Ser contra o Hamas, sua ideologia, seus métodos, seus atentados, não significa ser a favor da carniceria genocida do sionismo em sua luta contra o Hamas. Centenas de pessoas que foram assassinadas por Israel nestas campanhas de Julho e Agosto de 2014 não tem conexão alguma com o Hamas, com o terrorismo, com intifadas; considerá-las como meros “efeitos colaterais” de uma guerra santa e justa é uma abominação lógica, política, moral.

A propaganda sionista quer nos convencer de que Israel é uma pobre vítima dos foguetes do Hamas e que a ofensiva contra Gaza faz parte de um programa justo e legítimo de Defesa Contra o Terrorismo. Porém, a grande ironia dessa História é que as dores de parto do Estado de Israel estiveram repletas de atos de terrorismo perpetrados por grupos sionistas. Anos antes da fundação do Estado de Israel em 1948 – após a expulsão forçada de centenas de milhares de palestinos, chutados para fora do território em que haviam vivido por gerações – os sionistas utilizaram múltiplos atentados terroristas como método de “pressão política” para conquistar sua “Independência”. Por exemplo:

“O atentado do Hotel King David foi um ataque terrorista na cidade de Jerusalém, na então Palestina, ocorrido a 22 de Julho de 1946 , tendo como idealizadores uma organização sionista denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional) e como alvo as instalações do Hotel King David.

O Hotel King David, um hotel de luxo de sete andares, situado a oeste da zona da Cidade Antiga de Jerusalém, sediava quase toda a administração do mandato da Palestina, atribuído pela Sociedade das Nações ao Reino Unido.

O ataque foi organizado por Menachem Begin, que mais tarde ocupou o cargo de primeiro-ministro de Israel por duas vezes. O ataque terrorista resultou na morte de 91 pessoas e ferimentos graves em outras 45 pessoas…” – Wikipédia

Os palestinos que hoje recorrem ao terrorismo para protestar contra as condições de vida desumanas, impostas por Israel nos campos-de-concentração a céu aberto para onde foram empurrados os refugiados, estes “terroristas” são pintados como demônios e devotos do deus errado; já os sionistas que recorreram ao terrorismo lá atrás são, é claro, heróis da pátria e devotos do deus certo…

* * * *

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TRANSCENDER AS DUAS CEGUEIRAS

Se tivéssemos que escolher entre o fundamentalismo do Hamas e a teocracia sionista de Israel, estaríamos limitados a uma escolha entre duas cegueiras. Gostaria de arriscar-me a propor aqui um caminho, difícil de ser trilhado e sem dúvida utópico, mas que me parece um dos poucos capazes de nos libertar destes infindáveis fratricídios. Este caminho passa necessariamente por uma vitória contra o dogmatismo. Nietzsche dizia que “convicções são prisões”; quando a mente adere rigidamente a uma certa convicção, perde sua graça, sua leveza, seu dinamismo, solidifica-se em uma espécie de rigor mortis. A idéia de que judeus e árabes são incapazes de coexistência pacífica e frutífera não passa de um dogma, jamais de uma verdade absoluta. Trata-se de desalojar este dogma das mentes, dos comportamentos, das identidades.

Gosto muito de um pensamento de Montaigne, nos Ensaios, em que ele questiona as relações entre as identidades que assumimos e as condições em que nascemos: ele pergunta a um cristão francês, por exemplo, o que teria acontecido se ele tivesse nascido no Tibet ou na China. Nascido em outras circunstâncias, não teria ele se tornado um budista, um taoísta, um confuciano? A idéia aqui, no fundo, é a seguinte: ninguém “é” cristão ou judeu ou muçulmano, como se já nascesse com isso nos genes, mas ao contrário “torna-se” cristão, judeu ou muçulmano pelo acaso de ter nascido em um certo meio, em uma certa família, ter sido educado e doutrinado em uma certa cultura.

No fundo, as pessoas aderem a uma certa identidade, vestem uma certa máscara, introjetam uma certa ideologia, e depois se esquecem de que, na origem, a doutrina religiosa ou política que transformaram em dogma é fruto de um condicionamento social, dependente de um tempo-espaço histórico específico. Este caminho para a convivência pacífica que tento pensar passa necessariamente por des-dogmatizar as identidades – ou seja, precisamos deixar de levar tão a sério as nossas identificações identitárias com religiões, raças, pátrias etc.

Como fazê-lo? Eis o ponto mais complicado, até porque algumas das possibilidades que eu sugeriria seriam desprezadas como absurdas e irrealizáveis. Por exemplo: uma das experiências mais destroçadoras de dogmas, uma das vivências mais libertárias em relação às jaulas das identidades rígidas, é sem dúvida a expansão de consciência possibilitada por agentes psicodélicos naturais (como o chá de ayahuasca) ou sintéticos (como o LSD).

Os dogmatismos e fundamentalismos, tanto dos sionistas quanto dos jihadistas, poderiam ser intensamente postos em nova perspectiva pelas capacidades descomunais do ácido lisérgico de liberar-nos das crenças identitárias e abrir-nos para uma vivência visceralmente cosmopolita. “Namastê!” Vão querer me internar no hospício (ou me mandar pra delegacia…) por dizê-lo, mas direi-o do mesmo jeito: um dos problemas de nosso mundo é que está faltando psicodelia e está sobrando dogmatismo. Entenda-se: uso o termo “psicodelia” aqui como sinônimo de uma capacidade existencial de permitir que a psiquê se transforme, que a mente seja dinâmica, que os valores se modifiquem e evoluam, sem a rigidez cadavérica dos fanatismos de toda estirpe.

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Percebo muito bem que é preciso encontrar alguma solução realista – já que é quase demandar o impossível sugerir que árabes e judeus expandam sua consciência e libertem-se de suas obsessões identitárias e fanatismos religiosos. Já que despejar litros de LSD no sistema de entrega de água está fora de questão, teríamos que atingir por outros meios esta amplidão de visão e esta liberdade quanto às máscaras que a experiência psicodélica possibilita. Por exemplo, com uma mega-campanha de educação para a laicidade, para a coexistência frutífera, para o amor à idéia de convivência no seio da multiplicidade e de enriquecimento mútuo na trans-individualidade. As identidades sólidas, a filiação dogmática a seitas e ideologias, a incapacidade de enxergar o que nos une ao invés do que nos separa, tudo isso precisaria ser transcendido para que fôssemos capazes de nos perceber como conviventes sob o mesmo sol, todos juntos no mesmo planeta, todos iluminados pela luz distante da mesma miríade infindável de estrelas.

Seria preciso que enxergássemos, para além de nossa cegueira habitual, já encrustada nas retinas e nos neurônios, que ninguém está condenado, do berço ao túmulo, a ser algo de fixo – judeu, muçulmano, cristão, budista, ou o que quer que seja. Que uma identidade não só pode, mas deve ser fluida, móvel, mutante. Que não há nada mais sábio do que mudar acompanhando a mudança do mundo. Que viver é deixar-se afetar e crescer pelas interações e contatos com os outros. Que coexistência é nossa condição ontológica, nossa necessária situação no mundo, e que aprender a conviver é aprender a viver.

Nosso apego a dogmas, nossa recusa em retirar da cara as máscaras, nosso neurótico vínculo a uma “persona”, faz-nos construir apartheids e muros, fronteiras e arames farpados. As diferenças são tidas como razão para massacres e genocídios, quando as mesmas diferenças poderiam ser vistas como estímulo para a convivência fecunda e mutuamente recompensadora. Bastaria, para isso, que nos víssemos como unidos por nossa humanidade comum, por nossa comum pertença à Terra, por nossa comum condição de cidadãos do cosmos.

* * * * *

EPÍLOGO: UMA CANÇÃO DE AMOR A NOSSOS EUS MESTIÇOS

Não faz muito tempo que o escritor indiano Salman Rushdie, após a publicação de seu romance “Os Versículos Satânicos”, foi fulminado pela fatwa (pena de morte) decretada pelo aiatolá xiita do Irã, só podendo sobreviver por ter recebido guarida na Inglaterra. Rushdie defendeu-se das perseguições do regime de Khomeini com as seguintes palavras – sublimes – de seu livro “Pátrias Imaginárias”:

RushdieOs Versículos Satânicos celebra a hibridez, a impureza, a mistura, a transformação que provém de novas e inesperadas combinações de seres humanos, culturas, idéias, políticas, filmes, canções. Exulta com o cruzamento de raças e teme o absolutismo do Puro […] Certamente que não põe em causa os direitos das pessoas à sua fé, embora eu não tenha nenhuma. Discorda manifestamente das ortodoxias impostas de todos os tipos, da opinião que o mundo é muito claramente Isto e não Aquilo. Discorda do fim do debate, da disputa, da discordância. Discorda também do sectarismo comunalista hindu, do tipo de terrorismo sikh que faz explodir aviões, das fatuidades do criacionismo cristão, bem como das definições mais limitadas do Islã […] É uma canção de amor à nossos eus mestiços…”

Cantemos, pois, nossas canções de amor a nossos eus mestiços!

Eduardo Carli de Moraes
Toronto, Agosto de 2014

Shaking Hands with Other People’s Pain

Gaza, July 2014

Gaza, July 2014

“Nous n’avons pas toujours assez de force pour supporter les maux d’autrui.” 
LA ROCHEFOUCAULD (1613 – 1680)

Here’s the trouble with solidarity, altruism, compassion, brotherhood and other values we often pay lip service to, while practising them so shabbily: it isn’t always easy or pleasant to join in a common struggle with some human being or community who is suffering a terrible fate. As the French moralist said: “We don’t always have enough strenght to bear other people’s sufferings.” (La Rochefoucauld) Let’s not idealize human beings: egotistical as we so often are, we would rather turn a blind eye to other people’s pains and keep paying attention only to our tiny little selves. Human as I am, when confronted by events that would disturb my peace-of-mind, like these who are flooding the news during the last weeks, my first impulse is to run for cover in the comfort of blissful ignorance. Why should I care if the Israeli army is bombing Gaza to a heap of ruins? Why should I look at the photographs of dead babies, injured women, dismembered elderly? Why shouldn’t I be allowed to choose the easiest path and retreat from these horrible occurrences, refusing to acknowledge their existence? Am I to blame if I’d rather act like an ostrich that hides its head in the sand?

Voltaire (1694 – 1778) once said that “every one is guilty of all the good he did not do”. That sounds to me a much more courageous and demanding statement than the one quoted in the epigraph. La Rochefoucauld’s phrase sounds like someone who uses a personal weakness to justify his choice of indifference. Voltaire wants us to take responsability on our hands and act on behalf of others; doing nothing may be sometimes considered a criminal cumplicity to the perpetrators of oppresion or genocide. La Rochefoucauld’s comment, on the other hand, seems to excuse a behaviour of inaction and voluntary ignorance and lassitude, when we’re confronted with “les maux d’autrui”. Myself, I can’t help but feel some contempt for the attitude of those who don’t give a damn about other people’s miseries and care only about their private little matters. My heart fills with admiration by people like Arundhati Roy or Joe Sacco, Simone Weil or Che Guevara (to mention just a few), highly sensitive and creative persons, who devote their life-works to shaking hands with other people’s pain. And acting in order to diminish human grief in our Samsarian planet (good planets are hard to find). Empathy, methinks, is a praiseworthy virtue, and one of the best definitions of it I know of is by Ernesto ‘Che’ Guevara: “feeling anguish whenever someone was assassinated, no matter where it was in the world, and of feeling exultation whenever a new banner of liberty was raised somewhere else.”

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Such thoughs have been fermenting in my mind during insomnias and daytime anxieties, as the numbers of injured and dead keep getting higher and higher in Palestine. But let’s not take numbers too seriously and forget the real heartfelt human suffering that numbers tell us nothing about. Let’s not allow our minds become numb with an overdose of tragic numbers. Each number is to be perceived as flesh-and-blood, as sentience and conscience, as beating heart and thinking brain, torn apart by war.

From a safe distance, I follow the news and they tell me a lot about other people’s miseries – “gunshot injuries, broken bones, amputees” (Sacco, pg 30). I feel powerless as I witness this horrors brought to me by Youtube, Facebook, Twitter, and the Blogosphere. I feel impelled to do something, even though I know quite well how little difference I can make by sharing Al Jazeera videos, sending to my friends the photos of demonstrations, or writing a post in a tiny little corner of the World Wide Web. A bitter taste of powerlessness and despodency nails me down to the chair as I witness the Zionists’ latest massacres in Gaza. Then I remember Voltaire and he inspires me to decide: the fact that one person can’t do much isn’t a reason to do nothing. If only everyone did this tiny bit, perhaps it would add up to something powerful enough to bring down from their bloody pedestals all these Masters of War?…

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Sitting at home, far from refugee camps, I take a journey aboard Joe Sacco’s compelling graphic novel Palestine. Sacco takes me to see a re-presentation of what he himself has witnessed in Cairo, Jerusalem, Ramallah, Gaza etc. In Sacco’s pages, I see kids  throwing stones against tanks and getting shot at by soldiers armed with M-16s and other hi-tech rifles. My brain fills with some sort of psychic vomit when I picture such scenes. If I had been born in Gaza, if I was a Palestinian kid, wouldn’t I be the one throwing stones against the invading army? Wouldn’t I howl in rage against these grown men in uniform who only speak the language of violence? Which language would I learn to speak, in such an environment, if not the language of precocious rebellious stone-throwing? And if my best friend’s life had been taken away from this world by a bullet in the heart, wouldn’t I be angry enough to, a few years later, join a jihadist group and become a suicide-bomber on the road to glorious martyrdom?

gandhi_-_an_eye_for_an_eye_will_make_the_whole_world_blind_-_quote_large_poster__gn0097Unfortunately, there’s no end in sight for Intifadas, I fear, because no community will accept without resistance the sort of life conditions imposed by Israel in the occupied territories. Too many wounds have stirred too much rage, too much hunger for revenge, for any peace to be something reasonable to expect in the short term. Fuel keeps getting added to the fire of mutual hate. “An eye for an eye will make the whole world blind”, said the barefoot bald-headed pacifist Mahatmas Gandhi. But neither Zionists nor Jihadists seem to give a damn about Gandhi, especially when the wounds are fresh and the heart screams for vendetta.

I can’t begin to understand how and when all this mess began. I look back into the past, trying to get a grip of the historical roots of the conflict, but History looks like a mad circus of chaotic antagonism. It seems to me that Israel was born as a consequence of one the hugest tragedies of the 20th century – the Holocaust. The Nazi’s III Reich almost wiped-out the Jews from the face of the Earth, and when Hitler’s regime fell in 1945 it was mandatory to find the survivors a Safe Home,  in which they would be protected from ever having to be victims of such a mass-scale massacre. The “ideal” Israel would be a nation for the victims, for the survivors of that “Industry of Death”, to quote Steven Spielberg, which the Nazis set in motion in their collective psychosis of anti-semitism, racism, blind nationalism and totalitarianism.

But an old and un-answered question I’ve got is this: why should the Palestinians pay for the crimes of the Nazis? If Germany, infected by anti-semitic ideologies and imperialism, went on a killing frenzy against the Hebrews, why weren’t the Germans obliged, as the main perpetrators of the Holocaust, to offer some just compensation? Why shouldn’t Germany be made to concede, let’s say, one third of their territory for a Jewish State? Yeah: I see perfectly well that this solution wouldn’t work out. These neighbours, I suspect, wouldn’t live peacefully side-by-side with such monstruous memories of past bloody deeds haunting their coexistence. Despite the fact that Holy Jerusalem is considered a conditio sine que non by Jews: there’s no Israel without it.

Reading about these matters, I also discover, in the works of Joe Sacco and Arundhati Roy, that the plan to create a Jewish state in Palestine pre-dates the II World War. In 1917, the English minister of Foreign Relations, Lord Balfour, signs a Declaration in which the British Empire makes a commitment to create a nation for the Jews in Palestine – a place which, according to a deceitful Zionist slogan, was a “land with no people for a people with no land”. Which, of course, is bollocks. Big time bullshit. At least 700.000 Arabs were living then in this land which the Zionists’s cynicism claimed to be a desert – and promised to them by God himself. But, as Bob Dylan sang in the 60s, “you don’t count the dead when God’s on your side”.

Sacco1 Sacco2 What awes me is also how yesterday’s victims can metamorphose into today’s oppressors. How was it possible that the people who survived the Nazi Holocaust became perpetrators of a new “Palestinian Holocaust”? What Israel is doing in Gaza – bombing schools, hospitals, UN-shelters; killing hundreds of babies, children, women, elderly, civilians… – isn’t this reducing a whole community to a status of Subhumanity? People in Gaza know today how it felt for Jews in Auschwitz to be treated as less-than-human and devoid-of-basic-rights.

One could argue that Jewish experience in Europe was far from sweet and didn’t teach them much about gentleness between different cultures and nations. Pogroms, persecutions, concentration camps, gas chambers – these were some of the tragic cards the Jews were dealt throughout their wandering existence of chronic sufferers. In 1948, when they declared “Independence” and Israel was born, maybe they dreamt of Peace, finally? Anyway, if they did, the Dream has been shattered over and over again, for decades. There was never any peace. Israel is born into war and the nation’s first events, the first steps of this new-born child, have been tough as hell. Israel’s first breath was still sailing in the wind and the country was already dealing with the 1948 invasion from the Arab’s armies. After the defeat of the III Reich – who was supposed to last for a 1.000 years, according to the Nazi’s megalomania, but crumbled apart after 12 years – the Jews wouldn’t be allowed no peaceful retreat into well-deserved tranquility. They still felt endangered, they still feared annihilation, there were still enemies to fight. If they didn’t defend themselves, they feared that the Arabs would drown them all in the Sea.

Sacco3 I would argue that fear and violence often go hand-in-hand: a frightened animal is much more likely to attack than a tranquil, unafraid one. The human animal is also capable of bursting into terrible violence when he’s terribly afraid. When I look back at History’s madness, I see the Jews, after the II World War, trembling with fear and shocked with trauma. They had lost 6 or 7 million to the Nazi’s machinery of mass murder. And yet their survival instinct, their conatus (to speak in Spinozean language), was surely alive and kicking. To survive this tragedy they would need some radical means to establish themselves in some sort of safe spot. They would a massive Police State; one of Earth’s strongest armies; why not some atomic bombs? The U.S. would provide the means for Israel to become a military power whose self-confidence would be boosted by the  possession of weapons of mass destruction. Israel, then, was born like a Bunker State, warmed to the teeth, with one of the world’s most rigid and paranoid Defense Mecanisms of any nation on Earth.

But did they really believe they would build a safe haven in Israel after kicking out almost a million people from their homes in 1948? I’m sorry for my language: I’m quite aware that kicking out is not quite the right word. They did much more than kick out – they burned entire villages, they massacred entire populations, they created a huge mass of refugees, pushed very ungently, at gun point, into Gaza and the West Bank. Israel’s masterminds certainly don’t like this comparison, but this is how it feels to me: just like the Nazis deported the Jews from their homes and pushed them into the trains headed for the concentration camps, the Jews kicked out the Palestinians from their homes and pushed them into Palestine’s open-air concentration camps. Now it’s July 2014 and the world is asking in horror: is Israel applying the Final Solution? Is there anywhere or anyone in Gaza that isn’t a target?

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In the occupied territories, most of what we take for granted as civilization’s basic gifts to citizens simply don’t exist – right now, as you’re reading this, more than 1 million people in Gaza have no access to proper drinking water. Almost no one has access to electricity – especially after the only power plant in Gaza was bombed to ashes in July 29. In Joe Sacco’s book, I discover that, in the Palestinian schools, it’s forbidden by the Israelis to teach history or geography with any book that mentions Palestine – it’s not supposed to exist in the textbooks. Israel would like to erase it from the maps. Is Israel trying to accomplish in fact the lie that has been written in textbooks, that is, “Palestinians don’t exist”?

In a clinic, Joe Sacco meets two doctors who reveal that they see “a lot of respiratory illnesses from bad ventilation and overcrowding, problems related to political and social conditions” (p. 48). Life in Gaza and the West Bank can be quite cruel, unealthy, insecure, always threatned to end precociously. But the web of everyday violence is woven by acts of cruelty not only to people, but also to their means of existence. Joe Sacco draws, for example, a heartbreaking scene with decapitated olive trees, cut off by the Israelis, and then gives voice to the Palestinians’ suffering:

Joe Sacco2

“The olive tree is our main source of living… We use the oild for our food and we buy our clothes with the oil we sell… Here we have nothing else but the trees… The Israelis don’t give people from our village permits to work in Israel… The Israelis know that an olive tree is the same as our sons… It needs many years to grow, six or seven years for a strong tree… Two years ago the israelis cut down 17 of my trees… my father planted those trees… Some of them were 100 years old… They obliged me to cut the trees myself. The soldiers brought me a chainsaw and watched… I was crying… I felt I was killing my son when I cut them down.” (Sacco, pg. 62)

This personal wound may seem tiny, but we need only to multiply it to get a picture of the collective wound inflicted by 120.000 trees up-rooted by the Israelis during the first four years of the Intifada.  Besides the massive bulldozing of trees, Palestian homes were also demolished in great numbers: 1.250 of them were brought down to the ground during the same four first years of the Intifada; in the same period, no less than 90.000 Palestians were arrested and put behind Israeli barbed wire, watched by soldiers with their fingers on the trigger (Sacco, pgs. 69 and 81). All those who dared rise up against Israel were crowded into prisons, put into cages, treated not so differently than the Nazis did with the inmates of Dachau or Auschwitz. One man interviewed by Sacco remember the time he was arrested in an overcrowded tent, “a sort of hell”, “3×4 meters with 21 persons”, in which “the ventilation was very bad, just a coin-sized hole in the door for injecting gas in case of a riot.” (Sacco, pg. 84)

Eduardo Carli de Moraes @ Awestruck Wanderer
Toronto, July 2014

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(TO BE CONTINUED IN ANOTHER POST…)

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Cobertura exclusiva do 35º Festival Internacional de Jazz de Montréal

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A MÚSICA QUE ARRASA FRONTEIRAS
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“Music is the universal language of human emotion.”
THEODOR REIK (1888-1969), “The Haunting Melody – Psychoanalytic Experiences in Life and Music”

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“Saxophoenix”, ilustração de Yves Archambault no poster oficial do FIJM 2014

Entre 26 de Junho e 06 de Julho de 2014, Montréal acolheu a 35ª edição de seu célebre Festival Internacional de Jazz. Todos os anos, no coração da metrópole francófona da América do Norte, o evento atrai um público estimado em mais de 2 milhões de pessoas.

Na aurora do verão canadense, o Jazz Fest ofereceu mais de 300 concertos gratuitos, a céu aberto, que ocorrem em palcos localizados no Quartier Des Spectacles, região da pólis devotada à expressão artística e onde se localizam a Place Des Arts, o Musée D’Art Contemporain e a Maison Du Festival, entre outros notáveis espaços culturais.

Além do amplo leque de eventos gratuitos, dezenas de shows pagos ocorreram em pubs, teatros e salas de concerto pela cidade, com ingressos disputadíssimos, que normalmente se esgotam meses antes da primeira nota musical ser tocada.

Alain Simard, que fundou o festival há 35 anos atrás e hoje atua como seu presidente, considera-o como “o maior evento cultural e turístico do Québec”: “O Festival Internacional de Jazz de Montréal representa a interação social no seu melhor, a essência mesma do icônico senso de festa dos Montrealeses, de seu convívio de espírito aberto com os visitantes vindos de toda parte. As distinções étnicas, linguísticas, políticas, econômicas e geracionais cessam de existir. A música e o calor humano são o denominador comum. O Festival é um pequeno oásis urbano, inclusivo e cool, onde nos encontramos aos milhares para relaxar em um deleitoso ambiente musical, onde reina a vontade de descobrir, compartilhar e se entreter em conjunto.” (Le Festival: Le Plus Social Des Réseaux!)

O Primeiro Ministro do Québec, Philippe Couillard, do Partido Liberal, em sua declaração oficial, não poupou nos arroubos autocelebratórios: “ao longo dos anos, este rendez-vous tornou-se o mais importante festival de jazz em escala mundial. Este sucesso testemunha nossos valores: somos uma sociedade ambiciosa, aberta, apaixonada e festiva – e isto para grande felicidade dos amantes da música nos quatro cantos do planeta.” (Mots des Dignitaires, p. 13) O que pode soar a alguns ouvidos como exagero, proferido por um estadista acostumado a fazer propaganda política, foi referendado em 2004 pelo Livro dos Recordes Guinness, que considerou o Jazz Festival de Montréal o maior do gênero em todo o mundo.

Montréal, a mais populosa cidade da província do Québec, com mais de 1 milhão e 600 mil habitantes, vivencia durante o Jazz Fest uma efervescência humana extraordinária, impulsionada pela quantidade impressionante de visitantes temporários que comparecem ao evento – incluindo os músicos, engenheiros de som, roadies, jornalistas, fotógrafos, documentaristas, dançarinos, artistas das mais variadas estirpes etc. Além, é claro, da multidão que constitui uma platéia pluri-étnica e multi-linguística, evidenciando o intenso cosmopolitismo que é uma das marcas maiores de Montréal.

Para que seja realizado a contento, este mega-evento precisa que trabalhem em sincronia os Ministérios do Turismo, dos Transportes, da Cultura & Comunicações, dentre outros. Além disso, parcerias com empresas privadas viabilizam financeiramente o festival, com destaque para Rio Tinto Alcan, Bell, TD e Heineken.

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fijm_logo_2011_coul_custom-9e3d41135815c9fa4f82f07610583c7661399813-s6-c30Todos os anos, grandes figuras da música mundial visitam Montréal: a história registra, desde a 1ª edição em 1980, apresentações de “mitos” como Ray Charles, Miles Davis, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Astor Piazolla, Dizzy Gillespie, Tom Jobim, James Brown, Dave Brubeck, Tony Bennett, Cab Callaway, Van Morrison, Bob Dylan, Stevie Wonder, entre muitos outros. Em 2014, não foi diferente: dentre as atrações maiores do festival, estavam o bluesman B. B. King, a diva do soul Aretha Franklin, a pianista e cantora Diana Krall, além de artistas mais vinculados ao mundo do rock, mas muito respeitados também no universo do jazz – caso de Elvis Costello, Beck Hansen e Ben Harper. Esta 35ª edição prestou sua homenagem ao guitarrista de flamenco, recentemente falecido, Paco de Lucía (1947-2014), a quem o festival foi dedicado.

Em termos econômicos, o Jazz Fest de Montréal caracteriza-se como organização sem fins lucrativos, como explica a revista oficial do evento ao declarar: “as atividades são realizadas sem intenção de ganhos pecuniários e todos os lucros são reinjetados nas operações do festival e seus atividades gratuitas”. A edição mais recente foi realizada com um orçamento de 25,2 milhões de dólares canadenses e criou 1.500 empregos.

Um estudo publicado em 2011 nos fornece uma ideia dos impactos econômicos mais amplos sobre os setores de hospedagem, alimentação e transporte, que vivem nesta época um de seus maiores booms anuais: estima-se que os gastos de turistas e equipes de produção, cuja presença em Montréal é inteiramente ou em parte justificada pela ocorrêcia do festival, atingem 96 milhões de dólares canadenses. Já quanto às proveniências dos visitantes, as estatísticas apontam que 30% vêm dos EUA, 25% da própria província do Québec, 18% de outras regiões do Canadá, 18% da Europa e 9% dos demais países.

"Drifter's Escape", uma obra de Jimi Hendrix. Saiba mais.

“Drifter’s Escape”, uma obra de Jimi Hendrix. Saiba mais.

Apesar de ser um festival dedicado sobretudo à música, o FIJM também abre espaço para outras formas de expressão artística, incluindo espetáculos de dança-de-rua (veja vídeo exclusivo no fim deste post). O público teve acesso também a uma galeria de artes plásticas, de entrada gratuita, onde estavam em exposição pinturas raras realizadas por Jimi Hendrix e Miles Davis, além de inúmeras obras de artistas do Québec, com destaque para dúzias de trabalhos de Yves Archambault, que nos últimos 20 anos foi o responsável pela arte dos belos posters do festival. Abaixo, confiram alguns dos mais impressionantes desenhos de Archambault nos últimos anos:

2003
2008
2009
2011
2012
2013

O Festival Internacional de Jazz de Montréal também tem como um de seus nortes a missão educativa de permitir às crianças e jovens a descoberta do universo da música. Muitas famílias com seus pequenos rebentos, às vezes em carrinhos-de-bebê, no colo das mães ou nos ombros dos pais, circulam pelos acolhedores espaços do FIJM, que tem como uma de suas metas contribuir com as faíscas que acendem, desde cedo, as paixões musicais. Uma das principais iniciativas, neste sentido, é o Parque Musical Para Crianças (Parc Musical Pour Les Enfants), que procura fornecer um entretenimento ao público infantil que plante a semente do amor pela arte em tenra idade. Em uma das atrações do Parque, a criançada podia pular, dançar e rolar sobre as teclas de um piano gigante. Logo ao lado, um escorregador em formato de saxofone, onde deslizavam os pequenuchos em direção a uma piscina de bolinhas, onde caíam após serem expelidos, como notas musicais humanas, da boca do sax gigante.

Outro conceito muito interessante que norteia a organização do festival é o de CARBONEUTRALIDADE, ou seja, a intenção de realizar um evento que não tenha efeitos deletérios sobre o meio ambiente com o aumento das emissões de dióxido de carbono. Tanto o Festival de Jazz de Montréal quanto o Festival d’Été de Québec – que ocorrem ambos entre o fim de junho e o início de Julho – tem o comprometimento de serem “carboneutros”. Toda a poluição e sujeira – resultante do aumento do ritmo dos transportes, da ascensão do consumo de eletricidade, da maior produção de lixo etc. – é compensada pelos “projetos verdes” que ambos os festivais apoiam.

Além de oferecer ao público uma ampla gama de eventos culturais gratuitos, o que constitui uma excelente amostra de que é possível realizar, em termos de políticas públicas de cultura, a união entre qualidade artística e vasto acesso popular, os festivais de música do Québec mostram uma louvável preocupação ecológica, investindo o que for necessário em programas de reciclagem e plantio de árvores, por exemplo.

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Este escriba não teria condições de julgar o festival por inteiro, já que chegou à Montréal 5 dias após o início da festa, tendo perdido dúzias de shows que animaram os primeiros dias; além disso, limitou-se aos espaços abertos e gratuitos, onde a multitude se aglomera. Mas este “fragmento” do FIJM que pude experimentar deixou uma excelente impressão, memórias que carregarei vida afora, além de uma vontade sincera de aplaudir Montréal com salvas de palmas e ruidosos “BRAVO!”s.

Apesar do foco ser o “jazz” – um vocábulo tão lúdico como costumam ser aqueles que nomeiam gêneros musicais: “rock and roll”, “samba”, “rhythm & blues”… – não se trata de modo algum de ser ortodoxo na seleção de artistas que se adequem aos cânones do que “jazz” significa. Montréal, oxalá, quer mais é deixar a diversidade reinar. Nenhum purismo delimita feudos, segrega estilos, condena tendências: é como se Montréal abrisse seus convidativos braços para acolher a Música em toda a variedade das suas manifestações. Sem apartheids, estimula-se a expressão musical em um amplo espectro etno cultural: marcaram presença os ritmos africanos picantes do Mokoomba, do Zimbabwe; a big band  australiana de ska Melbourne Ska Orchestra; o  grupo cubano de salsa, mambo e rumba Conjunto Chappottin y Sus Estrellas; o hip-hop futurista e orquestrado do Deltron 3030;o heavy-blues de alta-voltagem, e bem Janis Jopliniano, de Layla Zoe; dentre muitos outros exemplos.

O psicanalista Theodor Reik, citado na epígrafe, escreveu que “a música é a língua universal da emoção humana”. Esta ideia de que a música é o único idioma universal, transcendendo o verbal, expressando a Vontade e seus afetos, nunca fez tanto sentido quanto agora.  Em Montréal, por esta semana em que flanei pelas ruas, como um peixe nadando em um oceano de gente. Era impressionante estar diante de tão extraordinária diversidade de pessoas, de credos, de cores, de raízes, de backgrounds, de filiações, de idiomas, de vestimentas, de tatuagens, de idiossincrasias, de peculiaridades. Um caldeirão da multiplicidade como eu jamais antes havia experimentado. Nadei nesse mar de gente em infinitas variações como se o Quartier Des Espectacles fosse um holograma do mundo. E era.

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Montréal parecia acolher tal maré humana como quem recebe qualquer desconhecido como um amigo em potencial e que merece ser saudado com “namastê”. A metrópolis parecia orgulhosa, contente de si, por ter em suas ruas uma tal efervescência de convívio humano, celebrando e curtindo, em paz, música de tudo quanto é canto do globo. Sem xenofobia nem puritanismo, Montréal armou o cenário para que a música servisse como um cimento invisível que congrega e reúne, para além das diferenças, mostrando in práxis que um outro mundo é não somente possível. Já há certas Zonas Autônomas Temporárias, para emprestar o termo de Hakim Bey, onde o alter-mundo da convivência no seio da multiplicidade, da celebração da existência em meio ao reconhecimento pleno da diferença, já está vivo e pulsante.

Foi um dos melhores remédios que já tomei contra uma certa síndrome de misantropia que às vezes me acomete. Neste grandioso evento, ficou-me provado que é sim possível uma civilização que respeite plenamente a arte, que incentive devidamente seu florescimento e que forneça amplo alimento cotidiano àqueles que tem fome de beleza (e nós somos legião…). Neste belo verão québécois, a música jogava na posição de cimento social, de terreno comum, de realidade compartilhada, quiçá até de crença conjunta. Mas digo “crença” não no sentido religioso – crença, que pode ser plenamente laica, na música como bem, como valor, como força prática de congregação, como potência social de celebração coletiva.

Esta valorização cívica, popular, governamental e mesmo empresarial da música mostra-se claramente durante o Festival Internacional de Jazz de Montréal. Ano a ano, ele serve como oportunidade para uma redescoberta renovada do cosmopolitismo em ação, da diversidade cultural em convivência, de gente das mais diversas proveniências e raízes, juntas no mesmo espaço, vivenciando e celebrando. Para além das diferenças, dos contrastes, das discriminações, dos apartheids, descobrindo por experiência que é sim possível encontrar chão comum onde erigir a obra – tantas vezes na história arruinada e traída, ainda vastamente por construir – do que Lennon imaginou como “The Brotherhood of Man”.

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Documentário “Music Without Borders” / “Música Sem Fronteiras” (36 min)

Um filme de Eduardo Carli de Moraes

Unhappy Endings of the Sixties: The Doors by Greil Marcus

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“In 1968 dread was the currency. It was what kept you up all night, and not just the night Bobby Kennedy was shot… Dread was why every day could feel like a trap. (…) The feeling that the country was coming apart – that, for what looked and felt like a casually genocidal war in Vietnam, the country had commited crimes so great they could not be paid, that the country deserved to live out its time in its own ruins – was so visceral that the presidential election felt like a sideshow. In this setting, the Doors were a presence. They were a band people felt they had to see – not to learn, to find out, to hear the message, to get the truth, but to be in the presence of a group of people who appeared to accept the present moment at face value. In their whole demeanor – unsmiling, no rock’n’roll sneer but a performance of mistrust and doubt – they didn’t promise happy endings. Their best songs said happy endings weren’t interesting, and they weren’t deserved.” (GREIL MARCUS, The Doors: A Lifetime of Listening to 5 Mean Years, pgs. 95-96)

greil marcusThe least I can say in praise of the writings of Mr Greil Marcus is this: they expanded my horizons on music, they made me understand music’s presence inside culture, its historical significance, or, to sum things up, the context in which music arises and acts. I wouldn’t call Greil Marcus only a music critic, the one who judges aesthetically upon the merits or vices of certain musical productions. Greil Marcus is also some sort of bold trans-disciplinary intellectual maverick, who knows no fixed boundaries or forbidden signs keeping him from moving all around between different “fields” – like History, Sociology, Psychology, Literature. I’d call him an historian of culture, someone who writes about our present as a culture from an historical perspective, and also a gifted “painter of cultural landscapes”. He’s certainly among the most well-informed and intelligent music critics I’ve read, and he’s certainly – together with guys such as Lester Bangs, Simon Reynolds and Nick Kent – one of the greatest thinkers of pop music and its underground currents. With his prose, Greil Marcus seems to paint portraits of our Western civilization much more than merely commenting on artists – such as Bob Dylan or Van Morrisson – we has written so much about. To paint the big picture, he doesn’t shy away from discussing movies – like Wild in The Streets or Pump Up The Volume – or to quote Thomas Pynchon’s novels in order to set the mood for his musings on  Jim Morrison.

My appreciation of The Doors has been greatly improved, and my horizons about them have been radically expanded, after I’ve read Greil Marcus impressive book about them. It’s incredibly tought-provoking. Suddenly The Doors were not only a rock and roll band (and a damn good one!), but also a symptom of an historical epoch. A symbol of the dark side of the Sixties. A “dystopic” band, outstranged in an era of Utopia was also an important part of the cultural landscape.  The Doors were like a psycho who stabs in the heart the flowery dreams of the peace-and-lovin’, tree-hugging, pot-smoking acid-heads known as “Hippies”. The Doors were more like dark flowers bursting out of a swampy, bleak age: that of the napalm bombing and other techniques of genocide used against Vietnam (and later Cambodia); of Charles Manson’s cult killing frenzy that sent the whole Los Angeles drowning in dread; and, as “The Other Side Of Woodstock”, the deaths of Altamont

After reading this book by Marcus, I began wondering: perhaps the task of the music critic isn’t merely passing judgement – either cherishing or condemning the artists he’s writing about – but instead attempting to share with his readers the big picture, the cultural context in which some musical phenomenon emerges. That’s what Marcus accomplishes when he paints the whole Zeitgeist that surrounded The Doors: we are reminded of some of the tragedies of those times in Los Angeles (like the bloodshed caused by Charles Mansonites), which appear as the dark side of the Flower Power utopia. The Door are “riders on the storm”, like “dogs without a bone”, and there are killers on the roads (and also inside the White House and the Pentagon…).

In Marcus’ pages, we journey through some of Jim Morrison’s most extreme behavioural excesses. Like that fateful night in Miami when he was arrested for his use of obscene language and offensive nudity (some say he only pretended to jerk off… not a big deal, and certainly not a thing that should get anyone in jail!). He’s certainly not the first rock’n’roller, nor will the last, to be caged like a wild beast by authorities who felt their sacred institutions had been mocked and debunked by these subversive artists that needed to be spanked into silence.

Marcus also makes the reader imagine Jim Morrison in the process of drinking himself to death, while he struggles to write the soundtrack for the agony of a drunken swan who has consumed too much booze and too much Rimbaud. We are taken in a roller-coaster ride on the wings of The Doors’ poetry and music, where one can sense a celebration of Dyonisian eroticism mixed with an obssession with Death and Psychosis. We are invited to understand the band as an occurrence in the history of culture that continues on a path treaded not only in rock’n’roll, but within a broader cultural landscape that includes poets, playwriters and mystics:

“The Doors saw themselves as much in the tradition of fine art – a tradition within the tradition, the stream of art maudit that carried Blake, Poe, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Jarry, Buñuel, Artaud, and Céline to their doorsteps – as in the tradition of rock’n’roll. For them rock’n’roll itself was already a tradition, full of heroes and martyrs…” – GREIL MARCUS, A lifetime of listening to five mean years – The Doors (New York: Public Affairs, 2011, Pg. 132)

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The Doors were surely innovators in the sixties, both musically and lyrically, and Greil Marcus points out some of the elements that made Jim Morrison, Robby Krieger, Ray Manzakek and John Densmore an outstanding cultural phenomenon. When “Light My Fire” exploded, skyrocketing to the top of the charts, and the band’s debut album was released to wide-spread impact on the U.S. rock scene, most people knew that this guys weren’t deemed to become a one hit wonder to be forgotten in the next summer. They sounded more subversive (“Break on Through” antecipates The Sex Pistols) and less optimistic than most “hippie bands” that celebrated Peace & Love. Even tough The Doors also celebrated consciouness expansion psychedelics (starting with the name of the band, a tribute  to Aldous Huxley’s The Doors of Perception), there was also a quite bleak and scary mood in some of the groups’ songs, like the nightmarish explorations of the darkest corners of the human mind in “The End” (a song about, among other things, a psycho who acts out Freud’s Oedipus Complex, kills his father, and… you know what!). In the following words, Marcus describes a moment in the The Doors’ path where darkness was closing in and the band was falling apart:

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 “When The Doors recorded ‘Roadhouse Blues’ in November 1969, Morrison’s arrest in Miami the previous March, the three months of concerts cancelled everywhere in the country that followed, the felony trial looming in the next year, the likelihood of prison, and after that the end of the band, were only the most obvious demons. The specter of the Manson slaughter hung over every Hollywood icon, hanger-on, or rock’n’roll musician as if it were L.A.’s Vietnam. Everyone – people who had been in Manson’s orbit, like Neil Young, or anyone who knew someone who knew someone who had, which was everyone – believed there was a hit list, held by those Mansonites waiting patiently, on the outside, for the word of the messiah. There were reasons to believe that the Manson bands were just a first brigade – a lumpen avant-garde, you could say – for a web of cults biding their time for years, since the late 1940s, some said, when the British sex-magick maven Aleister Crowley, John Parsons, the founder of the Jet Propulsion Laboratory, and L. Ron Hubbard practiced Satanist rituals in Pasadena, determined to summon the whore of Babylon and conceive a living Antichrist.” (MARCUS, 2011, pg. 156-57)

We all know that The Doors’ career has no happy ending: the music is over when Jim Morrison, 27 years old, is found dead in a bathtub in Paris. To understand what went wrong, Greil Marcus explores the lyrics and poems of The Doors’ lead-singer, revealing there what may be called an epic battle, within a human heart, between Eros and Thanatos. It’s always hard, when dealing with Jim Morrison’s poetry, to separate the life-affirming from the self-destructive tendencies. When he invites the listener to a shared experience of “setting the night on fire”, he might be simply talking about of heated and sweaty sex encounter, some rock and rolling in the carnal sense of the expression, but the same song, as you may remember, evokes the images of a “funeral pyre” and of “wallowing in the mire”. The desire for the flame of life to burn with more intensity, with a brighter fire, seems to always have an anguish, arising from consciousness of mortality, underlying it, setting a “mood” for it. As tough the Doors music wanted to hint at the fact that, similarly to the stars that we witness burning in the dark of space, life’s light shines in a backdrop of mortality and finiteness.

 “Before you slip into unconsciousness I’d like to have a another kiss. Another flashing chance at bliss Another kiss, another kiss…”

As Greil Marcus points out, these verses from “The Crystal Ship” can be interpreted simply as a celebration of love’s blisses and thrills, but it also can mean something way darker – like a suicide pact. “To slip into unconsciousness” can mean simply falling asleep, but it also can be read as death approaching, the desire for a farewell-kiss. Even tough the lyrical content can be felt by the listener as a beautiful statement about the delights of lovers, it also can be read as a sympton of painful and  insatiable desire, of Eros’ unquenchable thirst. Greil Marcus’ interpretations got me thinking about this paradox that can be perceived in many of The Doors’ songs: the celebration of Eros as a life-force side-by-side with the painful striving that seems never to lead to full satisfaction (a theme also explicitly adressed by well-known songs by The Rolling Stones and The Replacements, among many others). The “I Can’t Get No Satisfaction” motto, the feeling of being always singing the “Unsatisfied Man Blues”, may well be one of most powerful and reocurring themes of popular music, an enduring element that unites the musical productions of several different epochs.

Greil Marcus book provides an interesting journey for everyone willing to explore the mysteries of Jim Morrison and The Doors, but its merits transcends this: he wrote almost a treatise about the Sixties whole cultural landscape. In his attempt to understand Youth Culture in the 60s, he refrains from a simple-minded and naive praise-singing for the so-called “Woodstock Era”. He invites us to recognize gratefully its merits, but also to question those years with critical eyes. In Greil Marcus’ understanding, rock’n’roll is obviously a powerful cultural force because its greatest artists are considered by the masses as heroes and role-models, whose behaviour thousands (or even millions) of people cherish, admire and attempt to reproduce. Figures like Jimi Hendrix, John Lennon or Janis Joplin act as well-known cultural icons whose lifestyle and creativity inspire large portions of mortals to transcend their own limitations. They act like magnets summoning us to be more like them: creative, autonomous, rebellious, innovative, awe-inspiring, beautifully expressive and emotionally engaging. But – as Greil Marcus argues – one of the dangers we face in this process is this: the apathy and inaction of the masses, who are satisfied with a role of passive spectators and consumers. Marcus points out, for example:

“The Sixties are most generously described as a time when people took part – when they stepped out of themselves and acted in public, as people who didn’t know what would happen next, but were sure that acts of true risk and fear would produce something different from what they had been raised to take for granted. You can find that spirit in the early years of the Civil Rights movement, where some people paid for their wish to act with their lives, and you can find it in certain songs. But the Sixties were also a time when people who could have acted, and even those who did, or believed they did, formed themselves into an audience that most of all wanted to watch. ‘The Whole World Is Watching’ was a stupid irony: people went into the streets, they shouted, gave speeches, surrounded buildings, blocked the police, and then rushed home to watch themselves on the evening news, to be an audience for their own actions…” (p. 56)

For some decades we have been conditioned by the Entertainment Industry, the whole Show Business pervasive environment, that we, “the masses”, shouldn’t think of ourselves as nothing but passive consumers, buying products that enrich stars that are already millionaires. Unfortunately, that’s the way things usually happen: when an artist of outstanding talent and powerful skills of expression arises – like Hendrix, Joplin and Morrison – they tend to get destroyed by the “economical-commercial” environment where they see themselves thrown into. They tend to die at 27 (or at little bit earlier or later), tragically quiting from their pop-star positions. It happened to Janis, Jimi, Jim – and then to Cobain, an then to Amy, and so on and so on… I’m tempted to say, especulating mentally about it, that to die at 27 is not only a re-ocurring event for pop stars, but it says something important about pop-stardom itself. The cultural sickness that, it seems to me, Greil Marcus’s book is aiming to denounce, is the process of idolatry that goes on between we, “the masses”, and those we very sintomatically call “our idols”. 

Once again, The Doors is an excellent example: Jim Morrison died young, but then became a myth, an idol, a sex symbol. His physical body began decomposing in a Paris bathtub when the young musician and poet was 27, but even today – much more than 27 years have gone by after his death… – he’s still an object of some collective adoration (it might be shrinking, but it survives). He left life to enter History, one might say, but I’d rather say he’s voice still echoes among us – and his demise scares us, still, because we can’t fully understand it. Nor can we fully understand the process that lead another 27-year-old international popstar to blow his brains out with a shotgun in 1994. Jim Morrison and Kurt Cobain, it appears to me, got crushed by the machinery of popstardom. When you become a popstar (I suppose, never having been one!), you might get the spotlights, the paparazzis, the magazine covers, the fancy cars to drive to the sold-out concerts, but what comes along, as its downside, is often underestimated. You get sick and tired of hearing stupid and futile gossip about you in the newspapers “social columns”. You get sick and tired of being asked to play “Smells Like Teen Spirit” or “Light My Fire” for the thousandth time… And most people of the aptly titled “Audience” don’t care to be nothing but audience – nothing but passive receivers of a message, a flock of sheep beneath the idolized figure of the musical messiah, who rains down his dictates from the pulpit of the stage.

Instead of autonomy, idolatry breeds passivity. Instead of the independence and willingfulness stated in the Punk ethics of “do it yourself!”, idolatry and popstardom tend to condition us to passively consume messages provided by people we pay so they can express themselves, while we remain without expression – and thus without real significance. Or, to sum things up, as Greil Marcus puts its: many people payed for tickets and went to see The Doors live because they wanted to watch someone being freer and more expressive than themselves. But after the concert ended, and they returned to their day-to-day life, they continued in a passive position, that of consumers of art made by others, they didn’t become artists themselves,  lighting up their own fires inspired by that fire the artist had tried to spread around him like an incendiary!…

This whole business of idolatry and popstardom is obviously breeding disasters – and of the re-ocurring kind. When we transform a flesh-and-blood human being into an idol, and expect him or her to act for us, to express ourselves in our place, and most of all to tell us what to do and how to live, we’re rennouncing autonomy and responsability, making ourselves puppets that place their fates in the hands of the idol. He become an audience that can only receive, or mimic, but that doesn’t get truly transformed in agents.

Thrown into this bizarre hall of deforming mirrors called the Commercial Media, artists hailed to popstardom have this strange reocurring tendency to freak out and die young. I wouldn’t claim to understand all the complex reasons why this happens, but an episode of Jim Morrison’s life appears to me to contain one of the answers to our riddle: in one of those moments on stage when he gets possessed by rage, Jim Morrison begins to attack his audience verbally, with a viperish and misanthropic discourse, showing how he despises those beneath him. He drunkely shouts to his audience (to us all, really): “Why do you let people push you around? How long do you think it’s gonna last? How long will you let it go on? How long will you let ‘em push you around? Well, maybe you like it, maybe you like it been pushed around! And love getting your face getting stuck in the shit! You love it, don’t ya? YOU’RE ALL A BUNCH OF SLAVES!”

Maybe he meant that people were doing less than they could, that they weren’t acting out as much as they should, for example to stop the Vietnam War or the Latin American military dictartorships (like the one who started out in Brazil, 1964, sponsored by the U.S.). Maybe he meant that people were too shy and well-behaved to really revolt against authoritarian elements in society – like the whole Police and Prison complex, or the Army, or presidents and politicians who were also war criminals and mass murderes. Maybe he meant that we, a “bunch of slaves”, hadn’t yet proclaimed our own independence: there we were, the masses of idolatry, powerless and disconnected, watching someone acting out and struggling to create freedom and beauty – and yet we ourselves weren’t acting collectively so powerfully and widely as we could towards the collective building of freedom and beauty. Most of the people who constituted the masses were watchers and not agents, consumers and not creators, followers and not leaders. And lots of people were certainly apolitical, individualistic, disengaged, and mostly indifferent to the destinies of the dispossed, the murdered, the peryphery of the so-called First World. Many of us have bought the obscene slogan and ideologies summed up by “better dead than red” or “kill a gook for god”.

At the unhappy ending of the Sixties – when nobody knew yet how many thousands of dead bodies had resulted from Vietnam, nor anyone knew how many Charlies Mansons the future held in store, nor how many Black Panther Party activists would be murdered… – a band opened a door through which the decade could see itself as an utopia unfulfilled, a failed attempt at freedom and justice, a nightmare stinking of napalm and Agent Orange. Sometime before dying at 27 in a Paris bathtub, Jim Morrison’s screamed on the speakers for his audience (for all of us, really): “You’re all a bunch of slaves!” The provocation still echoes and lingers on.

Article by Eduardo C. Moraes,
Originally published in Awestruck Wanderer.
Also reblogged by The Jim Morrison Project.