
I. PROGNÓSTICOS SINISTROS
Gente apocalíptica é algo tão velho quanto andar pra frente: o Fim do Mundo é um mito presente nas mais variadas culturas, história afora, e hoje não é diferente. O Apocalipse, temido ou prometido, está presente entre nós como um dos fantasmas que mais assombra nossa vida individual e coletiva. O que há de novo no “catastrofismo” contemporâneo é que ele não depende mais de uma fé religiosa, mas manifesta-se com força no meio altamente secularizado das ciências naturais e humanas. Ou seja: aqueles que talvez valha a pena chamar de “catastrofistas esclarecidos” baseiam seus alertas e alarmes sobre o futuro da Humanidade na observação empírica e estudo estatístico dos efeitos causados pelo conjunto das ações humanas sobre o planeta. Há algo muito próximo de um consenso global entre cientistas de que catástrofes em larga escala estão em gestação com a continuação dos processos que causam o Efeito Estufa e o Aquecimento Global. Em This Changes Everything, Naomi Klein sintetiza com brilhantismo o cenário:
“Climate change has become an existential crisis for the human species. The only historical precedent for a crisis of this depth and scale was the Cold War fear that we were heading toward nuclear holocaust, which would have made much of the planet uninhabitable. But that was (and remains) a threat; a slim possibility, should geopolitics spiral out of control. The vast majority of nuclear scientists never told us that we were almost certainly going to put our civilization in peril if we kept going about our daily lives as usual, doing exactly what we were already doing, which is what the climate scientists have been telling us for years.”
Na paz armada e tensa que opôs o Império Norte-Americano ao Império Soviético durante a guerra dita “Fria”, a Humanidade parece tremer de medo diante da perspectiva do Apocalipse Nuclear. Várias obras de arte refletem este zeitgeist, ainda que de modo satírico e ultrairônico (Dr. Strangelove de Stanley Kubrick), de modo sem misericórdia e catastrofista (Threads, filme britânico), seja em música folk de protesto (Bob Dylan e sua “A Hard Rain’s Gonna Fall”). Agora, o perigo que nos ronda é de outra natureza, como Naomi Klein relembra: nossa civilização está sob ameaça se continuar no mesmo rumo. A bomba atômica era um desvio de rumo, uma irrupção de exceção, um episódio extremo. A queima de combustíveis fósseis, nas últimas décadas, tem sido de um extremismo constante, de um exagero institucionalizado.
“My mind keeps coming back to the question: what is wrong with us? What is really preventing us from putting out the fire that is threatening to burn down our collective house? I think the answer is far more simple than many have led us to believe: we have not done the things that are necessary to lower emissions because those things fundamentally conflict with deregulated capitalism, the reigning ideology for the entire period we have been struggling to find a way out of this crisis. The twin signatures of this era have been the mass export of products across vast distances (relentlessly burning carbon all the way), and the import of a uniquely wasteful model of production, consumption, and agriculture to every corner of the world (also based on the profligate burning of fossil fuels). Put differently, the liberation of world markets, a process powered by the liberation of unprecedented amounts of fossil fuels from the earth, has dramatically sped up the same process that is liberating Arctic ice from existence.”
O capitalismo tentou celebrar seu triunfo definitivo, cantar em louvor ao Fim da História, quando caiu o muro de Berlim e a URSS desagregou-se. Hoje já percebe-se o esgotamento deste discurso triunfalista com as montanhas e montanhas de evidências que se acumulam e que demonstram a escala colossal dos malefícios causados pelo capitalismo globalizado planeta afora. O desrespeito aos direitos humanos mais elementares que é perpetrado pelas mega-corporações transnacionais (como o tratamento que a Nike confere a seus empregados nos sweatshops da neo-escravidão na Ásia) é apenas um lado da moeda. Do outro lado da moeda está o extrativismo predatório de recursos naturais que, muitas vezes, só se pode tirar da terra depois de passar por cima dos cadáveres de comunidades milenares. O trator do Progresso têm deixado em seu rastro um trilho de devastação que inclui os oceanos os mares os rios os ares os bichos as plantas e nós mesmos.
“As a result, we now find ourselves in a very difficult and slighty ironic position. Because of those decades of hardcore emitting exactly when we were supposed to be cutting back, the things we must do to avoid catastrophic warming are no longer just in conflict with the particular strain of deregulated capitalism that triumphed in the 1980s. They are now in conflict with the fundamental imperative at the heart of our economic model: grow or die. Once carbon has been emitted into the atmosphere, it sticks around for hundreds of years, some of it even longer, trapping heat. The effects are cumulative, growing more severe with time. Our economic system and our planetary system are now at war. Or, more accurately, our economy is at war with many forms of life on earth, including human life. What the climate needs to avoid collapse is a contraction in humanity’s use of resources; what our economic model demands to avoid collapse is unfettered expansion.”
A encruzilhada histórica em que nos encontramos, impelidos para o futuro e de olhar voltado para o passado, como o Anjo de Klee interpretado por Benjamin, coloca-nos diante de escolhas radicais: o nosso sistema econômico, que deseja o crescimento infinito da produção e do consumo, está causando o colapso global dos equilíbrios ecosistêmicos. Em prol da acumulação de capital no topo cabeça-de-alfinete da pirâmide social, as elites hoje poluem e devastam o planeta com uma impunidade que há de deixar espantadíssimos nossos netos e bisnetos, se eles chegarem a vir à vida. Um dos méritos maiores do livro de Naomi Klein está na clareza translúcida com que ela afirma que há sim uma contradição tremenda no seio do sistema econômico hegemônico: o capitalismo e o planeta estão em guerra. E a pior de todas as notícias é esta: o capitalismo está vencendo a guerra. E todos estamos, com isso, perdendo feio.
“By posing climate change as a battle between capitalism and the planet, I am not saying anything that we don’t already know. The battle is already under way, but right now capitalism is winning hands down. It wins every time the need for economic growth is used as the excuse for putting off climate action yet again, or for breaking emission reduction commitments already made. It wins when Greeks are told that their only path out of economic crisis is to open up their beautiful seas to high-risk oil and gas drilling. It wins when Canadians are told our only hope of not ending up like Greece is to allow our boreal forests to be flayed so we can access the semisolid bitumen from the Alberta tar sands. It wins when a park in Istanbul is slotted for demolition to make way for yet another shopping mall. It wins when parents in Beijing are told that sending their wheezing kids to school in pollution masks decorated to look like cute cartoon characters is an acceptable price for economic progress. It wins every time we accept that we have only bad choices available to us: austerity or extraction, poisoning or poverty.
The challenge, then, is not simply that we need to spend a lot of money and change a lot of policies; it’s that we need to think differently, radically differently, for those changes to be remotely possible. Right now, the triumph of market logic, with its ethos of domination and fierce competition, is paralyzing almost all serious efforts to respond to climate change. Climate change isn’t an “issue” to add to the list of things to worry about, next to health care and taxes. It is a civilizational wake-up call. A powerful message—spoken in the language of fires, floods, droughts, and extinctions—telling us that we need an entirely new economic model and a new way of sharing this planet. Telling us that we need to evolve.”
Naomi Klein
This Changes Everything
Precisaríamos evoluir… No entanto, seguimos queimando petróleo e carvão em quantias estratosféricas, desmatando florestas tropicais como se não passassem de fios-de-cabelo, causando a extinção de milhares e milhares de espécies, ajoelhados diante de um sistema econômico globalizado que por enquanto só provou sua competência em gerar crises, guerras, desigualdades grotescas – e agora, cereja em seu bolo sinistro, a irrupção do caos climático generalizado e seu séquito de grandes catástrofes (a serem remediadas, é claro, com os dogmas invioláveis da Doutrina do Choque).
Um relatório do Greenpeace, “Point of No Return”, classifica as reservas petrolíferas do pré-sal brasileiro, por exemplo, como um dos 14 maiores mega-projetos de “energia suja” hoje em atividade no planeta. Se todos estes empreendimentos de extração e queima de combustíveis fósseis seguirem em frente, o Greenpeace estima que ao fim do século as temperaturas vão ter subido entre 4º e 6º Celsius, com consequências catastróficas para a biosfera e a “teia da Vida” na Terra. Diante de tal cenário de distopia-encarnada, perguntam em um livro pertinente e provocativo Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski: “Há Mundo Por Vir?” A obra, altamente pertinente e saudavelmente impertinente, publicada em 2014 pelo casal antropológico-filosófico carioca, visa esclarecer-nos e iluminar-nos sobre as mudanças climáticas, seu contexto sócio-político, que tipo de futuro está se desenhando, que ações no presente seriam desejáveis, além de mapear algumas das ideias mais interessantes que estão atualmente em circulação sobre os mundos que vão findando e os mundos que ainda estão por findar (que mundos hão de sobreviver?):
DA PROLIFERAÇÃO DAS DISTOPIAS
“As distopias proliferam; e um certo pânico perplexo (pejorativamente incriminado como “catastrofismo”), quando não um entusiasmo algo macabro (recentemente popularizado sob o nome de “aceleracionismo”), parecem pairar sobre o espírito do tempo. O famoso “no future” do movimento punk se vê subitamente revitalizado…” -D. DANOWSKI & E. VIVEIROS DE CASTRO (2014) [1]
O futuro é algo que não se pode possuir. Ninguém consegue comprar – é o destino inelutável dos mortais – um futuro sem fim. Entre o berçário e a tumba, cada um de nós, animais humanos e não-humanos, tem um tempo de vida limitado pelas infinitudes do antes-d0-nascimento e do depois-da-morte. Mas, para mencionar uma famosa constatação Paul Valéryana, “também as civilizações são mortais”, e em nossos tempos figuras como Jared Diamond escreveram em minúcias sobre as causas da decadência de certas sociedades, impérios, civilizações. Em nosso futuro, portanto, existe a possibilidade do colapso. Que mundos vão acabar, e que mundos surgirão no lugar, são algumas das questões que motivam a criação de obras-de-arte destinadas a debruçar sobre estes mistérios do tempo e suas transformações. E por “obras-de-arte” penso em novelas sci-fi, filmes-catástrofe, mitos apocalípticos de várias seitas religiosas, quadros sinistros (feito aquelas pinturas-guerra de Brueghel), e por aí vai. Nos últimos anos, a profusão de obras distópicas foi tamanha que talvez possa se falar em epidemia. Só no cinema, tivemos Melancolia (Lars Von Trier), Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles), Snowpiercer – Expresso do Amanhã, Elysium, The Road (James Hillcoat),O Dia Depois De Amanhã (Roland Emmerich), The Hunger Games, Disruption, The Age of Stupid…
O jornalismo televisivo não cessa de estar repleto de notícias sobre furacões (como o Katrina ou o Sandy), tsunamis devastadores (como aquele que arrasou o Japão e trouxe destruição imensa na usina nuclear de Fukushima, com o vazamento para a atmosfera e para os mares de quantias imensas de material radioativo e cancerígeno), secas e inundações (desde a falta d’água severa que afeta estados como São Paulo e Califórnia quanto a subida dos níveis das águas que afoga comunidades litorâneas). Há quem creia que é punição dos deuses por nossos excessos Prometéicos, mas os que descreem em deuses não deixam talvez de crer que há decerto culpa humana na determinação material destes eventos.
Climatologistas, ambientalistas, ecologistas, antropólogos, às vezes pretendem, em seus discursos e alertas, conhecer o futuro desde hoje, uma capacidade de “vidência” que os mais céticos podem considerar suspeita. Como é que eles sabem tanto assim sobre o nosso futuro, por que deveríamos crer em seus pesadelos? Bem, aqueles pejorativamente incriminados como “catastrofistas” dizem possuir vasto repertório de provas empíricas daquilo que estão afirmando. As centenas e centenas de cientistas congregados no IPCC (O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), já publicam há anos seus relatórios onde comunicam o consenso quase completo da comunidade científica global sobre o aquecimento das temperaturas planetárias causadas pela humanidade, em especial após a industrialização iniciada a partir do séc. 16). Os alertas sobre um potencial futuro repleto de catastróficas destruições e inimagináveis barbáries sociais, porém, não “ressoam” tanto assim nos centros-de-poder onde as alta finanças, os especuladores das bolsas-de-valores, os mega-banqueiros concentradores de capital, preferem prosseguir no modo lucrativo de uma mentalidade “presentista”, isto é, irresponsável, esquecida de propósito do Tempo, da continuidade da Vida através das gerações. Como disse Bruno Latour em Jamais Fomos Modernos,
“os modernos têm a particularidade de compreender o tempo que passa como se ele realmente abolisse o passado antes dele. Pensam todos que são Átila, atrás do qual a grama não crescia mais. Não se sentem distantes da Idade Média por alguns séculos, mas separados dela por revoluções copernicanas, cortes epistemológicos, rupturas epistêmicas que são tão radicais que não sobrou nada mais deste passado dentro deles – que nada mais deste passado deve sobreviver neles.” LATOUR, B. [2]
Há portanto uma certa “fobia do passado”, no ar dos tempos, que acarreta também uma “cegueira do futuro”; os modernos não querem de modo algum retornar a um estágio no passado, antes da invenção da penicilina e dos antibióticos, dos carros e dos aviões, dos arranha-céus e dos computadores globalmente conectados, mas os modernos tampouco parecem à vontade com a ideia de pensar nas gerações futuras, todos aqueles ainda por nascer, preferindo não abordar com a mente fatias de tempo mais amplas do que a mini-fatia dentro da qual desenrola-se uma vida.
O fim do mundo manifesta-se em múltiplas formas, já que são muitos os diferentes “mundos” (o do poeta místico, feito William Blake, Arthur Rimbaud e Clarice Lispector sendo bem diferente do mundo descrito por engravatados que andam em blindados e especulam em Wall Street), e também são muitas as diferentes rotas para os vários finais. Em certas narrativas, o mundo pode acabar como uma terra devastada e sem vida: Carl Sagan, em Cosmos, pedia-nos para olhar para os planetas vizinhos à Terra para que nos lembrássemos do que pode se passar com um corpo celeste que não possui as condições climáticas e ecosistêmicas de que aqui gozamos e que foi condição sine qua non para o surgimento e evolução da vida, este processo-em-curso que a humanidade agora ameaça, com o prosseguimento de seu extrativismo frenético de recursos naturais não-renováveis, a revoltar-se contra nós. Pensávamos que o mundo era indiferente a nós, e eis que descobrimos que ele responde a nossos atos e que pagaremos o preço por nossos excessos.
O que Gaia pede de nós é sabedoria, caso contrário ela chaqualha-se, como um cão faz com suas pulgas, para expulsar o hospedeiro parasita. Isto, é claro, é mais poesia do que ciência. Mas o que impede que o cientista e o poeta concordem, como ocorre, aqui e ali, em Ponto de Mutação, de Fritjof Capra? Talvez ambos concordem que hoje estamos sob ameaça de caotizar e des-balancear o clima do planeta, através dos impactos de nossas atividades sobre a atmosfera, os recursos hídricos, as entranhas da terra. No Antropoceno, o homo sapiens mais merece a alcunha de homo destructor, aquele que, como Átila, passa pelo presente de modo a não deixar grama crescendo sob seus pés. Talvez estejamos arrasando nosso sistema de produção de alimentos com nossos atos coletivos – o que é nada mais que prática progressivamente suicidária.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[2] LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos – Ensaio de Antropologia Simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994, pgs. 67-68.
Publicado em: 04/02/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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