ANATOMIA DO CAOS | Documentário completo https://www.youtube.com/watch?v=MG3XZYu0_No
Dirigido por Dandara Ferreira, o documentário revisita um dos períodos mais duros da história recente do Brasil: a pandemia de Covid-19 e a CPI da Covid. Com acesso aos bastidores da Comissão, o filme reúne imagens, depoimentos e acontecimentos que ajudam a reconstruir as decisões, os conflitos e as consequências daquele período.
Depois de uma trajetória pelos cinemas e de provocar debates em diferentes cidades do país, Anatomia do Caos agora poderá chegar ainda mais longe.
São dez dias para assistir, compartilhar e fazer essa história circular.
Imunize-se contra o esquecimento.
Direção: Dandara Ferreira
Produção: Movioca Content House, Las Margaridas e Labav
Distribuição: Descoloniza Filmes
JOSÉ GERALDO COUTO – O documentário de Dandara Ferreira é um mergulho dilacerante num pesadelo que não se pode esquecer
É célebre a frase do jornalista e escritor Ivan Lessa: “De quinze em quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos”. Hoje em dia parece que o tempo se acelerou, e esse intervalo se abreviou para alguns meses ou semanas. Daí que a primeira sensação causada pelo documentário Anatomia do Caos (BRA, 2026), de Dandara Ferreira, seja a de vertigem: somos lançados de chofre a um pesadelo do qual julgávamos ter acordado.
O filme se concentra nos trabalhos da CPI da Covid e em tudo o que a cercou: a disseminação da doença, a paralisação da vida, a negligência do governo, o debate científico e pseudocientífico, tendo como pano de fundo a macabra contagem dos mortos às centenas de milhares. A comissão parlamentar funcionou de abril a outubro de 2021, portanto há meros cinco anos, mas parece ter acontecido em outra era, em outro país.
Só que não. Com perdão do spoiler, dos quase setenta indiciados no relatório da CPI pelos variados crimes cometidos durante a pandemia, nenhum foi condenado e punido. O chefe supremo do morticínio está preso, como se sabe, mas por outros crimes.
Mas vamos ao filme. A estratégia de choque, que talvez seja a única legítima para abordar esse tema, está dada desde o início, com imagens dramaticamente contrastantes: das multidões ruidosas nas ruas no Carnaval de 2020 corta para as cidades-fantasma (Rio, São Paulo, Brasília) do início do lockdown, algumas semanas depois. Da festa dionisíaca ao silêncio sepulcral sem escalas. Os plenários e corredores vazios do próprio Congresso Nacional serão uma imagem recorrente, quase um leitmotiv do documentário, bem como os edifícios oficiais sob o magnífico céu de Brasília.
Em termos informativos, o principal trunfo de Anatomia do Caos são as imagens de bastidores: reuniões fechadas dos membros da comissão, depoimentos deles no carro, em trânsito por uma Brasília deserta, conversas telefônicas privadas. São imagens e discursos inéditos, captados pela câmera inquisidora da diretora Dandara Ferreira.
O “dispositivo” principal do filme é esse: foco na CPI e nos seus participantes, tanto da oposição como do governo. Depois que ela começa, só em dois breves momentos, salvo engano, saímos de Brasília: uma motociata do então presidente em Florianópolis e a disputa em torno das cruzes em homenagem aos mortos na praia de Ipanema.
No mais, é um desfile de figuras sinistras daquele governo ou de seu entorno, sendo desmascaradas uma a uma nas sessões da comissão. Quem ainda se lembra deles? Destaque para os autoproclamados médicos Antony Wong e Nise Yamaguchi, que formavam a “assessoria paralela” do governo. Preconizavam, primeiro, a “imunidade de rebanho” e depois o “tratamento precoce” (leia-se cloroquina) contra a doença, descartando as vacinas. A doutora Nise se candidatou a deputada no ano seguinte e não foi eleita. O dr. Wong teve destino mais irônico: tratou-se com cloroquina e morreu de covid.
No meio do caos, um ministro atarantado, o general Pazuello, cancelava por ordem do presidente a compra de uma vacina que poderia ter salvado milhares de vida. Sua justificativa, aos risos: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. O riso de deboche, ápice da irresponsabilidade homicida, aparece em vários momentos na boca sem máscara do que mandava – e na de seu filho mais velho, que agora tenta ocupar o seu lugar.
Outros escândalos subsidiários vêm à tona ao longo dos trabalhos da comissão: a corrupção bilionária na compra abortada da vacina Covaxin; a política escabrosa do plano de saúde Prevent Senior, que falseava atestados e diminuía a oxigenação dos idosos até que morressem e desocupassem os leitos, porque afinal “óbito também é alta”; o descaso diante da falta de oxigênio em Manaus etc. etc.
Diante do trabalho didático e ao mesmo tempo combativo do filme, só há um reparo importante a fazer: o excesso de música sentimental em muitas passagens que talvez tivessem ainda mais contundência se nelas imperasse o silêncio, ou a dureza das palavras. À parte isso, a mistura nefasta de despreparo e desumanidade dos que estavam no poder choca pela intensidade e pela proximidade – e mais ainda pela ameaça de retorno dessa era de trevas. Anatomia do Caos é um solavanco, um susto, um trauma terapêutico. Quem quiser que continue dormindo ou desmemoriado.
LEIA TB – Flávio Bolsonaro, criminosamente irresponsável durante a covid19, foi indiciado na CPI por incitação ao crime https://acasadevidro.com/flavio-bolsonaro-criminosamente-irresponsavel-durante-a-covid19-foi-indiciado-na-cpi-por-incitacao-ao-crime/
Publicado em: 17/10/26
De autoria: casadevidro247
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