Diminuição brutal do alcance orgânico dos perfis “esquerdistas”, deletamento sumário de perfis que “violam as diretrizes da comunidade”, shadowban (banimento não admitido), derrubada arbitrária de contas de anúncios (inclusive aquela do presidente da república faltando 10 dias para a eleição), tudo isso ainda é só a ponta do iceberg: a Meta (valor de mercado: US$ 1,85 trilhão) tá metida em algo muito mais grave do que isso. A intervenção Yankee no processo eleitoral brasileiro não precisa de tanques, de soldados, de força bruta, mas sim de uma guerra híbrida que tem na comunicação digital sua ponta de lança.
Olhemos para a parte submersa do iceberg: desde 2025, excelentes trabalhos jornalísticos vem sendo publicados pelo Intercept e pela Agência Pública, dentre outros, apontando para a participação direta das Big Tech made in U.S.A. no empoderamento midiático da extrema-direita em nosso país. O PL realizou em Fortaleza, em Maio de 2025, seu 2º Seminário Nacional de Comunicação, que contou com a participação de representantes e oficinas ministradas por Big Techs como Google e Meta. Ou seja, o partido da familícia Bolsonaro, o mesmo PL que tomou a imensa maioria das cadeiras do Senado e da Câmara na catástrofe nacional de 4 de Outubro, foi capacitado por várias autoridades das Big Tech, sobretudo Meta e Google. Vale reler a matéria de Sérgio Souza no Intercept: https://www.intercept.com.br/2025/06/04/oficinas-google-meta-partido-bolsonaro/
Vejam só: o partido de extrema-direita mais bem-sucedido da história brasileira pós-democratização (e não nos deixemos enganar pelo seu nome aparentemente tão anódino, Partido Liberal, afinal de contas eles não ousariam cometer o sincericídio de nomear-se “Partido Neofascista-Teocrático dos Estados Unidos do Brazil”) tem uma relação simbiótica com os Vale-do-Silicianos.

“O projeto de lei 2.630 de 2020, conhecido como PL das Fake News, é hoje a principal proposta de regulação das plataformas, engavetado após pressão das big techs na Câmara em conluio com a extrema direita.
A narrativa de que a regulação das plataformas é uma estratégia do governo de instaurar a censura do país, responsabilizando usuários da internet pelos conteúdos publicados nas redes, é um discurso que ganha corpo no debate público por meio dos grupos conservadores.
A preocupação é que, de alguma forma, essas medidas possam influenciar nas estratégias comunicativas da extrema direita nas plataformas. Não é nenhum segredo o compartilhamento sistemático de campanhas desinformativas nas redes ou o uso de bots para viralizar assuntos na internet por parte de integrantes desse grupo ideológico.
O assunto, inclusive, foi tratado com chacota pelo senador Rogério Marinho no evento: “Tá cheio de robô do Bolsonaro aqui. Quero agora que todos gritem: ‘volta, capitão’”. O político fazia referência a uma performance de apoiadores de Bolsonaro que viralizou na campanha de 2018, com eleitores do então candidato simulando movimentos robóticos e afirmando: “Eu sou robô do Bolsonaro”. SOUZA, no Intercept
Natália Viana também havia alertado, em 2025, na Agência Pública, para o uso de IA pela extrema-direita capacitada pelo Vale do Silício – https://apublica.org/2025/06/big-techs-e-bolsonaros-incentivam-ia-para-comunicacao-politica-em-seminario-do-pl/
Na entrada do 2º Seminário de Comunicação do Partido Liberal (PL), que aconteceu em Fortaleza (CE) na última sexta-feira (30/5), uma sala de paredes de vidro acolhia uma fila de pessoas que conseguiram uma senha para ter acesso ao treinamento em inteligência artificial (IA). Em cinco mesas, jovens com cortes de cabelo moderninhos ensinavam pacientemente o que significa inteligência artificial generativa, como usar ferramentas para melhorar seus textos e criar imagens a quem quisesse ouvir. Ao lado, um túnel com enormes telões exibindo imagens de Jair Bolsonaro em cores vibrantes levavam o público até o grande auditório, dando uma impressão que se passava por uma máquina do tempo que levava ao futuro; enquanto, dentro do salão, o ex-presidente era louvado em hits modernosos que iam do funk – “volta Bolsonaro” – a um reggaeton com forte sotaque latinoamericano – “o mito chegou e Brasil acordou” – misturado a um rap cantado por uma criança (“ideologia de gênero, ui, que nojeira”).

16 bilhões de dólares (eu disse BI, não MI!): eis o que a Meta já pagou ao ser condenada na justiça estadunidense após ser acusada de promover o vício em redes sociais e causar uma pandemia de transtornos mentais.
Eis aí uma outra questão que tem sido pouco comentada no Brasil, envolvendo a empresa dona do Zap, Insta e Face. Ela fisgou quase todo mundo e nos deixou viciadinhos. A gente não sai mais do Zapistão, não para de rolar feed no Insta e fazer stories, não cessa de brigar no Facebook… a campanha eleitoral está alarmantemente confinada no Metaverso.
E a empresa encabeçada por Zuckerberg pode até dar a impressão de ser Toda-Poderosa, mas a verdade é que o colapso desta mega-corporação não é implausível diante da quantidade de processos judiciais em que a corporação foi condenada, que é gigantesco. E ela também foi condenada pelo escândalo da Cambridge Analytica que elegeu Trump com auxílio de Steve Bannon, um dos mais perigosos ideólogos do neofascismo no planeta. Pagou 725 milhões de dólares (leia na BBC).
A Meta, portanto, está sob fogo pesado nos tribunais por seus crimes – e está desesperada pelos capitais de plutocratas e partidos de direita que venham irrigar, através de impulsionamentos, o Caixa da empresa que, se a tendência continuar, vai precisar pagar bilhões e bilhões pelos malefícios sociais que seu produto com design viciante carrega.
Precisamos de uma insurgência cívica contra o abuso de poder de corporaçoes estadunidenses na soberania nacional e no processo eleitoral. Uma insurgencia crítica que já está bem delineada nesta “Carta dos Criadores e Influenciadores progressistas por Lula e por uma internet democrática, soberana e aberta”. No caso de uma derrota de Lula no segundo turno, nossa atitude não deve ser de retraimento e depressão paralítica, mas sim de uma revolta cidadã organizada no sentido de buscar a penalização das forças causadoras da catástrofe em curso.
Estamos lutando para a re-eleição de Lula sabendo que uma imensa derrota já aconteceu, o Senado e Câmara já estao infestados de fascistas. Que podem ter uma mentalidade medieval mas sabem utilizar uma tecnologia de ponta. E já sabemos que a catástrofe de 4 de Outubro foi propulsionada pela Meta em simbiose com o PL com a viralização algorítmica dos conteúdos bolsotrumpistas. Desde já, precisamos acordar para um novo tipo de militância anti-capitalista que consiste em clusterizar cidadãos conscientes dos malefícios da Big Tech e processar estas empresas em robustos processos que podem feri-las lá onde precisam ser vulneradas, no seu poderio econômico e na sua sórdida capacidade de concentrar capitais e poderes nas mãos de poucos Lordes Tecnofeudais.
Edu Carli, 10/10/26
SAIBA MAIS:
Meta vai pagar US$ 16 bilhões em acordo por alegações de vício de crianças em redes sociais nos EUA https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/08/26/meta-vai-pagar-us-bilhoes-em-acordo-por-alegacoes-de-vicio-de-criancas-em-redes-sociais-nos-eua.ghtml
Meta e a censura algorítmica capilarizada – Saber que existem outros modos de produzir tecnologia é essencial para a cultura revolucionária. https://blogdaboitempo.com.br/2025/12/13/meta-e-a-censura-algoritmica-capilarizada/
Boi, Bala, Bíblia… e Big Tech:
Publicado em: 10/10/26
De autoria: casadevidro247
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