
“DOENTE DE BRASIL”: esta expressão, disseminada por Eliane Brum num instigante artigo de 2019, voltou-me à mente diante da apuração das urnas em 4 de Outubro de 2026: “que adoecimento é este que o psiquiatra Fernando Tenório chama de ‘doente de Brasil’?”, investigou Brum, construindo a várias vozes uma categoria de adoecimento psíquico-emocional, uma depressão que “só pode ser sanada por mudanças sociais”, que não pode ser vencida se medicalizada pois precisaria que o Brasil se tornasse menos tóxico. Esta toxicidade poderia diminuir muito se pudesse começar pela punição exemplar da conduta criminosamente irresponsável da familícia Bolsonaro, uma das piores hecatombes que já assolou este território desde a redemocratização, que fez um “coro demoníaco” durante seu governo genocida, ecocida e massacrador dos vulneráveis.
Como a gente faz pra não pirar neste país onde, após o cataclismo gigantesco que foi o bolsonarismo entre 2019 e 2022, dezenas de milhões de eleitores querem mais daquela tempestade-de-bosta, daquele chumbo grosso de perversão e sadismo que foi o pior governo de nossa história republicana? Na iminência desta eleição de 2026, fui assolado por picos de transtorno de ansiedade e ataques daquela “melancolia de esquerda” que o filósofo político italiano Enzo Traverso mobiliza em seu pensamento.
O bumerungue desta interrogação vem voando em nossa direção: como evitar o adoecimento psicosomático diante de um país onde dezenas de milhões vão às urnas pedir mais uma dose de bolsonarismo? Soa similar a pedir mais uma dose da peste bubônica, pedir mais uma dose do Terceiro Reich. Não ouviram nenhuma das lições da História?!? Não aprenderam porra nenhuma com 700.000 mortos, propaganda de medicamento ineficaz, ataque às máscaras e atraso da vacinação? Diante dos eleitores do Coiso 2, do primogênito do ex-presidente hoje condenado a 27 anos de prisão, ocorrem para descrevê-los os neologismos do poeta José Paulo Paes:
Economiopia
Desenvolvimentir
Utopiada
Consumidoidos
Patriotários
Suicidadãos
O site da CNN.COM publicou uma grande reportagem de Alessandra Freitas que contem esta foto de Brian Snyder/Reuters, batida em Sampa no 1o de Outubro: uma pedestre passa perto de posters que se referem ao desgoverno de Jair “Capitão Cloroquina” Bolsonaro – indiciado por 11 crimes na CPI da qual caçoou com uma gargalhada – durante a pandemia de Covid-19:

O Flávio, filhote da Besta, miliciano, brother do Vorcaro e dos assassinos de Marielle, esteve plenamente alinhado ao “terraplanismo sanitário” de seu papis. Que, aliás, matou bem mais que 700.000 brasileiros conforme os dados revisados da OMS.

Os eleitores do Coiso 2 não tem memória, muito menos capacidades éticas elementares, mas eis aqui uma dose salutar de memória (que, infelizmente, não vai prestar para nada diante das mentes inamovíveis dos fanáticos, dos rebanhos de manobra da extrema-direita): o relatório final da CPI da COVID no Senado Federal demonstrou que Flávio Bolsonaro foi uma “figura ativa” e “peça central” na estrutura de desinformação que sustentou a retórica antivacina no país. Vários perfis falsos usados para disseminar ataques à ciência eram operados por assessores ligados ao seu gabinete, conforme apontado em um relatório da Polícia Federal anexado à CPI (página 702).
A Revista Fórum apontou: “A CPI relacionou o senador a suspeitas envolvendo o contrato da empresa VTCLog, acusada de participar de um esquema para desviar recursos da Saúde justamente no momento mais crítico da pandemia. Reportagens citadas pelos senadores sugerem que Flávio teria sido acionado para ajudar a resolver impasses na pasta e destravar pagamentos milionários à empresa, mesmo após alertas de técnicos contra propostas superfaturadas (cf. pág. 457).
Há ainda suspeitas de que Flávio tenha encontrado, em Las Vegas, Danilo Trento, acusado como um operador do esquema de propina e superfaturamento da compra da vacina Covaxin. Trento teria sido o responsável pela negociação irregular com o laboratório indiano Bharat Biotech, que teria a Precisa Medicamentos como representante no Brasil.” (Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ao-contrario-do-pai-flavio-bolsonaro-diz-ter-tomado-vacina-mas-cpi-apontou-seu-papel-em-rede-negacionista-e-em-esquema-na-saude/#1)
Está registrado na história (e até mesmo no Twitter do canalha): Flávio Bolsonaro fez defesa enfática de medicamentos como a cloroquina e a hidroxicloroquina, sem eficácia comprovada contra a Covid-19. Em setembro de 2020, após contrair o vírus, ele declarou publicamente: “Estou curado da Covid-19, graças a Deus! Tratei, desde os primeiros sintomas, com hidroxicloroquina e azitromicina.”
E tem mais: em março de 2020, ele defendeu abertamente o “isolamento vertical” e elogiou Jair Bolsonaro por manter a campanha “O Brasil Não Pode Parar”, que incentivava a circulação de pessoas durante o pico da crise (Fonte: https://www.brasil247.com/brasil/antes-da-versao-pro-vacina-flavio-bolsonaro-defendeu-cloroquina-e-atacou-isolamento-na-pandemia/#comments#1).
Fato: a CPI da Covid pediu o indiciamento de Flávio Bolsonaro por incitação ao crime (artigo 286 do Código Penal). O relatório final da comissão listou seu nome entre os 66 indiciados, ao lado do pai e dos irmãos. Além disso, um relatório alternativo da CPMI do INSS propôs o indiciamento de Flávio por organização criminosa.


Em resumo, as evidências contra Flávio Bolsonaro não se resumem a um único ato, mas a um conjunto de condutas que, segundo as investigações, contribuíram para agravar a crise sanitária: desde a disseminação de desinformação por meio de sua estrutura de gabinete, passando pela promoção de tratamentos ineficazes e oposição a medidas de contenção, até o uso de sua influência política para controlar hospitais federais em um momento crítico.
Agora, este bosta, que deveria estar também ele detrás das grades, não apenas está nas urnas mas corre o risco de vencer uma eleição marcada pela Trumpficação da América do Sul. Como não ficar “doente de Brasil”? Como não temer o triunfo de uma calamidade triunfal? Teremos mesmo a força de eleger Lula para um quarto mandato e seguir para o necessário e inadiável ENTERRO desse câncer em metástase que é o BolsoTrumpismo?…

SAIBA MAIS: América Latina: a ultradireita tem projeto? Ela governa quase toda a região. Mas, quando se volta a falar em soberania, propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Espera em vão por capital externo. Não mobiliza esperanças, mas rancor. É frágil, desde que surja horizonte de justiça social.
OutrasPalavras
Direita Assanhada, Leituras Antifascistas
Por Álvaro García Linera
https://outraspalavras.net/direita-assanhada/americalatina-ultradireita-projeto/
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UM PAÍS EM DEPRESSÃO – por Faulhaber em El País

Publicado em: 05/10/26
De autoria: casadevidro247
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