
Eu busquei com tanto afinco este filme sobre “a revolução científica” propulsionada por Lynn Margulis no campo da evolução biológica, e com alegria incontida enfim o encontrei no site Kolektiva.Midia e o assisti com deleite; aqui está meu caderno de notas, em construção, sobre os ensinamentos mais fascinantes que pretendo ter extraído deste documentário de J. Feldman realizado por “Hummingbird Films”. Assista em https://kolektiva.media/w/xmbm7yH8BGfZdrGT9aiEL9.
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Meu principal motivo para sair à caça do filme e me engajar em seu estudo é a escrita de minha tese de doutorado, que inclui um vasto, um tanto labiríntico, e cada vez mais complexo CAPÍTULO GAIA – acima, Margulis e Lovelock estão fotografados na companhia de uma estátua da deusa grega. O filme confirmou minha hipótese de que a Teoria Gaia pode ser compreendida de maneira muito mais pedagógica e concreta através de imagens, mais até do que por palavras, e aí radica a importância do cinema também como instrumento para comunicar cosmovisões.
“THE TISSUE OF GAIA” – Não se trata de um conceito abstrato, Gaia nomeia uma entidade concreta. Lynn o demonstra ao “sujar” as mãos nos lagos e praias onde ela agarra a matéria viva do mundo na forma de micróbios, bactérias, protozoários e outras critters que o comum dos humanos tende, por tolice e ignorância, a desprezar – sem nem suspeitar que sem eles nunca haveria surgido na Terra vida capaz de respirar, nem teria havido sequer um capítulo da aventura humana. Pode-se tocar a carne de Gaia – e quando fala no tissue of Gaia, Lynn ensina que este, em larga medida, é tecido de bactérias, assim como nossos próprios corpos estão habitados por uma profusão delas. É com humildade que a humanidade deveria reconhecer com mais gratidão que as formas de vida diminutas são muito mais importantes do que usualmente acreditamos.
“THE WASTE OF ONE IS THE FOOD OF ANOTHER” – Urina, fezes, eis o que aprendemos desde cedo a considerar como ontologicamente inferior – coisas sujas, feias, fedorentas, nauseantes, a serem excluídas velozmente de nossos entornos. Mijo, merda, são palavras que não nos evocam nenhuma beleza. A gente dá graças a deus e ao avanço técnico-científico que inventou o vaso sanitário com descarga conectado a um sistema de esgoto, que levam pra longe estas cacas. Mas Lynn Margulis ensina otherwise, comunica another kind of wisdom, longe do senso comum, e chocando este. Afirma que os ecossistemas são tão lindos pois o que por um é excretado, a outro serve de alimento. Sem este princípio terrestre-telúrico do the waste of one is the food of another, já estaríamos mergulhados dos pés à cabeça em cocô e xixi. Estes não são matéria inútil, pra outras criaturas eles servem, e por estas são “reciclados”. Seria preciso enxergar a morte também por este prisma Gaiano para compreender que um cadáver é comida, que sua matéria tem serventia, que tudo circula e o metabolismo não cessa.
”THE GENE HAS NO SELF, HOW CAN IT BE SELFISH?” – Dawkins é demolido com uma frase de clareza exemplar, e de crítica afiada. Lynn rompeu com os neo-darwinistas que, na esteira de Spencer (e, antes dele, de Hobbes), acreditam no survival of the fittest. A ênfase na competição talvez seja uma neurose viril, uma patologia masculinista, posando de verdade científica. Cooperação > competição. Não somos os herdeiros de lobos ferozes que foram capazes de sobreviver numa violenta struggle for life em que os fracotes e os feminis desaparecem e são extintos; somos também os herdeiros de bactérias simbióticas, que se fundiram e se remixaram, de holobiontes que se aliançaram, criando formas-de-vida híbridas.

PORTAS ABERTAS PARA O COSMOS – Eu devo um salve de gratidão, uma ação de graças em palavras, à série Cosmos e ao Carl Sagan, primeiro esposo de Lynn. Foi através dos episódios deste mui pedagógico e fascinante TV Show que primeiro entrei em contato com várias teorias científicas e pude acessar a amplitude e a profundidade do trabalho da Lynn Margulis (também colaboradora com Dorion, filho primogênito do casal, co-autor de vários livros com a mãe). Aproveito para convidar à leitura de um velho texto meu sobre esta obra-prima da divulgação científica:
“There is no refuge from change in the cosmos”
Carl Sagan
“NATURE OR NURTURE” – A fórmula errou foi no “ou” – não dá pra dizer nature OR nurture, pois somos sempre, inescapavelmente, nature AND nurture, ou seja, genoma + ambiente. Todo o determinismo por DNA colapsa diante do Lynn Margulismo. O DNA aparece como base-de-dados, decerto importantíssimo, e que é preciso compreender em sua materialidade – a dupla hélice não é apenas um esquema, um diagrama, um desenho de humanos, é uma escadaria em espiral que existe mesmo, visível pelo microscópio, não é nenhuma ficção. Mas dizer que o DNA manda e desmanda, aí já é demais. Ele é parte de um sistema que Fritjof Capra desenhou, convidando-nos a pensar que o DNA funciona em estruturas-de-colaboração auto-poiéticas, e que isolá-lo e transformá-lo na “cabeça” de uma hierarquia é muito mais um fator de equivocação do que de esclarecimento:

“EVOLUTION THROUGH MERGERS” – O individualismo é uma lente míope que nos faz enxergar mal a evolução. Convida a pensar no indíviduo fit e forte, que contra tudo e contra todos vai lá e ganha o boxe da existência ao acumular vítimas de seus nocautes. É um masculinismo do caralho pensar assim e nos faz cegos pros fenômenos fusionais que tão em profusão fazendo a beleza trágica da Vida multiforme. Lynn Margulis ensina, e tenho certeza que Clarice Lispector pensava algo parecido, na bactéria que diz pra outra bactéria: “sim, bora juntar”. A Vida se tece pelo amálgama. Sym-biosis, meu bios diz sim ao seu bios e a gente acopla na festa tragicômica da biofilia. Apesar da parede da célula ser descrita como “parede com controle de fronteira”, não pensemos em algo opaco, mas compreendamos a vida como porosidade. A parede-porosa da célula é atravessável, entradas e saídas, assimilações e excreções infindáveis. To merge is to evolve. O indivíduo que é cego à ontologia de Gaia que ele compõe se nutre de ilusões de separatividade e supremacia. Tamo tudo junto na sopa cósmica mixturada a que se nomea Gaia e que “agora” faz sua “intrusão na História” (cf. Isabelle Stengers), quando na verdade sempre esteve intrometida nela, nem nunca houve História desplugada desta Matriz.

EDITORA DANTES – A bióloga Lynn Margulis nos revela o microcosmos e sua “incessante química da automanutenção”. Seres serpenteantes, micróbios verdes natatórios, cílios, caudas, espermatozoides, óvulos, mitocôndrias, espiroquetas dançam através dos tempos.
A evolução não é um movimento linear. Células têm memória. Cada ser é um desenho feito a partir de associações simples e complexas de células. Existe mais colaboração do que competição. Todos os organismos nasceram da simbiogênese, da cooperação entre nossos primeiros ancestrais.
Nesta obra insurgente, Lynn Margulis faz um balanço dos resultados de seus estudos e desdobra as implicações da simbiose para além da célula, indo até os ecossistemas. Lynn nos lembra que ainda na pré-história, quando as bactérias primitivas começaram a liberar oxigênio na atmosfera terrestre, houve uma hecatombe maior do que qualquer guerra nuclear ou efeito estufa. No entanto, a vida continuou. Para a professora Margulis, Gaia não está ameaçada pela nossa estupidez pois a humanidade é apenas mais uma entre as muitas espécies existentes, e só pode fazer mal a si mesma.


VEJA TAMBÉM:

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https://www.lookindie.com/post/_gaia


Publicado em: 04/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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