Dormir é jornadear rumo a uma terra desconhecida que não está lá fora: é a terra incognita interior. É adentrar, noite após noite, sem poder segurar a tocha costumeira da razão, num labirinto que não se pode prever a feição. A mente desperta, vigilante, exige descanso, o abandono temporário de suas funções, o desligamento da vigilância, mas isso nos exige uma trip ao que há de mais selvagem, indomado e imprevisível na nossa subjetividade recôndita.
A ansiedade diante da queda no sono talvez venha de algo semelhante ao gesto de soltar a mão do corrimão para descer uma escada que conduz a um porão escuro. Que monstros, que fantasmas nos esperam lá embaixo?
Por outro lado, dormir pode ser um deleite, e Gilberto Gil ousou ir na contramão de nossa época produtivista ao celebrar este desfrute: perguntado sobre o que mais gosta na vida, ele respondeu “dormir”, mais até do que cantar, pois se trata de uma “entrega total à existência sem a mediação excessiva do eu” (assista aqui).
Para além de necessidade fisiológica e psíquica, que restaura e repara, consolida memórias, dá novo vigor às funções cognitivas e criativas, o sono pode ser um gozo. Um caminho fecundo explorado pelo psiquiatra Mario Eduardo Costa Pereira em seu livro Erótica do Sono e em sua palestra no Café Filosófico.

O desfrute do dormir, o acordar revitalizado, eis duas experiências que parecem cada vez mais se esquivar de nós, humanos do capitalismo tardio, em um mundo em que se estima que um terço das pessoas sofra com alguma forma de insônia – aí incluídas as crônicas e as episódicas ou conjunturais. Trata-se, portanto, de um problema sócio-político que nos obriga a politizar o debate sobre o sono, com ajuda de estudiosos como Jonathan Crary, Byung Chul-Han ou Sidarta Ribeiro.
Como estar bem informado sobre o mundo e ainda assim dormir bem? Eis uma questão existencial que me coloco frequentemente e que vem se conectando com minha crescente decisão de limitar a infoxicação com conteúdos distópicos (noticiados ou mediados pela ficção).
Pois um sono tranquilo e reparador soa cada vez mais como utopia inalcançável: como isso seria possível para quem olha de frente o El Niño que deixa o oceano furioso e transtorna o clima em toda a Terra? Pra quem se defronta com as ameaças de Terceira Guerra Mundial e com a proliferação de armas nucleares? Para quem enxerga a devastação de Amazônia, Cerrado, Pantanal e sabe da sexta extinção de biodiversidade na geohistória que está em curso? Para quem se revolta contra a normalização do genocídio em Gaza?
Não se dorme num mundo à parte, estamos condenados a dormir neste mundo – eis o cerne do labirinto.
Por mais que o sujeito desperto se esforce em prol do conhece-te a ti mesmo, ancestral injunção que já aparecia no Oráculo de Delfos, a gente sempre desconhece o que vai encontrar quando embarcamos na cama-barco para navegar as tormentas do sono.
Vossa Majestade, o Ego, tem que descer de seu pedestal e renunciar à seu leme de piloto: nosso corpo está entregue, na inconsciência ou semiconsciência do dormir, a imagens e afetos oníricos que estão fora de nosso controle, com capacidade inclusive de nos assustar: o que é mais horrível em um pesadelo, será seu próprio conteúdo? Ou o fato de que minha mente foi a criadora deste filme psíquico, às vezes pornográfico, às vezes violento, amiúde confuso e incoerente, quase sempre parecendo conter enigmas criptografados a serem decifrados (no divã, no casal ou com os amigos)?
E se a insônia não for apenas medo da morte, mas também (e sobretudo) medo de descobrir que o eu/ego, tão cheio-de-si, não é o único piloto da nave? Que nosso corpo tem uma “sabedoria” intrínseca e instintiva, uma espécie de piloto automático orgânico, no qual o insone não consegue confiar?
2. O SONO E A MORTE – Há quem diga que “não dorme pois o sono é primo da morte”. A frase é atribuída ao rapper Nas, na música “N.Y. State of Mind”, do álbum Illmatic (1994), mas também é cantada por Greg Dulli em “Omerta” do Afghan Whigs, presente no álbum 1965 (de 1998). Será que uma das explicações da insônia não estaria nesta angústia existencial fundamental que é o morrer? Dormir não exige uma pequena morte a cada noite? Entregar-se aos braços de Morpheus às vezes pode gerar a ansiedade de que estamos, na verdade, caindo nas garras de Thânatos?
Trata-se de uma ideia de longa tradição, que remonta aos mitos gregos, ainda que o conceito de primos utilizado por Nas seja inexato para falar sobre as relações entre Hypnos e Thânatos, descritos como irmãos-gêmeos, filhos de Nix. O pintor John William Waterhouse assim descreveu o par em obra de 1874, banhando em luz a figura representante do Sono (que segura em mãos as papoulas das quais se fabrica o ópio) e em penumbra a encarnação da Morte:

É bem verdade que milhares de despertares, após milhares de noites de sono, consolidam a experiência de que dormir não é morrer. Permanecemos vivos mesmo com o “desligamento” provisório do ego racional que está no leme da mente acordada. A repetição desta vivência pode gerar um hábito que dá segurança: foi assim no passado, continuará sendo no futuro – David Hume explica.
Mas, ainda assim, permanece em minha mente uma ideia boomerang: a morte é ir dormir para nunca mais acordar. A morte é o descanso que não nos permitirá acordar descansados. Tal ideário pressupõe um certo ateísmo, uma descrença na noção de que a morte é uma porta que dá acesso ao Paraíso, ao Inferno, ao Limbo, ao Hades etc. Não a morte como ponte-de-acesso a um alhures, mas como fim da sensibilidade, tal qual concebida pelo Epicurismo.
O que de fato estou batalhando para expressar aqui é um pensamento que acessei pela primeira vez em Alan Watts, a noção de que nosso corpo é capaz de realizar funções complexas sem nenhuma supervisão do ego consciente-racional. Afinal de contas, perguntava o mestre-zen beatnik, como é que o coração bate sem parar quando estou dormindo? Como é possível que continuemos inspirando e expirando mesmo quando em sono profundo? Como se explica que remédios para dormir, como zopiclona, deixem intactas as instâncias psíquicas que cuidam da regulação térmica, do batimento cardíaco, das sinapses entre neurônios etc.?
Em “The Tao of Philosophy” (coletânea de palestras), Watts diz:
“Your hair grows by itself, your heart beats by itself, and your breath happens pretty much by itself. Your glands secrete the essences by themselves and you do not have voluntary control over these things, and so we say they happen spontaneously.”

Ao abordar conceitos taoístas como ziran ou espontaneidade, e traduzi-los para um público ocidental hippie e contracultural, Watts colocava ênfase em processos somáticos que independem do controle, da supervisão ou do comando do ego consciente, do eu racional.
A elefantíase deste eu desperto, que não quer abandonar o leme do navio, que não suporta sequer a ideia da embarcação navegando sem seu comando firme, pode estar relacionada com a insônia e com a insânia que ela acarreta. Curioso paradoxo: é justamente o sujeito mais apegado ao controle egóico e racional do comportamento que, ao querer estar sempre no controle, como um piloto de navio que quisesse atravessar o Oceano sem nunca fechar os olhos, é que corre o risco de soçobrar na insânia acarretada pela insônia, com seu séquito de cansaço, depressão, irritabilidade e outras condições adoecedoras.
Existe um outro trecho de Watts que eu acho lindo e profundo, tanto que o copiei em um de meus cadernos de escrita terapêutica. Ele fala sobre uma morte que pode ser bemquista e desejada, quando o organismo já está alquebrado e cansado por uma longa estadia entre os vivos. A morte não é necessariamente um mal, só é assim interpretada por um sujeito em que ainda há forte vontade de viver e de gozar, o que pressupõe vigor e saúde.
Decerto nossa capacidade de previsão do futuro, que inclui sermos os únicos animais que sabem que vão morrer, pode ter a ver com a insônia, mas é falso supor que a morte é sempre interpretada como malévola, pois há ocasiões ou situações existenciais em que “o organismo inteiro dá as boas-vindas à morte (welcomes death)”, pois o cérebro já está cansado, os órgãos carcomidos pelo desgaste, a vida pedindo descanso na dissolução:
“The capacity of the brain to foresee the future has much to do with the fear of death. For when the body is worn out and the brain is tired, the whole organism welcomes death. … On a bright morning, after a good night’s rest, you do not want to go to sleep. But after a hard day’s work the sensation of dropping into unconsciousness is extraordinarily pleasant.”
Fonte: Alan W. Watts, The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety (1951). Nova York: Vintage Books, 2011 (ou edições posteriores).

O antônimo de sono é vigília, e uma das causas da insônia é justamente a hipervigilância, ou o estado de valorização excessiva da vigília. A escritora francesa Marie Darrieussecq explicou isto de maneira muito precisa nesta entrevista, muito saborosa e divertida, em que ela aponta que vários insomniacs acreditam em si mesmos como pilotos de uma máquina que é preciso vigiar a todo momento pois a desatenção pode ser fatal (minuto 16min: “you are the pilot…”). Ela relata a ansiedade contínua de sentir que algo de muito terrível pode acontecer se ela perder a vigilância.

No episódio O Fantasma Da Insônia, do podcast Vibes em Análise, encontramos uma excelente análise dialogada dos problemas da insônia em nosso mundo de transtornadas mentes. André Alves (@andre.alves.oli) e Lucas Liedke (@lucasliedke) mandaram muito bem em sua exploração do tema, e foi com eles que descobri algumas das referências utilizadas neste texto.
No futuro, quero investigar mais a fundo alguns temas que aqui não foram abordados e que também o podcast deles omite: 1) como é possível falar de um combate eficaz contra a insônia sem tematizar o exercício físico, o dispêndio das energias corporais, o esforço que resulta em fadiga e suor, mas pode trazer como benefício um sono mais pesado e reparador? Acho estarrecedor que em 1h25min de diálogo o Vibes em Análise não se debruce nem minimamente sobre a questão – talvez seja uma mania de psicanalista isso de focar muito no aspecto psíquico e esquecer do âmbito propriamente somático e fisiológico.
2) Que papel joga a expressão na conquista de um bom sono? Talvez o que impeça o sujeito insone de desligar também é o excesso do não-expressado, o acúmulo do não-dito, a falta da verbalização e da vocalização dos seus dramas emocionais. O podcast também é bastante insatisfatório neste aspecto, já que não dá nenhuma atenção à arte-terapia, que eu até gostaria de chamar de terapia pela expressividade, e que me conduz a explorar, futuramente, como a dança, a música, o ciclismo, a caminhada e o sexo podem ser salutares para o bem-dormir. Que pudicícia é esta que ainda nos impede de ouvir as lições mais cruciais de Wilhelm Reich e não dar atenção à função do orgasmo e aos movimentos rítmicos que quebram couraças musculares e pontos de tensão consolidados?
3) Qual o papel do sistema endocanabinóide na regulação e na qualidade do sono? Nossa sociedade ainda empacada no proibicionismo e no preconceito anti-científico no que concerne à cannabis vai trancando uma das portas mais promissoras para a conquista coletiva do bem-dormir. Sidarta Ribeiro e seus livros Oráculo da Noite e Flores do Bem devem nos servir aqui como guias. Por experiência própria afirmo que a maconha tem imensa potencialidade para se tornar aliada e benfeitora no tratamento de distúrbios do sono e insônia, e só o negacionismo da neurociência e da bioquímica mais cutting edge que hoje temos insiste em trancar esta porta para o pleno usufruto do que deveria ser um direito cívico garantido: o de cultivar esta planta e usufruir de seus benefícios reconhecidos em várias culturas nos últimos 12.000 anos.
Termino evocando aqui um dos textos mais famosos da História, o Monólogo do Ser ou Não Ser no Hamlet de Shakespeare, a peça que termina com o famoso verso “the rest is silence” (to rest, aliás, é o verbo que denota descansar, dormir) – “o resto é silêncio”.
Muito haveria a ser dito sobre a necessidade do silêncio exterior e interior para o sono, algo cada vez mais impossível em nossas ruidosas metrópoles e em nossas mentes infoxicadas pelo doom scrolling.
Este monólogo do aflito príncipe da Dinamarca indica a Poesia e o Teatro como fontes perenes de sondagem dos maiores dilemas humanos: no caso, Hamlet contempla o suicídio, mas hesita diante da possibilidade de que a morte não seja um nada, mas possa incluir um sono com sonhos (perchance to dream…), expondo sobre o palco um labirinto psíquico que empreitadas geniais tentaram elucidar, da psicologia histórico-cultural de Vigotski ao filme Hamnet de Chloé Zhao:

To be, or not to be, that is the question:
Whether ‘tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles
And by opposing end them. To die—to sleep,
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to: ‘tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep, perchance to dream—ay, there’s the rub:
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause—there’s the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
Th’oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of dispriz’d love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of th’unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovere’d country, from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience doth make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry
And lose the name of action.
Comecei este texto falando de um jornadear rumo à terra incógnita interior. Ao fim deste texto-jornada, espero que algo possa ter beneficiado o leitor, como a percepção de que o sono pode parecer um problema individual mas existe um rico manancial de reflexão coletiva sobre isso; a insônia não precisa ser um monstro a ser enfrentado pelo sujeito isolado em combate com seus fantasmas; a saída deste labirinto, se houver, será mediada pelo outro, será encontrada no diálogo, na confidência, na expressão, na troca-de-ideias, na abertura à Outrura.
Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 04 de Agosto de 2026
REFERÊNCIAS MUSICAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA PEREIRA, Mario Eduardo. A erótica do sono: ensaios psicanalíticos sobre insônia e o gozo de dormir. Ed. Aller, 2021.
WATTS, Alan. The Tao of Philosophy: The Edited Transcripts. 1st ed. Boston: Charles E. Tuttle, 1995. 96 p. ISBN 0804830525.
DARRIEUSSECQ, Marie. Sleepless: A Memoir of Insomnia. Título original: Pas Dormir.
SHAKESPEARE, William. Hamlet. Citado a partir de Poetry Foundation.
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Publicado em: 04/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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