
Somos sentipensantes. A falácia do animal racional não se sustenta. Somos propulsionados por impulsos, movidos por paixões, guiados por tesões, propelidos por afetos, e o pobre lógos às vezes tem pífio e parco poderio diante da potência do contágio afetivo. No Uruguai, durante a Copa, o autor de Futebol Ao Sol e À Sombra colocava pregada em sua porta o poster: “cerrado por fútbol”. Identifico-me com a postura, eu que chuto até a filosofia pra escanteio se o Brasil estiver em campo, e que não resisto aos escarcéus psíquicos que me movem com os lances, ainda que volta-e-meia eu chafurde numa atitude blasé e diga que, na verdade, no fundo, futebol não tem importância nenhuma, ainda que socialmente atribuamos uma importância excessiva e descabida a ele.
Em outros termos, deveria ter tanto peso assim sobre nossas vidas estes shows lúdicos em que se decide quem é que sabe fazer melhor estes atos bem fúteis: chutar um objeto esférico, pra cima e pra baixo, num retângulo de grama, tentando enfiá-lo dentro do território compreendido entre as traves brancas, balançando a rede mais vezes que os adversários. Penso que isso não importa, mas sinto que importa pra cacete. E eis-me no cerne da contradição. Pois nem sempre o sentir e o pensar andam tão juntos e harmônicos quanto supõe a cópula no sagaz neologismo forjado por Edu Galeano com o qual começamos [1].
Nossa sentipensância é também uma contradição tensa, um antagonismo em carne viva, que queima em nosso core. Ilustremos o ponto com reflexões futebolísticas neste 2026 da Copa das Bets, da World Trump Cup, ou como queiram chamá-la. No âmbito do pensar, tendo a assinar embaixo daquilo que disparou o Millôr: “o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”. Mas no âmbito do sentir, sou mais um dentre milhões que diz: “dai-me o ópio da Copa! Eu não poderia passar sem essa droga!” O futebol segue sendo a coisa mais importante dentre as que pouco importam (acho que quem disse isso foi Nelson Rodrigues, ecoando pelo Prof. Pasquale).
E lá vou eu, despejando este bem escasso e finito que é o tempo-de-vida no ralo de um compulsivo assistir-aos-jogos. Penso que há atividades mais importantes, mas sinto: como vou ter papo com a galera se eu não estiver “ligado” no que tá rolando, no que tá todo mundo assistindo? Eu sei que a FIFA é nojenta, que a construção de estádios é permeada por corrupção, que melhor seria boicotar este showbizz todo, mas lá vou eu, lá vamos nós, atrás de emoções fortes e da sensação “vamos deixar a crítica ao capitalismo pra mais tarde porque puta-merda-que-golaço! Cadê o replay?”

Quem pensa (e se informa), sabe: essa FIFA é uma entidade sórdida, capaz de entregar um “Prêmio da Paz” a Donald Trump poucas semanas depois de seu regime ter assassinado o aiatolá Khamenei e as mais de 100 crianças em Minab. Poucas semanas depois da invasão da Venezuela para o sequestro do presidente Maduro. Durante o apoio estadunidense ao genocídio sionista na Palestina. Mas a gente sente… deixa isso pra lá, e adere: “que espetáculo imperdível, ganchudo, viciante é este que a FIFA orquestra!”
Os que pensam com criticidade sabem que todo o bafafá em torno deste torneio desportivo é um grande negócio, mergulhado na lógica do Capitalismo de Cassino, e que em 2026 deveríamos batizá-la de Copa das Bets. Mas o sentimento arrasta pra, antes de todo jogo, juntar os amigos e… “bora fazer um bolão?”
Sabemos da magnitude e da extensão daquilo que Conrado Hubner Mendes denunciou como “ilusão de liberdade na economia do vício”, e o quanto as bets estão mergulhando as pessoas em dívidas e degradando a saúde mental, mas… o prazer de chutar um resultado e vê-lo confirmado depois, a euforia deste acerto, nos move a nossos pequenos bolões domésticos – no meu caso, desmonetarizados, just for the fun of it.

Os últimos pregos no caixão da era Neymar foram martelados pela Noruega, que nos fulminou nas oitavas com dois gols implacáveis de Haaland. Ficará para a história esta nota de rodapé vexaminosa: o jogo estava zero a zero quando Neymar entrou em campo. Poucos minutos depois a Noruega vencia por 2 a 0 e o falso messias do futebol contemporâneo brasileiro preparava-se para pagar mico diante de um bilhão de telespectadores. Fábio Luis Barbosa disse tudo na Jacobin: “o mito do salvador messiânico naufragou novamente.”
Primeiro dando uma de cavalo raivoso e cometendo falta violenta contra um atleta norueguês, levando assim um cartão amarelo. Depois por ocasião da batida de pênalti no último minuto de jogo, com a derrota brasileira já assegurada, quis tentar brilhar, tirando onda pra cima do goleiro; e depois de marcar o tento, com batida rasteira, atrasou o recomeço do jogo, com bate-bocas idióticos com o arqueiro norueguês, impedindo assim um último ataque brasileiro em que o implausível e improvável empate pudesse ser conquistado.


Na Folha de São Paulo, Mariliz Pereira Jorge bem descreveu o vexame: “A despedida de Neymar das Copas cabe em dois momentos. No primeiro, Brasil eliminado perdendo de 2 a zero, ele converte um pênalti que não servia para nada e provoca o goleiro norueguês: “comigo não, otário”. No segundo, desaba no gramado em lágrimas, numa cena patética, certamente pensada para o documentário que, dizem, está sendo gravado sobre ele. Homem chorando é quase uma revolução – o problema aqui é o motivo do choro. “Tentei, tentei, agora acabou. Comecei aqui, fechei aqui”, disse ele. Eu, eu, eu. Nenhuma palavra sobre o time, a torcida, o futebol, a Copa ou o mérito da Noruega. Não chorou pelo Brasil ou pelos colegas, chorou pelo Neymar sem hexa.” [3]
Neymar sai de cena dando vexame e expondo seu caráter típico de um neo-milionário, deslumbrado com o seu próprio poder e sucesso, mas que não fez nem faz jus à idolatria construída tendo-o por alvo.
Sobre isso, quero fazer aqui uma breve crônica de episódio que vivenciei na enfermaria enquanto me preparava para uma cirurgia de fratura no punho: junto comigo também, com um osso quebrado, um adolescente de aproximadamente 16 anos acompanhava pelo celular com imenso interesse o evento de convocação em que o treinador italiano Ancelotti divulgaria os nomes que defenderiam o Brasil nos gramados. Quando anunciou-se que Neymar iria sim para a Copa, apesar de suas lesões e de sua situação enquanto atleta decadente em franco descenso, o rapaz que dividia comigo a enfermaria deu gritos e urros de comemoração. As enfermeiras do hospital, clínica do esporte, tiveram que dar uma bronca devido ao inoportuno de tal frenesi em uma situação pré-cirúrgica.
Esse episódio pessoal me permitiu um portal de acesso a algo emblemático sobre a psique coletiva dos brasileiros que levam o futebol a sério, que investem tempo e grana para comprar ingressos, irem aos estádios e adquirirem camisetas e merchandising de seus times prediletos. Neymar é um popstar e seus vínculos com a cena musical do funk, do sertanejo e do gospel é um dos grandes feitos do jornalismo cultural desta Copa através do artigo de Felipe Maia: “Como ascensão e queda de Neymar espelham a indústria musical do país”(Folha de S. Paulo, 7/7/26, leia na íntegra aqui)
Mas pra que prestam os pop stars quando são bolsonaristas promovedores de bets e pregadores da fé evangélica, orando por gols (e dólares e euros aos milhões). Na real, a convocação de Neymar foi uma palhaçada publicitária, em que Ancelotti serviu provavelmente como pau mandado da CBF e de vários lobbies – vídeos pré-gravados já estavam preparados, todo um escarcéu midiático estava montado, muito lucrativo mas péssimo para nosso futebol, que preferiu dar trela pro bozolóide perneta em fim de carreira ao invés de apostar na renovação.
PRECISAMOS FALAR SOBRE O IRÃ
Nelson Rodrigues dizia que “no futebol o pior cego é quem só vê a bola”. É possível, com o risco de cair na interpretose, afirmar que este é um chamado para um olhar geopolítico sobre o jogo mais popular do planeta. E neste aspecto, a gente sabe que a Copa da FIFA ocorreu em meio à guerra e à catástrofe climática, e no fundo sente que o foco na pequena esfera rolando nos gramados pode ter algo de diversionismo. A gente se diverte para não focar no que vai de mal a pior nesta Terra ensandecida. Fiz uns querys ao Oráculo cibernético Google Gemini durante o torneio, eis o que ele respondeu quando questionado com:
– Pela primeira vez em 96 anos de Copas do Mundo, um país-sede, os Estados Unidos, bombardeou o país de uma nação competidora, o Irã. É verdade? Cadê as matérias? Cadê as provas?

TORCIDA PROIBIDA – Como você se sentiria se fosse impedido de entrar no estádio para torcer por tua nação? Se você fosse proibido de comprar ingressos devido à sua proveniência? Pergunte aos iranianos que viajaram aos EUA, ao México e ao Canadá pra Copa da FIFA, eles sabem:

BBC – “Cota de ingressos destinada aos torcedores do Irã para a fase de grupos da Copa do Mundo foi revogada poucos dias antes do início do torneio, informou a federação de futebol do país. ‘Privar os torcedores iranianos do acesso à sua cota legal e oficial de ingressos é uma ação contrária ao espírito que rege as competições internacionais e ao princípio da igualdade entre os países participantes’, afirmou a FFIRI em comunicado. ‘Esse desenvolvimento levanta sérias questões sobre a interferência de considerações não esportivas e políticas na organização do maior evento de futebol do mundo.’ BBC [3]
Diante deste cenário, perguntei à comunidade AFYL: pessoal, vcs consideram possível realizar um debate sobre a Copa 2026 num viés de “Geopolítica da Libertação”? Parece-me que uma pauta-Irã já vai ganhando certo momentum na imprensa… teria sido a eliminação uma artimanha da FIFA e do Trumpismo? Parece que o evento desportivo virou um palco de tensões geopolíticas… O Breno assim respondeu:
– Acho que esse é um dos temas, ao lado de outros, como a hipocrisia do ocidente (impede a Rússia de participar da copa e de várias outras competições por invadir a Ucrânia, mas permite não só que os EUA compitam, mas sejam uma das sedes da copa, mesmo com ele tendo invadido o Irã e sequestrado o presidente da Venezuela), a questão ecológica e de classe (uma copa feita para ricos e que gerou muito mais pegadas de carbono do que qualquer outra copa [ou quiçá qualquer outro evento esportivo do mundo, eu não saberia dizer ao certo, mas acredito que sim]), as ações do ICE durante a copa etc.
Proibidos de pernoitar nos EUA, com mais de uma dúzia de vistos negados, os iranianos processam a FIFA acusando que o VAR lhes roubou o gol da classificação… E aí, o regime do Orangotango de Barbária (apelido inventado pelo Pepe Escobar) realmente fez de suas artimanhas para mandar o Irã (invicto na Copa, teve 3 empates) de volta pra casa?
“A Fifa virou alvo de uma ação judicial nos Estados Unidos que cobra US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,2 bilhões, em indenização pela eliminação do Irã na Copa do Mundo de 2026. O processo acusa a entidade de discriminação após a anulação, pelo VAR, de um gol iraniano contra o Egito que poderia ter garantido a classificação da seleção à segunda fase…
Além da polêmica envolvendo o VAR, a ação aponta problemas enfrentados pela delegação do Irã durante a competição nos Estados Unidos. O documento cita restrições de viagem, impossibilidade de pernoite no país no início do torneio, transferência da base de treinos para o México e negativa de vistos americanos a 11 integrantes da delegação.
Afrasiabi sustenta que a Fifa deveria ter agido para garantir condições iguais de preparação ao Irã durante a Copa. Para ele, os obstáculos impostos à seleção, somados à anulação do gol, representaram um tratamento desigual e ofensivo a milhões de iranianos…” [3]



Se eu assisti a final? Como não?!? Ia ser louco de perder?!? A FIFA nos fisga é pelo afeto. Uma tremenda pressão social constrói em nossas mentes a atração. A gente é compelido a parar tudo e dar atenção ao jogo, até pra não ficar sem papo no dia seguinte. O jogo mais importante do futebol mundial, e que ocorre só uma vez a cada quatro anos, é um ímã quase irrecusável: uma final de Copa do Mundo é sentida como O Mais Imperdível Dos Espetáculos. E eu queria ser Guy Debord pra bolar agora uma frase impactante para expressar o poderio titânico da Sociedade do Espetáculo que tem nos esportes um de seus mais fortes tentáculos – e sustentáculos.
E, no entanto… a expectativa que nós tínhamos de testemunhar um jogaço foi traída pela performance pífia da Argentina – que mereceu ser derrotada pela Espanha nesta ocasião, como provam estes chocantes dados divulgados após o fim-da-partida: em 120 minutos de jogo, a equipe argentina conseguiu a proeza, talvez sem precedentes históricos, de não chutar a gol nenhuma vez sequer. A Espanha literalmente ganhou de 20 a 0 em finalizações. O que explica tal bizarrice?

A Argentina vinha de uma campanha atribulada em que havia demonstrado muitas vezes sua capacidade impressionante de virada, com muita garra, após estar detrás no placar: foi assim contra o Egito, que chegou a abrir 2 a 0, e contra a Inglaterra, que inaugurou o placar para 1 a 0 – nos dois casos, a Argentina arrancou uma suada, emocionante vitória por virada. Mas no 19 de Julho tudo colapsou: talvez tenha sido um mal dia para Messi, neutralizado pela defesa, sob marcação cerrada, talvez extenuado no calor de 30 graus naquele estádio em New Jersey, em seus 39 anos de idade incapaz de manter o fôlego de seu “rival” do outro lado, Lamine Yamal, com apenas 19.
Manifestou-se o que muitos comentadores já destacavam: a dependência excessiva da Argentina em relação a seu camisa 10, que despediu-se das Copas com gosto amargo na boca, tendo perdido tanto a final quanto a artilharia (que ficou com Kylian Mbappé). Foi uma bizarra final em que a estrela de Messi não brilhou, ele mal pegava na bola, não conseguia armar uma jogada que fosse, nem mesmo arriscar um tiro de fora-da-área. Todo o bafafá da imprensa, como a expressão “Copa dos Protagonistas”, soou um pouco falsa nesta ocasião: de novo vimos arruinar-se o Mito do Salvador Messiânico. Para além disso, uma arbitragem vexaminosa favoreceu o time argentino ao cancelar um gol espanhol que foi limpo e legítimo, acusando uma falta de ataque, quando foi um exemplo patente do juiz apavorando-se com um gol – ele esperou a bola mergulhar nas redes, e depois cancelou o gol espanhol.
Com 10 em campo desde a expulsão de Enzo no fim do período regulamentar, em que o jogo terminou num chocho 0 a 0, a Argentina não pôde suportar a pressão espanhola. Na verdade o placar da prorrogação poderia muito bem ter acabado 3 a 0, pois os espanhóis tiveram um gol cancelado por impedimento em que o VAR acusou, sei lá, alguns milímetros de topete, alguns fios de cabelo à frente do espanhol… De todo modo, a derrota argentina evitou alguns fenômenos geopolíticos que teriam sido revoltantes e grotescos: o governo de extrema-direita Milei utilizando a taça a seu favor; Donald Trump celebrando, na cerimônia de entrega, sua aliança com o governante neo-fascista que ocupa a Casa Rosada; pra não falar na alegria que isto daria a Netanyahu e outros sionistas que elegeram a Argentina como seleção predileta.

É a imagem de Lamine Yamal segurando a tremulante bandeira palestina que eu gostaria de ver sacramentada como um dos emblemas maiores de um possível, ainda que implausível, bom legado desta Copa toda zuada. Ela deixa legados muito sinistros, sobretudo no campo do endividamento e da catástrofe na saúde mental ocasionada pela pandemia de bets. Mas, no time campeão, um rapaz de 19 anos ascendeu ainda mais ao estrelato sendo preto, muçulmano e pouco afeito a subserviências diante de Mr. Trump e seu séquito.
Neste artigo de Khaled Beydoun, descobri que Yamal ascendeu ao top of the pops dos futebolistas a partir do bairro Rocafonda de Barcelona e que a foto acima foi tirada quando se comemorava o título do Barça sobre o Real Madrid: “The presence of the flag was no surprise, this was Spain after all, which has become the popular and political center of the pro-Palestinian movement in Europe under the leadership of Prime Minister Pedro Sanchez. Even more, this was Barcelona, the capital of Catalan and its local culture of resistance, which roots a more intimate affinity for the Palestinian struggle and the human tragedy in Gaza.” (BEYDOUN: 2026)
Com pai marroquino, aparência que parece misturar elementos do negro e do árabe, Yamal transcendeu os limites da Catalunha ao adentrar este imenso espaço de visibilidade e ressonância que é o esporte espetacularizado. Tremular a bandeira palestina foi um ato corajoso que parece indicar um novo tipo de estrela em ascensão nos gramados e seus arredores. Agora, cabe a nós não permitir jamais que se esqueça, nem se perdoe, nem se permita que fique impune, o fato horrendo de nosso mundo e que consta na Wikipédia: “até junho de 2026, 1009 atletas, incluindo 567 do futebol, foram mortos em ataques israelitas. As invasões israelitas também levaram à destruição de estádios e ao encerramento de clubes.”

[1] GALEANO, Eduardo. O escritor uruguaio forjou o termo apropriando-se duma gíria de pescadores colombianos: https://outraspalavras.net/blog/sete-provocacoes-de-eduardo-galeano/
[2] PEREIRA JORGE, Mariliz. “Era de Neymar já vai tarde”. Na Folha de S. Paulo. Texto na íntegra aqui.
[3] BBC: O artigo citado desapareceu misteriosamente do site da BBC Brasil, por que será? https://www.bbc.com/portuguese/articles/cr7x5yjyrk1
[4] BRASIL 247: “Fifa é processada…: https://www.brasil247.com/247-na-copa/fifa-e-processada-e-pode-pagar-r-52-bilhoes-por-eliminacao-do-ira-na-copa/
P.S. BREVE NOTA SOBRE O FUTEBOL-ARTE E O LANCE “QUE BELEZA!”
Obra-prima do futebol-arte, o gol de Cabo Verde, talvez o mais belo desta Copa, começou com o goleiro Vozinha e terminou com um chute-pintura, uma masterpiece dos kicks, lembrou-me de Edu Galeano e este trecho: “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento, jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar e o novelo que roda, jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz. O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia. Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade.” (EDUARDO GALEANO – ‘O Futebol’ – In: “Futebol ao Sol & à Sombra”)
VEJA: https://www.instagram.com/reels/DaZHvLbodcG
LEIA AINDA, DO MESMO AUTOR, EM A CASA DE VIDRO: https://acasadevidro.com/gritando-gol-num-planeta-em-chamas/
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Publicado em: 20/07/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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