

O Teatro-Escola Basileu França esteve pulsante com a peça GOTA D’ÁGUA, magistralmente encenada pelos formandos de artes cênicas da Escola do Futuro: quando Chico Buarque, em parceria com Paulo Pontes, escreveu esta tragédia carioca em 1975, deu uma ótima resposta à questão: mas por que adaptar uma peça trágica grega – a “Medéia” de Eurípides, neste caso – para o contexto brasileiro? “No Rio de Janeiro”, retrucou Chico, “acontecem umas 5 tragédias gregas por dia.”

Publicada em livro pela Civilização Brasileira em 1975 pela, a peça “Gota D’Água” de Buarque e Pontes inspira-se também num trampo anterior de Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho, dramaturgo autor de “Rasga Coração”), que anteriormente tinha criado pra TV uma releitura de “Medéia”. Também está sendo transformada em filme, que começou sua produção em 2025, dirigido por Fábio Meira (“As Duas Irenes”).
Renata Alessandra Weber dirigiu um talentoso elenco que ontem (23/6) encantou e chocou o teatro lotado do Basileu com uma obra-prima da dramaturgia musical brazuca. Que a gente chama de “tragédia” por força do hábito e por causa do desfecho sangrento – nem chega a ser spoiler: todo mundo sabe que “Medéia” termina com duas crianças mortas sobre o palco, os rebentos do casal tretado Jasão e Medéia. Mas na verdade o termo que cabe melhor é tragicomédia malandra.
Na versão carioca, o que vemos é a genialidade buarquiana para a tragicomédia que se manifesta também na “Ópera do Malandro”, adaptação de Brecht e Weill (Ópera dos Três Vinténs). Há muito de cômico e de cáustico nesta saborosa peça – que teve problemas com a censura e precisou de certos cortes para não irritar tanto os figurões do DOPS – que inclui uma sátira mordaz do “sambista vendido”.
Jasão é cria dos botequins e da boemia, mas morde a isca da tentação chamada ascensão social. Decide tornar-se amigo de empresários de mui duvidosas posturas político-ideológicas – ou seja, estas figuras pró-ditadura que fazem com que a dita cuja seja chamada “civil-militar” e que estavam montados na bufunfa.
O samba que Jasão compõe, “Gota D’Água”, tornando-se um sucesso, oferece um impulso pra que ele abandone seu meio social de origem e dê um pé na bunda de Joana, esta Medéia do Rio, para ir casar-se com Alma, filha do ricaço especulador imobiliário e “cidadão-de-bem” Creonte. A construção cênica da Vila do Meio-Dia mescla de maneira orgânica e concomitante as mulheres lavadeiras, os manos beberrões e fãs de futebol, e os batalhadores da classe trabalhadora que ralam em oficinas consertando rádios e televisores.
No palco, remetendo à hierarquia de classes que se mostra na topografia do espaço a partir de um eixo verticalizante – ricos por cima de uma ralé que fica por baixo -, o “trono” de Creonte é colocado num andar superior. Em uma das mais engraçadas boutades da peça, ele discorre sobre o poderio dos homens sentados em cadeiras chiques – não há rei sem trono.
Joana / Medéia é uma personagem fortíssima, que não apenas encarna uma certa fúria da mulher traída e abandonada, mas que também é uma força cidadã de rebeldia contra os abusos do poderoso Creonte, novo patrão e sogro de Jasão. A peça debate a carestia, o alto custo de vida, os escorchantes aluguéis, a especulação imobiliária, em um ambiente saturado de afetos desmesurados mas também de muito jogo-de-cintura pra driblar a adversidade.
Por Eduardo Carli, Goiânia, 24 de Junho de 2026. Peça vista na véspera.
Desfecho sangrento: “baixas civis: duas unidades infantis…” #TeatroDeFavela #BasileuFrança #GotaD’Água
Publicado em: 24/06/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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