
A palestra começou com Prof. Rangel Godinho (IFG) recitando um poema de Fernando Teixeira de Andrade: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo… É o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.”
Essa epígrafe serviu como convite à reflexão sobre um dos temas mais urgentes da contemporaneidade: a crise da verdade em meio ao domínio das Big Techs e à ascensão da pós-verdade.


Em 2016, a Universidade de Oxford elegeu post-truth como a palavra do ano. A definição oficial é:
Circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na conformação da opinião pública do que as emoções e crenças pessoais.
O fenômeno não é apenas semântico: tem consequências eleitorais, sanitárias e geopolíticas. A emoção e o apelo pessoal passaram a ter primazia sobre a apuração jornalística e o debate racional.
O professor destacou um dos cartazes de divulgação do evento: uma pessoa acorrentada ao botão “curtir” do Facebook. Isso remete a pesquisas em neurociência sobre o sistema dopamínico: cada curtida, cada coração, cada comentário gera um disparo de dopamina no cérebro — criando um ciclo vicioso de busca por validação.
“A verdade deixou de importar? O que importa é causar sensação na rede?”
As Big Techs não são inocentes nesse processo. Elas aprenderam a hackear o sistema de recompensa do cérebro humano para nos manter conectados o maior tempo possível — afinal, nossa atenção é a matéria-prima que gera seus lucros bilionários.
Os algoritmos das plataformas são programados para nos entregar conteúdos alinhados ao que já gostamos e consumimos no passado. O resultado são as chamadas bolhas ou câmaras de eco: passamos a ouvir apenas a reverberação de nossa própria voz.
“A verdade desaparece quando só ouvimos ecos de nós mesmos.”
Isso produz uma espécie de neo-sectarismo — cada usuário vive em sua própria bolha informacional, raramente confrontado com pontos de vista diferentes ou desconfortáveis.
Cinco empresas — Google (Alphabet), Apple, Facebook (Meta), Amazon e Microsoft — somam um valor de mercado de 16,8 trilhões de dólares. São as firmas mais lucrativas da história do capitalismo.
Como isso é possível se seus serviços são (aparentemente) gratuitos? A resposta: colonialismo de dados. Nossas curtidas, cliques, pesquisas e até nosso tempo de atenção são minerados, processados e vendidos no mercado da publicidade.
“Os nossos dados estão sendo vendidos. Essa é a principal fonte desse poderio e dessa riqueza.”
Estudos do MIT mostram que uma notícia falsa tem 70% mais probabilidade de ser compartilhada do que uma verdadeira. Além disso, a verdade leva seis vezes mais tempo para atingir 1.500 pessoas.
“Mudou o velho provérbio: a mentira tem pernas de papaléguas, e a verdade corre atrás em passo de tartaruga.”
No contexto da cibercultura, fake news não são um acidente — são o modelo de negócio. Como escreveu Morozov: “Sob a ótica das plataformas digitais, as fake news são apenas as notícias mais lucrativas.”
Donald Trump tornou-se o grande emblema da pós-verdade. O site de checagem PolitiFact (vencedor do Prêmio Pulitzer) classificou 69% das declarações públicas de Trump como predominantemente falsas ou mentirosas. Em seu primeiro mandato, foram mais de 20 mil mentiras em quatro anos.
Mas o fenômeno não se limita aos EUA. O professor citou o caso brasileiro:
*”Uma estimativa aponta que, dos mais de 700 mil brasileiros que faleceram durante a pandemia de Covid-19, cerca de 400 mil poderiam estar vivos se não fosse uma estratégia institucional de propagação do vírus pelo governo Bolsonaro.”*
Ataques ao uso de máscaras, promoção da cloroquina (medicamento ineficaz), incentivo a aglomerações, demissão de ministros da Saúde técnicos — tudo isso foi amplificado por um ecossistema de desinformação conhecido como “bolsozap”.
O título da live, Adeus à Verdade, é uma homenagem ao filósofo italiano Gianni Vattimo. O palestrante trouxe um exemplo polêmico para ilustrar os perigos das verdades sagradas — crenças metafísicas incontestáveis.
Em 1989, o Papa João Paulo II visitou Uganda (país com altos índices de HIV) e condenou o uso de preservativos, afirmando que a castidade era a única maneira de deter a AIDS. Vattimo, em seu livro, usa uma palavra forte: essa proibição gerou “efeitos homicidas”.
A questão central: até que ponto uma verdade metafísica (como a visão de que a sexualidade só é legítima dentro do casamento heterossexual com fins reprodutivos) pode justificar políticas de saúde pública que custam vidas?
Diante desse cenário, o professor apontou algumas saídas:
O professor listou documentários e filmes de ficção para aprofundar o tema:
Documentários:
Ficção:
Eduardo Carli resgatou o conceito de amor à verdade do filósofo André Comte-Sponville: uma virtude essencial para a filosofia e para a vida. Não se trata de possuir a verdade absoluta, mas de buscá-la com sinceridade, boa-fé e honestidade — consigo mesmo e com os outros.
“A vida não valeria a pena ser vivida se você chegasse ao fim do percurso e notasse que mentiu, se iludiu, enganou. Parece um desperdício da nossa existência não nos esforçarmos por viver em verdade.”
Em tempos de brain rot (podridão cerebral — outra palavra do ano escolhida por Oxford), o desafio é imenso. Mas a travessia, como diz o poema, exige ousadia. Ficar à margem de nós mesmos não é uma opção.
*Palestra realizada no Centro Loyola, Goiânia, em 20 de maio. Mediação do Prof. Rangel (IFG). Transcrição e adaptação para texto realizados com as ferramentas Substack + DeepSeek.
Assista ao vídeo original no YouTube:


Publicado em: 22/05/26
De autoria: casadevidro247
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia