
Foi imensa a comoção de receber ontem das mãos de @mariopirata.art a aquarela alegórica que o artista fez pra canção dos @fritosdaterra, “Palestina Livre Já”.
A obra homenageia a heróica @global_sumud_flotila_ e inclui retratos de @thiagoavilabrasil, @gretathunberg e @wizard_bisan1 na companhia dos 6 integrantes do coletivo artvista.
Mário e @educarlidemoraes papearam, com a filmadora e microfone 🎤 ligados, por mais de uma hora em @acasadevidro_pontodecultura em 14 de Maio, sobre vários temas pertinentes – por exemplo, o que significa ser artista diante do genocídio em Gaza.
A confluência foi tornada possível pelas atividades do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino de Goiás CSPP-GO, @palestinalivregoias, em cujas feiras e eventos os dois retratados se conheceram e iniciaram profusa produção audiovisual-documental colaborativa.
A canção de protesto “Palestina Livre Já”, escrita por Léo Vergara @dacosta.vergara e Carli, tocada pela primeira vez em @palestinaemgoiania, está sendo gravada pela banda no Estúdio A Casa de Vidro e o fonograma virá a público em breve.
#dorioaomarpalestinalivrejá
#sozinhoninguémselibertará
Confiram mais em: A FLOTILHA DOS FRITOS DA TERRA: Mário Pirata, artista visual, em papo c/ Carli sobre Palestina Livre >>>
youtube.com/@fritosdaterra
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TRANSCRIÇÃO
Entrevistador (Edu): Massa, Mário Pirata, que satisfação te receber na Casa de Vidro com essa obra impactante que você fez para os Fritos da Terra em homenagem à Flotilha. Conta um pouquinho sobre como foi o processo criativo nesses últimos meses para gerar essa obra impressionante que você está trazendo hoje pessoalmente aqui, agradeço demais, estou emocionado.
Mário Pirata: Eu fico lisonjeado e me sinto honrado por essa missão, porque passar a mensagem de uma música que fala de uma causa tão urgente, tão pungente, tão importante pra humanidade, pras lutas contra o imperialismo, contra o sionismo… enfim, é uma mensagem extremamente importante. E não foi fácil, Edu. Quando você falou “eu quero que você coloque a gente na Flotilha”, eu falei: putz!… Porque eu tenho meus limites técnicos. Não que sejam limites estéreis, mas ia me dar muito trabalho. Fiquei com aquilo na cabeça, tive algumas tentativas que não deram certo. Comecei um desenho e o tamanho não ficou bom. A imagem que eu estava buscando da banda não era legal, não tinha boa resolução. Deixei de molho, fiquei um tempo pesquisando os barcos da Flotilha, pensando quem eu poderia colocar, como os Fritos da Terra poderiam estar nesse cenário. Precisava ser algo simbólico e que remetesse a uma capa de disco. Pensei muito nisso. Num belo dia, depois de muitos meses, olhando o perfil da Casa de Vidro ou do Fritos da Terra no Instagram, eu achei a foto. Falei: é essa a foto. Vocês com os instrumentos. Era uma imagem perdida no feed. Comecei a compor. Primeiro desenhei a banda. A princípio pensei em jogar um monte de gente, mas já era uma banda com muita gente e talvez ficasse poluído. Então eu achei a imagem do barco da Flotilha chegando na Itália, e tinha a imagem do Tiago e da Greta fazendo punhos com a bandeira num mastro. Colei as duas imagens, juntei. Usei aquarela, busquei as cores da foto, as roupas que vocês usavam. Acho que ficou bom, remete a HQ, a capa de disco, às artes gráficas. Modéstia à parte, ficou bom pra caralho.
Edu: Eu queria que você mencionasse um pouco: além dos seis integrantes dos Fritos da Terra você escolheu três figuras icônicas. Fala um pouco sobre a Bizan, por exemplo.
Mário: Pois é, a Bizan foi premiada com um Emmy de jornalismo, o lobby sionista tentou impedir, mas ela ganhou. Ela é uma das jornalistas sobreviventes, porque Israel assassinou muitos jornalistas. Ela cobre diariamente as ruínas, os escombros, as caminhadas forçadas. O trabalho dela é simbólico, ela tem uma força e uma dignidade enormes. Eu pensei: tenho que falar de dois personagens significativos: Tiago Ávila, recentemente preso, sequestrado, torturado por Israel, assim como a Greta. E uma figura de Gaza: o barco da Flotilha, simbolizando a ação humanitária. Os Fritos da Terra fazendo uma ode, se posicionando e chamando essas figuras significativas da causa desse momento – que não é exclusivo de Gaza, é mundial, é do Brasil também. Eu pensei em fazer algo não triste, mas pra frente, pungente. As cores também dizem isso: em meio aos escombros, é possível cantar, fazer arte, levar mensagem.
Edu: Mário, acho legal falar que estamos em maio de 2026. Tiago Ávila está no noticiário como alguém que passou 10, 11 dias de uma temporada no inferno nas masmorras do sionismo. Essa imagem tem uma atualidade incrível. E quando você coloca “Global Sumud Flotilha”, remete a um movimento social global, internacionalista, que quer furar o cerco de Israel a Gaza – um cerco que mata pela fome, pela sede, pela falta de remédios. Fala um pouco sobre essa questão do movimento social global.
Mário: Eu busquei elementos que pudessem impactar, demarcar, em poucos símbolos, a dimensão desse momento e a relação dos Fritos da Terra aqui no Brasil. É uma pintura alegórica, com elementos simbólicos, narrativa gráfica que dialoga com a tradição e com o momento. Procurei não fugir da minha linguagem poética. Desde 2023 venho tentando dar minha contribuição para a causa palestina. Esse trabalho é um desdobramento dessa experiência estética. O genocídio não é de agora, vem desde 1948, desde a fundação do estado sionista, que é um estado ilegal, uma entidade. Aquela terra é a Palestina ocupada.
Edu: Você usou a expressão “alegórico”. É um desenho alegórico, porque vocês não estão ali de fato, mas a banda encarando o espectador, Bizan, Tiago, Greta, o barco – tudo vai em direção ao público, como um chamamento, um grito simbólico de afirmação. E as cores: as cores da bandeira palestina, o preto por cima como luto, e quando a libertação vier, o verde vem pra cima. Fala um pouco dessas cores vivas.
Mário: Sim, joguei um verde ali, a roupa de algum integrante, e o preto mais para cinza para evocar as cores da bandeira. O azul é o mar, usado para navegar rumo a Gaza. O navio tem a cor do mar e do céu. Criei uma atmosfera positiva, porque a letra da música tem isso, a Flotilha tem isso, a Bizan tem isso. Eu quis passar força, afirmação. Em Gaza, as crianças brincam, dançam, artistas pintam murais nos escombros. Há vida, arte, poesia. A vida resiste e precisa da arte para se reerguer.
Edu: A obra expressou o espírito da canção, que tem o refrão “do rio ao mar, Palestina livre já”. E também “sozinho ninguém se libertará”. A força da união. Você expressou isso.
Mário: Eu não tinha pensado nisso, mas a banda junto com os personagens e símbolos tem muito a ver.
Edu: E pensei muito no barco e no mar por causa da Madlin – a pescadora audaz que, num mar proscrito, se põe a pescar sob a mira de um barco militar. O povo palestino está proibido de pescar, velejar, se banhar. Se avança, um barco militar pode te prender ou executar. Como isso existe no planeta? No horizonte já se levanta o emblema de um outro lugar, a flotilha acende essa chama. Você falou em alegoria, e na letra tem “do rio ao mar”. E também “globalizar a intifada”. Você colocou “Global Sumud Flotilha”. Na letra: “a Intifada se globalizou”. Os zapatistas se levantam em Chiapas, as Chevolutions em Nova Sierra Maestra. Queria honrar a canção original “Era de Plantio”, do Leonardo Vergara, que era utópica. Essa imagem expressa essas lutas globais.
Mário: A arte alegórica carrega simbolismos. Liberdade conduzindo o povo, Delacroix, tantos quadros na história da arte evocam essa ideia de que o novo tempo está chegando. O refrão final anuncia isso. E os Fritos da Terra são uma banda do Sul global, do Brasil, com o colorido tropical. Não vejo problema no colorido.
Edu: A música é nossa arma – “music is a weapon”. Os instrumentos musicais estão em riste, em punho. Eduardo na guitarra, Leon no contrabaixo, Leo Vergara no violão, Emi no chequerê, Will na batera, Júlio nas congas. A África está presente pela percussão afro-brasileira. Você falou em comunicação e jornalismo. Na música, começamos com uma denúncia factual: Israel assassinou 20 mil crianças. O que você diz para os negacionistas?
Mário: É difícil convencer quem nega por conveniência, cinismo, perversidade. Acho impossível continuar dizendo que é exagero. Quem tem poder e acesso sabe, mas nega por conveniência. Uma hora a verdade aparece. Preferem acreditar numa mentira para se proteger, se colocar do lado “certo”. Em algum momento, serão cobrados pela história. O artista que prefere os salões empavonados, o tapinha nas costas, vai ser cobrado. O “mas” é sempre complexo, difícil. A recente campanha contra a Flotilha, os boatos para deslegitimar. O Hamas é um grupo legítimo de resistência, venceu eleições, é uma entidade governamental. O sionismo pratica violação de soberania constante. Na Bahia, no Itamaraty, a narrativa oficial: somos vítimas eternas, então podemos matar, torturar, invadir. Porque sofremos o Holocausto. Incendiaram a Patagônia. No Brasil, o horror do sionismo vem via evangélicos, católicos, políticos. A Polícia Federal interrogou o Tiago. Enquanto isso, palestinos são expulsos.
Edu: A deputada Tabata quer criminalizar como antissemita quem critica Israel. Será censura e prisão.
Mário: Vamos resistir, e a repressão virá, como na Alemanha e Inglaterra. O Massive Attack teve vocalista preso. Idosos apanhando. Nancy Fraser impedida de lecionar. Susan Sarandon perdeu emprego. O sionismo hoje é o que Hitler não conseguiu fazer.
Edu: Saramago dizia que Israel é formado por rentistas do Holocausto. Norman Finkelstein escreveu “A Indústria do Holocausto”.
Mário: O cinema hollywoodiano está cheio de filmes sobre o Holocausto – é propaganda, guerra de narrativas. O Estado de Israel não tem direito de existir como estado genocida. 80% da população apoia atrocidades. Não é só Netanyahu. A esquerda sionista fundou o estado, expulsou setecentos mil palestinos.
Edu: Para encerrar, fale sobre a função da arte na transformação do mundo, contra os artistas que se calam por conveniência.
Mário: O artista não está acima do bem e do mal. É atravessado por seu tempo. Se ele se diz humanista, não pode se calar diante de algo que agride a humanidade inteira. Independentemente de ser ouvido, precisa se posicionar. Victor Jara, Violeta Parra – não foi em vão. Estamos aqui falando de Gaza porque eles ousaram dizer. A arte não vai mudar o mundo sozinha, mas cumpre seu papel de demarcar, lembrar, inscrever na história. Moradores de Gaza pedem: “não se esqueçam da gente”. Manter viva a memória de Gaza, incomodar, tocar na ferida. Artistas com poder que se calam – Marina Abramovic, por exemplo – pesa o capital.
Edu: Guimarães Rosa disse: a vida que é da gente é coragem. Os Fritos da Terra têm coragem de cantar o que não está sendo cantado. Massa demais, Mário. Muito obrigado. Extremamente comovido com a obra.
Mário: Eu me sinto realizado, cumpri minha missão.
Edu: Maestria total. Valeu, hein?
Mário: Valeu, obrigado. É nóis.
Publicado em: 16/05/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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