Distopia canônica, sátira cáustica, grito de alerta: 1984 não era um manual de instruções, mas o mundo contemporâneo, com seus Big Brothers e botas pisando faces humanos, parece engajado em transformar seu enredo sci-fi em um documentário.
Leia o artigo de Eduardo Carli de Moraes sobre a obra-prima do escritor britânico George Orwell.

1: “MAKE ORWELL FICTION AGAIN!” – Atualidade da obra
Forjado antes do conceito de Antropoceno emergir, 1984 é um magnum opus que teve tamanha repercussão póstuma que tornou-se post factum em uma distopia antropocênica: a Terra radicalmente transformada por agência humana, devastada pela guerra nuclear, dominada por regimes sócio-políticos que pretendem exercer o domínio total tanto fora quanto dentro de suas fronteiras, é o verdadeiro palco deste romance distópico visionário.
Com notáveis poderes de pré-figuração, 1984 antecipou os reality shows, o capitalismo de vigilância, a proliferação de câmeras e de telas, a sociedade do espetáculo em metástase totalitária, inspirando muitas obras significativas que viriam depois (como V for Vendetta, de Moore e Lloyd, e Laranja Mecânica, de Burgess, filmado por Kubrick).
Publicado em 1949, pouco antes da morte por tuberculose de Orwell (1913-1950), o romance é amplamente considerado uma das obras-de-arte mais impactantes do século XX e persevera reverberando fortemente no mundo contemporâneo, tendo suscitado interpretações, análises e críticas de uma legião de intelectuais e acadêmicos. 1
Consolidou-se como um paradigma da ficção especulativa distópica e sua ressonância na cultura contemporânea segue intensa, sobretudo nos debates acerca de regimes políticos totalitários e os riscos e custos das rebeldias anti-sistêmicas. Na atualidade, debates sobre totalitarismo, pós-verdade, vigilância em massa, Big Brotherism, dissonância cognitiva, autoritarismo político, revoluções traídas etc. frequentemente recorrem a esta obra.
.O livro é um dos mais importantes frutos culturais do início da Guerra Fria, época histórica dominada por uma angustiada apreensão diante da possibilidade de um apocalipse nuclear em caso de uma conflagração com bombas atômicas envolvendo as novas superpotências globais (EUA e URSS) – um período que Orwell inclusive contribuiu para batizar com este nome (Cold War) em artigos escritos na imprensa sobretudo em interlocução crítica com a obra de James Burnham2.
Dentre os objetos inéditos trazidos ao mundo pelos humanos no decurso da vida daquele que nasceu Eric Blair, na Índia, e escreveu sob o nom de plume Orwell, a bomba atômica é um dos que mais o preocupou e 1984 é incompreensível senão no enquadramento de um Antropoceno distópico em que as bombas nucleares explodiram e o que veio depois… bem, o Estado autoritário-totalitário encabeçado pelo Grande Irmão.
Falecido apenas 7 meses após a publicação do livro, Orwell não pôde conhecer a magnitude e a extensão da influência desta obra que integra aquilo que Fredric Jameson chamou de “a tríade canônica” do gênero distopia junto com Nós de Zamiátin e Admirável Mundo Novo de Huxley (JAMESON: 2021) 3.

Para compreendermos mais a fundo o fenômeno da distopia e de sua preponderância na produção artístico-cultural contemporânea, mergulharemos numa análise mais minuciosa desta obra, sondando tanto questões relativas a forma e conteúdo quanto os vínculos entre a arte e a sociedade, cultura e história. Também nas relações do artista com seu tempo e contemporâneos elucidaremos porque 1984 tornou-se incontornável referência nos debates sobre a empreitada humana no planeta e inspira, a exemplo de 2084, o campo da ficção especulativa sobre catástrofe climática.4
Ainda que haja muita polêmica a respeito da pertinência do conceito de totalitarismo, tornado moeda corrente não apenas através de Orwell mas também a partir da publicação posterior, em 1951, do grandioso estudo de Hannah Arendt, é inegável que o último romance publicado pelo escritor inglês tornou-se uma espécie de emblema literário de uma distopia totalitária – usualmente descrita como tendo o stalinismo soviético como modelo (uma noção que aqui trataremos de matizar e problematizar).
Para além dos debates sobre o totalitarismo, engrossados pelas críticas realizadas por Zizek sobre os bons e maus usos deste conceito5, 1984 também é crucial referência nas pesquisas e argumentações atuais sobre pós-verdade (post-truth), assassinato da memória, vigilância em massa, culto ao líder populista (demagogia), dentre outros temas afins. Um dos maiores estudiosos de utopias e distopias, Gregory Clayes, em dossiê dedicado a Orwell pela Revista Rosa6, destaca alguns temas que vem trabalhando em sua caudalosa obra interpretativa acerca da história da distopia:
“A contribuição de George Orwell para a nossa concepção do que é uma distopia é única e insuperável. Nineteen Eighty-Four e Animal Farm venderam cerca de 20 milhões de cópias, mais do que todo o resto das distopias já escritas juntas. Para muitos, a lamentável história de submissão de Winston Smith ao Big Brother constitui o modelo clássico para o gênero como tal. O indivíduo confronta o déspota todo-poderoso e perde. Quando pensamos em distopia, pensamos em Orwell.” (CLAYES: https://revistarosa.com/3/orwell-distopia)
Desejamos colaborar com uma apreciação deste livro a partir de 3 movimentos sucessivos e complementares que iluminam aspectos estéticos, éticos, políticos de 1984: 1) um mapeamento sintético de episódios biográficos que são essenciais na compreensão do processo criativo do autor: suas vivências na Índia, na Birmânia (hoje Myanmar), na Guerra Civil Espanhola, no Marrocos, na Londres da 2ª Guerra Mundial, e em sua atuação profissional no serviço radiofônico da BBC; 2) uma breve análise das influências intelectuais e artísticas determinantes para Orwell, sobretudo de Koestler, Gide, Serge, H. G. Wells, Bellamy, Zamiátin, Huxley, dentre outros; 3) uma avaliação das ressonâncias e dos legados de 1984 na posteridade, considerando que esta contundente obra orwelliana será determinante, como influência, para realizações posteriores como A Clockwork Orange / Laranja Mecânica (livro de Burgess adaptado para o cinema por Kubrick), V For Vendetta / V de Vingança (novela gráfica escrita por Alan Moore que foi fonte para o filme homônimo), The Handmaid’s Tale / O Conto da Aia (romance de M. Atwood que inspirou uma adaptação cinematográfica por V. Volker Schlöndorff e uma série televisiva produzida pela Hulu) ou Diamond Dogs (álbum musical de David Bowie) etc.
Com base nos estudos de Clayes, Lynskey e Matos, dentre outros pesquisadores, mostraremos um pouco do legado deste romance no cinema, na música, no teatro, nos estudos de mídia e nos debates sócio-ambientais. A respeito da atualidade da obra, cabe-nos destacar que 1984 hoje marca a cultura contemporânea com uma alta presença no campo da memética e das mídias sociais: em bonés, camisetas e postagens ciberculturais, com frequência somos lembrados de que o livro “não era um manual de instruções”, ainda que a indústria do entretenimento assim o tenha tomado, a começar pelo primeiro programa Big Brother que foi ao ar na Holanda em 1999, antes de tornar-se coqueluche inclusive no Brasil, onde o famoso BBB é veiculado pela Rede Globo desde 2002.
Na esteira do ascensão da extrema-direita neo-con nos EUA e no Brasil, baseada no que poderíamos chamar de ideologia do “Bolsotrumpismo” (fenômeno intensamente analisado no Brasil a partir de 2016 nas obras de Rodrigo Nunes 7, Rudá Ricci etc.), muitos hoje clamam de maneira irônica: “make Orwell fiction again!” Quando Edward Snowden assoprou seu apito denunciando os abusos da NSA, em fenômenos que depois foram retratados no cinema por Oliver Stone (2016), 1984 teve um boom de vendas. Anos depois, com a eleição de Trump, o livro skyrocketed para o topo dos best sellers: “a reação aos ‘alternative facts’ da administração de Trump fez esgotar as cópias na Amazon, traduzindo-se num aumento de 10.000% na venda do romance.” (MATOS: 2019, p. 402). Os humanos letrados do Antropoceno não se sentem autorizados a ignorá-lo: 1984 se impõe.
No âmbito da cibercultura e da nova fase do capitalismo digital comandado desde o Vale do Silício, é notório que mega-empresas dos EUA, como a Apple, quiseram dialogar ironicamente com Orwell – como ocorreu durante o lançamento do Macintosh, em 1984, cuja multimilionária campanha publicitária tentava convencer os consumidores de que o ano de 1984 real não seria nada parecido com o pesadelo que Orwell plasmara em seu assustador enredo.
Para além da consolidação do adjetivo “orwelliano”, que teve destino semelhante a “kafkiano”, vivemos hoje um boom de publicações acerca de Orwell, algumas destinadas a saciar um vasto público interessado em acessar sua vida e obra também através de histórias em quadrinho e novelas gráficas 8.
A conjuntura histórica e biográfica que explica o nascimento do livro foi revelada com maestria em Ministério da Verdade (Cia das Letras), em que Lynskey faz um panorama minucioso da tremenda repercussão cultural de 1984. Aqui frisamos que Orwell suscitou uma série de obras audiovisuais que adaptam seus livros ou que inspiram enredos semelhantes aos narrados ali: são pelo menos duas adaptações para o cinema, uma lançada em 1956, em p&b, com direção de M. Anderson; outra dirigida por M. Radford,no ano de 1984, e estrelada por Richard Burton (que encarna O’Brien) e John Hurt (que faz W. Smith).

Outras ressonâncias poderiam ser sopesadas em outros cantos, do teatro à poesia, das artes performáticas à música: 1984 inspirou pelo menos dois álbuns musicais conceituais, Diamond Dogs, de Bowie, e o arrojado disco da artista brasileira Jucilene Buosi 9, grande parte deles comentadas no texto de alto teor informativo de Lynskey. Em 2026, o cineasta haitiano Raoul Peck lançou Orwell: 2+2=5, filme-tese onde aborda o mundo contemporâneo e todos os dilemas excruciantes que nos interpelam no Antropoceno, confirmando a suspeita do autor de esta tese trilha caminhos relevantes ao dar importância a uma reflexão filosófica perpassada pelo pensamento e criações de Orwell.


Nascido na Índia em 1903, com nome de batismo Eric Arthur Blair, logo emigrou para a Inglaterra: em sua juventude, frequentou escolas britânicas de elite como Saint Cyprian e Eton (nesta última, chegou a ser aluno de Aldous Huxley). Porém, nunca esteve bem adaptado a estes espaços escolares aristocráticos e desde cedo manifestou tendências que depois o conduziram a engajar-se politicamente no campo da esquerda, sobretudo na defesa do que denominava “socialismo democrático”.
Começou sua vida profissional como policial do império britânico em Burma (experiência que inspira seu romance Dias na Birmânia). No entanto, enojado com o imperialismo e desgostoso com seu trabalho em prol do Império Britânico, decidiu mudar radicalmente de vida: de volta ao solo inglês, escolhe vivenciar na pele o destino dos oprimidos de Paris e de Londres, tema de seu primeiro livro publicado, a autobiografia ficcionalizada Down and Out in Paris and London (1933).
Em 1936, decide juntar-se como guerrilheiro à luta antifascista na Espanha e batalha nas fileiras do POUM contra as tropas do general Franco. Daí decorrem seus escritos Homenagem à Catalunha e Lutando na Espanha, marcos na historiografia deste período marcado pela ascensão do nazi-fascismo no entre-guerras. Suas primeiras obras são todas autobiográficas, documentais ou ficções baseadas em fatos reais, de maneira que Orwell consolida-se como jornalista e autor de livros-reportagens (a exemplo de Caminho Para Wigan Pier), além de complementar sua renda como crítico literário e articulista (sua carreira como resenhista de livros e autor de artigos de opinião já foi objeto de compilações importantes de ensaios, disponíveis no Brasil nos volumes Dentro da Baleia e Como Morrem Os Pobres).
Simultaneamente a seu trabalho de escrita de não-ficção, nos anos 1930 escreve alguns romances notáveis: A Filha do Reverendo (A Clergyman’s Daughter), A Flor da Inglaterra (Keep the Aspidistra Flying) e Um Pouco de Ar, Por Favor! (Coming Up For Air), que preparam o caminho para aqueles que são amplamente reconhecidos como seus escritos de ficção mais influentes e impactantes, produzidos nos anos 1940, últimos anos de sua vida: Revolução dos Bichos e 1984.
Não devemos esquecer que 1984 é fruto da segunda metade da década de 1940, ou seja, seu autor está produzindo esta obra sob o impacto da explosão sinistra das bombas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Está próximo no tempo à hecatombe do Holocausto (Shoah), além de ser contemporâneo do processo de independência de seu país natal, a Índia, e da traumática partição deste país que ocasionou o surgimento do Paquistão. Ou seja, o quadro geopolítico onde Orwell atuou é dos mais complexos e conturbados, ainda que muitas vezes se tente fazer o livro 1984 ser reduzido a uma espécie de panfleto anticomunista (posição que aqui tentaremos refutar).
Orwell agiu como um intelectual público e comunicador social de considerável repercussão. Uma vida, tão breve mas tão cheia de eventos, tem suscitado muito interesse de biógrafos – dentre os quais se destaca Bernard Crick, autor de George Orwell – A Life, e Jacinta Maria Matos, autora de uma análise crítica da totalidade desta vida em sua Biografia intelectual de um guerrilheiro indesejado.

A imagem utilizada pelo personagem O’Brien, enquanto tortura Winston Smith nos cárceres do Ministério do Amor, consolidou-se como um emblema: segundo o torturador designado para “re-educar” o transviado Winston e sua amante Julia, todos aqueles que desejam uma imagem do futuro devem visualizar uma bota que pisoteia para sempre um rosto humano. Eis uma imagem sintética da opressão totalitária que o livro veicula. Segundo Burgess, que deixou um interessante ensaio crítico a Orwell no livro 1985, “the book continues to be an apocalyptical codex of our worst fears.” (BURGESS: p. 40)
Dividido em 3 partes e perfazendo um total de 23 capítulos, o livro originalmente chamava-se The Last Man on Europe (título de teor Mary Shelleyano) e foi escrito após o fim da 2ª Guerra Mundial, em condições de relativo isolamento, na ilha de Jura, na Escócia, onde o escritor morou de forma intermitente entre 1946 e 1949, ocasionalmente sendo internado devido à sua precária condição de saúde.
Uma distopia que denuncia um regime totalitário, baseado na vigilância estatal perene e no incentivo ao “denuncismo” em massa, onde a ortodoxia é mantida a ferro e fogo pela ação da “Polícia do Pensamento” (Thought Police), 1984 tem em seu cerne a crítica ao autoritarismo do Partido Único que reina na Oceania, um dos três super-poderes que reinam na Terra devastada por uma guerra nuclear.
Os aspectos mais conhecidos do regime são o culto ao líder (Big Brother), a constante mobilização do ódio ao inimigo demonizado (Goldstein, suposto autor de um livro proibido e satanizado a respeito do Coletivismo Oligárquico) e uma ideologia obrigatória que dá coesão ao sistema conhecida como Ingsoc (corruptela de English Socialism). O protagonista Winston S., funcionário do Ministério da Verdade, logo no primeiro capítulo do romance inaugura um diário secreto e ensaia tornar-se um rebelde antissistêmico. De algum modo participando de uma longa tradição vinculada às cautionary tales, ou seja, às narrativas que visam produzir no leitor a virtude da cautela ou prudência (caution), 1984 soa muitos alarmes em relação à ameaça de imposição totalitária de um regime que reprime brutalmente a heterodoxia, o desvio: Winston e Julia são emblemas da dissidência que é esmagada pelo status quo.
O livro descreve o trajeto de Smith até seu fim inglório nos cárceres do regime, onde é barbaramente torturado nas celas do Ministério do Amor e sofre, em prol de sua “re-educação”, um processo que poderíamos chamar de lavagem cerebral, baseado no re-condicionamento de seu comportamento, contexto depois explorado por Burgess/Kubrick na descrição da delinquência juvenil e da reação sistêmica a esta em A Clockwork Orange.
O sistema social descrito em 1984 mantêm-se através da produção de uma idiotia em massa através da imposição da Novilíngua (Newspeak), um novo idioma, supostamente purgado dos defeitos da língua inglesa tradicional (Oldspeak). A Novilíngua – cuja descrição pormenorizada encerra o romance – tem por finalidade estreitar os horizontes do pensamento, impedir a razão de operar com liberdade, acorrentar o intelecto através da imposição de estreitos limites à linguagem, impedindo um pensamento mais complexo, ambíguo e dialético.
O idioma que vem substituir o inglês é manejado com fins políticos com a finalidade de fechamento dos horizontes intelectuais e cognitivos, facilitando assim a imposição de uma ortodoxia estrita: sua imposição como língua única visa coibir as heresias do pensamento conhecidas, em Newspeak, pelo termo crimethink, punível pela Thought Police.
Neste sentido, a sátira Orwelliana coaduna-se com a noção de Arendt, que podemos extrair tanto de Eichmann em Jerusalém quanto de A Vida do Espírito, de que o totalitarismo (seja em sua manifestação nazi-fascista, seja em sua encarnação soviética) depende da irreflexão (o que esta autora chama de thoughtlessness), e esta de um empobrecimento linguístico e conceitual que gera o falar só por clichês e slogans (o que Orwell expressa através do termo “gramophone minds”).
Além disso, prenunciando o Fahrenheit 451 de Bradbury – que em 2018 recebeu uma atualização cinematográfica mais de 50 anos após o primeiro filme nele baseado, realizado por Truffaut) – Orwell tematiza indiretamente o bibliocausto ao mencionar que as traduções dos clássicos (como Shakespeare, Dickens ou Swift) para a Novilíngua implica uma diminuição tremenda destas obras, uma desfiguração que as amputa mortalmente, já que as versões sintéticas destes grandes autores mais traem do que traduzir os originais.
O Sistema também exige de seus súditos o Duplipensar (Doublethink), uma espécie de capacidade de compartimentalizar crenças contraditórias para mantê-las ambas de pé, numa espécie de sustentação da dissonância cognitiva. Vale frisar ainda que a função pública exercida por W. Smith tem a ver com uma espécie de perversão da historiografia que pode ser emblematizada pelo “buraco da memória” (memory hole). Crucial nesta distopia é a ação do Partido – cindido entre uma elite, chamada de Partido Interno, e de uma casta subordinada de burocratas e funcionários, chamada de Partido Externo, no sentido de dominar a narrativa sobre o passado. O que na prática transforma a casta dirigente em figuras que poderíamos chamar, com Vidal-Naquet, de “assassinos da memória”.
Um dos lemas do Partido – ignorância é força – aplica-se também à relação com o passado: espera-se dos funcionários do regime que aceitem algo similar ao velho lema ignorance is bliss. O súdito perfeito acolhe como fato a última versão da História que foi forjada ou remendada pelo Ministério da Verdade. Destruindo evidências, queimando livros, rasgando fotografias, mudando biografias de antigos aliados que se transformaram em inimigos do estado, ou re-escrevendo e re-publicando os jornais, o sistema segue seu conhecidíssimo mote: “quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.”
Um exemplo histórico que pode ter inspirado Orwell é a maneira como o stalinismo adulterou fotos e documentos oficiais de maneira a excluir Trotsky quando este havia se tornado persona non grata na URSS já encabeçada por Stálin. Isto nos dá ensejo para esclarecermos alguns pontos acerca da questão: o que abriu caminho para o acontecimento 1984, ou seja, quais são os antecedentes literários e as inspirações que incidiram sobre Orwell?

Para buscarmos as determinações concretas, histórico-culturais, que incidiram sobre Orwell e o fizeram parir esta distopia inescapável, criada em meados do século que foi apelidado por Hobsbawm como A Era dos Extremos, atentemos para a questão: quem foram os mestres de Orwell? Estudiosos apontam que muitos dos escritores prediletos do autor, ou seja, algumas das pessoas com quem ele mais aprendeu, eram ex-comunistas, pessoas que haviam vivenciado o comunismo da mesma forma que Orwell o fez com o imperialismo, ou seja, “desde o ventre da besta” (LYNSKEY: p. 49).
Mapeando esta constelação de leituras que informou a composição do livro, Lynskey destaca Koestler, Zamiátin, Wells, Dickens, Conrad, Burnham. Sabemos que Orwell era um leitor voraz, até mesmo em virtude dos empregos que teve como resenhista de livros. Era admirador de obras como Filho Nativo de R. Wright e conhecia profundamente os escritos
Swift – o que nos leva a propor que a sátira orwelliana, incluindo aí Animal Farm, Coming Up For Air, A Clergyman’s Daughter e 1984, participa de uma correnteza artística que tem relações íntimas com As Viagens de Gulliver, mas também bebe nas fontes literárias caudalosas que são Gargantua e Pantagruel de Rabelais, Ilusões Perdidas de Balzac e o Dom Quixote de Cervantes.
No que tange a 1984, Lynksey aponta alguns escritores e obras que tiveram uma influência impactante sobre Orwell no aspecto da denúncia do comunismo a partir de dentro, destacando sobretudo as obras do francês André Gide, De Volta da URSS, do belga Victor Sergee seu relato do Ano 1 da Revolução Russa, e de Arthur Koestler,com seu retrato dos cárceres stalinistas em O Zero e o Infinito, que segundo Lynskey destacam-se nesta trupe de escritores que Orwell venera:
“Estas leituras proporcionaram a Orwell os primeiros vislumbres do funcionamento do regime de Stálin. Muitos dos detalhes e casos que ele descobriu nesses livros foram reaproveitados em 1984: o culto da personalidade, a re-escritura da história, a supressão da liberdade de expressão, o desprezo pela verdade objetiva, os ecos da Inquisição espanhola, as detenções arbitrárias, denúncias e construções forçadas (obtidas sob tortura), e acima de tudo o clima sufocante de desconfiança, de autocensura e de medo. Orwell respeitava esses escritores não apenas pelas informações que forneciam. Os ataques deles a Stalin eram alimentados pela vergonha pessoal e por uma necessidade visceral de exorcizar a credulidade e a cumplicidade por meio do que Orwell chamou de literatura da desilusão. Nesta apavorante e empolgante onda inicial de heresia, os antigos comunistas se expressavam com uma urgência arrebatadora. Igualmente heróica era a solidão deles. Muitos se viram abandonados por vários amigos e ignorados pelos editores…” (LYNSKEY: p. 49)
Em Revolução dos Bichos, a obra que antecede 1984, o tema das revoluções traídas também é central: esta fábula, que também poderia ser enquadrada como cautionary tale, revela o autoritarismo dos porcos que se tornam a nova elite da Granja do Sr. Jones. Chefiados pelo líder Napoleão, que tem seu grande adversário em Bola-de-Neve, os porcos de Animal Farm simbolizam os “ex-oprimidos” que se metamorfoseiam em opressores na situação pós-revolucionária.
Nos dois livros, podemos dizer que há uma oposição entre líderes e entre vertentes revolucionárias, historicamente ilustrada pela oposição Stálin vs Trótski (transpostos ficcionalmente por Orwell como Napoleão vs Bola de Neve, Big Brother vs Goldstein). Não são poucos os pontos de contato da fábula dos bichos com 1984: notemos, por exemplo, que Julia chama a elite do “Partido Interno” (Inner Party) de swine, ou seja, suínos ou porcos. Esta rebelião verbal de Julia, no romance, contagia Winston numa fase em que ambos decidem engajar-se na guerrilha supostamente chefiada por Emmanuel Goldstein.
O grande tema de Orwell nestas célebres obras dos anos 1940, portanto, são as revoluções traídas, as utopias inicialmente devotadas à igualdade e à liberdade mas que degeneram em oligarquias opressivas e totalitárias. Eis, portanto, uma literatura que participa de uma “onda” de questionamento crítico que inclui ainda as significativas produções de Isaac Deutscher, de Bukharin (representado no supracitado romance de Koestler), Souvarine, Soljenítsin etc.
Isto nos conduz à hipótese de que Orwell não fez futurologia, mas sim construiu uma sátira baseada em elementos e tendências que já encontrou no seu presente histórico ou no seu passado imediato. Porém, há muito mais do que um mero anticomunismo militante em ação aqui: o capitalismo também está em questão, assim como aquilo que chamamos hoje de Sociedade do Espetáculo.

O regime Ingsoc também é marcado pela imposição do “ideal ascético” (recuperando aqui a expressão de Nietzsche) aos membros do Partido: no que diz respeito às mulheres, em 1984, caso pertençam aos 15% da população que integra as fileiras do partido dominante, precisam ser castas, avessas ao sexo carnal, apenas aceitando este após o casório e com fins de gerar filhos, e devem portar em seu vestuário o célebre scarlet sash.
Abrindo assim vias ainda pouco exploradas para uma crítica feminista do totalitarismo puritano, destacaremos aqui alguns elementos que indicam que há mais de 1984 na obra-prima de Atwood, The Handmaid’s Tale, do que sonha nossa vã (e masculinista) filosofia! A autora canadense, uma das mais importantes escritoras de ficção especulativa e distópica no mundo contemporâneo, em artigos do livro Curious Pursuits, afirma que seu romance, escrito no ano de 1984 mas que vive um revival nas décadas de 2010 e 2020, nasce ao menos parcialmente de uma investigação sobre como seria o livro de Orwell narrado da perspectiva de Julia. Desta personagem Orwelliana – e de sua rebeldia contra o scarlet sash, assim como da fonte Hawthorneana (Atwood certamente se inspirou também em A Letra Escarlate), nasce a semente da distopia de Gilead (cuja crônica sinistra também ocupa o romance da autora Os Testamentos).
Sabemos que o regime de segregação social, que separa os 85% da população composta pelos “proles” (proletários) do restante da população (sua casta dirigente), baseia-se também num importante artigo da ideologia do Partido (Ingsoc), o intento de “aniquilar o instinto sexual” (nas palavras de Orwell, “the ideology of the Party was trying to kill the sex instinct” – op cit, pg. 70). Isto torna-se claro quando atentamos para a personagem do romance Katherine, injustamente obliterada de quase todas as leituras de 1984: esposa desaparecida de Winston Smith, Katherine é descrita como uma mulher extremamente submissa ao ascetismo puritano imposto pelo regime e este traço de caráter – uma espécie de interiorazação hiperbólica da repressão sexual – conduz o casal a uma crise conjugal severa e à posterior separação (ainda que sem o divórcio formal).
Podemos dizer que uma das chaves de compreensão da psiquê de Winston Smith, de seu caráter de outsider dissidente, tem a ver com uma profunda insatisfação psico-somática que este personagem sente devido à vigência de uma civilização anti-erótica, por assim dizer, e que poderíamos interpretar com o auxílio de pensadores como Marcuse (Eros e Civilização), Wilhelm Reich (A Função do Orgasmo, Psicologia de Massas do Fascismo etc.) ou Byung Chul-Han (Agonia do Eros). A relação Winston e Katherine, descrita como fracassada, insatisfatória, onde tanto a sexualidade quanto o amor fracassam, parece conduzir o anti-herói de Orwell aos descaminhos que serão sua danação.
Isto fica evidente quando atentamos às entradas do diário de Winston, às vezes destinadas à confissão de suas aventuras sexuais nos bairros proletários, onde ele vai à procura de prostitutas (prática relativamente tolerada pelo Partido quando exercida discretamente pelos homens que trabalham nos ministérios), ainda que não consume o ato sexual extra-conjugal devido a uma repulsa que sente diante da mulher prostituída que encontra e que percebe ser bem mais idosa (e banguela) do que antes esperara (p. 73). Ou seja, bem antes de transviar-se através do tórrido caso com Julia que será a danação de ambos, Winston já saía dos trilhos da ortodoxia reinante indo ao bairro dos proles em busca de encontros sexuais-afetivos proibidos pois sentia-se sexualmente insatisfeito e emocionalmente esquálido, uma vez que estava rodeado por mulheres frígidas e por camaradas moralistas envolvidas nas Anti-Sex Leagues. Aqui está uma ponte possível, um link interessante, entre Orwell e Atwood.
O livro de Orwell retrata o ato sexual como rebelião política e aponta para o lema feminista “o pessoal é político”. Insurgentes contra o Ingsoc, Winston e Julia se encontram clandestinamente num quarto secreto, localizado em cima da loja de antiguidades onde Winston comprou o caderno onde redige seus diários, e também arriscam-se a fazer sexo ao ar livre nos bosques onde supõe que nenhuma teletela ou microfone os vigia.
Em uma das cenas mais líricas do romance, ela rasga o seu “sash” escarlate e eles entram em êxtase carnal ouvindo um pássaro cantar – eis o único idílio que se abre no labirinto sinistro do romance. Neste oásis temporário que Winston e Julia abrem para eles mesmos in the woods, Orwell destila um certo romantismo rebelde anti-modernização (no sentido de M. Löwy). Os corpos rebelam-se contra os correntes opressoras da Marcusiana “sobre-repressão” sexual.
Em 1956, quando ocorre a primeira adaptação para o cinema, dirigida por Michael Anderson, o poster do filme frisa este elemento e destaca a questão: “o êxtase será crime no aterrorizante mundo do futuro?” Vale ainda mencionar que as personagens femininas de 1984, não apenas Julia mas também Katherine, são muitas vezes injustamente subestimadas ou mesmo ignoradas por muitos intérpretes, na falsa presunção de que Orwell seria um autor machista – postura que ignora também o fato de que um de seus melhores romances dos anos 1930, A Filha do Reverendo, possui uma complexa protagonista feminina, e esquece de mencionar a extensa e intrincada influência que o autor sofreu de sua primeira esposa, Eileen O’Shaughnessy. Neste contexto, vale mencionar que, ao contrário do que se afirma usualmente, o título 1984 provavelmente não é um jogo de números com o ano de 1949, ano em que foi publicado; é muito mais plausível, como tem sido argumentado pela pesquisadora Sylvia Topp, que 1984 seja um diálogo de Orwell com um poema escrito por Eileen em 1934.
Uma falha recorrente dos intérpretes de 1984 é o menosprezo pelas ideias e comportamentos que Julia veicula no romance, o que conduz muitos resenhistas e comentadores a simplesmente omitir o fato de que o livro de Orwell inclui um ataque ao puritanismo e toda uma teoria de psicologia social acerca da histeria de massas e que tem em Julia sua porta-voz. Julia é externamente conformista, fornece a aparência de adesão plena ao regime, e grita junto com os concidadãos durante as diárias sessões de descarrego contra os inimigos do Ingsoc, mas intimamente ela não se sente pertencente àquilo e acaba percebendo em Winston uma alma-irmã na sua inadequação (uma das frases que Julia dirige a Winston, após entregar-lhe um bilhete onde se lê I love you, é sintomática disto: “I’m good at spotting people who don’t belong”).
Diante do fenômeno constantemente repetido das massas embevecidas de idolatria pelo Partido do Grande Irmão, Julia age secretamente como socióloga e psicóloga social. Junto de Winston, nos poucos momentos de intimidade clandestina, arriscadamente conquistados pelo casal, Julia dispara diagnósticos civilizacionais para a escuta de Winston, que assim fica galvanizado em sua própria rebeldia. Segundo Julia, todo o processo de massas marchando e tremulando bandeiras, todos os suntuosos desfiles bélicos, são sumarizados neste diagnóstico denso: “it’s simply sex gone sour”.
A sociedade hierárquica e piramidal de Oceania é acusada de promover a repressão sexual justamente com o fim de produzir indivíduos histéricos, cheios de frustrações e agressividades, a serem manipulados cotidianamente nas sessões de Dois Minutos de Ódio (que culminam na orgia fascista da Semana do Ódio). Winston e Julia desobedecem, transgridem as normas vigentes, afrontam o status quo, simplesmente por se encontrarem na floresta ou no quartinho para transar.
Porém, Julia não acredita em nenhum movimento de resistência coletivo, mas sim no quebrar as regras de indivíduos; ainda aderindo à ética do doublethink, ela pode ser descrita como uma hipócrita, que aparenta ortodoxia e faz junto com a manada todo os gestos estereotipados requeridos pelo poder, mas secretamente, no que lhe restou de privacidade, deseja rasgar todos os cintos de castidade e lançar na lama o scarlet sash. O emblema mais forte disto está na frase de Winston: ao descrever o gesto de Julia ao se despir como algo que veicula uma condenação e uma tentativa de aniquilação de toda a civilização onde estão aprisionados e oprimidos.
É neste contexto que o filósofo francês Frédéric Gros, em seu livro Desobedecer, diz que as distopias do séc. XX têm muito a ver com o que chama de “conformismo de nivelamento” – contra o qual Winstons e Julias se insurgem. Gros se refere a um “pesadelo” real:
“As distopias – de Zamiátin a Huxley e Orwell – identificam e põem em cena um conformismo de massa que não é o resultado do achatamento das individualidades, do esmagamento mecânico das singularidades imersas na média, da diluição progressiva das diferenças na mediocridade majoritária. Não, trata-se de um conformismo que seria o resultado da produção das uniformidades:produzir comportamentos uniformes, produzir esquemas reativos como se condicionam máquinas, produzir indivíduos padronizados como se fabricam mercadorias. Mas, ao nos alarmarmos com essa produção do mesmo, será que não visamos sobretudo à utopia totalitária? Foram os totalitarismos antidemocráticos que praticaram a arregimentação das populações, seu condicionamento ideológico. A não ser que se denuncie, como o fez uma grande parte do pensamento crítico dos anos 1970, um aspecto totalitário, alastrante, no fundo das democracias liberais, das sociedades de livre mercado. O capitalismo de massa também produz comportamentos padronizados: submergindo os indivíduos numa cultura açucarada, uniformizando os modos de consumo, normalizando os desejos. Cada um sente que é realmente ele próprio, satisfeito, integrado, democrático a partir do momento em que possui e pode exibir o que é comercialmente constituído como um objeto do desejo de todos, outorgando-se no interior do conformismo generalizado a ínfima variação preestabelecida em que ele acredita decidir sobre sua unicidade.”” (GROS, 2018, p. 106)



Apesar de seus inúmeros defeitos, o filme de 1956 destaca elementos cruciais do livro de Orwell que passam desapercebidos por muitos leitores: para além de seu início com a explosão de bombas atômicas, que pontua bem o período histórico em que o autor redigiu a obra, o poster “Big Brother is Watching You” é ubíquo, assim como a imagem do grande líder ao fim dos vídeos veiculados nos “Dois Minutos do Ódio”, porém nunca o Big Brother é mostrado “em carne e osso” – ele é sempre uma imagem.
São sempre homens de carne-e-osso que trabalham para a Thought Police ou para o Inner Party, mas sugere-se claramente que o Grande Irmão não passa de uma ficção e que seus asseclas são os idólatras de uma imago.No filme de Radford, que já se inicia com um grande comício do movimento político hegemônico Ingsoc, o Grande Irmão é também uma imagem fotográfica estática no telão, a ser venerado como o salvador da Oceânia contra as hordas atrozes da Eurásia e contra o arquitraidor Goldstein..
No romance, tudo indica que o “Big Brother” não existe enquanto indivíduo humano de carne-e-osso – não se trata de um líder carnal, mas sim algo similar ao Uncle Sam ou a Brittania: símbolo, imagem, ídolo. Especula-se que o BB foi baseado em figuras históricas como Stalin ou Hitler, mas há outras opções: talvez o autor tenha se inspirado em B. Bracken, do Ministério da Informação britânico.
De todo modo, hoje o Big Brother tornou-se símbolo da onipresença da vigilância “Panóptica” (Bentham/Foucault) catalisada pela cibercultura – e não apenas inspira o nome de um dos mais célebres shows da reality TV, mas também é emblema das câmaras de vigilância em massa com reconhecimento facial e da coleta de Big Data pelas empresas do Vale do Silício. Não surpreende, portanto, que 1984 marque presença tão profundamente em importantes documentários contemporâneos como Coded Bias ou O Dilema das Redes.
Todo o debate contemporâneo sobre pós-verdade, conceito já inserido pela Universidade de Oxford em seu dicionário desde 2016, quando foi escolhida a palavra do ano, pode ser muito enriquecido por um diálogo franco e crítico com os escritos que nos foram legados por George Orwell e onde se debate a fundo uma espécie de colapso da verdade objetiva. Em 1984, o Ingsoc é classificado, no âmbito das doutrinas filosóficas, como uma espécie de solipsismo coletivo, ou seja, a ideia transmitida pela fórmula 2 + 2 = 5 e que indica que não há verdades objetivas e que a soma de dois e dois é igual a qualquer número que o Líder Supremo da coletividade homogênea ordenar que seja. Por isto a insistência de Winston Smith na afirmação banal de que 2 + 2 = 4, coligada com seu engajamento na liberdade de expressar esta sentença aritmética, funciona como um modo de resistir a um conceito canalha de verdade que retira desta qualquer conexão com a objetividade (com aquilo que existe independentemente das consciências humanas).
Desde seu primeiro capítulo, 1984 revela este mega-aparato de pós-verdade e ficcionalização, de assustadora extensão, destinado a canalizar o ódio social (este construído também pela agonia de Eros nesta sociedade puritana), na direção de um inimigo do sistema, demonizado e tão fictício quanto o Grande Irmão, e que atende pelo nome de Goldstein. Tudo indica, pois, que tanto o Big Brother quanto Goldstein são ficções.
Resta ainda frisar o quanto seria reducionista e injusto transformar a obra de Orwell em uma espécie de mega panfleto anticomunista – é preciso salientar que o autor sempre se declarou como pertencente à esquerda, ao campo do “socialismo democrático”, e que sua crítica do totalitarismo stalinista é feito a partir de um viés esquerdista. Além disso, o romance se passa em Londres – numa Inglaterra que agora se chama Airstrip One – e que muitas das descrições da metrópole onde tudo se passa em 1984 tem relação com o cenário de escombros que Orwell conheceu na capital inglesa, duramente bombardeada pela Luftwaffe alemã e que vivia então numa preocupação aflita em relação ao porvir da guerra atômica (o que deu ensejo ao impacto tremendo do filme The War Game, de Peter Watkins, vencedor do Oscar de Documentário, como veremos).
Vale destacar também a vivência pessoal do autor no serviço de radiodifusão da BBC, trabalho que depois abandonou por estar insatisfeito com certas políticas da empresa que consistiam em divulgação de propaganda para o consumo dos súditos do Império na Índia. Orwell disse em várias ocasiões que 1984 era um alerta sobre o que poderia acontecer em qualquer local do planeta, inclusive nos EUA e na Inglaterra, com o avanço de novas vertentes do totalitarismo que se utilizassem de todo o aparato da Sociedade do Espetáculo para impor um regime autoritário, militarista, fanaticamente bélico, ainda baseado na rapina colonial e na imposição de uma péssima qualidade de vida às maiorias proletárias, e nada seria mais falso e mistificador do que reduzir 1984 e Revolução dos Bichos a meros panfletos anticomunistas, quando estes também apontam para as ameaças que rondam as democracias burguesas ocidentais.
No panorama dos new maps of hell11, Orwell disseca as entranhas de uma besta utópica e revela seus horrores. Através de sua prosa informada pela vivência e repleta de aprendizados obtidos com o testemunho das vivências alheias, foi um indomável sátiro e conscientious objector do que desde então não paramos mais de denunciar como totalitarismo. Segundo Lynskey, “era a percepção das próprias deficiências que o inoculava contra as ilusões utópicas da perfectibilidade humana” (LYNSKEY: 2021, pg. 30), e a partir deste ethos Orwell pôde também se tornar um dos intelectuais mais importantes na decifração dos fenômenos vinculados ao fascismo.
A queda em desgraça de uma utopia, tema vinculado ao das revoluções traídas, também nos conduz a reflexões sobre como as pessoas e sociedades lidam com a frustração proveniente da insatisfação de um certo desejo ou o fiasco de um certo projeto. Os seres humanos têm diversos expedientes simbólicos e expedientes psico-emocionais que utilizam para buscar algum tipo de equilíbrio psíquico, frequentemente ameaçado, desequilibrado e posto fora dos eixos pelo influxo de novas informações que derrubam, ou ao menos ameaçam derrubar, velhas crenças e antigos dogmas. É nesta constelação de problemas que o doublethink ou duplipensar hoje se insere, oferecendo através do enredo de 1984 uma concretude ímpar e até hoje insuperada ao conceito, cada vez mais ascendente nas ciências humanas e sobretudo na psicologia social, de dissonância cognitiva.12
Foi o lúcido denunciador das distopias totalitárias e utopias falidas, plasmando nas páginas de sua obra-prima final um retrato assustadoramente presciente do que poderia se tornar a empreitada humana sob a face de uma Terra radicalmente artificializada, repleta de teletelas, arranha-céus e velhos sistemas hierárquicos piramidais. O valor ético-político incomensurável de Orwell, em minha opinião, está na coragem com que defendeu que o esforço intelectual não pode jamais se desvincular da realidade objetiva, ainda que esta muitas vezes nos seja esquiva devido a tantas tentações ao nosso redor e dentro de nós seduzindo-nos à mentira, às soluções fáceis, à cegueira voluntária e à crença em que tudo ficará bem neste que é o melhor dos mundos possíveis. Este intelecto poderoso, artista brilhante e inspirador de alguns dos melhores enredos de ficção especulativa já feitos segue sendo um guia crucial para nós que queremos aprender a viver e morrer sabiamente no Antropoceno – e não temos certeza nenhum de que venceremos. Orwell, em interlocução com B. Russell, uma vez apontou que
“o horror peculiar do momento atual é que não podemos ter certeza de que o bom senso vai preponderar. É bem provável que estejamos decaindo numa época em que dois mais dois são cinco quando assim estipula o Líder… Basta imaginar as sinistras possibilidades da educação pelo rádio, controlada pelo Estado, e coisas similares, para nos damos conta de que a frase ‘a verdade é maior e vai prevalecer’ é antes uma prece do que um axioma.” (ORWELL, apud LYNSKEY, 2021, pg. 52)13

1 Em uma breve lista, nada exaustiva, podemos mencionar os estudos de Raymond Williams, Harold Bloom, Anthony Burgess, C. Hitchens etc.
2 ORWELL, G. “You and the Atom Bomb.” In: Site da Orwell Foundation. Originalmente publicado em Tribune, 19 October 1945. https://www.orwellfoundation.com/the-orwell-foundation/orwell/essays-and-other-works/you-and-the-atom-bomb/
3 JAMESON, F. Arqueologias do Futuro. Ed. Autêntica, 2021.
4 LAWRENCE POWELL. 2084. Ed. Sextante, 2022.
5 ZIZEK. Alguém Disse Totalitarismo?: Cinco Intervenções no (mau) uso de uma Noção. Boitempo, 2013.
6 O dossiê tem 8 artigos e uma apresentação, acessível em https://revistarosa.com/3/orwell.
7 NUNES, “Do Transe À Vertigem” (Ubu, 2022). Remeto a meu artigo: https://acasadevidro.com/do-transe-a-vertigem/
8 NESTI, Fido. 1984. Quadrinhos na Cia, 2020. CHRISTIN, Pierre; VERDIER, Sébastien. Orwell: 1903. Dark Side, 2022.
9 BUOSI realizou uma significativa “leitura musical” de 1984 em seu álbum, lançado pela artista em 2017 e composto por 13 canções, disponível no Spotify.
12 Sobre a análise orwelliana sobre O Que É O Fascismo e sobre o debate sobre dissonância cognitiva coletiva (cf. FASTINGER, CASTRO ROCHA e outros), remeto a dois de meus artigos eletrônicos: https://acasadevidro.com/georgeorwell-fascismo/ e https://acasadevidro.com/dissonancia-cognitiva/
13 In: LYNSKEY, Dorian. O Ministério da Verdade – Uma Biografia de ‘1984’, o Romance de George Orwell. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
LEIA TAMBÉM:
https://setemargens.com/este-ano-de-1984
Publicado em: 05/04/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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