“Senti lá fora a terra arder!”, canta Delírio na “Ciranda do Apocalipse”. A primeira música de trabalho de uma das mais talentosas artistas multi-linguagem do cenário Gê-Ó carrega um refrão forte, que inicia e fecha a single apontando para uma estética-da-empatia com uma Terra ferida. Escute em:https://youtu.be/I821h-y-guk?si=C4xqL5y3JEu4MFl7
Interpretada com uma impressionante expressividade cênica, a canção que nos propõe um cirandear em meio à conjuntura apocalíptica em que estamos imersos tem por cereja do bolo um “resfolego planetário” que adiciona ainda mais performatividade a esta single complexa e teatral: é como se a cantora se identificasse com uma Gaia que tá sem fôlego, que respira com esforço ou ruído, quase como se o planeta e sua biosfera fosse uma pessoa com covid19, na UTI, respirando com auxílio de aparelhos.
Gravada no Laboris da EMAC/UFG, a música já havia sido apresentada ao vivo em ocasiões marcantes como o Festival Outros Nomes, belíssimo e tocante, que A Casa de Vidro cobriu audiovisualmente – na ocasião, a Fernanda também nos concedeu uma entrevista bacanuda, e tudo gerou quase um curta-metragem de 26min que eu acho que todo mundo da cena alternativa de Goiânia devia espiar com atenção e coração aberto: https://www.youtube.com/watch?v=vKqzwkqlTt8.
O timaço de musicistas envolvidos na track inclui Delírio (voz e composição), Dani Frisson (sanfona), Vytor Rios (rabeca), Lucas Barbosa (violão, voz e arranjo), Leticia Romano (percussão), Bororó Felipe (baixo) e Conceição de Marianna (percussão e voz). Os gringos chamariam isso de dream team, mas como nóis somos cerradeiros eu chamo mesmo é de banda-dos-sonhos.
Delírio é também ativa na OCLAM e sua arte vem nutrindo demais todos nós que frequentamos, quando podemos, os encontros, eventos e mostras oclâmicos. Na última Mostra, lá na Casa do Zoto, rolou uma homenagem ao nosso falecido amigo Bruno Duarte que até hoje me arranca suspiros e mareja os olhos: https://youtu.be/2WKCg5Y9LII
E vocês repararam na capa? Que assombro. Xilogravura pros cyber-tempos, mostra uma mulher despida, imersa em uma cena que parece a de uma floresta queimando. O core da moça, o tórax aberto, expele um coração-em-chamas que parece querer evolar-se do peito pra se juntar à floresta que grita. Eu pelo menos enxergo assim. Uma pessoa sensível, identificando-se com a biodiversidade que tá em colapso, torturada pelo agrofascismo, pelos ministros passadores-da-boiada, pelos bozonazis que louvam motosserras e produzem Dias de Incêndio Florestal de propósito. O canal da EMAC/UFG publicou uma interessante áudio-descrição – do tipo “pra cego ver” – que vale escutar mesmo pra quem tem olhos, viu? https://youtu.be/iFzfoazlNLs?si=DehhggNB_YL7Y1yt.
Delírio desenha, poetiza, canta, tatua etc. – explora linguagens sem respeitar fronteiras. E há algo em sua estética que me remete ao confessional (o tipo de música no qual Fiona Apple é gênia), mas aqui convertido em algo muito além do “show-do-eu” interpretado pela Paula Sibilia, e direcionado à relação do sujeito com o cataclismo sócio-ambiental e a desordem sociopolítica mundial.
No noticiário, enquanto escuto a canção no repeat, me dizem que “a Terceira Guerra Mundial pode ter começado” com o recente assassinato do aiatolá do Irã. E ela canta: “Existe uma guerra dentro de mim… existe uma guerra fora daqui… existe uma guerra dentro de nós…” – e eu sinto o contágio poético que Delírio transmite a partir da evocação de tantas guerras.
O eu lírico vem e questiona, pertinente e perturbador, empático com a Vida-em-transtorno no Antropoceno caótico – ei, você aí, cadê nossa água limpa? E esse calor, será que é normal? Ei, vocês aí de fuça colada na telinha do celu, estão conseguindo respirar?…
Pra terminar, eu quero dizer que, enquanto aprendiz de cancionista, enquanto alguém que tem tentado escrever canções, sinto muita afinidade com toda a poética que Delírio abraça aqui. Tanto a “Busablues”, que compus a letra em parceria com a Raab Paula, quanto a “O Clima É Nóis”, composta junto com o Leonardo Vergara, a primeira da Trupe Tudo Nos Trinks e a segunda dos Fritos da Terra, a intenção também é mergulhar neste caos fervilhante, trazendo a indignação e o desmazelo, para mostrar modos através dos quais o sujeito contemporâneo pode reagir, ao invés de ficar paralítico e alienado, a isso tudo que faz a Terra arder, e faz a gente tossir a fumaça das queimadas, e nos obriga a andar ensardinhados nos busões ou presos no ubercaos da 6×1, enquanto o suor escorre em rios, enquanto nos é barrado o banho nos cursos d’água, transformados em esgotos ou todos fodidos com rejeitos de mineração… Eita, o texto aí atrás ficou ruim pra peste de ler, ele não dá fôlego pro leitor, mas fazer o quê… Gaia tá fodidinha pela húbris do homo economicus e a gente faz o que dá pra respirar dentro dela… dai-nos fôlego e coragem, ó cosmos!
Tá fácil não, mas sem arte seria impossível.
Carli, A Casa de Vidro, 5 de Março do 2026 depois de Jêsuis.
Publicado em: 05/03/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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