
TRANSCRIÇÃO DO VIDEOCAST VIA SUBSTACK – É, galera, não temos tempo a perder!
A ampulheta está derretendo. Esse é o nome do primeiro capítulo desse videocast chamado O Antropoceno Entra em Cena. É uma série de vídeos que eu pretendo fazer no decorrer de 2026 para partilhar um pouco dos meus estudos e pesquisas vinculados ao meu doutorado em Filosofia da Arte na UFG, que se conclui no ano corrente. Mas pôr um ponto final em uma tese é muito diferente de abandoná-la e eu acho que é um momento muito oportuno para virar público com algo daquilo que eu tenho pesquisado e vivenciado nas redes e nas ruas, sobre o tema que nos ocupa, a época geológica dos humanos e todas as transformações que nós estamos impondo ao planeta. Esse primeiro episódio, ele é muito baseado na vivência…
Esse é um caderno que eu adquiri durante meu período fazendo sanduíche na Holanda onde eu também pude circular um pouco pela primeira vez na vida em algumas regiões do continente europeu, estive na Escócia, na Inglaterra, na França e também na Bélgica; e lá na Antuérpia, que é certamente um dos locais no mundo mais impressionantes para qualquer pessoa que se interesse por artes, eu adquiri esse caderninho com a obra de James Ensor, esse é o pintor esqueleto, fim do século XIX, e me parece que ao escolher o título do caderno – we have no time to waste! – eu não apenas me referi ao fato de que todos nós, sendo mortais, temos um tempo escasso ao nosso dispor e devemos aproveitá-lo bem, por exemplo, fazendo arte ou filosofia, mas eu também pensava em outra escassez de tempo que muitas vezes ainda não é bem percebida pelas pessoas e, desse modo, acabamos com a escassez de mobilização social conectada com essa não percepção de que nosso tempo está acabando. Para quê? Justamente para evitar o derretimento, por exemplo, dos grandes glaciares, das grandes massas de gelo que existem no planeta Terra.

Sabendo dessas urgências e pesquisando também com esse senso de urgência, eu não me limitei às atividades universitárias lá em Amsterdã, na UVA – chamemos assim carinhosamente a Universidade de Amsterdã – ,não me confinei dentro do âmbito universitário e também busquei participar nas ruas enquanto documentarista e pesquisador, daquilo que há de mais vanguardista no movimento social. Então, Extinction Rebellion em pauta. Era 2024, quando eu comecei a me envolver mais diretamente com Extinction Rebellion, Netherlands, e comecei a me mobilizar primeiro dentro da UVA, para descobrir os contatos das pessoas que poderiam ser entrevistadas e me explicar, por exemplo, por que essa ampulheta é o símbolo, o emblema, na logomarca do XR, do Extinction Rebellion, desse movimento social.
E, além disso, uma ampulheta no interior de um círculo. E esse símbolo fascinante da ampulheta, que há muito tempo me deixa matutando sobre o modo de contar o tempo, um modo antigo, analógico, pré-digital de contar o tempo, que me fascina por conta desses grãos de areia que caem, que chovem, de cima para baixo, e que depois que toda a matéria, todos os grãos de areia já caíram, a ampulheta pode ser revertida e esse tempo pode voltar a correr, a ser medido, por assim dizer. E essa materialidade, esse movimento de grãos de matéria arenosa, expressando que o tempo é algo inseparável da espacialidade, que é inseparável do movimento da matéria e da energia. De maneira que o Extinction Rebellion estava nesse momento colocando nas ruas, nas paredes e nas redes essa ampulheta para todo lado, conexa à denúncia do extrativismo de combustíveis fósseis e sua queima massiva, o que culminava com frequência, que parecia cada vez mais de ritmo acelerado, com esse movimento social promovendo os grandes bloqueios. E lá na A12 fui participar de um desses grandes eventos sociopolíticos, que é quando Extinction Rebellion vai lá e fecha uma avenida perto do parlamento holandês, em Haia, na cidade que eles chamam de Den Haag.
E o que mais me impressionou foi a disposição de centenas de pessoas de serem presas. Estamos dando nosso corpo para que a polícia venha, nos agrida, nos leve à força, nos enfie nos seus ônibus-camburões, e nos desloque forçosamente para muitos quilômetros daqui. Ver de olhos vivos, em carne e osso, a desobediência civil, a ação direta, como antes eu só havia lido em livros e revistas e visto em documentários, foi uma experiência que me galvanizou. E eu fui juntando outros símbolos e emblemas.
Além da ampulheta, encontrei o Dodo, que é aqui um personagem especialíssimo dessa nossa primeira fase do Antropoceno Entre em Cena, porque precisamos falar de extinção. Não como uma possibilidade, mas como o real, contemporâneo, atual, que está acontecendo, e não estamos agindo à altura. Não é que a extinção pode um dia vir a acontecer. A sexta extinção da diversidade das formas de vida nesse planeta é agora, está ocorrendo, enquanto falo… enquanto ouves… enquanto ouvimos música no Spotify… enquanto pagamos plataformas de streaming… enquanto nos acostumamos com o genocídio que Israel pratica na Palestina… enquanto banalizamos Trump e seu golpe contra a Venezuela para o extrativismo de petróleo… etc. Dodo é o símbolo disso… um pássaro já extinto. Isso é um fato da história natural, muito bem documentado. Perguntem aos biólogos, e quem se interessar por fósseis, existe profusão.
O dodo, enfim, a espécie chamada Raphus cuculatus, foi um pássaro que habitava lá na ilha de Mauritius e que se extinguiu. É uma espécie declarada extinta. E, inclusive, na história da arte, Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas, colocou a sua protagonista Alice, nas suas aventuras em Wonderland, através do espelho e por dentro da toca do coelho, com Humpty Dumpty e sua turma, ela também se depara com o Dodo.

E o que os holandeses têm a ver com isso? The Dutch, os holandeses, foram basicamente corresponsáveis pela extinção dos Dodos. Os maurícios, burgueses, liberais, neerlandeses, durante a colonização de Mauritius, causaram a extinção do Dodo. Esse é um caso, pode parecer minúsculo, pequeno, é um case of study, você poderia abrir muitos outros, você poderia fazer a mesma coisa sobre o mico leão dourado e explorar em outro contexto, não mais os holandeses, mas outros humanos levando o mico leão dourado à beira da extinção.
Então isso não é uma historinha da carochinha, isso não é pessimismo paranoide projetando possibilidades que nunca se darão, não… é extinção, é agora. E é muito significativo que 65 milhões de anos atrás, estudemos o caso dos dinossauros, que virou um clichê, a quinta grande extinção que ocorreu é… ela não teve agência biológica intraterrena. O que eu quero dizer com isso? A quinta extinção, 65 milhões de anos atrás, não foi causada por nenhuma espécie que estava na Terra, mas pelo impacto do meteorito lá na Bahia do México e as suas consequências, inclusive a mudança climática. A quinta extinção da biodiversidade, aquela que aniquilaria toda a diversidade dos dinossauros, abriria espaço para nós mamíferos e nós primatas iniciarmos a nossa evolução.
Esse ponto da história, da geohistória, da quinta grande extinção não foi causada por agência biológica. Nenhum bicho fez aquilo com os outros bichos. E agora essa é a novidade. Os bichos humanos estão fazendo isso com os outros bichos. O animal humano é o causador da sexta extinção em massa quando nenhum animal havia sido o causador da quinta.
Certo? Nosso planeta está em chamas, diz a Greta Thunberg, a crise climática continua a escalar, e o capitalismo insano, planeticida, em suas núpcias sinistras com o neofascismo, em seu cito, eu escrevi em inglês nessa época, endless drive for growth that continues to destroy the planet. Diante disso, organize.
Isso é um pouco do que eu penso que Extinction Rebellion significa. E eu começo a tecer algumas críticas ao movimento, ao fazer essas entrevistas com as lideranças e participar dos atos de bloqueio, tentando não ser preso, consegui não ser preso, mas formulei também a partir da minha vivência com uma câmera na mão, fazendo um documentário, a necessidade da gente ir além do mero stop, ir além do mero block. Isso vale também para a Naomi Klein. Eu tenho toda a admiração e realizei muitos aprendizados com a Naomi Klein. Mas eu acho que ela foi um pouco infeliz, ou ela deu um chute para fora do gol, quando ela propôs o termo BLOCKADIA. Não pegou, não memeficou, não mobilizou. E eu acho que é isso. Há um problema com você limitar o movimento social a ser o que bloqueia, movimento stop fossil fuels. Qual que é o problema? É você simplesmente se fazer como um obstáculo contra o avanço de uma força destruidora, por exemplo, colocando os corpos dos manifestantes na avenida para impedir a circulação dos carros ao redor do parlamento, até que se colapse a lucratividade dos combustíveis fósseis. Ou seja, há um telos, há uma meta, você bloqueia e você… causa uma disrupção da normalidade… com uma finalidade… politicamente até urgente e digna… mas… para além disso… para além do block… o que nós estamos aqui para construir? Que alter mundo é esse… que faremos juntos… caso consigamos… dar esse stop… nos ecocidas… nos que fazem a gente fritar com o incremento de temperatura na atmosfera do planeta?
De maneira que eu comecei a me perguntar, até porque é o tema da minha tese, utopia e distopia, até que ponto o Extinction Rebellion não era também, e não continua sendo de algum modo, um movimento refém de um certo distopismo, que está lá no título do movimento, né? Rebelião ou Extinção. É uma nova encruzilhada que eles desenham. E para entender isso, na primeira página desse caderno eu também desenhei a famosa encruzilhada proposta por Rosa Luxemburgo, que é… De um lado o caminho da barbárie e de outro lado o caminho do socialismo. E me parece que o Extinction Rebellion está reconfigurando essa encruzilhada e colocando de um lado a barbárie da extinção e de outro lado essa rebelião que poderia evitar a continuidade dessa extinção. E a revolução nisso tudo?
Não se fala propriamente em revolução, mas em rebelião, certo? Extinction Rebellion e não Extinction Revolution. Outra crítica que me ocorreu é a junção desses dois termos rebelião, positivada, num certo sentido, aquilo que se convoca a fazer, a coisa boa que os ativistas estão sendo interpelados a abraçar, rebelião, nesse aspecto servindo aqui como um fator utópico, e de outro lado essa distopia da extinção que avança. E essas duas palavras são jogadas juntas sem um termo no meio que sirva de conectivo. E eu acho que essa foi a genialidade da América Latina nesse movimento emergente de fazer por aqui a nossa versão, que virou rebelião ou extinção. Esse ou entrou. Rebelião ou extinção.
Me parece que algo de importante está sendo jogado com a inclusão de um termozinho entre esses dois grandes termos contraditórios. Isso faz uma diferença. Por exemplo, poderíamos colocar o Versus também, né? O VS, o nome de um fodástico álbum do Pearl Jam, inclusive. O Versus, né? Que é dessa oposição, desse clash, desse embate.
Pra que as pessoas compreendam melhor do que se trata, não sei se uma tradução literal do Extinction Rebellion gringo nos faria bem. Extinção, rebelião. Entendem o que quero dizer? A construção de um movimento assim no Brasil não vai poder ser perpassado por uma cópia ou por uma tradução literal. Nós teremos que estar traduagindo. É inclusive o nome de um canal que eu admiro e sigo, Traduagindo. E é traduagindo que eu estou propondo extinção ou rebelião como um bom nome possível, assim como rebelião versus extinção, caso a gente queira trazer aqui no Brasil essas mobilizações, fechar, por exemplo, aqui a BR em Goiânia, ou fechar a Avenida Anhanguera com a Avenida Goiás, aqui no centro da capital de Goiás, e promover, sim, um block, um stop, estamos pondo nossos corpos na reta para impedir o planeticídio, para impedir a catástrofe climática, para impedir que se explore petróleo na Foz do Amazonas, impedir que se siga desmatando a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica, etc. É sim sobre isso.
Ocupar com audácia, com um movimento de desobediência civil e ação direta, aquilo que na cidade serve como circulação de mercadorias que muitas vezes estão nos matando por sua toxicidade, pelo grau de ultraprocessamento industrial e artificialização sintética que tem nessas porras todas que a gente está comendo, nessa junk foodaria toda que nos enfiam um goela abaixo, não é?

Em suma, esse movimento ligado com o climate struggle tem muito a ver com a obra de um filósofo que gostaria de, nesse fim de vídeo, sugerir como uma via para a gente seguir, um guia no qual podemos nos inspirar, que é desobedecer. Frederic Gros, esse francês que realmente escreveu uma obra magistral sobre esse ato de desobéir, eu acho que a gente vai precisar traduzir para o português e para o goianês, para o cerradez, esse francês, esse desobéir, que é sim, desobedecer, é uma boa tradução, sim, mas desobedecer num sentido… coletivo, massivo, desobediência cívica, cidadãos em pluralidade, desobedecendo um sistema iníquo ou leis injustas, como milhares de pessoas fizeram aqui no Brasil, centenas de vezes nos últimos anos, nas marchas da maconha, Brasil afora, história afora, num movimento que inclusive a Casa de Vidro tem documentado com vários filmes nos últimos anos. Esse é um estudo de caso interessante. Como um movimento antiproibicionista se torna desobediência civil contra leis consideradas injustas, como todo sistema de leis do proibicionismo que incrimina os jardineiros do cânhamo, e que trata como criminosos os beneficiários dessa planta de poder. Tudo isso é um prenúncio, tudo isso é política pré-figurativa. O movimento climático tem que aprender com o movimento antiproibicionista, a botar mais de 100 mil nas ruas de São Paulo, por exemplo, né?
E para terminar, esse desobedecer junto com os outros tem consequências, mas elas são partilhadas. E quando eu estive com o Extinction Rebellion Netherlands, eu me lembro muito de uma ocasião, ficou muito marcada na minha memória, no meu pequeno baú de recordações que eu trouxe da Holanda. Essa é uma das memórias mais vívidas, e eu quero terminar com ela. Esse primeiro vídeo do Antropoceno entra em cena, porque eu estava buscando cenas, estava com a minha câmera, essa mesma aqui, que hoje me filma, lá na ocupação da A12, em Den Haag, eu tinha pegado um trem de Amsterdã para Haia, onde eu fui algumas vezes, acompanhei juridicamente ao redor do Palácio da Paz, todas as manifestações durante África do Sul versus Estado de Israel, quando o país no sul da África acusou o Estado sionista de estar cometendo genocídio. Então, eu no processo de acompanhar o movimento em solidariedade à Palestina, também me encontro com a galera do Extinction Rebellion, e vou participar de um ato e me integro a um dos dedos, vou voltar a isso no próximo capítulo, mas o movimento de rua no dia da manifestação é concebido como uma mão com vários dedos, ela não deixa de ser unitária, mas ela tem diversas correntes, vertentes.
Cinco dedos, por exemplo, significa que você tem cinco frentes, você vai ter cinco grupos de manifestantes em cinco diferentes locais da cidade de Den Haag, e isso desnorteia a polícia, porque se todos estivessem reunidos em um ponto, a polícia poderia ser muito mais fácil reprimir. Mas se são cinco pontos, a polícia, para fazer uma repressão inicial, teria que deslocar tropas em cinco localidades. Esses cinco dedos… fluem… sincronicamente… Organizados pela rede social… Whatsapp e tal… Whatsapp não… que é… imperialista e… da porra da meta… a galera usa outros apps de comunicação mais seguros… sobretudo Telegram… e aí esses cinco dedos confluem para a rua… onde vai acontecer… a junção… desses cinco fluxos e, enfim, ocupar, bloquear a rodovia com os cartazes, com a música, com a performance, com o megafone berrando palavras de ordem, etc.
E essa cena marcante que eu termino com ela foi de quando, com muito medo de ser agredido e preso, mesmo assim, eu aderi ali no asfalto daquela avenida importantíssima, perto do parlamento holandês, e diante dos cientistas que estavam lá, os cientistas engajados com o XR, eles existem, são muito interessantes, são figuras que os cientistas não engajados deveriam conhecer mais a fundo. A ciência que marcha engajada com a mudança do mundo me interessa. E aí eu fiz uma entrevista com um desses cientistas militantes do XR e já vendo os policiais levando alguns de nós presos, já vendo assim com a minha visão periférica os camaradas sendo arrastados e sendo colocados no camburão e tomando aquelas grandes enxurradas de água fria que os putos dos mecs, dos tiras, tacam na galera assim, né? eu até com medo de perder essa câmera aqui, seja confiscada pela polícia, seja destruída por um cacetete, seja, enfim, fodida por um jato d’água, eu mesmo assim morrendo de medo, numa ansiedade da porra, num escarcéu interno daqueles, fui lá e fiz essa entrevista. Estou me gabando um pouco, mas na minha carreira como documentarista foi, de fato, um ato audaz. O Antropoceno entra em cena, capítulo 1, termina aqui. Trinta minutos depois, espero que vocês estejam mais alertas e atentos para o fato de que o nosso tempo está se esgotando, a ampulheta está derretendo!
APRECIE TB: https://www.voicemag.uk/interview/8163/printing-a-rebellion
https://www.thisaintrocknroll.com/extinction-rebellion
Publicado em: 17/01/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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