O núcleo da @trupetudonostrinks, em ensaio n’ @acasadevidro_pontodecultura, bate um papo sobre como foi tocar “Busablues” na 3a Mostra da OCLAM: www.youtu.be/CXcriYmUw6w.
EDUARDO CARLI – Nós somos a Trupe Tudo Nos Trinks, a gente acabou de passar por uma experiência memorável na Terceira Mostra de Composição da Oclam, onde a gente apresentou a “BusaBlues”, e foi a primeira aparição pública da Trupe, e eu queria saber o que vocês sentiram estando expostos aos olhares e aos ouvidos de uma galera da cena que era muito qualificada, muito ativa, muito talentosa, a gente teve uma baita de uma responsa, mas mandamos bem pra caramba, com o Leon no contrabaixo e o William Haubert na batera, e quero ouvir um pouco das impressões de vocês sobre a primeira vez em que a Trupe Tudo Nos Trinks esteve em público fazendo um som pra galera. E aí, Raab Paula e Fabiano Ito, como vocês se sentiram soltando a voz nessa ocasião?
RAAB PAULA – Foi uma experiência de outro planeta, muito louco, estava muito nervosa, na hora eu não ouvi nada, eu não ouvi nada, a música só saiu dando cambalhota na minha boca. Eu não sei o que aconteceu, eu só sei que eu gostei e que eu quero de novo! É como se fosse um êxtase. Não sei se essa seria a catarse da arte e tals, mas é uma energia muito louca entrando no corpo, e aí na hora nada mais importava, assim, só importava eu cantar a letra certa. E deu tudo certo.
EDU – Uma experiência de outro planeta eu gostei, hein? Mas qual planeta, Vênus, Marte, Urano, Plutão…?
RAAB – De outra galáxia, muitos anos-luz de distância…
FABIANO ITO – Pra mim foi uma experiência totalmente nova, quase nunca, pouquíssimas vezes eu subi emum palco. Não era um palco alto… e o foda é que tocou muita gente boa antes da gente né! Acho que a gente tava num nível de abrir, fazer uma apresentação assim sem tanta comparação, teve muito artista foda, mas só valorizou né, porque foi um evento muito, muito, muito fodástico. E a gente entrou lá e fizemos a nossa parte, a música realmente saiu. Eu raramente toco sem ficar olhando o braço do violão.
Mas nesse dia eu toquei sem olhar o braço do violão, errei pra caramba. Mas realmente é um transe.
RAAP – Um transe. Trupe Tudo nos Trances.
EDU – Ih, mudou o nome da banda agora. Trupe Tudo nos Transes. Estamos misturando os projetos aí. Nós tocamos logo depois do Fritos da Terra, já tinham passado pelo palco grandes figuras, né? Delírio, Roddo, Conceição, Brunê, Douglas Sá, Bororó… Azul em Transe, que é um trem bem tosco aí que apareceu na cena. Ah! E depois de nós ainda rolou, assim, Kleuber Garcês, Ingrid Lobo, Nina Soldera. Nossa! Cara, que honra poder dividir o palco com presenças muito ilustres que estavam lá de ouvidos abertos pra nós, né? Foi fantástico.
E acho que pra terminar a gente podia falar também um pouco sobre o significado dessa música, que ela é um blues em língua portuguesa, isso está ficando um pouco raro. Ela conta uma história, obviamente a gente tem grandes pessoas na história da música brasileira, como Renato Russo e Chico Buarque, que contam excelentes narrativas nas letras, mas não sei se tem muita gente fazendo isso bem hoje em dia. E ela é uma música também de protesto contra os envenenamentos de todos os tipos que rolam por aí,
dos agrotóxicos até a poluição genética. E tem um espírito muito lúdico porque até a Trupe está aqui pra te envenenar… então ela é um blues rock envenenado, irônico, que remete a uma certa época onde a gente compôs essa música onde a fumaça das queimadas estava nos fazendo tossir, estava nos atormentando, né?
RAAB – Enrubrecendo o céu, o sol.
EDU – Exatamente, né? Então, o que vocês acham que é o grande barato dessa música numa mostra de canção aqui em Goiânia em 2025? Ela tem algum diferencial?
RAAB – Eu sou muito suspeita pra falar, mas eu gosto muito de músicas que contam histórias. Eu sou uma contadora de histórias, eu gosto muito. E o “Busablues”, ele conta uma história, mas ao mesmo tempo ele traz, como você falou, o sol vermelho. E a gente conseguindo ver o sol, a olhos nus, o quanto que isso estava deixando a gente com raiva. Porque não deveria estar acontecendo, aconteceu por causa do recorde de queimadas e de poluição atmosférica, que esse foi o veneno, diria, do princípio, que fez a gente trazer mais venenos. Porque você começa a falar de uma coisa, tá lembrando de outra e outra… E apresentar isso na OCLAM, depois de ouvir tantas músicas lindas, de gente maravilhosa cantando, mas assim, não tinha lugar melhor, espaço melhor e mais acolhedor pra gente estrear, porque eu percebi que a OCLAM é isso, são resultados de laboratórios, tinha muita música lá que ela não tava completa, tipo assim, terminada. Mas é isso, massa a gente mostrar o nosso processo como compositores.
FABITO – Eu fico muito pegado por esse negócio de ser um blues em português. Eu acho que a gente tem falado pouco também que é um blues do cerrado. Ele é totalmente ambientado, eu escuto a letra, eu me vejo em Goiânia, eu me vejo aqui com as queimadas todas ao redor, essas fazendas todas destruindo, transformando tudo em pasto. E por isso esse fenômeno, né, do sol avermelhado, que as pessoas acham lindo, mas é um choro do céu né? E escutando a letra eu me vejo aqui, eu me vejo aqui no Cerrado, eu me vejo num busão em Goiânia, nesse calor infernal que faz aqui e que vem piorando absurdamente. É um blues cantado em goianês.
RAAB – É, com R’s puxados.
EDUARDO – Pra gente terminar – pra Casa de Vidro Ponto de Cultura foi uma ocasião muito foda. Porque três bandas que tocam aqui nesse estúdio e que são propulsionadas por essa casa de cultura estiveram lá juntas. Então foi uma confluência de bandas: a Trupe Tudo dos Trinks tocou logo depois dos
Flitos da Terra que fizeram”O Clima é Nóis” e alguns momentos antes também a Azul em Transe esteve lá com a “Traço de Giz”, o Fabiano Ito também me acompanhou no violão, o Leon Duarte acompanhou no baixo, então foi uma ocasião também para a gente mostrar que a Casa de Vidro também é esse laboratório de criatividade colaborativa, de miscigenação, e cada vez mais acho que a gente pode promover essa união dessas bandas, né? Pensar que elas assim não são estanques.
RAAB – Elas são irmãs.
EDU – São irmãs, elas podem se mesclar, podem fazer coisas juntas, né? Então é até por isso que eu estou lançando essa semente para 2026, da gente pegar um projeto piloto, que é o Somos Sementes, e fazer uma canção que de repente a Raab pode cantar junto com o Léo Vergara em dueto, que a gente pode tocar juntos, de repente o Manoel pode vir, que é da Azul em Transe, e fazer um feat, né? E a gente vai mesclando, vai confluindo e a coisa vai ficando ainda mais interessante, né? Então, muito massa,
TRUPE vai gravar um álbum aqui nesse espaço em 2026, com talvez 13 canções, porque a “Angústia Bailarina”, também entrou ali como a décima terceira. E vai ser muito massa continuar caminhando com vocês, tá sendo uma das coisas mais preciosas da vida poder criar junto, tocar, cantar e conviver, tá sendo muito muito foda e vamos caminhar juntos também com a OCLAM, com o Coró de Pau, vamos trazer uns tambores aqui também pra essa trupe né!
FABITO – Cara, fiquei com a maior vontade de frequentar a OCLAM.
RAAB – Eu também.
FABITO – Tem alguma coisa muito legal acontecendo lá. Está fermentando assim.
RAAB – E eu fico pensando, eu quero muito descobrir como é que são esses encontros, porque eu vi que as pessoas iam e começavam a cantar e os membros do clã já conheciam essas músicas e cantavam junto. Fiquei assim nossa, quantas vezes eles já compartilharam a música, o processo da música até chegar no lugar que ela está agora, né? A gente vê que nossas músicas passam por processos muito longos. E aí ver o processo dos outros artistas deve ser muito legal. Ano que vem a gente tem que colar lá!
EDU – Se preparem, OCLAM, Trupe Tudo Nos Trinks vai começar a partilhar nossas canções aí com vocês, hein? E somar novas vozes e novos instrumentos nesse caldo. E acho que a última coisa que não pode faltar, né? É falar uma palavra de agradecimento à Escola do Futuro em Artes Basileu França. Que eu acho que sem ela a gente nem teria se conhecido.
RAAB – Onde tudo começou, e de muita gente começou.
EDU – Estou encerrando um ciclo de quatro anos lá dentro do Basileu, né? Fiz o FIC, tá? Nesse ano também fiz o performances musicais e o blues rock, Rafael Gomes nos ensinou muito, assim como Jackson Guedes, assim como… Lucas, professor de canto… Ricardo Newton. O Basileu também tem tudo a ver com a Trupe nos insuflou muito ânimo, nos permitiu que tocássemos lá no recital de formatura com a Sempre Sincera com o Ricardo. O professor fez o baixo pra gente lá no recital. Legal. Obrigada, Basileu França.
RAAB – Valeu, Basileu França. Por ter sido a escolinha.
FABITO – Eu acho que é um dos espaços mais democráticos de Goiânia.
RAAB – Sim, né? É muito bom acessar um espaço democrático de formação artística de primeiríssima. De forma gratuita, com muita qualidade, que é um berço de muitos artistas, né? É muito legal.
EDU – Eu tô muito feliz de acabar o ano assistindo o Quebra-Nozes de Tchaikovsky lá no Teatro Escola. Esse final de semana. É, esse final de semana vai ser bonitão lá. É balé clássico e dança contemporânea, então subvertendo o Tchaikovsky.
E eu tive uma última ideia antes de você chegar, Raab, pras nossas performances, você que é das artes cênicas, né? Três músicas, três configurações do seu cabelo, vamos ver se você topa: “Sempre Sincera”, um cabelo assim bem comportadinho, já na “Alma Descabelada”, você, claro, se descabela. E “mais itali, “Mais Rita Lee, Menos Ritalina”, você põe uma peruca vermelha.
RAAB – Pode crer.
EDU – Vai pensando nessas performances aí para o nosso show. Ela topa, ela não tem vergonha.
RAAB – Eu topo. Viva a sem vergonhice, ela não tem vergonha Eu topo
EDU – Viva a sem vergonhice! Como a Brunet me ensinou nesse último fim de semana: cheguei pra ela e falei “adorei seu show, como é que você aprendeu, você fez artes cênicas e performáticas, pra interpretar a canção com tanta corporalidade?” Ela falou “que nada, é pura sem vergonhice.” Que bom conselho Brunet! Vamos tentar.
RAAB – Ótimo conselho, né? Meta de 2026 é ser mais cara de pau. É chegar, chegar e aparecer.
EDU – Estamos ficando mais amostrados como a amostra da Uclan demonstrou. Obrigado pelo espaço aí galera da OCLAM. E nos aguardem que a trupe está com tudo.
RAAB – O Pulinho, o Pulinho vai finalizar.
EDU Ah, o Pulinho, o Pulinho. O Pulinho dos decapitados! 3, 2, 1…
RAAB – Aê! Uh!
EDU – Aê, esse grito aí vai virar marca registrada.
Saiba mais: acasadevidro.com/oclam-mostra2025/ e acasadevidro.com/trupe-tudo-nos-trinks/
Publicado em: 08/01/26
De autoria: casadevidro247
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia