
Estive recentemente, ardendo de indignações, em uma manifestação na Esplanada dos Ministérios junto com meus manos Fritos da Terra: o coletivo artvista goianiense, que realizou memorável show na V Conferência Nacional de Saúde dos Trabalhadores e das Trabalhadoras (CNSTT), também engrossou o caldo daquela correnteza humana que torrou sob o sol brasiliense no ato público de 20 de Agosto de 2025. Nesta manhã, na Tenda Paulo Freire, sob o influxo da influência do Nego Bispo, decidi bolar um cartaz em que decidi escrever a mensagem mais urgente em que pude pensar: “NÃO HÁ PLANETA B: AFRONTEMOS AS CAUSAS DA CATÁSTROFE CLIMÁTICA!”
Puxando batuques e cantorias, imersos no calor inclemente e secura insalubre da capital federal, nós Fritos da Terra marchamos com camaradas como o Rosalvo, que gostou tanto do cartaz que o conduziu na marcha e que nos concedeu esta entrevista, em frente ao Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima hoje comandado por Marina Silva:
É exasperante que estejamos na iminência da Cúpula do Clima da ONU, que ocorre em Belém entre 10 e 21 de Novembro, com uma Cúpula dos Povos em seu cerne, e esta entidade chamada Povo Brasileiro esteja ainda dormindo no berço esplêndido da apatia cívica em relação à pauta mais importante de nosso presente e nosso porvir. Porque 1,5 graus Celsius de aumento da temperatura já está morto: a humanidade fracassou em frear o aquecimento climático combinado em Paris/2015.
Dez anos depois, o Brasil continua sendo um país que nunca realizou nenhuma Marcha por Justiça Climática com significativa mobilização de massas. Em 15 de Novembro, a Marcha Global Unificada certamente trará ao palco da terra brasilis o maior ato público do gênero já realizado por aqui. Ainda assim, cabe uma reflexão urgente deste filósofo ecoansioso a respeito do ativismo de flanco radical. Pois é exasperante que ele esteja tão dormente entre nós.
À medida que os eventos climáticos extremos proliferam e seu ritmo acelera pelo planeta afora, produzindo vastas migrações de refugiados climáticos, também há uma ascensão sensível no ativismo de flanco radical, conceito que discutiremos neste artigo.
Em Londres, no começo de 2025, duas senhoras, ativistas da Just Stop Oil, usaram spray para pixar o túmulo de Darwin na catedral de Westminster: “1,5 graus Celsius está morto” foi a consigna ali fixada com tinta laranja pelas manifestantes. A agência de notícias Reuters assim o noticiou:

“Foi uma referência às notícias recentes de que as temperaturas globais em 2024 excederam 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais pela primeira vez. Esse limite é considerado pelos cientistas como o teto para impedir as piores consequências do aquecimento global, como o desaparecimento de países insulares, sendo também o valor preferencial pactuado pela comunidade internacional no Acordo de Paris, de 2015. ‘Passamos do limite de 1,5°C que deveria nos manter seguros’, disse um dos ativistas, que lembrou que 2024 foi o ano mais quente já registrado. ‘Milhões estão sendo deslocados, a Califórnia está em chamas e perdemos três quartos de toda a vida selvagem desde a década de 1970. Darwin estaria se revirando no túmulo ao saber que estamos no meio da sexta extinção em massa.’
Os manifestantes, no discurso, disseram ainda que os líderes mundiais deveriam parar de queimar petróleo, gás e carvão até 2030 e que o mundo, nas condições atuais, se encaminha para aquecer 3°C em relação ao período anterior à Revolução Industrial. Darwin disse: ‘Não é a espécie mais forte nem a mais inteligente que sobrevive. É aquela que é mais adaptável à mudança, que vive dentro dos meios disponíveis e trabalha em cooperação contra ameaças comuns’’, citou Di Bligh, de 77 anos, um das ativistas que participaram da ação, em comunicado do Just Stop Oil.”
A ação não pode ser desdenhada como vandalismo de pivetes, dada a idade avançada das meliantes, e é indicativo de que uma certa “velha guarda” preocupa-se com as futuras gerações mais do que com lucros de corporações petrolíferas.
Há considerações interessantes aqui sobre estética e política, já que o túmulo de Darwin foi aqui utilizado como um canvas não-autorizado onde um alerta foi gritado ao mundo na língua da tinta.
É evidente que as autoridades policiais levaram presas as ativistas idosas por dano criminoso ao memorial do grande cientista. Elas certamente embarcaram nesta atividade performática perigosa já sabendo que seriam reprimidas. Mas foram em frente como encarnações de uma nova fase histórica da Desobediência Civil enquanto atitude ético-política.
Durante o período de pesquisa e escrita de minha tese de doutorado, tive a oportunidade de vivenciar de dentro um pouco do ativismo da Extinction Rebellion na Holanda, participando de algumas de suas ações e manifestações enquanto documentarista independente e ecoativista.
Atitude que não considero indigna do filósofo, já que consiste em pôr em prática, junto a outros, um modo de ação direta em que confluem o ético-político e o estético-existencial. O filme em elaboração Amsterdamned In The Anthropocene resulta destas experiências, somadas à vivência impressionante de participação na maior marcha popular com a pauta climática já ocorrida na Europa: estima-se 85 mil pessoas saíram às ruas de Amsterdam em 2023 (em contraste, a maior manifestação de rua anterior reuniu mais de 50 mil nas ruas de Glasgow, na Escócia, em 2021, durante a COP26).
Pareceu-me válido propor portanto um movimento duplo que participa da dinâmica desta tese: primeiro, submeter à apreciação pública um filme documental com a temática da catástrofe climática no Antropoceno do ponto de vista do ativismo de flanco radical, incluindo entrevistas exclusivas com lideranças da Extinction Rebellion Nederlands, a fim de caracterizar e avaliar o mérito destas novas vertentes de ativismo radical que caracterizarmos e criticaremos com o precioso auxílio do filósofo australiano contemporâneo Roman Krznaric em seu livro História Para o Amanhã (Ed. Difel).


Em segundo lugar, mas não menos importante, oferecer uma imersão audiovisual na Marcha do Clima de Amsterdam como oportunidade para o público conhecer a magnitude, a dimensão e a diversidade de manifestações reunidas na ocasião, de maneira a inspirar iniciativas semelhantes mundo afora. Julgamos que o cinema documental possui pertinência incrementada na atual situação planetária como um meio de conceder acesso, através da mídia audiovisual digital, a uma condição humana em veloz mutação e onde o tema dos fluxos de seres humanos torna-se de crucial importância, demandando novas obras similares à de Ai Weiwei, artista chinês realizador de Human Flow: Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Ir (2023).
AMSTERDAMNED IN THE ANTHROPOCENE, um filme de Eduardo Carli de Moraes, produzido por A Casa de Vidro – Frente Audiovisual, será lançado no começo de 2026 na internet: www.acasadevidro.com/amsterdamnedintheanthropocene.
Durante meus 6 meses em Amsterdam vivi a cinefilia com uma intensidade sem precedentes em minha vida pregressa. Lembro-me de um frisson que atravessou a comunidade cinéfila amsterdammer: à época, estreou How To Blow Up a Pipeline (título em português: Prestes a Explodir), dirigido por Daniel Goldhaber e baseado em livro de Andreas Malm, que assisti no Kriterion, centro cultural onde também acompanhei debates entre ecoativistas.
Trata-se de um espécimen da emergente vertente de filmes que explora o ativismo climático de flanco radical e tenta compreender a psiquê – os complexos afetos, transtornos, impulsos que pulsam nas subjetividades – de pessoas dedicadas à ação direta, inclusive de destruição e boicote, contra o que percebem como as causas da catástrofe em curso. Hoje em dia, Malm, autor de uma tese de doutorado sobre o Capital Fóssil, vem defendendo práticas “violentas” contra propriedades corporativas que causam a catástrofe climática e financiam negacionismos.


Krznaric foi um dos filósofos contemporâneos que melhor soube expor o problema central que aqui encaramos e desejamos trazer a público e disseminar, já que tantos cidadãos o ignoram completamente, até mesmo por efeito do poder tremendo dos negacionismos. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele defendeu que “movimentos disruptivos são fundamentais como resposta à crise climática”. A Casa de Vidro republicou a entrevista na íntegra neste link do Facebook.
Alguns de seus melhores ensinamentos estão em Como Ser Um Bom Ancestral (click e leia mais).
A SER CONTINUADO…
P.S.
A palavra EMERGÊNCIA deriva do latim emergere, que significa “surgir, trazer à luz”.
A palavra APOCALIPSE deriva do grego apokalyptein, que significa “descobrir, revelar”.
A palavra CRISE deriva do grego krisis, que significa “decisão”.
Codificado em nossa linguagem está o entendimento de que desastres tendem a expor coisas que antes estavam escondidas. Na medida em que a crise planetária se desdobra como uma série de situações de emergência, nossas decisões revelarão quem somos.
(…) Naturalmente, podemos assumir que, se formos invocar a força de vontade necessária para enfrentar a crise planetária, também teremos de invocar o apreço necessário. Teremos de enxergar a Terra como nossa casa – não de forma idiomática nem intelectual, mas de forma visceral.
Como disse Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prêmio Nobel, ‘é preciso que a questão se torne emocional para que ela possa mobilizar as pessoas.’ Se continuarmos a encarar a luta para salvar nosso planeta como uma partida da próxima temporada, estaremos condenados.
– JONATHAN SAFRAN FOER, Nós Somos o Clima (Rocco, 2020, p. 35 e 38)
ENTES DA IMPRENSA QUE VALE A PENA ACOMPANHAR
O ECO – https://oeco.org.br/
SUMAÚMA – https://sumauma.com/
CLIMAINFO – https://climainfo.org.br/
RÁDIO NOVELO – https://radionovelo.com.br/
AGÊNCIA PÚBLICA – https://apublica.org/especial/cop-a-crise-do-clima-em-foco/
INTERNACIONAIS:
GRIST – https://grist.org/
Publicado em: 28/10/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia