
Depois da vertigem diante da democracia em colapso, documentada com primor pelo documentário indicado ao Oscar da categoria, houve o destravamento pleno de um pandemônio que nos lembra do petardo de Shakespeare: “o inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.”
As duas obras-primas documentais de Petra Costa capturam este arco sinistro que parte do Golpeachment desferido contra Dilma em 2016 e que conduz à eleição fraudulenta de Jair Genocida Bolsonaro, este pseudo-messias e engana-trouxas, naquele 2018 em que o candidato que venceria o pleito estava injustamente aprisionado na masmorra de Curitiba. O “Trump dos Trópicos”, como foi apelidado na imprensa internacional (BBC, ), nas asas das fake news e da lawfare, tornou-se presifake da república bem no momento histórico em que a humanidade estava prestes a enfrentar a pandemia novo coronavírus. Cenário apocalíptico.
“Apocalipse Nos Trópicos” faz um raio-X do país endoidecido que, com mais de 700.000 óbitos, tornou-se o segundo território nacional mais mortífero do planeta durante os anos da covid19, só atrás dos EUA sob domínio do Trumpstão. O filme também permite uma leitura em paralelo muito fecunda do Trumpismo e do Bolsonarismo como fenômenos paralelos e coligados, ambos conduzindo às insurreições neo-fascistas que atacaram o Capitólio (6 de Janeiro de 2021) e a Praça dos Três Poderes (8 de Janeiro de 2023).
O medonho Malafaia aparece aqui como um Master of Puppets e Bolsonaro como um títere manipulado pelo pastor. A fusão indigesta da extrema-direita racista, xenófoba e antivax com o cristianismo evangélico neopentecostal, em fulminante ascensão demográfica no Brasil, é o grande tema do filme. O quanto de fanatismo religioso entrou no caldo do 8 de Janeiro também está aqui com nervos expostos. Petra teve a coragem de pôr o dedo – ou melhor, a lente – nesta ferida.
O epílogo é talvez a pérola mais reluzente do filmaço. Começa com uma citação de Nietzsche em que O Homem Louco, acendendo uma lanterna em plena luz do Sol, discursa sobre a morte de Deus diante de ouvidos moucos, concluindo: “vim cedo demais”. (Aforismo #125 do livro A Gaia Ciência, que dialoga com toda a obra Assim Falava Zaratustra)
Petra filma os escombros, as ruínas, os vidros estilhaçados pelos vândalos cheios-de-deus-no-coração que estraçalharam o STF, cagaram nos palácios e acamparam diante dos quartéis pedindo intervenção militar após a vitória de Lula. O Bolsonarismo é uma fé lunática que agora faz seus crentes entrarem em pane e dissonância cognitiva com seu ex-messias virando presidiário que deve apodrecer em cana pelo resto de seus dias.
Comentando o que Jon Lee Anderson escreveu na New Yorker e a reportagem de capa da The Economist, dias antes da condenação, Petra escreveu: “Estamos em um momento da história em que os Estados Unidos poderiam aprender muito com o Brasil sobre como lidar com tentativas de golpe. O Brasil nunca julgou os militares pelo que fizeram durante a ditadura. Eles nunca foram punidos por esses crimes. Bolsonaro foi eleito presidente celebrando esses crimes. Se ele for condenado, será um marco civilizatório para o Brasil. Em um país moldado por golpes, esta pode ser a primeira vez que alguém é preso por incitar um.”
(Fonte: https://www.facebook.com/photo?fbid=10108411048368442&set=a.10100183055327452)
“O Supremo Tribunal Federal julga Jair Bolsonaro por sua tentativa de golpe — um plano que, se tivesse sido bem-sucedido, poderia ter matado o recém-eleito presidente Lula, seu vice-presidente e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Pela primeira vez na história, um ex-presidente brasileiro será julgado no Supremo Tribunal Federal por tentar subverter a democracia pela força.”
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Como Mattos percebeu, Petra também “devassa pinturas de Bosch, Bruegel, Rubens e Fra Angelico, mapeia as ideias medievais que sustentam o fundamentalismo religioso de hoje.” (https://carmattos.com/2025/07/08/da-idade-media-ao-8-de-janeiro)
Na Nova Idade Média, também cantada com rebeldia por Cazuza, líderes neofascistas de uma caquistocracia esclerosada são celebrados com améns; e pastores trambiqueiros, com muito mais capitais do que virtudes morais, tratam o PT como “Partido das Trevas” e o pintam como a Besta do Mal, enquanto fazem avançar como um tumor cancerígeno, no Congresso Nacional, as bancadas da Bíblia, do Boi, da Bala.
Petra mostra que o apocalipse, em grego, não significa fim-do-mundo, mas crise que oferece revelação, desvelamento. O grau de analfabetismo político do Brasil se desnudou com a adesão massiva de dezenas de milhões de cristãos a um fã da tortura, a um lambe-botas de Ustra: como se Jesus Cristo não tivesse sido um torturado, seus asseclas se fizeram acólitos do torturador.
Petra se lamenta pela fragilidade de uma democracia que, para além dos golpes sofridos, demonstra certa resiliência, sempre ameaçada pela nova e iminente irrupção da força bruta e da estupidez organizada.
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https://deadline.com/2025/06/apocalypse-in-the-tropics-petra-costa-interview-1236438704
https://www.democracynow.org/2025/7/10/apocalypse_in_the_tropics_petra_costa
Publicado em: 16/10/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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