por Eduardo Carli de Moraes
Acabo de sair do Cine Cultura, onde está acontecendo, nesse mês de setembro de 2025, o Ghibli Fest, com 22 obras-primas de animação realizadas pelo estúdio japonês. E acabo de re-assistir Vidas ao Vento, do Miyazaki; tive um primeiro contato com ele lá em Amsterdam, no LAB111, durante o meu período de internacionalização, no doutorado que estou cursando na UFG, na área de filosofia da arte. E também lá na Holanda estava rolando uma maré muito alta de interesse pelo Ghibli, pelo Miyazaki, pelo Isao Takahata, enfim, por esse timaço de cineastas do campo do animé. E eu quero trazer aqui algumas reflexões sobre a questão do Antropoceno: pode parecer surpreendente para muitos espectadores e ouvintes, mas Miyazaki hoje em dia tem sido muito debatido por aqueles que estudam os Antropocenos no campo das humanidades.
Os vários conceitos de Antropoceno que existem, alguns emergem do campo das ciências naturais, da geologia, da climatologia, da paleontologia, mas também no campo das ciências humanas emergem conceitos sobre essa época geológica dos humanos. Estudando, por exemplo, a obra da Donna Haraway, Ficar com o Problema, sobre “fazer parentes no Cthulhuceno”, fiquei impactado e surpreendido pelo modo como ela trabalha no fim desse livro as narrativas miyazakianas, sobretudo aquelas que têm um viés mais socioambiental, por assim dizer, caso de Nausicaa no Vale dos Ventos e Princesa Mononoke.

Vidas ao Vento, quando eu pela primeira vez assisti esse filme, depois fiz uma pesquisa a respeito da vida do diretor e descobri que é de fato uma obra que se enraíza muito na experiência vivida do Hayao Miyazaki enquanto um garoto japonês nascido numa família que atuava na indústria de aviões, e daí decorre uma ambivalência ou ambiguidade sobre a aviação nesta obra indicada ao Oscar de Melhor Animação.
AMBIVALÊNCIAS ALADAS – Esta ambivalência a gente poderia sintetizar de maneira meio tosca dizendo que os aviões, essas máquinas de voar que fizeram sua entrada na história humana, na história do planeta, muito recentemente, considerando o tempo profundo, o tempo geológico, elas não são máquinas que podemos considerar como do bem ou do mal – dependendo do viés, elas podem ser consideradas como malévolas ou benéficas; obviamente como meio de locomoção, de transporte, elas são imensamente mais velozes do que qualquer carro, qualquer motocicleta, qualquer bike, qualquer caminhada, então encurtam as distâncias, propiciam esses fenômenos que hoje chamamos de globalização capitalista, permitem viagens transatlânticas que gerações anteriores nunca puderam fazer; mas por outro lado foram aviões que despejaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, foram também máquinas voadoras que despejaram napalm e agente laranja sobre o Vietnã e o Camboja por ocasião da agressão estadunidense – enfim, as guerras mundiais, sobretudo a segunda, tiveram um aspecto de devastação chovendo dos ares, assim como hoje em Gaza o regime sionista mata em massa ao fazer a morte chover dos céus através de drones e aviões devastadores.
Então é isso que eu chamo de uma ambivalência, de uma ambiguidade da máquina voadora. E o protagonista desse filme, o Jirô, é um engenheiro da aeronáutica que trabalha na Mitsubishi por boa parte da narrativa e que também tem uma paixão por uma jovem mulher chamada Naoko que sofre de tuberculose. Esse é o drama central do filme. Ele já começa revelando o mundo onírico do Jirô, desse personagem principal, como ele sonha, dá livres rédeas à sua fantasia de criação de um avião eficaz. Então é bastante interessante também como o Miyazaki trabalha no âmbito da linguagem do desenho animado a distinção entre o onírico, a vida sonhada desse personagem com o qual o filme inicia, e a vida desperta, a vida real desse personagem: na primeira cena nós temos esse sonho dele, em cima de um telhado, após ter construído seu avião, acionando suas engrenagens, ele enfim decola ao seu vôo, uma cena belíssima e bucólica, onde ele sobrevoa os campos e os rios – mas de repente a catástrofe faz sua entrada em cena. Outras máquinas voadoras em bando, muito mais trevosas e sinistras, entram em cena para transformar esse sonho bom em um pesadelo.

Como neo-Ícaro ele irá despencar junto com os destroços do seu protótipo de avião. E o filme vai trabalhar muitas vezes com essa transição entre o real e o onírico. Também vai trabalhar com uma espécie de relacionamento imaginário que o Jirô tem com um outro engenheiro de aviões, o italiano Caproni, que estaria também tentando desenvolver um modelo eficaz. Esse filme tem um elemento muito interessante para a minha pesquisa, que é essa mescla de utopia e distopia, essa mescla do sonho bom e do pesadelo. Esse empenho que o personagem faz para desenvolver essa máquina voadora é tocante porque ele é muito laborioso, ele é muito estudioso, ele é uma espécie de gêniozinho da matemática, da engenharia, que fica ali ralando nas fórmulas da aerodinâmica.
É tocante vê-lo nesse processo de tentar realizar um velho sonho humano. Então é um personagem que evoca não apenas Ícaro e Dédalo da mitologia grega, mas Leonardo da Vinci, Santos Dumont, os irmãos Wright, Enfim, ele representa esse esforço e esse empenho para o estudo de como os seres humanos poderiam realmente navegar os ventos e acessar o domínio das nuvens sem serem destruídos e arremessados ao chão violentamente pela força da gravidade.
E no entanto esse filme é repleto de cenas catastróficas, né? E a mais impressionante delas, pra mim, ocorre ainda no princípio do filme, quando ocorre um gigantesco terremoto de largas proporções, quando o personagem principal está dentro de um trem chegando na sua cidade. É nesse trem que ele conhece a sua amada, em uma cena também bonitinha e delicada o vento faz com que seu chapéu voe e a mocinha vai lá e pega esse chapéu, devolve pra ele, e assim pinta um primeiro encontro. Parece que o Miyazaki constrói muitas vezes algo de idílico, de romântico (no sentido mais banal da expressão), constrói a possibilidade do amor, do triunfo, das boas realizações, e de repente há uma força que irrompe e destrói esse idílio.
Irrompe em cena esse grande terremoto, seguido por um incêndio de largas proporções, e um estado de calamidade pública instaura-se ali, onde o personagem do Jirô também vai tentar auxiliar a mãe dessa garota por quem ele se apaixona: a mãe (a futura sogra) fraturou um osso da perna, e ele solícito e piedoso manifesta sua solidariedade em meio ao caos. Então se mostra aquela cidade devastada, os livros tirados de uma biblioteca que queima, muitas pessoas correndo de maneira frenética, tentando voltar a seus lares que talvez tenham sido destruídos. E no meio daquele caos todo a gente vai sentindo um pouco desse mundo subjetivo do personagem, quando ele também, em meio ao tremor de terra e ao incêndio, segue visualizando essa coisa meio trevosa, que são as máquinas de voar destrutivas, que não são meramente transporte e locomoção, mas que elas têm um potencial devastador.
É um filme que se passa ali no pré-segunda guerra mundial, e envolve muitas relações desse jovem engenheiro aeronáutico japonês com alemães e italianos, enquanto eles se preparam para enfrentar a segunda grande guerra, ou seja, enfrentar o conflito mais devastador que a humanidade já conheceu, e onde os aviões também vão desempenhar um papel muito importante, mas também majoritariamente sinistro. Então é interessante como o Miyazaki vai utilizar o mundo onírico também, essas conversas imaginárias que o personagem principal tem com o seu guru italiano, para explorar o conceito de um sonho amaldiçoado, ou de uma mistura de bênção e maldição.
E isso também vai se revelando conforme o filme vai se aproximando do seu fim, porque a proeza do nosso personagem, o sucesso que ele atinge no seu métier, e o modo como ele consegue realizar um design eficiente de avião que vai ser utilizado no conflito, é uma proeza também ambígua e ambivalente, porque ao que parece esse personagem não queria participar propriamente de um esforço bélico, e há uma cena interessante quando ele está com seus colegas e apresenta um modelo de protótipo que poderia funcionar perfeitamente caso nós não colocássemos ali uma metralhadora. E aí todo mundo dá risada, porque essa indústria da aviação, nesse momento histórico, está totalmente coligada com a indústria bélica. A principal função dos aviões nesse momento é enquanto meios de transportar armas de destruição em massa, bombas que vão ser lançadas sobre o inimigo.
Então esse é um filme também bastante trágico, no sentido de que esse jovem que se dedica tanto a essa ciência da aeronáutica, à engenharia das máquinas de voar, ele vai a duras penas percebendo os maus usos que a sociedade em que ele está imerso faz dessas invenções emergentes. E ao mesmo tempo ele vive no campo pessoal, afetivo, emocional, essa tragédia de amar, de estar apaixonado, de querer se casar com uma jovem mulher, a Naoko, que está ameaçada de adoecimento severo e de morte por conta dessa tuberculose. Naoko cospe sangue, ela tem que ser internada em sanatórios, ela tá sob ameaça de ter sua vida ceifada. Então esse não é um filme fácil de assistir e também não é um filme infanto-juvenil propriamente. Eu acho que é um dos filmes mais adultos que o Miyazaki já fez e nos transmite uma certa angústia, nos transmite através da sua narrativa essa ambiguidade desse produto tecnológico humano que também caracteriza o Antropoceno e que tem sido muito debatido por alguns autores, por exemplo pelo James Bridle, que escreveu A Nova Idade das Trevas, onde você tem ali uma análise dos tempos sinistros também que vivemos em relação à aviação e mudanças climáticas.
O autor ali entra em muitos detalhes técnicos, inclusive, mas também permeados pelo seu trabalho artístico, a respeito de como os aviões também queimam combustíveis fósseis, de como os aviões emitem gases de efeito estufa, e também como se opera toda uma rede de desinformação, equivocada ou de infotoxicação, a respeito dos chemtrails.
Então, voltando ao item inicial que eu mencionei a respeito de Miyazaki e o Antropoceno, eu também diria que esse filme e muitos outros do Miyazaki estão envolvidos numa reflexão sobre o planeta Terra radicalmente transformado por agência humana e há um grande interesse por parte desse diretor pelas máquinas que voam, mas não só as tradicionais, digamos assim, os aviões, os helicópteros, os foguetes. A fantasia de Miyazaki se exerceu em vários momentos a partir da noção do castelo que não está preso num território, que não está enraizado na geografia, mas um castelo alado, um castelo que voa. Então é um tema muito explorado, é claro, no filme Howl’s Moving Castle, mas também no Laputa – Castle in the Sky. E em vários outros filmes nós vamos ver também a questão do voo, mesmo num filme mais leve, mais divertido, como o Serviço de Entregas da Kiki, onde você tem essa bruxinha voando em sua vassoura para fazer entregas.
Trata-se de um fascínio myazakiano por estas entidades extremamente pesados, toneladas e toneladas e toneladas, mas que ainda assim eles vencem a força de gravidade e podem voar, podem flutuar, podem não ser arrastados ao chão pela queda. Então eu acho que é um conceito que também está veiculado, por exemplo, fazendo uma conexão musical, pelo nome da banda Led Zeppelin, um Zeppelin de chumbo, um balão de um material muito pesado, que é o chumbo, mas que ainda assim voa. Eu tive um pouco esse insight, essa sacada a respeito do nome do Led Zeppelin assistindo o Miyazaki. E percebi também a ambiguidade, a ambivalência, porque nós tendemos a pensar, assim, de senso comum, que as coisas leves é que mais facilmente voam, né? Como uma pluma, como um saco de plástico, né?
Através de Vidas ao Vento podemos refletir que a humanidade também descobriu como fazer para que coisas que pesam toneladas, desde que propulsionadas por motores e através da combustão de combustíveis, com a correta aerodinâmica de suas asas, podem de fato vencer essa atração gravitacional.
Em síntese, Vidas ao Vento é um filme belíssimo, ele é um filme que revela toda a maestria de Miyazaki e seu time. Eu acho muito fascinante a maneira como há uma dinâmica nesses filmes onde praticamente não existe nenhum quadro estático. O Estúdio Ghibli e o Miyazaki são mestres, de fato, da kínesis, termo que dá nome ao cinema, que dá nome ao cinematógrafo. Cinematógrafo é aquilo que grafa a kínesis, grafa o movimento. Então são filmes que você pode é claro, curtir com os seus olhos como se fosse aquilo que se chama de um eye candy, um doce para os olhos: é belíssimo ver o aspecto cromático, a beleza das cores, o dinamismo das imagens.
Mas o fascínio maior para mim se encontra de fato na maneira como se constrói esse fluxo de imagens desenhadas de maneira realmente muito brilhante e a narrativa vai se desenvolvendo também de maneira firme, segura, sem pressa: é um filme de duas horas que vai construindo o seu argumento sem frenesi e que nos coloca realmente no cerne, no centro da pessoa Miyazaki. Então é muito interessante, talvez em outro momento, compreender os vínculos entre a biografia, a vida desse artista, e como ela se projetou nos seus filmes.
É um filme que também faz referência contínua a uma frase de Paul Valéry, do poeta e ensaísta francês, Le vent se lève, il faut tenter de vivre, que significa mais ou menos que o vento se levanta, o vento sopra, e é preciso tentar viver, se esforçar para viver. Algumas traduções apontam para o sobreviver. Este filme mostra, muitas vezes, a natureza e os próprios ventos, as próprias placas tectônicas, agindo como forças adversas e o ser humano ali num esforço de tentativa e erro. E onde o erro ocorre muitas vezes. É um filme repleto de aviões que se espatifam no chão, é um filme repleto de experimentos falhados, é um filme com abundância de fracassos. Então ele mostra um pouco esse processo de uma pragmática tecnocientífica, afrontando ventos adversos para tentar compreender como que a gente faz para nos harmonizar com essas forças que nós tentamos entender para navegá-las com mais velocidade, para trafegar no espaço.
E ao mesmo tempo, como eu já disse, e para terminar, um filme que é bastante trágico, um filme bastante terrível do ponto de vista geopolítico, do ponto de vista da história humana, porque ele de fato aponta para uma ideia, um conceito que também é muito importante que a gente reflita em meio aos debates sobre o Antropoceno, que é a noção de que o avanço tecno-científico não necessariamente nos conduz a esse âmbito de estarmos mais desenvolvidos, de termos atingido um estágio superior de progresso, porque muitas vezes aquilo que se cria é utilizado para destruir: uma máquina que poderia nos servir para a locomoção mais rápida, para propiciar que pudéssemos conhecer nações e povos distantes no mundo, uma máquina voadora que poderia ter boas utilizações, acaba sendo utilizada para fins bélicos, devastadores, destrutivos, além disso causa todo um transtorno na atmosfera, todo um efeito colateral, que é sim importante termos ciência, consciência, percepção lúcida, para não sermos os consumidores alienados de milhas aéreas, para não sermos os turistas descerebrados tirando selfies ao redor do mundo, sem perceber essa trágica e terrível ambivalência das nossas máquinas de voar na época geológica dos humanos.
É isso: este foi mais um Kino Kritik, aqui na Casa de Vidro; sou Eduardo Carli, e se você gostou desse vídeo e esteve aqui até agora, sinta-se convidado a conhecer mais do site da Casa de Vidro, www.casdevidro.com Digite lá barra Kino Critique, que você vai acessar os episódios anteriores e caso tenha vontade, interesse e disposição para dialogar sobre o que eu falei, para criticar essa crítica, sinta-se então convidado a puxar papo, a gente se fala.

Publicado em: 12/10/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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