Uma leitura crítica dos filmes Beasts of The Southern Wild (Indomável Sonhadora) e Take Shelter (O Abrigo)

Concomitante ao agravamento da catástrofe climática planetária ocorre a emergência, no campo das artes, do que vem sendo chamado de cli-fi, apelido de climate fiction. O pensador indiano Chakrabarty vem insistindo que a História agora entrou em um novo clima – e vale incluir também a história da ficção especulativa nesta transformação epocal. A besta fera do Clima que está hoje em ebulição suscita um caldeirão de novas produções, e neste artigo mergulharemos em duas, para compará-las e expor suas entranhas: Take Shelter e Beasts of The Southern Wild.
São dois filmes que mostram que o subgênero cli-fi já possui algumas obras-primas que merecem mais consideração do que aqueles arrasa-quarteirões de Roland Emmerich que, a despeito de seu impacto de bilheteria, fazem pouco além de explorar as cheap thrills de um catastrofismo filmado com requintes de pirotecnia que disfarçam a rasidão dos roteiros.
O cinema cli-fi que consegue a proeza de ser fiel às condições do real – esta entidade dinâmica e sempre em fluxo, hoje mais inconstante do que nunca -, ou seja, a 7a arte que pesca seus temas e conteúdos no caldeirão da ebulição da atmosfera, talvez seja o cinema de que mais precisamos, ou ao menos uma das vertentes mais pertinentes para nossos dilemas atuais. É pois bem vindo que Beast of the Southern Wild escolha figurar como atores algumas pessoas reais lá do delta do Mississipi, ensinando-nos que as paisagens estão mais móveis e instáveis do que nunca.
Lançado em 2012 e indicado a 4 Oscars, inclusive o de melhor filme, Beasts of the Southern Wild (lançado no Brasil com o apelativo título Indomável Sonhadora), de Benh Zeitlin, realizou algumas proezas no âmbito da famosa premiação da Academia: a atriz Quvenzhané Wallis, de 9 anos de idade, tornou-se a mais jovem a ser indicada à estatueta em toda a história, e seu diretor conseguiu uma indicação em sua categoria logo em seu filme de estréia.

Outro motivo para nos dedicarmos a uma análise mais pormenorizada desta obra é o interesse que suscitou no Brasil em intelectuais e artistas de primeiro nível no debate sobre o Antropoceno: a filósofa Déborah Danowski o abordou em páginas importantes de seu livro A Chuva Desmancha Todos os Fatos.
Já o crítico de cinema, ensaísta audiovisual e documentarista Carlos Alberto Mattos, em seu Paisagens do Fim, um site-livro e um docu-ensaio, ambos dedicados a filmes focados nas ruínas, nos escombros, nas terras devastadas, também dedicou a ele suas atenções, destacando também o curta do mesmo diretor, Glory at Sea.
“O cineasta norte-americano Benh Zeitlin, integrante do coletivo Court 13, encontrou na Louisiana traumatizada pelo furacão Katrina (2005) inspiração para dois filmes rodados na região pantanosa dos bayous. Ao contrário de Zack Godshall, que se referiu diretamente ao evento em Low and Behold, Zeitlin o ressignificou em histórias sobre superação e afeto familiar com ingredientes de realismo mágico.
O curta Glory at Sea (“Glória no mar”) foi realizado no ano seguinte ao do furacão. O filme é narrado por uma menina morta, cujo corpo se encontra no fundo do mar, assim como os de tantos moradores tragados pela enchente. Um homem consegue emergir das águas e começa a construir um barco para voltar ao mar em busca da mulher amada. Os sobreviventes das redondezas se juntam a ele no projeto, contribuindo com todo tipo de material.
São poucas as imagens de devastação propriamente dita, restritas a uma sequência rodada nos destroços de algumas casas e ao panorama desolado das terras inundadas meses antes. Mas Glory at Sea sugere que todos os artefatos e utensílios usados na construção do barco – móveis, banheira, tonéis, colunas de madeira e até instrumentos musicais – seriam rescaldos da catástrofe, bens pessoais cedidos pelos sobreviventes. O grupo sai à deriva, contrariando os conselhos de um pastor, e logo a estranha embarcação começa a se desfazer com o vento e o movimento das águas. A viagem ganha tonalidades místicas à medida que os vivos vão mergulhando ao encontro dos seus entes queridos, que por sua vez revivem nos abraços subaquáticos.” (MATTOS)
A narradora mirim de Indomável Sonhadora, conhecida como Hushpuppy, cuja voz em off conduz esta estória de resiliência em face de circunstâncias adversas, é alguém capaz de conexão íntima com os animais: escuta seus corações palpitando e imagina se, caso tivessem o uso da palavra, o que diriam os pintinhos ou as raposas. Todo o filme se desenrola na instabilidade de um território borrascoso, com o som de trovões anunciando mega-tempestades.
Mattos descreve bem que Hushppu “vive com o pai, Wink (Dwight Henry) numa casa depauperada da ‘”Banheira”, como é conhecida aquela área dos bayous. Wink dá lições rudes de sobrevivência à filha, na certeza de que um dia a grande tormenta chegará e ela precisa estar preparada. A voz da própria Hushpuppy prevê: ‘Um dia a tempestade virá, o chão vai afundar e a água vai subir tão alto que não existirá mais a ‘Banheira'”.

Pequena filósofa da natureza quebrada que vê a seu redor, a pequena aprende sobre as mudanças climáticas com a personagem Bathsheeba – “every animal is made out of meat…”. Ela mostra uma tatuagem em sua coxa que revela os hominídeos das cavernas lutando contra grandes bestas ferozes. A ética vigente entre estes personagens não tem nada de delicada, de carinhosa – tudo os conduz a uma postura viril, de enfrentamento das adversidades extremas “como um homem”, como o daddy de Hushpuppy insiste em ensiná-la. É a moral que prega não ficar chorando como um pussy ou sissy. A mocinha, diante do caranguejo, é instada pelos que estão ao redor a romper o bicho com as mãos e comê-lo cru: “beast it, beast it, beast it!” Depois do feito, ela mostra os músculos. She’s the man.
A obra inclui impressionantes takes de geleiras colapsando, e de maneira evocativa, através de sua poética visual, sugere um vínculo entre estas comunidades estadunidenses que estão afogando nos floods e os distantes ice caps meltings, o que conduz Hushpuppy a uma visão precoce da interconexão entre todas as coisas que está no cerne da ciência ecológica.

Ela parece até mesmo ter um consolo diante das situações difíceis de tragar que precisa enfrentar – inclusive a morte precoce de seu adoentado pai. Ela acredita que os “cientistas do futuro” um dia vão saber de tudo que Hushpuppy fez na comunidade de Bathtub; quando a cabana em que vivem pega fogo, a pequena busca se esconder debaixo de uma caixa de papelão; desenha ali enquanto as chamas lambem tudo ao redor.
O filme, traduzido com o duvidoso Indomável Sonhadora, adapta uma peça de teatro, Juicy and Delicious, de Lucy Alibar.

Hushpuppy é uma criança eco-traumatizada que inventa suas virtudes enquanto caminha por paisagens que não cessam de transformar-se.
As paisagens também estão de passagem. Anna Tsing dirá, sobre a vida nas ruínas, que ela se dá em uma paisagem multi-espécie, repleta de conglomerados e assemblages entre humanos e não-humanos, e dos não-humanos entre eles.
Desprezar a paisagem não-humana para focar apenas no humanamente construído e constituído é uma cegueira perigosa a que podemos ser levados por uma certa percepção equivocada do Antropoceno.
Uma certa miopia antropocênica ficaria presa no excepcionalismo humano e notando (noticing) apenas o que fazem os humanos na paisagem, perdendo assim o fato de que a paisagem é viva e dinâmica por efeito conjugado de tudo que é humano com tudo o que transcende o humano, ainda que tudo esteja plenamente em estado de co-pertença à imanência do real.
É esta imersão na imanência que faz de Hushpuppy uma personagem tão forte e autêntica, e que torna este poema visual tão belo quanto aqueles de Terrence Malick. Viver nas ruínas, surfando as águas geladas dos ice caps derretidos que saíram fluindo pelo mundo, começa bem cedo.
Aos 6, Hushpuppy, amiga dos bichos mas capaz de devorá-los com as próprias mãos, adquire uma certa sabedoria trágica de nova estirpe. Entre os cadáveres de tantos animais mortos ela decide ser uma daquelas que olha de frente ao invés de desviar o olhar. Criança audaz, confia que a ciência do futuro terá algo a dizer sobre sua vida nas ruínas.
A CASA DE VIDRO exibe BEASTS OF THE SOUTHERN WILD em Goiânia nesta Seta, 10 de Outubro de 2025, com gravação do debate pós-filme. Compareça.

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PRECÁRIOS ABRIGOS
O enredo do thriller cli-fi Take Shelter (O Abrigo, 2011), escrito e dirigido por Jeff Nichols, tem um viés subjetivista e familista merecedor de crítica. Trata-se de uma obra onde a ciência do clima está totalmente ausente, assim como qualquer manifestação da comunicação social acerca de eventos climáticos extremos: tudo é remetido à sensibilidade atormentada do protagonista Curtis (M. Shannon), pai-de-família e trabalhador de classe média, que começa a ser assombrado por premonições angustiosas de que uma mega-tempestade está vindo.
A obra foca inicialmente na descrição do mundo onírico de Curtis, com uma sequência de pesadelos acabrunhantes que o afligem. Estes sonhos ruins, sempre envolvendo a fúria descontrolada da natureza somada à ferocidade (seja de um cão ou de outros humanos), transbordam de sua vida noturna rumo à sua atuação diurna, tudo transtornando. Similarmente ao Safe – Mal do Século, de Todd Haynes, este filme pode ser descrito como retrato de uma psicopatologia suscitada por uma espécie de hipersensibilidade ao ambiente (environment).
Curtis tem cerca de 35 anos de idade e viveu um trauma infantil: quando tinha 10, sua mãe foi diagnosticada com esquizofrenia paranóide e teve que ser internada, sendo assim separada da família e deslocada para uma existência hospitalar. Curtis parece temer um destino semelhante e sua atitude é uma espécie de medo de ter medo que termina por ser vencido pela irrupção de seus sintomas – inclusive os mais vergonhosos, como urinas na cama em meio a um pesadelo. Perturbações proliferam tanto no relacionamento intrafamiliar com sua esposa Samanha (J. Chastain) e sua filha surda-muda Hannah (T. Stewart) quanto nas relações de trabalho, com colegas e chefias, conforme ele decide agir baseado na eco-ansiedade que é incapaz de controlar.
Curtis não é um homem rico, capaz de comprar com facilidade um bunker-do-apocalipse como tantos milionários vem fazendo. Porém, seu temor da mega-tempestade que se avizinha é tanto que ele toma medidas para construir em seu quintal um storm shelter, e para isto se embrenha na perigosa senda da Dividocracia (cf. GRAEBER), pegando dinheiro emprestado no banco. Além disto, viola normas da empresa onde trabalha, surrupiando equipamentos e máquinas em um fim-de-semana para poder trabalhar em seu abrigo subterrâneo doméstico, o que acarretará sua demissão quando tais violações são descobertas.
Trata-se de um filme perigosamente passível de uma “captura” pelo viés dos negacionistas da crise climática em curso: por boa parte de sua estória, o que vemos é a descrição de um alienado mental, de alguém que precisa ir ao psiquiatra, que precisa de consultas com o counsellor, a quem se receitam sedativos e soníferos – em suma, Curtis é pelo filme todo tratado como caso psicopatológico. Mas há certa redenção para este filme em seu desfecho, onde Curtis é enfim apresentado não mais como o solitário que envisiona o temporal apocalíptico e enxerga sinais que ninguém mais parece ver, e sim como alguém que tinha razão em sua premonição: a danada da super-tempestade, na cena final, está mesmo vindo com grande fúria, tomando todo o horizonte em frente à praia onde o trio familiar está passando férias. Sugere-se que os castelinhos na areia vão ser todos facilmente desfeitos pela fúria dos elementos.
Sugere-se que Curtis, afinal de contas, tinha razão em se precaver – e que talvez a alienação estivesse naqueles em seu redor que queriam continuar com suas vidas como se tudo estivesse normal, atitude que proponho chamar de negacionismo normótico. A normose dos que negam qualquer gravidade para a situação climática está nas antípodas da jornada de explicitação do pânico que Curtis encarna e que, aos poucos, parece puxar Samantha para sua órbita (e é notável o talento da atriz Jessica Chastain para encarnar a oscilação entre uma atitude de estranhamento e antipatia diante do marido e uma outra atitude de acolhida e empatia).

Take Shelter de certa maneira fala-nos sobre profecia, e há inclusive uma cena, quando Curtis sai na porrada com seu ex-colega de trabalho, em que o protagonista entra numa espécie de transe profético e anuncia, aos gritos, na atitude de quem quer acordar os voluntariamente surdos a seu redor, que a mega-tempestade está vindo e que as pessoas não estão preparadas para se protegerem dela. Curtis parece ter uma grande fobia não apenas de ser pego desprevenido pelo temporal – o medo dele é de estar ficando louco, de estar caindo ele mesmo nas garras de uma esquizofrenia paranóide hereditária como aquela de sua mãe.
Quando vai à biblioteca, é justamente um livro sobre mental illness que ele pega. É disto que falo quando afirmo sobre o perigo de uma captura negacionista-normótica desta estória: na maior parte do filme, a eco-ansiedade é tratada como mental illness, é desplugada ou desconectada de qualquer conhecimento científico ou qualquer informação socialmente mediada (pelo jornalismo, por exemplo).
Para demérito da obra, eu apontaria sobretudo dois elementos: 1) a ausência quase completa de um saber científico que pudesse dar embasamento ao fenômeno em tela: é estranhíssimo como os personagens de Take Shelter parecem agir num mundo onde a metereologia parece que ainda não foi inventada, onde a televisão, o rádio e a internet não informam sobre a iminência de temporais e twisters, e tudo isto sem que a intencionalidade de fazer uma sátira de uma sociedade que tivesse levado o silenciamento das ciências climáticas/atmosféricas ao extremo; o que resta é a agência individual, ou melhor, no melhor dos casos, a agência familiar, sobretudo do pater familias, que se baseia em sua própria atormentada e obscurecida sensibilidade – e não naquilo que o poder público cientificamente embasado comunica aos cidadãos – para sua conturbada criação de frágeis abrigos.
2) Na sequência da crítica anterior, pode-se criticar o elemento profundamente familista do enredo de Take Shelter, neste aspecto bastante similar àquele que se manifesta em O Dia Depois de Amanhã de Roland Emmerich, o que significa que a batalha contra a catástrofe climática é sobretudo apresentada como um problema familiar a ser resolvido neste âmbito: no filme de Nichols, o pai constrói seu bunker para abrigar este pequeno agrupamento de três pessoas que é sua família nuclear, aparentemente indiferente ao destino dos outros moradores de sua comunidade e de seu planeta.
Já foi notado por acadêmicos (scholars) o quanto isto tem se mostrado uma tendência forte de muitos filmes de cli-fi sobretudo de matriz anglo-saxã, que ganham contornos de melodrama ao lidarem de maneira apelativa com a relação pai e rebento, sendo que a agência paterna contrasta com a relativa passividade do filho – em Take Shelter, por exemplo, com a utilização da condição de surda-muda da criança como um fator que aumenta sua fragilidade e sua necessidade de proteção parental. Como apontou Julia Leyda,
several cli-fi movies center around heroic father figures who (attempt to) rescue not only their families but the world from climate disaster, reinforcing traditional patriarchal values. In The Day After Tomorrow, the heroic climate scientist sets of to walk from Washington DC to New York City to rescue his teen son, now imperiled by the rapid-onset polar ice storm that will, it appears, destroy large portions of the US and the northern hemisphere. The machismo on display in his physical acts of bravery is tempered by his allegiances to “liberal” causes like environmentalism, his devotion to family providing impetus for his feats of daring while simultaneously proving his humanity. Similar paternal motivations animate the main character in Take Shelter, a tall, rugged man whose extreme protectiveness of his wife and fragile daughter feeds into what appears to be a form of mental illness in which he foresees a catastrophic storm that threatens the whole town. (LEYDA: 20, pg. 14-15)
Estes filmes revelam um sintoma grave do equívoco que é mobilizar em prol da questão climática apenas com foco em relações de sangue, querendo que as pessoas se preocupem com seus filhos e netos, e não com as futuras gerações de seres sencientes da Terra, num estreitamento narcísico do âmbito de consideração de responsabilidade.
Que não se entenda de maneira equivocada esta crítica como uma generalização de um juízo negativo acerca de toda e qualquer obra que contenha em seu cerne uma relação criança – genitor; no âmbito do cli-fi, já expusemos o quanto Beasts of the Shouthern Wild é muito mais bem-sucedido do ponto de vista estético e político do que as obras de Nichols e Emmerich ao construir a relação da criança Hushpupyy com seu adoecido pai, concedendo ao infante um grau de agência, narratividade e enraizamento comunitário que singulariza esta obra como uma das poucas narrativas cli-fi que rompe com o senso comum do familismo e do patriarcalismo, apontando para uma precoce sabedoria relativa à arte de Viver Nas Ruínas (Anna Tsing), desenvolvida por Hushpuppy em interação não apenas com sua comunidade humana, mas enraizada em paisagens multiespécies perpassadas pela turbulência das águas.

LEIA MAIS: https://www.paisagensdofim.com/vivos-e-mortos-na-louisiana
Publicado em: 10/10/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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