
Fala, galera! Sou Eduardo Carli, estou aqui no Ponto de Cultura d’A Casa de Vidro, e decidi hoje fazer mais um episódio do Kino Kritik, que é o nosso programa de crítica cinematográfica, após assistir Iracema, uma transa amazônica, no Cine Cultura, em sua versão 4K. E, novamente, fui muito impactado por esse petardo na história do cinema brasileiro que eu já havia assistido anos atrás, e já havia colocado na minha lista de clássicos do cinema pátrio, e que agora pude re-assistir num telão de cinema, com o celular desligado, sem a distração dos feeds. E é uma experiência que eu recomendo demais a todos os brasileiros: que se coloquem diante dessa cáustica obra-prima do nosso cinema, que em 2025 revela ser de intensa atualidade.
Jorge Bodansky, Orlando Senna e os demais colaboradores realmente conseguiram criar uma obra que eu me sinto tentado a chamar de clássica, de um monumento do cinema brasileiro, mas também percebo o quanto essas palavras são inadequadas: porque esse filme não tem nada de classicismo no sentido estético, nas suas escolhas de linguagem, ele é um filme que desde sua época já soava muito contemporâneo, muito disruptivo, e por outro lado também chamá-lo de monumento soa estranho, porque é difícil imaginar um filme menos monumental. Na verdade, Iracema, uma transa amazônica é uma espécie de filme manifesto que parece que tentar demolir todos os monumentos intelectuais e concretos ao desenvolvimentismo que havia então, na Ditadura que a este filme censurou. Doutrina desenvolvimentista que há disposição desse filme em atacar através de seu aparato muito bem montado, e que inclui, por um lado, um filme etnográfico, e por outro lado uma peça dramatúrgica de ficção que traz essa incrível interação entre Paulo César Pereio, fazendo Tião Brasil Grande, e a Edna Cássia interpretando Iracema.

Eu quero começar fazendo alguns apontamentos a respeito do contexto em que estamos em 2025 no Brasil e no planeta para também refletir um pouco sobre a atualidade desse filme. Estamos todos diante da iminência da COP 30 de Belém do Pará, onde os olhos do planeta inteiro, ou pelo menos menos dos cidadãos consternados com a catástrofe climática planetária, estarão voltados para a Amazônia, esse território que Sumaúma, um dos principais órgãos do jornalismo crítico e investigativo brasileiro, chama, e eu acredito que com grande propriedade, com um bom senso de propósito, de centro do mundo. Ou seja, o Brasil de 2025 volta a colocar a Amazônia no centro do mundo, também em virtude do esforço do terceiro mandato de Lula para que a questão ambiental, socioambiental, climática, possa voltar à crista da onda, assim como foi com a Rio 92 e depois com a Rio mais 20. Então, estando na iminência da ocorrência dessa grande cúpula das Nações Unidas sobre a questão climática é muito interessante ver na tela de cinema Belém do Pará representada, o Sírio de Nazaré, as feiras populares, e a maneira como Iracema transita por esses ambientes, de que maneira ela vai ser, de certo modo, conduzida para além de Belém por seu encontro, com alguns elementos de romance traumatizante, com alguns elementos de venda de serviços sexuais para um forasteiro dotado de alguma bufunfa.
Então me parece que Iracema, uma transa amazônica revela uma jovem de 15 anos, em Belém do Pará, já em estado de prostituição de seu corpo, mesmo menor de idade, e que tem a sua vida, sua travessia vital, literalmente atravessada pelo caminhão de Tião Brasil Grande. E é assim que o desrumo de Iracema começa, no sentido de que ela vai se tornar essa figura nômade, essa pedra que rola, essa habituê das caronas com caminhoneiros, e vai se tornar essa figura desenraizada e que inclusive perde a sua conexão com os povos tradicionais, com os povos originários, com suas raízes indígenas. Tanto que há uma interação muito interessante entre Iracema e Tião Brasil Grande, quando eles estão ali se banhando num pequeno lago, e ele pergunta para ela se ela se considera branca, porque ela tinha acabado de dizer que ela não era índia. Ela reclama com o Tião Brasil Grande quando ele a chama de índia, e ela fala que não é índia porra nenhuma. Fica brava até com essa atribuição de uma indianidade a ela. E aí ele meio que de sacanagem, de gozação, fala: você é o que então? você é branca? Esse é um trecho do filme interessante para revelar também um aspecto de perda de identidade que essa Iracema encarna, estando imersa no ambiente que é o da exploração predatória dos recursos naturais da Amazônia, sobretudo através do desmatamento, da venda das madeiras, e também da pecuária intensiva e do transporte da boiada.



E me parece que é muito atual de fato esse filme, considerando que nossa casa comum está em chamas, como Greta e tantos outros têm nos alertado. Estamos diante da sexta extinção em massa da biodiversidade planetária, como alertado pela Elizabeth Kolbert nesse livro Vencedor do Pulitzer. E ainda assim continuamos devorando animais como Jonathan Safran Foer expôs muito bem nesse belo tratado vegano, Eating Animals / Comer Animais. E me parece que o Iracema, o filme, nos lança, enquanto espectadores, numa imersão amazônica onde há vários elementos distópicos: há várias cenas do filme que parecem pesadelos. Você consegue ver a devastação, você consegue ouvir as motosserras, você vê as grandes árvores da floresta tropical tombando, você vê os tratores avançando para abrir estradas. E você vê, por fim, concretizado no personagem que o Pereio interpreta, a ideologia da ditadura militar para esta área, que envolveu a construção da rodovia transamazônica, que envolveu também o condicionamento dos sujeitos para que se tornassem os fiéis executores e os leais conformistas de um ideário de desenvolvimento totalmente baseado no extrativismo, no desmatamento e na boiada criada para ser rapidamente transformada nas mercadorias da carne e do leite.
Há uma cena muito forte nesse filme, onde o fogo está devorando a floresta tropical, aquela câmera em traveling mostra um cenário realmente distópico, e aquilo impacta nossos olhos como uma cena do real, né? Não há como ficar diante daquilo falando que isso é só ficção. Estamos sim diante de um filme ficcional, mas que contém vários aspectos de documento sobre o real. E a própria criação do personagem Tião Brasil Grande se vale de vários elementos da ideologia ditatorial acerca desse território. A noção de que ninguém segura esse país, a noção de que o país só vai para frente através da construção de estradas, através do asfalto, através do desmatamento que abre espaço para o progresso civilizacional, para tomar conta do que era uma selva atrasada. Todos esses elementos acabam sendo encarnados pelo personagem Tião Brasil Grande. Ele parece acreditar piamente nessa doutrina. Ele diz que tem fé no futuro do Brasil e que inclusive por isso que ele ganhou esse apelido, ou seja, Sebastião, de tanto tagarelar sobre a sua fé no futuro do Brasil, construído através de desmatamentos sem freios e estradas de asfalto, tomando o lugar das selvas atrasadas e dos índios perigosos, ele dá concretude, inclusive uma concretude um pouco cômica, uma concretude um pouco caricatural, a essa figura do sulista, essa figura originária do sul ou do sudeste do Brasil, que decide trabalhar nessa grande engrenagem devastadora que quer transformar a maior floresta tropical do mundo em mercadoria lucrativa, doa quem doer.
E esse filme também vai abordar, com certeza, questões de gênero, questões de exploração do corpo feminino, questões da prostituição, inclusive do abuso de menores, como também uma figura da masculinidade tóxica. Ele começa o filme xingando Iracema de burra e termina o filme xingando ela de feia, banguela, desdentada. E as interações dos dois são muito perpassadas por essa figura desse macho sulista, contratante de serviços sexuais e que vai sempre menoscabar essa figura da adolescente paraense e vai se achar, ele, Tião Brasil Grande, um agente civilizador. Ele que está fazendo há seis anos tráfego entre São Paulo e o Pará e vice-versa, ele se considera uma figura civilizadora, ele se considera um dos motores humanos dessa grande máquina que é o Brasil que vai para frente, matando seus índios, desmatando suas florestas, sujando de mercúrio seus rios, extraindo minérios e fazendo barragens que logo se tornam catástrofes. Ou seja, Tião Brasil Grande comeu o alpiste da ideologia ditatorial, comeu a historinha do desenvolvimentismo, e encarna isso no mundo de maneira tão exagerada que se torna uma espécie de caricatura, de fato.
E ainda sobre a atualidade do filme, eu estou aqui com o Amazônia, por uma economia do conhecimento da natureza, do Ricardo Abramovay. E eu selecionei aqui dois breves capítulos, 62 e 63, para relatar a vocês e fazer alguns links com esse filme. Sobretudo porque existe uma questão muito urgente, crucial, tratada no filme de Bodansky e Senna, que é a exploração ilegal de madeira. Há um certo momento ali onde o Tião para o seu caminhão e vai negociar com os extratores de madeira ali, e ele pede para que os grandes tocos de madeira sejam colocados em seu caminhão para que possam ser transportados, mas com a madeira de lei escondida por baixo. Aquela madeira que é, por lei, proibida de ser extraída, ou seja, aquelas árvores, aqueles seres vivos de tais espécies protegidas, que há uma normativa jurídica defendida pelo Estado brasileiro dizendo que isso não pode ser extraído. Então esse filme vai debater esse descaso pelas leis ambientais que agora está também na crista da onda, no ápice do debate público no Brasil, por conta da PL da Devastação/2025.
E eu fico me perguntando se nós, cidadãos brasileiros, estamos realmente atentos ao fato de que existe um imperialismo interno dentro do Brasil, no sentido de que certas regiões agem como potências imperiais diante de outras regiões. E a extração de madeira ilegal na Amazônia é muitas vezes financiada por figuras sulistas, sudestinas ou do centro-oeste. Então a madeira de lei, a madeira de luxo que se extrai da Amazônia, praticando a morte de certas espécies vegetais protegidas, essa madeira viaja e eventualmente ela vai estar em uma mansão em um bairro nobre, no Leblon, no Rio de Janeiro, nos jardins em São Paulo. Essa madeira de lei, ilegalmente extraída, pode parar no setor de mansões de Brasília, e pode sentar a sua bunda sobre ela um parlamentar que hoje tá votando a favor da PL da Devastação. O Ricardo Abramovay escreve que
“os interesses na exploração ilegal de madeira acabam sendo um gerador de ataques contra comunidades locais, como amplamente documentado pelo Greenpeace, que relatou por exemplo que o Ministério Público do Mato Grosso, chamou o massacre de Colniza, em que um grupo de encapuzados fuzilou nove pessoas que resistiam à sua ambição de dominar recursos existentes na região de Taquaruçu do Norte, que inclui espécies arbóreas de alto valor, como o Ipê, Jatobá e Massaranduba, amplamente utilizadas na fabricação de móveis e decks de jardim. A tolerância e a cumplicidade das instituições públicas e privadas com o crime revelam-se no fato de que a empresa do principal acusado pelo crime e foragido da justiça está funcionando normalmente e vendendo madeira para o exterior.”
Pois é: muitos assassinados por um bando de encapuzados lá em Taquaruçu do Norte, por conta de resistirem ao avanço desses madeireiros que querem retirar ilegalmente essas espécies de alto valor, os Ipes, os jatobás, as maçarandugas, e a empresa está impune e funcionando normalmente. Existe aqui também um vínculo com o Iracema, uma transa amazônica, pois a extração de madeira é descrita no filme como acontecendo ao arrepio das leis, com personagens como o Tião Brasil Grande a todo momento torcendo e e transgredindo as legislações vigentes para ganhar o seu troco.
E no capítulo 63, Abramovay fala que
“a extração ilegal de madeira é impulsionada também por obras públicas que atraem grandes contingentes populacionais. O acompanhamento de campo e por monitoramento de dados secundários dos impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que foi realizada pelo Instituto Socioambiental, traz informações muito importantes nesse sentido.”
Ou seja, muitas décadas depois da ditadura militar, durante os governos petistas, houve a instalação da usina hidrelétrica de Belo Monte e “a própria demanda dessa usina, como dos empreendimentos associados à sua bolha especulativa, principalmente no mercado imobiliário, tem feito disparar a exploração madeireira”, diz aqui o Abramovay. E para agravar esse cenário, ele diz, “o esgotamento de madeira de lei nas áreas não protegidas e o contexto de desgoverno absoluto desse ramo econômico no estado do Pará, completam a equação. A exploração madeireira ilegal passou lá na região sob influência da usina hidrelétrica de Belo Monte, de 20 mil a 70 mil hectares, só entre os anos de 2011 e 2012. Como os resultados dessa exploração predatória têm que ser transportados, o trabalho do Instituto Socioambiental constatou a existência de 760 quilômetros de estradas ilegais somente na terra indígena de Cachoeira Seca.”
Então eu citei aqui dois trechos da página 71 e 72 desse livro do publicado pela Elefante Editora, pelo Outras Palavras e pela Terceira Via Edições. E isso me parece já uma prova suficiente de que esse filmaço retém muito da sua atualidade porque Iracema é um filme que fala sobre abertura de estradas, não só pelo poder público, no caso pela ditadura militar, mas também pela abertura ilegal, braçal, que os trabalhadores envoltos ali com a exploração madeireira, que se lançam a abrir estradas manufaturadas na selva para que possam transportar essas madeiras, para que elas possam chegar aos caminhões, e para que, digamos, as árvores mortas da Amazônia possam escoar rumo aos empreendimentos e aos playboys do centro-oeste, do sudeste, do sul e do exterior. Então, é muito sobre essa abertura de estradas, mas é muito também sobre a personalidade masculina, predatória, extrativista, violenta e boçal que subjaz a esse contexto.
Então eu acho que Pereio fez um dos grandes papéis de sua carreira com essa caricatura do Tião Brasil Grande. Acho que a relação dele com Iracema também é muito simbólica, ela é muito densa, ela é muito interessante para pensar as questões étnico-raciais, porque de fato se trata de um homem branco, cisgênero, heterossexual, originário de Rio Grande do Sul, que está diante de uma mulher que ele considera índia, de pele bem mais escura e de corpo explorável, comprável e descartável, conforme o bel prazer do cliente, né? Como naquela cena também muito comovente, e muito revoltante também né?, em que ele, após comprar o serviço sexual de Iracema e pagar os 20 pontos pra ela, ele para numa espelunca de beira de estrada e manda ela descer. Diz que ele não está lá para sustentar mulher nenhuma e a ofende de várias formas – e fala, enfim, desce, se manda, vaza, não quero saber de você.
Ou seja, essa relação entre os dois é sintomática desse macho que quer usufruir de um corpo através do pagamento, mas que depois não quer nenhum vínculo. E de algum modo Iracema parece conquistada um pouco por essa estrada, por essa ideologia, por essa miragem também de uma São Paulo distante que poderia ser acessada através desses caras com esses grandes veículos com rodas. Parece que Iracema é um pouco seduzida por essa figura do sulista que representa o Brasil que ninguém para, que representa o Brasil do homem viril, ela é seduzida por essa figura em larga medida lamentável, mas também em boa medida carismática, ela embarca numa espécie de road movie distópico, e o filme é brilhante na descrição, na crônica dessa vida cotidiana dessa adolescente de 15 anos que na verdade nós nem sabemos se vai chegar viva aos 16. Porque ela se mete em situações violentas, ela está envolta numa teia social de muito antagonismo, e mesmo outras mulheres vão agredi-la e chamá-la de puta, de galinha, de uma série de coisas ofensivas.
Então é uma vida muito sofrida essa de Iracema, mas ao mesmo tempo me parece que ela é um símbolo de alguém que de fato perdeu as suas raízes indígenas, o seu enraizamento nas comunidades tradicionais. Ela mesmo diz, “não, eu não sou índia, eu sou filha de brasileiro”, né? Então ela reivindica uma identidade nacional, assim como o Tião Brasil Grande diz que o que mais importa para ele é, de fato, a pátria brasileira, né? Tem um diálogo bem interessante no começo do filme, que trata da questão da mãe, né? E aí o Tião contesta o seu interlocutor que fala da mãe natureza, né? Ele fala “que besteira, mãe natureza é o caralho, não tem nada disso!”, não sei o quê. E ao mesmo tempo, quando o interlocutor fala que a pátria é nossa mãe, aí ele concorda, né? Ele acha que essa é uma ideia válida. E ele também, quando está lá com os colegas almoçando, ele também diz que só se importa com o Brasil. O mundo não lhe importa. Ele é um patriota que só se importa com o próprio país e não com os outros.

E me parece que a própria Iracema foi um pouco conquistada por esse discurso patriótico, que nós vemos inclusive lá no Caminhão do Tião, aquele Brasil do ame-o ou deixe-o, também acompanhado por aquela frase “do destino ninguém foge”. Então, não existe muito esse enraizamento de Iracema nas comunidades indígenas, justamente porque ela está imersa num contexto de prostituição, entre esses trabalhadores, muitos deles forasteiros, que estão envolvidos com a exploração da madeira e com o gado, e com o transporte desse gado destinado a ser exterminado para virar carne.
De maneira que, concluindo meu comentário, eu considero Iracema, uma transa amazônica, um filme brilhante, que permanece sendo muito cáustico, muito crítico, muito crucial no Brasil de 2025. Ele também nos leva a pensar de maneira retrospectiva o que foi o bolsonarismo e o pandemônio da pandemia. Me fez lembrar do ministro Ricardo Salles, dizendo que o governo brasileiro, na época uma verdadeira República das Milícias, deveria aproveitar que o noticiário diário estava tomado pelas infecções e pelos óbitos da Covid19 e deveríamos deixar a boiada passar, significando que seria bom fazer colapsar tudo aquilo que impede o agrobusiness, a pecuária industrial, o desmatamento, o garimpo, a mineração, de prosperar em nosso país. O filme acaba justamente com Tião Brasil Grande tacando mais um foda-se pra Iracema e levando a boiada em seu caminhão.
Então, esse filme continua atualíssimo, porque o Brasil ainda continua enfrentando os mesmos problemas e é claro que eles são extremamente agravados quando temos governos de extrema direita ou governos ditatoriais de direita, como tivemos. A Transamazônica é um projeto desenvolvimentista ditatorial, mas também é preciso que a gente questione a nossa centro-esquerda e o nosso lulopetismo quando ele adere a práticas similares àquelas de nossos antagonistas da direita, como foi o projeto de Belo Monte, uma questão que já foi muito bem tratada, criticada e exposta, por exemplo, pela Eliane Brum, pelo seu trabalho completo, pela sua bibliografia completa, em que ela expôs os horrores do Projeto Belo Monte. Eu recomendo, sobretudo, o livro Brasil, Construtor de Ruínas.
Então, é preciso também que a gente utilize esse filme de maneira pedagógica, também nos meios de esquerda que ainda estão de joelhos, cultuando piamente o ídolo do desenvolvimentismo, o ídolo do extrativismo, o ídolo da industrialização a todo preço, o ídolo da continuidade da extração e queima de combustíveis fósseis, quando isso se dá em prol da soberania nacional. Eu acho que nós não podemos ser ingênuos de acreditar que existe uma esquerda possível, que vai criar um mundo melhor, investindo novamente em projetos desenvolvimentistas, em ideologias do progresso que estão causando um desastre e uma devastação sem precedentes no nosso país e no nosso planeta, a ponto da Amazônia estar chegando ao ponto de não retorno.

Então encerro esse meu KinoKritik evocando aqui Nego Bispo. Recentemente eu estive lá em Recife, na edição pernambucana da ANPOF, o Congresso da Associação Nacional da Pós-Graduação em Filosofia, que fez seu último encontro na capital pernambucana. Houve ali uma grande homenagem ao Nego Bispo, esse pensador da práxis, quilombola do Piauí, e ele faz uma crítica muito interessante ao conceito de desenvolvimento. Ele quebra a palavra e ele mostra que des-envolvimento significa quebrar o envolvimento. O Nebo Bispo nos ensina que envolvimento é melhor que desenvolvimento, no sentido de que estarmos envolvidos com a teia da vida, estarmos envolvidos com a fauna e a flora, estarmos envolvidos com outros animais e outras plantas e outros fungos, estarmos envolvidos com aquilo que não é humano, é muito melhor do que sermos desenvolvidos através do desmatamento, através da extinção da biodiversidade, através dos verdadeiros holocaustos que nós diuturnamente impomos aos bois, às vacas, aos porcos, aos perus, às galinhas, a tudo que vai virar carne e a tudo que está destinado a nos dar laticínios e ovos.
Nego Bispo ensinará, então, que des-envolvimento é uma barca furada, é uma invenção imperial dessa civilização branca, genocida, escravocrata. E também há um certo elemento, obviamente, imperial, colonial, na noção de desenvolvimento, que é quando certos territórios são chamados de subdesenvolvidos por aqueles que se dizem os desenvolvidos e os civilizados, que normalmente estão no auto-proclamado primeiro mundo, ou que estão nas grandes metrópoles civilizadas do nosso próprio país, e eles consideram que é uma missão civilizatória quase divina ir até os subdesenvolvidos para desenvolvê-los. Para desenvolvê-los é preciso quebrar esse envolvimento, é preciso trazer uma ruptura da relação ancestral, por exemplo, dos povos indígenas com a floresta viva e biodiversa.
Então me parece que no cinema brasileiro são poucos os filmes que retratam tão bem os horrores do desenvolvimento, ele é muito pedagógico no sentido de expor uma distopia do desenvolvimentismo ditatorial, e por contraste ao Iracema, uma transamazônica, nós podemos pensar um outro mundo possível, e também um outro cinema possível, uma outra arte possível, um outro artivismo possível e a construir, onde o envolvimento com a teia da vida esteja em estado de primazia em relação a esse desenvolvimento extrativista, predatório e devastador no qual, infelizmente, continuamos imersos.
É isso, eu sou Eduardo Carli e esse foi o KinoKritik sobre essa obra-prima do cinema brasileiro. E para terminar quero dizer que estará aqui na descrição desse vídeo e também aqui no website da Casa de Vidro, aqui linkado, o canteiro de obras de um livro em que eu estou trabalhando, chamado Kinobrasa, que são críticas sobre cinema brasileiro, partindo muito da descrição de Brasis distópicos, que se conecta um pouco com a minha pesquisa de doutoramento em curso na UFG, onde eu tenho lidado com cinema e Antropoceno, e tenho lidado muito também com as expressões distópicas dentro do cinema a respeito da problemática do Antropoceno. Então Kinobrasa é um livro em elaboração, ele vai conter comentários críticos sobre mais ou menos 20, 25 filmes brasileiros. Ele já é um livro já robusto, já tem bastante material escrito para ele. Boa parte foi inicialmente publicado no site da Casa de Vidro e agora estou fazendo um esforço de reunir tudo nessa obra que vai ter esse tema que perpassa o cinema brasileiro, que são as várias devastações socioambientais que na história da sétima arte do nosso país são ali retratadas.
Então, caso você se interesse por esse tema, caso queira debatê-lo, caso queira colaborar com esse processo de um livro em gestação, por favor, acesse, leia, comente e me mande pitacos a respeito do Kinobrasa, um livro sobre o cinema brasileiro distópico, e que tem esse nome justamente porque o nosso país, Brasil, é o país que frita na fogueira dessa brasa cada vez mais flamejante da catástrofe climática planetária. Temos um papel crucial no planeta hoje para que o futuro da vida possa ser menos distópico do que isso que tem se prefigurado e que tem se retratado em filmaços como o Iracema, uma transa amazônica.
Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 11 de Agosto de 2025


LEIA TAMBÉM:
https://mst.org.br/2022/04/19/massacre-de-colniza-mst-cinco-anos-de-impunidade/
Publicado em: 12/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia