“O acaso é uma empresa para a qual tudo conspira.” Pio Vargas
Sobre as saborosas tapiocas, a gente filosofa acerca do inusitado da vida: se, um ano atrás, me tivessem dito que estes quatro habitantes do solo goiano iriam reunir-se numa tapiocaria de Natal/RN, eu ficaria descrente na possibilidade desta cena ocorrer, tamanha sua improbabilidade. Mas o poder do Acaso conspira pra causar uma realidade improvável – Leonard Mlodinow explica! [1]
Cá estamos, em Julho de 2025, na Casa de Taipa, a poucos pés da Praia de Ponta Negra, comendo algumas das tapiocas mais saborosas do Brasil, e o conceito que desponta é o de coincidência. Incidência #1: Gisele em seu pós-doc muda-se pra trabalhar como professora e pesquisadora convidada, na área de psicologia e ciências biomédicas, na UFRN; incidência #2: Diego vem a Natal e viaja com a esposa Janaína Vidal pra conhecer points imperdívers do litoral potiguar (Pipa, Genipabu etc.); incidência #3: eu, em viagem exploratória do Nordeste, atravesso a Chapada Diamantina e aprecio o F.I.G. de Garanhuns, rumando ao re-encontro com Gi, e aterriso bem nos dias em que era possível o encontro de nós 4. Trajetórias coincidentes, convergentes. Co-incidências.
Impactados após assistirem ao filme “Boas Novas”, sobre os últimos anos de vida do Cazuza, Diego e Janaina levam a conversa plos rumos da relembrança dos tempos da epidemia de AIDS. Dias depois, a caminho do Museu Câmara Cascudo que visitamos juntos, Diego me revela a intenção de escrever um artigo sobre 4 discos que revelam artistas face da morte iminente: 1) “Burguesia”, de Cazuza, 2) “A Tempestade”, da Legião Urbana; 3) “Panela do Diabo”, de R. Seixas e Marcelo Nova; 4) “Black Star” do David Bowie. Lembro-me da morte recente de Ozzy Osbourne, 17 dias após o show de despedida do Black Sabbath. Lembro-me também de Elza Soares e seu emblemático “me deixem cantar até o fim”. Lembro-me ainda de Gilberto Gil, de sua recente turnê de despedida (que Diego e janaína apreciaram em Brasília), de seu conceito de Tempo Rei impresso sobre um boné que ele mesmo terá estórias pra contar…
SE… ENTÃO…
Contrafactualismo: meu pensamento vem te exercitando. Se, no passado, eu tivesse tomado outro caminho, feito outra escolha, firmado passo em outro rumo, então o que teria se passado? Trata-se de especulação existencial, uma espécie de ginástica do imaginário, mas que não deixa de ser muito interessante pra sondar os enigmas da causalidade. Minha vida, olhada em retrospecto, é uma concatenação de eventos que já tornou-se necessária, indesfazível. Mas…
Nosso encontro improvável na Casa de Taipa me fez enveredar pela fantasia contrafactual pelos labirintos da memória (nome, aliás, de uma das melhores músicas do álbum Reviravolta, de Mascate & Seus Cometas, uma produção d’A Casa de Vidro, em gestação há uns 3 anos, e prestes a vir a público).
Lá atrás, se eu não tivesse feito FUVEST, se não tivesse entrado no FFLCH/USP, se não tivesse me matriculado na matéria sobre Spinoza do prof. Homero Santiago, não teria conhecido Gisele. Se Gisele não tivesse prestado concurso na UFG e se mudado pra Goiânia, e se eu eu não tivesse decidido acompanhá-la, pra morarmos juntos na capital de Goiás, eu não teria conhecido a Fósforo Cultural, nem teria tido acesso, através da Juliana Marra a, álbuns como “Parte de Nós” de Diego & O Sindicato. Não teria escrito a resenha deste pro Depredando O Orelhão – blog que o elegeu Álbum do Ano – e que permitiu nosso primeiro contato [3].
A Casa de Vidro Ponto de Cultura nunca teria se instalado em Goiânia, no ano de 2019, sem toda uma concatenação de eventos prévios. Naquela época, quando decidi abrir o espaço, precisei do apoio, inclusive no aspecto pragmático indispensável de ter os fiadores pro aluguel do imóvel na 1ª Avenida, e foram Gisele e Diego as pessoas que confiaram, que deram este voto de confiança, que concederam esta mão amiga pra este impulso inicial.
Cá estamos, em meados de 2025, inusitadamente reunidos nesta tapiocaria potiguar. Estou batalhando contra um vírus da gripe que me infectou e que, nesta noite, me deixou em estado afônico e catarrento. Ainda assim, cheio de anseio de comunicação, de escuta, de troca, ciente de que este encontro tem algo de muito extraordinário, faço-me o mais presente que posso a este aqui-e-agora raro, irrepetível.
Diante de Janaína, que como eu é servidora pública do IFG, penso também que se eu não tivesse passado nos concursos pra professor de filosofia nesta instituição em que hoje somos colegas, então é bem provável que o Ponto de Cultura nunca teria se concretizado. Precisei firmar num emprego seguro, sentir firmeza vínculo empregatício sólido, e que ao mesmo tempo não é um contrato D.E. (Dedicação Exclusiva), pra que eu sentisse que era possível me aventurar como “ponteiro” (coordenador de Ponto de Cultura).
Se eu não tivesse entrado pro corpo docente do IFG, não teria sido convidado pra ser um das pesquisadores escritores envolvidos na escrita do livro Encontros no Encontro: participação social da Rede Nacional dos Pontos de Cultura, [2] que me permitiu uma inspiradora imersão na história do Cultura Viva e na utopia concretizável e futurível dos Pontos de Cultura, tal como propostos por Gilberto Gil e Juca Ferreira…
Estamos às beiras de lançar Reviravolta no mundo e acabamos de publicar a single “Aqui”, cujo início, tão singelo, carrega uma sabedoria simples que me nutre também nesta noite de re-encontro: “estar aqui, saber o valor / poder sentir a dor e o prazer / de estar aqui.”
A Casa de Vidro vai tentando sobreviver a tantos abalos. O principal deles, a demolição da nossa sede no Setor Universitário e a mudança pro Novo Mundo. Na mundança que é o mundo, como diz o Gilberto GIl, no devir cósmico em que estamos embarcados, em meio aos mistérios da causalidade e do acaso, é bom sentir que não ando só e que vocês fazem parte de um traçado de vida que é nosso. A vida é mesmo um fenômeno inusitado no Universo e o fato de estarmos vivos ao mesmo tempo e no mesmo espaço, e que nossas trajetórias possam confluir, é o ápice deste inusitado. Diante disso, eu nunca mais parei de me definir assim, com isto que com Dieguito aprendi: “eu sou parte de nós.”
E assim, nessa noite juntos em coro relembramos:
“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só!
Mas sonho que se sonha junto…
é Realidade.”
RAUL SEIXAS
Eduardo Carli de Moraes, Natal/RN, 30 de Julho de 2025



[1] Referência ao livro de Leonard Mlodinow: O Andar do Bêbado: Como o Acaso Determina Nossas Vidas. Ed. Zahar: 2009. Saiba mais.
[2] Referência ao livro/ebook publicado pela Editora IFG, eis a sinopse: “A Política Nacional Cultura Viva (Lei n. 13.018/2014) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Essa política é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada. Chamamos os governos federal, estaduais e municipais a assumirem seu compromisso com a política e o cumprimento das metas do Plano Nacional de Cultura. Mais do que resistir, convocamos o movimento cultural brasileiro a exercer protagonismo na luta, organizando a sociedade nas redes e nas ruas por mais democracia e mais direitos, unificando esforços de mobilização.” Acesse e baixe livremente em https://editora.ifg.edu.br/editoraifg/catalog/book/19.
[3] Referência a este texto, publicado em Janeiro de 2011: “Eu Sou Parte de Nós” (Diego de Moraes & o Sindicato): https://depredando.blogspot.com/2011/01/blog-post_31.html
A epígrafe foi extraída de um poema do Pio Vargas – saiba mais.
Publicado em: 31/07/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia