por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.com / Também disponível em Substack
O texto abaixo é uma transcrição deste videocast.
Floresta de pé, fascismo no chão. Essa é uma frase lapidar, inspiradora, um chamado não só ao povo brasileiro, mas a todos os povos do mundo para que cumpram essa tarefa inadiável: manter a floresta de pé e derrubar o fascismo no chão. E é com essa frase que eu quero começar mais um episódio do Kinokritik, que é uma série de vídeos de crítica cinematográfica aqui da Casa de Vidro (ep. 1, ep. 2). E hoje eu quero falar sobre dois filmes que tem uma interconexão umbilical entre eles e que eu considero muitíssimo importantes, inclusive como ilustração dessa frase inicial que a Txai Suruí utilizou durante a campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, numa live que ela participou e no discurso que ela faz, aliás profundamente tocante, onde ela inclusive menciona a morte dos avós durante a pandemia de covid e termina evocando essa ideia.

Então hoje nós vamos falar do filme Minha Terra Estrangeira, onde estão também contidas imagens desse discurso da Txai que eu acabei de mencionar. É um filme dirigido pelo João Moreira Salles (No Intenso Agora, Santiago, Notícias de Uma Guerra Particular, Entreatos), pela Louise Botkay e com colaboração de um coletivo de comunicadores indígenas, Lakapoy, e em paralelo a esse filme, produzido anteriormente, o filme O Território (The Territory, o título original), uma produção da National Geographic, com direção do Alex Pritz, um filme que inclusive venceu o prêmio Emmy.
Essas duas obras, elas merecem muito ser vistas em conjunto, ser lidas em paralelo. Eu acho que uma ilumina a outra e por duas razões básicas. Haveria outras suplementares, mas a primeira razão é que os filmes abordam o mesmo território: a Amazônia brasileira no estado de Rondônia, um estado no norte do Brasil, onde a floresta amazônica está num estado de devastação ainda pior em relação aos outros estados da região. Então, esses dois filmes lançam luz, nos permitem ter uma visão lúcida do que se passa nesse território de Rondônia. Eu, por exemplo, nunca tive a oportunidade de me mover, de viajar até lá e de conhecer nem Porto Velho, nem nenhuma outra localidade em Rondônia. Então esses filmes, eles realmente abrem um portal e se você mergulhar neles, se você atravessar esse portal e se lançar nessa imersão de imagens, informações, depoimentos, você realmente sai embebido, sai banhado por uma experiência muito significativa do que se passa nesse ponto da Amazônia brasileira.
O segundo motivo para vê-los em paralelo, para considerar uma somatória de seus conteúdos, é que eles compartilham personagens e ambos nos dão o retrato pungente, profundo, cheio de empatia, de uma mãe (Neidinha), um pai (Almir) e uma filha (Txai), todos eles devotados, em suas vidas entrelaçadas, a manter a Amazônia de pé.
Tive a oportunidade, nesse mês corrente de junho de 2025, de estar no FICA, o Festival Internacional de Cinema Ambiental, que se passa na Cidade de Goiás, na antiga capital do estado de Goiás. E ali tive a oportunidade de assistir o Minha Terra Estrangeira duas vezes, no Cine Teatro São Joaquim, e na segunda vez pude acompanhar um pouco do debate que rolou com a presença dos cineastas, do João Moreira Salles, da Louise, com a presença de alguns integrantes desse coletivo, e quero trazer aqui um relato que pode também ajudar a compreender que esse filme Minha Terra Estrangeira não é apenas interessante para aqueles que se importam com a Amazônia, com a questão socioambiental, com os povos indígenas enquanto guardiões da floresta, mas é um filme que deveria interessar a todo brasileiro porque talvez seja, por enquanto, o relato mais pungente, mais forte, mais impressionante das eleições presidenciais de 2022.

Então, nessa ocasião, lá no FICA, o João Moreira Salles nos contava sobre o seu processo de, 20 anos depois de ter realizado Entreatos, um documentário sobre a campanha do presidente Lula em 2002, aquela campanha em que o Lula se consagraria pela primeira vez vencedor da eleição presidencial, quis fazer, duas décadas depois, mais um filme sobre processo eleitoral, só que dessa vez ele buscou como protagonistas figuras muito significativas no movimento indígena ambientalista amazônico, no caso pai e filha, o Almir Suruí e sua filha Txai Suruí.
Então esse filme tece um pouco a sua narrativa a partir desse contraste entre a figura do pai desse cacique, Almir Suruí, que tenta se envolver com a política institucional, que se coloca como candidato a deputado federal pelo PDT, e a sua filha, que é uma ativista ambiental, que tem conquistado muito espaço, inclusive no exterior, e que começa o filme falando em inglês na Escócia, durante uma COP, durante uma cúpula das Nações Unidas sobre a questão climática. E o filme já começa também trazendo essa questão muito relevante da catástrofe climática, do aquecimento global, com a Txai destacando que nós estamos sem tempo, o tempo está se tornando escasso para que tomemos as medidas necessárias para barrar as causas da ebulição climática planetária. Notável também foi a iniciativa de Txai e outros ativistas da pauta climática de entrar com um processo contra o governo Bolsonaro.

Então esse filme “Minha Terra Estrangeira” aborda 40 dias na vida de Almir Suruí fazendo a sua campanha em Rondônia e da Txai Suruí, que também é filha de Neidinha, uma das personagens principais do outro filme, “O Território”. E a Txai, desde o início, é mostrada utilizando a tecnologia como sua aliada, ou seja, tem aqui um tema que eu gostaria de abordar e que aparece nos dois filmes, que é a utilização por parte desses ativistas que emergem dos povos indígenas de ferramentas digitais de comunicação, de audiovisual, câmeras digitais, drones, conexão à internet, smartphone, tudo isso, para realizar o seu trabalho.

Então, um exemplo disso, logo nas primeiras cenas do filme, a Txai está tendo que ensaiar um discurso que ela fará em inglês para essa Assembleia das Nações Unidas, ali reunida para debater a emergência climática, em que o tradutor de idiomas também pronuncia para você – e você pode, de algum modo, ser autodidata no aprendizado do inglês, por exemplo, ao digitar um discurso em português você tem acesso não apenas à tradução escrita, mas o robô, a inteligência artificial, enfim, esses recursos desenvolvidos pelo Vale do Silício e agora propagados de maneira muito vasta, esses recursos te permitem também treinar o ouvido, treinar a pronúncia. Então, com o auxílio desses mecanismos, tipo o Google Tradutor, ela se prepara para falar a uma audiência global, ela se prepara para participar das marchas do clima em Nova York e também se dirigir aos manifestantes presentes ali nas praças.
E nesse contexto o filme vai trazer alguns depoimentos bastante audaciosos, eu achei. Do Almir Surui, quando por exemplo ele defende que devemos deixar o arco e flecha guardado e usar o iPhone. É uma cena em que ele inclusive mostra para o cineasta, ele faz esse gesto, essa performance diante da tela, dizendo que ancestralmente os povos indígenas se utilizaram do arco e flecha para sua defesa, para o seu ataque contra o ofensor, contra o predador, e que isso poderia ser deixado agora num armário, e que agora essa aqui seria a nossa arma. Então é um filme que tematiza o uso das mídias sociais de maneira constante, e inclusive mostra o impacto que a Txai Suruí conseguiu adquirir, sendo essa comunicadora popular indígena absolutamente talentosa que ela é.
Enfim, a Txai Suruí é um fenômeno comunicacional. Não vou nem comentar muito aqui, o que é bem impressionante, a magnitude, a extensão da rede de seguidores que ela conquistou. Aliás, acho que vale a pena mencionar esse número, porque nesse caso o quantitativo é significativo, ainda que eu queira falar aqui mais sobre qualidade de seu discurso e de sua produção para as redes sociais. Mas aqui está a Txai Suruí, somente no seu Instagram, tem 139 mil seguidores, o que para uma jovem comunicadora indígena brasileira é um número bastante significativo e a coloca aí numa posição de influenciadora que nós podemos equiparar a de figuras como Sônia Guajajara, hoje ministra de Estado e por aí vai. Então não estamos falando aqui de pessoas que realizam uma comunicação insignificante, sem impacto, mas sim de uma jovem ativista que consegue fazer com que sua mensagem ecoe, ressoe, inclusive no âmbito da aldeia global, recuperando aqui o conceito de McLuhan.

E nesse sentido também me tocou muito no filme um vídeo selfie que a Txai realizou e que o New York Times publicou no período que antecedia essa eleição crucial para o Brasil e para o mundo que opôs Lula e Bolsonaro em 2022. Então, a gente percebe uma valorização, um reconhecimento, por parte até de grandes entidades midiáticas globais, como é o jornal NYT, dessa produção da Tchai, nesse momento crucial, nesse outubro de 2022, onde ela expõe de maneira muito didática e muito direta o dilema com que os eleitores brasileiros se confrontavam, mas que o mundo inteiro também deveria atentar naquilo. O fato de que um dos candidatos queria continuar no poder para prosseguir a destruição impiedosa e brutal da Amazônia e o outro candidato, Lula, que pretendia voltar para o terceiro mandato, fazia um compromisso público de salvaguardar esse bioma e de frear o desmatamento e de acabar com o garimpo ilegal e a grilagem, a invasão de reservas indígenas, inclusive também colocar um ponto final no morticínio do povo Yanomami, que foi intencionalmente produzido pelo bolsonarismo durante o mandato catastrófico da República das Milícias chefiadas pelo Seu Jair.

Quero trazer aqui de volta para a reflexão o tema das redes sociais, dos celulares, das câmeras digitais, como essa que está aqui na minha frente, na luta política – e não somente institucional e eleitoral. E nesse sentido eu salto agora para alguns comentários sobre o filme O Território, que tem como uma das personagens principais a Neidinha, uma ativista socioambiental, que é a mãe da Tchai Suruí. E esse filme lida com o dilema, o drama, a tragédia e a crônica cotidiana do povo Uru-Eu-Wau-Wau, ali da Amazônia de Rondônia, e também constrói um clímax dramático e um momento de gerar muita indignação na plateia, relatando o assassinato de que foi vítima o Ari, uma dessas lideranças do povo Uru-Eu-Wau-Wau, que em 2020 foi assassinado no território de Jaru, em Rondônia.

Esse crime ressoa não só no documentário, mas ressoa nesse território – e inclusive nas artes urbanas, isso teve uma ressonância muito forte, por exemplo, quando o artista Mundano realizou na cidade de São Paulo um imenso mural em homenagem ao Ari Uru-Eu-Wau-Wau. Inclusive a Txai Suruí, ela é filmada no Minha Terra Estrangeira, com lágrimas nos olhos, muito comovida, ao lado do Mundano, conversando com ele sobre vários temas, no momento em que essa grande obra é inaugurada na maior megalópole da América do Sul, homenageando esse guerreiro, esse guardião da floresta, que tombou morto como tantos daqueles que no Brasil tentam defender floresta de pé e fascismo no chão e que acabam assassinados pelo fascismo, pelo agrofascismo.
Então, esses dois filmes têm muitas conexões que podem ser feitas entre eles. Então, o filme Território dá voz, ele oferece o rosto, o encorpamento para essa figura do Ari, que no outro filme, no Minha Terra Estrangeira aparece já morto, representado nos muros de uma grande cidade, tendo a sua luta, mediada por esse luto dos que perderam esse ente querido, servindo como emblema dessa luta dos povos pela floresta em pé.
E eu queria tematizar ainda, para terminar sobre a questão da tecnologia, algo que me incomodou um pouco nessa atitude, sobretudo do Almir Suruí, desse nosso candidato a deputado, que eu chamaria de uma espécie de ingenuidade em relação a essas ferramentas, como se elas fossem de fato apenas veículos para nossas mensagens e não tivessem uma mediação corporativa muito problemática. Enfim, os bilionários CEOs do Vale do Silício estão longe de ser aliados das lutas dos povos indígenas globo afora por ecossistemas vivos e por florestas de pé. Aliás muitos desses CEOs do Vale do Silício são os fascistas eles mesmos; há exemplo aí de figuras como o Elon Musk que se aliou ao Trump 2.0, como o Mark Zuckerberg que colocou a Meta em estado de plena cumplicidade com o genocídio na Palestina e praticou censura em massa de conteúdos solidários ao povo palestino.
Enfim, eu sinto que nesse filme ainda falta um certo letramento crítico para uma abordagem das Big Techs. De modo que me parece que sobretudo o Almir Surui (mas de algum modo também a Tchai, né?), eles parecem acreditar muito nesse poder dos celulares conectados ao web, né? Desse poder de fazer a nossa voz ressoar, né? Desse poder de comover o público, mandando uma crônica das lutas do nosso povo e tudo mais, né? E falta a essas figuras, e também ao próprio filme, problematizar a questão desses processos eleitorais cada vez mais marcados pela utilização fraudulenta e golpista das redes sociais.
Como nós vimos muito bem no Brasil, é inconcebível, aliás, a eleição de Jair Bolsonaro sem o que nós chamamos de Zapistão, sem essa infosfera que foi infestada de fake news e de discurso de ódio e de mobilização neofascista pelo meme. Então, acho que esse é um primeiro elemento que a gente teria que ponderar junto com eles, junto com a Tchai, com o Almir, com a Neidinha. Não se trata de acusá-los de maneira desdenhosa e tratá-los de ingênuos, tecnofílicos que não percebem a realidade, mas em diálogo com eles ajudá-los a perceber que a questão é muito mais problemática; que a figura do próprio Donald Trump, o fato dele ter se alçado ao poder, teve muito a ver com esses escândalos envolvendo a Cambridge Analytica e o Facebook.
Ou seja, nós queremos floresta de pé e fascismo no chão, nós queremos utilizar smartphones fabricados pela Nokia ou pela Samsung, queremos utilizar as plataformas chefiadas pelos senhores tecnofeudais do Vale do Silício, mas nós devemos nos confrontar com o fato de que o fascismo também se utiliza muito bem disto e que não haveria Trump na Casa Branca sem o Vale do Silício, não haveria Bolsonaro na presidência da República sem o escândalo todo lá do Caixa 2, denunciado inclusive em período eleitoral pela Patrícia Campos Mello na Folha de São Paulo. Então o Vale do Silício e os senhores tecnofeudais, eles também são capazes, através da gestão dos algoritmos e do investimento de recursos e das políticas deles, de aceitar ou rejeitar impulsionamentos e turbinamentos e tal, eles têm uma ampla capacidade de abusar do poder econômico.
E tanto isso é verdade que a campanha de Almir, ela fracassou. Claro que Rondônia é um estado amplamente dominado por um eleitorado bolsonarista. O Almir realmente fica com uma votação pouco expressiva e fica muito distante do patamar em que ele poderia ser eleito. Então eu diria que Minha Terra Estrangeira é um filme muito bom, mas ele também vai terminar numa chave um tanto melancólica, não apenas por causa da derrota do Almir Suruí, ou seja, o filme é a descrição de um processo eleitoral de um candidato que é derrotado, então o tom é diferente do Entreatos,porque naquele filme o João Moreira Salles acompanhou um triunfo, em Minha Terra Estrangeira ele acompanha um fracasso. Um outro fator para essa tonalidade melancólica é o fato de uma certa tristeza dominar ali, tanto o espectador e os personagens, no fim do filme, pelo fato de que apesar de Lula ter vencido, essa é uma vitória agridoce, essa é uma vitória que tem um certo açúcar mesclado com sabor amargo, a gente até conseguiu vibrar e a gente conseguiu comemorar e a gente conseguiu soltar aquele grito preso na garganta, mas ao mesmo tempo isso veio muito mesclado com uma angústia profunda pelo fato de que o Bolsonaro quase ganhou, pelo fato de que o Bolsonaro chegou ao segundo turno e pelo fato de que a distância de votos entre um e outro foi de menos de dois pontos percentuais.
Enfim, essa vitória de Lula para o mandato terceiro é uma vitória muito entre aspas, ela é uma vitória no âmbito do acesso ao cargo mais importante do Poder Executivo Federal, mas que ocorre simultaneamente a uma eleição catastrófica do ponto de vista do legislativo. Nós temos uma Câmara dos Deputados e um Senado totalmente infestados justamente por aquelas forças que produzem a devastação da floresta, que contribuem para a piora da ebulição climática. Então é uma pequena vitória que nós quase não pudemos comemorar, considerando o quadro geral, considerando que em quatro anos o que o bolsonarismo e seus asseclas conseguiu realizar, em termos de devastação socioambiental, foi algo que talvez não tenhamos visto em nenhum outro mandato presidencial na história, nem mesmo na ditadura.
Então eu queria recomendar esses filmes. Minha Terra Estrangeira é um filme importantíssimo que retrata esse momento crucial da eleição de 2022 em âmbito brasileiro, mas com foco na Amazônia com foco em Rondônia – eu considero a Txai Suruí, uma personagem cativante, uma jovem mulher sensível, inteligente, muito comunicativa. E realmente há cenas muito tocantes nesse filme. Inclusive poderíamos abordar do ponto de vista até da antropologia. Uma cena que eu achei genial, onde o João Moreira Salles, que é esse homem branco bilionário, herdeiro de um grande banco, que encabeça o Instituto Moreira Salles, a Revista Piauí, esse esse homem tão importante e com tantos recursos, irmão de Walter Salles (talvez o mais bem sucedido cineasta brasileiro vivo), e o João Moreira Salles, em uma cena com a Txai, ele tem essa dignidade de expor as suas dúvidas, conversar com a Txai convocando ela para fazer um filme-outro. Ele chega e diz para ela assim: nossa, Txai, o que você acha que aconteceria se esse filme não estivesse sendo feito por mim, né? Se eu, João Moreira Salles, esse homem branco, bilionário, não estivesse aqui e quem estivesse fazendo esse filme fosse, por exemplo, um cineasta indígena…? O que isso mudaria, né?
E eu acho esse um momento muito tocante. Primeiro, tem uma coisa no cinema que eu acho muito fascinante que são as pausas, quando o cineasta consegue criar um filme que tem uma área de respiro, e nesse momento a Txai ouve aquela questão, ela se sente compelida a parar para uma reflexão, e eu acho que foi uma atitude muito boa dos montadores do filme não cortar esse momento em que ela fica silenciosa, meio que olhando para um horizonte distante, mas num momento de introspecção. O espectador fica ali em silêncio, vendo essa jovem mulher em silêncio, refletindo sobre aquela questão, e aí ela desvela outros filmes possíveis, né? Filmes que seriam feitos por cineastas indígenas e que tratariam de outras questões, né? Tratariam, por exemplo, de como uma jovem mulher indígena em Rondônia, como Thais Suruí, concebe o amor, né? Como que ela se relaciona com a sua sexualidade, com o seu erotismo, né? Quais são os tabus e regras vigentes em seu povo em relação a isso, né?
Ela fala também assim – pô, você tá fazendo um filme e é como se você quisesse que eu estivesse sempre na luta, que eu fosse sempre uma ativista. E eu até lembrando desse momento agora, dessa cena do filme, meio que lágrimas me afloram aos olhos, mas é porque naquela ocasião eu derramei algumas lágrimas com essa cena. Isso não é tão comum assim, então eu acho que vale a pena esse relato. Quando a Txai diz assim: bom, eu sou uma ativista, a luta faz parte da minha vida, mas eu não sou só isso. A luta se integra em um todo maior. Então ela também dando uma lição ao cineasta assim, dizendo “você tá com um olhar enviesado, você poderia fazer um filme sobre por exemplo, a minha relação, a relação de Txai com a floresta, né? A minha relação sensorial, sensível e epistêmica e reflexiva com a biodiversidade da floresta, né? Com o fato de entrar num rio, né?” Enfim, há vários elementos que poderiam estar num filme sobre a Txai Suruí, se ele fosse narrado, filmado, roteirizado, por exemplo, por uma pessoa indígena. E dependendo da pessoa indígena, seriam também filmes diferentes. Enfim, se fosse o filme de uma anciã indígena Yanomami, fazendo algo sobre Txai Suruí seria algo diferente de um jovem comunicador Guarani Mbya que habita em São Paulo que fosse se deslocar até Rondônia para também fazer um filme sobre Txai Suruí. Então nesse momento ela também aponta toda essa multiplicidade de cinemas indígenas possíveis.
E já encaminhando para o final do meu comentário eu queria também problematizar alguma coisa sobre o o Almir Suruí, né? E inclusive nesse comentário eu tenho uma dívida de gratidão com o Samir Youssef, meu camarada Samir, estudante de cinema da UEG. Ao voltar do FICA, nós pegamos um busão juntos em direção a Goiânia e a gente veio debatendo questões que nos incomodaram na atitude do Almir Suruí nesse filme. E nós chegamos a um consenso que tem um momento ali muito paia, que nos levou até a pensar que a figura do Almir Suruí realmente tem muitas falhas nessa representação política que ele propôs, que ele é uma liderança indígena muito falha, e que isso se mostra numa reunião que ele tem com a indústria, a Federação dos Industriários de Rondônia, que seria um equivalente da Fiesp lá no território de Rondônia, e o filme retrata essa reunião ali do candidato ao Almir Suruí, com aqueles figurões representando os interesses industriais, né, enfim, aquela galera do agrobiz e tudo mais.
E ali fica fortemente a impressão de que o Almir está defendendo uma espécie de desenvolvimento sustentável, e ele concorda com várias falas desses patrões ali, que nos pareceu, a mim e a Samir, muito complacente, muito conivente, muito cúmplice com o discurso desses caras, dizendo que, afinal de contas, não há nenhuma grande desarmonia entre os interesses da indústria, os interesses dos povos indígenas, nós podemos nos conciliar e nós podemos fazer valer os interesses de todos e vamos trabalhar juntos e tal. E o Almir está dando joinha para todo mundo ali e tal, né?
Então, não sei, parece que a exploração devastadora dessas empresas mineradoras, desses madeireiros, desses garimpeiros e tal, nessa cena parece que Almir propõe que essa exploração seja pactuada, né? Que ela seja relativamente freada, mas que ela possa acontecer. Então parece que não houve uma atitude dele mais forte, mais aguerrida, no sentido de forçar um não, de afirmar que nós precisamos barrar o avanço devastador do garimpo, da mineração, das madeireiras, da boiada que quer derrubar a Amazônia para colocar o gado que vai virar burger. Enfim, parece que faltou de fato ao Almir nessa sua campanha ser menos cúmplice, menos conivente, menos complacente com essas figuras que são antagonistas de quem defende a floresta de pé e o fascismo no chão.
Em suma, já ficou um vídeo bastante extenso, de quase 40 minutos, mas é isso, eu acho que esses dois filmes poderíamos até falar muito mais sobre eles, sobre vários elementos formais, estéticos, de narrativa, de cronologia e tudo mais. Mas quem quiser se aprofundar, eu vou deixar na descrição desse vídeo um link para quem quiser assistir João Moreira Salles lá no FICA da Cidade de Goiás no momento do nosso Cine Debate em que ele fez uma apresentação de cerca de 10 minutos, comentando sobre várias questões do filme, o que o inspirou a fazer e tudo mais – e eu nem vou começar a abordar esse tema aqui, porque o vídeo já está muito extenso e seria uma espécie de digressão, mas eu já deixo aqui também sugerido, como tema para um futuro debate, a questão da pertença de classe de João Moreira Salles e de Walter Salles, que são dois dos principais cineastas do Brasil, são dois irmãos, são dois bilionários – inclusive li recentemente que o Walter Salles é o terceiro cineasta mais rico do planeta, só atrás de Steven Spielberg e George Lucas.
Então tem um tema também que me incomoda e que eu acho que mereceria ser debatido, que é essa figura do bilionário filantropo, o bilionário do bem, ou seja, essa figura que concentra capital em excesso, eles são literalmente detentores de bilhões de reais e ao mesmo tempo João Moreira e Walter Salles, eles são figuras que se colocam no debate público e através das suas obras, como esses liberais do bem, preocupados com os direitos humanos, preocupados com as questões ambientais, preocupados com a defesa dos povos indígenas, e se colocando em colaboração com o coletivo de comunicação dos povos indígenas, o Minha Terra Estrangeira, foi feito com a participação também de videomakers, de cineastas originários, mas eu acho que merece ser problematizada essa questão do bilionário do bem.
Será que para ser de fato uma pessoa benfazeja no mundo, será que o bilionário não precisaria cometer o que a Amílcar Cabral chamaria de um suicídio de classe e deixar de ser bilionário? Enfim, João Moreira, Walter Salles, vocês precisam realmente de todos esses recursos? Eu sei que vocês fazem belos investimentos em filmes muito relevantes e tal, mas ainda assim é um incômodo que me resta, e por fim vou acabar mesmo daqui a pouquinho…
Mas aqui em minhas mãos eu também tenho uma ferramenta do cineasta independente do documentarista, uma câmera Sony 4K, muito combalida, depois de muitas manifestações, depois de correr muito da polícia, depois de respirar muito gás lacrimogêneo, coitadinha né? E no filme Território, que a gente estava comentando, eu também me emocionei de ver esse tipo de equipamento na mão do povo Uru-eu-Wau-Wau. Fiquei emocionado com o uso que se faz do audiovisual, do documentário, como uma ferramenta de denúncia, de registro dos acontecimentos históricos. Então, para mim, como documentarista, é muito interessante ver os povos indígenas, os povos originários acessando essas ferramentas e acreditando no poder transformador do cinema, do real.
Também acho muito impressionante, muito impactante as cenas no filme Território, em que sobem os drones de dentro do território indígena, e quando esses drones começam a voar pela floresta afora e eles atingem as áreas desmatadas, você tem realmente um impacto imenso, aquilo é muito didático. De fato, ali as imagens falam mais que muitas teses. Então, dou parabéns àqueles ativistas e comunicadores indígenas que têm se utilizado de câmeras digitais e de drones, e da repercussão disso nas redes para mostrar o impacto devastador do desmatamento, o colapso da sóciobiodiversidade, o assassinato de lideranças indígenas como Ari.
Por fim, mas não menos importante, essa câmera aqui também tem um adesivo do Fritos da Terra, a capa da single “Sempre Caberá Mais Um”, com uma arte do Rustoff. E eu queria aqui anunciar que a banda Fritos da Terra, que ensaia, grava e é incentivada e catalisada aqui pelo Ponto de Cultura Casa de Vidro, tem músicas de protesto que abordam essas temáticas todas que eu procurei tratar aqui. Nós estamos vindo a público muito em breve com uma canção sobre a catástrofe climática que protesta contra as causas que produzem esse fenômeno, que é “O Clima É Nóix”.
Nós traremos a público também a música “Vertedouro”, que foi feita muito sob a inspiração do Ailton Krenak, que estava presente lá no FICA também, participou da Tenda Multiétnica, então parte um pouco da experiência do povo Krenak no Rio Doce, quando acontecem os crimes ambientais ali, da Samarco, no território ali onde o Rio Doce foi praticamente assassinado pela ruptura das barragens de mineração, e nós vamos realmente estar sempre atentos a essa pauta e tentando debater realmente esse fenômeno que muitos brasileiros ainda não perceberam, de que as áreas realmente preservadas no Brasil, onde os biomas não foram destruídos, onde a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica ainda estão de pé, geograficamente com as áreas onde os povos indígenas moram, sobretudo quando existe um aparato estatal, jurídico, capaz de defender essas populações e essas reservas de inestimável riqueza socioambiental.
Então é isso, Floresta de Pé, Fascismo no Chão possivelmente será o nome do álbum de estreia dos Fritos na Terra e é também uma frase emblemática, um slogan, se vocês quiserem chamar assim, uma palavra de ordem, uma bandeira, uma causa que a Casa de Vidro do Ponto de Cultura abraça, acolhe, busca disseminar. E uma das intenções desse Kino Kritik aqui foi não apenas explorar alguns elementos desses dois filmaços, Minha Terra Estrangeira e O Território, mas também buscar interessar aqueles que se importam sobre a extrema pertinência e urgência dessa nossa luta coletiva por floresta de pé e fascismo no chão.


SAIBA MAIS – SIGA VIAGEM:
CARLOS ALBERTO MATTOS – Olhares entrecruzados: https://carmattos.com/2025/04/07/e-tudo-verdade-minha-terra-estrangeira/
LUNETAS – Txai Suruí mostra às crianças que amar é revolucionar: https://lunetas.com.br/txai-surui-mostra-as-criancas-que-amar-e-revolucionar/
ELIANE BRUM ENTREVISTA TXAI: https://www.cccb.org/en/multimedia/videos/txai-surui/246569
NEXO ENTREVISTA TXAI: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2022/08/13/txai-surui-sem-a-amazonia-nao-existe-amanha
FOLHA DE SÃO PAULO: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/04/minha-terra-estrangeira-mostra-povo-indigena-como-expatriados-do-brasil.shtml
G1: https://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2024/04/07/caso-ari-uru-eu-wau-wau-acusado-de-matar-indigena-sera-julgado-quatro-anos-apos-o-crime-em-ro.ghtml
Publicado em: 30/06/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia