
A cena-chave de Força Maior (2014, 120 min) envolve uma avalanche que avança sobre um restaurante, num hotel de luxo, e desmonta toda a pretensa macheza de um pater familias. A família protagonista do filme do sueco Ruben Ostlund – vencedor de duas Palmas de Ouro em Cannes por The Square e Triângulo da Tristeza – está ali, almoçando entre seus passeios de ski, quando estranho estrondo é seguido por uma grande massa de neve movendo-se pela montanha. O pai Thomas garante para a esposa Ebba e pros dois filhotes que está tudo sob controle, mas logo mostra-se que um evento climático extremo está se desenrolando. A tela preenche-se de branco, inundada pela tempestade de neve, e este fade to white deixa-nos no escuro sobre o episódio-chave que será ele mesmo uma avalanche para este casal, esta família. Segundo o The Guardian, esta “tale of a couple’s disintegrating relationship in the wake of an avalanche is a triumph of calm detachment”.
A tela embranquecida por completo não nos permite ver as ações das pessoas, mas passado o evento a esposa/mãe relatará que o marido/pai ficou apavorado e, ao invés de ser solidário aos outros 3 seres humanos que estavam com ele nesta mesa, nesta viagem, nesta família, correu a pegar seu iphone e sair correndo feito um raio. Avalanche no casamento. O que veremos é um drama meio soturno, bastante provocativo, denso de significados não explicitados, e que ao menos para mim evocou a bela, pungente, dark canção de Leonard Cohen.

Marido e esposa até vão tentar fazer novos amigos, single serving friends, para usar e descartar após as férias. Mas um encontro que poderia ter sido amigável acaba sendo conduzido àquela cena de peso Ingmar Bergmaniano onde a mãe/esposa, diante dos estranhos que acabou de conhecer, entrega o conto daquilo que a angustia e a oprime: “Aqui estou, num hotel de luxo, e não estou feliz.” Podemos ver contos bem semelhantes na série The White Lotus (HBO, 3 temporadas).
Ela não está feliz também em virtude do negacionismo de seu marido – com um outro casal de potenciais novos-amigos-efêmeros, o macho da família havia se recusado terminantemente a admitir que havia sentido medo da avalanche e saído correndo. Ao ato covarde soma-se o agravante moral da mentira que o denega: “eu, com medo?!? Eu, que sou praticamente o Rambo?!? Eu, homem feito, admitir que amarelei diante desta força maior e esqueci de meus deveres de cônjuge e progenitor, e fugi com irracional egoísmo para salvar meu próprio cu?”…
Penso que o enredo do filme pode conduzir a um debate sobre masculinidade hegemônica e a falta de franqueza afetiva conectada a ela. A avalanche cinde este casal, revela suas fraturas, sua falta de visão compartilhada. A ponto do caçula, Harry, zangado, também ele infeliz com a viagem, apontar ao pai num rompante: “eu tenho medo que vocês se separem.”
O pai/esposo é aquele tipo de homem, tão comum e tão normal, que não consegue admitir: tive medo, fui covarde, abandonei vocês, que cagada, me perdoem. Isto está no âmbito do indizível, do que não se pode falar. Esta insinceridade talvez seja um implante cultural relacionado com o dogma de que um homem tem que ser uma fortaleza de coragem e que covardia já é uma mariquice, uma viadice, um traço gay.
Quando Renato Russo canta, em “Teatro dos Vampiros”, “eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir”, crava um verso que é notável justamente por ser anormal: não se espera tal confissão de um homem “normal”, isto é, hetero-branco-cis; tanto é assim que não faltam ouvintes que reconhecem, neste trecho da genial canção da Legião Urbana, um indício forte da sensibilidade gay do cancionista.

A obra de Ostlund é repleta destas provocações contra-hegemônicas, destas alfinetadas endiabradas, nas vidas de pessoas aburguesadas e normóticas, incapazes de felicidade genuína, mesmo que estejam gastando milhões ano a ano com turismo, miseráveis no campo afetivo pois sempre insinceras, incapazes de expressar seus afetos genuínos.
Um debate filosófico se instaura no cerne fraturado deste casal em crise – ela quer que eles tenham uma “visão compartilhada”, ou seja, que concordem que o evento aconteceu assim e assado, o que é um modo de demandar que ambos pactuem algo sobre o que ocorreu na realidade objetiva; já ele, recusando-se a isto, diz que a perspectiva dela é apenas isto, um viés, uma mirada, e que ele não se reconhece naquilo que ela descreve, e isto porque não quer ser este tipo de personagem – covarde, fujão, que abandona esposa e filhos na hora da adversidade.
Ela, após o evento, decide ir esquiar sozinha; ele concede, “ela precisa de um tempo só dela”; o casal monogâmico e reprodutor pactua as ausências consentidas; mas ela, sozinha na neve, não encontra nenhuma euforia, pelo contrário – ela mija escondida e depois chora sem testemunhas (a não ser nós, platéia – ninguém no interior do filme vê suas lágrimas…).
Parece-me que Ostlund tematiza dois modos de ser-casal, cuja sabedoria não é equivalente, o primeiro superando o segundo neste quesito: uma visão compartilhada que parte de um diálogo em que se pactua um “foi assim” que ambos concordam ter ocorrido na efetividade objetiva; em contraponto ao cada um tem sua perspectiva, que permite um certo regime de duas-mônadas semi-comunicantes. Ou estamos juntos na objetividade, ou caímos numa folie à deux.
O personagem barbudão introduz a noção de que, em situação de emergência, quando se entra em modo-sobrevivência, é muito comum fazer ações sem consciência e que não fazem jus a nossos valores. É uma defesa masculina, ali se estabelece um certa fraternidade dos machos, com a noção de que há aqueles momentos que a gente se perde ou se evade da ética que quase o tempo todo está norteando o caráter; mas não se julga alguém por inteiro por causa do que fez em segundos de pânico.
“Eles precisam de terapia”, é evidente, mas que terapia relacional pode acontecer sem franqueza afetiva? É na frieza da afasia do pai/esposa Thomas, na sua incapacidade de admitir seu temor, que Força Maior produz uma avalanche simbólica que abala os edifícios da masculinidade hegemônica. Mas há mais.
O barbudão, filosófico, intervem em defesa do outro homem, Tomas. Propõe a analogia com um avião que despressuriza – recomenda-se que os adultos ponham a máscara de O2 em seu rosto antes de ajudarem outros. O egoísmo prima. “Você planejou escapar para poder voltar depois e desenterrá-los, não foi?” Silêncio. Talvez Tomas tenha gostado desta perspectiva heróica, ainda que seja mentirosa. O outro homem lhe deu uma força no apuro conjugal. Mas nesta avalanche é o caráter do macho que derrete e revela-se que subjaz a ele uma masculinidade frágil. Mas o ato de revelá-la desperta uma comiseração, misturada em Ebba com uma certa vergonha alheia. Até que a família inteira suma como espectros naquela gélida brancura, até que a saída do hotel luxuoso se mostre uma angustiosa viagem de ônibus e a pé por cenário inóspito.
O turismo de luxo é um inferno que não se confessa como tal e a masculinidade hegemômica é frágil, tóxica e gélida. Diante das avalanches da vida, o pater familias do privilégio julga que é pouco viril admitir terror, temor ou vulnerabilidade, e assim se afinca numa doentia postura de fixidez e inautenticidade que resiste com teimosa insensatez mesmo à intervenção de uma força maior e de um ecotrauma.

Publicado em: 21/08/25
De autoria:
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia