
Escrevendo na segunda metade do século 19, contemporâneo de novidades emergentes como o telégrafo, as ferrovias e a mídia de massa, Nietzsche propõe uma filosofia nova: no porvir, nunca mais colocaremos o ideal em estado de supremacia sobre o real-concreto; nunca mais a fantasia do outro mundo será utilizada para renunciarmos a uma vida criativa e exuberante neste mundo.
Ao demandar que os espíritos livres que servem de precursores a esta filosofia do futuro permaneçam “fiéis à terra”, avessos a promessas de recompensas celestiais no além-túmulo, Nietzsche também sabe que vive num presente desprovido de estabilidade. A “morte de Deus” atesta que mesmo aquilo que se considerava mais estável agora é visto como passível de decadência, agonia, morte.
Eis um filósofo que se apropriará de imagens extraídas do âmbito da technê – objetos técnicos como o martelo e a dinamite – para falar sobre sua própria agência intelectual. O filósofo-poeta que poderia ser apelidado de Dinamietzsche não deve ser tido, todavia, como alguém que vem para destruir. Este discípulo de Dioniso, que prefere ser um sátiro a ser um santo, não é o oni-destruidor – pelo contrário, sempre defendeu que só enquanto criadores temos o direito de destruir, ou seja, de recriar.
Herdeiro de Heráclito, e tendo uma dívida de gratidão para com o sábio Spinoza, Nietzsche é um pensador para todos aqueles que se interessam pela dinâmica do real, pelo vir-a-ser daquilo que a metafísica pretende descrever com as categorias fixistas de sua ontologia da estase. Seria absurdo sustentar que Nietzsche descartou completamente a noção de verdade, chegando a uma posição epistemologicamente niilista – aquela que apregoaria que não há verdade, só interpretações. Na verdade… verdade há, mas ela não é absoluta. Verdade há, mas ela não é fixa. Verdade há, e ela é fluxo.
Pensador dos fluxos, das transformações, das metamorfoses, Nietzsche revalorizou a serpente que troca de pele como uma das melhores descrições para o espírito vivaz e libertado, inimigo das convicções e dos dogmas. E, no entanto, Nietzsche foi bizarramente transformado por alguns em “reacionário”, rotulado como um burguês conformista, defenestrado como abre-alas do nazismo. Muito por conta das perversões impostas à sua obra e legado por sua irmã Elizabeth Forster-Nietzsche, o autor de Além do Bem e do Mal é às vezes injustamente visto como alguém a ser encerrado no gueto do Mal e execrado como um dos maus – um terrível reacionário, aristocrata, proto-fascista etc.
Há muitos anos, como pesquisador de Nietzsche, noto que há muitos camaradas no campo da esquerda que tem quase que uma fobia do autor de Zaratustra e muitas vezes o tratam na base do “não li e não gostei”. Atitude que, lamento dizer, é sempre indigna de um crítico – deve-se criticar com conhecimento de causa, o que implica que a crítica é sempre pós-leitura, ou então é só um papaguear de preconceitos inoculados.
Pelo prisma de certas vertentes de esquerda, o nietzschianismo aparece como uma forma de irracionalismo burguês, que passa pano pro imperialismo e paga pau pra Bismarck; Nietzsche seria um acólito da ideologia dominante na Prússia da segunda metade do XIX, cúmplice da dominação das aves de rapina sobre as ovelhas gregárias – em suma, em certos meios Nietzsche é visto como uma espécie de braço ideológico do nazifascismo emergente. Será mesmo que Nietzsche pode ser jogado fora por inteiro pela gente de esquerda, como se não passasse de um lixo tóxico que com seu Ubermensch prepara o caminho para o Mein Kampft? Merece Nietzsche o mesmo desdém virulento que os antifas devotam ao fato de que Martin Heidegger aderiu ao Partido Nazi em 1933?
O que este povo não sabe, pois não pesquisou a fundo, é que muitos bolcheviques sentiam admiração por Nietzsche, o estudavam e debatiam a sério, e alguns dos melhores pensadores comunistas da história o honraram muito mais do que o rebaixaram, o reverenciaram muito mais do que o menosprezaram, caso de Trótski ou de Vigotski.
Quero questionar a pertinência e a justiça desta acusação de irracionalismo, tendo Nietzsche como alvo, e que teve inclusive figuras insignes do marxismo, como Lúkacs e Losurdo [1], tacando lenha nesta fogueira. O irracionalismo que se reprocha nele consistiria também numa certa recusa do todo-poderosismo da Ciência. De fato, Nietzsche, sem ser nenhum obscurista, e sendo alguém que reverencia vários aspectos da cultura iluminista (ele não dedica Humano, Demasiado Humano a Voltaire?), não engole a Ciência como via única para a verdade absoluta e imutável.
A gaia ciência que Nietzsche procura, inseparável do que chamaremos de sabedoria trágica, é algo que não se aprende fazendo-se discípula da ciência e somente da ciência – precisamos da arte. Sobretudo, precisamos do drama musical grego, do teatro clássico de Atenas, onde a arte, alçando-se a seu apogeu, conciliar as tensões entre Apolo e Dioniso, põe os dois deuses para colaborar, e dá assim ao mundo não apenas um jeito de fazer-arte, uma um emblema do como se pode viver. Nem ciência sem arte, nem arte sem ciência – a gaia ciência, aquela de que gozam os espíritos libertados, os dionisíacos e os zaratustrianos do porvir, é uma sabedoria trágica que devemos aprender com cientistas e dramaturgos, com biólogos e poetas, com físicos-químicos e músicos-dançarinos…
No panorama intelectual atual, os escritos de duas excelentes pensadoras me parecem cruciais para que possamos desenvolver opiniões mais sábias acerca do tema e possamos tanto fazer justiça à imensa grandeza intelectual e criativa de Nietzsche, quanto desfazer vários mal-entendidos que o fazem ser equivocamente descrito como um pensador fascista. – e inútil para quem quer que seja um ativista de esquerda. Os escritos cruciais que me servem de companhia enquanto teço estas reflexões são os da francesa Barbara Stiegler e da brasileira Maria Cristina Franco Ferraz [2].

Em Nietzsche e a Vida, Stiegler realiza um dos mais aprofundados estudos sobre a relação do autor dA Gaia Ciência com as ciências naturais de sua época, sobretudo a biologia. Em seu projeto de superar as limitações da metafísica de matriz platônico-cristã, Nietzsche mergulhou em estudos densos e prolongados sobre química, física, biologia, medicina, cosmologia, tendo forjado muitos de seus conceitos principais numa interlocução crítica com os cientistas.
É mérito inegável de Stiegler destacar que Nietzsche não se enclausou dentro da filosofia para fazer uma espécie de crítica interna ao cogito de Descartes, ao sujeito transcendental de Kant ou ao pessimismo de uma ética que prega a aniquilação da Vontade-de-Viver de Schopenhauer; é verdade que Nietzsche quer demonstrar os equívocos e deixar para trás os erros e impasses, os maus caminhos e as ilusões deletérias, que ele nota no cartesianismo, no kantismo e no schopenhaeurismo (para não falar de outros de seus alvos prediletos, o platonismo e sua versão para as massas – o cristianismo…). Nietzsche pensa superar seus predecessores com os aprendizados que fez com os cientistas.


Seus estudos de Friedrich Lange (1828 – 1875), Ernst Haeckel, Virchow, Claude Bernard, Roux, Francis Galton, dentre outros, conduziram-no a colocar o organismo vivo como verdadeiro ponto de partida da filosofia. Não o ego do Seu Cartésios, mas o corpo que vive e é animado por esta força, que transcende o humano e participa de toda a matéria viva, de todo o âmbito do orgânico organizado, a vontade de potência. Ou seja, Stiegler nos ensina que é ancorado na biologia e pensando na Vida em sua manifestação humana e extra-humana que Nietzsche propõe a Wille zur Macht. Antes de ser um conceito político, trata-se de um conceito biológico. É óbvio que se tornará também, depois, um conceito com ressonância sobre aquilo que o pensador chamará de “a grande política”, mas no princípio… era a biologia. A vontade de potência está no âmago de todos os seres vivos, não é privilégio exclusivo da espécie humana.
A muito célebre tensão entre Apolo e Dioniso é interpretada por Stiegler na seguinte chave: o fluxo absoluto do devir representaria o aspecto dionisíaco; já as formas que criamos para tentar dar estabilidade e permanência representam o aspecto apolíneo.
Outro elemento que nos impede de desprezar Nietzsche como irracionalista ou anti-ciência é o fato de que desde muito jovem ele se colocou no campo das ciências humanas enquanto um filólogo que sempre valorizou a probidade intelectual. Em Pforta, em Bâle, enquanto teve saúde para exercer o mêtier de pesquisador de textos clássicos greco-latinos e ensinar em instituições de ensino superior, Nietzsche sempre prezou pelo respeito aos textos e documentos históricos, e depois não cessou de colocar a probidade do filólogo como uma conduta ética elogiável em todos os campos de investigação das vastas ciências humanas. A Efetividade nunca cessou de existir – um conceito com suas semelhanças em relação à Objetividade do materialismo dialético, e que se refere àquilo que existe realmente, independente de consciências humanas se aperceberem ou não – ainda que ele recusasse qualquer conceito de Verdade absoluta, de Realidade fixa e estável.


NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] LOSURDO. Aristocrata Rebelde.
LÚKACS. A Destruição da Razão.
[2] STIEGLER. Nietzsche et la Vie.
FERRAZ, M.C.F. Bufão dos Deuses.
Publicado em: 21/08/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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