Nietzsche só acreditaria em um deus que soubesse dançar. E só acharia digna de ser vivida uma vida onde houvesse, como um de seus elementos tonificantes e embelezadores, a música (sem ela, a vida seria um erro).
O autor d’A Gaia Ciência só aprova uma filosofia-de-vida em que se expresse a leveza, o ritmo e a embriaguez das mênades e sátiros que acompanham o cortejo carnavalesco de Dionísio. Por aí já se vê que não estamos diante de um filósofo acadêmico, um erudito, um catedrático, mas sim uma espécie de livre-pensador que, em seu uso da palavra, é pura potência poética.
Mas a poiésis não diz respeito somente à linguagem, a poiésis é também uma força vital, uma realidade sócio-biológica: na teoria de Humberto Maturana e Francisco Varela, por exemplo, o conceito de autopoiésis pode ser conectado com a empreitada nietzschiana de uma estética da existência. Que nossas vidas sejam como poemas em carne-viva.
Talvez pela força desta aposta nietzschiana em uma ética que consista em dar forma à existência com base em uma justificação estética de nosso existir – o que significa buscar um sentido para a vida que seja imanente e não transcendente – a obra de Nietzsche é tão poética e contêm tanta crítica às tiranias da razão, ao “logocentrismo” que é a elefantíase da faculdade racional com a paralela atrofia das forças afetivas, perceptivas e volitivas.
Em seu trato com as linguagens humanas, Nietzsche se insurge contra a hegemonia dos conceitos na filosofia ocidental e faz apologia das metáforas – que ele mobiliza de modo abundante em seus escritos que bagunçam as fronteiras entre a filosofia e a poesia.
Longe de qualquer ambição de construir um sistema onde conceitos imutáveis, conectados em coerência inabalável, constroem uma catedral que se pretende incorruptível e imune ao devir do tempo, Nietzsche tece em seus textos uma teia metafórica intrincada em que os leitores são convidados a serem parte ativa na decifração e significação dos signos.
Por isso uma obra como Assim Falava Zaratustra merece ser lida não apenas como um marco na história do pensamento filosófico, mas uma obra-de-arte que tem um tecido linguístico labiríntico e desnorteador, avesso a qualquer captura dogmática.
Ao invés de conceitos petrificados e de sentido unívoco, Nietzsche quer proliferar as metáforas polissêmicas que abrem a possibilidade para múltiplas interpretações e perspectivas. Trata-se, pois, de permitir que uma obra aberta atravesse os tempos, sofrendo metamorfoses de camaleão, ao invés de pretender fechá-la em um sentido unívoco, transformável em dogma sagrado. Zaratustra é mais sátiro que santo. E suas palavras, são mais poemas que jorram de uma superabundância de força vital criativa do que pregações de um catecismo a ser seguido por uma manada de servis papagaios.
Em seu inovador estudo Nietzsche e a Metáfora, Sarah Kofman mergulhou a fundo em toda a panóplia expressiva mobilizada por este poeta-pensador de impressionante vitalidade que foi Friedrich Nietzsche. Sabemos o quanto ele amou a música, considerando-a a linguagem mais apta a expressar os fluxos dinâmicos que constituem o mundo e, dentro dele, as vontades humanas. A polêmica com Wagner não nos deve jamais fazer duvidar do amor nietzschiano pela música, em especial quando esta aparece como elemento quintessencial do drama trágico que “reconcilia disciplina e graça, diversidade e unidade, Apolo e Dioniso” (Kofman, p. 13).
Ao lermos Nietzsche, um pensador que nunca fugiu das polêmicas, percebemos sua desaprovação por todos aqueles que afirmam apenas o apolíneo, em detrimento do dionisíaco. O diagnóstico cultural nietzschiano acusa uma decadência sempre que Apolo deseja triunfar sobre o silenciamento e a repressão dos impulsos dionisíacos. Desde A Origem da Tragédia, sua primeira obra, Nietzsche dirá que Sócrates, o apolíneo, será um dos responsáveis pela decadência do drama trágico que havia atingido o cume nas obras de Ésquilo e Sófocles. Aderindo ao “socratismo estético”, Eurípides levará a tragédia a decair.
De modo análogo, Nietzsche manifesta suas preferências estéticas e filosóficas ao prefere Heráclito, o “obscuro”, que se expressava de modo poético e alusivo, a Aristóteles, o ultra-racionalista que queria enfiar o mundo nas caixinhas de seus conceitos. Heráclito, o dialético, falava de uma realidade em permanente devir (“tudo flui”), em que os contrários coexistem e o conflito é o pai de todas as coisas, o que foi razão para que Aristóteles o acusasse de “violar o princípio de não-contradição com sua enigmática formulação de que ‘tudo eternamente tem seu oposto junto de si’. (…) Para Aristóteles, a escrita metafórica é o signo de uma imaturidade, de um estado de incompletude. Como discípulo de Heráclito, Nietzsche dele empresta a metáfora do mundo como jogo”, escreve Kofman (p. 21).
No cosmo-jogo de Heráclito e de Nietzsche, não há separação possível entre construção e destruição, processos dialéticos e complementares. Aristóteles é que delira, tentando separar em seu pensamento conceitual os elementos que estão, no real, inextricavelmente conectados. Quando Zaratustra, no discurso Das 3 Metamorfoses do Espírito, fala da transmutação do espírito de camelo em leão, de leão em criança, está sendo heraclitiano, pois a criança é símbolo do artista, livre dos fardos que os ascetas carregam no lombo, livre da árdua luta contra os dragões do “tu deve”, aquele que ousa dizer “eu quero” e cuja ação envolve uma destruição e uma criação que fluem de sua superabundância de força vital, não constrangida por moralismos e por tábuas de valores esclerosadas que pretendem fixar de uma vez para sempre o bem e o mal.
“Time is not an irreversible progress beginning with an origin and orientated towards a specific goal: it is a rhythmic play which implies repression and a return of the repressed forces. (…) Man has already forgotten that he is an ‘artist from the beginning’, and that he remains one in all his activities.” – SARAH KOFMAN (p. 24-25)
Já existe uma ampla gama de obras que tratam das relações de Nietzsche com a literatura – como a de Nehamas, de Maria Cristina Ferraz, de Rosana Suarez. É neste grupo de comentadores que merece ser elencada Sarah Kofman, que soube analisar a fundo uma tese ousada e pouco compreendida de Nietzsche, veiculada em seu artigo Sobre Verdade e Mentira Em Sentido Extra-Moral, em que o filósofo sustenta que o conceito, na verdade, originou-se da metáfora. Na gênese de todo conceito, caso sigamos o fio de Ariadne, encontraremos na origem um processo metafórico.
O que significa dizer que o ser humano é mais artista do que ele gosta de supor, e que Aristóteles talvez estivesse enganado ao definir-nos como “animal racional”. Podemos explicar melhor isso recorrendo a uma famosa metáfora: a consciência e a razão são apenas a ponta do iceberg, e toda a parte submersa deste iceberg representa o imenso domínio da afetividade, da vontade, do subconsciente, do inconsciente etc. Precursor da Psicanálise Freudiana, Nietzsche afirmará que a consciência “racional” é apenas um órgão do corpo, similar ao estômago ou ao coração. O corpo é de fato o lócus onde aquilo que chamamos de espírito necessariamente reside, com sua polifônica proliferação de anseios, vontades, afetos, pensamentos.
A arte, como atividade humana que não pode e não deve ser subestimada, inferiorizada numa hierarquia que a relega a posição secundária diante da ciência, é essencial para que nossas vidas possam florescer e manifestar suas energias transbordantes. Através da arte, supera-se a doença cultural conexa à hegemonia do ideal ascético: cessamos de considerar a Aparência, o Empírico, o mundo que acessamos através de nossa percepção sensorial, como falso e corrupto, como os pregadores de ascetismo querem nos convencer.
Para Nietzsche, a noção socrático-platônica de que o poeta deveria ser expulso da cidade ideal é uma tirania injustificável. A vida precisa de arte, e Nietzsche celebra aqueles gregos que, ainda não infectados pelo ascetismo, eram “superficiais por profundidade” e amavam mais o empírico do que o empíreo, mais o real sensorial do que a ficção transcendental.
Todo o projeto de Genealogia da Moral de Nietzsche tem como objetivo revelar que nossos conceitos de bem e mal possuem uma origem histórica, um devir cultural, uma metamorfose temporal, estando muito distantes de qualquer a-temporalidade. Não recebemos como um maná dos céus, já prontos e imutáveis, as nossas tábuas de valores. Nossos conceitos éticos e jurídicos foram forjados na práxis histórica dos homens, mas sua origem encontra-se hoje apagada, recalcada, ou mesmo escondida por detrás de falsificações retroativas.
A gênese da moralidade é uma história cheia de sangue e fúria, como Nietzsche mostra ao falar de toda a crueldade mnemotécnica utilizada para criar um animal capaz de respeitar uma moral, ainda que seja por temer um castigo, e agir de acordo com regras comunitárias, ainda que seja por esperança de uma recompensa póstuma. Ao analisar como se forjou a moral judaico-cristã – “a revolta dos escravos” no domínio da moralidade -, Nietzsche enfatizará os vínculos deste tipo de tábua de valores com uma psicologia baseada no ressentimento, na má consciência e no desejo de vingança que, não podendo se expressar em ação, transforma-se em uma projeção imaginária de vendeta póstuma.
Publicado em: 27/02/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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