FESTIVAL BANANADA 2019 EM VÍDEOS: Criolo, Bixiga 70, Luiza Lian, Drik Barbosa || A Casa de Vidro.com

CRIOLO

“Atitudes de amor devemos samplear”, ensina o poeta-griô em “Mariô”. Relembrando as lições sábias de outro poeta cantador, lança ainda esta fita: “Chico avisara: a roda não vai parar / E quem se julga a nata, cuidado prá não quaiar.” Esta subversão que se expressa através da densa teia de metáforas e gírias é um dos elementos que faz Criolo ser uma figura de poderio similar a um xamã a quem deram um microfone e decibéis em profusão pra disseminar suas visões e propagar suas palavras-remédio.

Ele também recomenda misturas ousadas entre o rap e o afrobeat: “Fela Kuti e Mulatu Astake devemos escutar!” Não teme temperar seu som com soul, com samba, com rock, puxando os X quando lhe convêm evocar o já lendário cenário urbano da crônica supimpa “Grajauex”. Era 17 de Agosto de 2019, o Bananada de Sábado efervescia e Criolo estava com a corda toda provando a qualquer cético no futuro da cultura brasileira que não, a gente não se cala. A gente não engole fascista nem queimada. A gente não engole esses facínoras e estes idiotas querendo dar replay nas atrocidades da censura ditatorial.

Enquanto na arena esportiva, sobre 4 rodas velozes, os skatistas saltavam sobre obstáculos, um deles onde se lia “fascistas não passarão”, uma lenda viva da música latinoamericana contemporânea reavivava a potência cívica do maior movimento de massas de 2018, o #EleNão, e convocava as massas, um pouco messiânico, um pouco Guevarinha, a entrar no coro da resistência. Pois o mínimo que precisamos, agora, é a unidade na diversidade que diz nosso repúdio coletivo à catástrofe grotesca do Bolsonarismo insano.

Criolo fez de seu show no Festival Bananada 2019 não apenas uma empolgante festa que pôs no agito os milhares de presentes, mas usou o palco como plataforma para episódios de política xamânica e experimentos estéticos em epifania coletiva.

Quem acha que o movimento Hip Hop não pode alçar-se a tais alturas, sugerimos: repense. Ou melhor: RAPense! Comendo também muita RAPadura xique-xicosa. Pois a vitalidade da criatividade hiphopper brasileira, através de figuras como Criolo, Emicida, Drik Barbosa, Rincon Sapiência, Tássia Reis, Rimas e Melodias, B Negão, Black Alien, Z’Áfrika Brasil, Rashid, dentre tantos outros, é sinal inequívoco lançado na cara da tirania: “A Cultura Não Se Cala!” – nome do futuro documentário de A Casa de Vidro, ora em gestação, e que conterá algumas das cenas compartilhadas neste clipe que encapsula alguns dos melhores momentos do espetáculo doidíssimo do ex-Criolo Doido, hoje só Criolo.

Esse cara é um rapper xamã, um visionário da música-mundo, uma figura que marcou sua trajetória pela ousadia dos hibridismos entre formas estéticas que pratica, traçando pontes invisíveis entre a América Latina e a África, entre o samba e o afrobeat, entre os rappers e os griôs – e sempre com uma poesia afiadíssima.

É de verbos afiados assim que precisamos ainda com urgência nesta época de trevas, de retrocessos civilizacionais brutais, de colapso de nossos direitos duramente conquistados, de florestas incineradas e de nuvens de árvores mortas despencando noites imprevistas sobre metrópoles apodrecidas de hýbris. Aliás, é da maior metrópole latino-americana, mais precisamente de seus muitos guetos e perifas e quebradas e favelas, hoje obscurecida às 3h da tarde devido à hecatombe amazônica, de onde emergiu este grande artista que, entre seus fundos pontos de interrogação, nos concede a angústia infinita e salutar deste questionamento:

“Pátria amada, o que ofereces
A teus filhos sofridos:
Dignidade ou jazigos?”
(Lion Man)

ESTE VÍDEO É UMA EXCLUSIVIDADE… A CASA DE VIDRO – Ponto de Cultura.
Filmagem, montagem e texto: Eduardo Carli de Moraes. 17 de Agosto de 2019.
Também disponível no Youtube:


BIXIGA 70

A CULTURA NÃO SE CALA – A big band brasileira Bixiga 70, em ação no Festival Bananada 2019, demonstrou toda a potência subversiva de seu show incandescente. A música pode até ser instrumental, mas a falta de letras não impediu que o show integrasse um vasto leque de manifestações e protestos políticos em que não faltaram “Ele Não, Ele Nunca nessa porra!”, “Ninguém solta a mão de ninguém!”, “Lula Livre” e “Marielle Presente”.

Inspirados pelo que há de melhor nos grooves da world music, mesclando afrobeat com latinidades, jazz com ska, funk com pós-rock, os caras do Bixiga puseram fogo na arena logo depois de Criolo também incendiar a galera. O Bixiga, aliás, põe em prática o conselho criolino: “Fela Kuti e Mulatu Astatke devemos escutar” e “atitudes de amor devemos samplear”…

No vídeo-síntese aqui compartilhado, exclusividade d’A Casa de Vidro, confiram a poderosa montagem audiovisual projetada no palco e a espetacular sonzeira do grupo paulista. Nos limites de 4 minutos de vídeo, temos aí uma amostra de que a cultura não se cala nesta era de censura e obscurantismo, e que a Resistência está aí sendo propulsionada por um coletivo que não fica em cima do muro, no conforto cúmplice e conovente dos “isentões”.

Filmado no Passeio das Águas Shopping, em Goiânia, na noite de 17 de Agosto de 2019, por Eduardo Carli de Moraes.


LUIZA LIAN

Nascida em 18 de junho de 1991, a artista paulistana Luiza Lian tem duas obras lançadas: “Azul Moderno” (2018) e o álbum visual “Oyá Tempo” (2017). Ambos discos impactaram, com sua novidade e frescor, no cenário da música alternativa brasileira recente. Sua mescla de MPB, psicodelia e eletrônica é lançada a outro nível de apuro estético e instigação sensorial nas performances ao vivo de Lian, repletas de projeções alucinógenos e jogos de iluminação com lasers e outras pirotecnias.

No Bananada 2019, acompanhada por Charles Tixier no comando rítmico e na ambientação sônica, ela apresentou-se no Palco Natura para uma grande público. A multidão ali presente mostrou grande envolvimento com a experiência sensorial única oferecida pelo espetáculo e pôde se deliciar com canções como “Tucum” (que abre este clipe):

“Conte quantas pedras
Que tu joga no Astral
Eu vim, eu vim
Te mostrar seu próprio mal
No momento adequado
Que o destino escolher
Eu vou mostrar
O que tu planta vai colher
Atenção no pensamento
Muito antes de falar
Você vai ver
Vai colher o que plantar
A Justiça é um Deus
Que o Tempo vem mostrar
O nome dela
Não se usa pra vingar…”

Conheça mais sobre a artista: https://luizalian.com.br/


DRIK BARBOSA

Sobre www.acasadevidro.com

Ponto de cultura em Goiânia. Plugando consciências no amplificador. Encabeçado por Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia no (IFG). Jornalista e Documentarista independente.

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