“Ele se chama Sonho Americano pois é preciso estar dormindo para crer nele.” – George Carlin

Não é só uma fantasia distópica prometida a um futuro possível, mas implausível. É com este monstrengo que já convivemos aqui e agora: a criatura híbrida medonha que nasce da fusão entre neoliberalismo e fascismo.

Em meio à pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, uma parcela da Humanidade (tristemente numerosa) não parece capaz de se libertar de suas xenofobias e seus racismos.

apartheid ressurge e torna-se óbvio que Guantánamo e Abu Ghraib não são somente locais no espaço, apontáveis em um mapa, onde algumas poucas maçãs podres sujaram o cesto do American Dream, são mais que isso: são expressões de uma ideologia tóxica, só alguns dos muitos frutos podres de um sistema demente.

A própria árvore do Sonho Americano – a democracia liberal-burguesa que vende, através do marketing de estilos-de-vida de ultra-consumo, a quimera de uma Felicidade Comprável – estava podre.

Os furacões – como o Katrina ou o Sandy – só fizeram cair os frutos podres no chão, pra todo mundo ver sua putrefação. Ao vivo até na Fox News: todos pudemos ver a maneira como os desvalidos de New Orleans penaram. Em especial os pobres, naquela terra onde nada é de graça, ou seja, os direitos humanos são uma área VIP, só pra quem puder pagar.

Guantánamo e Abu Ghraib são algumas das mais visíveis chagas de uma civilização em declínio, de um império em colapso pois suas práticas e ideologias cada vez mais são sentidas e resistidas por serem moralmente inaceitáveis, socialmente insuportáveis, ecologicamente catastróficas. Estamos nos cansando de tanta desumanidade.

Com as crianças separadas a fórceps de seus parentes que atravessaram clandestinamente a temida La Migra – a fronteira entre EUA e México – tornou-se mais explícito que nunca: a noção de que os U.S.A. possam ser os “professores de democracia” do globo terrestre é uma piada de mal gosto. Pois eles estão levando a democracia para a cova há tempos.

As elites hegemônicas nos EUA não cessam de assassiná-la, essa combalida democracia que apenas alguns dos humanos de fato enxergam como valor e nutrem com todo o ardor.

Nós latino-americanos não deveríamos jamais ter a memória curta e esquecer quem foi que apoiou, do exterior, as sangrentas ditaduras militares que por aqui foram instaladas em dúzias de coups d’État… O Pinochet em aliança com Milton Friedmann: esta dupla é a síntese de tudo que está errado no modelo Yankee de democracia capitalista.

A Doutrina do Choque, conceituada por Naomi Klein, é justamente esta mescla medonha de capitalismo neoliberal com Estado policial-penal tipicamente fascista. Análoga à fusão entre Bayer e Monsanto, agora a união de Trump com a Doutrina dos Chicago Boys vai produzindo, mundo afora, símiles sinistros, novos Pinochets, tipo os Bolsonaros… Uma das melhores intérpretes do Pesadelo Trump, Klein escreveu em “Não Basta Dizer Não”:

“Trump não é de maneira nenhuma uma ruptura, mas sim a culminação – o fim lógico – de muitas histórias perigosas que nossa cultura vem contando há muito tempo. Que a ganância é uma coisa boa. Que o mercado comanda tudo. Que dinheiro é o que importa na vida. Que os homens brancos são melhores do que o resto das pessoas. Que o mundo natural existe para ser saqueado por nós. Que os vulneráveismerecem seu destino e que o 1% merece suas torres douradas. Que qualquer coisa pública ou comunitária é sinistra e não merece ser protegida. Que estamos cercados de perigos e deveríamos cuidar apenas de nós mesmos. Que não há alternativa para nada disso.

Ao se considerar que essas histórias são, para muitos de nós, parte do ar que respiramos, Trump realmente não deveria ser encarado como um choque. Um presidente bilionário que se gaba de poder pegar mulheres por suas genitálias ao mesmo tempo que chama os mexicanos de estupradores e zomba das pessoas com deficiência é a expressão lógica de uma cultura que garante níveis indecentes de impunidade aos ultrarricos, que é obcecada por competições no estilo ‘o vencedor fica com tudo’ e que está fundamentada em uma lógica da dominação em todos os níveis… Passei a acreditar que deveríamos encarar o primeiro presidente norte-americano saído de um reality show e no comando de armamentos nucleares de maneira similar, como uma ficção distópica real.” (p. 276)

https://www.facebook.com/RobJacobsArtist/posts/1798560136874452

LEIA MAIS EM A Casa de Vidro: https://acasadevidro.com/…/nao-basta-dizer-nao-a-utopia-de…/

O distopia é pra já.  O futuro catastrófico chegou, e a Humanidade é o meteoro. Não é à toa que a arte distópica esteja em uma maré tão alta, do revival do 1984 de George Orwell, que voltou a se tornar um best-seller, ao remake de Farenheit 451 de Ray Bradbury em um novo filme da HBO. Nas séries, Black Mirror, Westworld The Handmaid’s Tale são as obras mais significativas da atualidade, todas elas envolvidas na sondagem de futuros possíveis para a humanidade, em especial os mais sinistros.

Neste contexto, considero que uma das obras-primas da produção artística recente é um video-clipe que consegue a proeza de ser um magnum opus na história da criatividade distópica em menos de 4 minutos de duração: falo de “Things It Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution”, de Father John Misty (nome artístico do artista folk Josh Tillmann).

Em cenário pós-apocalíptico, que evoca o clima de Wall-E ou The Road (Cormac McCarthy), a protagonista do clipe atravessa um planeta devastado, a Wasteland do capital globalizado. Tudo um campo de ruínas, onde as bandeiras dos movimentos sociais libertários, eco-hippies, de conscientização ambiental-holística, deixaram fincadas no solo todas as mensagens que não foram ouvidas. Ninguém na Bolsa de Valores, muito menos na Casa Branca, ligou para o que centenas de milhares de vozes gritavam: não há Planeta B.

No final do video-clipe, a sociedade de consumo recebe o emblema que ela merece: uma vendedora de celulares baratos, em um planeta entregue às baratas e aos ratos, não tem mais um ser humano vivo que lhe compre as mercadorias. E se você acha que a saúde e a vitalidade de Pachamama valem menos que o progresso da economia capitalista, tente contar dinheiro enquanto segura a respiração… Como disse Hubert Reeves, “estamos em guerra com a natureza; se vencermos, estamos perdidos.” Poucas canções de nossa época expressaram isso tão bem, e poucos videoclipes souberam somar tão magistralmente à mensagem da letra quanto este, pérola lançado aos porcos por Misty neste álbum crucial e espantoso que é Pure Comedy:

It got too hot and so we overthrew the system
‘Cause there’s no place for human existence like right here
On this bright blue marble orbited by trash
Man, there’s no beating that
It was no big thing to give up the way of life we had
Oh ho oh
My social life is now quite a bit less hectic
The nightlife and the protests are pretty scarce
Now I mostly spend the long days walking through the city
Empty as a tomb
Sometimes I miss the top of the food chain
But what a perfect afternoon
Industry and commerce toppled to their knees
The gears of progress halted
The underclass set free
The super-ego shatters with our ideologies
The obscene injunction to enjoy life
Disappears as in a dream
And as we return to our native state
To our primal scene
The temperature, it started dropping
The ice floes began to freeze
From time to time we all get a bit restless
With no one advertising to us constantly
But the tribe at the former airport
Some nights has meat and dancing
If you don’t mind gathering and hunting
We’re all still pretty good at eating on the run
Things it would have been helpful to know before the revolution
Though I’ll admit some degree of resentment
For the sudden lack of convenience around here
But there are some visionaries among us developing some products
To aid us in our struggle to survive
On this godless rock that refuses to die

E.C.M. – 20 de Junho de 2018 

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Outras Palavras – “Minha preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”. A famosa afirmação de Friedrich Hayek, considerado o pai do neoliberalismo, é a chave para que ninguém minimamente informado seja pego de surpresa com a recente e declarada preferência do mercado pelo pré-candidato Jair Bolsonaro.

Já há algum tempo vem ficando cada vez mais evidente a incompatibilidade entre mercado e democracia — mesmo aquela democracia liberal junto com suas infantilidades republicanas. Embora a retórica de seus apologistas seja repleta de frases de bolso em torno da pretensa defesa das liberdades democráticas, os deslizes sincericidas é que são o verdadeiro parâmetro para que possamos avaliar a verdadeira face encoberta por mantras que, de tão ginasiais, chega a assustar que tanta gente ainda caia em seus sofismas.

“Eu vou dizer uma coisa que é maluca, mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa”, afirmou Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA em 2014. Enfezado com as noções – noções liberais, por favor – de Estado-nação e de soberania nacional, expressas tanto em leis como nas instâncias e mecanismos democráticos de controle e fiscalização – conselhos de direito, parlamentos, etc., Valcke deu a real: esse negócio de democracia não se alinha com os verdadeiros propósitos do mundial, quais sejam, os de encher as burras das corporações que financiam o evento.

Intermediadas pela FIFA, tais corporações não sentiram um fiapo de constrangimento ao solicitar que, durante a realização da copa no Brasil, fossem suspensos o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto do Idoso e o Estatuto do Torcedor – sem falar nas desapropriações arbitrárias e no completo desrespeito à política urbana estabelecida pelo Estatuto das Cidades, conforme demonstrado no excelente documentário Areia Movediça: a Copa sob as dunas, da ESPN Brasil. Depois do evento, tais leis poderiam voltar normalmente a surtir efeitos, como se nada houvesse acontecido. Onde estavam os liberais para sair em defesa das ditas liberdades democráticas, da soberania e da autodeterminação do País contra o rolo compressor do mercado?

“Plutonomia” foi o termo utilizado em três memorandos enviados pela Citigroup, maior empresa do ramo de serviços financeiros do mundo, de acordo com a revista Forbes, para definir a – falta de – democracia nos Estados Unidos. Na ocasião, a agência informou aos seus mais ricos investidores que os EUA há tempos deixaram de ser uma democracia, tornando-se uma sociedade controlada exclusivamente em prol do benefício do 1% da população que concentra a maior parte da riqueza coletivamente produzida – os plutocratas aos quais faz referência em suas missivas. Em uma cena de Watchmen, após reprimir violentamente uma manifestação pública, o Coruja pergunta ao Comediante o que aconteceu com o sonho americano. “Virou realidade”, responde. “Você está olhando para ele”.

Voltando a Hayek, foi com inspiração em suas ideias e, mais especificamente, nas de seu colega Milton Friedman que os chamados Chicago Boys tiraram do papel sua doutrina de choque e aproveitaram o golpe que findou com o governo de Salvador Allende, eleito presidente do Chile em 1970, para implementar o projeto ultraliberal que anos antes fora derrotado nas urnas.

Como uma das maiores senilidades liberais é a de que economia e política não se misturam, as crianças de Friedman não viam nenhuma incoerência em levantar a bandeira da liberdade ao mesmo tempo em que eram o cérebro por trás das medidas liberalizantes aplicadas graças a uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina. Este constrangedor e esfarrapado duplipensar foi expresso por seu próprio guru, cujos delírios autoritários devem certamente servir de inspiração aos cães da guardas do mercado financeiro aqui no Brasil, para quem as eleições são declaradamente uma ameaça aos propósitos do 1% de que trataram os referidos memorandos da Citigroup.

Nesse ponto já é possível concluir que o reino da liberdade do mercado está longe de torcer o nariz para o fascismo – e não apenas em seu sentido metafórico. No documentário Fascism Inc, Aris Chatzistefanou demonstra como a ascensão do nazi-fascismo jamais seria possível sem o suporte das grandes corporações, já denunciadas em sua natureza destrutiva e antidemocrática em The Corporation, outro documentário clássico e fundamental.

As experiências golpistas envolvendo a multinacional United Fruit na América Central apontam para um grau permanente de insolubilidade entre capitalismo e democracia, com algumas intermitências e recuos históricos em seu centro no século XX — uma realidade, contudo, diferente da dos países os quais se convencionou chamar de periféricos. “Somoza pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho puta”, teria afirmado Franklin Delano Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza, em perfeita síntese da dinâmica das relações imperialistas dos EUA com a América Latina.

“Nada mais parecido com um fascista que um burguês assustado”, disse Brecht. Não precisa de susto para que o mercado passe a adotar práticas fascistas e a apoiar ditaduras que o tornem livre de qualquer concorrência e, sobretudo, de qualquer controle popular e democrático. O fato do mercado flertar com Bolsonaro não é novidade, portanto. É apenas a história se repetindo como farsa.

Por Mauri Cruz

 

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GEORGE CARLIN

Sobre www.acasadevidro.com

Plugando consciências no amplificador. Professor de Filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Documentarista independente.

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