O Thriller Que Nossos Tempos Distópicos Merecem – Sobre “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, um filme de Martin McDonagh

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Um Filme de Martin McDonagh, uma produção Fox Searchlight Pictures. Estrelado por Frances MacDormandWoody HarrelsonSam Rockwell, entre outros. 2017, 115 min.

Três outdoors são colocados à beira de uma estrada por onde quase ninguém passa. Todavia serão capazes de causar altos estragos.

A autora da utilização heterodoxa dos outdoors é uma mãe enfurecida com a impunidade do estuprador e assassino de sua filha. Encarnada por uma Frances McDormand em uma de suas atuações mais magistrais desde “Fargo” (The Coen Brothers), este belo thriller indicado a 7 Oscars é também um campo minado repleto de dilemas éticos e ações repletas de ambiguidade.

Pode parecer à primeira vista mais um hollywoodiano da Fox sobre sexo e violência, pondo em cena o clichêzento duelo entre policiais e bandidos, mas no fundo é uma obra-de-arte que aborda a condição humana em seus aspectos mais dark, no que se aproxima de “Os Três Enterros de Melquiades Estrada”, de Tommy Lee Jones ou de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” dos irmãos Coen.

Cansada de esperar sentada, a mãe arregaça as mangas para demandar da polícia a solução do caso de sua filha, vítima de horrendo estupro-com-homicídio ainda sem solução após 7 meses. Com vermelho-sangue como cor de fundo, faz com que as mega-placas, usualmente postas a serviço de fisgar consumidores de mercadorias, agora anuncie em 3 doses: “Raped While Dying. Still no Arrests? How Come, Chief Whilloughy?”

A mensagem é direcionada ao chefe de Polícia, encarnado por Woody Harrelson, personagem que está em seus últimos alentos devido a um câncer pancreático que às vezes o faz tossir sangue na cara de seus convivas. O tira até tenta solucionar o caso e morrer como herói, mas só consegue tornar-se um suicida que lega aos sobreviventes a continuação do mesmo mistério e da mesma impunidade.

A certos momentos, o roteiro parece decair para um esquema um pouco simplório: good cop, bad cop. Se Woody Harrelson assume a primeira função, como detetive comprometido com a descoberta da verdade, mas tendo por obstáculos intransponíveis a falta de evidências palpáveis, para além da brevidade de sua própria vida carcomida pela doença, o estereótipo do “bad cop” é a princípio assumido pelo policial Dixon, interpretado por Sam Rockwell.

Dixon, acusado de torturas e racismo, por boa parte do filme é o porco fardado puro sangue, aquele que resolve tudo na porrada, pratica abusos de autoridade e tem toda a soberba que costuma acompanhar os medíocres. Suas atitudes tresloucadas lhe fazem perdem o emprego: após o suicídio de seu chefe, ele decide descontar sua raiva sobre o dono da agência de publicidade que aluga os outdoors, Red. Quando Dixon lança Red pela janela do segundo andar e quebra-lhe os ossos de tanta porrada estamos diante do paroxismo da caricatura “bad cop”.

O filme de Martin McDonagh prepara, porém, uma redenção para seu tira mau, uma estranha aliança que se forja entre ele e a mãe em sua cruzada. Interessado em questionar quais as forças sociais que fazem com que “fúria gere mais fúria” (“anger begets more anger”), a obra faz as violências proliferarem como epidemias, ou melhor, como incêndios: os outdoors em chamas irão gerar os coquetéis molotovs que reduzem a cinzas a delegacia de Polícia – com Dixon dentro…

Não faltam sintomas de uma sociedade adoecida pelo machismo, pelo patriarcado, pelo militarismo, onde a força bruta é com frequência utilizada no lugar da inteligência. Mesmo esta mãe está bem longe de ser a pureza moral sem nódoas que se esperaria de uma obra mais maniqueísta, pelo contrário: ela está atormentada pelas memórias de um matrimônio cruel, rompido mas resiliente, com o espancador-de-mulheres e semi-pedófilo interpretado por John Hawkes. Além disso, a lembrança-fantasma do dia em que não emprestou a caranga pra filha e esta saiu de casa enfurecida, berrando ironias: “Espero que eu seja estuprada no caminho!”, e a mãe contaminada de fúria respondeu que também gostaria. O filme deixa em aberto a questão: a discussão ocorreu no próprio dia do crime? Pouco importa. E sim que esta mãe não age como paradigma da ética e dos bons costumes, mas como um coração fervendo no coração da fúria e carregando insuportáveis cargas de culpa.

Ela beira nisso o Tarantinesco, e há na construção de personagem feito por Frances McDormand uma espécie de insistência na “virilidade”, na atitude “mulher-machona”, que não deixa de ter precedentes na Beatrix Kiddo de Uma Thurman e na “Monster” de Charlize Theron. Em “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, a protagonista parece determinada: “this time the chick ain’t losing.”

Nenhuma luz no fim do túnel: o ciclo infernal das violências prossegue até o fim. E invade os créditos finais como sugestão de mais sangue ainda por correr. O real responsável pelo estupro e assassinato, o culpado que os 3 outdoors demandavam ser capturado e punido, é esquivo e permanece escorregando para longe das mãos de qualquer justiça. E esta mãe se pergunta, em diálogo com um Bambi, se é porque Deus não existe e não há nenhuma força cósmica que se importe em impor o que é justo aos descalabros humanos.

A força do filme está em transmitir o quão errôneos e errantes são os caminhos humanos na busca por justiça e reparação – que muitas vezes tornam-se rotas rumo à vingança e à perpetuação das hostilidades. Neste caso a justiça não é do tipo que “tarda mas não falha”; ela falha até mesmo ao ponto de nunca chegar, e seus nobres escudeiros de fardas revelam-se não só como seres humanos falíveis, mas também como uns baitas duns escrotos fardados culpáveis de crimes que também ficarão impunes – como a “tortura de pessoas de cor” de que o policial Dixon permanece impune e que é justificada por seu chefe com a candidata a melhor frase do filme: “Se fôssemos despedir todos os policiais racistas, só sobrariam meia-dúzia na corporação – e eles seriam odiadores de bichas.”

Se Dixon encarna o tipo de macho-alfa cérebro-de-titica que se parece muito com o eleitor de Donald Trump (ou João Dória…), a forte e imponente personagem de Frances McDormand, ainda que sem as piroctenias de efeitos especiais e fantasias rocambolescas do Wonder Woman de Mary Harron, põe em questão o empoderamento feminino, apesar de não conseguir escapar à tosquice de um modelo masculinizante de heroísmo, em que a violência é mobilizada como meio para reparar injustiças e impunidades, o que só faz proliferar violências de um modo que o Patriarcado vem fazendo a milênios. Mas seria irrealista esperar de um filme que deseja o retrato dark de um real que beira o pesadelo que pudesse nos iluminar o caminho para o porvir com a utopia de um Matriarcado de Pachamama. Não é aqui a fonte para utopismos, mas um filme que nos ajuda a decifrar a distopia em que estamos afogamos.

Na cena final, em estranha aliança, a mãe da vítima e o ex-policial estão indo a Idaho, na direção da casa de um suspeito de ser estuprador, e diante do acúmulo de escombros que é o passado recente acabam por ser assolados pela dúvida. Não sabem se o certo a fazer é matar o sujeito com o pretexto de que seria um estuprador a menos no mundo.

É um dilema semelhante àquele de “Thelma & Louise”, de Ridley Scott: é verdade que a personagem de Susan Sarandon matou o estuprador de sua amiga na intenção de libertá-la da tirânica violência sexual do macho-tarado, mas caso se justificasse dizendo “fiz muito bem: é um estuprador a menos no mundo!”, sempre poderíamos responder: “sim, mas também é uma assassina a mais no mundo!”

Debatendo tais dilemas éticos, “Three Billboards…” faz bem em acabar sem solução, mergulhado no ambiente salutar da dúvida. Pois não é só a fúria que gera mais fúria, é também o excesso de certezas um dos vilões de nossos intermináveis ciclos de violência. Duvidar, não saber como agir, hesitar nas encruzilhadas da ação, é essencial para aquela parada para reflexão sem a qual o que se faz é tresloucado e grávido de consequências imprevistas e muitas vezes nefastas.

Afinal, na cena final, paira a neblina da dúvida sobre o oceano de sangue – e esta é uma pequena réstia de luz que vaza por debaixo da porta de uma humanidade que teima em se massacrar sem fim. É um interlúdio de dúvida reflexiva que não afasta a sensação de tempestade que se acerca. Pois haverá fúria, sem dúvida.

#CinephiliaCompulsiva2018 em A Casa de Vidro. Crítica por Eduardo Carli de Moraes.

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LINKS:

https://en.wikipedia.org/wiki/Three_Billboards_Outside_Ebbing,_Missouri

https://www.rottentomatoes.com/m/three_billboards_outside_ebbing_missouri/

http://www.metacritic.com/movie/three-billboards-outside-ebbing-missouri

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