MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941) e “Convergência” (1970) – 2 livros de poesia @ Livraria A Casa De Vidro

MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941)
Adquira o seu na Livraria A Casa De Vidro
(Cosac Naify, 2015, novo, 160 pgs)

murilo-meta“Escrito entre 1938 e 1941, durante alguns dos momentos mais dramáticos da Segunda Guerra Mundial, este livro de Murilo Mendes aponta para a necessidade da poesia e da transcendência em um mundo em que elas pareciam ter desaparecido por completo. Foi publicado em 1944, quando a 2ª Guerra Mundial encaminhava-se para o seu final, deixando porém um rastro de destruição nunca antes visto pela humanidade. Figuras da poesia de Murilo Mendes como a mulher, o pássaro, os peixes, o piano e as nuvens, chocam-se com a antipoesia de tanques, granadas e populações emigradas. O poeta dedica seu livro ao gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart, pois queria avançar posições simbólicas em território ocupado e dizer que a Áustria não era somente a terra natal de Adolf Hitler – ambos são aludidos no verso em que “as espadas dos tiranos retalham as partituras das sinfonias austríacas”. Através de um lirismo que evoca “auroras que se levantam de muletas”, Murilo Mendes evoca táticas de criação que remetem ao surrealismo e ao mesmo tempo dialoga com momentos altos de nossa lírica moderna (Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade etc). Editado pela Cosac Naify, este volume reúne as obras “As Metamorfoses” (1938) e “O Véu do Tempo” (1941), e contêm ainda um artigo de Lauro Escorel e um posfácio de Murilo Marcondes Moreira.

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Confira abaixo alguns poemas, na íntegra:

O POETA FUTURO

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

* * * * *

FIM

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
Tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso presto assistir ao fim do mundo
Para saber o que Deus quer comigo e com todos
E para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
Ouvir os coros imensos,
As lamentações e as queixas de todos,
Desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
Eu existo para a visão beatífica.

* * * * *

PATERNIDADE

Desce dos pensamentos de ódio e maldição,
Desce da fronteira do tédio:
Eu te dedicarei uma vida de espanto,
Eu te dedicarei um buquê de estrelas.
Espero-te continuamente no limiar do universo
Com todas as formas acesas,
Com a sinfonia dos elementos e o coro solene.
Por que não te vestes com a roupa das flores,
Por que não prendes ao pescoço o colar da manhã
Para vires até mim?
Ó filha pródiga,
Sei que procuraste o bem no mal.
Sei que procuraste o infinito no finito.
Vem, filha pródiga,
Encontrarás em mim o pai que não tiveste,
Encontrarás em mim, fundidas para sempre,
A loucura e a lucidez.

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* * * * *

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“Convergência” (1970) é o último livro de poesia que Murilo Mendes publicou em vida. Ele já era um veterano reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, mas o volume possui o frescor da novidade. Traz formas e tons completamente novos na trajetória do já então consagrado poeta. Visto como referência central para nossa literatura moderna – assim como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto – Murilo Mendes tomava, desse modo, um caminho paralelo ao da geração dos concretistas, que haviam renovado a cultura brasileira ao longo da década de 60. Ele era personalidade ecumênica, e é justamente a partir de Convergência que esse traço se expõe abertamente no conjunto da sua obra. Por meio dos muitos “murilogramas” que formam um dos núcleos do livro, ele se dirige a um amplo leque de artistas de sua estima, incluindo Bach e Anton Webern, Li-Po e Fernando Pessoa, Maiakóvski e Ezra Pound.  (COSAC NAIFY – 2014 – 254 pgs – COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL)

LEIA TRECHOS DE CONVERGÊNCIA

GRAFITO SEGUNDO KAFKA
K:
Todos falam da morte paralém:
Eu falarei da morte paraquém.

Os dois K do meu nome: num só nome.
O F comprimido entre dois A, dois K.
Pobre deste nome sem esfera. Só ângulo.

Nada se explica. Tudo se destrói
E tudo se transforma – para outrem.

Sinto-me a desprazer na casa de um qualquer.
Toda casa é uma praça, e na praça quem sou?

Não pedi para nascer, não escolhi meus pais.
Fui imposto a mim próprio. O enigma permanece.

Murilo Mendes
Roma, 1964
p. 74

* * * *

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MURILOGRAMA A FERNANDO PESSOA

Regressando sempre do não-chegar,
O gume irônico da palavra
Pronto a estimular-te o sólido ócio
De guarda-livros do Nada.
Não dás o braço a. Dás-te o braço.

Guardas o cansaço de quem palmilhou
Quilômetros de palavras camufladas
Em Ode adversativa: a ti adere
Sob o látego dum céu que não consentes
Donde se debruçam Parcas eruditas:
E ainda a contrapelo atinge o cosmo.

Exerces o fascínio
De quem autocobaia se desmembra
A fim de conhecer o homem no duro
Da matéria escorchada.
Ninguém alisa teu corpo e teu cabelo.

Sebastianista duma outrora gesta, dramaturgo
Retalhas o não-acontecido que te oprime
E determina o eterno contingente
Na área do sem-povo, já que o povo
Ao Fatum reduzido, desnavega.

Por sono sustentado e aspirina,
Sofista manténs a música que não tens
Entre dez dedos dividida. Morse transmitindo o não do sim,
Já isento em vida do serviço de viver. Anúmero.

Quanto a mim adverso ao Nada, teu ímça,
Eis-me andando nas ruas do gerúndio.
Ensaio o movimento, voo portátil.
Devolvo-te grato o que não me deste,
Admiro-te por não dever te admirar,
Na linha da atração reversível dos contrários
Contrapassantes.”

Murilo Mendes
Roma, 1964
Convergência – p. 99
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