[Encontro de Culturas Txt 14] A tradição sobe ao palco: conheça o documentário “A Noite Mais Curta”, exibido durante o XVI E.C.T.C.V.

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Vinícius Fernandes e Bruno Goulart, co-diretores do filme “A Noite Mais Curta”. Foto: Bruna Brandão.

A tradição sobe ao palco: “A Noite Mais Curta”

Filmado durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais, documentário revela mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falando sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco

Filmado durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais, em Julho de 2015, o documentário curta-metragem “A Noite Mais Curta”, realizado por Vinícius Fernandes (formado em audiovisual na UnB) e Bruno Goulart (antropólogo que realiza atualmente pesquisa de doutorado sobre o Encontro de Culturas), foi exibido durante o cineclube da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge na terça-feira (26 de Julho), às 19h. Ele também foi disponibilizado para ser assistido, na íntegra, no Youtube.

“A Noite Mais Curta” revela mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falando sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco. Um exemplo de dilema está na dificuldade de “migração” de expressões culturais que se dão “no chão”, e muitas vezes com instrumentos musicais artesanais, para um novo contexto, a estrutura palco-platéia, que inclui microfonação, amplificação, holofotes de luz e uma temporalidade determinada pela agenda do evento.

“O que me interessa bastante, desde minha pesquisa de mestrado, são os dilemas que os grupos de cultura popular enfrentam quando tem que levar práticas religiosas, como as folias, que tem um tempo ritual, para cima de um palco, ou seja, para um contexto de apresentação”, esclarece Bruno Goulart.

Para explicar melhor os processos sociais que eles pretenderam problematizar com o filme, Goulart evoca o exemplo da apropriação do samba por parte do Estado Novo, instaurado por Getúlio Vargas em 1937, em que o samba era celebrado mas sofria um processo de “embranquecimento”: “Celebrava-se a estética do samba e do carnaval, que eram práticas sociais associadas à população negra brasileira, mas que quando iam para o cinema ou para o rádio, por exemplo, sofriam um processo de embranquecimento. O samba vai fazer sucesso na voz de cantores como a Carmen Miranda, por exemplo.”

Goulart destaca que a própria noção de um grupo musical definido vai se constituindo neste processo de trânsito entre o solo original de manifestação da expressão cultural e o palco onde se apresentará a um público: “Não existe a noção de grupo no folguedo popular, por exemplo. Por isso eles tem que constituir grupos para se apresentarem aqui no Encontro de Culturas. Quisemos abordar os dilemas que muitos mestres da cultura popular vivenciam diante da apresentação, já que há muitas práticas religiosas que não tem nada a ver com o palco. Quisemos mostrar como os mestres e os artistas estão construindo essas apresentações, como eles lidam com a performance em um contexto que é mais do espetáculo, diante de um público muitas vezes alheio a esta religiosidade que está presente, por exemplo, nas congadas. Foi tentando problematizar estas questões a partir dos mestres que surgiu a ideia do documentário.”

 Vinícius Fernandes, responsável pela filmagem e pela edição do curta-metragem, complementa: “percebemos que uma série de adaptações de ordem técnica e estética, de tempo e espaço, ocorriam. Tentamos nos aproximar dessas adaptações e reinvenções, revelando um pouco dos bastidores desta vinda dos grupos de seus contextos locais para a apresentação aqui no Encontro de Culturas. Por meio de conversas com os mestres e os produtores culturais, buscamos pensar as perspectivas e as nuances desse trânsito do chão para o palco, do contexto local para o contexto do espetáculo e da indústria cultural.”

 Os realizadores do documentário procuraram dar voz tanto aos mestres da cultura popular, para mostrar como eles vivenciam este contexto, quanto aos produtores culturais (dentre eles, Juliano Basso e Geovana Jardim). Como reflete Goulart, um dos grandes temas de “A Noite Mais Curta” é o reconhecimento:

 “Muitas das tradições populares que estão sendo apresentadas aqui no palco, durante o Encontro, são manifestações populares que foram invisibilizadas, que sofreram perseguição e preconceito inclusive por parte da igreja: muitos padres se recusavam a reconhecer as festas de congado em algumas cidades e as próprias folias eram vista com maus olhos por muitas autoridades religiosas; e muitos padres, como o seu Severo dos Crixás colocou pra gente, não deixavam as folias entrar na igreja. Foi interessante então perceber como estes mestres percebiam o palco como um momento de reconhecimento, de aceitação por parte da sociedade destas manifestações tradicionais.”

ASSISTA: “A NOITE MAIS CURTA” (19 min)

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SINOPSE BREVE: Mestres da cultura afro-brasileira e tradicional, assim como produtores culturais, falam sobre os dilemas vivenciados na apresentação da tradição em palco.

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