[Encontro de Culturas – Txt 12] ECONOMIA CRIATIVA SUSTENTÁVEL E CULTURAS DE RESISTÊNCIA: Rodas-de-prosa no XVI E.C.T.C.V. debatem novos rumos para um outro mundo possível

A arte-educadora Surama Caggiano, do festival Afreaka, fala durante roda-de-prosa no XVI Encontro de Culturas. Foto: Bruna Brandão

A arte-educadora Surama Caggiano, do Projeto Afreaka, compartilha saberes e vivências durante roda-de-prosa no XVI Encontro de Culturas. Foto: Bruna Brandão

Culturas de Resistência: o Afroempreendedorismo e os novos espaços de construção social

Saiba como foi a roda de prosa “Empreendimentos Afrocentrados e os novos espaços de construção social”, que ocorreu com presença de representantes da CONAQ, do SEBRAE, do Projeto Afreaka e de Pontos-de-Cultura

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Atualmente, existem no Brasil mais de 2.800 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Elas localizam-se em 614 municípios de 24 estados (somente o Acre e Roraima não possuem comunidades quilombolas) e enfrentam imensos desafios relacionados com o descaso dos poderes públicos, o racismo institucionalizado e a dificuldade em consolidar uma produção material sustentável e provedora de uma existência digna para a comunidade.

Estas autênticas culturas de resistência que florescem nos territórios quilombolas estão sendo tema de muitas interações e partilhas durante este XVI Encontro de Culturas. Toda uma série de expressões da cultura popular, como aquelas do povo Kalunga, além de diálogos e debates com amplo leque temático, estão voltados para a discussão de temas vinculados aos povos de matriz africana e seus modos-de-vida, suas tradições, seus horizontes.

afreaka

AFREAKA: Site OficialFacebook

A roda de prosa “Empreendimentos Afrocentrados e os novos espaços de construção social”, que ocorreu na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge no dia 23 de julho, contou com a presença de Selma e Sandra, lideranças da CONAQ (Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas), Décio Coutinho (do SEBRAE), Surama Caggiano (Projeto Afreaka), além do babalorixá Tiago, de um ponto-de-cultura relacionado ao candomblé no Distrito Federal.

Selma, da CONAQ, destacou a importância do protagonismo das mulheres quilombolas, algo que está enraizado na história da África e seus matriarcados. Muitas vezes as afro-empreendedoras, segundo ela, são “arrimo-de-família” e conseguem gerar renda a partir de suas produções artesanais ou produtos culinários. Alguns ramos de atuação são a confeccção de tapetes, a produção de mel, os sabonetes, os doces de marmelada etc.

Um exemplo de empreendora é a senhora que se apresenta como “Mãe de Óleo Kalunga”. Ela distribuiu aos presentes seu cartão comercial, anunciando alguns produtos naturais do cerrado, provenientes da comunidade Vão de Almas (GO), que ela produz e vende, dentre eles: óleo de coco (indaiá), pequi, mamona (azeite medicinal), sabão de “cuada” (tingui) etc.

A arte-educadora Surama Caggiano, do festival Afreaka, trabalha junto ao quilombo de Brotas (SP). Em sua fala, ela destacou, confrontando preconceitos arraigados, que “a África é o berço da Humanidade, o berço da civilização. Somos todos filhos da África”. Como exemplo do impacto da África em nossa formação cultural e linguística, ela diz que existem cerca de 2.500 palavras de nosso vocabulário corrente, do “português falado no Brasil”, que são de origem africana, sendo que 350 são de uso cotidiano.

O festival Afreaka, que já realizou duas edições, já trouxe ao Brasil artistas de Moçambique, da Nigéria e de outros países africanos, mas enfrenta dificuldades de patrocínio. As dificuldades estão piores, segundo ela, com o plano de fechamento de várias embaixadas em países da África, um dos muitos retrocessos planejados pelo do governo interino – que Caggiano caracteriza como “golpista” – de Michel Temer e seu Ministro das Relações Exteriores, José Serra. Como reportou a BBC Brasil:

bbc

“Sinais de que o novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, poderá fechar embaixadas e consulados na África preocupam diplomatas e acadêmicos brasileiros e africanos, que temem a anulação de ganhos obtidos na última década e alertam para possíveis prejuízos a ambições internacionais do Brasil. Logo ao assumir a pasta e diante de uma grave crise orçamentária, Serra pediu um estudo sobre o custo-benefício de missões abertas durante o governo Lula na África e no Caribe. O chanceler disse em entrevista que a relação com países africanos não pode se basear ‘em culpas do passado ou em compaixão’ e precisa gerar benefícios também dentro do Brasil. Diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC Brasil sob condição de anonimato dizem que alguns dos postos com maior chance de serem fechados são os da Libéria, Serra Leoa e Mauritânia, na África, e os de Dominica, São Vicente e São Cristóvão, no Caribe”.

A roda também contou com a presença do babalorixá Tiago, do Distrito Federal, que partilhou algumas experiências de captação de recursos públicos, a partir de editais do Ministério da Cultura, para uma casa devotada ao candomblé e suas expressões culturais (nas vestimentas, na culinária, na musicalidade etc.). Ele conta um pouco do processo que culminou na transformação da casa em um ponto de cultura e refletiu sobre todas as dificuldades e obstáculos no caminho daqueles que desejam aprovar projetos pelos editais públicos.

Já Décio Coutinho, do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), destacou que o estado de Goiás, que tem cerca de 246 municípios, tem mais de 50% da população que é negra e que está aqui a maior comunidade quilombola do país (Kalunga). Por isso, há um imenso potencial para o afroempreendedorismo. Já foi realizada uma série de Encontros Afro-Goianos, que foram sediados na Cidade de Goiás, em Formosa e em Goiânia.

A roda-de-prosa revelou a importância de iniciativas de empoderamento dos povos quilombolas, de modo a colaborar para a sustentabilidade e a inclusão social de segmentos sociais que foram, historicamente, vítimas da violência continuada do escravagismo e que ainda hoje sofrem com o racismo institucional. Rodas-de-prosa assim só fortalecem a certeza de que as culturas da resistência não abaixarão a cabeça em seu jornada rumo ao protagonismo e à autonomia – e o Encontro de Culturas também contribui para catalisar os processos e as trocas que conduzem a isso.

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Foto: Pedro Henriques

A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge abrigou a roda de prosa “Economia Criativa Sustentável” na manhã da segunda-feira, 25 de julho. Foto: Pedro Henriques.

Economia Criativa Sustentável é tema de roda de prosa no XVI ECTCV

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A Economia Criativa e Sustentável foi tema de intensos debates e diálogos durante o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

A roda de prosa, ocorrida na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge na manhã da segunda-feira, 25 de julho, contou com a participação de representantes de territórios quilombolas e comunidades tradicionais, expositores da Feira de Experiências Sustentáveis do Cerrado, além de Décio Coutinho, do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

A Praça do Encontro está repleta de iniciativas que mostram a força de uma economia alternativa, que busca consolidar-se e tornar-se sustentável por meio da produção de artesanatos, roupas, bijouterias, instrumentos musicais, bebidas artesanais, dentre muitos outros exemplos. Durante a roda de prosa, os microempreendedores puderam compartilhar experiências e dificuldades, ideais e frustrações, numa partilha em que buscaram cooperar em vez de competir.

Um exemplo interessante de iniciativa, que foi evocado por Décio Coutinho, é o da artesã Milena Curado, da Cabocla Criações, sediada na Cidade de Goiás (também conhecida como Goiás Velho):

cabocla milena

“A Milena fazia vestidos com bordados de flores e estava à procura de bordadeiras na cidade que servissem de mão-de-obra para alavancar a produção. Conversou com o Ministério Público e tomou a iniciativa de ensinar as mulheres do presídio a bordar.  Isso torno-se uma grande ação social e, inclusive, os homens que estão presos, vendo o trabalho das bordadeiras, interessaram-se por isso, até porque gera uma redução da pena, uma pequena renda, além do benefício do próprio aprendizado, já que ele sai da prisão com uma profissão. O próximo passo que a Milena tomou foi bordar versos de Cora Coralina nos vestidos, além de flores do cerrado e temas da iconografia de Goiás. Ela tem uma produção artesanal aliada a uma causa social, que é o trabalho com os presos, realizando algo de importância também para a valorização da cultura. Isso agrega muito valor, pois o produto dela tem densidade cultural.” Esta iniciativa foi destaque de uma reportagem da Revista de História da Biblioteca Nacional, assinada por Débora Araújo e publicada em 2014: “Traço cultural da região, bordado reconstrói vidas de presidiários em Goiás” (LEIA A MATÉRIA NA ÍNTEGRA)

Outros participantes da roda de prosa neste XVI ECTCV destacaram a importância do fator “densidade cultural” como um dos que contribui para uma economia criativa e sustentável. Uma mercadoria fabricada em massa, como uma cerveja ou uma calcinha, chega ao consumidor como algo desprovido de história, despido de significados mais profundos para além de seu valor de uso. Já em experiências de economia alternativa, a ênfase recai sobre as narrativas que se podem tecer sobre o processo de produção, sobre as histórias de vida dos empreendedores, sobre a representatividade cultural do produto. Deste modo, uma cerveja artesanal fabricada por um microempreendimento familiar, ou uma bordadeira de calcinhas com tecidos africanos, podem gerar produtos com um valor agregado maior devido ao peso simbólico, histórico-cultural, que pode aderir àquilo que se fabrica. O comprador, neste último caso, não leva para casa apenas um objeto a consumir, mas algo que traz em sua tessitura uma narrativa, uma história, que o torna mais significativo e menos efêmero.

A roda de prosa terminou com uma dinâmica de trocas entre os presentes, na qual vários produtos – brincos, pulseiras, chocalhos, cervejas, panos etc – foram sorteados entre os participantes, que assim puderam partilhar não só de uma boa conversa, mas também tiveram um gostinho de uma economia mais solidária e generosa do que a selva mercenária de competição selvagem a que estamos acostumados nos espaços hegemônicos do capitalismo globalizado.

Para terminar, declamou-se um poema de Cora Coralina que diz assim: “Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

cora-coralina

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  1. Luiz Müller disse:

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