[Encontro De Culturas 2016 – Txt 04] “A câmera pode ser uma arma poderosa”, diz Rodrigo Siqueira Arajeju

X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

“A câmera pode ser uma arma poderosa”

O empoderamento midiático de uma geração de novos realizadores audiovisuais aliados às causas indígenas anima os debates no cineclube da X Aldéia Multiétnica

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (17 / 07 /2016)

“Em tempos de enganação universal,
dizer a verdade torna-se um ato revolucionário.”
GEORGE ORWELL

Durante os dias de intensa convivência na X Aldeia Multiétnica, não faltaram debates sobre o papel da tecnologia no mundo contemporâneo, com foco no tema do empoderamento midiático e na auto-expressão dos povos indígenas, quilombolas, periféricos. Além das excelentes contribuições trazidas por  Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, os (con)viventes também puderam debater o tema da “comunicação por direitos” com o fazedor-de-vídeos e documentarista Rodrigo Siqueira, realizador dos filmes Índio Cidadão? e Índios no Poder (click nos links e assista aos trailer).

A conversa com Rodrigo Siqueira teve como foco a produção de vídeos independentes, de teor documental e jornalístico, produzidos nas aldeias em momentos extremos, registrando situações quando ocorrem graves violações de direitos humanos. Ao anoitecer desta segunda-feira, 18 de julho, na Tenda Multimídia da Aldeia Multiétnica, Rodrigo Siqueira partilhou um pouco de sua rica experiência com os presentes. Sua participação no cineblube organizado pelo coletivo de audiovisual Brasileirando reforçou a certeza de que a democratização das tecnologias digitais de captura de áudio e vídeo abriu novos horizontes para o empoderamento expressivo dos povos indígenas, quilombolas e periféricos – como prova também o projeto Vídeo nas Aldeias.

Um exemplo debatido por Siqueira foram as ocorrências na aldeia Teles Pires, no Pará, que foi palco de cenas trágicas em novembro de 2012, quando Adenilson Kirixi Munduruku foi assassinado após uma intervenção violenta de tropas federais (saiba mais na reportagem de Ruy Sposati em Brasil de Fato). No calor do conflito, algumas pessoas puderam filmar, de seus celulares, os helicópteros militares que sobrevoavam a aldeia, os soldados fortemente armados com munição letal, as portas arrombadas e embarcações afundadas, o tiro na cabeça que arrancou brutalmente a vida de Adenilson. Este foi um crime cometido por agentes do Estado denunciado pelos celulares da própria comunidade vítima de uma atrocidade estatal.

Siqueira acredita que a câmera – mesmo que seja de um telefone celular – pode ser uma arma poderosa numa guerrilha midiática cada vez mais necessária. A sociedade civil, na era da digitalização, da interconectividade e da telefonia celular, está repleta de cidadãos com o potencial de tornarem-se agentes ativos de denúncia e informação. As redes sociais propiciam difusão imediata e o potencial de “viralizar”.

Unindo mídia independente com ativismo das causas sociais, Siqueira conta que, apesar de formado em Direito, preferiu praticar algo bem diferente da advocacia formal: ele atua naquilo que chama de “comunicação por direitos”. Boa parte de seus esforços consiste em ensinar as pessoas a utilizarem bem os recursos tecnológicos que elas têm em mãos. Um celular no bolso pode ser ferramenta importante na luta pelos direitos humanos ou na denúncia de atrocidades como as violências de Estado ou de milícias paramilitares.

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Os Munduruku, por exemplo, produziram um material informativo-didático interessante, o Guia De Como Filmar Com Celular, que dá dicas para aqueles que desejam, nas aldeias, contribuir para a documentação da realidade que vivenciam. O guia dos Munduruku, que foi um dos destaques da palestra de Siqueira, inclui dicas bem pragmáticas para filmar com boa qualidade técnica – “segure o celular na horizontal, evite mexer muito e mantenha a mão firme” – mas também esclarece sobre os direitos constitucionais (“a Constituição diz: filmar e fotografar é um direito de todo cidadão brasileiro”), o valor jurídico dos vídeos (que podem servir como provas para a justiça), os riscos que correm os cinegrafias (alerta: “filme para defender seus direitos e território, mas sempre avalie sua segurança”).

Os Munduruku são um povo guerreiro e que atualmente luta contra um complexo de hidrelétricas planejado para a região do Rio Tapajós. Já realizaram várias ações significativas de ativismo, como a ocupação da praça dos Três Poderes, em Brasília. Também realizaram uma ocupação do canteiro de obras da usina Belo Monte: “teve ordem de reintegração de posse e eles rasgaram o documento”, relata Siqueira. “Eles disseram: ‘se vierem nos tirar, a gente só sai morto’. Aí pousou lá um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), que os conduziu à capital federal para uma reunião com a Presidência da República”.

Atualmente, os Munduruku estão em permanente mobilização e assumiram para si a tarefa de demarcação de terras. “Eles começaram a fazer a autodemarcação: já tinham os estudos que definiam os limites e eles mesmos foram marcando o território, tiraram madeireiros etc”.

“Hoje, você estar com uma câmera é como você estar com uma arma”, dispara Siqueira. “As pessoas querem te barrar, não querem deixar você fazer. No caso dos Guarani-Kayowá, no MS, não foram poucos os casos de tomarem celular de quem está filmando ações de despejos e de pistoleiros. Eles chegam e tomam porque não querem que aquela imagem seja divulgada. É sempre bom estar filmando com alguém próximo. Quando você está numa situação de conflito, com o celular você pode pegar, por exemplo, quem está com uma arma na mão. Lá no MS isso acontece muito: as pessoas ficam receosas de publicar um vídeo e depois serem perseguidas”.

O Brasil, segundo estudo publicado pela ONG internacional Global Witness, detêm o triste recorde de ser o país no mundo com maior número de assassinatos de ativistas das causas socioambientais, ecológicas, indígenas etc. Em um cenário de trevas como este, os cinegrafistas independentes que registram cenas de relevância, em que direitos humanos são violados e atrocidades cometidas, podem eles mesmos tornar-se alvo de violências caso divulguem as imagens.

Siqueira recomenda que vídeos deste teor não sejam publicados em contas pessoais nas redes sociais: “Vale mais a pena você mandar o material para a Rádio Yandê, por exemplo, do que você postar no seu perfil no Facebook”. É preciso avaliar com prudência os riscos que a publicação das imagens acarreta para quem filmou e buscar abrigo em coletivos ou institutos com maior força de defesa contra estes perigos. A expressão “guerrilha midiática” é adequada para descrever certas ações, relembradas por Siqueira, de cinegrafistas amadores que, após filmarem cenas de relevância sócio-política, escondem os cartões de memória no corpo – dentro da cueca, debaixo da língua… – para que não percam as imagens gravadas caso seus celulares sejam confiscados ou destruídos.

Abrem-se assim novos horizontes que visam oferecer alternativas contestatórias e contra-hegemônicas que contrastam com a cobertura da mídia comercial-corporativa. Muitas vezes são estes cidadãos com celulares que fornecem registros documentais e históricos sobre fatos recalcados ou censurados pelos poderes dominantes. A disseminação da digitalização hoje permite um “jornalismo cidadão” cada vez mais forte, como mostram iniciativas como a Mídia Ninja e o Jornalistas Livres.

A oficina de Siqueira também contou com a exibição de alguns vídeos gravados recentemente, durante o dia de mobilização nacional do “Ocupa Funai”, em 13 de julho. Em um deles, Valdelice Veron, do conselho Aty Guassu, denuncia a situação dos Guarani-Kayowá no MS: “estamos sendo dizimados num grande genocídio em nome do agronegócio”. Já a ativista Sonia Guajajara demonstra seu repúdio à possível nomeação de um militar (general Petronelli) para a presidência da FUNAI: “é inadmissível que a gente possa aceitar esses atos de ataque a nossos direitos”.

A câmera pode ser uma ferramenta importante para dar voz àqueles que estão sendo vítimas de várias violências, como é o caso da cacique Damiana, uma liderança dos Guarani-Kaiowá, que deu um eloquente depoimento para a câmera de celular de Siqueira, às margens da BR-364, no MS, em um ocasião em que mais de 100 agentes da Polícia Federal, fortemente armados, foram mobilizados para desalojar nove pessoas.

Como relata Siqueira, comentando o vídeo que exibiu aos (con)viventes, “a Damiana estava sofrendo naquela ocasião o seu quarto despejo. Ela denuncia que nove dos “parentes” de sua família extensa já foram “atropelados” – uma forma de assassinato utilizada no MS – e estão enterrados neste lugar onde ela está sendo filmada. Ali há a usina de biocombustível São Fernando, do Bumlai, que está preso pela Operação Lava Jato. A gente fica triste de presenciar todas estas tragédias que ocorrem, mas a gente cumpre um papel importante ao registrar estes vídeos. Eles servem como provas, podem gerar repercussão, sensibilizar a opinião pública. Se não houvese ninguém lá filmando, talvez o problema nem seria conhecido. Esta é uma linha de trabalho de guerrilha, em que a gente filma e já faz a postagem imediata na internet; às vezes também é possível enviar para a mídia.”

Um curta-metragem como O Massacre de Caarapó (click no link para assistir) revela as atrocidades cometidas em um ataque paramilitar contra os Guarani-Kayowá na cidade de Caarapó (MS) e que deixou morto o Kaiowá e agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, 23 anos. O vídeo foi publicado no site do Cimi (que também produziu um dossiê sobre o caso) e teve mais de 300.000 reproduções. Depois foi republicado na web pela Al Jazeera e conquistou mais de 1 milhão e 400 mil reproduções.

O vídeo revela cenas chocantes, como aquelas filmadas dentro do hospital, em Dourados (MS), onde os baleados estavam sendo tratados com urgência. Mostra cenas do velório da vítima fatal, onde mesclam-se, no comportamento dos presentes, o luto pela perda da pessoa amada e a indignação diante da máquina assassina que tem vitimado tanta gente deste que é o 2º maior povo indígena do país.

Segundo censo do IBGE de 2010, os Guarani Kayowá são mais de 43.000 pessoas. Eles estão com 47 retomadas de territórios tradicionais aguardando demarcação. Em seu diagnóstico dos porquês desta lastimável situação, Siqueira pondera que “a demarcação das terras não sai porque o MS é um estado forte do agronegócio. Alguns dos políticos ruralistas no Congresso Nacional são do MS; o governador e os deputados estaduais são ruralistas; as polícias atuam do lado dos fazendeiros; há grupos de milícia paramilitar, que dizem que é “segurança privada”. Os povos indígenas estão tomando a iniciativa das retomadas, pois sabem que se esperar, não vai sair jamais. Enquanto isso, eles estão vivendo confinados em oito reservas de 3.000 hectares. Para os Guarani-Kayowá, as autoridades máximas são os caciques-rezadores e as rezadoras-tradicionais, os nenhanderus. Na retomada são os rezadores que vão na frente, eles confiam na espiritualidade”.

Desde o ano 2000, já foram registrados mais de 300 assassinatos de Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. “A denúncia deles é realmente de uma situação de genocídio”, afirma Siqueira. “As lideranças estão sendo mortas, a terra está sendo envenenada, as matas estão sendo derrubadas para que eles não tenham onde sobreviver”.

E esta terra, para eles, é algo bem diferente do que é para um fazendeiro que tem um título de propriedade; para os Guarani-Kaiowá, a terra é onde descansam os ossos dos ancestrais, é o território onde enraíza-se uma história que vive e resiste em carne-e-osso, nos corações e mentes daqueles que mantêm viva esta chama.

* * * * *

"Índio Cidadão?", um documentário de Rodrigo Siqueira Arajeju

“Índio Cidadão?”, um documentário de Rodrigo Siqueira Arajeju, será debatido em evento promovido por De Olho Nos Ruralistas (SP, 06 de Agosto).

 PARTE II – SOBRE NOSSO FUTURO COMUM ,
por Rodrigo Siqueira Arajeju

Em suas reflexões finais, Siqueira fez um diagnóstico completo dos problemas da nossa civilização contemporânea, num discurso que compartilhamos em seguida e que fornece uma excelente leitura de conjuntura:

“Num Brasil, num projeto de nação, onde não se respeita o direito dos originários, dos primeiros habitantes, a gente não tem uma perspectiva de futuro boa para ninguém. É bom ter clareza que, ao apoiar os povos originários, a gente não está apoiando só eles, pois o avanço do agronegócio traz como resultados: rios envenenados, fim das florestas… As terras indígenas no Brasil hoje são as mais protegidas, mais até do que as áreas de conservação (estas últimas partem da noção de que você não deixa ninguém viver ali para deixar a natureza intocada). A própria Constituição fala que as presentes e as futuras gerações tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. A gente vai ter este ambiente ecologicamente equilibrado com o agronegócio ou com as terras indígenas?

Minha atuação junto aos povos indígenas não vai só no sentido de como algo que ajuda a causa dos, mas sim pensando em nosso futuro comum, de todos nós. Se a gente entregar o país pro agronegócio, para as grandes hidrelétricas, vai chegar uma hora do colapso, como ocorreu em São Paulo com a crise hídrica. O clima não está mais como antes, está faltando água em alguns lugares, a qualidade do ar que se respira está degradada em vários locais. Hoje se fala em serviços ambientais: uma terra indígena produz água, alimentos; aí você vai expulsar os indígenas para as cidades pra quê? Pra virar favelado, mendigo? Eu me coloquei nesta luta muito por causa dessa consciência de que de um outro futuro possível. Pois qual é o caminho que a civilização traz?

A gente está rumando, numa velocidade impressionante, para um abismo. Todos os passos da nossa vida na sociedade ocidental é a morte. Hoje se está acontecendo um movimento médico pelo “parto humanizado”, ou seja, na “sociedade branca”, por assim dizer, a gente não nasce mais de modo humano. Nas maternidades, as gestantes chegam lá com suas malinhas e ficam esperando a hora da cesariana.

A nossa produção de alimentos está sendo feita com muito veneno: o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Calcula-se que cada um de nós, em um ano, consome mais de 5 litros de agrotóxico pelos alimentos. Esses agrotóxicos não só envenenam nós que comemos, envenenam os trabalhadores e também o ambiente.

Depois de comer os alimentos envenenados, na hora de defecar somos os únicos animais terrestres que defecam na água. Enquanto tem bilhões de pessoas no mundo que não tem acesso a água potável, nas cidades a gente vai literalmente cagar na água tratada, que vai ser depois jogada no rio de onde a gente vai tirar a água pra beber. Olha o tamanho da loucura!

E até na hora de morrer, está virando problema: nos cemitérios, a quantidade de corpos enterrados juntos, nesta proporção que temos nas cidades, já está contaminando os lençóis freáticos. Ou seja, a civilização é uma loucura. Ou seja, a última chance que temos de ter uma vida digna neste planeta é se a gente for aprender com aqueles que ainda estão segurando as tradições e que ainda estão mantendo a natureza, pois se vêem como natureza.

Tenho aprendido muito com todas as lideranças dos povos indígenas com quem tenho deparado e meu trabalho é comunicar a visão-de-mundo deles, as lutas deles, e particularmente estou muito interessado em saber como a gente vai salvar a nossa própria pele desta loucura que é a civilização.” – Rodrigo Siqueira

©Bruna Brandão-7414

A X Aldeia Multiétnica debateu o empoderamento midiático e a comunicação por direitos. Na foto, vemos uma filmagem realizada dentro da aldeia por um homem conectado ao DSEI – Distritos Sanitários Especiais Indígenas – no Rio Tapajós. Foto: Bruna Brandão.

SAIBA MAIS: www.encontrodeculturas.com.br/2016

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