BRASIS EM DISCÓRDIA – 5 artigos sobre a crise política, o processo de “impeachment” e a contenda ideológica do “há um Golpe de Estado ou não?”

AINDA SOBRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

É chegada a hora de se aprofundar a democracia brasileira e de dividirmos, de maneira justa, os nossos direitos e as nossas riquezas.

por Caio Vasconcellos na Carta Maior [http://bit.ly/1VXyLoi]

“O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.”

Carlos Drummond de Andrade,
Alguma poesia.

Tão logo terminou a sessão da Câmara dos Deputados que votara pelo indecoroso processo de impeachment, surgiram as primeiras manifestações – ainda um pouco envergonhadas – de um certo mal-estar com o conteúdo proferido nas falas dos deputados e deputadas favoráveis ao afastamento da Presidenta. Talvez tenha se iniciado entre setores da classe média uma tentativa de conciliação em suas consciências. Embora o baixo nível dos discursos seja algo que sempre possa surpreender, a ninguém é dado o direito de reivindicar inocência. Por um lado, argumenta-se que toda essa baixeza e vilania, cujo ponta-pé inicial fora dado, como bem lembrou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, com os xingamentos da plateia-vip à Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, seriam compensadas pela oportunidade de eliminar a corrupção da política e fazer valer a lei para todos. De maneira cínica e dissimulada, afirma-se que os meios e os personagens do golpe eram os únicos disponíveis e que, dentro em breve, a fúria e as grosserias que ofendem a Presidenta da República atingiriam figuras da estirpe de Michel Temer, Eduardo Cunha, todos os tucanos e tudo o mais que exista e que esteja por aí. Sabe-se, na verdade, que a possibilidade dessa ampliação dos alvos é bastante remota e que tais condutas mal-educadas sempre foram expedientes comuns às nossas elites, mimetizadas pelas camadas médias em seu afã de se mostrarem próximas e confiáveis às esferas de poder.

Nesse pólo da reação conservadora, a propalada crise de representatividade política parece não ter lugar. Via financiamento privado de campanhas, o parlamento se constituiu como cópia fiel dos interesses, da ignorância e da falta de modos dos golpistas de fora do Congresso. Enquanto os pobres, os negros, as mulheres, os homossexuais, os indígenas são claramente subrepresentados no parlamento, a presença massiva de homens brancos, ricos e heterossexuais é assustadora. As torpes motivações e os rasos argumentos presentes no julgamento de exceção do 17 de abril, as propostas higienistas e os discursos de ódio na aprovação da redução da maioridade penal na Câmara e tantos outros maus exemplos do parlamento não diferem em gênero, número ou grau do episódio nefasto na abertura da Copa do Mundo e nem das palavras de ordem misógenas, dos irracionalismos e das bandeiras autoritárias levadas às ruas nas inúmeras manifestações da direita desde o início do ano passado. Embora frequentem os colégios mais caros e tradicionais, estudem nas universidades de maior prestígio no país e ocupem os principais postos de comando na iniciativa privada, no poder judiciário e no setor público, a união construída entre eles e o plagiador de patos da Fiesp, a bancada BBB e a mídia privatista é alinhavada por fantasias paranóicas e por mensagens apócrifas distribuídas pelo Whattsapp e pelas redes sociais, que dificilmente convenceriam qualquer criança em processo de alfabetização.

Diante de um contexto sociohistórico algo distinto, Florestan Fernandes chamou atenção para a premência de uma missão civilizatória a ser desempenhada pelas camadas populares que, desgraçadamente, ainda não se cumpriu. Elaborado às vésperas do golpe civil-militar de 1964, em “A integração dos negros na sociedade de classes” o autor reconstrói com a densidade e a sofisticação costumeiras o longo e tortuoso itinerário histórico de dois movimentos conexos e, a primeira vista, contraditórios. Herdeira de um passado estamental e escravocrata, a formação da chamada “ordem social competitiva” se daria por intermédio – e não apesar – da permanência de segregações raciais e privilégios estamentais. Se nos países centrais do capitalismo, a emergência das sociedades burguesas também propiciara a consolidação de um tipo de dominação democrática e de sua correspondente racionalidade formal, a fraqueza material, a tibieza moral e a indigência intelectual das elites brasileiras combinariam o pior desses dois mundos. Fechando portas de qualquer oportunidade para os ex-escravos e seus descendentes, nossa sociedade turvava o já limitado reino das liberdades burguesas. A única chance de alguma civilidade em nossas práticas sociais mais elementares seria garantida pela conquista pelos negros e pelo povo dos direitos de cidadania que a mesquinha burguesia nacional reservada somente aos seus.

Mutatis mutandis, o Brasil contemporâneo enfrenta dilemas parecidos. O grande processo de integração social levado a cabo pelos governos do Partido dos Trabalhadores enfrenta – por seus méritos e também por seus limites e vícios internos – uma fúria desmedida ora consubstanciada em golpe de estado. Inicialmente, a direita mais raivosa vociferava contra os beneficiários do bolsa-família na esperança de encontrar mão de obra a preços aviltantes para o seu conforto privado. Em seguida, a ampliação dos direitos às trabalhadoras e aos trabalhadores domésticos suscitou reações das mais vergonhosas – assombrando estrangeiros de variadas matizes ideológicas. O sistema de cotas nas universidades, os direitos dos homossexuais e o empoderamento feminino desses últimos tempos também sofreram ataques covardes e reacionários. Por fim, a direita nacional fomenta um discurso vazio da meritocracia, tão enviesado quanto a antiga tese da “democracia racial”. Equiparando os privilégios herdados por gerações, a riqueza fácil da especulação financeira e a inescrupulosa isenção fiscal dos ganhos de capital com o imenso sacrifício de quem chegou somente agora ao ensino superior e sobrevive à estafante jornada que combina trabalho e estudo, a elite brasileira prepara novos diques de contenção para os setores populares – ela e seus seguidores parecem querer voltar a competir somente com os rotos e com os esfarrapados, ainda que para isso tenham que rasgar a ordem constitucional e cobrir de trevas o presente e o futuro da nação.

Quis o destino que mais uma vez a sociedade brasileira se encontre em uma situação de “ponto morto”, a partir da qual toda mudança de direção ainda é possível. Além do valoroso e honrado papel desempenhado por indivíduos e inúmeros movimentos sociais da periferia, há ainda um vasto contingente nos setores populares que não apareceu na luta. Se os equívocos e as escolhas dos governos petistas suscitam, legitimamente, muitas desconfianças, um governo ilegítimo de nossas elites não deixa restar qualquer dúvida. É chegada a hora de se aprofundar a democracia brasileira e de dividirmos, de maneira justa, os nossos direitos e as nossas riquezas. Para tanto, a periferia tem que conquistar o seu protagonismo histórico e civilizar definitivamente nossa elite e nossa sociedade. Do contrário, o Brasil voltará a ser conduzido por aqueles que têm tão pouco apreço pelo país, pela igualdade e pelas liberdades, cavando uma rota turva, grosseira e mal-direcionada sem nenhuma previsão de final feliz.

Caio Vasconcellos é doutor em Sociologia pela USP e autor do livro “O Moloch do Presente – Adorno e a crítica à sociologia”.

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O BALANÇO DA BOSSA DO GOLPE

Flávio Aguiar no Blog da Boitempo Editorial

“Conhecemos a máxima de Lincoln: é possível enganar todos por algum tempo; alguns o tempo todo; mas não todos por todo o tempo.

Mas no Brasil – também na Argentina – estamos diante de uma nova bossa. Para dar um golpe, basta enganar muitos por bastante tempo. E depois o resto – inclusive o bagaço dos enganados – que se virem.

É verdade que na Argentina, no ano passado, não houve um golpe. Mas a tática usada para garantir que Macri ganhasse a eleição e conseguisse instalar seu programa de governo foi a mesma usada no Brasil para montar o golpe que está em curso.

O esquema foi igual: pressão contínua e mentirosa da mídia oligárquica, mais abusos coordenados a partir de setores do judiciário, perseguição a líderes oposicionistas, plantação de noticiário diversionista para desviar a atenção quando denúncias surgiam sobre figuras da direita. Na Argentina isto aconteceu em relação às denúncias das operações offshore de Macri e familiares, quando da revelação dos “Panamá Papers”. Imediatamente juízes denunciaram Cristina Kirchner por irregularidades que passaram a ocupar as manchetes de La Nación e El Clarín, os conglomerados que querem comandar – e cercear – a informação no país vizinho.

No Brasil é evidente a agressão dos vazamentos da Lava-Jato ao ex-presidente Lula e à presidenta Dilma e o quanto eles e a mídia golpista poupam as figuras da oposição.

Fica evidente, através da comparação dos dois casos, que a tática, sendo a mesma, tem uma origem comum, provavelmente, e há muitos indícios nesta direção, provinda dos estados Unidos. Antigamente, logo depois da Segunda Guerra, o ex-presidente republicano e general Dwight Eisenhower alertou sobre a existência de um “complexo industrial-militar” que, na verdade, comandava os Estados Unidos. Hoje pode-se falar num complexo sistema de informação reunindo agencias como a National Security Agency, empresas de terceirização da espionagem e de inteligência, ONGs e Think Tanks que certamente forjaram este treinamento para elementos dos sistemas judiciários dos países da América Latina, além de órgãos de segurança, como as polícias federais respectivas e adjacências.

Junto com este esquema, é indispensável contar com a operação midiática que bombardeie com constância frases e manchetes que cativem as mentes e corações dos que querem ser cativados, é bom que se diga, convencendo as pessoas de platitudes vazias, como a de que “sim, sempre houve corrupção, mas o PT a institucionalizou”, quando não convencendo os mais afoitos em acreditar em qualquer coisa que proteja o que veem como seu direito a privilégios, que foi o PT que a inventou.

Fica claro o objetivo deste estupro da inteligência ao se considerar que o “futuro governo” de Michel Temer já acena com os corte dos direitos trabalhistas, da suspensão da obrigatoriedade de investimentos em educação e segurança e de cortes nos programas sociais, até com afirmações de que o Bolsa Família está “inchado”. Estes arautos da regressão histórica aos tempos da República Velha estão convencidos, e trabalham com o sentimento difuso em parcelas de nossas elites e classes medias de que o Brasil precisa mesmo ter um “exército de reserva miserável” para funcionar, para manter a percepção de que direitos são privilégios de classe. Este golpe armado precisa também desconstruir a narrativa de que os governos petistas melhoraram a condição de vida da população. Seu objetivo maior é “desconvencer” o povo de que ele tem direito a ter direitos.

Para tanto, estes golpistas dispersos em toda a parte, mas sobretudo concentrados em aparelhos de Estado não estão hesitando em dar um golpe que, além de cobrir o Brasil de descrédito em escala mundial, vai potenciar a corrupção, agora sim, como nunca se viu antes nesta uma vez chamada de Terra dos Papagaios, agora se transformando na República dos Bananas. Não que todos sejam bananas, porque é possível que alguns sejam bananas o tempo todo, mas é impossível que todos sejam bananas todo o tempo. Mas basta um bando de bananas por algum tempo, para abrir o bananal à sanha da direita.” – F. AGUIAR

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perez-esquivel

Revista Caros Amigos: “O discurso no Senado do argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, que denuncia o golpe de Estado em curso no Brasil [ASSISTA: https://youtu.be/EhUUyjpfWms], vai repercutir internacionalmente e desgastar ainda mais o vice-presidente, Michel Temer, que atua para derrubar a presidente Dilma Rousseff do cargo. Essa é a opinião do cientista político e professor da USP – Universidade de São Paulo, Antonio Carlos Mazzeo.

“A fala do Esquivel (nesta quinta, 28) é um duro golpe nos que trabalham pelo impeachment. Expressa uma tendência internacional que não aceita a forma como está se dando esse processo. Temer não terá legitimidade nem dentro nem fora do país”, enfatiza.

“Aqui vai enfrentar a resistência de todos os grupos que defendem a democracia: MST, MTST, LGBTs, etc. E no exterior ele (Temer) também não encontrará a legitimidade para um eventual governo. O fato de ser um Prêmio Nobel da Paz a denunciar isso tem um impacto enorme. O desgaste é enorme para aqueles que estão capitaneando o impeachment.”

Por isso, o discurso de Esquivel irritou tanto o senador e latifundiário Ronaldo Caiado (DEM-GO), que exigiu a retirada da palavra golpe das notas taquigráficas dos anais do Senado. “É inaceitável manipular a fala de uma personalidade como Esquivel. Isso é gravíssimo. Um senador não pode suprimir o discurso de um Prêmio Nobel”, critica.

O senador Paulo Paim (PT-RS), que presidia os trabalhos, acabou cedendo à pressão do ruralista. Para Mazzeo, Paim errou ao acatar a supressão da palavra golpe dos anais da Casa.

“Venho aqui ao Brasil trazendo a solidariedade e o apoio de muita gente da América Latina e a minha pessoal que se respeite a continuidade da Constituição e do direito do povo a viver em democracia”, frisa o Prêmio Nobel. “Creio que neste momento há grande dificuldade (gerada) de um possível golpe de Estado. E já se utilizou esse mecanismo de funcionamento em outros países do continente, como Honduras e Paraguai”, ressalta.

Leia também:

EBC & Socialista Morenahttps://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/1402311376461850

Antonio Carlos Mazzeo explica Marxismo:

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Ciruja

PONTE PARA O ABISMO
Por Luiz Bernardo Pericás, Boitempo Editorial

Nos pântanos de Brasília, os conspiradores se reúnem nos bastidores para efetivar o golpe institucional em curso. Serpentes, abutres e tucanos, sorrateiramente, planejam a cada dia os novos rumos políticos que querem impor ao país. No centro das discussões, o famigerado programa “Uma ponte para o futuro”, elaborado pelo PMDB, o qual, apesar do nome, mais se parece com a ciclovia da Niemeyer, no Rio: uma passarela suspensa, mal construída, que levará a nação para o abismo. Os retrocessos serão enormes e a possibilidade de se implementar uma agenda popular, progressista, será jogada para escanteio imediatamente após a usurpação do poder.

O documento, em tom messiânico, se propõe a “buscar a união dos brasileiros de boa vontade”, já que “o país clama por pacificação pois o aprofundamento das divisões e a disseminação do ódio e dos ressentimentos estão inviabilizando os consensos políticos”. Além disso, segundo os arautos do Apocalipse que escreveram esta pérola, “o Brasil gasta muito com políticas públicas”. Na prática, consensos políticos não virão, o ódio aumentará e o uso da força contra a oposição democrática de esquerda também. Já se pode esperar resistência nas ruas. E uma ofensiva enérgica das elites. Em nome da “paz”, da “ordem” e da “governabilidade”, não se aceitarão manifestações que ultrapassem os limites que “eles” irão estabelecer. O resultado: mais soldados da tropa de choque agredindo militantes, incremento de processos judiciais, novas prisões. Afinal de contas, a criminalização dos movimentos sociais não é novidade: é só lembrar da duríssima repressão aos professores grevistas em Curitiba no ano passado e o assassinato de dois trabalhadores rurais no Paraná recentemente pelos “agentes da lei”, em ambos os casos, na gestão do governo estadual encabeçado pelo PSDB. Os cães de guarda do patronato, dos grandes bancos e das corporações não terão pudor em passar o trator por cima de qualquer um que proteste com maior afinco. A agressividade por parte das autoridades tende a se ampliar…

O projeto em questão, que pode levar o Brasil para as trevas, sugere acabar com os vínculos constitucionais no orçamento, tendo como objetivo retirar direitos trabalhistas, como o abono salarial, o seguro-desemprego e o auxílio-doença. O salário mínimo, por sua vez, deve ser desvinculado da inflação, enquanto os aposentados receberão menos que o piso salarial. Já o ProUni e a Bolsa Família serão afetados e a reforma da previdência, acelerada. A educação e saúde, neste caso, fragilizadas…

Uma onda de privatizações deve vir a seguir. “Uma ponte para o futuro”, que pretende redefinir o papel do Estado (ao tentar consolidar um “Estado mínimo”, enxuto e supostamente eficiente), incrementar a participação da iniciativa privada, flexibilizar o mercado de trabalho e ampliar a concorrência internacional, abrirá de maneira escancarada as portas para a venda do patrimônio nacional. A partir daí, a relação dos “entreguistas” de plantão com os interesses do imperialismo se tornarão explícitas. Essa gente, por sinal, tem rosto e nome: Temer, Aécio, Skaf, Serra, Cunha e sua quadrilha (com todo o apoio da Fiesp, CNI e similares), irão se refestelar nos palácios da capital, com a anuência do Supremo, que garantirá que o processo seja levado a cabo com a mais absoluta aparência legal e constitucional, como tem feito até agora.

É bem verdade que uma agenda mais radical e progressista não vinha sendo implementada pelo governo Dilma. Muito pelo contrário. A escolha de Joaquim Levy e Kátia Abreu (entre outros) para ministérios importantes, a assinatura da “lei antiterrorismo”, o aumento da concentração de terras no campo, o avanço do agronegócio, as alianças espúrias, a financeirização da economia, a despolitização dos debates políticos e uma agenda fiscal lastimável são alguns traços desta administração. De qualquer forma, um governo Temer acelerará todas essas tendências e permitirá que os grupos mais conservadores e reacionários do Congresso possam impor sua linha nefasta, o que representaria um retrocesso ainda maior dos direitos e garantias sociais.

O fato é que o mundo inteiro sabe o que acontece no Brasil. E se mobiliza contra o golpe. É só lembrar que o Secretário Geral da OEA, o Secretário Geral da UNASUL e o Alto Comissário de Direitos Humanos já soltaram notas oficiais contra o processo golpista no país. O mesmo o fizeram os presidentes do Equador, Venezuela, Bolívia e Cuba, assim como uma figura respeitada mundialmente como José Mujica. Dentro do Mercosul há quem defenda que o Brasil seja suspenso caso vingue a fraude em andamento. Isso para não falar dos mais importantes artistas, intelectuais e juristas brasileiros. Até a imprensa internacional (revistas e jornais dos Estados Unidos e Europa), criticam o que se passa por aqui, caracterizando o quadro geral como um atentado à democracia. Temer (que provavelmente nunca ganharia sequer uma eleição para síndico de condomínio) não terá, portanto, qualquer legitimidade para governar.

Mas há outra variável que deve ser levada em conta. A crise atual, por pior que seja, está reenergizando as mobilizações sociais e poderá aglutinar a esquerda. E isso é um alento. Que os nossos santos padroeiros, São Marx e São Lenin, nos ouçam. E nos ajudem. A luta será longa…

***

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Luiz Bernardo Pericás
é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de “Caio Prado Júnior: uma biografia política” (2016), “Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica” (2010), do romance “Cansaço, a longa estação” (2012) e da coletânea “Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados”, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Também publicou “Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia” (Xamã, 1997), “Um andarilho das Américas” (Elevação, 2000), “Che Guevara and the Economic Debate in Cuba” (Atropos, 2009) e “Mystery Train” (Brasiliense, 2007). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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cuspeNA NOITE DA INFÂMIA, SÓ O CUSPE ME REPRESENTA
por Gilson Iannini na Revista CULT

“Enquanto impera a mentira e o ódio, para que a verdade possa falar, é preciso, de alguma forma, interromper a farsa, suspender o regime discursivo que instalara a infâmia como regra do jogo. Apenas um ato, no sentido lacaniano do termo, seria capaz de estancar o fluxo regrado da farsa. Não adianta, para isso, contrapor argumentos ou apontar contradições ou inconsistências. A farsa não é sensível à argumentação lógica. Interessado em investigar as consequências psíquicas da guerra, Freud escreve: “logo, argumentos lógicos seriam impotentes perante os interesses afetivos e, por isso, a contenda com fundamentos, que segundo Falstaff são tão comuns como as amoras, é tão infrutífera no mundo dos interesses. (…) A cegueira lógica que esta guerra magicamente provocou, justamente nos nossos melhores concidadãos, é, portanto, um fenômeno secundário, uma consequência da excitação dos sentimentos que esperamos poder ver desaparecer junto com ela”.

Pois todo o universo que orbita em torno de Cunha, naquele momento, é regido pela farsa e pela hipocrisia. Num universo presidido pela hipocrisia, tudo é permitido. A palavra “hipocrisia” vem do grego. Segundo registra o Houaiss, designa a “ação de desempenhar um papel, uma peça, uma pantomima; desempenho teatral, declamação; simulação, dissimulação, falsa aparência”. A conotação de “dissimulação” consolida-se apenas na baixa Idade Média, depois que um dos principais tradutores da Bíblia para o latim, São Jerônimo, emprega o termo para designar os falsos cristãos, aqueles devotos, muitas vezes fervorosos, que pregam a palavra de Deus, mas que agem contrariando aquilo que pregam.

Quando uma sessão solene do Congresso nacional é instalada, ironicamente no horário da missa dominical, sob o signo da hipocrisia, regida por um corrupto contumaz, capaz de evocar a misericórdia divina, naquele instante tudo é corrompido, tudo é corrupção: corrupção das palavras e dos gestos, corrupção das instituições e pantomima dos ritos. Não custa lembrar o sentido filosófico da palavra corrupção: corrupção, por exemplo, é fazer com que algo que existe passe a não existir, ou algo que não existe passe a existir. Não há decoro possível em nenhuma palavra, em nenhum procedimento. Por isso, palavras como, “Deus”, “justiça”, “liberdade” e “nobreza” estavam completamente esvaziadas de conteúdo semântico ou corrompidas: “em nome de Deus”, “em prol da justiça”, “para libertar o Brasil”, “meus nobres deputados aqui presentes” etc. são expressões que designam, no melhor dos casos, nada; no pior dos casos, o contrário do que dizem. Não custa também lembrar que, como demonstrou Freud, às vezes, quando vigora a lógica inconsciente, palavras podem reativar sentidos antitéticos, significando justamente o contrário de seu valor de face. Aliás, o poeta Schiller lembrava que a insistência com que uma época fala da moralidade e de façanhas morais singulares seria um sintoma inequívoco de debilidade cultural.

Tudo ali era vilania e desprezo. Tudo ali era exceção. Nada ali emana do decoro. Quantos nobres deputados, sabidamente corruptos, não levantaram a voz, dedo em riste, para bradar em nome de Deus, da justiça e da liberdade, contra a corrupção? Não custa lembrar que a sessão plenária do último domingo sequer tinha por objeto analisar corrupção, de que a presidente nunca foi formalmente acusada. É de deixar pasmo qualquer ser humano pensante que apenas uma ou duas dúzias de deputados (de um lado ou de outro) tenham se referido ao objeto em pauta: uma dúzia disse que a presidente cometeu crime de responsabilidade, outra dúzia que não cometeu. Esses não faltaram com o decoro. Também não faltaram com o decoro aqueles que denunciaram o caráter farsesco do processo. Os demais fizeram o voto Xuxa: “queria mandar um beijo para minha mãe, meu pai e para você”, como rapidamente o povo percebeu. Mas nada disso deveria nos espantar. Na verdade, a votação no Congresso espelha a verdade de nossa sociedade: a absoluta maioria das pessoas, de um lado como de outro, é incapaz de meditar, de refletir, de pensar criticamente e de se ater a alguma coisa perto da sensatez ou dos fatos, agindo por ódio surdo ou por amor cego.

Nesse contexto, que um deputado possa dedicar seu voto à memória de um torturador não deveria chocar. Ao contrário, trata-se de uma consequência inevitável. O coronel Brilhante Ustra, louvado por Bolsonaro, como “o pavor de Dilma Roussef”, não é um torturador qualquer. É um dos mais conhecidos, não apenas por sua crueldade, mas também por seu papel de comando. Quando um “nobre deputado” evoca seu nome no instante em que vota pelo impedimento de uma de suas vítimas, não há humanidade, nem decoro, apenas vilania. Quando este nobre deputado confessa a similaridade entre 1964 e 2016, ele diz a verdade que outros tentam encobrir com um véu. Mais ainda. Bolsonaro foi um dos poucos que elogiou entusiasmadamente a condução do processo por Eduardo Cunha. Nada mais consistente. Nada mais significativo.

Como interromper tal espetáculo da infâmia? Quando a palavra se descobre esvaziada, escassa, flatus vocis, impossível não lembrar de Goethe: “No princípio era o ato.” No momento em que, depois da aviltante declaração de obediência ao mais hediondo dos crimes, os nobres deputados se calam diante da infâmia, “as pedras gritam”. Esta metáfora remonta ao episódio da descida do monte das Oliveiras e da triunfal entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-9; Mc 11,1-10). Enquanto a multidão louvava, alguns fariseus pediram a Jesus que repreendesse o fervor de seus discípulos. Ao que ele respondeu “se eles se calam, as pedras gritam”. Jean Wyllis não se calou. Foi o poeta da educação pela pedra, no sentido poético de João Cabral. O cuspe contra a bala, já que a palavra não tem valor nenhum.

Mas o cuspe de Jean Wyllis acabou ferindo a fina e seletiva sensibilidade da burguesia nacional. O cuspe seria um ato de alguém sem caráter, de um veado desqualificado, que não recebeu educação em casa e coisas que tais. É mais ou menos o que se lê nos comentários de internautas nos grandes jornais. Curioso. Essa sensibilidade escandalizada pelo cuspe, todavia, acolhe com indiferença, ou até mesmo com fingido escândalo, o elogio proferido por Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra. Não basta dizer que ele foi um torturador e que, por mimese, Bolsonaro também sonha em sê-lo. Se fizermos uma “descrição definida” desse nome, essa descrição tinha que conter coisas como: cadeira do dragão, choques na genitália, mamilos dilacerados, crânios apertados com torniquete, unhas arrancadas, ossos quebrados, assassínios cruéis em nome do Estado etc. Tinha que conter nomes como Auroras, Amélias, Claras, Dilmas, entre tantos outros. Quando Bolsonaro refere aquele nome, ele evoca tudo isso. Ele traz para dentro do Congresso Nacional o elogio à tortura e a apologia ao crime. Com um sorriso no rosto e com o benemérito da elite financeira de nosso país.

Alguém pode dizer que Bolsonaro é um caso isolado. Não é. Ele figura com algo entre 6% e 8% das intenções de voto, em quarto lugar em todos os cenários pesquisados pelo Datafolha. Não é pouco, para alguém que é declaradamente fascista. Mas o pior não é isso. Como notou recentemente Fernando de Barros e Silva, “entre os que têm renda familiar mensal superior a 10 salários mínimos (…), Bolsonaro lidera a corrida presidencial. Num dos cenários, chega a ter 23% das preferências dos eleitores mais aquinhoados.” (Veja aqui: http://bit.ly/1VeLt1N). Quer dizer que quase um quarto da elite econômica brasileira gostaria de ver um fascista, que faz apologia da tortura mais cruel, na presidência da República. Não espante que batam panelas, que inflem patos, que presenteiem seus filhos com bonecos infláveis de Lula presidiário. Tudo isso embrulhados na bandeira nacional e entoando o hino.

Jean Wyllis não quebrou o decoro parlamentar. Porque o decoro não havia sequer sido instalado. Não há como quebrar algo que não existe. Eduardo Cunha, sim, quebrou o decoro com sua primeira frase, com o simples gesto de sentar-se à cadeira e de presidir o processo. Na falta de decência, foi seguido por muitos. Segundo, outra vez, o Houaiss, decoro designa não apenas decência, acatamento das normas e seriedade nas maneiras, mas também “adequação do tema ao estilo literário”. Neste sentido, a imensa maioria dos deputados quebrou o decoro. Quantos observaram alguma decência, alguma seriedade, alguma adequação ao tema? Uma irrisória minoria, tanto de sins, quanto de nãos.

Neste sentido, o gesto de Jean Wyllis é um ato poético, um ato de caridade e de amor. Um ato verdadeiramente cristão. Tanto mais quanto não foi apenas obra do calor do momento, mas foi efeito de um cálculo político rigoroso. Ele interrompe a razão desvairada e repõe a verdade em seu devido lugar: mostra que infâmia é infâmia, que farsa é farsa, que violência é violência, que guerra é guerra. Sem mais. Ele redime todos os brasileiros que repudiam a tortura e o golpe, qualquer que seja sua face.

Obtuso, o nobilíssimo deputado Bolsonaro talvez não tenha percebido o verdadeiro significado do cuspe que recebeu em pura dádiva. Ele foi presenteado com um raro ato de caridade cristã. Ele foi presenteado com uma flor de saliva, que devolveu com poesia as fezes que esgotam e abundam em cada uma de suas palavras infames (e também nos gestos de seus descendentes e fiéis). A saliva de Jean faz ver seu rosto ainda mais Brilhante, faz l’Ustrar seu verdadeiro eu.

O cuspe pode curar, como faz uma mãe zelosa ao passar um pouquinho de saliva no dodói de sua criança. O cuspe pode ensinar a ver que em seu espelho, no lugar do seu rosto, figuram a cadeira do dragão, os choques nas genitais, os olhos saltados, as crianças pequenas obrigadas a presenciar o suplício de suas mães. Pode ensinar a seus fãs que seu amor às crianças, evocado em seu pronunciamento, não passa de uma piada de mau gosto. Deus permita que a saliva de Jean Wyllis possa lavar seu rosto, salvar sua alma, desarmar seu coração e seu cinturão. Recebe, Jair, essas flores cuspidas com carinho.

Na noite da infâmia, só o cuspe me representa.”

Gilson Iannini

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